

Este livro foi scaneado por Airton Simille Marques e corrigido por Mrian Tavares.

rico Verssimo
O tempo e o vento
O retrato

BIBLIOTECA PBLICA DO PARAN
NO DANIFIQUE ESTA ETIQUETA
30 249 570

CRCULO DO LIVRO
Caixa postal 74f
01065-970 So Paulo, Brasil
Edio integral
Copyright (c) 1978 Mafalda Volpe Verssimo, Clarissa Verssimo Jaffe
e Lus Fernando Verssimo
Capa: Ana Suely Dobon
Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Editora
Globo S.A. mediante acordo com os herdeiros
Venda permitida apenas aos scios do Crculo
Composio: Crculo do Livro Impresso e acabamento' Grfica
Crculo
ISBN 85-332-0785-9
24681097531
95 97 98 96
Sumrio
Rosa-dos-Ventos 7
Chantecler 63
A sombra do anjo 525
Uma vela pr negrinho 737

Rosa-dos-Ventos

Naquela tarde de princpios de novembro, o sueste que soprava sob os
cus de Santa F punha inquietos os cata-ventos, as pandorgas, as
nuvens e as gentes; fazia
bater portas e janelas; arrebatava de cordas e cercas as roupas postas a
secar nos quintais; erguia as saias das mulheres, desmanchava-lhes os
cabelos; arremessava
no ar o cisco e a poeira das ruas, dando  atmosfera uma certa
aspereza e um agourento arrepio de fim de mundo.
Por volta das trs horas, um funcionrio da prefeitura assomou  
janela da repartio e olhou por um instante para as rvores 
agitadas da praa, exclamando: "Oo
tempinho brabo!"
Num quintal prximo, recolhendo s tontas as roupas que o vento 
arrancara do coradouro e espalhara pelo cho, uma dona-de-casa 
resmungava: " prum vivente ficar
fora do juzo!"
Na sua meia-gua caiada como um tmulo, a "Gioconda" sentou-se ao 
piano e, em meio de seus sete gatos, comeou a tocar a marcha 
fnebre de Chopin.
O proprietrio da Farmcia Humanidade, dirigindo-se ao prtico 
que, debruado sobre o balco, mascava ainda o palito do almoo, 
resmungou: "Dia de vender colrio
e aspirinna".
Por trs das vidraas duma das casas da praa da Matriz, um menino
de cara tristonha olhava, fascinado, ora para o cata-vento da torre da
igreja, cujo galo de ferro
rodopiava, ora para as pando rgas coloridas que, entre a torre e as 
nuvens, davam bruscas rabanadas no ar.
Um trem apitou tremulamente na curva do cemitrio, e de repente, como 
se tivesse surgido do bojo duma nuvem, um pequeno aparelho do aeroclube 
de Santa F comeou
a sobrevoar a cidade
a uns mil metros do solo. Era um teco-teco amarelo, cujo nome - 
Rosa-dos-Ventos- estava pintado em letras negras nos costados da 
nacela. Alguns santa-fezenses ergueram
os olhos para o cu e acharam que era loucura voar num dia daqueles. E 
por algum tempo, acima do uivar do vento, ouviu-se o fosco matraquear do 
motor do avio. De
sbito, os alto-falantes da rdio Anunciadora Serrana, presos aos 
postos telefnicos ao longo da rua do Comrcio, comearam a 
funcionar, e o ar se encheu de sons
que pareciam sair da boca de enormes robots. O vento varria as vozes 
metlicas que apregoavam a excelncia de dentifrcios, 
inseticidas, sabonetes, e pediam ao pblico
que s comprasse na "tradicional Loja Carams, onde um cruzeiro vale 
trs". Quando as vozes se calaram, romperam dos alto-falantes os 
acordes lnguidos dum velho
tango argentino, e o choro das cordeonas abafou a lamria do vento.
Naquele minuto o Veiguinha saiu da Casa Sol, caminhou at a beira da 
calada, trazendo debaixo do brao um quadro que durante sete anos 
tivera pendurado na parede
do escritrio e, olhando para um mulato que passava, exclamou:
- Este  o dia mais feliz da minha vida!
Dito isto, agarrou o quadro com ambas as mos e bateu com ele 
violentamente contra a quina da calada, partindo a moldura e o vidro. 
Depois, numa fria que o deixava
apoplctico, arrancou dentre os destroos do quadro o retrato do 
ex-presidente e rasgou-o em muitos pedaos, lanando-os ao vento num 
gesto dramtico:
- Este  o fim de todos os tiranos!
O mulato parou, olhou para o proprietrio da Casa Sol e disse:
- Deixe estar, um dia esse retrato volta pra parede. Os milicos 
derrubaram o Velho, mas ele caiu de p nos braos do povo!
Isso foi o princpio duma discusso de carter poltico, que 
atraiu a ateno de alguns passantes, os quais mais tarde, ao 
tentarem reconstituir o spero dilogo
que terminara numa troca de bofetadas lamentavam no terem podido 
ouvir tudo quanto os contendores diziam, pois na hora do bate-boca a voz 
de Carlito Gardel enchia
poderosamente a rua, abafando todas as outras.
Afirmava-se, entretanto, com unanimidade que em dado momento o 
Veiguinha, quase a tocar com a ponta do indicador o nariz do mulato, 
bradara: "Teve a sorte que merecia,
era um traidor!"- ao que o outro retrucara: "Traidor  voc, 
cachorro!"
Como que impelido pelo vento, o brao do negociante projetou-se no ar 
como uma catapulta, e ouviu-se o estalo duma bofetada. Ao receber o 
golpe inesperado, o mulato
quase caiu, mas, recuperando logo o equilbrio, desferiu um soco no 
ouvido do Veiguinha, atirando-o contra a parede da casa. Foi nesse 
momento que os circunstantes
intervieram, separando-os a custo. O Veiguinha voltou para a loja, 
vociferando bravatas, ao passo que o mulato, arrastado rua abaixo, por 
dois desconhecidos, berrava
a plenos pulmes:
- Viva o nosso presidente! Viva o Estado Novo!
Do outro lado da rua,  frente da Casa Sol, lia-se no muro caiado, em 
largas letras de piche: "Queremos Getlio". Logo abaixo, em garranchos 
brancos: "Viva Prestes!
Morra o fascismo!" E, entre a foice e o martelo, um moleque gravara no 
reboco, a ponta de prego, um nome feio.
Gardel silenciara: agora os violinos cantavam em melosa surdina, e a voz 
do sueste parecia tambm fazer parte da orquestra, bem como o rufar do 
motor do Rosa-dos-Ventos.
A notcia do conflito espalhou-se rpida por toda a rua.
 porta duma engraxataria, um negro de cara lustrosa, o torso 
musculoso modelado por uma camiseta amarela, comentou a briga com um 
fregus e concluiu:
- A culpa  do vento. A gente fica meio fora de si.  essa maldita 
ventania...
O vento, porm, no tinha, a menor influncia irritante sobre os 
nervos de Aderbal Quadros - o velho Babalo. Acocorado no pomar de sua 
chcara, nos arredores de
Santa F, estava ele, havia alguns minutos, a arrancar guanxumas do 
cho, e naquele momento fazia uma pausa para reacender o cigarro de 
palha que tinha preso entre
os dentes. Com as mos sujas de terra, tomou do isqueiro, bateu a 
pederneira e, voltando as costas para o vento, a fim de
proteger a chama do pavio, acendeu o cigarro e deu-lhe um longo e 
gostoso chupo, ao mesmo tempo que lanava para sua horta um olhar 
morno de ternura, como se os
repolhos e as alfaces fossem membros de sua famlia. Depois espraiou o 
olhar pelo campo e tornou a sentir saudade de suas estncias - uma 
saudade que lhe apertava 
o peito, quase como uma dor. Era bem triste uma pessoa depois de madura 
perder tudo que tinha: casa, terras, gado dinheiro; e era at 
ridculo um estancieiro que 
j possura dezenas de quadras de campo e milhares de cabeas de 
gado ficar reduzido a uma chacrinha de seis hectares, e ainda por cima 
arrendada! X gua! Mas um 
homem no se entrega nunca, o que passou passou e guas passadas 
no movem moinho...
Tirou por alguns segundos o cigarro da boca, cuspiu no cho, como para 
espantar os maus pensamentos, e acariciou com a ponta do indicador a 
verruga que tinha na 
face esquerda, da qual saam trs fios de cabelo crespo. 
Contemplando o campo dum verde vivo, respingado aqui e ali pelo amarelo 
das marias-moles, de novo pensou 
em aumentar a plantao de trigo. O diabo era que dispunha de pouca 
terra, de pouco dinheiro e talvez de pouco tempo de vida. Depois dos 
oitenta, um homem nunca 
sabe se vai ver o sol do dia seguinte. Para falar bem a verdade - 
refletiu ele, soltando um fundo suspiro - nos dias que correm ningum 
sabe o que vai acontecer 
no minuto seguinte...
Passara a manh inteira a trabalhar na chcara, distrado, 
compondo cercas, dando de comer aos porcos e s galinhas, procurando, 
enfim, no pensar em certas coisas. 
Mas essas coisas acabavam sempre por voltar-lhe aos pensamentos, piores 
que mutuca quando inventa de azucrinar um pobre matungo. E agora de novo 
Babalo estava s 
voltas com elas. O melhor que tinha a fazer era ir o quanto antes ao 
Sobrado, falar com Rodrigo e tirar tudo a limpo. Quando chegara a Santa 
F a notcia de que 
os generais haviam apeado Getlio Vargas do governo, seu primeiro 
pensamento fora para o genro: "Que ser que vai acontecer agora pr 
Rodrigo?" A resposta l estava. 
Rodrigo Cambar sara do Rio precipitadamente com toda a famlia e 
chegara a Santa F havia pouco mais de vinte e quatro horas. A 
situao estava confusa, a cidade 
cheia de boatos.
Babalo limpou as mos nas bombachas de riscado e ficou a olhar 
pensativo para o cho. Rodrigo nunca devia ter deixado Santa F, o 
Sobrado e o Angico. Uma pessoa 
deve ficar no lugar onde nasceu, onde tem seus parentes, seus amigos, as 
coisas que lhe pertencem. Cidade grande  o diabo: tem muita 
falsidade, muita perdio, 
muita mquina, muito modernismo, e essas coisas todas acabam mudando o 
carter e os costumes duma pessoa. Que era que o Rodrigo tinha 
arranjado com todos aqueles 
anos de estadia no Rio, metido na poltica, amigo do peito de 
figures, sempre envolvido em negcios, comits, festas e 
entrevistas de jornal? Fizera inimigos, fora 
caluniado e - pior que tudo - criara mal os filhos. Depois, h pessoas 
invejosas que no podem ver ningum subir. Babalo sabia das coisas 
horrveis que ali em Santa 
F se diziam do genro: que fora um dos prncipes do cmbio negro, 
que andara metido em grossas patifarias de advocacia administrativa...
Ele positivamente no acreditava naquelas maledicncias. Mas 
calnia  calnia, sempre deixa sua marca.
Ergueu a cabea e ficou a contemplar as nuvens que o vento tangia como 
a uma ponta de enormes baios brancos. No Sobrado j deviam estar 
estranhando o fato de ele 
no ter ainda aparecido. Mas no era fcil aquela visita. Fazia 
muito que ele e o genro no se entendiam em matria de poltica. 
Para falar a verdade, ultimamente 
havia entre ambos um desentendimento em quase todos os outros 
assuntos... Mas ele estimava Rodrigo e era por isso que o encontro ia 
ser difcil. Fosse como fosse, 
tinha de ir. Desejava ver a filha, os netos, desejava tambm ver o 
genro, a quem queria como a um filho...
Por um instante o velho Babalo ficou a olhar para as nuvens, as falripas 
de cabelos brancos agitados pelo vento, o sol a bater-lhe em cheio no 
rosto tostado e ossudo.
Foi ento que avistou uma mancha amarela contra o horizonte e ficou 
imediatamente numa atitude de defesa. Ps a mo em pala sobre os 
olhos e procurou ver melhor. 
A mancha movia-se na direo da chcara: era um avio que vinha 
da cidade, em vo muito baixo. Babalo ainda no se habituara  
vizinhana do aeroporto. O rudo dos 
motores no o incomodava, pois ele era surdo, mas no
10
11
se sentia bem quando via aquelas engenhocas passarem por cima de sua 
cabea. Ningum lhe tirava da idia que aeroplano era uma coisa 
contra a natureza. Depois, 
estava vendo o dia em que um daqueles aparelhos ia cair-lhe no quintal 
ou em cima da casa. Nos primeiros tempos, sempre que os teco-tecos 
cruzavam seu territrio, 
Babalo erguia os punhos e bradava: "Vagabundos! Isto no  servio 
pra homem! Venham pegar no cabo duma enxada, seus lorpas!" E os rapazes 
do aeroplano, sabedores 
da averso do velho s mquinas em geral e aos aeroplanos em 
particular, mangavam com ele, passavam pela chcara em vo baixo, 
fazendo s vezes as rodas dos avies 
tocarem a copa das rvores. No raro atiravam coisas: bolas de 
trapos, laranjas, sapatos velhos ou ento, enrolados em pedras, 
papis com versos pornogrficos... 
A princpio, Aderbal Quadros ficava indignado, pois tudo aquilo lhe 
parecia uma grandessssima falta de respeito. Aos poucos, porm, 
comeou a achar uma certa graa 
na coisa toda e foi tratando de pagar aos rapazes na mesma moeda. Quando 
um teco-teco passava a poucos metros acima de sua cabea, o velho 
arremessava contra ele 
torres de terra, pedaos de pau ou frutas podres, juntamente com 
uma rajada cie improprios, os quais nunca iam alm de - nulidades! 
filhos da me! ndios vadios!, 
pois era sabido que Aderbal Quadros no costumava dizer nomes feios.
Agora l vinha aquela coisa amarela na direo da chcara. Na 
certa o piloto ia fazer uma molecagem, como sempre... Babalo apanhou um 
torro de terra e ficou alerta, 
esperando. O teco-teco voava to baixo, que dava a impresso de que 
ia descer na chcara. E alguns segundos depois, quando cruzou 
perigosamente pelo estreito espao 
que havia entre dois eucaliptos, Babalo tratou de identificar o piloto, 
mas no conseguiu. A geringona passou zunindo como uma bala... O 
mais que pde ver foi que 
o aviador lhe acenava com um leno. Ali! Viu cair tambm a seus 
ps uma coisa branca... Na certa era algum papelucho com bandalheiras 
e m-criaes. Hesitou por 
um instante, depois inclinou-se, apanhou a pedra, desenrolou o papel que 
a envolvia, e viu que havia nele algo escrito, ele tirou do bolso do colete 
os culos, acavalou-os 
no nariz e leu:
12
Vov:
No deixe de aparecer hoje no Sobrado. A famlia j est 
estranhando a sua ausncia. O velho teve ontem uma rebordosa e quase 
bateu com a cola na cerca. Outra vez 
o corao.
Um abrao do
Eduardo.
Ento quem ia no aeroplano era o Eduardo, o seu neto... Que maroto! 
Que salafrrio! Tornou a ler o bilhete. Uma desgraa nunca vem s 
- refletiu. Como se no bastasse 
o desastre poltico, l estava o Rodrigo outra vez com os seus 
ataques de corao. Precisava ir v-lo o quanto antes.
Especou o cigarro apagado atrs da orelha, soltou um prolongado 
suspiro e encaminhou-se para casa.
Eduardo voltou a cabea e vislumbrou l embaixo, no quintal da 
chcara - imagem que minguava  medida que o avio se afastava 
dela - o vulto do velho. Fitou depois 
os olhos no altmetro, mas sempre a pensar no av. Era comovente ver 
aquele homem de mais de oitenta anos, que at princpios do sculo 
fora o estancieiro mais rico 
de todo o municpio, reduzido agora  simples condio de 
arrendatrio duma pequena chcara onde por assim dizer "brincava de 
estncia", para aliviar a saudade dos 
bons tempos. Mas esses bons tempos - refletia Eduardo - no voltariam 
mais para o velho Aderbal Quadros nem para os outros estancieiros em 
idntica situao econmica. 
Mais tarde ou mais cedo o latifndio tinha de ser liquidado, os 
Cars haviam de ganhar seu pedao de terra, ao passo que os Amarais, 
os Teixeiras, os Fagundes e 
os Cambars - sim, a sua rica gente! - iam acabar perdendo os feudos. 
Talvez no tardasse muito a ser dado o primeiro passo para a 
soluo do problema agrrio no 
Brasil. Luiz Carlos Prestes estava solto, a liberdade de imprensa fora 
estabelecida e o Partido vivia na legalidade. Era verdade que muitos 
comunistas, habituados 
queles longos anos de herica luta subterrnea, sentiam-se ainda 
meio bisonhos, agora que tinham vindo para a luz do sol e podiam falar, 
escrever e reunir-se sob 
o olhar tolerante da polcia. Em alguns
13
companheiros Eduardo notara at um certo esmorecimento de entusiasmo, 
como se a legalidade lhes tivesse roubado  causa metade do romantismo 
e no houvesse agora 
muito mrito em ser comunista. Por outro lado havia aqueles a quem a 
liberdade dava uma euforia perigosa... Fosse como fosse, ele no 
acreditava em que aquela lua-de-mel 
com a lei e a polcia durasse muito tempo. Sabia que dentro em breve 
as foras da reao conseguiriam fazer que o PC fosse de novo 
posto fora da lei. Era por isso 
que se fazia necessrio agir, agir depressa e com segurana: 
organizar os quadros do Partido, esclarecer, politizar as massas. Desde 
que chegara a Santa F, havia 
duas semanas, Eduardo tratava de dar rigoroso balano nas 
possibilidades democrticas locais. Existiam poucos comunistas puros 
no municpio, mas era aprecivel o 
nmero de elementos de esquerda ou esquerdizantes capazes de colaborar 
com o Partido. Podia-se contar tambm com os liberais e com os 
chamados progressistas. (Estes 
ltimos sempre lhe lembravam certas mulheres que exerciam a 
prostituio secretamente, com um sagrado horror ao palavro de 
quatro letras: eram as "reservadas", 
as que passavam por moas de famlia: gozavam de todas as vantagens 
do ofcio, ao mesmo tempo que mantinham uma fachada de 
respeitabilidade perante a sociedade, 
pois "duma hora para outra, pode aparecer um burgus apatacoado, 
querendo casar com a gente... ") Era preciso reunir todos esses 
elementos democrticos num bloco 
antifascista. A hora era oportuna e a tarefa sedutora. Prestes 
desconcertava os inimigos com discursos e manifestos em que declarava 
no haver ainda no Brasil nem 
as mais elementares condies, quer psicolgicas quer objetivas, 
para uma revoluo socialista. O que convinha  classe operria 
brasileira - afirmava ele - era 
liquidar os restos de feudalismo que existiam no pas e promover o 
desenvolvimento do capitalismo. Essa era a razo por que pregava uma 
ao democrtica conjunta 
do proletariado e da burguesia progressista.
Eduardo sorria. No acreditava na possibilidade daquele entendimento. 
Que era em ltima anlise a "burguesia progressista" seno a 
burguesia mais assustada que, 
vendo as foras da esquerda ganharem terreno, procurava desde j 
ficar bem com elas? A rigor
14
no podia haver nenhuma liga possvel. A coisa toda no passava 
duma trgua, dum acordo precrio e constrangedor, to precrio e 
constrangedor (mas ao mesmo tempo 
quo prtico!) quanto a aliana russo-alem de 39. Como 
Stlin, Prestes era um realista: deixava de lado seus ressentimentos 
pessoais, passava por cima de todos 
os preconceitos burgueses e agia apenas de acordo com os interesses da 
Causa. Mas a mim - refletia Eduardo - a mim me repugna um pouco essa 
aliana pela simples 
razo de que, apesar de tudo, ainda raciocino com valores burgueses e, 
queira ou no queira, sou um Cambar. Eduardo sabia - e isso o 
perturbava - que muitos de 
seus camaradas duvidavam ainda de sua sinceridade e firmeza por ser ele 
filho do dr. Rodrigo Terra Cambar, figuro do Estado Novo, comensal 
do Palcio Guanabara, 
senhor do Sobrado, do Angico, e scio de vrias empresas 
industriais.
O Rosa-dos-Ventos voava agora com o sueste pela cauda. Para Eduardo 
Cambar no havia no mundo muitos prazeres que se comparassem com o 
de pilotar um aeroplano. 
No achava a menor graa em voar como passageiro dum avio 
comercial: ia fechado dentro daquele torpedo de alumnio, inerte, sem 
participar ativamente da aventura: 
no podia sentir na cara o vento das alturas, nem ver o cu sobre a 
cabea; era o mesmo que estar num trem, e num trem parado! Mas pilotar 
um teco-teco era quase 
sempre realizar o sonho infantil de alar-se no espao com um 
simples mover de braos. Eduardo tinha a impresso de que ele e o 
avio formavam um corpo, de que era 
sua prpria fora que impelia o aparelho, de que aquele pulsar 
rtmico e explosivo no vinha do motor, mas de seu prprio 
corao. Isso lhe dava um certo orgulho, 
aumentado pelo fato de se achar sozinho e em perigo, e pela esquisita 
sensao de estar desafiando a lei da gravidade, o vento, as nuvens, 
Deus... Gostava tanto 
de voar que era sempre com uma sensao de culpa que aterrava no 
campo do aeroclube, depois daqueles vos solitrios que duravam no 
mnimo uma hora. Quando voava, 
esquecia uma srie de probleminhas cotidianos que o aborreciam, fugia 
ao sistema terreno de coordenadas para entrar numa nova dimenso em 
que perdia a perspectiva 
do tempo, ignorava o passado, descuidava-se do futuro, comeando a 
existir num prolongado
15
 e vertiginoso aora que o fazia sentir-se como um juvenil 
acrobata no seu trapzio volante, feliz por estar fazendo o que 
gostava e ao mesmo tempo cheio dum 
fero orgulho, pois o que fazia era arriscado e at certo ponto 
gratuito. Mas no! A gratuidade era um luxo de intelectual decadente. 
Voar sem objetivo til, voar 
simplesmente por um prazer individualista que no trazia nenhum 
proveito  coletividade, era sem a menor dvida um divertimento 
burgus. Consolava-o, ento, mas 
vagamente, a idia de que um dia, dum modo ou de outro, seu brevetde 
piloto pudesse ser de utilidade para a Causa.
Olhou para baixo. Estava de novo sobrevoando sua cidade natal. Como 
Santa F tinha crescido naqueles ltimos anos! L estava ela 
esparramada sobre suas trs colinas, 
com seu casario esbranquiado, os telhados antigos e pardacentos a 
contrastar com o coral vivo das telhas francesas das construes 
mais novas; as faixas cinzentas 
das ruas caladas de pedra-ferro a seguirem paralelamente ou a 
cortarem ntidas a sangnea das ruas de terra batida; e, enchendo 
dum verde-escuro as casas daquele 
tabuleiro de xadrez, as macias manchas do arvoredo de pomares e 
praas. Vista do alto, Santa F tinha um jeito miniatural e morto de 
maqueta, dum brinquedo a que 
a luz do sol, ao bater nas superfcies de vidro, gua e metal, dava 
um certo lustro de verniz e coruscaes de lentejoula. A cidade 
estava cercada de coxilhas que 
fugiam na direo de todos os horizontes, cortadas pela fita de ocre 
avermelhado das estradas. Era uma verde e impetuosa amplido onde se 
desenhavam chcaras e fazendolas 
com suas casas brancas, moinhos de vento, pomares, hortas, cercados, 
pastagens, audes... Aqui e ali, como remendos de diferente tecido 
naquele tapete ondulado, 
recortavam-se os quadrilteros cor de ferrugem das roas de terra 
recm-virada ou os contornos simtricos dos bosques de eucaliptos. 
De vez em quando, interpondo-se 
entre o sol e a terra, nuvens lanavam suas sombras sobre a face dos 
campos e das guas. Olhando para o norte, Eduardo avistou Nova 
Pomernia, com a esguia torre 
de sua igreja numa pardia gtica; voltando a cabea para as 
bandas do poente, divisou os telhados de Garibaldina entre parreirais e 
ciprestes.
16
Voando agora contra o vento, o teco-teco corcoveava como um potro. 
Eduardo achava delicioso e tranqilizador ouvir, acima do uivo daquele 
sueste de primavera, o 
ronco do motor: era o sinal de que o corao do Rosa-dos- Ventos 
pulsava forte, a certeza de que o pequeno avio estava vivo e lutava. 
Sim, no havia nada mais estimulante 
do que a sensao de estar vivo e de lutar. Achava tambm 
esquisitamente agradvel a impresso de se encontrar desligado da 
terra, pairando acima dos homens e daqueles 
urubus que voavam ao redor duma carnia l embaixo. Era embriagador 
o msculo orgulho de estar s, longe, sem medo.
Como tudo na terra parecia limpo e simples! A prpria carnia perdia 
sua sordidez, porque a distncia a tornava invisvel, sem cheiro e 
sem horror. At o Rosa-dos-Ventos 
no chegava o perfume dos ricos que viviam nos melhores palacetes de 
Santa F, nem a fedentina dos miserveis que vegetavam nas malocas 
do Barro Preto, do Purgatrio 
e da Sibria. Voar - concluiu Eduardo -  mau, porque nos d uma 
perspectiva errada das pessoas e dos fatos sociais, levando-nos a 
considerar mais as coisas limpas 
dos cus do que as coisas podres da terra. Ser por olhar o mundo 
dum ngulo to remoto que o velho Deus perdeu por completo o senso 
de proporo e de justia?
Eduardo tornou a pensar no av. Criticando a aviao, o velho 
Babalo lhe dissera um dia que os Terras e os Quadros haviam sido sempre 
homens de terra firme, cujo 
meio de transporte preferido era invariavelmente o cavalo e os 
veculos de trao animal. Rodrigo Cambar fora o primeiro 
santa-fezense a adquirir um automvel, 
por volta de 1912. Agora era ele, Eduardo, o primeiro da famlia a 
tirar um brevet de aviador. Se a coisa continuasse naquela progresso, 
que seria de seus filhos, 
de seus netos? Voariam em avies supersnicos - respondeu Eduardo a 
si mesmo, sorrindo -, pilotariam torpedos areos em viagem de ida e 
volta  Lua, riscariam luminosamente 
os espaos dentro de incrveis engenhos voadores impulsionados pela 
energia atmica. E nessas prodigiosas mquinas passariam - os 
monstrinhos humanos do futuro - 
sobre aqueles campos pelos quais o capito Rodrigo passeara montado 
em seu pingo, sobre aquelas invernadas onde o velho Licurgo participara 
de tantos
17
rodeios, sobre aquelas serras, coxilhas e planuras que o velho Babalo 
cruzara tantas vezes com sua lerda carreta.
Eduardo fez o avio perder altura aos poucos, e, numa desobedincia 
s leis que regiam o vo sobre centros populosos, deixou o 
Rosa-dos-Ventos descer tanto, que 
suas rodas quase tocaram as copas das rvores mais altas da praa 
Ipiranga. Um homem naqule momento atravessava a rua do Faxinai, e, ao 
ouvir o ronco medonho do 
aparelho, estacou, encolheu-se e levou as mos  cabea.
Era Cuca Lopes, oficial de justia.
- Credo, que louco! - exclamou ele, erguendo os olhos para
o cu.
Em seguida retomou a marcha e entrou na rua do Comrcio, no seu 
passinho mido e rpido. Sua cabea, demasiadamente grande para 
ombros co estreitos, voltava-se 
dum lado para outro, em movimentos bruscos de passarinho. O vento fazia 
drapejar seu casaco de alpaca azul, que deixava  mostra os fundilhos 
reluzentes sobre o 
bandolim das ndegas postas em relevo pelas calas apertadas e um 
pouco curtas, que descobriam as meias de ordinrio desbeiadas e 
cadas sobre os sapatos.
Cuca Lopes tinha a fama de ser o maior mexeriqueiro da cidade. Quando o 
viam, as pessoas logo iam perguntando: "Qual  a ltima, Cuca?" 
Sabia de tudo, conhecia a 
vida de toda a gente, gostava de lanar olhares bisbilhoteiros para 
dentro das casas quando passava pela calada e via alguma janela 
aberta; parava, indiscreto, 
para escutar as conversas a que no era chamado, e contava-se que mais 
de uma vez fora apanhado a espiar pelo buraco das fechaduras.
Aquela tarde, Cuca Lopes ia embriagado de primavera e mexericos. O 
cheiro de campo e flor que andava no ar, o vento desabrido, os sons do 
dobrado que agora jorravam 
dos alto-falantes, e a cujo ritmo ele procurava marchar em cadncia 
militar, bem como nos tempos de rapaz, quando seguia pelas ruas a banda 
de msica do regimento 
da infantaria - tudo isso e mais as novidades que levava, deixavam-no 
to excitado, que sentia necessidade de desabafar o quanto antes para 
no estourar. Que semana, 
aquela! - pensou, cheirando a ponta dos dedos. Fora ele um dos primeiros
18
em Santa F a ouvir pelo rdio a notcia da deposio de 
Getlio Vargas. Correra ao Clube Comercial, entrara inquieto como um 
esquilo na sala onde se jogava pquer 
e pif-paf, passara aos bilhares e ao bolo. Depois embarafustara pelo 
Caf Minuano e fora espalhando a notcia: "Sabem da ltima? Os 
generais acabam de derrubar 
o Getlio. O Rio est em p de guerra, tanques nas ruas, soldados 
com metralhadoras. A coisa est preta..."
Que semana! Cuca esfregava as mos, de puro contentamento, caminhando 
quase aos pulinhos, desatento agora ao ritmo da marcha.
O "prato" mais recente era a chegada intempestiva do dr. Rodrigo 
Cambar com toda a famlia. No se falava noutra coisa em Santa 
F desde o dia anterior. Cuca estava 
aflito por passar adiante umas coisinhas que ficara sabendo atravs de 
gente muito chegada ao Sobrado...
Sorria, cheirava os dedos, olhava para a direita e para a esquerda  
procura de conhecidos. Nunca andava em linha reta e marcha regular. Seus 
passos geralmente seguiam 
uma linha mista. Fazia paradas repentinas, olhava para os lados e para 
trs, como se quisesse verificar se estava ou no sendo seguido. E 
de quando em quando, sem 
que ningum nunca pudesse explicar por qu, interrompia a marcha, 
rodopiava sobre os calcanhares, com um movimento de piorra, e a seguir 
retomava caminho.
Estava ele agora no meio da quadra quando lhe aconteceu olhar para a 
casa do coletor estadual- a nica pintada de azul em toda a rua - e 
ver que dona Esmeralda, 
debruada  sua janela, acenava para ele freneticamente, gritando:
- Vem c, Cuca!
O oficial de justia atravessou a rua quase a correr e parou junto da 
janela onde estava reclinada a mulher de Marcos Pinto, com os braos 
rolios apoiados na almofada 
de veludo gren que forrava o peitoril, os amplos seios derramados 
flacidamente sobre os braos. Cuca costumava dizer aos ntimos: "A 
lngua que mais respeito nesta 
terra  a de Esmeralda Pinto". Todos sabiam que para ela nada era 
sagrado: falava mal dos vivos, dos mortos, dos estranhos, dos parentes, 
dos amigos e principalmente 
do marido e
19
dos filhos. Dizia-se que tinha tamanha volpia em difamar as pessoas, 
que seria at capaz de, na falta doutra vtima, caluniar-se a si 
mesma. Como vivesse  janela 
fazendo parar os transeuntes para falar mal do prximo, tinham-lhe 
posto o cognome de Marta-Pescadora.
Agora estou fisgado como um peixe - pensou Cuca, erguendo os olhos para 
Esmeralda. Mas sentira-se contente: queria saber at que ponto a 
mulher de Marcos Pinto estava 
informada do que se passava no Sobrado.
- Ento, Cuca, quais so as ltimas? - perguntou ela. Tinha a voz 
pastosa e doce como gemada.
Cuca rodopiou nos calcanhares, fez uma volta completa e ficou de novo 
com o rosto voltado para a interlocutora.
- Ento, no sabe? - Piscou o olho, como a dizer: "Eu no nasci 
ontem". E seus olhos se fixaram no vrtice do decote de Esmeralda, a 
qual, percebendo a inteno 
do olhar do oficial de justia, levou a mo automaticamente ao 
peito.
- Mas tu s bem ordinrio... Que  que ests olhando, 
semvergonha?
Cuca Lopes encostou as pontas dos dedos no nariz e sorriu amarelo. Havia 
de ter graa que ele quisesse ver os peitos daquela velhota! Esmeralda 
pintava os cabelos, 
botava na cara tudo quanto era pomada, besuntava os beios de batom e 
o resultado era aquilo que ali estava: uma careta de palhao. Havia de 
ter graa ele querer 
ver os peitos dela, ai! ai!
- Ento, no sabes nenhuma novidade? - perguntou a Marta-Pescadora.
- Pedro lvares Cabral descobriu o Brasil - troou ele.
- Sai, nojento! Vai debochar da tua me, ouviu?
O vento frio soprava os cabelos de Esmeralda, arrepiando-lhe a pele dos 
braos, que parecia - comparou o Cuca - a pelanca duma galinha 
depenada.
- Mas, falando srio - disse ele -, que  que a senhora conta de 
novo?
- Tu bem que sabes...
- No sei, no, palavra de honra.
20
- Olha, toma - ciciou ela, dando-lhe uma figa furtiva por baixo da 
almofada.
O oficial de justia gozava a situao. Sabia que Esmeralda Pinto 
ardia por falar na gente do Sobrado. Ele tambm estava ansioso por 
contar suas novidades, mas no 
queria comear. Aquilo at parecia uma partida de pquer - 
refletia. Tinha o palpite de que a Marta-Pescadora estava blefando...
- Tu bem que sabes e ests te fazendo de bobo. Pois por castigo no 
vou te contar uma coisa que me disseram da Bibi Cambar...
Cuca cheirava furiosamente a ponta dos dedos. Esmeralda brincava com a 
cruz de ouro que lhe pendia do pescoo, presa a uma fita de veludo 
negro.
- Que  que h com a Bibi? - perguntou ele, gritando para se fazer 
ouvir, pois a voz de lata do speakcr da Rdio Anunciadora agora 
engolfava a rua. - Vai se divorciar 
outra vez?
Esmeralda fez um muxoxo.
- Divorciar? A Bibi no  casada com aquele tipo... Cuca falou com 
mais suavidade:
- Mas... que foi que lhe contaram dela?
Os olhos de Esmeralda pousaram, muito frios, no rosto do oficial de 
justia. Os alto-falantes naquele momento comearam a regurgitar a 
melodia duma rumba. Um homem 
passou a cavalo pela frente da casa de Marcos Pinto, com o pala de seda 
a tremular
ao vento.
- O amante dela est pra chegar... - confidenciou a Marta-Pescadora, 
num sussurro teatral.
- No diga! Mas que amante?
- Um ministro.
- Ministro do qu?
- Ora, um ministro, Cuca.
- Tem muitos, dona. Da Fazenda, da Guerra, da Agricultura... Uns sete ou 
oito.
Esmeralda Pinto encolheu os ombros bem fornidos.
21
- S sei que ele vem a. Dizem que est louco de saudade, no 
pode agentar mais. Eu s quero ver a mexida que vai sair disso 
tudo...
- Mas como  que a senhora soube da coisa?
- Um passarinho me contou.
Cuca estava desapontado. Como era que ele no sabia ainda daquela 
novidade? Esmeralda tinha ganho a parada, podia arrastar as fichas - 
concluiu com relutncia. Ficou 
olhando o rosto da mulher do Marcos Pinto, observando como o vento lhe 
arrancava das pestanas partculas negras de rmel, e desejando que 
toda aquela mscara de 
pancake se gretasse e casse, para que a vaca ficasse como era: 
enrugada, velha, ridcula, medonha. Seus olhos de novo desceram, numa 
fascinao enojada, para o 
rego dos seios de Esmeralda.
- A coisa no deve andar muito boa l pelo Sobrado... - murmurou 
ele.
- Tantas o Rodrigo fez que agora est pagando com juros. Ningum 
perde por esperar. Deus  grande.
- Deus  grande - repetiu Cuca.
- Depois que os Cambars foram morar no Rio, a Flora parece que ficou 
com o rei na barriga. Pensas que ela cumprimentava a gente como antes? 
Ai! ai! Mal mexia a 
cabea. A Bibi, essa ento at fingia que no conhecia os 
outros, aquela nojenta! Muitas vezes mijou no meu colo quando era 
criana. Pois essas cadelas s falavam 
na gr-finagem carioca, era o presidente disto, o ministro daquilo, o 
comendador Fulano, o conde Sicrano. Porque a festa do Jockey, porque 
passei um ms no Quitandinha, 
porque o embaixador do Canad me disse no sei o qu... Credo, que 
nojo! - Fez uma careta e depois mudando de tom, acrescentou: - Agora 
esto a, com o rabo entre 
as pernas, como cachorro surrado. Bemfeito! Quem ri por ltimo ri 
melhor. Deus  grande.
- E o dr. Camerino disse que se o Rodrigo no se cuidar, pode estourar 
duma hora para outra. A senhora soube do ataque?
- Tambm no era brinquedo a vida que ele levava no Rio, sempre em 
orgias, com amantes, champanha, noites em claro nos cassinos, jogando 
roleta e bacar!
22
Cuca sorriu, seus dentes de ouro e seus olhinhos reluziram:
- Dizem que a ltima amante dele tem vinte e dois anos.
- Vinte! Decerto a qualquer hora ela chega tambm. Cuca rodopiou nos 
calcanhares, dizendo:
- Eu dava o brao direito pra estar invisvel l dentro do Sobrado 
escutando todas as conversas e vendo tudo o que est acontecendo...
- Deve estar um angu danado... - sorriu Esmeralda.
- Um angu danado - repetiu Cuca. - E por cima de tudo, o Rodrigo com 
esse negcio no corao. Infarto do miocrdio.
Ou seria incardo do miofarto? - perguntou ele a si mesmo numa dvida. 
Fosse como fosse, era uma doena terrvel, dessas que podem matar 
dum minuto para outro.
- Quem faz paga - sentenciou a mulher do Marcos Pinto.
- Mas o Rodrigo  uma boa alma - disse Cuca sem convico, mais 
para dar uma deixa  interlocutora. O peixe tentava fazer a pescadora 
morder a isca.
Esmeralda entortou a boca num sorriso perverso:
- Bom? Pois sim, cheiroso. J te esqueceste das moas que ele 
desencaminhou, dos lares que desmanchou? J te esqueceste de todas as 
sem-vergonhices que ele vem fazendo 
desde moo, s porque  rico?
- No  tanto assim. H muita inveno..
Esmeralda lanou-lhe um olhar enviesado que exprimia ao mesmo tempo 
desprezo, desconfiana e estranheza. Endireitou o busto, mudou a 
posio dos braos sobre a almofada: 
tornou a debruar-se, lanando primeiro um olhar para a esquerda, 
depois outro para a direita. Cuca esfregou as mos:
- Eu tambm sei dumas coisinhas boas sobre o Sobrado - anunciou, com 
ar de conspirador.
- Despeja logo, homem.
O oficial de justia fez uma pausa dramtica, como para dar mais 
importncia ao que ia dizer. E jogou a primeira carta:
- As brigas j comearam.
- E? - fez Esmeralda, arregalando subitamente os olhos. Seu duplo queixo 
tremeu como gelatina. Depois, dominando-se,
23
lanou para baixo um olhar oblquo e desdenhoso, murmurando num tom 
de indiferena: - Eu j sabia...
- A Bibi e o marido querem voltar pr Rio o quanto antes. O Rodrigo 
no quer. Fala at em migrar pra Argentina.
- Decerto tem medo que os generais mandem abrir um inqurito e 
descubram todas as falcatruas que ele fez l pelo Rio...
- Pois . O Rodrigo no quer. Ali! Ainda tem mais. Logo de chegada, 
o Eduardo teve uma briga feia com o Jango, por causa de poltica. O 
Eduardo, a senhora sabe, 
 comunista...
- Fresco comunismo esse do Eduardo, montado nos dinheiros do pai...
- Pois . Fresco comunismo. Mas sei que foi uma discusso braba, 
quase chegaram a vias de fato. Se no fosse a velha Maria Valria, 
eles se pegavam a unha. Imagine 
s, irmo contra irmo.
- Tudo isso  castigo, Cuca.
O outro levou os dedos s narinas, pensativo.
- Ah! - exclamou. - A velha Maria Valria no gostou da cara do novo 
marido da Bibi. Olhou pra ele e disse assim no focinho do homem: "O 
senhor  um caador de dotes, 
e est louco que o Rodrigo morra pra entrar na herana e voltar pra 
calaaria".
?
Esmeralda de novo brincava com o crucifixo de ouro. A rumba continuava, 
dando ao oficial de justia mpetos de danar. Uma rajada mais 
forte de vento arrancou-lhe 
da cabea o chapu e quase o arrastou rua a fora. Cuca, porm, 
conseguiu apanh-lo em tempo.
- Bom, preciso ir andando - disse, limpando o chapu com a manga do 
casaco. Tinha de descer pela rua do Comrcio, fazendo escalas nos 
lugares de costume. Queria, 
no fim da peregrinao, chegar a tempo para o chimarro das cinco 
na Armadora Pitomba, que ficava estrategicamente na esquina fronteira 
 do Sobrado.
- Vais descer toda essa rua falando da vida alheia, hein, Cuca? - sorriu 
Esmeralda, pondo  mostra os dentes amarelados e grados.
24
- Pois . A senhora  que nunca fala de ningum, no , dona 
Esmeralda? Uma santa criatura! Um anjo!
- Vai debochar da tua me, cafajeste!
Cuca afastou-se no seu passo curto e lpido, imaginando os horrores 
que Marta-Pescadora ia dizer dele ao primeiro "peixe" que fisgasse. 
Arreganhou os dentes num 
largo sorriso e depois comeou a assobiar, acompanhando a melodia da 
rumba e olhando para os lados.
No encontrava ningum que pagasse a pena de parar e comear uma 
conversa, naquele vento incomodativo. Embarafustou para dentro da 
Barbearia Elite. Duas de suas 
trs cadeiras estavam ocupadas, e o oficial da terceira, que lia um 
exemplar da Careta, ao v-lo entrar ergueu a cabea e exclamou:
- Ol, Cuca! Que  que h de novo?
- Muita galinha e pouco ovo - respondeu ele, desatando a rir como se 
tivesse dito a coisa mais engraada deste mundo.
- Cabelo ou barba, Cuca? - perguntou, irnico, o Neco Rosa, 
proprierrio da barbearia. Sabia que Cuca era sovina, cortava o cabelo 
quando muito uma vez por ms e 
fazia a barba em casa duas vezes por semana. Cuca postou-se diante dum 
dos espelhos, passou a palma da mo direita pelas faces e pelo queixo 
e, depois de cuidadoso 
exame, decidiu:
- No. Hoje no vai nada.
- Ento conta logo a novidade, homem! - gritou o dono da casa.
- U... Quem te disse que tenho novidade?
Cuca estava desapontado. No gostava de ser tratado daquela maneira. 
Ficou a olhar para Neco, que barbeava seu fregus sem sequer dignar-se 
a erguer os olhos para 
o recm-chegado. Era um homem alto e corpulento, de cara tostada, 
nariz chato marcado de bexigas, bigode espesso e grisalho, longas e 
largas costeletas que lhe desciam 
nas faces at a altura das aletas do nariz.
Famoso tocador de violo e seresteiro, gozava tambm da fama de 
valento, e suas brigas e farras dos tempos de moo constituam as 
pginas mais pitorescas da histria 
noturna de Santa F. Embora
25
lhe quisesse mal, Cuca votava-lhe um grande respeito, que no fundo era 
puro medo. Como sabia que Neco apreciava um boatozinho, sempre que tinha 
um o oficial de 
justia vinha servilmente traz-lo  barbearia. No gostava, 
porm, do jeito rspido e superior do outro. Mas que era que se 
podia esperar dum homem sem educao 
como aquele?
Cuca sentou-se numa cadeira, pegou dum jornal e resolveu no falar. 
Olhava desatento para a pgina. Por algum tempo ficou a escutar o 
pique-pique da tesoura do segundo 
barbeiro e o rascar da navalha de Neco Rosa no rosto do fregus. Houve 
uma pausa de alguns segundos, que para Cuca pareceu sem fim. Quis dizer 
alguma coisa como, 
por exemplo: "Que ventania desgraada!" ou "A situao ainda 
est feia". Mas continuou calado. Se ningum tornasse a 
perguntar-lhe pelas novidades, iria embora sem 
falar. Mal, porm, acabara de tomar essa resoluo, o barbeiro da 
segunda cadeira, um sujeito baixote e magro, de cabelos crespos, falou:
- Ento os Cambars esto de novo na terra, no? - disse ele sem 
tirar os olhos da cabea dum homem louro e rubicundo, cujos cabelos 
aparava.
Cuca ergueu vivamente o olhar, j assanhado. O cidado que estava 
sendo barbeado observou:
- Quem diria, hein? Todo o mundo invejava o dr. Rodrigo por causa da sua 
bela posio no governo. Quando ele vinha passar o vero aqui, 
tratavam-no a vela de libra. 
Era dr. Rodrigo para c, dr. Rodrigo para l, e homenagens, 
banqutes e no sei mais o qu. Aposto como agora ningum vai 
procur-lo. Rei morto, rei posto.
Com os seus olhos de plpebras pregueadas fitos no fregus, um toco 
de cigarro colado ao lbio inferior, Neco passava a navalha no 
assentador sem dizer palavra. 
O barbeiro que lia a Careta atirou a revista sobre a mesinha e disse:
- Mas esse negcio no vai ficar assim. Sou getulista at debaixo 
d'gua. - Apontou para o retrato do ex-presidente, que estava colado 
ao espelho,  frente de sua 
cadeira. - O "Baixinho" ainda volta.
- Volta mas  para a estncia dele em So Borja - resmungou o 
fregus, enquanto Neco lhe ensaboava de novo a cara.
26
- Pois o meu homem  o Prestes - proclamou o barbeiro baixo e crespo. 
- Sou prestista desde 24. Meu irmo fez toda a marcha da Coluna 
Prestes, foi morto na Bahia 
pelas foras do primeiro batalho da Polcia Estadual. Quando o 
Prestes virou comunista eu virei tambm.  o maior homem do Brasil, 
o lder do povo.
De olhos cenados, mas movendo os lbios, o fregus de Neco murmurou:
- Pois o meu homem  ainda o dr. Borges de Medeiros. Em
23 peguei em armas para defender a legalidade contra os assisistas. 
Tenho at no peito uma cicatriz de bala. Digam o que disserem, o dr. 
Borges  um republicano 
da primeira hora, um verdadeiro varo de Plutarco.
Neco esboou um risinho irnico e depois, cuspindo o cigarro apagado 
dentro duma escarradeira, declarou:
- Pois no tenho nenhum homem. Eu gosto  de mulher.
- Quem  que no gosta? - interveio o Cuca, que estava ansioso por 
voltar aos Cambars. - E por muito gostar de mulher  que o Rodrigo 
est naquele estado.
Neco parou de escanhoar o fregus, lanou um olhar mortio para 
Cuca e perguntou:
- Que estado?
- Ora, ento vocs no sabem que ele est com um incardo do 
miofarto?
- Infarto do miocrdio - corrigiu o partidrio do dr. Borges de 
Medeiros.
- Pois . Ento tu no sabes, Neco?
- Sei. Mas que tem isso?
Cuca levantou-se, j com as pontas dos dedos a procurarem arlitamente 
o nariz.
- Dizem que se estragou de tanta farra.
- No diga asneiras! - trovejou o Neco. O oficial de justia ficou 
intimidado.
- No sou eu que digo - balbuciou -, andam falando por a...
27
- Pois  uma mentira! - vociferou o seresteiro, belicosamente, 
brandindo a navalha. - Ento um homem vive uma vida agitada, metido em 
revolues, campanhas, o diabo, 
e depois vem essa cachorrada dizer que ele ficou doente do corao 
por gostar de mulher?! Mulher nunca fez mal pra ningum.
Cuca estava petrificado.
- Neco - disse ele, apaziguador -, tu sabes como sou amigo do Rodrigo. A 
bem dizer nos criamos juntos. Quantas vezes jogamos bandeira debaixo da 
figueira da praa? 
Meu Deus! O Rodrigo  mesmo que meu irmo...
Neco Rosa parecia no dar-lhe ouvidos. Continuou:
- Quando o Rodrigo estava por cima, vocs viviam lhe lambendo os 
sapatos. Agora, como pensam que o homem est no cho, querem mijar 
em cima dele.
- Credo, Neco! - protestou Cuca, procurando dar  voz um tom sentido. 
- Eu no era capaz de falar mal duma pessoa que sempre foi to boa 
pra mim...
Mais calmo, Neco continuou a escanhoar o borgista, que se mantinha de 
olhos cerrados, num silncio cauteloso. O homem rubicundo da segunda 
cadeira mirava Cuca pelo 
espelho, com um olhar neutro.
O rosto de Neco Rosa estava agora completamente desanuviado. Foi ele 
quem quebrou o silncio para dizer:
- O senhor me desculpe, doutor, mas eu perco as estribeiras quando vejo 
uma injustia ou uma ingratido. Sou e sempre fui amigo do dr. 
Rodrigo e devo muitos favores 
a ele. No  amizade de ontem, no senhor,  coisa que vem de 
longe. E depois, doutor, no h homem que tenha feito mais 
benefcios pra esta cidade que ele. No tempo 
que clinicava, quase ningum pagava consulta. O dr. Rodrigo nunca fez 
questo. O hospital dele estava aberto pra todo o mundo, fosse rico ou 
fosse pobre. Tem dinheiro 
pra pagar? Ento paga. No tem? Pois ento no paga. O dr. 
Rodrigo foi sempre o pai da pobreza, a casa dele sempre viveu de porta 
aberta, qualquer vagabundo entrava 
l...
Aqui Neco lanou um olhar enviesado na direo do oficial de 
justia.
- ...sentava na mesa dele, comia a comida dele, bebia os vinhos dele. 
Hoje ningum se lembra mais disso. O senhor j tratou com o dr. 
Rodrigo?  uma moa, doutor, 
uma flor. Quando fica brabo,  um deus-nos-acuda,  preciso quatro 
pra agarrar o homem. Mas quando est de boa veia, tira at a camisa 
pra dar prs outros.
O fregus abriu os olhos e disse com uma prudncia cheia de 
dignidade:
- Eu no conheo pessoalmente o dr. Rodrigo Cambar. Neco fez uma 
pausa para acender um cigarro.
Cuca observava-o com ar apreensivo. Ficou mais aliviado quando viu o 
proprietrio da barbearia sorrir ao contar:
- Agora, vamos e venhamos, que o dr. Rodrigo gosta de mulher, isso gosta 
mesmo. Boas farras fizemos juntos nos bons tempos. Nunca me esqueo 
duma, na Penso Veneza... 
Uma penso de mulheres, o senhor sabe, doutor. Foi l por novecentos 
e trs ou quatro... O Rodrigo ainda era estudante. Ah! Mas dantes 
havia boas penses em Santa 
F, com raparigas de primeira, no  como hoje, essas porcarias, 
boates, dancings e no sei mais o qu, com uns meninos 
afrescalhados, de gomina no cabelo. Naquele 
tempo quem ia  penso era macho, homens de faca na cava do colete e 
revlver na cintura.
Continuou a escanhoar o fregus. Os outros esperavam a histria, num 
silncio interessado.
- Mas, como eu ia dizendo, uma noite o Rodrigo e eu entramos na Penso 
Veneza, j meio tocados, tnhamos bebido umas cervejinhas no 
quiosque da praa, e de repente 
o Rodrigo olha pras chinas e grita pra gerente da penso: "Dona 
Annunciata, mande esses homens embora e feche a porta. A noite hoje  
minha". Fiquei frio. Tinha 
l uns cinco ou seis sujeitos, uns at mal-encarados. Ningum 
disse nada no primeiro momento, assim como se no tivessem entendido 
direito. E quando o Rodrigo gritou 
de novo que foscem embora se no quisessem levar bordoadas, uns dois 
ou trs deles iam saindo de fininho sem dizer nada, no porque 
tivessem medo, mas porque respeitavam 
o Rodrigo e no queriam brigar com
28
29
ele. Mas trs se levantaram, disseram, que no iam e resolveram 
virar bicho. Foi uma pegada muito feia, trs contra dois. No sei 
como comeou a coisa, s sei 
que de repente vi o Rodrigo avanar pr maior dos trs caras, de 
garrafa em punho. Ento tambm agarrei a minha garrafa e me fui pra 
cima de outro. E comearam a 
voar cadeiras, pratos, copos, vasos, garrafas, e era s mulher 
gritando e fugindo. Como brigava lindo o Rodrigo! Brigava dando risada e 
dizendo gracinhas. Pra encurtar 
o caso, o fervo durou uns dez minutos e quando a coisa terminou, um dos 
sujeitos saiu fedendo pela janela e os outros dois estavam no cho, 
sem sentidos. E j o 
Rodrigo pediu arnica e iodo pra dona da penso e foi fazer curativos 
nos inimigos. Eu estava todo rasgado, com um galo na testa, um talho na 
mo esquerda, os beios 
sangrando. Quando olhei pr Rodrigo bem de perto, vi que a camisa dele 
estava toda manchada de sangue. "Que  isso, Rodrigo? Te feriram?" 
"No  nada", respondeu, 
"foi s uni arranho." E continuou rindo. Depois chamou a dona 
Annunciata, botou na mo dela uma pelega de cinqenta mil-ris, 
que naquele tempo era muito dinheiro, 
e disse: "Muito obrigado por no ter chamado a polcia". Ajudou a 
botar os dois homens numa cama e em seguida gritou: "Onde esto as 
raparigas?" Elas foram aparecendo 
uma por uma, muito assustadas, com a cara mais branca que papel. O 
Rodrigo examinou bem todas elas e depois disse: "Eu fico com estas 
trs". E se fechou com elas 
no quarto.
Neco calou-se, com a navalha no ar, o olhar sonhador, os dentes  
mostra num ricto canino.
- No me arrependo das farras que fiz, doutor - disse ele, olhando 
para o fregus. - O que a gente leva da vida so essas coisas... 
Falam do dr. Rodrigo, porque 
isto, porque aquilo. Todo o mundo tem vontade de fazer o que ele fez: 
comer bem, vestir bem, dormir com boas mulheres, gozar a vida. S que 
nem todos tm a coragem 
que ele sempre teve de fazer o que lhe dava na veneta.
- Isso  verdade - concordou o Cuca, adulo.
Neco pegou no pulverizador de lcool e, antes de borrifar a cara do 
republicano, olhou para Cuca:
30 
- Pois , seu Lopes. Quem falar mal do Rodrigo na minha frente, briga 
comigo.
- E comigo tambm - replicou Cuca, com voz solene. Via ento que 
no arranjava mais nada na Barbearia Elite.
Aproveitou o primeiro pretexto e esgueirou-se para fora.
A rua continuava varrida de vento e msica. Cuca decidiu entrar no 
Comercial. Subiu as escadas de mrmore de dois em dois degraus, 
imaginando quem poderia estar 
l dentro, e sentindo ao mesmo tempo um vago desconforto que lhe vinha 
do fato de estar seis meses atrasado no pagamento de suas mensalidades 
de scio daquele clube. 
Mas que diabo! Conhecia gente grada que tambm estava atrasada: 
muitos estancieiros s resgatavam os recibos do Comercial uma vez por 
ano, depois da safra. Que 
me importa! - pensou ele, sacudindo os ombros e entrando na sala dos 
bilhares. Olhou em torno: havia ali apenas quatro rapazes a jogar 
snooker. Ningum que valha 
a pena - concluiu. Sabia, entretanto, que ia encontrar na sala de jogo 
carteado os jogadores de pif-paf, conhecidos como "a turma do diurno": 
comeavam a sesso 
s duas da tarde e iam at s sete, sem arredar p do pano 
verde.
Cuca preparou a frase: "Boa tarde, minha gente! Estamos de parabns, 
hein?" Naturalmente iam perguntar por qu, ele ento responderia: "O 
dr. Rodrigo est na terra. 
Decerto logo vocs vo ter mais um parceiro pr pif-paf..." Era um 
timo mote que na certa os outros glosariam com prazer.
Parou  porta. A sala estava cheia de fumaa de cigarros e charutos, 
e andava no ar um aroma agradvel de caf recm-passado. S 
ento Cuca percebeu que no havia 
tirado o chapu; descobriu-se, num gesto rpido, e deu um passo  
frente. Nesse instante, porm, avistou o Calgembrino Leal, 
proprietrio do Cinema Recreio. Estava 
ele  mesa de jogo, de cabea baixa, um palito no canto da boca, os 
olhos postos nas cartas que tinha nas mos, dispostas em forma de 
leque. Cuca disfarou, fez 
meia-volta e afastou-se, apressado. O Calgembrino era seu inimigo. 
Haviam tido uma discusso, fazia algumas semanas, e o desaforado lhe 
dissera: De hoje em diante, 
se alguma vez tu te sentares perto de mim ou
31
te aproximares dum grupo onde eu esteja, te quebro a cara, ouviste:
Estou sem sorte hoje - refletia o Cuca, encaminhando-se para a sala da 
biblioteca. Atirou para dentro um olhar distrado, e ia passar de 
largo quando avistou o vigrio, 
que lia um jornal sentado numa poltrona.
- O senhor por aqui, padre! - exclamou ele, aproximando-se do sacerdote.
O padre Josu lanou um olhar para Cuca por cima dos culos. Era 
um homenzinho franzino, de ar humilde e mos de criana.
- Ol, Cuca. Como vai essa bizarria?
- Mal, vigrio, muito mal - queixou-se o oficial de justia, sem 
saber exatamente por que dizia isso.
- Sente-se, meu filho.
Cuca obedeceu. O sacerdote dobrou o jornal com muito cuidado, p-lo em 
cima da mesa, cruzou as pernas, tirou os culos do nariz e comeou a 
limpar as lentes na manga 
da batina.
O padre Josu tinha sido enviado pelo cu - pensava Cuca. Era 
ntimo do Sobrado e devia saber o que estava se passando l dentro.
- Ento, reverendo - indagou Cuca com voz compungida -,  verdade 
que o nosso Rodrigo est passando muito mal?
- Pois ... - respondeu o padre com ar vago. - Teve outro ataque.
- Outro? - repetiu Cuca, fingindo surpresa. - Ento no  o 
primeiro?
O vigrio sacudiu negativamente a cabea grisalha.
-  o terceiro... ou quarto, nem sei!
- E dizem que a coisa  muito sria, no?
- Muito. Pode morrer duma hora para outra.
- Pobre do Rodrigo!
- Se ele ficar en absoluto repouso e seguir a dieta que o mdico 
recomendou, pode viver ainda muito tempo.
- Deus lhe oua.
O vigrio fez um gesto de dvida.
32
- Mas tu conheces bem o Rodrigo. No  homem de meias medidas.
Em pensamento Cuca esfregava as mos: a conversa ia tomando o rumo que 
lhe convinha.
-  verdade que o senhor j lhe deu os santos leos?
- Por que desejas saber?
- Pura curiosidade.
O padre, que conhecia bem a reputao de Cuca, replicou:
- H um certo tipo de curiosidade, meu filho, que no  nada 
agradvel aos olhos de Deus.
- Eu lhe explico, reverendo... - disse Cuca. E mentiu: - Apostei com um 
amigo como o Rodrigo ia se confessar antes de morrer. Esse amigo acha 
que no, porque o Rodrigo 
 herege. Me conte uma coisa, padre Josu, ele se confessou?
- Por que desejas tanto saber?
- Por nada.  triste uma pessoa morrer cheia de pecados mortais...
- E quem foi que te disse que o Rodrigo cometeu pecados mortais?
- Ora, padre...
- Quem foi?
O vigrio olhou Cuca bem de frente, e seus olhos azuis de menino 
tinham uma expresso de tal modo destituda de malcia, que o 
outro por alguns segundos ficou desconcertado.
- Ora, todos tm pecados.
- Ah! Pensei que sabias de algum pecado horrvel que o Rodrigo tivesse 
cometido...
Cuca achava difcil enfrentar o olhar lmpido e transparente daquele 
homem cuja vida nunca dera o menor motivo para maledicncia.
- Quer dizer... - balbuciou ele, embora achando que devia calar a boca e 
ir embora, para no se comprometer ainda mais.
- Quer dizer... o qu?
- Bom, padre, quem diz no sou eu...
- Quem  que diz?
- O povo.
33
- Que  que o povo diz?
- Muita coisa...
- Por exemplo...
Cuca estava j arrependido de ter comeado, mas agora era tarde 
demais para recuar. De resto, ele sentia uma certa volpia em brincar 
com fogo.
- Dizem que o dr. Rodrigo l no Rio no teve uma vida muito... - Ia 
dizer limpa mas conteve-se a tempo e disse - santa.
- No acredite...
-  o que eu digo sempre, h muita conversa fiada por a, muita 
inveno.
Cuca olhava, fascinado, para uma espinha muito madura que amarelava na 
ponta do nariz do padre.
- Quando um homem chega  posio que o dr. Rodrigo conquistou - 
disse o sacerdote -  natural que os outros comecem a inventar 
histrias caluniosas. H muita maldade 
no mundo, meu filho. Claro, ningum  perfeito, mas eu no 
acredito em nada do que se conta por a do dr. Rodrigo Cambar.
- Muito bem - apoiou-o Cuca. - E eu no quero que o senhor pense que 
eu...
O padre atalhou-o:
- No estou pensando coisa alguma, Cuca. S estou dizendo que no 
acredito.
Segurou com terna intimidade um dos botes do casaco do oficial de 
justia e, aproximando bem seu rosto do interlocutor, disse com voz 
clara e macia:
- A vida duma pessoa  como uma moeda: tem verso e reverso e quem v 
um lado nem sempre v o outro. Um padre quase sempre pode ver os dois 
lados. E o que te digo, 
Cuca, no julgues ningum pelas aparncias nem pelo que ouves 
dizer.
Cuca no tirava os olhos do rosto do padre, com uma vontade 
desesperada de espremer-lhe a espinha do nariz.
- Eu sou amigo do dr. Rodrigo.
- Pois conserve-se amigo dele.  um homem como poucos, ouve o que te 
digo.  um bom catlico e um patriota.
34
- E um excelente chefe de famlia - acrescentou Cuca. pensando na 
amante que Rodrigo deixara no Rio.
O padre Josu largou o boto, reclinou-se na cadeira e abafou um 
bocejo.
- Hoje enforquei a minha sesta...
Cuca tirou o relgio do bolso do colete. Olhou distrado para o 
mostrador e disse:
- Bom, vigrio, vou andando.
- Deus te acompanhe e te d sempre boa vontade para julgares teus 
semelhantes!
De repente Cuca sentiu que estava com o rosto e as orelhas em fogo.
- Amm - murmurou, rodopiando nos calcanhares e saindo apressado da 
biblioteca. Entrou no bufete, pediu um cafezinho, tomou-o em goles 
curtos e rpidos, atirou quarenta 
centavos em cima do balco e saiu para a rua, murmurando: "Estou mesmo 
pesado hoje!"
Desceu aos pulinhos a escadaria que levava  calada.
Cuca nunca passava pela Casa Sol sem entrar para dar uma prosa com os 
caixeiros ou com o Veiguinha. Era aquele un dos estabelecimentos 
comerciais mais antigos e 
mais fortes da regio serrana. Fora fundado em 1860 pelo bisav do 
Veiguinha, um homem famoso pela avareza e pelo amor ao trabalho, e cujos 
pais tinham vindo de 
Portugal - dizia-se - no mesmo navio que trouxera dom Joo VI e sua 
corte. Era uma casa de secos, molhados, ferragens e armarinho: cheirava 
a couro curtido, queijo, 
fazenda, charque e rapadura, e era a preferida da freguesia das 
colnias e dos outros distritos do municpio. Ao passo que as outras 
lojas de Santa F na grande 
maioria se modernizavam, o Veiguinha mantinha a sua quase tal como era 
havia cinqenta anos, tendo at conseguido da prefeitura uma 
licena especial para conservar 
na calada, ao lado da casa, os frades-de-pedra a que, nos velhos 
temPOS, gachos e colonos amarravam os cavalos enquanto faziam suas 
compras.
35
Cuca entrou na Casa Sol de cabea alada,  procura do Veiguinha 
com o qual queria comentar sua briga com o mulato queremista. Havia 
quela hora uns cinco ou seis 
fregueses ao longo do comprido balco, e num deles Cuca reconheceu a 
Anaurelina, proprietria do Ponto Chie. Esquecendo o Veiguinha, 
aproximou-se dela, olhando para 
os lados com movimentos rpidos de cabea, para verificar se no 
havia por ali alguma ''famlia" que se pudesse escandalizar ante o 
fato de estar ele, um homem casado, 
a conversar abertamente com uma prostituta em plena luz do dia.
- Mas ento, Anaurelina! - exclamou em surdina. - Como vai essa 
beleza?
- Olha s quem est aqui! - saudou-o ela. - Eu vou bem, e tu?
Anaurelina deixou os cortes de seda que estava examinando e voltou-se 
para o oficial de justia. Era uma mulata clara, quarentona, muito 
gorda, de cabelos crespos 
dum negro lustroso, rosto redondo de boneca, de duplo queixo e lbios 
carnudos. Cuca mirou-a com ar safado, j excitado pelo simples fato de 
estar de certo modo 
a violar uma lei social. Gostava de Anaurelina, achava-a muito limpa e 
recatada. O Ponto Chie era uma penso de toda a confiana, dessas 
que um homem casado pode 
freqentar sem medo de pegar doenas ou envolver-se em badernas.
- Vem c, meu bem - murmurou ele, recuando alguns passos na 
direo dum manequim masculino que vestia um poncho cor de chumbo e 
tinha enfiado na cabea um chapu 
de abas largas. - Quero te dizer uma coisa...
Anaurelina aproximou-se. Seus olhos, que lembravam a Cuca os de um bicho 
- veado? porco? cachorro? - postaram-se nele numa tpida curiosidade.
- Sabes quem est na terra?
- No.
- O dr. Rodrigo Cambar.
- Ah! - tez a mulata, entreabrindo os lbios besuntados de batom cor 
de ciclame. - Eu j sabia.
Cuca piscou o olho.
- Tu conheces bem o Rodrigo dos bons tempos, hein?
Ela sorriu. Seus fartos peitos subiam e desciam cadenciados, e Cuca teve 
vontade de morder aqueles braos gordos como presuntos, e foi com 
prazer que aspirou o cheiro 
de Anaurelina, mistura de gua-de-colnia, p-de-arroz e suor de 
corpo limpo.
- Se eu conheo bem ele? - repetiu a mulher. Aproximando-se mais de 
Cuca, confidenciou: - No sabes ento que foi o dr. Rodrigo que me 
botou na vida?
- No diga!
- Pois ri. Eu devia ter uns dezesseis ou dezessete anos...
Cuca comeou a cheirar a ponta dos dedos, assanhado. Lembrava-se bem 
de Anaurelina dos tempos de menina. Era uma mulatinha muito bem-feita de 
corpo, os seios pontudos, 
a cintura fina. Um amor! Naquele tempo - lembrou-se ele - dizia-se: "o 
suco!".
O oficial de justia estava ansioso por detalhes:
- Me conta bem como foi essa histria - pediu, olhando aflito para a 
porta, temendo que entrasse alguma senhora sua conhecida.
O suor rorejava o buo de Anaurelina, e seus olhinhos inexpressivos 
estavam imveis sob as plpebras reluzentes de vaselina.
- No tem nada pra contar. O dr. Rodrigo me fez mal e eu ca na 
vida.
- Mas onde foi que se deu a coisa? Na tua casa? Na casa dele?
- Ora, Cuca, que  que adianta saber agora? Foi no consultrio dele, 
num dia que a minha me me mandou l pra lavar o soalho...
- E no ficaste com vontade de tomar lisol?
- A troco de qu, homem?
- No, Anaurelina. O que eu quero saber  se, depois que ele te fez 
mal, tu no quiseste te matar.
- Eu? No.
- Ficaste com muita raiva dele?
- No. S fiquei meio com medo de pegar filho.
Cuca estava decepcionado. Sorrindo, Anaurelina fez um sinal 
tranqilizador para o caixeiro que a esperava atrs do balco:
- J vou l, moo.
36
37
- Mas tu no achas - insistiu Cuca - que se no fosse o dr. 
Rodrigo, tu podias ter casado direito com um bom sujeito e tido a tua 
casa, os teus filhos?
A mulata encolheu os ombros rolios.
- Mas eu sou to feliz, Cuca. Se o dr. Rodrigo no tivesse me botado 
na vida eu decerto hoje era cozinheira duma dessas gr-finas, como 
minha me foi, ou ento tinha 
casado com um diabo qualquer e no fim ainda por cima tinha de trabalhar 
pra sustentar ele.
- Ali, isso ...
Anaurelina abriu sua enorme bolsa de couro de jacar e tirou de dentro 
dela um lencinho que recendia a Maderas do Oriente, passou-o pelo buo 
e, baixando mais a 
voz, disse:
- Na minha vida tenho andado com muitos homens, Cuca, homens de todo 
jeito, paisano, soldado, rico, pobre, sargento, tenente, deputado, 
coronel, fiscal de imposto, 
tudo. Cuca. Mas uma coisa te garanto, nunca estive com um homem que 
chegasse aos ps do dr. Rodrigo.
-  mesmo, ? - indagou Cuca, afobado, j ansioso por detalhes.
Mas a dona do Ponto Chie voltou-lhe as costas, acercou-se do balco e 
perguntou ao empregado:
- O senhor tem veludo chiffon roxo?
No Caf Minuano, Cuca encontrou don Pepe Garcia, o pintor, sentado a 
uma mesa, diante duma garrafa de cerveja. Ia fingir que no o tinha 
visto - pois o espanhol 
ultimamente vivia bbado e no raro se tornava inconveniente - 
quando lhe ocorreu que don Pepe era o autor do famoso retrato de corpo 
inteiro de Rodrigo Cambar, 
pintado logo que este, com vinte e quatro anos de idade, chegara  sua 
terra natal, recm-formado em medicina. Existiam na cidade muitos 
retratos a leo - pequenos, 
grandes, bons, maus e medocres - mas a obra de don Pepe era para 
todos os efeitos o Retrato, com R maisculo, uma das maravilhas de 
Santa F. Quando chegava algum 
forasteiro, a primeira coisa que lhe perguntavam era: "J viu o 
Retrato?" - e ficavam um tanto ofendidos
38
quando o visitante declarava ignorar a existncia da portentosa obra 
de arte. Conhecedores de pintura afirmavam que se tratava dum trabalho 
de mestre, digno dum 
museu de Paris ou Londres; e os que conheciam Rodrigo e o Retrato 
atestavam que a presena era positivamente fotogifica. Contava-se 
que, depois dessa obra, Pepe 
Garcia como que se esgotara e no fizera mais nada que prestasse. De 
resto, que futuro podia ter um pintor numa cidade provinciana corno 
aquela? Santa F inteira 
conhecia a crnica daquele bomio espanhol que era por assim dizer 
um heri do folclore municipal. Passava a vida em grupos de caf a 
dispersar-se em conversas e 
bebedeiras. E era nessas rodas bomias que Pepe Garcia contava suas 
andanas pelo mundo, falava mal do clero, da burguesia e, 
choramingando, dizia do que podia ter 
sido sua vida e sua arte se no tivesse encalhado nas praias secas de 
Santa F, como um barco desarvorado sem bssola nem leme. Suas 
conversas comeavam com bravatas 
e acabavam em choro. Quando lhe perguntavam por que no reagia, no 
voltava a pintar, respondia que era tarde, estava velho, a viso 
comeava a faltar-lhe e as mos 
j lhe tremiam. A troco de magro ordenado, sujeitava-se agora  
humilhao de pintar cartazes para o Cinema Recreio. Era por isso 
que, depois do papa, o homem a 
quem mais odiava no mundo era o proprietrio do cinema local, o 
Calgembrino, para ele o smbolo da burguesia endinheirada, a qual, 
unida ao clero obscurantista, 
era responsvel pelas desgraas do mundo, por todas as injustias 
sociais e principalmente pela incompreenso em que viviam os 
verdadeuos artistas.
Agora, nos dias de sua decadncia, quando se sentia muito deprimido, 
don Pepe batia  porta do Sobrado e pedia s gentes da casa que lhe 
permitissem ver o Retrato. 
Dona Maria Valria mandava o pintor entrar e deixava-o sozinho na sala 
de visitas. O espanhol sentava-se diante de sua obra-prima e ali ficava 
por longo tempo, levantando-se 
de quando em quando para abrir ou fechar as cortinas das janelas a fim 
de poder observar a tela sob vrios efeitos de luz. Depois, 
retirava-se sem dizer palavra 
e nessas ocasies tomava as suas bebedeiras mais formidveis.
Era esse homem to ligado ao passado de Rodrigo que ali estava, 
sentado a uma mesa, no caf deserto.
39
Cuca aproximou-se dele e ps-lhe a mo no ombro.
- Como vai essa fora, don Pepe? O pintor ergueu os olhos.
- Cuca... - murmurou, sem nenhum entusiasmo. - Senta. Cuca sentou-se.
- Toma uni troo - convidou don Pepe.
- No, obrigado.
- Toma um troo.
- No.  muito cedo.
- Ento vai-te pr diabo!
- Tambm  muito cedo.
O espanhol deu de ombros e com suas mos muito longas, de dedos finos 
com unhas debruadas de preto, pegou o copo de cerveja, levou-o 
tremulamente aos lbios e bebeu 
num sorvo. Lambeu a espuma que lhe ficara nas pontas dos bigodes dum 
branco amarelado, e fitou os olhos injetados no interlocutor.
- Entonces, que queres? - perguntou.
- Eu? Nada, homem.
Don Pepe ficou a olhar fixamente para o copo de cerveja, em cujo 
contedo cor de mbar as portas do caf se refletiam em 
quadrilteros luminosos.
Cuca achou melhor atacar o assunto de frente.
- J sabes que o dr. Rodrigo est na terra?
Por alguns instantes o espanhol continuou calado, como se no tivesse 
ouvido a pergunta. Depois, com sua voz spera, disse:
- Don Rodrigo nunca saiu de Santa F. Me refiro ao Rodrigo verdadeiro, 
o do Retrato. - Animou-se um pouco, chegou a empertigar o busto, a abrir 
bem os olhos lquidos. 
- Esse que chegou do Rio  o fantasma do outro. Mas tu no entendes 
dessas coisas, Cuca. - Fez uma pausa e tornou a convidar: Toma um 
troo!
- Quem diria, hein, don Pepe? Ontem o homem estava no Palcio 
Guanabara, amigo do presidente, cheio de prestgio, hoje est l 
no Sobrado com o corao escangalhado, 
dizem que at a extrema-uno j tomou.
O pintor bateu com o punho na mesa, fazendo o copo e a garrafa tremerem.
40
- Malditos curas! So como urubus rondando a morte. Mal vem um 
pobre homem agonizando j comeam a devorar-lhe as carnes.
- Rodrigo  catlico.
- Cala-te a boca. Tu no sabes nada. Cuca resolveu provocar o outro:
- E tu sabes?
Don Pepe lanou-lhe um olhar duro, esmurrou o peito ossudo e disse:
- Eu sei tudo. Eu previ. Mas ningum me cr.
- Mas o que  que tu sabes?
- Tudo!
Cuca tirou do bolso uma carteira de cigarros e ofereceu um a don Pepe, 
que aceitou, sorrindo ironicamente:
- Queres comprar meu segredo com um cigarro, eh, miservel?
O oficial de justia comeava a ficar curioso. Saberia mesmo o 
castelhano alguma coisa sobre Rodrigo?
Don Pepe prendeu o cigarro entre os lbios e pediu:
- Fogo.
Cuca riscou um fsforo, acendeu o cigarro do pintor, que, depois de 
tirar uma baforada cptica, murmurou:
- s muito tonto. Mas te vou a dizer uma cousa.
Cuca tinha um cigarro apagado entre os lbios. Don Pepe tomou novo 
gole de cerveja e o oficial de justia de repente ficou alarmado, 
temendo que o outro o obrigasse 
a pagar a bebida. Pensou em sair, mas a curiosidade chumbava-o  
cadeira.
- Tu viste o Retrato, claro... - principiou o espanhol.
- Naturalmente
- Que achas dele?
- Muito chique.
Don Pepe tornou a bater na mesa com o punho fechado.
- Cofio, hombre! Chique! Tu no sabes nada. s um burro. Aquele 
retrato chique? Vai-te para o diabo! No falo mais. s um filisteu.!
- Todo o artista tem um pouco de louco e de profeta. A primeira vez que 
vi o senador Pinheiro Machado foi no Sobrado em novecentos e dez. Don 
Licurgo me perguntou 
depois que era que eu pensava dele. Respondi: "Tem um ar de chefe gitano 
e olhos de guia. Ainda ser a mo de ferro que vai a governar o 
Brasil". - A voz do espanhol 
desceu a um sussurro dramtico: - "Mas um dia h de cair ferido pelo 
ferro". Dito e feito. Cinco anos depois, Pinheiro Machado era apunhalado 
pelas costas no Hotel 
dos Estrangeiros.
- Veja s...
- Um dia me mirei no espelho e de repente vi o futuro escrito nos meus 
olhos. Esta decadncia, esta misria, esta pobreza e at o maldito 
Calgembnno, burgus de 
mierda, sinvergonha, explorador, miservel. Vi tudo em meus olhos, 
como vi o futuro de Rodrigo, quando pintei o Retrato. Est tudo l 
no quadro. Vai a ver. Tudo: 
a glria, sua carreira, suas viagens, a Revoluo de 30, o Estado 
Novo, as mulheres que ele amou, e tambm este final desastroso...
Fez uma pausa ofegante e depois:
-  um retrato proftico - repetiu. - Mas tu no entendes dessas 
coisas. Es um burro. Esse Rodrigo que a est  o cadver do 
outro. Todos somos cadveres, eu, tu, 
o Calgembrino, o prefeito, o papa... S as obras de arte  que 
esto vivas, e sempre estaro vivas. Todo o artista atinge seu ponto 
mximo uma vez na vida e depois 
comea a descida. Meu pico  o Retrato. Deixei nele tudo que tinha 
de melhor. Depois me quedei seco. Por isso bebo. Os vivos no bebem 
lcool: bebem vida. Vai a 
ver o Retrato. Pero eu estou morto. Agora pinto cartazes pra esse 
cachorro do Calgembrino que se Io encontro Io rompo, por Dis. Y 
maldita sea Ia madre que cien 
mil veces Io pari! Me cago en Ia leche de su madre y de todas Ias 
madres dei mundo, inclusive Ia mia.
Estas ltimas palavras no foram propriamente pronunciadas, mas 
babadas.
Cuca achou que era hora de ir embora; no sabia, porm, o que dizer 
para despedir-se. O pintor emborcou o copo e Cuca ficou olhando para o 
movimento de seu pomo-de-ado.
44
- E tu no vais visitar o dr. Rodrigo? - perguntou ele, s para 
dizer alguma coisa.
Don Pepe tomou a pr o copo em cima da mesa e, antes de responder, 
soltou um arroto explosivo.
- S que seja para mat-lo.
- U? Por qu?
- Porque Rodrigo  um traidor.
- Como, don Pepe?
Cuca mordia e babava a ponta do cigarro, qtie de novo se apagara.
- Tu no compreendes, s um imbecil. Rodrigo  o culpado da minha 
decadncia. Ele e o Calgembrino - vociferou, dando um soco sobre a 
mesa.
- Maldita sea Ia madre que Io recontra cien mil veces pari. Garom, 
outra cerveja !
Cuca achava que Pepe Garcia estava comeando a ficar inconveniente. 
Curiosos agora paravam  porta do caf e ficavam a olhar para o 
pintor, sorrindo. O oficial de 
justia comeou a sentir uma espcie de formigueiro dentro das 
calas. Mas uma atrao inexplicvel o prendia quela cadeira, 
e ele no podia afastar os olhos da 
face terrosa e enrugada do espanhol.
- Vou a dizer-te um segredo, Cuca. O tempo  como um verme que nos 
est roendo despacito, porque  do lado de c da sepultura que 
nosotros comeamos a apodrecer. 
No te iludas. J ests metade podre, Cuca. Eu tambm. - Fitou 
no homenzinho dois olhos infinitamente tristes, duma tristeza 
alcolica, avermelhada e lacrimejante. 
E depois, com voz arrastada, num falsete cortado por novo arroto, 
acrescentou, subitamente cordial: - Toma um troo.
Eram cinco horas menos um quarto, quando Cuca Lopes chegou  praa 
da Matriz. Parou a uma esquina e ficou a contemplar o Sobrado. La estava 
o casaro com suas paredes 
caiadas, os caixilhos das janelas e o da grande porta pintados dum azul 
de anil, os azulejos do porto a reverberar  luz da tarde. As copas 
de algumas das rvores 
do quintal apontavam acima do telhado, e, entre o
45
muro e a parede lateral da casa, havia um p de trs-marias todo 
carregado de flores purpreas.
O vento perdera muito de seu mpeto, o cu agora estava limpo de 
nuvens e a luz do sol tinha uma mornido macia e dourada.
Cuca comeou a atravessar a praa em diagonal, olhando para a 
prpria sombra na terra batida, dum vermelho queimado. Lembrava-se das 
muitas vezes em que ele e Rodrigo, 
ainda meninos, cruzaram aquela praa, pisando aquele cho onde as 
sombras de ambos se confundiam... Cuca estava perturbado. A proximidade 
do Sobrado lhe causava 
uma certa emoo. Menino pobre, orgulhava-se de freqentar aquela 
casa grande e rica, de ser amigo de Torbio e Rodrigo. Gostava dos 
losangos de doce de leite que 
dona Maria Valria lhe dava, dos brinquedos de Rodrigo, de suas 
roupas, de seus petios, de seu carro puxado por dois belos 
tordilhos...
Os canteiros da praa estavam pintalgados de margaridas amarelas. A 
fragrncia das flores dos cinamomos impregnava o ar. Um soldado do 
regimento de artilharia conversava 
com uma chinoca, sob a grande figueira da praa. No centro dum 
tabuleiro de relva, o busto de bronze do coronel Ricardo Amaral olhava 
na direo do palacete da prefeitura, 
que l se erguia, pesado e achaparrado, com a sua cpula parda, a 
fachada art nouveau e as paredes escurecidas por uma patina sem 
histria. O galo do cata-vento 
da matriz estava agora tranqilo. E duma grande paineira que ficava 
bem  frente do casaro dos Amarais, desprendiam-se flocos 
esfiapados de paina, que caam com 
uma graa lenta, leve e ondulante, e iam juncando o cho ao redor do 
tronco. Hora linda, pensou Cuca. Parou na calada fronteira ao Sobrado 
e ficou a olhar para 
as janelas da casa, desejando e ao mesmo tempo temendo ver Rodrigo 
assomar a uma delas. Voltou depois o olhar para os azulejos do porto, 
que tanto o fascinavam. 
Quantas vezes brincara com Rodrigo ali naquele muro, que para ambos era 
nada mais nada menos que a prpria Muralha da China! E como ele 
gostava do quintal do Sobrado, 
com suas rvores altas e copadas, que em certos trechos davam  
gente a impresso de estar numa floresta virgem... (Eram as matas do 
Ceilo e de Madagascar - explicava 
Rodrigo, que
46
tinha lido sobre essas ilhas fabulosas em livros ilustrados.) Havia 
tambm no quintal um poo assombrado, onde, diziam, todas as 
meias-noites apareciam as almas 
penadas dos homens que ali tinham sido mortos durante a revoluo de 
93, quando o Sobrado ficara sitiado pelos maragatos durante dez dias. 
Contava-se que nessa ocasio 
uma filha do coronel Licurgo, que nascera morta, tivera de ser enterrada 
no poro. Todas essas coisas emprestavam um certo ar de mistrio e 
lenda quele casaro 
onde Cuca no tornara a entrar desde que Rodrigo se mudara para o Rio.
O oficial de justia voltou a cabea na direo da Padaria 
Estrela d'Alva que ficava  esquerda do Sobrado, e avistou seu 
proprietrio, o Francisco Paes, que era 
conhecido na cidade como Chico Po. O padeiro fez-lhe um sinal 
amistoso, atravessou a rua e foi apertar-lhe a mo.
-  Cuca!
- Ento o nosso amigo est na terra, hein?
-  verdade - respondeu Chico Po, com sua voz fosca -, o bom filho 
 casa torna.
Soltou um sentido suspiro e comeou a coar os braos morenos e 
cabeludos, que a camiseta de meia, de mangas curtas, deixava  mostra. 
O velho Paes andava sempre 
de chinelos sem meias, e suas calas, muito frouxas, pareciam prestes 
a cair. Usava cabelo  escovinha, e tinha sobrancelhas grossas e 
rspidas sob as quais luzia 
tristemente um par de olhos duma mansido e duma ternura bovinas. 
Ningum na cidade vira Chico Po envelhecer, pois como desde moo 
andasse com a cabea sempre respingada 
de farinha de trigo, quando lhe chegaram os cabelos brancos os outros 
no deram por isso.
- Ento, Chico, que novidades me contas?
- Tudo velho.
O padeiro ficou a olhar melancolicamente para a figueira grande. Um 
menino descalo passou chutando uma bola de trapos, seguido por um 
cachorro.
- J foste ao Sobrado? - indagou Cuca. j
- Como vai o nosso grande homem?
47
- No pude falar com ele. Estava de cama. O mdico diz que ele 
precisa de descanso. Falei com dona Flora, ela disse que o dr. Rodrigo 
estava um pouco melhor...
- Mas parece que a coisa no tem jeito... Chico Po fez um gesto de 
desamparo.
Um homem como esse no devia morrer nunca, Cuca. 
a maior injustia do mundo. Por que ser que Deus no leva um 
pobre-diabo como eu e deixa viver um homem como o dr. Rodrigo?
- Deus sabe o que faz.
- s vezes at duvido... Deus que me perdoe!
- O povo tambm  muito ingrato e muito falso, Chico. Andam dizendo 
cobras e lagartos do nosso amigo...
- Que malvadeza! - exclamou o padeiro, sacudindo a cabea. - Se h 
no mundo criatura boa e direita,  o dr. Rodrigo. Eu que diga. Faz 
quase cinqenta anos que estou 
vizinhando com o Sobrado. Naquela casa s se come o nosso po desd'o 
dia que meu pai abriu esta padaria em 98 com o dinheiro que o finado 
coronel Licurgo emprestou 
para ele. E o po que eles esto comendo hoje  feito por estas 
mos - acrescentou, erguendo ambas as mos e olhando para elas com 
simpatia e um humilde orgulho. 
- O seu Curgo at brincava comigo: "Chico, tu no tem direito de 
adoecer nem morrer, porque se tu adoece ou morre, quem  que vai fazer 
o nosso po?
- Teu po sovado  um colosso - elogiou Cuca, batendo de leve no 
ombro do padeiro. -  o melhor da cidade.
Chico Po sorriu, mostrando os dentes midos e esverdeados.
- Todas as noites antes de ir pra cama o coronel Licurgo ia l em casa 
buscar po quente, recm-sado do forno, mesmo que chovesse ou 
casse raio. O Rodrigo e o 
irmo dele, o falecido Bio, quando eram meninos pulavam de noite a 
cerca, vinham at o forno onde eu estava trabalhando e diziam sempre a 
mesma coisa: -Tem po 
quente, seu Chico?" Isso todas as noites. O Rodrigo se formou, ficou 
doutor, veio clinicar aqui e continuou meu amigo, sempre tratou de mim e 
nunca quis me cobrar 
um tosto. Quando eu pedia a conta ele ria: "Tu j me pagaste, 
Chico, com aqueles
48
pes quentes, te lembra? Ainda estou te devendo..." Veja s que 
homem, Cuca.
- E uma grande alma - murmurou Cuca, olhando para os azulejos do 
porto do Sobrado e lembrando-se da noite em que, ainda menino, 
tentara roubar um dos ladrilhos, 
arrancando-o do muro com uma faca. - Um corao de ouro!
- Isso mesmo. Disse bem - um corao de ouro. Estava formado, era 
rico, querido de todo o mundo e nunca fez pouco de mim nem da minha 
gente, at tirava o chapu 
quando nos cumprimentava. Um dia peguei uma pnelmonia e quase embarquei 
pr outro mundo. Pois o dr. Rodrigo tratou de mim, passou noites em 
claro na minha cabeceira, 
e no descansou enquanto no me botou de p. Quando fiquei bom, 
disse assim pra ele: "Por que o senhor me salvou, doutor? No presto 
pra nada, sou um pobre coitado 
sem serventia, no valia a pena''. Sabe o que ele me respondeu, Cuca? 
So dessas coisas que a gente no esquece mais, nem que viva cem 
anos. "Mas Chico, tu  
um homem muito importante nesta cidade. O vigrio d o po pra 
alma e tu d o po pr corpo. Se morre o intendente, a gente faz 
uma eleio e escolhe outro. Mas 
se tu morre, quem  que vai ficar no teu lugar? No tem ningum na 
regio serrana que saiba fazer po cabrito to bem como tu." Veja 
s, Cuca, que corao! Homens 
como esse esto se acabando. Eu vi o corpo do finado Torbio velado 
na sala grande do Sobrado. Foi l tambm que velaram dona Alice e a 
velha Bibiana, que morreu 
com quase cem anos. Naquela mesma sala vi a filha querida do dr. Rodrigo 
entre quatro velas. S peo a Deus que no me deixe ver o 
velrio de mais ningum naquela 
casa.  demais.
Chico Po agora chorava de mansinho, e as lgrimas lhe escorriam 
pelo rosto. Fungou, olhou para a ponta das chinelas e perguntou:
- No quer ir l em casa um pouco, Cuca?
- No. Tenho que ir ver o Pitombo. Est na hora do chi'Tiarro.
Chico Po olhou na direo da Armadora Pitombo.
49
- Aquela casa de defunto ali perto do Sobrado at parece mau agouro. 
Quando olho pra l fico frio. O Pitombo de vez em quando vem pra porta 
e fica olhando pr Sobrado, 
parece que est esperando que venham dizer que o Rodrigo morreu e 
precisa dum caixo...
- Ele vive disso...
O padeiro fez uma careta de repugnncia. -- Mil vezes carregar pedra a 
ter que viver da desgraa dos outros.
- At logo, Chico.
O oficial de justia saiu a andar na direo da casa do Pitombo. 
Ao passar pela frente do Sobrado teve a curiosa impresso de que a uma 
das janelas ia surgir de 
repente algum para despejar-lhe em cima um balde d'gua fria. 
Lanou um rpido olhar para os olhos-de-boi pelos quais o poro da 
casa respirava. L  que tinham 
enterrado a recm-nascida... Agora era uma adega. Muitas vezes nos 
bons tempos ele entrara ali com o Rodrigo para escolher os vinhos mais 
velhos e lev-los para 
cima, onde amigos os esperavam. Que festas! Que tempos!
A Armadora Pitombo era uma casa de duas portas e duas vitrinas, nas 
quais estavam expostas velas, anjinhos, braos, mos e pernas de 
cera. No interior havia uma 
sombra fresca, quase fria, e nas prateleiras os gales, fechos e 
alas de metal brilhavam, em tons de prata e ouro, contra o negro dos 
esquifes. Cuca detestava o 
ambiente mas adorava o chimarro das cinco, onde costumavam reunir-se 
bons companheiros para uma prosa em que se falava muito da vida alheia e 
se contavam novidades. 
Quando menino, Cuca sempre evitava olhar para os caixes de defunto 
quando passava pela Armadora, naqueles tempos atendida pelo velho 
Pitombo, o qual, alm de vender 
artigos funerrios, era um hbil carpinteiro. O que mais apavorava 
Cuca eram os caixes brancos e pequenos, que sua me lhe dissera 
terem sido feitos especialmente 
para os "anjinhos".
O oficial de justia esperava encontrar o grupo de sempre reunido 
junto ao balco da Armadora e ficou um pouco decepcionado
50
 ao ver a sala vazia, pois no enxergou Pitombo, que estava 
sentado atrs do balco. Aos poucos, porm, a figura do armador 
foi emergindo da penumbra - primeiro 
a calva muito reluzente, depois as sobrancelhas grisalhas, os vidros dos 
culos, acavalados no narigo vermelho e lustroso, e por fim as suas 
famosas orelhas. Cuca 
parou junto da porta. Pitombo no lhe distinguiu as feies mas 
reconheceu-lhe o vulto.
-  de casa!
- Entra! - gritou Pitombo. - Ora viva, at que afinal. A turma hoje 
est atrasada. s o primeiro...
- Tambm estou um pouco atrasado...
- Abanque-se.
Cuca tirou o chapu, p-lo sobre o vidro do balco e sentou-se. 
Pitombo agarrou a chaleira de gua quente que tinha a seu lado, no 
cho, encheu a cuia e passou-a 
ao amigo.
- O amargo hoje est bom.
ele tinha uma voz de cana rachada e falava com excesso de saliva. Cuca 
estava ansioso por entrar logo no "assunto". Chupando na bomba de prata, 
lanava para o Sobrado, 
atravs da porta, olhares compridos e carregados de significao.
- Eu sei no que ests pensando... - rosnou Pitombo.
- Ento diz o que .
- No Rodrigo.
- Isso mesmo. Como foi que adivinhaste?
- Desde ontem ningum fala noutra coisa na cidade.
- E ento?
- Ento o qu?
- O homem morre ou no morre?
- Sou suspeito...
Cuca riu, deu um chupo na bomba, engoliu o lquido com minto 
rudo e depois perguntou:
Tu que ests aqui a bem dizer na boca do lobo, que  que me contas 
de novo?
i itombo cofiava a bigodeira grisalha. Tinha olhos cinzentos sobre os 
quais se franziam as plpebras moles e arroxeadas. Duas rugas lhe 
saam das aletas do nariz 
e desciam, profundas, at a
51
comissura dos lbios, dando-lhe  fisionomia uma permanente 
expresso de azedume.
Muitas vezes ali naquela casa tinham discutido Rodrigo Cambar  
hora do chimarro. Pitombo tambm fora seu colega de curso 
primrio, e todos sabiam que o armador 
invejava o homem do Sobrado. Na presena de Rodrigo tratava-o com uma 
cortesia adulona: pelas costas dizia horrores dele, mas da maneira mais 
inocente, assim com 
um ar vago e apalpador de quem no se quer comprometer antes de saber 
a opinio do interlocutor. Dizia-se que nunca esquecera ter sido 
Rodrigo quem no colgio lhe 
pusera a desagradvel alcunha de "Filho do Defunteiro". Era por isso 
que at hoje - sabia-o Jos Pitombo - ele era conhecido na cidade 
como Z Defunteiro.
- No h nada como um dia depois do outro - filosofou o armador, 
brincando com a grande tesoura que jazia sobre o balco. - Todos eles 
acabam aqui...
Fez com a beiola esticada um sinal na direo dos atades. Cuca 
devolveu-lhe a cuia, que o dono da casa tornou a encher.
- Ricos, pobres e remediados, doutores, deputados, caixeiros de loja, 
todos acabam aqui. Pra uns, caixes de madeira de lei, com fechos e 
alas de metal. Pra outros, 
caixes ordinrios de pinho cobertos de fazenda barata. Mas no fim 
d no mesmo. Todos vo pra baixo da terra. E apodrecem!
Pitombo falava com certa volpia.
- Primeiro eles se estragam por a - prosseguiu - nos cafs, no 
Ponto Chie, no cinema; em todos esses lugares gastam o dinheiro e a 
sade. Quando se sentem mal, 
gritam pelo mdico, quando esto agonizando chamam o padre, mas  
no velho Pitombo que todos acabam. Eu sou mega, o fim.
- No acreditas na imortalidade da alma?
- Sei l! O que sei  que o corpo acaba aqui. O que vem depois  
outro assunto, ningum tem certeza. Vanitas, vemitatum, et amnia 
vanitas, como dizia o Eclesiastes.
- Ests bom no latim. Devias ter estudado pra padre - disse Cuca, 
levando a ponta dos dedos s narinas.
52
- De que me serviu estudar? Aprendi o meu latim, a minha lgebra, a 
minha histria, o meu portugus. De que serviu? O Cervi mal sabe 
assinar o nome e est milionrio. 
O Porfrio Fagundes  analfabeto e tem mais campo do que no sei 
qu. De que me serviu estudar? H um verso que diz:
Se fores ao rio pescar E a fortuna te no deixe, Atira a rede e espera 
Quanto mais burro, mais peixe.
Cuca soltou uma risada que lhe descobriu todos os dentes cie
ouro.
- Mas o Rodrigo  inteligente e venceu na vida - objetou ele.
- O Rodrigo nasceu em bero de ouro e prpura e criou-se no meio da 
abastana. E o meio  tudo, Cuca.
O oficial de justia cruzou as pernas e perguntou:
- Tu acreditas mesmo em todas essas coisas que dizem dele?
- Vox populi, vox Dei.
- Hein?
- Voz do povo, voz de Deus.
- Tu falas com um sujeito e ele te diz que o dr. Rodrigo  o melhor 
homem do mundo. Falas com outro e ele te garante que o dr. Rodrigo  
um canalha.
- Tudo  relativo na vida. Ns todos temos muito de anjo e muito de 
demnio dentro de ns.
Naquele instante Cuca olhava para o anjo de cera que, do interior do 
balco envidraado, parecia fit-lo com seus olhos vazios.
- E o dr. Rodrigo ser mais anjo que demnio?
- Isso  uma questo de ponto de vista. Depende...
- E. Depende...
Pergunte pr Mane Lucas o que  que ele pensa do Rodrigo, e ele te 
dir que o Rodrigo  um miservel, um infame. E sabes por qu? 
Porque um dia o Mane Lucas convidou 
o Rodrigo para batizar-lhe a filha... O Rodrigo batizou, a menina 
cresceu e
53
quando ela chegou ali pelos dezesseis, o padrinho meteu-se com ela e 
desonrou-a.
Cuca endireitou o busto bruscamente, animado.
- Foi mesmo?
Pitombo mirou-o com estranheza.
Tens a memria fraca, Cuca. Ento no te lembras? Foi
em 1918, no tempo da espanhola...
 mesmo, agora me lembro. At comentaram muito.
Primeiro o Mane quis matar o dr. Rodrigo, depois acomodou-se. Dinheiro 
arranja tudo. O escndalo foi abafado e acabaram comprando um 
pobre-diabo pra casar com a 
menina.
- Essa  formidvel, Pitombo!
- Pois . Pergunta pr Tnico Cabral o que  que ele acha do 
nosso homem. Vai te dizer que  Deus no cu e o dr. Rodrigo na 
terra. O Cabral estava mal de negcios, 
com uma letra protestada e ia meter uma bala na cabea quando o dr. 
Rodrigo apareceu, a bem dizer tirou o revlver da mo dele e 
emprestou-lhe, qual!, deu-lhe de 
presente, vinte contos pra pagar a dvida. O Tnico endireitou a 
vida e est a hoje feliz e prspero.
Cuca olhava pensativo para as bochechas do anjo de cera. Pitombo 
perguntou:
- Tu te recordas daquele fiscal do imposto de consumo que andou por aqui 
em novecentos e dezenove ou vinte? No me lembro do nome dele. Pois um 
dia o homem chamou 
o Rodrigo pra ver a mulher que estava adoentada, e deixou os dois 
sozinhos no quarto. Quando voltou e entrou sem bater, encontrou o 
Rodrigo deitado na cama com a 
paciente, aos beijos e abraos. No deu um tiro nos dois por falta 
de coragem. Mas pediu transferncia para outro lugar e parece que 
acabou abandonando a desgraada.
Pitombo ergueu-se e foi at a porta. Cuca seguiu-o e ambos ficaram a 
olhar para as janelas laterais do Sobrado.
- Depois que chegaram no botaram nem a cabea pra fora de casa - 
contou o armador.
- Por que ser?
Pitombo encolheu os ombros.
54
- No sei. No quero nem mandar perguntar como vai o doente. Podem 
pensar que estou esperando que ele morra pra vender um caixo...
- Que situao, hein, Pitombo?
O sol da tardinha envolvia o Sobrado, laminando-lhe as vidraas dum 
ouro vivo e coruscante.
- O homem teve outro ataque ontem ao anoitecer... A coisa foi feia, e 
quando vi o padre Josu sair da igreja todo paramentado e entrar no 
Sobrado, cheguei a separar 
os castiais, o pano preto e tudo mais. Passei a noite sem dormir 
direito, esperando a todo o momento que viessem bater na porta.
Da cozinha da casa armadora chegava at a loja um cheiro de fumaa e 
carne assada, que Cuca aspirava com delcia.
Voltaram ambos para junto do balco e Pitombo gritou para a mulher que 
lhe trouxesse mais gua quente. E depois, olhando para o amigo, disse:
- Enquanto o Rodrigo andava l pelo Rio no seu bom Cadillac, gozando a 
vida, jantando com o Getlio no Palcio Guanabara, indo ao Municipal 
de casaca, passando os 
fins de semana no Quitandinha; enquanto o Rodrigo dormia com lindas 
mulheres, o velho Pitombo estava aqui no batente, comendo feijo e 
arroz, vendendo caixo de 
defunto, trabalhando de sol a sol e s vezes pulando da cama de 
madrugada para atender um fregus. A vida  assim mesmo, Cuca. Olha 
bem. Nasci na mesma cidade onde 
o Rodrigo nasceu, sou de carne, osso, e nervo como ele; o pai dele no 
era melhor que o meu; no colgio sempre tirei notas melhores que as do 
Rodrigo. E no entanto, 
Cuca, por que  que nosso destino foi to diferente, ele tendo tudo 
e eu quase nada? Por qu?
- Injustias...
- Nunca fiz mal a ningum, desde que me casei s tive uma mulher: a 
que recebi perante Deus e o padre Kolb, ali na igreja do outro lado da 
rua. Nunca desgracei moa 
nenhuma, nunca me meti em politicagem, ganho honestamente a minha vida e 
trabalho como um cavalo. Mas veja o que eu tenho e o que o Rodrigo tem. 
Quando ele morrer, 
o retrato dele vai aparecer em todos os jornais pelo brasil com elogios 
deste tamanho, e todos vo dizer: "Era um
55
grande homem, um grande patriota". Quando o Pitombo morrer, o mais que 
podem dizer, meio rindo, : "O Defunteiro esticou a canela". Por que, 
Cuca?
O outro procurou consol-lo.
- Mas acontece que o Rodrigo est l estendido na cama, com o 
corao em petio de misria, e tu aqui forte e so de
lombo.
- Isso no  consolo. Olha as coisas que ele gozou e fez, enquanto 
eu estava aqui neste ramerro, nesta obscuridade. E, depois, no 
tenho sade como pensas. Bem 
sabes que sou um poo de doenas.  a asma, a bronquite e agora me 
apareceu uma furunculose que est me deixando quase doido.
Ficou de repente muito abatido, como se s ento tivesse sentido o 
peso de todos aqueles males. O anjo de cera olhava para os dois amigos e 
parecia entender as coisas 
tristes que diziam.
A mulher do Pitombo gritou da cozinha:
- J vai a gua. Est no fogo.
O armador aproximou-se duma prateleira, voltou a cabea para o oficial 
de justia e disse:
- Vem c, Cuca. Na tua opinio, que altura tem o Rodrigo? Cuca ficou 
um instante a pensar.
- Um metro e setenta e cinco... por a.
- Ests vendo este caixo? - Apontou para um pesado esquife de 
madeira negra esculpida, com um crucifixo prateado sobre a tampa. - Este 
caixo serve bem pra um homem 
do tamanho do Rodrigo. Mandei fazer esta beleza quando o velho Macedo 
adoeceu e todo mundo dizia que ele ia morrer.  a mercadoria mais cara 
que tenho em casa. No 
 pra qualquer um. Poucas pessoas em Santa F podem dar-se o luxo de 
ir pr cemitrio dentro duma
preciosidade destas.
Fitou em Cuca os olhos empapuados e melanclicos.
- Pois o velho Macedo se salvou e at hoje anda por a, forte como 
um jequitib. Mas nunca me passou pela cabea, Cuca, que este 
caixo ainda pudesse vir a ser pr 
Rodrigo, meu amigo de infncia...
- Veja s como so as coisas...
56
Pitombo sorria. Foi numa surdina quase potica que contou:
- Estou me lembrando duma coisa muito interessante que aconteceu quando 
eu, o Rodrigo e o Torbio ramos meninos. O Bio costumava dizer:
"Z, o que ser que a gente sente dentro dum caixo de defunto?" 
"Como  que vou saber, respondi, se nunca fui defunto?" Pois o diabo 
do rapaz aproveitou uma hora 
que meu pai estava sesteando, entrou aqui na loja, abriu um caixo e 
se meteu dentro. Eu me lembro bem: era um atade fino, coberto de 
cetim preto, com enfeites 
dourados.
Cuca escutava, atento, cheirando a ponta dos dedos.
- E tu sabes duma coincidncia horrvel? - continuou o armador. - 
Trs dias depois, dona Alice, me do Rodrigo e do Torbio, morreu 
e foi enterrada justamente nesse 
caixo.
Cuca sentiu um frio mal-estar, pois naquele momento surpreendia-se a 
perguntar mentalmente dentro de qual daqueles caixes seria ele 
enterrado...
Naquele mesmo dia, ao anoitecer, circulou pela cidade a notcia de que 
Rodrigo Cambar tinha vencido a crise e estava, pelo menos 
momentaneamente, fora de perigo. 
Cuca Lopes jantou s pressas a fim de poder sair cedo para a rua a 
catar novos boatos e espalhar os que sabia. Enfiou na cabea o 
amassado chapu-carteira e, mastigando 
um palito, seguiu rua do Comrcio acima, na direo da praa da 
Matriz. Na rua principal de Santa F havia quela hora um grande 
movimento, principalmente nas quadras 
onde ficavam o Cinema Recreio, o Caf Minuano, a Confeitaria 
Schnitzler e o Clube Comercial.
Na praa da Matriz, mocinhas passeavam aos bandos pelas caladas, 
fazendo voltas completas ao quadrado, em passo lento, enquanto os 
rapazes se deixavam ficar sentados 
nos bancos ou de pe junto do meio-fio, vendo-as desfilar. A noite estava 
calma e liesca, e ao olhar para uma das torres da igreja, Cuca teve a 
impresso de que o 
galo do cata-vento tinha a lua cheia espetada no bico. Nas extremidades 
dos postes nova-lux, as esferas de loua rana que protegiam as 
lmpadas, pareciam outras 
tantas luas. O
57
perfume das flores do cinamomo, mais ativo desde o anoitecer,
embalsamava o ar.
Cuca notou que as janelas do Sobrado estavam rodas iluminadas como para 
um baile. Atravessou a praa em passadas rpidas, foi sentar-se num 
banco de cimento situado 
na calada fronteira  casa de Rodrigo Cambar, e dali se ps a 
olhar intensamente para
suas janelas.
Algum se sentou a seu lado. Cuca voltou a cabea e reconheceu no 
recm-chegado o velho Jos Lrio, com o chapu desabado sobre os 
olhos e seu inseparvel bengalo 
de unicrnio.
-  Liroca! Ento no conhece mais a gente?
O outro levou algum tempo para responder: a sombra dum pltano 
escurecia o rosto de Cuca. Por fim, identificando o companheiro de 
banco, o velho exclamou:
- Cuca! Boa noite, vivente. Apertou-lhe molemente a mo.
- Ento, que  que h de novo, Liroca velho?
Era bom estarem num lugar sombrio - refletiu Cuca - pois ele no podia 
ver os enormes cravos pretos no narigo de Liroca sem ficar com uma 
vontade desesperada de 
esprem-los.
- Tudo velho, triste e acabado - respondeu Jos Lrio. - Este mundo 
no tem mais compostura.
Cuca coava nervosamente a coxa. Liroca era amigo da gente do Sobrado; 
devia saber de muita coisa...
- Ento, j foste visitar os Cambars?
Liroca puxou um longo pigarro antes de responder:
- Os amigos so pras ocasies. E h ocasies em que a gente deve 
respeitar a intimidade dos amigos. A cada passo mando saber como vai o 
Rodrigo. S isso  que me 
interessa agora. Se eu fosse me meter l dentro, podiam pensar que eu 
queria bisbilhotar.
- Ningum ia pensar uma coisa dessas.
- Ia sim, Cuca, e tu eras o primeiro. O Rodrigo e a famlia devem 
estar atravessando um desses momentos danados em que a gente s quer 
ficar sozinho pra pensar.
Liroca voltou o olhar para o Sobrado.
- Mundo velho sem porteira! - exclamou, com voz cheia de mgoa. 
Depois, apontando para o casaro com a bengala, acrescentou: - No 
posso ver essa casa sem me lembrar 
de 93...
Para evitar que Liroca repetisse uma histria que toda a gente estava 
cansada de saber, Cuca adiantou-se:
- Eu sei. O Sobrado estava cercado pelos federalistas, e te mandaram 
ficar de vigia na torre da igreja, no foi? J me contaste.
Liroca, entretanto, no lhe deu ouvidos. Com o olhar focado sempre no 
Sobrado, parecia estar falando mais para si mesmo do que para o homem 
que se achava a seu lado.
- Me lembro como se a coisa tivesse acontecido ontem - prosseguiu, com a 
voz apagada. - Foi numa noite de So Joo e dona Alice estava pra 
ter uma criana, a coitada, 
que Deus a tenha. Fiquei ali na torre de olho vivo, bombeando o quintal 
do Sobrado, e de repente vi um vulto se mexendo devagarinho...
- Era um dos homens do coronel Licurgo que ia buscar gua - 
interrompeu-o Cuca. - Eu conheo a histria.
- Pensei c comigo: atiro ou no atiro? O homem vai buscar gua 
prs meninos, pra dona Alice, pra dona Maria Valria e pra dona 
Bibiana, to velhinha. No sejas 
bandido, Liroca, disse c com os meus botes, d um tiro pr ar. 
E dei.
- E do Sobrado veio uma bala que bateu no sino e tu levaste um bruto 
susto... j sei.
Cuca cheirava a ponta dos dedos. Aquelas histrias de 93 no o 
interessavam. Ele ardia por saber o que se estava passando dentro do 
Sobrado agora.
- Mundo velho sem porteira! - repetiu Liroca. - Depois que a 
revoluo terminou, muitos companheiros se bandearam pr outro 
lado do Uruguai. Eu fiquei, me entreguei, 
me prenderam nuis depois fui solto. Nunca mais o Curgo quis olhar pra 
mim, me virava a cara na rua, eu vivia rondando o Sobrado assim como um 
cachorro escorraado. 
Tu sabias que eu quis casar com dona Maria Valria e ela nunca me deu 
confiana?
- Todo o mundo sabe disso - respondeu Cuca, impaciente. - Pois . 
Depois que a revoluo terminou, ela me cortou
tambm o cumprimento.
58
59
Liroca suspirou- Um cachorro comeou a ladrar, longe. As raparigas 
Passavam pela calada, e Cuca namorava-lhes casualmente
as pernas.
Poi s em 1911 - prosseguiu Jos Lrio -, no tempo da
campanha civilista, que voltei ao Sobrado, graas ao Rodrigo. Ele 
insistiu tanto com o Pai que o Curgo acabou dizendo: "Pois traga esse 
homem. O que- passou passou". 
E no dia que entrei naquela casa quase me lavei em Pranto no tenho 
vergonha de contar. Tudo graas ao Rodrigo! Ento no hei de 
querer bem a esse homem? E se no 
emterrei a espanhola tambm foi graas a ele. E a Deus - 
acrescentou com alguma relutncia.
Se tu tivesses morrido - disse-lhe Cuca em pensamento
no se perdia nada. Mas vaso ruim no se quebra...
Um vulto apareceu numa das janelas do casaro. Cuca ficou
alvoroado:
Quem ser aqule l? - perguntou. - Acho que  o
Eduardo...
Liroca pareceu no ter ouvido, porque disse:tenho a impresso que o Sobrado agora
tambm est cercado como em 95.
- Cercado? Como?
- Sim Cuca sitiado. Os Cambars esto l dentro, acabam de 
perder uma batalha e todos ns estamos aqui fora dormindo na pontaria.
- Que comParao boba! - boba, no. Pensa bem. Tu e todos os outros esperam 
loucos que eles se entreguem e saiam de cabea baixa, desmoralizados. Que ideia, um Cambar no se entrega. Ouve bem o que te digo.
Ningum est dando tiro no Sobrado.
Liroca sacode a cabea numa lenta e convicta afirmativa. No esto dando tiro de espingarda nem
de revlver mas esto dando tiro com a lngua, esto falando 
mal da famlia. Cuca ningum briga a peito descoberto, todos ficam 
de tocaia, atiram a traio.
Cuca sentiu que a conversa chegava aonde ele queria.
60
- E muitos desses que falam mal do Rodrigo - continuou o velho - j 
comeram na mesa dele, j beberam o vinho dele, j receberam favores 
das mos dele. Mas o mundo 
 assim mesmo. Bem dizia o finado meu pai que...
Calou-se, sem revelar o que o finado dizia.
- Mas tu achas, Liroca, que tudo que contam do Rodrigo  mentira?
Jos Lrio voltou o rosto para o interlocutor.
- O Rodrigo  meu amigo, e para mim amizade  coisa sagrada. 
Ningum  perfeito, s santo, e lugar de santo  no altar ou no 
cu, no neste mundo. Homem sem defeitos 
no  bem homem.
- Mas tu no conheces a vida que o Rodrigo levou no Rio depois de 
30...
- E tu conheces? Tu estavas l?
- No, mas ouvi dizer...
- Pois eu tambm ouvi dizer que andas metido com a mulher do Mendes da 
fbrica de sabo.
-  uma mentira! - vociferou Cuca, ficando muito vermelho mas achando 
melhor no insistir no assunto.
- Pois . Tu vs como o povo fala sem motivo.
- Mas com o Rodrigo  diferente, Liroca.
- No sei por qu...
- Ainda hoje encontrei a Anaurelina do Ponto Chie... Sabes o que ela me 
contou? Que foi o Rodrigo quem fez mal pra ela.
- Gabolices daquela mulata. O que ela quer  se dar importncia.
- No te lembras duma menina afilhada do Rodrigo?
- No me lembro de nada e acho melhor ires calando a boca.
Cuca teve vontade de esbofetear o velho, que estava simplesmente 
deitando a perder uma conversa que podia ser to saborosa e cheia de 
revelaes. Ningum conhecia 
Rodrigo melhor do que Jos Lrio, que por tantos anos vivera no 
Sobrado,  sombra dos Cambars.
- Eu s estou repetindo o que dizem por a - explicou Cuca, 
cauteloso. - Tambm sou amigo do Rodrigo, devo muitos
a ele.
61
- E quem no deve neste municpio e em muitos outros? Nunca vi homem 
de melhor corao nem amigo mais leal. O que era dele era do 
prximo. Ningum fazia nenhuma
injustia perto do Rodrigo porque ele estava sempre do lado do mais 
fraco.
- Isso  verdade...
Liroca comeou a enrolar um cigarro. As raparigas continuavam a 
passar, tagarelando e rindo.
- E se o Rodrigo tem defeitos - rematou o velhote, com um certo riso na 
voz - so defeitos lindos. - Repetiu com sigo:
- Lindos defeitos. Lugar de santo  na igreja ou no cu, no neste 
mundo velho sem porteira!
Levou o cigarro  boca e acendeu-o. Cuca continuava a olhar para as 
janelas do Sobrado, por trs de cujas vidraas passavam vultos.
- Pra mim o Sobrado  como uma pessoa, como um amigo...
- prosseguiu Liroca. - L dentro passei as horas mais felizes da minha 
vida. Muita festa boa deu o Rodrigo depois que se formou... E por falar 
nisso, nunca me esqueo 
do dia que ele veio de Porto Alegre com o diploma de doutor. Me lembro 
muito bem: 20 de dezembro de 1909. Por sinal foi um vero muito quente 
e todo o mundo andava 
assustado porque diziam que em maio de 1910 ia aparecer um grande 
cometa, bater com o rabo na terra e o mundo ia a gaita. Lorotas! O mundo 
se acaba mas  pra quem 
morre. Mas, como eu ia dizendo - continuou, mudando de tom dando um 
chupo no cigarro -, quando correu a notcia que o Rodrigo ia 
chegar, pensei c comigo: Quero 
ser o primeiro a abraar esse menino. Encilhei o cavalo e de manh 
cedinho, sem dizer nada pra ningum, me toquei pra estao de 
Flexilha e l fiquei esperando o 
trem, perto dos trilhos. Como sempre, o bruto chegou atrasado e tive de 
ficar uma boa hora na soalheira. Mas valeu a pena, Cuca, valeu. Porque 
eu queria que tu visses 
a cara do Rodrigo quando me avistou. Pulou do trem e veio correndo me 
abraar...
Jos Lrio calou-se e soltou, junto com a fumaa que tragara, um 
suspiro de saudade arrancado das profundezas do peito.
62
Chantecler
Rodrigo saltou do trem e precipitou-se a correr na direo de 
Liroca.
- Cuidado, moo! - exclamou um homem que estava  janela do vago. 
- A demora aqui  curta.
Alvoroado, Liroca apeou do cavalo e foi ao encontro do amigo. 
Atiraram-se um nos braos do outro e ficaram por algum tempo a se 
darem sonoras palmadas nas costas.
- Liroca velho! - exclamou Rodrigo. - Que surpresa agradvel!
A princpio o outro estava como que engasgado; por fim con-
seguiu falar:
- Pois . Vim especialmente pra te esperar. Quis ser o primeiro a te 
abraar.
Rodrigo sentia o cheiro acre e quente da pele suada de Jos Lrio, e 
via-lhe os olhos muito injetados, pisca-piscando  luz crua daquele 
meio-dia de dezembro.
- Sei que s meu amigo de verdade, Liroca - disse, segurando com ambas 
as mos os braos do outro.
- At debaixo d'gua, menino. Pr que der e vier.
- E como vai tua gente?
- Minha gente agora sou eu mesmo. Depois que a titia morreu, faz seis 
meses e oito dias, fiquei sozinho no mundo.
- Ainda tens amigos!
- Mas no so muitos, Rodrigo.
- Qual o qu!
63
Os lbios de Liroca tremeram, como se ele estivesse prestes a romper 
o pranto. De repente desabafou:
- O Sobrado ainda est fechado pra mim - queixou-se. - Teu pai no 
quer saber do Liroca. Nem ele nem dona Maria Valria.
- Temos que dar um jeito nisso, homem. Os meus amigos tm de ser 
amigos de meu pai.
Liroca baixou os olhos para a terra cor de ferrugem.
- Qual! A coisa no tem mais compostura.
Olhando por cima do ombro do amigo para a plataforma da estao, 
Rodrigo viu o agente, de bon escarlate, puxar na corda do sino, dando 
o sinal de partida. A locomotiva 
apitou. Rodrigo tornou a abraar Liroca e depois afastou-se dele na 
direo do trem, que comeava a movimentar-se. Voltou-se ainda 
para perguntar:
- Esto me esperando na estao?
- Com banda de msica! - bradou Liroca, as lgrimas a lhe escorrerem 
pelas faces, misturadas com o suor. - At por l!
- At por l!
Rodrigo saltou para a plataforma do ltimo carro e dali ficou a acenar 
para o amigo, tomado duma sensao que ele prprio achava 
difcil descrever. A expectativa 
da chegada deixava-o numa exaltao nervosa,  qual se juntava a 
irritao causada pelo calor e pelo desconforto daquela viagem 
longa, poeirenta e cansativa. No 
conseguira dormir no hotel de Santa Maria, onde pernoitara, e agora ali 
estava com uma sensao de vcuo na cabea, os olhos pesados, a 
fome como que a broquear-lhe 
o estmago.
As coxilhas se estendiam, cobertas de macegas,  luz intensa do sol a 
pino, e do cho escaldante subia um trmulo vapor. Por alguns 
instantes Rodrigo permaneceu 
na plataforma a contemplar o campo e o cu, a aspirar, meio nauseado, 
a fumaa de carvo de pedra que a locomotiva despedia, e a ouvir o 
tantar cadenciado das rodas. 
Era um rudo evocativo, aquele. Veio-lhe  mente a imagem de 
Torbio. Quando meninos ele e o irmo gostavam de correr ao lado dos 
trens (ah, que fascinante mistrio 
envolvia a palavra Auxiliaire pintada nos costados dos vages!) 
procurando imitar a voz resfolegante da locomotiva: j te pego j te 
largo - j te pego j
64
K largo... Pensando nisso, os olhos postos nas paralelas coruscantes dos 
trilhos a fugirem vertiginosamente para o horizonte, Rodrigo foi ficando 
tonto, de sorte 
que,  sensao de fome, cansao e irritao, misturou-se a 
de vertigem e nusea. E suando frio, sentindo asperamente nos lbios 
partculas de poeira e carvo, voltou 
meio cambaleante para seu lugar, atirou-se no banco, reclinou a cabea 
contra o respaldo e cerrou os olhos.
- Quer uma banana?
Rodrigo abriu os olhos. Quem lhe fazia a pergunta era o irmo marista 
que embarcara em Santa Maria e com o qual viera palestrando desde o 
amanhecer. Ali estava  
sua frente o jovem religioso, com sua cara simptica e rosada, os 
olhos dum lmpido azul, o cabelo  escovinha. Sorria dum modo 
aliciante, embora um pouco tmido, 
e lhe oferecia uma banana.
Rodrigo ia recusar, mas, pensando em que o enjo talvez viesse do fato 
de ter o estmago vazio, tomou da banana e agradeceu.
Descascou-a, sempre com a cabea recostada, e comeou a com-la. 
Naquele instante entrou no carro um homenzarro que vestia um 
pala-poncho de seda e bombachas pretas, 
trazendo  cabea um chapu de abas largas com barbicacho. 
Negrejava-lhe, na face bronzeada de olhos oblquos, um bigode espesso. 
O homem caminhava com grande estardalhao, 
gritando com licenas que mais pareciam ordens que pedidos. Trazia 
debaixo do brao esquerdo a mala de pano, e debaixo do direito os 
arreios. Cabeas voltaram-se 
para o recm-chegado que, parando ao lado do marista, exclamou:
- Ainda que mal pergunte, moo, este lugar tem dono?
- No tem, no senhor - respondeu o marista, com ar submisso, ao 
mesmo tempo que se afastava para junto da janela, a medida de fazer espao 
para o outro. O gacho sentou-se, 
depois de acomodar a mala e os arreios num vo entre dois bancos.
Rodrigo entreabriu os olhos e fitou-os no novo companheiro de viagem. 
No o conhecia.
65
- Que calor, no? - disse o irmo, para puxar conversa.
- E o senhor metido nessa batina deve se ver mal, hein? - observou o 
desconhecido. Tirou o chapu e o pala e afrouxou o n do leno 
encarnado que lhe envolvia o 
pescoo. Olhou para o marista de soslaio e em voz alta, para que todos 
ouvissem, disse:
- Tem padre no trem.  por isso que esta geringona est atrasada.
O religioso sorriu amarelo e observou:
- Oh! Creio que isso  apenas uma superstio. Era francs e 
falava com erres rascantes.
O outro soltou uma risada, que terminou num acesso de tosse.
- Mas o senhor no v ficar brabo comigo - pediu, com os olhos 
cheios de lgrimas. - No falei por mal. Gosto de brincar com as 
pessoas. Sou um tal de Maneco Vieira, 
tropeiro.
Estendeu a mo calosa, que o marista apertou timidamente, murmurando:
- Irmo Jacques Meunier.
- Muito prazer.
O tropeiro comeou a fazer um cigarro. O marista contou que ia 
lecionar no Colgio Champagnat, em Santa F. Maneco Vieira explicou 
a razo por que estava no trem 
com seus arreios. Tinha ido levar uma tropa a certa estncia nas 
proximidades da estao de Flexilha e um touro xucro lhe matara o 
cavalo com uma chifrada.
- No tive outro remdio seno entrar nesta droga - concluiu.
Vendo Rodrigo abrir os olhos, o marista disse:
- Pois esse cavalheiro a tambm  de Santa F. Acaba de 
formar-se em medicina pela faculdade de Porto Alegre.  o dr. Rodrigo 
Cambar.
O tropeiro franziu o cenho.
- Cambar? Parente do coronel Licurgo?
- Filho - respondeu Rodrigo, endireitando o busto.
- No diga! - exclamou o gacho, apertando a mo do rapaz com 
efuso. - Muita tropa vendi pr seu pai.  um homem muito direito, 
dos antigos.
66
Entrecerrou os olhos e fitou-os longamente no rosto de Rodrigo, como 
para estud-lo melhor.
- Mas no me lembro do senhor. Conheo bem  o seu mano, o 
Torbio.
- Tenho estado sempre em Porto Alegre estes ltimos anos... Rodrigo 
percebeu que o tropeiro o examinava da cabea aos
ps, detendo o olhar crtico sobre suas botinas de verniz com cano 
de camura.
- Pelo que vejo - observou Maneco Vieira - o amigo agora j tem 
licena do governo para matar gente, no?
Disse isso e soltou uma gargalhada. O marista olhou vivamente para 
Rodrigo, como para ver se devia ou no achar graa na observao 
do tropeiro; e como visse o moo 
sorrir, sorriu tambm, mas  sua maneira tmida e vaga.
Rodrigo contemplava o gacho com simpatia. Gostava do tipo, que lhe 
lembrava um pouco o velho Fandango.
- Queira Deus que o senhor no venha a cair um dia nas minhas mos! 
- troou ele.
O tropeiro picava fumo com seu faco de lmina enferrujada.
- Nunca fiquei doente em toda a minha vida, moo - retrucou ele, 
botando a faca na bainha e comeando a amassar com a mo direita o 
fumo depositado no cncavo da 
esquerda.
Desde que a viagem comeara, Rodrigo fizera camaradagem praticamente 
com quase todos os passageiros do vago. Discutira poltica com o 
coronel da Guarda Nacional 
que embarcara em Restinga Seca e era partidrio da candidatura do 
marechal Hermes  presidncia da Repblica. Empenhara-se num 
torneio de anedotas com um caixeiro-viajante 
que descera do trem em Cachoeira. Em Santo Amaro, ao ver na estao 
uma velhinha solitria prestes a embarcar, tomou-lhe do ba de lata, 
ajudou-a a subir para o 
carro, acomodou-a num banco e passou o resto da viagem a cuidar dela, 
dando-lhe frutas, trazendo-lhe gua, chamando-lhe todo o tempo de 
vov. Em Santa Maria levara-a 
para seu hotel, pagara-lhe todas as despesas e no dia seguinte tornara a 
acomod-la no trem da serra, num banco ao lado do seu. Agora l 
estava ela, com sua cara 
murcha e terrosa, e seus olhos lquidos; de quando em quando,
67
sorria para Rodrigo como a dizer-lhe: "A velha ainda est aqui e vai 
indo muito bem. Obrigado por tudo, meu filho".
Maneco Vieira comeou a fazer perguntas sobre o Angico, a estncia 
dos Cambars. Rodrigo respondeu-as como pde e deixou morrer a 
conversa. Queria agora ficar em 
silncio e paz para pensar. Dentro de vinte minutos estaria em Santa 
F, e isso o deixava comovido. Daquela vez no se tratava de voltar 
apenas para as frias de 
vero: ficaria para sempre. Para sempre! E a idia de que terminara 
o curso e ia comear a viver, mas por conta prpria, com 
responsabilidade de mdico e talvez 
muito breve (quem sabe?) de chefe de famlia - causava-lhe um 
alvoroo agradvel. Tornou a recostar a cabea no respaldo do 
banco e a fechar os olhos. O trem corria 
agora com maior velocidade; o vago sacolejava e as rodas continuavam 
no seu matraquear duro e ritmado.
- Vamos socando canjica, padre - gritou Maneco Vieira.
Rodrigo sorriu sem descerrar os olhos. Pensava nos colegas a quem havia 
pouco dissera adeus: via-os desfilar em companhia das muitas pessoas que 
tinham povoado seu 
mundo de estudante: os hspedes da penso onde passara o ltimo 
ano; o bedel da faculdade, com sua asma e suas casmurrices; o 
encarregado do necrotrio, com sua 
quebradeira crnica, sempre a pedir dinheiro aos acadmicos, a 
criadinha morena que arrumava os quartos da penso, e que passara pela 
cama de todos os hspedes solteiros; 
namoradas efmeras que tivera na Cidade Baixa, moas janeleiras que 
cheiravam a Corilopsis do Japo ou Floramie de Pivert... Cenas da 
cerimnia da colao de grau 
passaram-lhe rpidas pelo campo da memria, como paisagens noturnas 
entrevistas fugazmente  luz de relmpagos. Mas foi com uma lenta 
volpia que ficou a recordar 
a ltima farra que fizera com os colegas na casa de Mlanie. Que 
grande mulher! Emprestava dinheiro aos estudantes quando estes estavam 
em apertos, e cuidava deles 
quando adoeciam. A turma mantinha com ela uma espcie de 
conta-corrente que nunca chegava a encerrar-se; e agora que os 
recm-formados voltavam para suas casas, 
em diversas localidades do estado, a conta ficaria com um eterno saldo 
favorvel  francesa. Mlanie merecia um monu-
mento!
68
Era curioso - refletia Rodrigo - mas a voz daquele marisca lhe lembrava 
a da prostituta. Abriu os olhos, fitou-os no rosto do religioso, que 
comia uma banana, enquanto 
o tropeiro lhe descrevia um duelo a faco que presenciara no 
municpio de Soledade, entre dois estancieiros.
- Ficaram os dois estendidos no campo, se esvaindo em sangue...
Rodrigo voltou a cabea para a direita a fim de ver como estava sua 
''av". A velhinha dirigiu-lhe um sorriso tranqilizador, e ele, 
sorrindo tambm, tornou a fechar 
os olhos.
Num banco prximo, dois homens conversavam em voz muito alta sobre o 
cometa de Halley. Almanaques e jornais marcavam o aparecimento do 
grande cometa para maio do 
ano prximo. Temia-se a possibilidade de sua cauda bater na Terra, 
partindo-a em pedaos.
- E se bater - disse um dos homens, com sotaque alemo - kapiitr. Era 
uma vez a Terra.
O homem com quem o teuto-brasileiro conversava, um velhote magro que 
fumava um toco de charuto, tinha uma voz estrdula:
- Vai ser um castigo de Deus - proclamou ele - por causa das malvadezas 
do nosso mundo. O senhor se lembra do que aconteceu na Rssia h 
cinco anos? O czar mandou 
massacrar o povo. Depois, foi aquela guerra braba com o Japo. Tivemos 
o desastre do Aquidab. E a vergonheira de Canudos. Ns aqui mesmo 
no estado vimos o caso 
dos fanticos do Ferrabrs, os Muckers. Isso para no falar nos 
banditismos e nas ladroeiras da politicagem. Lhe digo, amigo, o mundo 
est bem louco. No duvido 
que Deus ande com tenes de acabar com esta porcaria. E o melhor 
jeito, mesmo,  um bom cometa.
Maneco Vieira escutava, com um dos olhos fechados e o outro muito aceso. 
Voltou a cabea para o marista e perguntou:
- O senhor acredita que o mundo vai acabar assim de repente?
Irmo Jacques limpou os lbios com um leno cheio de ndoas de 
sebo e respondeu:
69
- Se Deus quiser que o mundo acabe, o mundo acabar.
- Mas o senhor acha que Deus quer?
- Como  que vou saber?
- U! O senhor no  padre?
- A culpa  nossa, se o mundo acabar - intrometeu-se o senhor gordo 
que comia uma perna de galinha com farofa, num dos bancos vizinhos. - O 
povo est ficando louco. 
Meu filho, que  professor pblico, leu no jornal que l nas 
Europas j andam voando numa mquina, diz-que inventada por um 
patrcio nosso. Pois . Onde se viu homem 
voar? Deus tez o homem pra andar com os ps na terra ou ento 
montado no lombo dum cavalo. Voar  pra passarinho.
Calou-se, fincou os dentes na perna de galinha, arrancou-lhe um bom naco 
de carne, ficando com a ponta do nariz e os beios salpicados de 
farofa.
- Se um dia eu enxergar esse tal de aeroplano voando por perto de mim - 
ameaou Maneco Vieira sem tirar o cigarro da boca - palavra de honra 
que arranco o revlver 
e meto bala no bicho.
- H maldade por demais em toda a parte - disse o homenzinho do 
charuto. - Aqui mesmo no municpio de Santa F se v muita 
malvadez. Um dia destes deram um tiro 
no peito do Joaquim Piririca. E sabem o que fizeram pr filho do 
capito ]anguta a semana passada? Amarraram o rapaz numa rvore e 
degolaram ele com um talho de 
orelha a orelha. E os criminosos andam soltos por a como gente de 
bem.
- E essa histria de vacina obrigatria? - interveio o homem gordo, 
brandindo a perna de galinha. - No  mesmo coisa de gente louca? 
Onde  que estamos?
O velhote concluiu:
- O que merecemos mesmo  um bom fim de mundo. Atirou o toco de 
charuto pela janela, num gesto indignado. O teuto-brasileiro declarou 
que pelas dvidas ia dar tal 
jeito
em seus negcios, que em maio estaria em casa com a famlia. "A 
gente nunca sabe..." - explicou. O velhote de voz estrdula retrucou
70 que o melhor era que cada um desde j comeasse a arrepender-se 
de seus pecados, a orar e a fazer boas obras.
Rodrigo sorria, pensando na carta que sua madrinha Maria Valria lhe 
escrevera em princpios daquele dezembro, e na qual lhe pedia que viesse 
para casa o quanto antes, 
porque "dizem que vem a um tal de cometa e que  o fim do mundo, eu 
no acredito muito nessas bobagens mas  sempre bom a gente estar de 
sobreaviso". Como aquilo 
era tpico de sua tia! - pensou Rodrigo. No s dela mas de todas 
as mulheres do Rio Grande. Eram realistas, sabiam por experincia 
no s prpria como tambm herdada, 
que as coisas ms sempre acontecem.
Rodrigo, entretanto, no acreditava naquelas histrias. No 
passavam de supersties. Quantas vezes, no decorrer dos sculos, 
sbios, santos e profetas haviam predito 
o fim do mundo? No entanto a Terra ali estava, inteira, bela, 
tranqila e farta - refletiu ele, debruado  janela do carro, a 
contemplar a paisagem nativa com olhos 
de namorado.
O fim do mundo? No. Para ele era o princpio do mundo. Estava 
formado, era moo, tinha pai rico, amava sua casa, sua gente, sua 
terra: adorava a vida. Com a cabea 
para fora do vago e achando um sabor rspido e quase herico em 
receber na cara o bafo do forno da soalheira e a poeira da estrada, 
Rodrigo ficou a pensar nas grandes 
coisas que pretendia fazer. No se conformaria com ser um simples 
mdico da roa, desses que enriquecem na clnica e acabam criando 
uma barriguinha imbecil. No. 
Estava decidido a no abandonar os livros, nem seu contato espiritual 
com a Europa. Reformaria o Sobrado, alegraria aquelas paredes austeras, 
pendurando nelas reprodues 
de quadros de pintores clebres; forraria o cho de belos tapetes 
fofos e espalharia pelas salas poltronas cmodas. E para no 
pensarem que no respeitava o passado 
e a tradio, conservaria os mveis antigos, o grande relgio de 
pndulo da sala de jantar, o espelho de moldura dourada, o consolo de 
jacarand,
71
enfim as peas do mobilirio que, a seu arbtrio, parecessem 
dignas de continuar. Queria, em suma, dar melhor aspecto e trazer mais 
conforto quela casa que ele 
tanto amava e da qual no pretendia
jamais separar-se.
O marista terminava de comer a ltima banana. A cabea de Maneco 
Vieira estava envolta na fumaa azulada que lhe saa do cigarro 
de palha, e Rodrigo notou que o 
gacho de novo examinava com olho crtico suas botinas de cano de 
camura.
Tornou a olhar para fora e, vendo os campos do municpio de Santa 
F, pensou nos primeiros paulistas que por ah haviam andado no 
sculo XVIII,  caa de ndios 
e cavalos selvagens; e nos tropeiros que mais tarde vieram de Sorocaba a 
comprar mulas... Era quase certo que entre essa gente remota havia 
antepassados seus. Pensou 
nos muitos Terras e Cambars que tinham cruzado aquelas mesmas 
coxilhas com suas tropas, suas carretas ou seus soldados, em andanas 
de paz ou de guerra. Rodrigo 
crescera ouvindo contar as proezas dum fabuloso bisav, seu 
homnimo, uma espcie de espadachim aventureiro que amava a guerra, 
as mulheres, o violo e o baralho. 
Ningum na famlia lhe sabia ao certo a origem, pois contava-se que, 
quando lhe perguntavam donde viera, o capito respondia com um gesto 
largo: "De muitas guerras".
Rodrigo sempre tivera orgulho desse antepassado quixotesco. E por 
aqueles campos que ele agora via da janela do trem em movimento, na 
certa passara um dia o capito 
Rodrigo Cambar, montado no seu flete, de espada  cinta, violo a 
tiracolo, chapu de aba quebrada sobre a fronte altiva. De certo modo 
ele simbolizava a tradio 
de hombridade do Rio Grande, uma tradio - achava Rodrigo - que as 
geraes novas deviam manter, embora dentro dum outro ambiente. 
Tinham-se acabado as guerras 
com os castelhanos. As fronteiras estavam definitivamente traadas. 
Trilhos de estrada de ferro cortavam os campos, e ao longo dessas 
paralelas de ao, atravs de 
centenas de quilmetros, estavam plantados postes telegrficos. Em 
algumas cidades havia j telefones e at luz eltrica. Os inventos 
e descobrimentos da cincia, 
as mquinas que a inteligncia e o engenho humano inventavam e 
construam para melhorar e facilitar a vida, aos poucos iam entrando
no Rio Grande e um dia chegariam tambm a Santa F. Agora naquele 
trem viajava um homem de vinte e quatro anos que trazia nas veias o 
sangue do capito Rodrigo. 
Era o primeiro Cambar letrado na histria da famlia, o primeiro 
a vestir um smoking e a ler e falar francs. Levava na mala um diploma 
de doutor (e agora uma imagem 
maravilhosa lhe ocorria) e podia, ou melhor, devia usar esse diploma 
como o capito Cambar usara sua espada: na defesa dos fracos e dos 
oprimidos. O fato de o progresso 
ter entrado no Rio Grande no significava que o cavalheirismo e a 
coragem do gacho tivessem de morrer. No! Seu penacho devia ser 
mantido bem alto, pensou Rodrigo 
num calafrio de entusiasmo. Sim, manter o penacho - podia resumir nessa 
simples frase todo um msculo programa de vida. O capito Rodrigo 
nunca manchara o seu... 
No s ele, mas milhares de outros homens naquele Estado haviam 
morrido na defesa de seus penachos. Aqueles campos tinham sido teatro de 
duelos, revolues e guerras. 
Aquela terra se havia empapado de muito sangue. Essas coisas - decidiu 
Rodrigo - no podiam de modo algum ficar esquecidas ou ignoradas. 
Tinham uma significao 
tremenda, eram uma lio permanente s geraes moas.
Vieram-lhe  mente os versos finais de Cyrano de Bergerac. Como ele 
vibrara ao ler pela primeira vez a cena da morte de Cyrano! Agora 
tornava a ver mentalmente o 
feio e grotesco heri de Rostand, a esgrimir no ar a espada e o imenso 
nariz contra inimigos imaginrios, bradando:
Oiti, vous m 'arrachcz tout, l Inurier et In rose! Arrachez! II y a 
rnalgr vous quelque chose Que j'emporte, et c son, quand 
j'entrerai chez Dieu, Mon salut balaiera 
largement l senil bleu, Qiielque chose que sans un pli, sans une 
tache, J'emporte rnalgr vous, et c'est
Roxana se inclina sobre Cyrano e beija-lhe a fronte, perguntando:
C'est?...
72
73
E o heri, abrindo os olhos e reconhecendo a bem-amada,
termina:
Mon panache. .
Mais forte que a sensao de nusea, fome e cansao, Rodrigo 
sentiu novo calafrio de entusiasmo. E ficou ouvindo as rodas do trem, 
que pareciam dizer cadenciadamente: 
mon-pa-na-che-monpa-na-che-mon-pa-na-che...
- Est sentindo alguma coisa, moo?
Era o vozeiro do tropeiro. Rodrigo abriu os olhos, meio alarmado, e 
fitou-os em Maneco Vieira:
Oh! No. Estou s meio cansado.
O gacho olhou para fora e disse:
- Estamos perto de Santa F. J se enxerga o cemitrio. Rodrigo 
avistou em cima duma coxilha os muros brancos do
cemitrio, e seu pensamento levou-o de volta a uma noite terrvel, 
 mais viva recordao de sua infncia.
74
II

s dez horas daquela noite de dezembro de 1899 o Sobrado estava j 
silencioso, com suas gentes recolhidas, e todas as luzes apagadas. 
Todas? No. Quem da praa olhasse 
para a fachada do casaro veria duas vidraas no andar superior 
tingidas duma luz alaranjada. Eram as janelas do quarto de Torbio e 
Rodrigo. Sentados em suas camas, 
com as costas apoiadas nas cabeceiras de ferro, os dois meninos liam  
luz dum lampio de querosene. O primeiro deles tinha nas mos uma 
velha brochura - O mistrio 
da Estalagem - e seus olhos estavam fixos na pgina amarelada, a boca 
entreaberta, a testa franzida esforo da ateno concentrada; 
a respirao forte escapava-lhe 
pelas narinas em silvos sincopados.
Rodrigo, que naquele instante chegara  ltima pgina de As minas 
de prata, atirou a brochura no cho, estendeu-se na cama e, puxando a 
barra do camisolo para 
cima do peito, ficou de pernas nuas e abertas a olhar para o teto. 
Inspirou com fora, encheu os pulmes de ar, depois expirou 
lentamente pelo nariz, friccionando 
o baixo-ventre e achando gostoso o contato de seus dedos mornos e meio 
midos. Por alguns segundos as personagens do romance moveram-se e 
falaram em seus pensamentos: 
Estcio, Cristvo, Ines... Depois, todos se sumiram e ficou 
apenas Ins. Rodrigo comeou a despi-la devagarinho, e seus dedos 
j no mais friccionavam o prprio 
ventre: agora acariciavam os ombros nus de Ins, desciam-lhe pelas 
costas, pelas ndegas, pelas coxas...
Um calor formigante comeou a tomar-lhe conta do corpo. Tu me leva 
mesmo na casa da Noca? - perguntou ele.
75
Torbio lanou-lhe um olhar casual e respondeu:
- J disse que levo. Mas tira essa mo da, porcalho! Rodrigo 
baixou a camisola, remexeu-se na cama e ficou deitado de borco, com os 
punhos cerrados apertados entre 
o colcho
e o peito.
- Mas quando? - insistiu ele. Como falasse com a boca contra o 
travesseiro, sua voz saiu abafada. Agora ele beijava Ins, cuja pele 
era branca e lisa como uma fronha 
de linho.
- Qualquer dia...
- Mas que dia?
- Cale essa boca!
Bio j conhecia mulher, pitava cigarros de palha s escondidas, 
sabia e fazia tudo que um homem grande sabe e faz.
- Me leva amanh...
Rodrigo babava o travesseiro, sentindo agora mais forte o surdo pulsar 
do corao. Torbio, que continuava com a ateno concentrada 
na leitura, umedeceu na lngua 
a ponta do indicador e virou uma pgina. A cena que lia era to 
excitante - um duelo  beira dum precipcio - que ele murmurava: A k 
fresca... Ia fresca... Rodrigo 
ficou a escutar o rudo crepitante que vinha dum dos cantos do quarto. 
Decerto eram ratos roendo o rodap: todas as noites, depois que a casa 
ficava em silncio, 
eles vinham e comeavam seu trabalho. Ele ouvira contar histrias 
terrveis sobre aqueles bichos. Um dia um homem estava dormindo e um 
tato subiu para a cama e comeou 
a roer-lhe os ps...
Encolheu as pernas e apertou as mos entre os joelhos. Houve ento 
um prolongado silncio naquele quarto de paredes nuas e caiadas, com 
um pesado guarda-roupa de 
cedro encostado  parede que dava para o corredor, e entre as duas 
camas de ferro, uma mesinha-de-cabeceira onde estava o lampio, de 
cuja manga subia uma fumaa 
escura e espessa.
Rodrigo cerrou os olhos e comeou a contar nos dedos os dias que 
faltavam para o fim do ano. Dez! Lembrou-se das palavras do pai, naquele 
anoitecer,  hora do jantar: 
"Nem todas as pessoas podem se gabar de ter visto entrar um sculo 
novo. A bisav de vocs, meninos, nasceu em princpios dos mil e 
oitocentos e quase
76
chegou a ver a entrada dos mil e novecentos". Rodrigo s queria saber 
se no novo sculo as pessoas iam mudar, se a cara dos dias ia ser a 
mesma... Ser que a gente 
nota alguma diferena no sol, no cu, no ar?
Vai mudar alguma coisa quando entrar o sculo XX? - perguntou, abrindo os olhos.
Sem desviar a ateno do romance, o irmo resmungou:
- Vai.
- O qu?
- A folhinha.
- Besta!
Rodrigo sabia de muitas mudanas importantes em sua vida que o novo 
sculo ia trazer. Em maro de 1900, ele e Torbio seriam mandados 
para um internato em Porto 
Alegre, a fim de tirarem os preparatrios. S de pensar nisso sentia 
um frio na barriga, um aperto no corao. Em 1900 ele ia conhecer 
mulher...
Torbio fungava, coando ferozmente a cabea. Rodrigo olhava para 
a sombra do irmo projetada na parede e pensava na lanterna-mgica 
que o pai lhe prometera como 
presente de Natal.
De repente ouviu-se um estalo, e a porta do quarto abriu-se bruscamente. 
Rodrigo sentou-se na cama, sobressaltado. Torbio alou vivamente os 
olhos. Emoldurada pela 
porta, com uma das mos no trinco e a outra a segurar o castial com 
uma vela acesa, a figura de tia Maria Valria se desenhou contra o 
fundo escuro do corredor.
- Alarifes! - exclamou ela. - Eu no disse pra apagarem a luz? Logo vi 
que iam desobedecer.
Rodrigo tornou a deitar-se, encolhido e humilde, puxando a colcha at 
o queixo e fechando os olhos, sem dizer palavra. Torbio, porem, 
atirou a brochura com fora 
contra a parede e apagou o lampio com um sopro, de mistura com muito 
cuspe e muito dio.
Maria Valria aproximou-se da cama do sobrinho e exclamou:
- Ainda por cima malcriado!
Apanhou o lampio de cima da mesinha e voltou-se para sair. 
deteve-se, como quem se lembra de alguma coisa, pousou o
77
lampio no cho, meteu a mo debaixo do colcho da cama de 
Torbio e de l tirou trs tocos de vela.
- Eu bem que desconfiava... Tem mais?
Por um instante Torbio ficou calado. Havia coberto a cabea com a 
colcha e rilhava os dentes. A tia alteou a voz:
- Tem mais?
- No - respondeu ele, de lbios apertados.
- Ento durmam.
Tornou a apanhar o lampio e caminhou para a porta. Sua sombra 
recortava-se na parede e, como um enorme boneco de papel, dobrava-se ao 
meio e continuava horizontalmente 
no teto.
Mal a tia desapareceu, Torbio vociferou sem tomar flego:
- Nojenta bruaca cadela!
- No diz nome pra minha madrinha! - censurou-o Rodrigo.
- Digo e sustento.
- Tu tem boca suja.
Torbio abriu as janelas de par em par: a noite entrou no quarto com 
seu tpido bafo perfumado de madressilvas e a mansa claridade duma lua 
em quarto crescente.
Torbio atirou as pernas para fora da cama e ali ficou, no seu 
camisolo muito comprido, os cotovelos apoiados nas coxas e ambas as 
mos a segurar o rosto. Rodrigo 
imitou-o.
- Sabe duma coisa? - disse Bio, depois de alguns segundos. - Vou 
arranjar uma vela.
- Mas onde?
- No cemitrio.
Rodrigo engoliu em seco. Decerto no tinha ouvido direito...
- Onde?
- No cemitrio. Est surdo?
Rodrigo no sabia que dizer. Finalmente arriscou:
-  brinquedo, no ?
- No.  srio.
- U?
- Defunto no precisa de vela. Eu preciso, quero acabar de
ler o meu romance.
Ergueu-se, tirou o camisolao e ficou completamente nu no meio do quarto. 
Tinha um torso musculoso e bceps macios. Rodrigo admirava o 
irmo, que s vezes o fazia 
pensar num touro xucro. Era difcil acompanh-lo em suas aventuras. 
Bio era bruto achava ele - s gostava de brinquedos violentos. Vivia a 
provocar brigas, e o pior 
era que s procurava lutar com meninos mais velhos que ele. Um dia 
convidou um mulato de dezessete anos para "pular pra fora" e aplicou-lhe 
de sada um soco no queixo. 
O outro perdeu o equilbrio e caiu, mas quando Bio saltou para cima 
dele, o mulato o esperou de faca em punho e conseguiu feri-lo no 
brao. Mesmo assim Bio tirou 
a faca da mo do inimigo, jogou-a longe e ficou a esmurrar-lhe a boca, 
os olhos e a cabea, at obrig-lo a pedir perdo. Voltou depois 
para casa perdendo muito 
sangue, e o dr. Matias teve de dar-lhe seis pontos no talho. Bio 
agentou o curativo sem soltar um ai.
Sentado na cama, Rodrigo contemplava o irmo sem compreender direito o 
que ele pretendia fazer. Torbio calou as alpercatas, enfiou as 
calas de riscado, vestiu 
a camisa e perguntou:
- Tu vai ou no vai comigo ao cemitrio?
- Eu?
- Aaah! Tu  um galinha!
Rodrigo, que no suportava que o considerassem covarde, sentiu um 
formigueiro no corpo.
- Galinha  a tua me! - replicou ele automaticamente.
- Minha me  morta e merece missa - retrucou Bio. - A tua  viva 
e merece...
Calou-se antes de soltar o palavro, lembrando-se decerto que eram 
ambos filhos da mesma me.
- Deus te perdoe - pensou Rodrigo. E por alguns momentos teve na mente 
um quadro triste: o velrio, l embaixo, na sala grande - a chuva a 
bater nas vidraas, papai 
de preto, os olhos vermelhos, e, estendida no caixo feito pelo 
Pitombo Defunteiro, mame toda coberta de flores, um leno branco 
sobre o rosto... E agora ela estava 
sepultada no jazigo da famlia, no cemitrio; e era a esse 
cemitrio que o maluco do Bio queria ir quela hora da noite, para 
roubar velas. Mas no... decerto ele 
estava s brincando.
79
78
Rodrigo tornou a deitar-se, conservando sempre as pernas para fora da 
cama.
-  bom tu no ir - disse o outro. - No quero nenhum cala 
frouxa pra me atrapalhar.
Rodrigo olhava para o teto.
- No sou medroso - murmurou.
- Duvido.
- Te mostro.
- Ento te veste e vamos.
Rodrigo no se moveu. Teve a impresso de que seu corao no 
estava dentro do peito: pulsava-lhe na garganta, quase a afog-lo. O 
suor escorria-lhe pela testa e 
comeava a empapar-lhe o camisolo. Quando falou, foi num tom de voz 
cauteloso.
- Por que no vamos amanh de manh?
- No tem graa. De dia qualquer marico vai.
- Mas o cemitrio  to longe...
- Vamos no petio.
- Mas como  que a gente vai sair daqui?
- Pela porta dos fundos.
- E se o papai nos ouve?
- No ouve.
- A madrinha ainda est acordada...
- Ns nos esgueiramos. Esgueiramos era uma palavra de romance.
Rodrigo soergueu-se e ficou por um instante meio entontecido, sem saber 
que fazer. Por fim comeou a tirar o camisolo com certa 
relutncia.
- E se tu comprasse as velas amanh na loja do seu Veiga? Tenho um 
pataco guardado no cofre.
Bio aproximou-se do irmo, segurou-lhe o brao com fora e disse:
- Ningum me faz desistir. Foi uma aposta que fiz.
- Aposta? Com quem?
- Com o diabo.
- Hein?
Torbio riu baixinho.
- No seja bobo. Li isso num livro. Um homem apostou com o diabo como 
era capaz de ir ao cemitrio  meia-noite.
- A troco de qu?
- Se ele fosse e no sentisse medo, o diabo fazia ele achar um 
panelo cheio de moedas de ouro.
- E se tivesse medo?
- O diabo ficava com a alma dele.
Rodrigo agora estava de p, nu, o camisolo cado a seus ps.
- Vamos ou no vamos?
- Se eu for, que  que eu ganho?
- Te levo na Noca amanh.
- Amanh? Palavra de honra?
- Palavra de honra.
Rodrigo vestiu-se com uma rapidez nervosa. Depois de enfiar as calas, 
ps a mo no ombro do irmo e disse:
- Tu vai ver como eu tambm sou homem.
O corao comeou a bater-lhe com mais fora quando abriram a 
porta do quarto e passaram para o corredor, p ante p.
- A escada guincha - ciciou Bio. - O melhor  a gente descer pelo 
corrimo.
Montou no corrimo e deslizou maciamente para baixo, sem rudo. 
Rodrigo fez o mesmo. No vestbulo deram-se as mos e ncaram un 
instante procurando orientar-se na 
escurido. A luz do luar, coada pelas bandeirolas das janelas, 
mostrou-lhes o caminho. Atravessaram a sala lentamente (com o rabo dos 
olhos, Rodrigo viu vultos 
moverem-se dentro do espelho grande) e por fim chegaram A cozinha. Bio 
retirou a tranca, deu volta  chave e abriu a porta devagarinho. 
Saram. A quietude da noite 
estava picada pelo trilar dos grilos, e as rvores do quintal, 
imveis ao luar, pareciam pessoas a espreita. Da padaria vizinha vinha 
um cheiro bom de po quente. 
Atravessaram o quintal, esgueirando-se por entre as sombras, roram at 
a estrebaria e Torbio tirou para fora o petio.
80
81
- Temos de ir em plo - disse. - Vai abrir o porto.
Trmulo de comoo, Rodrigo obedeceu. Bio montou no animal, 
segurou-lhe as crinas com ambas as mos e fincou-lhe os calcanhares 
nos flancos. O petio atravessou 
o porto e Torbio f-lo estacar junto do meio-fio da calada. 
Rodrigo tornou a fechar o porto. O outro estendeu-lhe a mo:
- Vamos. Upa!
Rodrigo subiu para a garupa, enlaando o irmo com os
braos.
- Vamos, zainito! - murmurou Bio. O petio comeou a trotar, 
levantando poeira do cho. Os lampies iluminavam mortiamente as 
ruas desertas. O luar refletia-se 
nas vidraas das casas adormecidas.
Rodrigo estava j arrependido da aventura. Aquilo tudo ia terminar mas 
era numa grande sova de vara de marmelo. O Bio
era bem louco!
Desceram na direo do riacho, atravessaram a ponte de madeira e 
entraram no Barro Preto. Torbio fez o animal estugar o passo. Aquela 
era uma zona perigosa onde 
quase todas as noites havia tiroteios e badernas. A luz da lua clareava 
as ruas esburacadas e irregulares, e duma casa de tbua, por baixo de 
cuja porta se via um 
risco de luz, vinham sons de gaita, vozes e risadas de homens
e mulheres.
- Tu me leva mesmo amanh na Noca? - perguntou Rodrigo j um pouco 
sem entusiasmo.
- J disse que levo.
Torbio comeou a assobiar baixinho uma toada campeira. Vinha do 
riacho um cheiro morno de barro. Comearam a subir a encosta duma 
coxilha, j em pleno campo.
A solido era assustadora. Depois de alguns minutos de marcha, 
avistaram o cemitrio, no topo da prxima coxilha, e Rodrigo sentiu 
um aperto no peito, a garganta 
ardida, a saliva grossa e gosmenta, as pernas frouxas e um frio tremor 
nas mos. O petio, porm, trotava sempre, subindo a encosta, e o 
cemitrio ia ficando cada 
vez mais perto...
82
Quando chegaram a uns vinte metros, Torbio fez o cavalo parar e 
apeou. Rodrigo deixou-se escorregar tremulamente pelos flancos do animal 
e quando suas pernas tocaram 
o solo teve a impresso de que elas no iam agentar o peso do 
corpo. Ficou a olhar para o cemitrio, num fascnio cheio de horror. 
Forbio tomou-lhe da mo e puxou-o, 
aproximando-se do grande porto de ferro, em cujo fronto se via uma 
caveira por cima de dois fmures cruzados. Torbio levou a mo  
aldraba e Rodrigo teve uma 
sbita e doida esperana: se o porto estivesse fechado, eles 
teriam que voltar para casa, pois era impossvel galgar aqueles muros 
to altos. O porto, porm, se 
foi abrindo devagarinho, com um guincho.

Torbio puxou-o pela mo e ele se deixou arrastar. Seus pensamentos 
estavam confusos, e j comeava a achar que tudo aquilo no 
passava dum sonho. Tinha a impresso 
de que suas pernas eram de papel. O corao batucava-lhe no peito, o 
sangue soqueava-lhe os ouvidos e um pavor gelado comeou a passear-lhe 
por todo o corpo. A boca 
ressequida, encolhido e trmulo ele seguia o irmo. No tinha 
coragem de olhar para os lados nem de pensar no que pudesse estar 
acontecendo s suas costas. O que 
via pela frente eram as sepulturas caiadas que tinham ao luar esse 
branco sujo das ossadas. E as sombras dessas sepulturas lembravam o 
negror de covas abertas  
espera de cadveres. O cho do cemitrio era rofo como as carnes 
dum defunto que comea a apodrecer.
Torbio caminhava em silncio por entre tmulos, jazigos e 
cruzes, e Rodrigo sentia um arrepio cada vez que lhe parecia estar 
pisando a terra duma sepultura rasa. 
Deus me perdoe - murmurava ele mal mexendo com os lbios - Deus me 
perdoe, Nossa senhora da Conceio me ajude, no tenho culpa, Deus 
me perdoe, foi idia do Bio.
Torbio fez alto, largou a mo do outro, acocorou-se junto de um 
tmulo e comeou a apanhar tocos de velas e a met-los nos bolsos. 
Sem o apoio do irmo, Rodrigo 
sentiu-se ainda mais 
83desamparaclo. Fechou os olhos, quis dizer: "Bio, isso  pecado. Vamos 
embora", mas a mo fria do medo tapou-lhe a boca e comeou a 
apertar-lhe as tripas com tanta 
fora que, de sbito, num tremor e num desfalecimento, Rodrigo 
sentiu que suas entranhas se esvaziavam, e que pelas coxas e pernas lhe 
escorria uma coisa visguenta 
e quente. Sentiu que outra vez o irmo lhe tomava da mo e fazia-o 
andar. Deixou-se levar, numa sensao de medo agora misturada com 
uma vaga vergonha. Ao p duma 
sepultura de alvenaria, encimada por um Cristo de pedra, ardiam trs 
velas. Bio ajoelhou-se como se fosse fazer uma orao, soprou as 
chamas e guardou as
velas no bolso.
Rodrigo teve a impresso de que o brao dum esqueleto ia 
pousar-lhe no ombro. Remota, a voz da mulata Laurinda soou-lhe na 
memria. Uma vez um homem apostou 
com outro como era capaz de entrar sozinho no cemitrio  
meia-noite. Era uma noite fria de inverno e ele ia de poncho. Caminhava 
pisando nas sepulturas, quando 
de repente sentiu que algum lhe puxava o poncho. O homem, que sofria 
do corao, caiu morto de susto. Foi um defunto que puxou a capa 
dele, Laurinda? No. Foi o 
poncho que
se enroscou numa cruz.
Rodrigo teve a repentina esperana de que tudo aquilo fosse um sonho. 
Muitas vezes, quando sonhava, dizia a si mesmo: "Sei que estou dormindo 
e daqui a pouco vou 
acordar". Sim, aquilo s
podia ser um pesadelo.
Forbio estava agora empenhado em tirar os pequenos tocos de velas 
apagadas que cercavam uma sepultura rasa. O cheiro de sebo queimado 
entrava pelas narinas de Rodrigo, 
que comeou a sentir nusea. Era um cheiro de velrio. Lembrou-se 
do velrio de sua av Bibiana e das grandes velas cujo reflexo no 
espelho grande da sala ele ficara 
por muito tempo a observar com um interesse fascinado. Ocorreu-lhe, num 
susto, que o corpo da velha ali estava, no muito longe dele, no 
mausolu da famlia Cambar. 
Encolheuse todo, temendo ouvir a voz da bisav: "Seus alarifes! Voltem 
j pra casa. Ento isso  coisa que se faa? No cemitrio a 
esta hora!" Sim, vov Bibiana 
estava ali pertinho, naquela casa de pedra. Podia at aparecer  
porta e gritar: "Entrem, meninos. Venham fazer uma
visita pra gente. A me de vocs tambm est aqui. Olhe, Alice, 
as crianas vieram nos visitar. Entrem".
Imaginou a av a aproximar-se deles com uma lata nas mos: 
"Sirvam-se destas rapadurinhas de leite. So muito boas, feitas de 
velas de sebo, de sebo de defunto. 
Foi sua bisav que fez". Rodrigo teve uma nsia de vmito e 
comeou a bater queixo.
- Vamos, galinha! Ests todo borrado - murmurou Torbio, que tinha 
os bolsos gordos de velas,
Rodrigo queria pedir ao irmo que falasse baixo, para que a me e a 
av no lhe ouvissem a voz. Torbio franziu o nariz, cuspiu no 
cho, com nojo, e ordenou:
- Abre os olhos, medroso!
Rodrigo obedeceu. Viu  luz da lua uma floresta de cruzes, o

branquejar dos muros l no fundo e, por cima de tudo, o cu 
carregado de estrelas.
- Eu no te disse? - tornou Bio. - No existe alma do outro mundo. 
Quem morre se acaba.
Naquele instante ouviram um rudo fofo e claro, como o de uma p 
entrando na terra. Rodrigo segurou com fora a manga da camisa do 
irmo. Torbio ficou  escuta...
- Te agacha! - sussurrou ele, ao mesmo tempo em que se punha de 
ccoras. Rodrigo obedeceu, mas suas pernas estavam to iracas, que 
ele caiu sentado como um peso 
morto.
- Fica aqui que eu j volto...
Engatinhou at uma sepultura alta e, erguendo-se devagarinho com toda 
a cautela, por trs dum anjo de mrmore, espiou... Comeou depois 
a acenar para Rodrigo, convidando-o 
freneticamente a aproximar-se. Rodrigo levou algum tempo para entender 
os sinais do irmo, e mais tempo ainda para vencer, de gatinhas, o 
espao que o separava dele.
- Te levanta e olha - ciciou Torbio.
Rodrigo, porm, no teve nimo para tanto; deixou-se ficar 
sentado, apoiado nos costados da sepultura, a olhar estupidamente Para o 
vaga-lume que havia pousado na 
folha duma rvore e que 'ucilava na sombra como a pupila dum gato. 
Torbio tomou o
84
irmo de ambos os braos e ergueu-o. Rodrigo no teve outro 
remdio seno olhar...
- Ali perto da capela...
Rodrigo avistou o vulto dum homem inclinado a cavar o cho. No 
compreendeu nada. O irmo explicou:
- Sabes que  que ele est fazendo? Est desenterrando um
defunto.
Vinha at eles agora o rudo macio da terra a cair no cho e os 
gemidos que o desconhecido soltava cada vez que erguia a p.
- Pra qu? - balbuciou Rodrigo.
-  a sepultura da velha Antnia Schultz... - explicou Torbio. - 
Foi enterrada ant'ontem.
Tinha sido uma morte muito comentada na cidade. Dizia-se que Antnia 
Schultz, alem rica, avarenta e solitria, fora enterrada com todas 
as suas jias.
-  um violador de sepulturas - explicou Bio, com a sua
experincia de ledor de romances. Rodrigo conseguiu ciciar:
- Quem ser?
- No sei. Vamos ver.
Ficaram por algum tempo a espiar... Rodrigo, que apoiara a cabea 
contra os ps do anjo, sentia no rosto o contato fresco do
mrmore.
Num dado momento, quando a sepultura parecia estar j aberta, o 
desconhecido acendeu uma lanterna e ergueu-a  altura do prprio 
rosto. Naquele instante Rodrigo 
viu uma cara barbuda e lvida e julgou reconhecer o carpinteiro 
Pitombo.
- Vamos embora - disse Torbio. - Se ele nos descobre  capaz de nos 
matar.
Puxou o irmo pelo brao e saiu quase a correr, rumo do porto. 
Daquele minuto em diante, as lembranas de Rodrigo se confundiam. 
Nunca ficou sabendo ao certo como 
conseguira sair do cemitrio, saltar outra vez para o lombo do 
petio, atravessar os trs quilmetros que os separavam do 
Sobrado, entrar em casa, subir a escada 
e de novo meter-se na cama.
86
Mas duma coisa ele se lembrava vivamente. Era de que, j no quarto, 
 luz duma das velas roubadas s sepulturas, Torbio se inclinara 
sobre a cama e lhe impusera 
um juramento:
- Jura que, acontea o que acontecer, nunca contars a ninmim o 
que se passou esta noite?
- Juro - balbuciou Rodrigo, com a cabea a estalar de dor, o rosto 
escaldante.
- Pela alma da tua me?
- Juro.
- Pela vida do teu pai?
- Juro.
- Por Deus Nosso Senhor?
- Por Deus Nosso Senhor.
- Ento beija aqui.
Tirou da parede um velho crucifixo que pertencera  velha Bibiana. 
Rodrigo beijou tremulamente o Cristo sem nariz.
Torbio voltou para a cama. Rodrigo nunca ficou sabendo se dormira ou 
no naquela noite terrvel. Passara horas a bater dentes, com 
tremores de frio e dores no estmago. 
Em certos momentos sentia-se como que paralisado: estava metido num 
caixo, fechado num mausolu, a morrer asfixiado. Noutros, andava 
por entre covas abertas, chupando 
ossos de defunto e, sem saber como, de repente se via num descampado a 
fugir dum homem de poncho, que morrera de susto, e ao mesmo tempo era o 
Pitombo Defunteiro, 
que corria e gritava: "Tenho um caixozinho pra ti, bem bonitinho, 
todo branquinho, de rapadurinha de leite, que a vovozinha te mandou".
No outro dia, vendo o estado do sobrinho, Maria Valria mandou chamar 
o dr. Matias, que veio com sua maleta de couro negro, sua barbicha rala 
e seu cheiro de clorofrmio. 
Tomou o pulso de Rodrigo, examinou-lhe a lngua, apalpou-lhe o 
abdmen e receitou-lhe um purgante de sal amargo.
87
-  uma indigestozinha - disse ele, com sua voz esquisita, que 
Rodrigo sempre associava  idia de queijo bichado.
- Foi a melancia que esse menino comeu ontem - sentenciou Maria 
Valria. - Decerto misturou com leite.
Rodrigo ficou dois dias de cama. Bio mostrou-lhe o semanrio de Santa 
F, que trazia na primeira pgina a notcia da violao da 
sepultura de Antnia Schultz. Os 
cabealhos eram tremendos. "Sacrilgio! Vandalismo! Profanao! 
Violada uma sepultura no campo santo local!"
Rodrigo leu a notcia com o corao aos pulos, como se ele e Bio 
tivessem sido os profanadores. Noticiava o jornal que a polcia ia 
abrir "rigoroso inqurito", e 
que o vigrio na missa do domingo prximo faria um sermo especial 
"alusivo ao nefando acontecimento". Torbio contou que no se falava 
noutra coisa em toda a cidade.
- E agora? - perguntou-lhe Rodrigo, alarmado.
- Agora? Cospe na mo e bota fora - respondeu o outro, soltando uma 
risada.
Rodrigo revolveu-se na cama e ficou com as costas voltadas para o 
irmo. E na parede branca viu de novo as sepulturas e mausolus ao 
luar. Tornou a sentir o horror 
daquela noite.
E quando, dias depois,  hora do jantar, o pai se referiu ao 
acontecimento - "Que barbaridade! Neste mundo h gente pra tudo!" - 
Rodrigo baixou os olhos para o prato, 
embaraado, e no ousou sequer encarar o pai. Dali por diante nunca 
mais tocaram no assunto. Rodrigo guardou seu segredo, e nem ao irmo 
contou que havia reconhecido 
no violador de sepulturas o carpinteiro Pitombo.
Passaram-se os dias, veio a vspera do Natal, Rodrigo ganhou sua 
lanterna-mgica, armaram um presepe na sala grande do Sobrado, e nessa 
noite os dois rapazes tiveram 
licena de ir mais tarde para a cama.
Quando os viu deitados, Maria Valria, parada no meio do quarto, de 
vela acesa na mo, olhou em torno para ver se estava tudo em ordem.
- Agora durmam.
88
Depois que ela deixou o quarto e fechou a porta, Bio tirou um toco de 
vela de baixo do colcho, acendeu-o e comeou a ler seu romance. Fez 
isso naquela e nas muitas 
outras noites seguintes E quando, j tarde, Rodrigo acordava, olhava 
para a cama do irmo e via-o sentado, com as costas apoiadas no 
travesseiro, os olhos fitos 
na brochura, choramingava:
-- Apaga essa luz, Bio.
- Cala a boca - respondia o irmo sem tirar os olhos do livro. - Fecha 
os olhos e dorme. Olha que os defuntos esto chegando pra buscar as 
velas...
E foi assim que Torbio entrou no sculo XX: lendo seu romance  
luz dum coto de vela roubado ao cemitrio.
89

Era pela frente desse mesmo cemitrio que agora passava apitando o 
trem que naquela tarde de dezembro de 1909 trazia de volta a Santa F 
o dr. Rodrigo Terra Cambar. 
Com a cabea para tora da janela, o rapaz olhava intensamente para 
aqueles velhos paredes, imaginando, entre emocionado e levemente 
divertido, que os mortos, toda 
vez que ouviam o apito da locomotiva, corriam a espiar o trem por cima 
dos muros do cemitrio. Por um instante ficou distrado a imaginar 
que estava vendo naquela 
fileira de cabeas os semblantes de sua me, do capito Rodrigo, 
da velha Bibiana e de muitos outros parentes e amigos mortos. Sorriam 
todos, acenavam para ele, 
e era-lhe agradvel imaginar que lhe gritavam: ''Bem-vindo sejas, 
Rodrigo! Temos esperanas em ti!" E entre aqueles mortos, cujas 
cabeas assomavam por cima do muro, 
via-se um que no sorria apenas com a boca, mas tambm, 
arreganhadamente, com a garganta. Era o Tito Chaves, moo que, havia 
anos, Rodrigo vira estendido sem 
vida no barro da rua,  frente do Sobrado, o pescoo rasgado por um 
talho de faca que ia de orelha a orelha, o peito ensangentado, os 
olhos abertos e vidrados. 
Toda a gente na cidade murmurava que fora o coronel Aristiliano Trindade 
quem o mandara matar por questes de poltica; mas ningum tinha 
coragem de dizer isso em 
voz alta. E agora, nos pensamentos de Rodrigo, l estava Tito Chaves 
encarapitado no muro do cemitrio, a bradar: "Vai e me vinga, Rodrigo. 
Vai e me vinga! s moo, 
s culto, tens coragem e ideais! Vai e me vinga! Em Santa F rodo
o mundo tem medo do coronel Trindade. No h mais justia. J no 
h mais liberdade. Vai e me vinga!"
O trem ainda apitava tremulamente, como se estivesse chorando. Mas quem 
chorava de verdade era Rodrigo. As lgrimas lhe escorriam pelo rosto 
lustroso, a que a poeira 
dava uma cor de tijolo.
Maneco Vieira tocou-lhe o brao.
- Que foi que houve, moo? - perguntou ele, com um jeito 
agressivamente protetor.
Rodrigo levou o leno aos olhos, murmurando:
- Esta maldita poeira...
No vago agora os passageiros comeavam a arrumar suas coisas, 
erguiam-se, despiam os guarda-ps, baixavam as malas dos gabaritos, 
numa alegria alvoroada de fim 
de viagem. Rodrigo foi at o lavatrio, tirou o chapu, postou-se 
diante do espelho, lavou o rosto, enxugou-o com o leno e por fim 
penteou-se com muito esmero. 
Observou, contrariado, que tinha os olhos injetados, o que lhe dava - 
achava ele - um ar de bbedo ou libertino. Isso lhe era 
desagradvel, pois no queria logo 
de chegada causar m impresso aos que o esperavam na estao. 
Piscou muitas vezes, revirou os olhos, umedeceu o leno, tornou a 
pass-lo pelo rosto, ps a lngua 
para fora, e quedou-se por algum tempo a examin-la. Ajeitou a 
gravata, tornou a botar o chapu, recuou um passo, lanou um olhar 
demorado para o espelho e voltou 
para seu lugar. O marista, que estava tranqilamente sentado com uma 
valisa sobre os joelhos, sorriu-lhe, dizendo:
- Enfim chegamos, com a graa de Deus.
- De Deus e do maquinista - completou Maneco Vieira. O trem diminuiu a 
marcha ao entrar nos subrbios de Santa
F. Sentado de novo junto da janela, Rodrigo olhava para os casebres 
miserveis do Purgatrio e para suas tortuosas ruas esbarrocadas de 
terra vermelha. E aqueles 
ranchos de madeira apodrecida, cobertos de palha ou capim; aquela 
mistura desordenada e srdida de molambos, panelas, gaiolas, gamelas, 
latas, lixo; aquela confuso 
de cercas de taquara, becos, barrancos e quintais bravios - 
lembraram-lhe uma fotografia do reduto de Canudos que ele vira estampada 
numa revista.  frente de algumas 
das choupanas viam-se
91
90
mulheres - chinocas, brancas, pretas, mulatas, cafuzas - a acenar para 
o trem; muitas delas tinham um filho pequeno nos braos e outro no 
ventre. Crianas seminuas 
e sujas, com enormes barrigas de opilados, brincavam na terra no meio de 
galinhas, cachorros e ossos de rs. L embaixo, no fundo dum 
barranco, corria o riacho, 
a cuja beira uma cabocla batia roupa numa tbua, com o vestido 
escarlate arregaado acima dos joelhos. Em todas as caras que Rodrigo 
vislumbrava, havia algo de terroso 
e cadavrico, uma lividez encardida que a luz meridiana tornava ainda 
mais acentuada.
- Quanta misria! - murmurou o marisca, que tambm olhava para fora.
- Quanta misria - repetiu Rodrigo, sem atentar bem no que dizia. 
Sempre que em Porto Alegre pensava em Santa F e em seus subrbios 
miserveis, prometia a si mesmo 
tornar-se mdico dos pobres, fazer em sua terra a caridade numa 
proporo at ento nunca vista. Enchia-se dos mais nobres 
propsitos. Faria visitas constantes 
s populaes do Barro Preto, do Purgatrio e da Sibria; 
levaria quela gente infeliz medicamentos de boca e dinheiro, alm 
de palavras de conforto.
Agora, porm, frente a frente com a misria que tanto o comovia 
quando apenas lembrada, ele esquecia os planos para sentir apenas o que 
o Purgatrio oferecia como 
quadro. Aquelas gentes molambentas, maceradas e raquticas, vistas da 
janela dum trem em movimento, no o comoviam simplesmente porque 
pareciam fazer parte duma 
pintura: no eram de carne e osso, mas de tinta. E havia entre o cu 
e a terra tamanho contraste, que o firmamento parecia ter sido pintado a 
aquarela por um artista 
lrico e a terra a tmpera e sangue por um pintor trgico. Fosse 
como fosse, aquelas cores vivas - azul, vermelho, verde e ouro - eram 
uma festa para os olhos de 
Rodrigo, e aquela paisagem evocava-lhe episdios da infncia e da 
adolescncia. Quantas vezes ele e o irmo tinham andado naquele 
riacho, com gua pelas canelas, 
a pescar lambaris! Quantas vezes haviam descido ao fundo daqueles 
barrancos - crateras de pavorosos vulces - ou entrado naqueles 
quintais - selvas africanas - para 
roubar laranjas ou pssegos'
92
Rodrigo viu abrir-se diante dos olhos uma larga perspectiva de rua, a 
subir uma coxilha em cujo topo, no meio e acima dum macio de verdura, 
se erguiam as duas torres 
da matriz. Num alvoroo entreviu, a pequena distncia das torres, a 
gua-furtada branca e o telhado pardo do Sobrado. E subitamente lhe 
veio um medo absurdo de chegar. 
Se tivesse acontecido algo de mau a algum membro da famlia? Se 
algum estivesse doente? Se algum tivesse morrido? Se... Mas no 
podia ser. Lembrava-se de que, 
havia pouco, Liroca lhe dissera que tudo estava bem... e que o esperavam 
com banda de msica! No. Este pormenor devia ter sido inveno 
do velho. Seu pai no era 
homem que gostasse daquelas exibies...
Dentro de alguns minutos o trem parou junto da plataforma da 
estao. Rodrigo apertou a mo do marista e do tropeiro, 
aproximou-se do banco onde estava a velhinha, 
despediu-se dela apressadamente e, apanhando sua valisa, caminhou para a 
porta do vago, de onde ficou a procurar sua gente. Uma voz querida:
- Seu filho da me!
- Bio!
Rodrigo saltou do carro, caiu nos braos do irmo e ficaram os dois 
enlaados num abrao apertado, dizendo-se coisas sem muito nexo, 
movendo-se dum lado para outro, 
como numa estranha dana. Ouviu-se o estrondo do bombo e a banda de 
msica rompeu num dobrado. As notas vibrantes, em que sobressaam as 
vozes dilacerantes dos instrumentos 
de metal, engolfaram alegremente a plataforma. E quando os braos de 
Torbio o largaram, Rodrigo se viu frente a frente com o pai. 
Vieram-lhe lgrimas aos olhos. 
O velho estava srio, calado e tambm comovido. Rodrigo tomou-lhe da 
mo e beijou-a. Licurgo abraou-o com gravidade, e ambos ficaram a 
mirar-se por algum tempo, 
mudos. Algum puxou Rodrigo pela manga do casaco, fazendo-o voltar-se, 
e em seguida apertou-o num amplexo caloroso, exclamando:
- Mas como vais, bicho?
93
-  Neco, mas como...
No pde terminar a frase, pois lhe deram uma forte palmada nas 
costas e em seguida duas mos possantes lhe agarraram os ombros, 
arrebatando-o dos braos de Neco 
Rosa. Rodrigo voltou-se e deu com a figura imponente de Chiru Mena, de 
caro apoplctico
e suado.
- Seu ingrato, no conhece mais os pobres, hein?
Chiru apertou-o contra o peito com tamanha fora, que Rodrigo, mais 
baixo e franzino que o amigo, teve a respirao momentaneamente 
cortada. Sentiu contra o rosto 
o rosto quente e mido do outro, e teve a impresso de que ia ser 
beijado. E quando Chiru o largou, depois daquele corpo-a-corpo 
frentico, ele andou, estonteado, 
pelos braos duma sucesso de amigos e parentes. A todas essas o 
dobrado continuava, brilhante, explosivo, ensurdecedor, como que a 
aumentar o calor e a febril confuso 
do momento. Por todos os lados Rodrigo via caras risonhas e amigas. 
Algumas pessoas acenavam-lhe de longe, tmidas.
- Vamos saindo - disse Bio, puxando o irmo pelo brao e abrindo 
caminho por entre a multido a golpes de ombro e cotovelo. - Venha, 
papai.
Licurgo acompanhou-os, cofiando os bigodes e pigarreando nitidamente. 
Pessoas abraavam-no, davam-lhe os parabns pela chegada do filho. 
Ele agradecia, risonho 
e constrangido, como se aquelas atenes e cordialidades, longe de 
satisfaz-lo, o deixassem contrariado.
Chegaram finalmente  porta da estao, que dava para pequeno 
largo.
- Me d o conhecimento da bagagem - pediu Torbio.
E ali sob o sol, no meio duma roda de amigos, Licurgo fez uma 
apresentao:
- Meu filho, quero l apresentar o coronel Jairo Bittencourt, 
comandante do regimento de infantaria.
O homem alto e ruivo, de vastos bigodes, e metido num uniforme caqui, 
primeiro fez uma continncia e depois estendeu para Rodrigo a mo 
sardenta em que flamejava 
uma penugem fulva.
- Muita honra, doutor - disse ele.- Sou amigo de seu pai e espero 
sinceramente ser seu amigo.
Tinha uns olhos sem malcia, dum cinza-azulado. E quando Rodrigo, que 
sentia o suor escorrer-lhe desagradavelmente pelo rosto e encharcar-lhe 
a camisa, quis dizer 
alguma coisa amvel, o coronel tornou a inclinar-se, murmurando:
- No quero interromp-los. Havemos de nos ver mais tarde,
pois no.
Falava com esses chiados, como um carioca, mas os cabelos ruivos, a pele 
branca e manchada de sardas, o rosto sanguneo e o aprumo, davam-lhe o 
aspecto dum oficial 
prussiano.
O carro de Licurgo achava-se parado ao p dos degraus. O Bento saltou 
da boleia, e de cara risonha veio abraar Rodrigo.
- Ento, Bento, sempre firme?
- Como tronco de guajuvira - respondeu o caboclo. Licurgo tomou o 
brao do filho e impeliu-o na direo do
carro:
- Vamos.
Instalaram-se no banco traseiro. Torbio sentou-se no dianteiro, 
esclarecendo:
- O Quincas leva depois as malas na carroa.
Bento subiu para a bolia e, a uma ordem de Licurgo, ps o carro em 
movimento. E houve entre os trs Cambars um silncio quase 
embaraoso. Rodrigo queria dizer 
alguma coisa, mas sentia que as palavras se lhe trancavam na garganta. 
Torbio examinava-o da cabea aos ps, com uma expresso entre 
terna e irnica. E como se 
no encontrasse nada mais a dizer, limitava-se a murmurar: "Sim 
senhor, hein? Sim senhor". Licurgo ento falou. Sem olhar para o 
recm-chegado, brincando com a libra 
esterlina que lhe pendia da corrente do relgio, explicou:
- Essa histria de banda de msica na estao foi idia do 
coronel Jairo. Eu no queria. O senhor sabe que no sou homem dessas 
coisas...
- Eu sei, papai, eu sei.
O coronel Jairo  uma boa praa - interveio Torbio - e tem 
loucura pelo papai.
95
-  um homem de bem - concordou Licurgo, acrescentando: - Pena ser 
militar.
Rodrigo sorriu. O velho continuava a detestar a farda.
O
Na rua do Comrcio as patas dos cavalos soaram alegremente nas pedras 
irregulares do calamento. Mas a marcha do carro, macia enquanto ele 
rodava sobre terra batida, 
comeava agora a ser uma sucesso de solavancos.
- Este calamento est que  uma misria - queixou-se Licurgo. - 
Tambm, o intendente no faz nada por Santa F. S cuida de 
poltica.
Depois da morte de Jlio de Castilhos, Licurgo afastara-se do partido, 
por no concordar com a orientao do dr. Borges de Medeiros no 
que dizia respeito  poltica 
dos municpios.
Rodrigo animou-se:
- Precisamos fazer alguma coisa, papai. A situao no pode 
continuar assim. O coronel Trindade entende que  proprietrio de 
Santa F. Isso no est direito.
Licurgo nada disse, limitou-se a olhar o bico das botinas de elstico. 
Torbio lanou para o irmo um olhar pcaro:
- Mas que  que vais fazer, rapaz?
- Atacar a situao.
- Como?
- Pelo jornal.
- Que jornal? O pasquim da terra est a soldo da situao.
- Pois ento fundaremos o nosso jornal.  a soluo, o senhor 
no acha?
Licurgo cofiava o bigode, calado e enigmtico. E como ele nada 
dissesse, Rodrigo julgou que reprovasse a idia. Ao cabo de alguns 
instantes o Velho murmurou:
- Vamos ver isso depois.
Rodrigo olhava as casas da rua do Comrcio, a muitas de cujas janelas 
assomavam pessoas conhecidas, que abanavam para ele. Ele retribua os 
acenos, sorrindo.
- Olha quem est ali - murmurou Torbio, piscando o olho.
96
Debruada  janela duma vasta casa pintada de amarelo, com Brandes 
esferas de cimento sobre a platibanda, estava a Mariquinhas Matos, com 
seu longo pescoo protegido 
por uma golinha de renda, os olhos muito grandes e negros no rosto 
trigueiro de nariz fino, a boca de boto de rosa sempre fixa no seu 
calculado meio-sorriso. Havia 
dois anos, numas frias, Rodrigo escrevera para o semanrio local 
uma crnica sobre as moas de Santa F na qual se referia " 
encantadora Mariquinhas Matos, com 
seu enigmtico sorriso de Gioconda". Desde ento todos passaram a 
chamar-lhe "Gioconda" e a moa no s comeou a portar-se de 
modo a fazer jus  legenda como tambm, 
ao que parecia, convencera-se de que as palavras do cronista encerravam 
uma velada declarao de amor.
Rodrigo cumprimentou-a amavelmente. A moa armou seu melhor sorriso de 
Mona Lisa e inclinou tambm a cabea.
- Aposto cem mil-ris como ela estava esperando pra te ver passar.
Licurgo franziu o cenho para o filho, numa repreenso muda.
- Qual! - fez Rodrigo. - S tenho uma moa que me ama e me espera. 
Chama-se Maria Valria e mora no Sobrado.
Bento puxou as rdeas e fez a parelha estacar. Uma cara apareceu junto 
 porta do carro.
- Olha o Cuca! - exclamou Rodrigo.
- Bicho velho! - bradou Cuca Lopes, trepando no estribo e envolvendo 
Rodrigo nos braos. - Tu me desculpa, bichlo. Me disseram que o trem 
estava atrasado. Por isso 
no cheguei a tempo. La indo agora pra estao. Mas que tal? 
Formado, hein, magano? Doutor! Mas como vai essa fora? Sim senhor!
- Ests muito bem, Cuca, ests um colosso.
- Vamos embora, meu filho - disse Licurgo. - Sua madrinha est l 
esperando.
- Depois apareo no Sobrado - prometeu Cuca, dando urna palmada no 
brao de Rodrigo e saltando de novo para o cho. " Me desculpa. Me 
deram informao errada 
na estao. - Gesticulava, azafamado e vermelho. - Esses belgas da 
Auxiliaire! No
pode ir atrs dessa gente. At logo, Rodrigo. At logo, coronel. 97
- Toca, Bento! - ordenou Licurgo.
O carro continuou a andar, e dentro de pouco entrou na praa da 
Matriz. Ao avistar a figueira, Rodrigo no pde conter uma
exclamao:
- Olha ela! Olha ela! - Envergonhou-se, porm, desse arroubo juvenil. 
Olhou para a fachada da igreja, triste, severa e coberta de patina, mas 
a grande comoo lhe 
veio, assoberbante, quando avistou o Sobrado. Foi a custo que reprimiu 
as lgrimas. Era-lhe embaraoso ver no banco  sua frente os olhos 
escrutadores e moleques 
de Torbio, que parecia comprazer-se em observar suas emoes. 
Teve uma vontade cordial de dar-lhe um pontap nas
canelas.
O carro parou diante do Sobrado. Bento saltou da boleia e apanhou a 
valisa. Licurgo foi o primeiro a descer. Ao pisar a calada, Rodrigo 
teve um movimento de hesitao 
em que desejou no entrar ainda, para antegozar por mais tempo os 
momentos que estavam para vir. As portas do casaro achavam-se 
escancaradas. Parado no portal Licurgo 
dizia:
- Entre, meu filho.
A voz do pai parecia ter abrandado um pouco. Rodrigo entrou e sentiu-se 
imediatamente envolvido por uma atmosfera fresca e acolhedora, 
impregnada de sons e odores 
evocativamente familiares. Ergueu os olhos e viu l em cima no 
vestbulo, ao p do ltimo degrau, o vulto da tia. Precipitou-se 
escada acima e caiu nos braos de 
Maria Valria, beijando-lhe as faces, a testa, as mos, enquanto ela 
lhe retribua esses carinhos apenas com seus beijos secos e rpidos.
- Ento no est contente com a minha chegada, Dinda? - perguntou 
ele, quando sentiu que podia falar sem o perigo de romper o choro.
- Quem foi que disse que no estou? - Com as mos ossudas tomou-lhe 
do queixo, olhou-o nos olhos demoradamente e perguntou: - Que  isso 
na vista?
- Decerto foi a poeira da estrada...
- Hum...
98
Olharam-se ainda por um instante. Depois, dando duas palmadinhas 
desajeitadas nas faces do sobrinho, Maria Valria ordenou:
V se lavar. Ainda no almoamos esperando pela pior
figura.
Rodrigo voltou-se para Torbio.
- E as minhas malas?
No se afobe, doutor. O Quincas no demora.
Rodrigo entrou na sala de visitas e aspirou com delcia aquele ar que 
recendia a leo de linhaa, a sarro de cigarro de palha (o cheiro do 
pai) e a molho de carne. 
Rodrigo caminhava, a olhar tudo, como se visse aquela sala, aqueles 
mveis pela vez primeira. Postou-se diante do grande espelho de 
moldura dourada e mirou-se 
nele, lembrando-se de outros muitos instantes do passado em que ficara 
naquela mesma postura.
- Est bonito, no precisa se olhar no espelho - disse Maria 
Valria. - V se lavar.
Rodrigo, porm, antes de subir para o quarto foi at a cozinha, onde 
o envolveram os braos gordos e encebolados de Laurinda, que lhe 
beijou sonoramente as faces.
- Est que  a cara da finada Alice! - exclamou a mulata, j com 
lgrimas nos olhos. - Que pena a coitadinha no estar viva pra ver o 
filho doutor.
E, uma a uma, as negras de casa foram aparecendo para cumprimentar o 
recm-chegado. A velha Paula ficou como que em xtase a contemplar 
Rodrigo, a mo espalmada 
sobre uma das faces, a cabea levemente inclinada para o lado, a 
murmurar repetidamente:
- Parece mentira... parece mentira...
E depois, quando Rodrigo se aproximou do fogo e abriu as panelas, 
aspirando o vapor que subia delas e identificando, sob exclamaes, 
o contedo de cada uma, a 
negra velha acercou-se de Maria Valria e disse:
Sinh, nunca vi um moo to bonito em toda a minha vida, benza-o 
Deus!
99
Rodrigo ouviu essas palavras e sentiu-se feliz. No era indiferente 
ao juzo que as outras pessoas - fosse quem fosse - pudessem fazer 
dele. Os elogios dos outros 
 sua inteligncia e  sua aparncia fsica, davam-lhe um 
grande contentamento, eram uma espcie de tnico que lhe aumentava a 
vontade de viver e ao mesmo tempo 
o desejo de portar-se de maneira a no decepcionar seus admiradores. A 
certeza de ser querido e admirado dava-lhe uma clida e reconfortante 
sensao de confiana 
em si mesmo e na vida, um comovido desejo de ser bom e fazer coisas 
grandes e belas.
- Raspa - disse Maria Valria. - No faa seu pai esperar. Rodrigo 
voltou-se e surpreendeu o pai a contempl-lo com
olhos ternos e meio midos. Embaraado por ter sido surpreendido num 
momento de fraqueza, Licurgo tratou de disfarar. E como se no 
encontrasse mais nada para dizer, 
indagou com impacincia:
- Essas malas no chegam? Onde est o Quincas? Finalmente a bagagem 
chegou e Rodrigo subiu a correr para
o quarto.

Comeou a abrir as duas grandes malas em que trazia no s suas 
muitas roupas como tambm alguns livros e pacotes com presentes para o 
pai, para o irmo, para a 
tia e para "a negrada da cozinha". Sentado na cama, Torbio 
observava-o.
- Como tens bugigangas, hein?
Em mangas de camisa, ajoelhado junto duma das inalas, Rodrigo ergueu os 
olhos para o irmo e sorriu:
- Ainda no viste nada. Vm a uns quatro caixes com coisas.
- Quatro? - Torbio soltou um assobio de admirao.
- Comprei um gramofone e um mundo de chapas. E tu no havias de querer 
que eu abrisse o meu consultrio sem tratados de medicina, 
instrumentos cirrgicos, um estetoscpio...
Torbio sorriu.
- Ento esse negcio de medicina  srio mesmo?
Rodrigo ergueu-se com uma camisa na mo.
- Se  srio? No te compreendo...
- Vais mesmo clinicar?
- Mas que dvida, Bio!
Torbio encolheu os ombros. Seu sorriso cptico punha-lhe  mostra 
os dentes midos e escuros. Havia tirado os sapatos e coava 
distrado os dedos dos ps. Sempre 
o touro xucro - pensou Rodrigo, mirando afetuosamente o irmo. Tinha a 
cabea raspada a mquina nmero zero, um pescoo e um torso de 
hrcules de feira. Fazia a 
barba apenas uma vez por semana, gostava de andar descalo e detestava 
as gentes, as roupas e os hbitos de cidade.
- Pensei que querias o ttulo s pra bonito.
- Mas o ttulo  o de menos, homem. O que importa  o que est 
aqui dentro - disse Rodrigo com veemncia, batendo na prpria testa 
com a ponta do indicador. - O 
que vale  o que a gente sabe e o uso que se pode fazer do que 
aprendeu. O mal do Brasil  termos advogados de mais e mdicos de 
menos. Ns precisamos  de mdicos. 
Este  um pas de enfermos.
Torbio continuava a coar os dedos.
- Eu s quero ver...
Rodrigo atirou a camisa em cima da cama, cruzou os braos numa atitude 
de plcido desafio.
- Ver o qu?
- Quanto tempo dura esse entusiasmo pela medicina.
- Ora!
Torbio atirou-se para trs e ficou deitado com as pernas para fora 
da cama, a cavoucar no nariz com o indicador.
Sacudindo a cabea, como se quisesse dar a entender a uma terceira 
pessoa invisvel que o irmo era um caso perdido, Rodrigo continuou 
a procurar na mala roupa branca 
para mudar. Encontrou inesperadamente o canudo de lata que continha o 
diploma. Soltou uma risada curta:
- O famoso diploma!
Torbio limitou-se a lanar-lhe um olhar neutro. E, como se fosse 
personagem duma pea - o jeune premier "Ue cnega  casa paterna com 
um diploma sobre o qual  
um pouco
100
101
cptico - fingindo uma indiferena que estava longe de sentir, 
Rodrigo perguntou, mais para a plateia imaginria do que para o
irmo:
- Que  que vou fazer com este canudo?
- Mete ele num certo lugar... - respondeu Torbio, Rodrigo no 
gostou da resposta. Franziu a testa, querendo dar
a entender que sua sensibilidade fora ferida pela insinuao 
grosseira. E, vendo uma expresso de juvenil malcia no rosto de 
Torbio, sacudiu lentamente a cabea, 
sentindo-se mais velho, mais ajuizado e responsvel que o irmo.
- No mudaste nada - murmurou, com um ar de adulta tolerncia. - 
s o mesmo Bio de sempre.
- No sou doutor, no andei metido com gente fina na capital. Fiquei 
no Angico s voltas com a bagualada. A troco de que havia de mudar?
- Achas que eu mudei muito?
Torbio ps-se de p em movimentos tardos, examinou o irmo com 
um olhar comicamente demorado e por fim opinou:
- Um pouquito.
- Naturalmente queres dizer que sou um dandy.
- Mais ou menos...
Rodrigo sorria, batendo repetidamente com o canudo na coxa.
- Achas que no sou bem macho...
- Isso ainda est pra se provar.
- Pois vamos fazer j a prova! - exclamou Rodrigo, largando I o canudo 
e comeando a arregaar as mangas da camisa, ao passo que Bio, 
sorrindo, sungava as calas 
e apertava a cinta.
- No vale dar aquele golpe baixo... Torbio soltou uma risada breve 
e seca.
- No sou prevalecido. Mesmo que eu desse, no achava
nada pra agarrar...
- Eu te mostro, filho da me! - observou Rodrigo, percebendo, mal 
pronunciara essas palavras, que saa de seu papel. No era mais o 
jovem cosmopolita que lia Anatole 
France, amava Paris, usava smoking e bebia champanha. Recuara no tempo, 
tinha agora quinze anos...
102
- Pronto?
- Pronto.
O quarto era amplo e havia entre a cama e a parede bom espao para uma 
"rinha". Os dois irmos ficaram por um instante frente a frente, 
negaceando.
Rodrigo era um pouco mais alto que Torbio, mas muito menos corpulento 
e musculoso. Defrontaram-se por alguns segundos como dois galos de 
briga. Foi Torbio quem 
investiu primeiro. Atracados, caram sobre a cama, tombaram no soalho 
e rolando, derrubando cadeiras, gemendo, bufando, dizendo-se nomes feios 
e ao mesmo tempo rindo, 
continuaram a lutar. Por fim Torbio conseguiu encostar os ombros do 
outro no cho, e, acavalado sobre o ventre do adversrio, as 
manoplas a apertar-lhe o pulso, 
chumbou-o s tbuas.
- Conheceu, papudo?
Arquejante, suado, escabelado, Rodrigo ainda tentou safar-se, 
esperneando e procurando golpear com o joelho as costas do irmo. 
Nesse momento Maria Valria entrou 
em passadas bruscas, aproximou-se dos lutadores e, torcendo uma das 
orelhas de Torbio, ordenou:
- Largue j o outro. Ento isso  jeito de receber o irmo?
- Deixe, Dinda! - gritou Rodrigo. - Eu j mostro a esse cachorro!
- Conheceu, papudo? - tornou a perguntar Torbio. Maria Valria 
continuava a torcer as orelhas do sobrinho.
- A Laurinda vai j servir o almoo. Quem chegar tarde no come.
Rodrigo fez um novo esforo, que o deixou afogueado, e finalmente, 
exausto, desistiu:
- Estou com fome. Me larga!
Torbio largou os pulsos do irmo e ergueu-se pesadamente.
- Est bem. Sou generoso.
- s um cavalo.
Maria Valria contemplava-os, sacudindo a cabea, penalizada: Mas 
vocs no tm mesmo mais nada que fazer? Onde se V1u estarem assim 
de aleites?
103
- Aloites! Mas a senhora  um colosso, Dinda.
Avanou para ela e beijou-lhe ambas as faces, enquanto Torbio, que 
enxugava na ponta da colcha o suor do rosto, murmurava:
- Chaleirista...
- Vamos, depressa, meninos. V tomar o seu banho, Rodrigo. E colcha 
no  leno, Bio.
Rodrigo apanhou uma toalha, um sabonete, a roupa-branca e desceu 
acompanhado do Torbio. O quarto de banho ficava no andar trreo e 
era pavimentado de lajes. Na 
maioria das residncias de Santa F tomava-se banho em grandes 
bacies de folha, com gua tirada do poo. O Sobrado, porm, 
orgulhava-se de ter um chuveiro de fabricao 
estrangeira, com gua fria e quente.
Rodrigo despiu-se, enquanto Torbio, sentado num caixo vazio, 
picava fumo para um cigarro.
- Precisa fazer um pouco de exerccio - disse este ltimo. - Ests 
meio flaquito.
- Nem tanto. Olha s.
Flexionou o brao para mostrar a musculatura.
- Precisas tambm tomar um pouco de sol, ests com o corpo to 
branco que at parece de mulher.
- Com toda essa cabelama nas pernas e no peito?
- Conheo muita mulher cabeluda, rapaz.
Rodrigo sorriu, meteu-se debaixo do jorro d'gua e comeou a 
ensaboar-se com um entusiasmo apressado e ruidoso.
Torbio enrolou o cigarro, bateu a pederneira do isqueiro, acendeu o 
"crioulo" e puxou uma baforada.
- Fizeste muita farra este ano?
- Se fiz!- gritou Rodrigo, esfregando com fria as axilas, de olhos 
fechados. - Era o ltimo ano, o meu adeus  pndega. Na vspera 
da colao de grau tomamos uma 
bebedeira colossal. Acabamos na casa dumas raparigas, bebendo champanha 
no sapato duma francesa...
- Isso  porcaria.
- Depois que a gente fica meio alegrete, tudo vale... O outro sacudiu a 
cabea, discordando.
- Lugar de bebida  em copo. Lugar de mulher  na cama. No digas 
tamanha heresia! Ento no achas que a mulher
possa ter outra serventia? No reconheces que ela possui uma alma, uma 
delicadeza maior que a nossa? - No seu entusiasmo, Rodrigo deixou cair o 
sabonete nas lajes. 
Ficou parado, de olhos fechados a pregar um sermo lrico 
concernente  superioridade das mulheres sobre os homens. - Me d a 
toalha, ligeiro!
Torbio obedeceu. Enxugando os olhos, o outro continuou:
- E no te esqueas, miservel, que nossa me era mulher. E que 
a tia Maria Valria tambm  mulher. No te bastam esses dois 
exemplos, devasso?
Torbio pitava, em calma, sorrindo e gozando o entusiasmo do outro.
- Est bem, est bem. Lugar de mulher  num nicho pra ser adorada. 
Mas conta as tuas farras.
- Apareceu este ano em Porto Alegre uma companhia de zarzuelas com umas 
espanholas morenas, dessas de deixarem um cristo louco da vida. Eu e 
outros colegas vivamos 
na caixa do teatio com presentinhos pras raparigas e convites pra ceias. 
Me meti com uma que por sinal era uma menina muito quieta. Pois no 
 que quase me apaixono 
a srio pela bichinha?
- Es um cala frouxa.
- Chamava-se Rosrio.
- Isso  nome de mulher?
- Em castelhano . E que mulher, seu Bio!
- Boa na cama?
- Boa na cama, fora da cama, no palco, na mesa, em todos os lugares. E 
depois, muito educada, muito recatada...
- Aposto como era dessas que, na hora da ona beber gua, pedem pra 
gente apagar a luz.
- Exatamente. A Rosrio tinha pudor.
- No  o meu gnero.
Rodrigo mirou o irmo por algum tempo e depois, pensativo:
Pois estou quase achando que esse  o meu tipo - disse.
 enho um fraco pelas mulheres pudicas. Acho o pudor at
104
105
excitante. Se a mulher que est comigo diz um nome feio, l se
vai toda a poesia.
- Ests ficando muito cheio de nove-horas.
- Talvez. Mas  o que sinto. Questo de temperamento. Te lembras das 
nossas farras com o Neco e o Chiru? Pois hoje sou um homem mudado...
Torbio deu de ombros.
- Comigo, mulher tem que se entregar inteirinha, seno no
serve.
- Mas essa entrega completa no depende s da nudez, Bio,
nem de deixar a luz acesa.
- Estou vendo que no entendes nada do assunto.
- Vai-te embora, bobo! - exclamou Rodrigo, atirando o sabo contra 
Torbio, que quebrou o corpo.
Rodrigo tornou a ensaboar-se e a voltar para baixo da ducha.
- Tenho poeira at na alma, menino! - exclamou. E depois enrolado na 
toalha, perguntou com sorriso meio safado, que no era mais do homem 
novo, mas do velho companheiro 
de farras do
Chiru e do Neco:
- Como vamos por aqui em matria de mulheres?
- Na penso da Tucha - informou Torbio - tem umas duas ou trs 
raparigas cotubas. Mas a que est na moda agora  a Doralice, uma 
ruiva que mora do outro lado dos 
trilhos, perto da Sibria.  reservada. Dizem que o coronel dela  
o Juca Amaral.
- Ento essa Doralice  bonita mesmo? - quis saber Rodrigo, 
friccionando fortemente os cabelos com a toalha.
- Um peixo.
- Que tipo?
- Grande, peituda, com umas boas ancas, e uma cara linda. Rodrigo 
ps-se a parodiar um tenor de pera, e sua voz encheu
o quarto de banho, caricaturalmente empestada:
Io voglio conoscere La bella Doralice La bella, bella, bella 
Dora-Dora-liiiice!
Torbio sorria, com o cigarro preso entre os dentes.
-- Mas falando srio, Bio, logo que eu encontrar uma moa que me 
agrade, caso-me.
- No sejas besta. Casar pra qu?
- Casando, a gente resolve definitivamente esse problema de
mulheres.
Torbio soltou uma formidvel gargalhada, que reboou no quarto, 
fazendo o ralo do chuveiro vibrar.
- Ora, no sejas burro. Quem casa tem uma mulher s e perde todas as 
outras.
Rodrigo piscou-lhe o olho com um sorriso cheio de intenes, e 
perguntou:
- Ser que perde mesmo?
- Mas se depois de casado vais continuar correndo atrs das chinas e 
das mulheres dos outros, qual  a vantagem do casamento?
- Tu te esqueces que teu mano  mdico, e que um mdico pra impor 
respeito tem de ser casado...
- Deixa crescer um cavanhaque que  a mesma coisa.
- Pois a est uma idia. Talvez eu deixe. Vou ficar como o conde 
de Luxemburgo.
Pensou com saudade nas noitadas de opereta do Teatro So Pedro. Ali! 
La primavera scapigliata... Os sinos de Corneville... A viva 
alegre...
Torbio cortou-lhe o devaneio:
- Te veste depressa. Ningum ainda almoou s por tua causa.
Durante o resto daquela tarde o Sobrado passou cheio de visitas, gente 
que queria ver e abraar Rodrigo, criv-lo de perguntas e elogios. 
Todos pareciam muito impressionados 
pelo fato de ser
O filho de Licurgo Cambar o primeiro santa-fezense a formar-se em 
medicina. A romaria era interminvel. Vinham pessoas que se "ratavam a 
cumprimentar Rodrigo e 
retirar-se; na sua maioria, porem, ficavam por muito tempo, tomavam mate 
ou aceitavam um
106
107
copo de cerveja fresca e comiam os bolos e pastis que Maria 
Valria mandara fazer em boa quantidade, especialmente para a 
ocasio.
Apareceram tambm duas parentas pobres, velhas tristes, mascadeiras de 
fumo, com um ar de permanente infelicidade nas caras amareladas e 
murchas. Rodrigo tratou-as 
com um carinho especial, pois no queria que pensassem que, por ser 
doutor e filho de gente rica, ele desprezasse aquelas primas distantes e 
obscuras. Quando se 
despediram, com suas vozes lamurientas, o rapaz meteu discretamente na 
mo de cada uma delas uma cdula de dez mil-ris, pelo que as 
velhotas, quase a chorar, agradeceram, 
dizendo: "Que Deus Nosso Senhor l ajude e guarde, meu filho". E se 
foram, arrastando pelo soalho as saias dum preto ruo e melanclico.
Por volta das quatro horas apareceu Amintas Camacho, secretrio do 
municpio, metido na sua roupa preta domingueira. Rodrigo no o 
conhecia. Ti atava-se dum rbula, 
natural de Porto Alegre, e fazia apenas oito meses que chegara a Santa 
F, onde tinha banca de advocacia e era redator do semanrio A Voz 
da. Serra. Sentou-se muito 
cerimonioso, e comeou a falar em estilo de editoral.
- Traz-me  sua presena uma misso que assaz me desvanece. O 
coronel Aristitiano Trindade, nosso ilustre edil, me confiou a honrosa 
incumbncia de apresentar a 
Vossa Excelncia em seu nome e no da comuna as boas-vindas e os 
emboras.
- Muito obrigado murmurou Rodrigo, mal podendo
conter o riso.
O rbula pigarreou e em seguida, como quem j se livrou dum peso, 
mudou de tom, tranou as pernas e tratou de dar  conversao um 
tom mais natural:
- Ento, doutor, quais so as suas impresses desta bela terra? 
Rodrigo fez um gesto vago.
- Para falar a verdade ainda no vi muita coisa. No me deram tempo 
nem de meter o nariz para fora da janela.
O representante do intendente suava na ponta do nariz e lambia 
freqentemente os beios num gesto faceiro que desagradou Rodrigo.
De resto era-lhe tambm desagradvel aquela cara duma palidez 
lustrosa, e aqueles cabelos crespos, excessivamente besuntados de 
brilhantina.
- Pois  - continuou Amintas, tirando do bolso o leno de seda e 
passando-o de leve pelas faces, ao mesmo tempo que emanava dele um 
perfume ativo e adocicado. - 
Santa F tem progredido muito. O ano que vem, o coronel pretende 
mandar calar a Rua do Comrcio com palarele... - Atrapalhou-se ao 
pronunciar esta ltima palavra. 
Repetiu-a devagar, escandindo bem as slabas: - Pa-ra-le-le-... 
ppedos.
-  uma grande coisa...
- E j iniciamos tambm a construo do novo palacete da 
Intendncia Municipal. O doutor j viu a planta?
- Ainda no.
- Pois  uma verdadeira beleza. Tem uma cpula no centro, muito 
grandiosa. Vai custar um dinheiro.
- Imagine...
- E vai ser muito mais bonito que o da Intendncia de Cruz Alta.
Laurinda trouxe numa salva de prata um copo de cerveja para o rbula, 
que o bebeu num longo sorvo - no, porm, antes de ergu-lo no ar 
e dizer: " sua sade, doutor!" 
Lambeu com a ponta da lngua a espuma que lhe ficara no bigode.
Esse perfume me mata - pensou Rodrigo, desejando que o visitante fosse 
embora.
Depondo o copo sobre o consolo, Amintas recostou-se comodamente no 
respaldo da cadeira, j com ar de ntimo da casa.
- Ento em fevereiro prximo vamos ter a honra de receber a visita 
do futuro presidente da Repblica, no?
Rodrigo sabia a quem o outro se referia, mas fingiu no ter 
compreendido.
Mas quem  o futuro presidente da Repblica? O marechal Hermes, 
naturalmente.
- Ele j foi eleito? O rbula sorriu.
108
109
- Claro que no, mas ser. Todos sabem que o marechal vai ganhar a 
eleio. O dr. Rui Barbosa  um grande brasileiro, uma formosa 
cultura, mas no tem eleitorado 
para vencer o candidato oficial. O meu prezado amigo naturalmente vai 
votar no nosso coestaduano Hermes da Fonseca, no?
Rodrigo ficou com o rosto em fogo. Sentia-se insultado, como se o outro 
estivesse tentando suborn-lo.
- Est visto que no!
- Pois ento me perdoe, eu no sabia... Julguei que o doutor fosse 
republicano, como seu pai.
- Meu pai tambm no vai votar no marechal. Nesta casa todos so 
civilistas.
- Est bem. Desculpe. Costumo respeitar a opinio alheia. Cada qual 
vota de acordo com a sua conscincia, no  mesmo, doutor?
- Nem todos - retrucou Rodrigo. - H os que votam coagidos pela 
capangada da situao porque tm amor  pele, e os fuuncionriios pblicos, que votam com o governo 
para no perderem seus empregos. E h ainda os que votam sem saber e 
sem ter o direito de votar!
- Sem saber... sem ter o direito?
- Refiro-me aos mortos. Os defuntos sempre votam com o governo, moo! 
- Rodrigo sentiu que sua voz se tornava gutural, gorda, quase engasgada. 
- Em suma, no Rio 
Grande as eleies se fazem a bico-de-pena!
Amintas sorriu amarelo, seus lbios tremeram de leve e de novo ele 
passou o leno pela testa e pelas faces.
- Eu respeito muito as opinies alheias - repetiu. Rodrigo comeava 
a indignar-se com o sentido daquela visita,
que s agora compreendia com clareza. Quem estava na sua frente era um 
assalariado do Titi Trindade, o tirano de Santa F, mandante de tantos 
assassnios e violncias. 
Rodrigo recebera o homem com cordialidade, impelido por aquela onda 
sentimental que o embalava desde o momento de sua chegada. E agora, 
irritado pela cara do Amintas 
Camacho, pela sua voz melosa na qual havia, como nos cabelos, um excesso 
de brilhantina, e principalmente nauseado
por aquele perfume barato de china de soldado - ele j sentia pruridos 
de erguer-se, pegar o outro pelo fundilho e jog-lo na rua. Conteve, 
porm, a revolta. Considerava-se 
um homem polido, uni civilizado. Deixou que a indignao lhe 
escapasse do peito num profundo suspiro que, ainda por delicadeza, no 
soltou duma s vez, mas sincopadamente, 
de modo discreto.
- Aceita mais um copo de cerveja? - perguntou, com ar quase 
evanglico.
- No. Muito grato. - Amintas levantou-se, lanou um olhar furtivo 
para o espelho e disse: - O coronel Trindade tambm me encarregou de 
lhe transmitir um convite 
para visitar a Intendncia...
Disse isto sem nenhum entusiasmo, como se tivesse a certeza de que o 
convite ia cair num frio vcuo. E, ainda numa tentativa de 
conciliao, acrescentou:
- O edil acha que a nossa terra precisa de moos inteligentes e 
esperanosos como o senhor.
Rodrigo nada disse. Queria encarar o outro mas no podia; seu olhar se 
mantinha baixo e a voz, de ordinrio duma limpidez metlica, ganhava 
agora tons foscos, como 
que penugentos. O rbula estendeu-lhe a mo mole e suada, que 
Rodrigo apertou com certo constrangimento. Depois acompanhou o visitante 
at a porta.
- Mais uma vez - disse Amintas Camacho com um p no portal e outro na 
calada - foi uma honra conhec-lo, doutor. Desculpe o incmodo. 
At mais ver.
- Passe bem.
Mal o outro saiu, Rodrigo, de nariz franzido, correu a lavar as mos.
Quando, alguns minutos mais tarde, terminou de descrever a visita para o 
pai e o irmo, este ltimo perguntou:
Por que no botaste aquele sacripanta daqui pra fora com um pontap 
no rabo?
Ora, eu no podia fazer uma coisa dessas. Podias, sim - retrucou 
Torbio. - O Amintas  um cafajeste, um capacho do Titi Trindade. O 
jornal dele  uma latrina.
110 
- E o canalha do Trindade - ajuntou Rodrigo, que agora comeava a 
achar engraada a situao - ainda tem o caradurismo de me 
convidar pra ir fazer-lhe uma visita 
na Intendncia!
- Decerto pensa que pode te comprar. Est mal habituado com tipos da 
laia desse Amintas que pra fazerem carreira depressa so capazes at 
de lamber as botas do intendente.
- Que corja! - exclamou Licurgo. - J contam com a vitria certa.
Rodrigo encarou o pai:
- Por essa e por outras  que precisamos ter o nosso jornal. Depois 
dum instante de reflexo, Licurgo deu uma resposta
evasiva:
- Me contaram que os federalistas vo fundar um jornal em Cruz Alta 
pra fazer propaganda da candidatura do dr. Rui Barbosa...
- Como este mundo d voltas! - riu Torbio. - O senhor vai votar no 
candidato dos maragatos, hem, papai?
Dando mostras de no ter gostado da observao brincalhona do 
filho, Licurgo sacudiu a cabea, protestando:
- No senhor! Os maragatos  que vo votar no meu candidato.
Rodrigo sentou-se na velha cadeira de balano que pertencera  sua 
bisav Bibiana, apoiou a cabea no respaldo de palhinha, e olhou 
ternamente para o retrato de 
Alice Terra Cambar, que pendia da parede da sala, enquadrado numa 
moldura cor de ouro velho. Como tudo seria melhor se ela estivesse viva! 
Ficou a pensar na me, 
que morrera em 1898, quando ele tinha apenas treze anos incompletos. Era 
uma criatura apagada e tristonha, que nunca alteava a voz e que parecia 
votar um respeito 
medroso ao marido. Frgil de corpo, tinha m sade e queixava-se 
com freqncia de terrveis dores de cabea. Rodrigo jamais 
esquecera aquele dia chuvoso e frio, 
num agosto cruel, em que, entrando no quarto do casal, encontrara a 
me estendida na cama a gemer, com duas rodelas de batata crua coladas 
nas fontes.
- Que  que a senhora tem?
- Nada. V l pra baixo, sua me est morrendo de dor de 
cabea.
Essas palavras doeram-lhe fundo, fazendo-o chorar. No dia em que sua 
me morrera, ele entreouvira tia Maria Valria suspirar:
- Foi uma mrtir. Agora est descansando.
Mrtir? Correu a procurar o significado dessa palavra num velho 
dicionrio de 1850, onde leu:
MARTYR: Pessoa que padece martyrio pela f. fig. Que padece por 
qualquer causa: v.g. martyr de esperanas, cuidados, receios, invejas, 
etc. "o galante martyr dos 
ces sapatos, que lhe apertavam os dedos" "Velha vaidosa... o corpo 
uma saca de l... martyr de um espartilho, capaz de a fazer 
apopltica...
Intrigado, passara a associar a palavra mrtir a vaidade, velhice, 
espartilhos e sapatos apertados. Mas no dia em que, vendo passar na rua 
uma mulher morena, Torbio 
apontara para ela, dizendo: "L vai a amsia do papai..." - ele 
compreendera com uma clareza contundente e dolorosa o verdadeiro sentido 
da palavra mrtir. Sua me 
era uma mrtir porque padecia por saber que o marido tinha outra 
mulher. Rodrigo odiara o pai "durante dias, semanas, meses. Levara muito 
tempo para se refazer daquele 
choque e poder de novo olhar o velho de frente, falar-llie com 
naturalidade e tornar a sentir por ele a antiga afeio.
Mas de que lhe servia estar agora a relembrar aquelas coisas tristes? - 
perguntou Rodrigo a si mesmo, balouando-se na cadeira da finada 
Bibiana.
- Olha s quem est chegando! - exclamou Torbio, que se 
encontrava junto da janela.
Quem? - perguntou Rodrigo com indiferena, sem ao menos mover a 
cabea.
- O Fandango!
Rodrigo ergueu-se num pulo, precipitou-se para o vestbulo e
esceu a correr os degraus que levavam  porta, abrindo-a de par
em par. A velha jardineira que fazia as viagens entre Santa F e o Angico, achava-se parada  frente do Sobrado e dela agora descia
112
113
o velho Fandango, de bombachas e camisa branca, com um amplo sombrero 
na cabea. Estava quase a completar cem anos de idade, metade dos 
quais passara a servio 
dos Cambars. Licurgo crescera  sombra do velho gacho, que lhe 
ensinara coisas sobre as lidas do campo e as lidas da vida. 
Encontrava-se agora Jos Fandango numa 
espcie de aposentadoria com a qual, entretanto, no se conformava, 
pois se considerava ainda suficientemente forte e lcido para 
continuar capatazeando a estncia. 
Vivia s turras com Torbio por discordar das coisas que este fazia. 
Achava-o preguioso, lerdo e implicava com as inovaes que 
"aquele alcagete" trazia para o 
Angico, tachando-as de "coisas de maricas de cidade" ou "invenes 
estrangeiras". Na sua opinio os antigos  que estavam com a 
razo, e ficava irritado ao ver que 
Bio desobedecia a certos preceitos que regiam, havia anos, o trabalho da 
estncia. A experincia recomendava usar bual na primeira fase da 
doma: Torbio teimava 
em usar freio. Era indispensvel que a doma se fizesse em tempo de lua 
minguante: Bio achava que qualquer tempo era bom. Ora, graas a uma 
tarimba de mais de setenta 
anos, Fandango sabia que cavalo domado durante a lua nova fica 
defeituoso de boca. No entanto Bio queria saber mais que os gachos de 
antigamente, e ria-se quando 
Fandango garantia que o melhor remdio para curar bicheira era 
simplesmente cortar com faca o pedao de terra em que o animal doente 
pisou e depois vir-lo, deixando 
para baixo a marca do casco. Tudo isso - afirmava o velho - eran 
"cositas" aparentemente pequenas, mas na verdade durna importncia 
capital.
Rodrigo correu para o recm-chegado e estreitou-o demoradamente contra 
o peito, exclamando: "Amigo velho! Amigo velho". Depois, segurando o 
gacho pelos braos, 
afastou-o de si para melhor ver-lhe o rosto. A todas essas o capataz 
limitava-se a sorrir seu sorriso mole e desdentado, em que havia um 
permanente ar de malcia, 
como se ele no levasse o mundo a srio ou, melhor, como se 
estivesse sempre a antegozar uma empulhao. Seu rosto trigueiro 
estava murcho e pergaminhado como o 
de uma mmia. Os olhos, porm, eram olhos de gente viva, e muito 
viva.
Fandango contemplou seu jovem amigo por algum tempo e por fim murmurou:
114
- Este corno filho duma me...
Rodrigo sabia que "corno" na boca de Fandango era uma palavra afetuosa.
- Mas, Fandango, voc no muda. Sempre rijo e lindo!
-  o que dizem Ias morochas, muchacho,  o que dizem Ias morochas!
- Vamos entrar. - Puxou o amigo na direo da porta. - Fez boa 
viagem?
- Qual nada! Estou desmoralizado.
- U, por qu?
J sobre o portal, Fandango voltou a cabea para trs e fez um 
sinal na direo da jardineira.
- Me fizeram viajar naquela geringona. Que vergonha! Onde se viu um 
gacho andar de carro? Acharam decerto que o velho no agentava a 
viagem em riba do lombo 
dum cavalo... X gua! que  que pensam que eu sou?
Rodrigo conduziu-o docemente para dentro de casa. Fandango prosseguiu, 
com sua voz de papagaio:
- Passei uma vergonha danada. Quando me viram sair de jardineira, a 
peonada do Angico ficou se rindo de mim.
Caminhava meio encurvado, mas pisando leve e rpido, com a ponta dos 
ps, num jeito faceiro. E quando Rodrigo quis segurar-lhe o brao 
para ajud-lo a subir a escada, 
o velho repeliu-o.
- Tira essa mo da! Est pensando que j ando de perna frouxa?
Subiu lpido os degraus que levavam ao vestbulo e l em cima 
comeou a gritar:
-  o Fandango, minha gente! Quero um chimarro bem quente!
- Um mate pr Fandango! - reforou Rodrigo. E na cozinha as negras 
comearam a movimentar-se.
Quando Licurgo e Torbio vieram apertar-lhe a mo, o velho roi 
logo fazendo seu relatrio verbal:
- Morreu aquela vaca brasina que deu cria a semana passada. ontem 
estiveram curando bicheira. Estavam fazendo um servio mui porco. Se 
no fosse eu me meter, no 
sei o que ia sair... Ah!
115
No se esqueam que tenho de levar pr Angico sal, acar e 
carosene. - E sem mudar o tom de voz: - E como vai a Maria
Valria?
Fizeram-no sentar no sof da sala. Fandango tirou o chapu e por 
algum tempo ficou a coar a calva, sobre a qual se viam ralos cabelos, 
dum branco cetinoso de toral. 
Rodrigo sentou-se na frente do velho e quedou-se a admir-lo.
- Pensou que ia encontrar o Fandango na cidade dos ps juntos, hein, 
maroto? Mas o velho  duro. Pra levar ele, a morte vai custar um 
pouquinho.
Fandango  eterno - pensou Rodrigo, emocionado. No era um ser 
humano mortal, mas um elemento da natureza. Era como uma grande rvore 
antiga por sobre a qual passavam 
as tempestades, as chuvas, o vento e o tempo. Perdera o filho na Guerra 
do Paraguai e o neto na revoluo de 93, Rodrigo no se lembrava 
jamais de ter visto Fandango 
triste, desanimado ou ocioso. Conservava a prospia tanto nos bons 
como nos maus tempos; topava todas as paradas, e onde quer que houvesse 
msica e dana, l estava 
ele a tomar parte na folia. Para Rodrigo o velho capataz era a 
encarnao mesma de Pedro Malasarte, o grande empulhador. Conhecia 
melhor que ningum seu estado natal, 
que percorrera em todas as direes como tropeiro, carreteiro ou 
soldado. No havia melhor companheiro que ele para um bom chimarro 
ao p do fogo. Quando Fandango 
comeava a contar seus causos, a falar nas gentes que conhecera - 
carreteiros, tropeiros, estancieiros, trovadores, caixeiros viajantes, 
violeiros, gaiteiros, 
bandidos, gringos, castelhanos, baianos, correntnos, doutores, 
generais, contrabandistas; quando gabava as muitas muchachas com quem 
dormira ou tivera vontade 
de dormir, ou narrava as peas que pregara ao prximo, as aventuras 
e lambanas em que andou metido - ningum tinha sono: todos ficavam 
escutando, encantados, de 
bico calado, enquanto o chimarro corria a roda, a gua chiava na 
chaleira pendente da trempe, e de quando em quando algum avivava o 
fogo. E no minuto em que Fandango 
silenciava, havia sempre quem pedisse: "Conta outra! ' E ele contava. 
Era sempre o ltimo a ir para a cama, e o primeiro a levantar no dia 
seguinte.
116
- Doutor, hein? - exclamou o velho, examinando Rodrigo da cabea aos 
ps, com um olhar crtico e ao mesmo tempo afetuoso.
-  verdade, Fandango, doutor...
- E tu pensa que eu acredito que tu sabe alguma coisa? X gua! Te 
vi nascer, guri, te peguei no colo. Diz-que agora ests a todo 
pelintra, pensando que es gran 
cosa...
Os outros riam. Fandango apontou para Licurgo:
- Esse que a est tambm pensa que  gran cosa s porque tem 
barba na cara e chamam ele de coronel. X mico!
Voltou os olhos para Maria Valria, que naquele momento entrava, 
trazendo a cuia do chimarro.
- E essa magricela que 'i vem... eu vi ela assinzinha. Tinha umas pernas 
finas e compridas como canio. Era feia como as necessidades e depois 
de grande no melhorou 
nada. Como vais, Mana Valria?
- Est aqui o mate, velho caduco - disse a recm-chegada, entregando 
a cuia ao gacho.
- D pr seu cunhado. Vassuncs sabem que nunca tomo o primeiro 
mate.
- Eu j tomei um. Este  o segundo. Pegue a cuia. Fandango obedeceu, 
piscando o olho para Rodrigo e dizendo:
- Sempre mandona...
Seus lbios moles se preguearam em torno da extremidade da bomba de 
prata.
- Sabes que o marechal Hermes vai chegar aqui em fevereiro? - perguntou 
Rodrigo.
- E que  que esse vivente vem fazer? - indagou Fandango.
- Propaganda da candidatura dele.
- Pra qu? Todo mundo sabe que ele vai ganhar a parada...
- No diga isso nem por brinquedo! - protestou Licurgo, espinhado.
- Digo, sim. Onde se viu o cavalo do comissrio perder a carreira?
- Mas  preciso reagir - retorquiu o dono da casa. Se a gente cruzar 
os braos, essa cachorrada nunca mais larga o osso.
117
Fandango fechou um olho e fitou o outro no rosto de Rodrigo, ao mesmo 
tempo que fazia com a cabea um sinal na direo de Licurgo:
u bem dizia pr teu pai l por oitocentos e oitenta e
tantos, quando ele e outros moos andavam por a com essas besteiras 
de repblica. "Isso no adianta nada, vassuncs no encontram 
ningum melhor que o imperador 
pra governar esta droga." Eles teimaram, mandaram o Velho embora pra 
Europa, mataram o coitado de desgosto. Est a o que arranjaram... 
Ningum se entende mais. 
Ds que proclamaram a Repblica s temos tido barulho e brigas no 
Brasil...
- Mas no se esqueam - replicou Licurgo - que a Repblica ainda 
no fez vinte e um anos! E se at hoje no temos ordem e 
democracia no pas  por culpa dos militares!
Fandango deu de ombros e disse:
- Pra mim, militar no passa de paisano fardado. Tudo  a mesma 
gente. Uns alcagetes sinberguenzas.
Licurgo brincava, impaciente, com a moeda da corrente do relgio.
- Mas o Imprio no era essa beleza que vocs dizem - reagiu ele. 
- Tinha muitas sujeiras, e a escravatura era uma delas.
Fandango no tardou a dar-lhe o troco:
- Mas no foi o imperador quem inventou a escravatura. E de que serviu 
a abolio? Os negros agarraram a carta de alforria, se deitaram a 
dormir e no quiseram fazer 
mais nada. Andam agora por a com uma mo adiante e outra atrs. 
Nos tempos da escravatura no havia crioulo que no tivesse seu 
pataco no bolso. Hoje, x mico!, 
esto despilchados que nem rato de igreja. E apesar de tudo, negro 
continua sendo o que sempre foi: negro.
Naquele momento tilintou a campainha do telefone. Maria Valria olhou 
para o cunhado; Licurgo olhou para Torbio e este para Rodrigo, que 
decidiu ir atender o chamado. 
Havia pouco mais de um ano que Santa F contava com uma companhia 
telefnica. Por insistncia de Rodrigo, o Sobrado fora a primeira 
casa a instalar um aparelho, 
apesar da relutncia do pai e da madrinha. Telefone - achavam eles - 
era um luxo desnecessrio. Santa F era to
pequena, que para a gente mandar recados utilizava um moleque ou ento 
resolvia a coisa a grito. Por causa da teimosia de Rodrigo l estava 
agora aquela "coisa" 
esquisita pregada a uma das paredes do vestbulo. Quando a campainha 
soava, as gentes da casa ficavam hesitantes, cada um a esperar que 
"outro" fosse movimentar 
a manivela do aparelho e tirar o fone do gancho. Quando levavam o fone 
ao ouvido era com uma irritada m vontade; se no conseguiam 
entender o que a minscula voz 
dizia, zangavam-se, ficavam agressivos e acabavam por cortar a 
ligao. Tudo isso - achava Rodrigo - tinha razes no medo que o 
homem do campo votava s mquinas 
em geral.
Rodrigo levou o fone ao ouvido:
"Ol! Ol! Quem fala?"
O chamado era para ele. O coronel Jairo Bittencourt comunicava-lhe que 
pretendia fazer-lhe uma visita  noite e perguntava se podia 
receb-lo.
- Mas como no, coronel! Com a maior satisfao... Ol? Como? 
Ah... no senhor, absolutamente, venha  hora que quiser... terei o 
maior prazer. Pois no... Perfeitamente. 
Muito obrigado.
Pendurou o fone no gancho, tornou a dar manivela e voltou para a sala. 
Fandango dirigiu-lhe um olhar travesso.
- Qualquer dia quero falar numa droga dessas.  verdade que esse bicho 
faz ccega no ouvido da gente?
O velho capataz tinha grande admirao por todas aquelas 
invenes modernas que vira chegar periodicamente a Santa F. 
At agora ainda no compreendia direito o 
telgrafo, e alimentava at a vaga desconfiana de que tudo aquilo 
no passava de grossa empulhao. Desde que o Sobrado instalara, 
havia alguns anos, uma rede de 
gs acetilene, um dos divertimentos de Fandango era ncar olhando para 
aqueles bicos que chiavam nas salas do casaro e ao redor de cujas 
chamas, dum branco esverdinhado, 
as mariposas esvoaavam, tontas. E diante de todas essas engenhocas, o 
velho resumia sua admirao numa frase:
Nao de gente ladina, esses estrangeiros!
118
119
IV

No dia seguinte Bio obrigou Rodrigo a sair da cama s seis da manh.
- Acorda, vadio! - gritou, sacudindo o irmo pelos ombros. - J faz 
um tempo que o sol nasceu.
Estonteado de sono, Rodrigo vestiu-se, lavou-se e desceu para a cozinha, 
onde Fandango e Lauiinda o esperavam com o mate pronto.
- Esses mocinhos de cidade grande at me do nojo - disse o velho, 
lanando um olhar para o amigo e soltando uma disparada verde sobre as 
lajes. - X gua!
- Bom dia! - disse Rodrigo. E o a de dia transformou-se num prolongado 
bocejo.
- Vassunc ainda no est bem acordado - observou Laurinda, 
entregando a cuia ao rapaz.
- Derrame gua fria na cabea dele - aconselhou o capataz. De 
plpebras cadas, mas soirindo, Rodrigo comeou a chupar
na bomba. quela hora, Maria Valria andava a abrir as janelas da 
casa e a dar ordens s suas negras: "V arrumar a cama dos meninos. 
E voc a, pegue um pano e 
v limpar os mveis da sala. Mas cuidado com os vasos, sua bruaca!"
- Onde est o papai? - perguntou Rodrigo.
- Montou a cavalo e saiu ao clarear do dia - informou Laurinda. - No 
disse aonde ia.
A luz dourada da manh entrava pelas janelas da cozinha, e da boca do 
grande fogo de pedra vinha um cheiro de lenha verde
120
queimada. No arvoredo do quintal os passarinhos cantavam, numa algazarra 
festiva, e seus pipilos eram como bicadas na superfcie clara e 
luminosa da manh.
- E agora? - perguntou Fandango, voltando os olhos para Rodrigo. - Que 
 que vai fazer? Ficar na cidade, vadiando?
- Por alguma razo estudei medicina...
- Hai mdicos demais no mundo. E eu no acredito muito nesses 
doutores da mula rua.
Rodrigo sorriu. Pegou a chaleira, tornou a encher a cuia e passou-a a 
Laurinda.
- O papai vai comprar a Farmcia Popular pra ele - contou Torbio.
Fandango fechou um olho e perguntou:
- Pra qu?
- Ora! Alm de farmcia ser bom negcio, quero instalar meu 
consultrio l.
- X mico! Com tanto servio de homem no Angico! - Olhou para as 
mos de Rodrigo, apertou os olhos e sorriu com desdm. - Mas como 
 que tu ia trabalhar no campo? 
Bio, olha s as mozinhas dele. Parecem mos de dama. Caramba! Tu 
no agentava nem dois dias fazendo trabalho de peo, menino. - 
Sacudiu a cabea, penalizado, e 
tornou a cuspir no cho. - Este mundo est ficando perdido. O meu 
consolo  que no vou durar muito. Se as coisas continuarem assim, 
ainda vamos ver homem com cala 
de renda em vez de ceroula. X gua! Antes uma buena muerte.
Rodrigo tornou a bocejar, estendeu os braos, espreguiando-se, e 
depois disse com bom humor:
- Qualquer outro homem que me tivesse dito essas coisas j estaria 
morto.
Ergueu o brao direito, fazendo avanar o indicador enristado na 
direo de Fandango, ao mesmo tempo que encolhia os outros dedos 
para dar  mo a configurao dum 
revlver.
- Sai, marico! - exclamou o capataz. - Tua pistola  dessas que 
quando a gente puxa o gatilho, em vez de sair bala salta um leque de 
flor. Sai!
121
- Pois a semana que vem ns vamos todos pr Angico e eu quero te 
mostrar como sou um bom ginete e lao to bem como qualquer dos teus 
gachos.
Fandango olhou para Torbio e piscou o olho:
- Duvido e fao pouco!
Rodrigo ergueu-se, acercou-se do velho, ps-lhe a mo no ombro e 
murmurou:
- Est se vendo que no me conheces. Fandango alou os olhos 
pcaros e respondeu:
- Te conheo to bem como se te hubiera parido.
Tomaram caf por volta das oito horas e, ao se erguerem da mesa, 
Rodrigo convidou o irmo para subirem  gua-furtada.
- Vamos ao "castelo"? - disse, usando a senha da infncia. O "castelo" 
no fazia parte do Sobrado: era o "outro mundo". Subir para a 
gua-furtada significava para 
eles viajar, visitar Bombaim, Londres ou Amsterdam, ir para bordo dum 
brigue ou dum balo, entrar numa barraca armada em plena selva 
africana ou cair na masmorra 
dum castelo feudal onde acabariam morrendo de fome e sede, no fossem 
eles dois valentes e astuciosos aventureiros, que sempre conseguiam 
safar-se, munidos apenas 
duma espada e fazendo frente a guardas armados de lanas e flechas. 
Era na gua-furtada que tinham seus brinquedos e os livros de 
aventuras na pele de cujos heris 
se metiam.
Foi por tudo isso que naquela manh Rodrigo subiu emocionado a sombria 
escada que levava ao "castelo", em cujos degraus seus passos produziam 
um som cavo. Para ele 
a escada vivia tocada de mistrio. Tinha um cheiro poeirento de 
madeira seca e nos seus desvos s vezes ele julgava vislumbrar 
estranhas sombras mveis, talvez 
morcegos vidos por sugarem sangue humano. Era sempre com um aperto de 
corao e um delicioso medo que ele subia aqueles degraus, de ouvido 
atento, respirao opressa, 
no ousando sequer tocar o corrimo, no temor de que sobre ele 
estivesse 
122
espreita alguma aranha-caranguejeira. S de pensar nisso, o menino 
Rodrigo sentia arrepios pelo corpo todo.
No meio da escada, parou e gritou para o irmo:
- Espera um pouco, Bio.
- Que foi que houve?
- Nada. S quero ver se ainda sinto o que sentia antigamente
quando subia...
Fechou os olhos, aspirou com fora o ar, pensou nos morcegos, nas 
aranhas, no mistrio... Depois tornou a abrir os olhos e retomou a 
ascenso.
- Conseguiste?
- Quase. E tu?
- Eu nunca senti nada de especial.
- Nunca mesmo?
- Nunca. Era uma escada como qualquer outra. Rodrigo suspirou de leve, 
murmurando:
- E sempre assim... A mesma casa, a mesma escada, o mesmo homem. Mas 
s porque esse homem ficou mais velho, conheceu outras terras e outras 
gentes, leu mais livros, 
a casa e a escada mudaram. E as pessoas da casa tambm mudaram.
- Ests mas  ficando muito besta - resmungou o outro. E 
acrescentou: - Sobe duma vez, homem!
Chegaram ao ltimo degrau, abriram a porta da gua-furtada e 
entraram. Rodrigo escancarou a janela e olhou em torno. Tudo ali estava 
como no dia em que ele deixara 
Santa F, havia quase dez meses. Nas prateleiras de pinho sem lustro, 
brochuras enfileiravam-se desbeiadas, amareladas e poeirentas. Sobre 
um caixo de querosene 
vazio, jazia um velho Cengrafo fora de uso, ainda do tempo dos 
cilindros, e sua pequena campnula semelhava uma rgida flor 
cinzenta. Nas paredes caiadas, como 
hierglifos de civilizaes mortas, viam-se figuras, caracteres e 
palavras misteriosas, traadas a lpis, carvo e ponta de prego 
pelos dois irmos em diversas pocas 
de suas vidas.
Rodrigo aproximou-se da prateleira, tirou dela alguns volumes e 
comeou a folhe-los. Aqueles livros estavam ligados a vrios 
perodos de sua infncia e adolescncia. 
Ali estavam O ltimo dos
123
moicanos, A morgadinha dos canaviais, Carlos Magno e os doze pares de 
Frana, a coleo quase completa de Jlio Verne, e muitos dos 
romances de Alencar, Escrich, 
Gaboriau, Sue, Ohnet e Richebourg. Rodrigo apanhou com particular 
carinho uma brochura desmantelada: o Rocambole. Releu alguns trechos e 
por um instante lhe pareceu 
possvel, atravs da releitura das proezas daquele simptico 
patife, recapturar as emoes dos quinze anos. Folheou tambm a 
Moreninha e depois, acocorando-se diante 
da estante, ficou a olhar, sorridente, para a lombada dum volume. 
Nan... S agora compreendia a enormidade do pulo que dera, passando 
de Macedo para Zola. Esse 
pulo coincidira com sua puberdade, e fora estimulado por Zola e 
conduzido por Bio que, em fins do vero de 1900, conhecera a primeira 
mulher.
Rodrigo recordava agora, gesto por gesto, emoo por emoo, 
medo por medo, os excitantes minutos de sua iniciao sexual.
- Tu te lembras da Noca? - perguntou ele.
- Se me lembro! Ainda est viva.
- Deve estar muito velha, no?
- Est. Um caco de gente. Mas dizem que ainda funciona. Rodrigo 
ergueu-se, sacudindo a cabea num gesto de adulta
tolerncia com o qual pretendia abranger a baixa prostituio e 
sua adolescncia clida e desordenada.
Suas leituras haviam seguido uma trajetria doida, com vertiginosos 
altos e baixos. Depois de Zola desembestara a ler livros puramente 
lbricos como Memrias duma 
cantora. Tomara-se de amores por Paul de Kock, cujas brochuras comprava 
secretamente com os nqueis que sua madrinha lhe dava. Costumava ir 
ler s escondidas na 
gua-furtada e um dia chegara a passar mais de duas horas encarapitado 
no alto do marmeleiro-da-ndia, no quintal, a devorar A mulher, o 
marido e o amante.
- Ainda gostas de ler? - perguntou ele a Torbio.
- Como sempre.
- Quais so agora os teus autores prediletos?
- Sendo romance de aventuras, leio tudo que me cai na mo. Rodrigo 
acercou-se da janela e olhou para fora. A luz da manh era um ouro 
tpido e novo, e o ar lmpido 
cheirava a orvalho.
124
Ergueu os olhos para o alto e lembrou-se do que Laurinda costumava dizer 
em dias de cu azul como aquele: "Deus decerto mandou os anjos lavarem 
o soalho da casa 
dele". Do ponto em que estava, Rodrigo dominava com o olhar sua cidade, 
via-lhe os telhados em meio da densa vegetao dos quintais. Santa 
F resumia-se em duas 
ruas que corriam de norte a sul - a do Comrcio e a dos Voluntrios 
da Ptria - cortadas por cinco outras de menor importncia, ruas 
esbarrancadas de terra batida 
e sem caladas, onde pobres meias-guas e casas de madeira se 
erguiam em precrio alinhamento, entremeadas de terrenos baldios, onde 
cresciam ervas daninhas e os 
moradores das vizinhanas iam atirando dia a dia o seu lixo. A rua do 
Comrcio era a nica calada de pedra, e nela ficavam o Clube 
Comercial, a Confeitaria Schnitzler, 
o Centro Republicano e as principais casas de negcio.
Debruado  janela, Rodrigo aspirava com gula o ar fresco da 
manh, com a absurda mas deliciosa impresso de que com ele sorvia 
no s sereno e sol, como tambm 
as verdes campinas onduladas e os remotos horizontes que circundavam 
Santa F.
- Quando eu era menino - murmurou, sem se voltar - pensava que este era 
o ponto culminante do mundo. No concebia que pudesse haver casa mais 
alta que o Sobrado...
- Mas h?
Rodrigo voltou-se e sorriu:
- Tens razo. No h. Eu ia te falar no edifcio Malakof de 
Porto Alegre, nas estruturas formidveis de Nova York. Mas a casa mais 
alta do mundo  mesmo o Sobrado.
Sentou-se no peitoril da janela e ficou a contemplar as torres da 
matriz. - Acho que o segredo da felicidade - prosseguiu - est na 
gente gostar daquilo que tem: 
sua casa, seus parentes, seus amigos, sua profisso, sua terra... - 
Respirou fundo e, como quem acaba de fazer uma grande descoberta, disse: 
- Santa F  a melhor 
cidade do mundo, Bio, e eu sou um homem feliz.
Estava comovido a ponto de ter de fazer um esforo para conter as 
lgrimas. E quando percebeu que o outro o observava com o rabo dos 
olhos, pigarreou e tratou de 
disfarar, Torbio havia
125
tirado do bolso um pedao de fumo e, de faca em punho, comeava a 
fazer um cigarro. Depois de curto silncio, disse:
- Santa F no  m. Mas prefiro o Angico.
- s um filho da natureza.
- E tu um filho da...
Soltou o palavro com um gosto explosivo, acrescentando a seguir:
- Vamos dar um passeio.
- Grande idia. Mas espera um pouco, tenho de me vestir.
- No sejas bobo, vai assim rnesmo.
- Em mangas de camisa? De chinelos sem meias? Sem colarinho nem gravata? 
Ests doido.
Rodrigo desceu para o quarto, meteu-se numa roupa de brim pardo, feita 
pelo melhor alfaiate de Porto Alegre e, depois de ajeitar a gravata e o 
chapu-do-chile diante 
do espelho, gritou para o irmo:
- Vamos?
Torbio limitou-se a pr o chapelo de abas largas e assim como 
estava, sem casaco, de bombachas de riscado e ps descalos, saiu 
para a rua.
- Vamos primeiro ver o Pitombo - sugeriu Rodrigo.
- No te gabo o gosto. Ver caixo de defunto a esta hora da manh 
 estragar o dia.
Estavam ambos na calada,  frente do Sobrado. Rodrigo lembrou-se da 
noite de pavor em que Torbio tinha ido roubar velas no cemitrio. 
Ficou a mirar o irmo de 
cenho franzido.
- Que foi que houve?
- Tu te lembras daquela noite em que me levaste ao cemitrio?
- Me lembro.
- No  engraado nunca mais termos falado no assunto?
- Engraado? Por qu? Fizemos um juramento...
126
- Pois eu guardei comigo todo esse tempo um segredo. Acho que chegou a 
hora de fazer a revelao...
Torbio lanou-lhe um olhar enviesado:
- Segredo? - repetiu, intrigado.
- Tu te lembras de quando o homem que estava desenterrando o corpo da 
velha Schultz ergueu a lanterna? Pois nessa hora eu vi a cara dele... E 
tu sabes quem era o 
violador de sepulturas? O velho Pitombo, o pai do Z!
- Tens certeza?
- Como  que vou ter certeza, se estava louco de medo e afinal de 
contas era de noite, e a coisa toda se passou longe de onde estvamos?
- Vs s como so as coisas. Pois sabes quem foi que eu achei que 
era? O negro Srgio.
- O Lobisomem? Ah, essa  que no, te garanto. Acho que era o velho 
Pitombo mesmo.
- Podia no ser o Srgio, mas o Pitombo tambm no era. O homem 
que vi era pardo.
Ficaram a entreolhar-se em dvida, por alguns segundos.
- Mas que adianta discutir isso agora? - perguntou Torbio. - O velho 
Pitombo morreu e ningum se lembra mais do caso.
- Depois daquela noite nunca mais pude olhar direito pr homem. Quando 
ele falava comigo, eu sentia um mal-estar danado. At comecei a tratar 
mal o pobre do Z, 
no colgio.
- Pois comigo a coisa foi diferente. Eu j me interessava pelo 
Srgio porque diziam que s sextas-feiras ele virava lobisomem e 
saa pra rua. Depois daquela noite 
no cemitrio fiquei ainda mais interessado no negro. Um dia cheguei a 
entrar na casa dele pra ver se descobria l dentro alguma caveira, 
alguma jia ou um filtro 
mgico. Mas qual! S encontrei molambos.
- E nunca me contaste isso, patife.
- A troco de que havia de te contar? - Torbio empurrou o outro, numa 
pardia de agresso. - Sempre foste um adulo, vivias pegando do 
bico-da-chaleira da titia.
127
Atravessaram a rua, entraram na carpintaria do Z Pitombo e 
encontraram-no em mangas de camisa e descalo, a aplainar uma tbua.
- Deus ajuda a quem trabalha! - exclamou Rodrigo. Pitombo, todo 
alvoroado por ver o antigo companheiro de escola, largou a plaina e, 
limpando as palmas das mos 
nas calas, aproximou-se dele.
Bom dia, doutor - disse com ar cerimonioso. - Que
honra para esta casa!
- Ests vendo, Bio? - perguntou Rodrigo, estendendo a mo para o 
carpinteiro. - O meu companheiro de escola primria me chamando de 
doutor. J se viu maior absurdo?
Abraou o outro cordialmente. Muito encolhido, os cabelos em 
desalinho, o rosto coberto por uma barba de dois dias, Pitombo parecia 
constrangido. Tinha orelhas que 
semelhavam asas de aucareiro, e seu lbio inferior sobressaa do 
superior, muito inchado, vermelho e lustroso, como que mordido de 
marimbondo.
- No repare, Rodrigo - murmurou ele, baixando os olhos para designar 
a maneira como estava vestido. - Sou um pobre operrio.
- Cristo tambm foi carpinteiro - disse Rodrigo com dupla 
inteno: agradar Pitombo e divertir o irmo.
- Mas quem sou eu para ser comparado com o Nazareno? Havia no ar um 
cheiro ativo de cola combinado com o de
serragem, mas o que perturbava Rodrigo era o fartum de suor muitas vezes 
dormido que emanava do corpo de Z Pitombo.
- Quero te dar os parabns, Z - disse ele, pousando a mo no 
ombro do outro. - Li teu soneto na Voz. Gostei muito - mentiu. Achara o 
poema horrvel, mas era-lhe 
agradvel ser agradvel aos outros. Aquela pequena mentira ia fazer 
o pobre-diabo feliz. Os olhos cinzentos do carpinteiro ganharam um 
lustro novo.
- Gostou mesmo? Pois a gente faz o que pode. Poeta de aldeia, o senhor 
sabe...
-  da aldeia que saem os grandes homens, Z.
- Mas no querem sentar?
128
- No, Z, muito obrigado. Andamos dando uma volta e revendo os 
amigos. At logo. Aparece l pelo Sobrado, homem!
Tornou a abraar Pitombo e, tomando do brao de Torbio, comandou:
- Vamos!
- No gosto muito da cara desse sujeito - resmungou o outro, quando se 
viram de novo na rua. - No olha direito pra gente. Deve ter alguma 
coisa na conscincia.
- Qual, Bio! O Pitombo  uma alma simples. - Parou, olhou em torno e 
decidiu. - Vamos visitar a igreja.
Foram. Aquela hora o templo estava deserto. De chapu na mo, parado 
na extremidade do corredor, entre as duas alas de bancos, Rodrigo olhava 
para a imagem da padroeira 
da cidade.
- Tenho a impresso de que todos esses santos so meus velhos amigos 
- murmurou ele, passando o olhar pelos altares.
- Se so teus amigos, por que no falas alto? Pergunta como vo 
passando. Como vai o senhor, Santo Anto? E a senhora, Nossa Senhora 
da Conceio? - E o vozeiro 
lento e grave de Torbio reboava no recinto daquele templo, famoso 
pela sua acstica. - Como vai a famlia, So Jos? Dona Maria 
j sarou da constipao?
- Bio! Mais respeito.
- U... Por qu? Os santos me conhecem desde que nasci. No 
adianta fingir. Eles sabem como eu sou...
Sempre que entrava numa igreja, Rodrigo ficava tomado dum sentimento 
opressivo, misto de temor e respeito, algo que o fazia falar baixo, 
caminhar na ponta dos ps. 
Depois dos quinze anos jamais pronunciara uma orao. Raramente ia 
 missa, e, quando ia, nunca se ajoelhava nem mesmo tentava rezar. O 
interior das igrejas deprimia-o 
um pouco, dava-lhe um peso no peito, evocava-lhe idias inquietadoras 
mais relacionadas com os pavores da morte e do inferno do que com as 
maravilhas da vida e do 
cu. Desde menino, assistira naquele templo a vrias missas de corpo 
presente e encomendaes de defuntos; e em muitas Sextas-Feiras da 
Paixo viera, pela mo de 
sua madrinha, beijar o corpo do Cristo morto. Observava que as pessoas 
que mais freqentavam a igreja eram os velhos e os doentes, e nas 
caras lvidas dessas gentes 
tristes havia
129
algo que ele associava ao fundo encardido da pia de gua benta. O 
cheiro de incenso das missas misturava-se com o melanclico rano de 
suor humano, entranhado naquelas 
paredes, imagens, madeiras e panos.
Rodrigo permaneceu num silncio meditativo, lembrando-se das muitas 
vezes em que no passado, em diversas idades, entrara naquele templo.
- Se algum dia eu me confessar - disse Torbio - tenho de contar ao 
vigrio um sacrilgio que cometi. Uma tarde entrei aqui e roubei uma 
vela do altar de Nossa Senhora 
pra de noite ler o Rocambole no quarto.
- E no ser esse o teu nico pecado, herege - sussurrou Rodrigo.
- Mas acho que Nossa Senhora j me perdoou. Aposto at como ela 
achou engraado. - Soltou um fundo suspiro e acrescentou em voz mais 
baixa: - Tenho pago com juros 
a vela que roubei. Todos os anos, no dia da santa, compro uma vela das 
grandes e acendo no altar dela.
- E dizes que no s religioso!
- Isso nada tem que ver com religio. Foi um emprstimo que fiz e 
agora estou pagando com juro alto.  um negcio particular entre mim 
e Nossa Senhora.
Rodrigo sorriu, sacudindo a cabea. E quando de novo saram para o 
claro dourado da manh, Torbio respirou com fora, exclamando:
- Se Deus est em algum lugar,  aqui fora e no l dentro.
- Deus est em toda parte.
- Quem te ouve pensa que s mesmo religioso.
- E sou! - afirmou Rodrigo com veemncia, tentando convencer no 
s o irmo como principalmente a si mesmo. Sempre que examinava suas 
relaes com Deus, achava-as 
um tanto confusas. Gostava de dizer, parodiando conhecida anedota a 
respeito de Voltaire, que suas relaes com o Criador eram apenas de 
cumprimento. Lera com paixo 
os enciclopedistas e deliciara-se com a Vida de Jesus, de Renan. Houvera 
em seus tempos de estudante um confuso momento em que - como 
conseqncia de amores mal-
sucedidos - mergulhara fundo em Schopenhauer. Tomara-se de amores pela 
Cincia com C maisculo e encontrara um sabor viril no atesmo. 
Repetia com volpia a frase 
de Taine: "Sendo o homem fisicamente uma mquina e mentalmente um 
teorema, o vcio e a
virtude no passam de simples produtos, como o vitrolo e o acar.
" 
"Deus no existe!" - exclamara muita vez  noite, sob as rvores 
da praa da Harmonia, nas ruidosas discusses metafsicas que 
entretinha com os colegas. Negando 
Deus ele se sentia mais adulto, mais corajoso, mais sbio e ao mesmo 
tempo mais livre. Sua bondade e seus sentimentos caridosos ganhavam um 
sentido singular porque, 
uma vez que no existia Deus nem Cu ou prmios para os justos e 
os bons, todos os seus atos de bondade, justia e caridade se tornavam 
esplendidamente gratuitos. 
"No dia em que eu morrer - gostava de dizer - minha conscincia se 
apagar, mas, como  sabido que nada se perde e tudo se transforma 
no universo, meu corpo plantado 
na terra se transformar numa rvore, numa bela rvore que h de 
abrigar os passarinhos e dar sombra s crianas e aos namorados." 
Ms se por um lado ele tinha coragem 
e mpeto para fazer essas afirmaes nos corredores da faculdade, 
nas praas, nos restaurantes ou nos sales de baile - por outro esse 
mpeto e essa coragem amorteciam, 
quase desapareciam sempre que ele entrava numa igreja. Era uma lei 
antiga que o filho devesse respeito ao pai, diante do qual no lhe era 
permitido erguer a voz 
e nem mesmo a cabea. Sempre que Rodrigo se defrontava com o pai seu 
gosto por falar alto, por sacudir no ar o penacho desapareciam, e ele 
sentia at certo prazer 
em humilhar-se, representando o papel de "o bom menino", obediente e 
modesto. Toda vez em que entrava numa igreja e sentia a presena 
invisvel de Deus, o Pai dos 
pais, ele se apequenava num ato de contrio.
Como algum um dia lhe perguntasse se era religioso e ele respondesse: 
"A razo me leva para o atesmo mas o corao me eleva para 
Deus" - esse algum lhe dera uma 
resposta dum bom senso irritante: "Quer dizer ento que o amigo acende 
uma vela a Deus e outra ao diabo?"
130
131
- Vamos ver o Chico - convidou Rodrigo.
Entraram numa casa velha e baixa de duas portas e trs janelas, e em 
cuja fachada, logo abaixo do beiral, havia um letreiro: "Padaria Estrela 
d'Alva". Rodrigo bateu 
palmas:
-  de casa! - gritou. Chico Po apareceu.
- Olha, Romualda! Olha! - gritou para a mulher, radiante. E correu a 
abraar Rodrigo. Quis dizer alguma coisa, mas engasgou-se e as 
lgrimas lhe brotaram nos olhos.
- Que  isso, Chico? - exclamou Rodrigo que, muito a contragosto, 
comeava tambm a comover-se. O padeiro abraava-o, com a cabea 
no seu ombro. (Vai me sujar a roupa!) 
Chorava agora aos soluos, limpando as mos no avental. Romualda 
olhava a cena com ar meio imbecil.
Finalmente Chico desprendeu-se de Rodrigo e, enxugando os olhos com as 
pontas dos grossos dedos, voltou-se para a mulher:
- Cumprimenta o dr. Rodrigo, Romualda.
A criatura obedeceu. Tinha a mo fresca e mida. No disse 
palavra: limitou-se a olhar para o rapaz com olhos cheios duma ternura 
acanhada.
- Sempre moa, dona Romualda - mentiu Rodrigo. Na realidade achava-a 
um molambo de gente: magra, envelhecida, amarela e tristonha.
- E como vai a padaria, Chico? - perguntou, pousando a mo no ombro do 
vizinho. - Ainda fazes aquele teu po cabrito maravilhoso?
O rosto do padeiro iluminou-se.
- Quando vi o senhor - choramingou ele - me lembrei do meu pai e do que 
o coitado dizia. "Quero bem esses meninos do coronel Licurgo como se 
eles fossem meus filhos. 
Chico, nunca deixes de ser amigo do Rodrigo e do Torbio." - Fez uma 
pausa. - Pobre do papai! Faz trs anos que morreu e ainda no me 
acostumei com a falta dele. 
- Sacudiu a cabea, penalizado. - A vida  assim mesmo.
132
- Um consolo tu tens, Chico - disse Rodrigo. - Sempre foste um bom 
filho.
Olhou em torno. Havia naquela pequena loja de cho de terra batida um 
balco seboso e prateleiras toscas onde se viam latas com biscoitos e 
bolachas. Andava no ar 
um cheiro acolhedor e convidativo de po fresco e caf 
recm-passado.
- Me desculpe, seu Rodrigo - disse ele, de olhos baixos. - No pude ir 
 estao ontem. Estive de cama, outra vez com aquela pontada do 
lado. No foi, Romualda?
A mulher confirmou com um aceno de cabea.
- Precisamos ver isso o quanto antes, Chico. Ainda no abri o 
consultrio, mas aparece hoje mesmo no Sobrado. Quero te examinar. 
Deve ser alguma coisa nos rins.
- A Romualda tambm tem andado amolada, no , Romualda? Uns 
flautos, parece... e umas palpitaes.
- Pois ela que v tambm ao Sobrado. Vocs sero os meus 
primeiros clientes!
- Quem sabe se ele aceita um caf? - perguntou Romualda, voltando-se 
para o marido. Chico Po reforou a pergunta com um olhar aliciante.
Torbio, que estivera todo o tempo  porta da padaria, fazendo um 
cigarro, voltou a cabea para dentro e gritou:
- Estamos com um pouco de pressa. Rodrigo, porm, protestou:
- Pressa coisa nenhuma! Venha de l esse caf, dona Romualda.
No minuto seguinte estavam sentados ao redor da mesa, na sala de jantar.
- No repare, seu Rodrigo, isto  casa de pobre... - disse Chico.
- Para mim, isto  antes de mais nada a casa dum amigo que muito 
prezo.
De novo os olhos do padeiro se enevoaram e seus lbios tremeram. 
Romualda serviu o caf e o marido trouxe com certo orgulho um prato 
com fatias de po cabrito, que 
Rodrigo se ps a comer com entusiasmo.
133
- Vou te dizer uma coisa, Chico. Em Porto Alegre ningum sabe fazer 
po como tu. Eu sempre dizia prs meus colegas. Se h coisa de que 
tenho saudade  do po da 
Estrela d'Alva.
Com os cotovelos sobre a mesa, as manoplas a segurar o rosto moreno, 
Chico Po contemplava Rodrigo com interesse amoroso. Torbio fumava 
e bebericava seu caf.
- O Chico vai votar no marechal Hermes, no vai?
O padeiro franziu a testa e voltou para o rapaz uma cara indignada:
- Eu? Deus me livre. Voto sempre com o coronel Licurgo.
- Bateu no peito. - Eu sou do dr. Rui Barbosa.
- Se o Trindade sabe disso, manda te capar - troou Torbio.
Com a boca cheia de po, Rodrigo ergueu o brao num gesto 
dramtico, exclamando:
- Para fazer isso ele tem que primeiro passar por cima do cadver de 
todos os Cambars!
Romualda servia a mesa em silncio. Seus ps descalos moviam-se 
sem rudo sobre o cho. Da cozinha vinha um bafio fresco de 
picum. E, pelo vo da porta, Rodrigo 
via um pedao azul de cu e um pequeno trecho do quintal, onde 
galinhas ciscavam o cho.
Romualda parou um instante junto de Rodrigo e perguntou:
- Doutor, o senhor j ouviu falar nesse tal de cometa? Rodrigo ergueu 
a cabea:
- O que vai aparecer em maio? Por qu?
- Ser mesmo que o mundo vai acabar?
- Qual!  boato.
- Pois a Romualda anda louca de medo - contou Chico.
- Eu j disse pra ela que isso  inveno dos jornais. Pregam 
essas mentiras pra chamar a ateno do povo, no , doutor?
Torbio soltou uma baforada de fumaa e disse:
- Pois eu acho que o mundo vai acabar e  bem-feito, Chico. Deus deve 
andar mal satisfeito com as criaturas. Todo o mundo est perdendo a 
vergonha. Tomara que esta 
droga acabe. No se perde nada.
134
- Credo! - exclamou Romualda. - Que Deus l perdoe, seu Torbio.
Pouco depois, Torbio e Rodrigo saram. J na rua, o primeiro 
disse:
- Que histria foi essa de aceitar caf com po? No tomaste em 
casa antes de sair?
- Claro que tomei. Mas no compreendes que o pobre do Chico ia ficar 
honrado se tomssemos caf  mesa dele? No vs que no 
custa nada a gente fazer os outros felizes?
- No compreendo, doutor, sou um bagual.
Pararam  esquina. Rodrigo lanou um olhar demorado para a praa, 
onde cavalos e vacas pastavam.
- Que abandono! A praa principal de Santa F transformada em 
potreiro! Ah! No dia em que eu tiver um jornal, essa corja vai ver... 
Mas, vamos olhar a figueira.
Ao chegarem ao p da rvore, Rodrigo estacou e ps-se a examinar o 
tronco cheio de sinais, nomes e iniciais gravados a faca e canivete.
- Quantas geraes tero deixado sua marca neste tronco! Daqui a 
mil anos, os historiadores tentaro reconstituir a histria de Santa 
F atravs destes hierglifos.
Tirou o chapu, passou o leno pela testa suada e olhou para o 
edifcio da Intendncia, que ficava do outro lado da praa, na 
quadra fronteira  do Sobrado.
- E dizer-se que aquele cachorro do Trindade est l dentro, sentado 
na cadeira de intendente, como num trono.  de l que ele d as 
suas ordens atrabilirias.  
l que os adules comparecem para o beija-mo. Canalha! No 
perdes nada por esperar.
Torbio olhava o irmo com o rabo dos olhos.
- Ests ento convencido que vais derrubar o Trindade?
- E por que no? Achas que ele  invencvel? No te parece que 
Santa F merece outro intendente, outro governo, outra sorte?
Como nica resposta, Torbio comeou a assobiar O boi barroso.
- Queres ir depor o Trindade... agora? - perguntou pouco depois, 
pachorrento.
135


- Ora, Bio! Tu levas tudo na troa. Mas um dia hs de compreender 
que o assunto  mais srio do que pensas. Vamos descer a rua do 
Comrcio.
Torbio fez um gesto de resignao.
- E continuar a nossa via-sacra - disse, com um suspiro. E puseram-se de 
novo em movimento.
Rodrigo lanou o olhar ao longo da perspectiva da rua principal de 
Santa F. Como eram baixas, feias e tristonhas aquelas casas! Com 
exceo do Sobrado, do Clube 
Comercial e de algumas residncias como a dos Matos, a dos Quadros e a 
dos Fagundes, eram todas trreas e sem estilo, de fachadas caiadas sem 
platibanda. No telhado 
limoso das mais antigas, cresciam at ervas. O pavimento da rua, 
riado de pedras-ferro de tamanho irregular e de ordinrio cobertas 
de finssima poeira avermelhada, 
dava a impresso de ter sido feito com pedaos de p-de-moleque. 
Ao longo das caladas alinhavam-se os lampies de querosene, no alto 
de postes de madeira pintados 
de azul.
- Mas um dia havemos de ter luz eltrica! - exclamou Rodrigo de 
repente, como a rebater a crtica dum interlocutor invisvel.
- No me digas que vais organizar uma companhia...
- E por que no?
- Donde  que vai sair o dinheiro?
- Venderemos aes.
- A quem? Tu sabes que estes nossos estancieiros so gente de guardar 
seus pataces em p-de-meia. Santa F  uma cidade pobre, e aqui 
os que tm dinheiro no enxergam 
um palmo adiante do nariz.
- Com luz eltrica enxergaro muitos metros. E com luz eltrica 
podemos ter at cinematgrafo!
Num sbito entusiasmo, Rodrigo desferiu uma palmada nas costas do 
irmo.
- Cinematgrafo  bobagem pra criana - disse Torbio.
136
Rodrigo estacou, postou-se na frente do outro e reagiu:
- Ests muito enganado. Nunca viste cinematgrafo de verdade. O que 
conheces  lanterna-mgica. Em Porto Alegre passam fitas de enredo, 
em muitas partes, e algumas 
at bem instrutivas.
E, como para comprar a simpatia do irmo, que gostava dos romances de 
capa e espada, contou:
- J fizeram uma fita de Os mistrios de Paris. E sabes com que 
artistas? - Bombardeou Torbio com nomes que ele evidentemente no 
conhecia: - Madot, Hector, Simon, 
Liovent, Suzanne, todos do Teatro Porte Saint-Martin, de Paris!
Torbio sacudia a cabea, obstinado.
- Me dem um livro e uma vela que eu me divirto. No quero saber 
dessas sombrinhas em pano branco.
- E as fitas cmicas - enumerava ainda Rodrigo - com o Max Linder, o 
Bigodinho, o Deed, so engraadssimas, eu queria que visses!
- Est bem. Faz o teu cinematgrafo, mas no contes comigo. No 
vou l nem de graa. E te prepara pra perder dinheiro. Isto  uma 
terra de botocudos.
- Teu pessimismo est me fazendo mal.
Continuaram a andar. Iam a passo lento e paravam sempre que algum 
conhecido se aproximava para abraar Rodrigo. Torbio 
impacientava-se, pois eram sempre as mesmas 
palmadas frenticas nas costas, as mesmas perguntas, as mesmas 
exclamaes:
"Mas sim senhor, hein? Te vi de calas curtas, brincando na rua, e 
agora aqui um homem feito, hein? Vai clinicar na cidade? Meus 
parabns! Quem havia de dizer!... 
Parece que foi ontem! Este mundo  assim mesmo..."
Torbio tinha de intervir para evitar que aquelas conversas se 
prolongassem por mais tempo.
- Vamos embora! - dizia, puxando o irmo pela manga do casaco.
Iam... Mas de dentro duma casa ou no meio da calada surgia um novo 
conhecido e o cerimonial se repetia.
- Isto vai devagar que nem enterro de rico - reclamou Bio. -- Que 
queres? Esto dando as boas-vindas ao filho prdigo.
137
Rodrigo entrou na Casa Sol, abraou o proprietrio e os caixeiros, 
um por um, e ficou ainda a palestrar com trs agricultores - gente do 
terceiro distrito - que 
ali estavam a fazer compras. Prometeu a todos visitas, receitas, 
sementes, remdios...
Quando saram de novo para a calada, Rodrigo avistou o aguadeiro de 
Santa F, que vinha pelo meio da rua aos sacolejos de sua carroa, 
sentado no alto da grande 
pipa, tendo na mo esquerda as rdeas com que dirigia a mula magra, 
de olhos remelentos, e na direita o chicote que fazia estalar no ar com 
a bravura dum domador 
de lees. O pipeiro! - sorriu Rodrigo: Anamas Silva, que fornecia 
gua potvel s famlias de Santa F a um tosto a lata, era 
um homenzinho sem idade, baixo e franzino, 
de pele lvida e olhos frios e gelatinosos de peixe. Tinha a cara 
chupada e bigodes cados pelos cantos da boca, que a falta de dentes 
tornava flcida e franzida. 
Ananias Silva era famoso na crnica da cidade por viver maritalmente 
com duas mulheres na mesma casa: uma j madurona, a legtima, e 
outra ainda nova, a amsia. 
E o mais extraordinrio era que ambas viviam em perfeita harmonia. 
Afirmava-se que o aguadeiro dormia numa larga cama, flanqueado pelas 
esposas, razo por que era 
conhecido em todo o municpio pela alcunha de Z do Meio.
Rodrigo sempre achara fascinante essa histria e seu minsculo 
heri. Foi por isso que, ao avistar o pipeiro, saudou-o com verdadeira 
efuso. Z do Meio fez a mula 
estacar, saltou da carroa e ps-se a correr na direo de 
Rodrigo, que o esperava de braos abertos.
- Deus te abenoe, meu filho! - exclamou o aguadeiro, abraando-o. - 
Deus te crie pr bem!
- Como vai a vida, Z do Meio? - perguntou Torbio. O homem soltou 
uma risadinha fina e disse:
- Eu gosto do Bio. No me importo que ele me chame de Z do Meio. Se 
fosse outro, eu brigava. No admito que me desmoralizem.
- Deixa de besteira, Z - retrucou Torbio. - Todo mundo sabe que tu 
dormes no meio de duas mulheres.  ou no ?
138
O pipeiro piscou-lhe o olho e torceu a boca numa pardia de sorriso.
- Mas com quem que tu querias que eu dormisse, vivente? Contigo?
Soltou outra risada, voltou para a carroa e subiu agilmente para cima 
da pipa. L do alto, tirou o chapu, numa cortesia gaiata, e de novo 
fez estalar o chicote, 
pondo a mula em movimento.
Rodrigo e Torbio retomaram a marcha, sorrindo.
- Eu s queria saber qual  o segredo do Z do Meio. E franzino, 
desdentado e feio, e no entanto consegue um milagre que nenhum 
dom-joo, que eu saiba, at hoje 
conseguiu.
- Mulher  bicho que ningum entende. Caminhavam agora ao longo dum 
muro onde se lia, em grossos caracteres negros: "Fernet branco conserta 
o estmago".
- Ah! - fez Rodrigo de repente. - Vou transformar o poro do Sobrado 
numa boa adega. J encomendei vinhos franceses, italianos e 
portugueses. Se h coisa que eu 
goste na vida, menino,  duma taa de champanha.
Torbio caminhava de cabea baixa, olhando para as pedras da 
calada.
- Me dem uma boa caninha e eu fico me lambendo todo.
- Uma boa caninha destilada em alambique de barro tambm tem seu 
valor. Por que no? - Respirou fundo, ergueu os olhos piscos para o 
sol e disse: - Precisamos mudar 
de vida, Bio. O Sobrado  uma casa triste. Temos de fazer l umas 
tertlias, uns seres, convidar gente interessante, conversar, ouvir 
msica, dar mais alma quele 
casaro. E para animar uma festa no h nada como uma boa 
vinhaa, bons charutos e um caviarzinho...
- Eu s queria saber o que  que o velho vai achar de tudo isso.
- Est claro que no princpio vai desaprovar, dizer que  um 
desperdcio de dinheiro e at - quem sabe? - uma indecncia. Mas 
acabar se entregando. Ele e eu pertencemos 
a pocas diferentes, Bio. O mundo do papai  um mundo que est 
morrendo. Eu perteno ao sculo XX.
- E a tua madrinha?
139
- Essa eu me encarrego de convencer. Sabes que sou o mimoso da Dinda. 
Ela vai resmungar, mas acabar fazendo o que eu quiser. - Pegou do 
brao do irmo e, em voz 
muito baixa, como se estivesse a contar-lhe um segredo, disse: - A vida 
 uma s, Bio. Temos que aproveitar, antes que ela se acabe ou a 
gente envelhea.
-  pra mim que ests dizendo isso? Que a vida  boa eu sei. E 
tambm sei que a gente tem de aproveitar enquanto pode.
- Mas chamas aproveitar a vida passar quase todo o tempo no Angico 
fazendo aquele servio bruto?
- Pois isso  que me diverte, homem. Camperear no lombo dum cavalo, 
comer bem, ter boas mulheres, bom chimarro e, uma vez que outra, um 
copo de caninha e um joguinho 
de baralho...
- E nessas coisas se resumem teus ideais?
- No. Tem mais. De vez em quando uma briga, uma revoluozinha 
pra gente desenferrujar as armas e as juntas.
Rodrigo deu-lhe um empurro afetuoso.
- s um brbaro! Representas um Rio Grande que tende a desaparecer, 
um Rio Grande que vive em torno do boi e do cavalo, herico, sim, 
no h dvida, mas selvagem, 
retardatrio. Ningum pode deter a marcha do progresso e da 
cincia, e os que se atravessarem no caminho sero esmagados. Tipos 
como o Trindade e seus capangas, 
no futuro ho de ser apenas artigos de museu.
- No me compares com esses cafajestes nem me venhas dizer que eles 
representam o verdadeiro Rio Grande. Gachos de verdade so o velho 
Fandango, o Babalo, o papai 
e miles e miles de outros.
- No me compreendeste! Sou tambm pela manuteno das 
tradies de honra e coragem da nossa terra. Mas tambm sou pelo 
progresso. Um dia o automvel h de desbancar 
o cavalo. E muito dolo cair por terra, muito costume ser 
modificado.  uma fatalidade, Bio.
- E por falar em fatalidade - resmungou Torbio - olha s quem vem 
ali...
140
Rodrigo avistou Liroca, de braos abertos no meio da calada. 
Apressou o passo, aproximou-se dele e apertou-o contra o peito.
- Tu nem imaginas como estou sentido, Rodrigo! - queixou-se Jos 
Lrio. - Todo o mundo te visita, todo o mundo vai  tua casa, s 
eu  que no posso ir. Sabes o 
que me aconteceu ontem de noite, cristo?
Na cara tostada de Liroca, o narigo achatado tinha um tom violceo. 
Os bigodes, que comeavam a ficar grisalhos, eram um tufo hspido de 
piaaba, acima dos lbios 
pardacentos e gretados.
- Pois fiquei na praa, sentado num banco, olhando pras janelas do 
Sobrado, ouvindo o baiulho da festa l dentro, suspirando, triste como 
terneiro desmamado, e dizendo 
c comigo: "O Licurgo no devia ser to rancoroso. guas 
passadas no movem moinho. Afinal, j faz quase quinze anos que 
terminou a revoluo e muito maragato anda 
por a de brao dado com republicano" Depois, nunca dei um tiro 
contra o Sobrado. Juro por esta luz que me alumia - acrescentou, solene, 
tirando o chapu e erguendo 
os olhos para o cu. - Naquela noite de So Joo, em 95...
Ia contar a sabidssima histria, quando Rodrigo o interrompeu:
- Pois Liroca velho, eu te prometo arranjai tudo ainda esta semana. 
Quero te ver no Sobrado como um velho amigo da famlia.
- Ser mesmo? - suspirou ele.
- Tens a minha palavra.
Jos Lrio estendeu a mo, que Rodrigo apertou com buscada 
gravidade.
- Conta pr Bio qual foi a primeira pessoa que te abraou quando 
chegaste a Santa F.
- Foi o Liroca - declarou Rodrigo, voltando-se para o irmo e fazendo 
o possvel para dar ao rosto uma expresso sria. Jos Lrio 
sorriu um lento sorriso de satisfao 
e abalou. Como estivessem  frente do Clube Comercial, Rodrigo 
sugeriu: - Vamos entrar. - A esta hora no tem ningum a dentro. 
- Vamos ver o Saturnino.
141

Entraram e encontraram o Saturnino Lemos, o ecnomo do clube, atrs 
do balco do bufete, a conversar com Chiru Mena, seu amigo 
inseparvel. Rodrigo sempre achara 
curiosa aquela dupla. Saturnino era baixo, franzino e plido, de voz 
grave e gestos serenos. Falava pouco, e dum jeito ponderado e calmo. Era 
um famoso tocador de 
flauta, especialista em valsas lentas e modinhas sentimentais. Vivo, 
vivia sozinho numa casa de tbuas l para as bandas do Barro Preto.
Chiru Mena era alto, corpulento, sanguneo e espalhafatoso. Perdera em 
vadiagens e maus negcios o dinheiro, as terras e o gado que o pai, 
antigo estancieiro de 
Santa F, lhe legara. Vivia agora na cidade na companhia duma tia 
viva que o sustentava. No tinha profisso, andava sempre s 
voltas com bailarecos, ceias e serenatas, 
perseguido pelos credores e a contar mentiras em torno de grandes 
negcios que se achavam "engatilhados", e de estncias imaginrias 
que estavam por vender.
Saturnino jamais alteava a voz: Chiru no sabia falar baixo. Saturnino 
dificilmente se entusiasmava com as coisas: Chiru vivia num constante 
estado de ebulio diante 
da vida e das pessoas. Saturnino era republicano: Chiru, federalista. No 
entanto davam-se bem e, noctvagos inveterados, eram freqentemente 
vistos a vagabundear 
pelas ruas de Santa F, altas horas da madrugada.
Rodrigo encontrava-os agora ali no bufete do clube, s nove da 
manh, empenhados j nas suas habituais discusses.
Chiru veio apertar Rodrigo num caloroso abrao.
- Chegaste bem na hora, menino! Eu e o Saturnino estamos numa 
discusso braba. Ele diz que essa histria de acabar o mundo  
impossvel, porque o rabo do cometa 
 de fumaa e no pode espatifar a Terra, mesmo que bata nela...
Saturnino interrompeu-o:
- Perdo. No foi bem isso que eu disse. Declarei que a cauda do 
cometa era de matria gasosa. Li isso num almanaque.
- Pois  a mesma coisa! - vociferou Chiru. - Agora, tu que s um 
moo instrudo, Rodrigo, me diz quem  que tem razo: eu ou esse 
animal?
142
- Antes de resolverem a questo - interveio Torbio, aproximando-se 
do balco - me bota uma branquinha, Saturnino.
O ecnomo serviu-lhe um clice de cachaa, que ele emborcou, 
bebendo dum s trago.
- O mundo agora pode acabar, minha gente - disse, preparando-se para 
fazer outro cigarro.
Chiru estava de p na frente de Rodrigo, com as mos na cintura, sua 
grande cara vermelha a reluzir  luz da manh. Debruado sobre o 
balco, Saturnino esperava 
o veredicto do dr. Rodrigo Cambar.
- Todo o cometa  um corpo nebuloso - explicou este ltimo, com ar 
didtico. - No se trata, como o povo imagina, duma estrela com uma 
cauda...
Chiru olhava enviesado para Saturnino, como a dizer: "Ests ouvindo, 
burro?"
- Quanto  natureza da cauda, existem dvidas. Parece que  
formada de matrias gasosas de mistura com slidas, desprendidas 
pelo ncleo, isto , pela cabea do 
cometa.
Rodrigo fez uma pausa, embaraado. A verdade era que no sabia muito 
a respeito de cometas. Tinha lido algo, havia tempos, num nmero de
Illustration. Era-lhe,
porm, desagradvel confessar sua ignorncia. Por isso prosseguiu:
- Tudo nos leva a crer que as caudas sejam corpos gasosos e que 
portanto...
Tornou a hesitar. Chiru perdeu a pacincia:
- Mas afinal de contas, a cauda dum cometa pode ou no pode arrebentar 
o mundo?
Rodrigo coou o queixo e procurou fugir pela tangente:
- Olha, Chiru, o que te posso dizer  que os antigos alimentavam 
muitas supersties quanto aos cometas, achando que o aparecimento 
deles no cu anunciava algum 
acontecimento trgico. Conta-se que um cometa anunciou a morte de 
Csar.
- Que Csar? - perguntou Chiru com desconfiada arrogncia.
- Ora! - fez Saturnino. - O grande Csar da Histria, Chiru. Mas 
cala a boca e deixa o homem continuar.
143
Rodrigo agora se sentia em terreno mais firme.
- Um cometa apareceu tambm quando as legies brbaras de tila 
invadiram a Europa. E vocs querem saber duma coisa engraada? L 
por meados do sculo XV um grande 
cometa surgiu no cu com um brilho extraordinrio. Sua Santidade, o 
papa Calisto terceiro ou segundo, no me lembro bem, mandou que todos 
os catlicos do mundo comeassem 
a rezar em pblico, pedindo a Deus para poupar a humanidade da 
catstrofe que o cometa podia estar anunciando. E vocs sabem que 
cometa era esse? O de Halley, o 
mesmo que vai aparecer em maio do ano que vem...
Parou para gozar a expresso de surpresa estampada nos rostos de 
Saturnino e Chiru.
- Que desgraa nos vir anunciar esse cometa? - perguntou o 
ecnomo.
- A eleio do marechal Hermes! - exclamou Chiru, provocador.
Saturnino pigarreou, conteve-se e depois, com voz calma e grave, disse 
numa surdina cheia de dignidade:
- Devias ter mais respeito pelas convices alheias.
O grandalho, porm, j havia esquecido a sucesso presidencial 
e concentrava o olhar vivo em Rodrigo:
- Mas como  o negcio? O cometa pode ou no pode espatifar esta 
droga?
- Os cientistas da Antiguidade temiam que isso fosse possvel. Um 
choque do cometa com nosso planeta podia produzir o deslocamento do eixo 
de rotao da Terra, o 
que causaria um desequilbrio perigosssimo, e ningum poderia 
prever as consequncias de tal coliso. Mas os astrnomos modernos 
acham que a massa dos cometas  
to sem importncia, que um choque entre ela e a Terra no teria 
nenhuma conseqncia grave.
Saturnino lanou um sereno olhar de vitria para Chiru.
- Eu no te disse?
Chiru Mena mirou Rodrigo com ar desconfiado.
- No me dou por vencido. Tu me desculpa, mas sou teimoso. Pelas 
dvidas, no dia do cometa, vou ficar de prontido. Me serve um vinho 
do Porto, Saturno.
144
O ecnomo obedeceu. Chiru apanhou o clice, ergueu-o no ar, mirou o 
vinho com olho alegre e depois bebeu-o em goles curtos, intercalados de 
estalos de lngua.
- Bota na conta.
Saturnino cofiou os bigodes negros, e olhando para Rodrigo com uma 
expresso cptica no rosto, fez com a cabea um sinal na 
direo do companheiro.
- Quando ele vender as famosas estncias, vai pagar o que me deve...
Depois que Torbio e Rodrigo saram, os dois amigos ficaram a 
discutir poltica. O fanfarro gritou:
- Te dou vinte mil votos de vantagem e jogo no Rui Barbosa. O outro 
retorquiu:
- No quero luz. Jogo mano a mano.
- Est feito. Duzentos mil-ris.
Ao descerem as escadas que levavam  calada, Rodrigo comentou:
- E assim o Chiru passa a vida. Fazendo apostas, vendendo campos que 
no possui, esperando negcios fantsticos que so pura obra de 
sua imaginao...
- E a pobre da tia que se esfalfe fazendo bordados e quitandas pra 
sustentar esse vadio. Que vergonha! Um homenzarro forte, moo e 
so de lombo. Podia estar trabalhando 
como capataz de estncia, pois competncia no lhe falta. Mas o 
que o safado quer  viver na cidade, de bailes, farras, namoros, flor 
no peito e botina de verniz.
- O que  de gosto regala a vida... - observou Rodrigo com 
tolerncia.
Seguiram na direo da praa Ipiranga.
- Ests vendo aquela bisca que vem saindo da Confeitaria do 
Schnitzler? - perguntou Torbio.
Rodrigo avistou um padre alto e robusto, metido numa batina nova, a 
cabea coberta por um chapu de feltro negro, de largas abas. Quando 
o vulto se aproximou mais, 
Torbio cochichou:
-  o padre Kolb, o vigrio. Olha bem pra cara dele, que depois te 
conto uma histria...
145
Rodrigo olhou. Tinha o padre Kolb um rosto cor de tijolo, um par de 
olhinhos astutos, dum azul desbotado, sob plpebras sonolentas. O 
nariz, longo e fino, dum vermelho 
vivo, luzia ao sol. Ao passar pelos dois irmos, o sacerdote levou o 
indicador  aba do chapu, mas nem sequer voltou a cabea.
- Bom dia, vigrio! - cumprimentou Rodrigo, cordial. Torbio 
tomou-lhe do brao e contou:
- Pois essa figura, quando servia numa colnia italiana, no me 
lembro qual delas, inventou de construir uma igreja. Mas onde  que ia 
arranjar o dinheiro? Fez quermesses, 
leiles, pediu esmola de porta em porta, e quando viu que ainda 
faltava muito pra completar a quantia que precisava pras obras, teve uma 
idia-me.
Torbio parou e fez o irmo tambm parar.
- Anunciou que estava vendendo cadeiras no cu. Ora, os colonos 
ficaram assanhados e comearam a reservar lugares no outro mundo. Os 
preos variavam conforme 
a posio das cadeiras. Quanto mais perto de Deus, mais caro era o 
lugar. E havia vivos que pagavam quantias brbaras para conseguirem 
cadeiras no cu, perto 
das falecidas. Pois, menino, s sei dizer  que o padre Kolb forrou 
o poncho e arranjou o dinheiro que queria. E a igreja est l. Dizem 
que  uma jia de to linda.
- Mas isso  estupendo! O padre Kolb  um grande homem. Fao 
questo de conhec-lo.
Retomaram o caminho.
- E um grande padre!- prosseguiu Torbio. - Uma vez num kerb em Nova 
Pomernia, vi esse bicho beber sozinho dez garrafas de cerveja e 
depois sair caminhando firme.
Do outro lado da rua,  porta de sua barbearia - Salo Capadcio - 
Neco Rosa sorria e acenava-lhes.
- Vamos falar com aquele sacripanta - convidou Rodrigo.
Atravessaram a rua na direo do dente de ouro do barbeiro. Com sua 
basta cabeleira e suas longas costeletas, Neco Rosa 
146
lembrava um retrato de Bento Gonalves, feito a bico-de-pena, que 
aparecia nos livros escolares. Estava ele em mangas de camisa, de 
leno escarlate no pescoo, calas 
de brim branco, presas por uma larga cinta gacha, dentro de cuja 
guaiaca ele guardava o dinheiro da fria. Do lado direito da cintura, 
num coldre de couro com arabescos 
em pirogravura, acomodava-se sua pistola de cano comprido. (Rodrigo 
observara que o revlver era parte da anatomia do gacho, to 
inseparvel dele como os braos 
ou as pernas.)
- Entrem! - exclamou Neco. - Entrem no mais.
Como fazia sempre que encontrava o barbeiro, Torbio investiu contra 
ele, usando do brao  guisa de espada e procurando "cortar-lhe" a 
cara com o lado da mo. gil, 
Neco recuou um passo e com o antebrao esquerdo aparou o golpe. 
Comeou ento um duelo "a espada". Torbio levou o adversrio 
at o fundo da barbearia, numa sucesso 
de golpes furiosos.
- J te corto a cara, cachorro! - gritava ele. E o barbeiro respondia:
- Aqui tu encontra homem, canalha!
E assim ficaram por algum tempo naquele simulacro de duelo, at que 
Rodrigo lhes pediu que parassem. Pararam e, resfolegantes,' 
abraaram-se demoradamente, trocando 
desaforos afetuosos.
Neco voltou a ateno para Rodrigo.
- Estava com uma bruta saudade de ti. Este ano no fiz nenhuma farra 
que prestasse. Tu sabes, quando no se tem companheiro... - Olhou para 
Torbio. - Esse animal 
vive na estncia... O Chim  uma calavera... O Saturno tem raiva de 
mulher. No sobra ningum.
Rodrigo sorria com indulgncia para seu passado de libertinagens. 
Agora a era da pndega tinha acabado. Ia comear uma vida nova, 
sossegada e respeitvel. No tinha 
remorso das coisas que fizera, de seus desatinos, bebedeiras, orgias; 
no se arrependia nem das brigas inteis que provocara pela simples 
razo de que o lcool lhe 
dava ganas de exercitar os msculos. Tudo tinha seu tempo. Chegara por 
fim a hora de sentar o juzo. Mas como poderia conseguir que Neco Rosa 
compreendesse essa 
resoluo to sria?
O barbeiro olhava-o de alto a baixo.
147
- Ests um dandy, Rodrigo. At nem sei como ainda tens coragem de 
vir falar com um casca-grossa como eu e de andar na rua com um tipo da 
laia do teu irmo!
O "salo" da barbearia no passava dum corredor estreito, com uma 
janela ao fundo. Era nu, pobre, e cheirava a mofo e loo barata. 
Sobre uma mesa de pinho sem lustro 
via-se uma navalha, um pulverizador, uma tesoura, uma mquina de 
cortar cabelo e um pote de nquel com um pincel dentro. Acima da mesa, 
pendia da parede um espelho 
oval trincado. Rodrigo mirou-se nele, passando a mo pelo rosto:
- Acho que vou fazer a barba.
- Ento acomoda o rabo nessa cadeira - disse o barbeiro, apanhando uma 
toalha.
Rodrigo tirou o chapu e sentou-se. Neco amarrou-lhe a toalha ao redor 
do pescoo, ensaboou-lhe o rosto, abriu a navalha e comeou a 
pass-la no assentador. Enquanto 
fazia isso, olhava para o amigo dizendo:
- Como , bicho? Quando  que vamos fazer uma farrinha? Na 
penso da velha Tucha tem umas raparigas bem jeitosas, no , Bio?
Torbio que, sentado no cho, coava os dedos do p, troou:
- O mocinho agora sentou o juzo, Neco. Diz que no quer saber mais 
de chinas.
- Qual! No aciedito. Cachorro que come ovelha uma vez, s 
matando...
Rodrigo achou que o silncio, no momento, era a melhor poltica a 
adotar. E quando viu o barbeiro aproximar-se com a navalha, fechou os 
olhos. Achava gostosa a modorra 
em que costumava ficar nas cadeiras de barbeiro, todo reclinado para 
trs, ouvindo o rascar da navalha e as conversas em derredor. Era uma 
coisa quase to boa como 
deitar a cabea no colo de madrinha Maria Valria e sentir os dedos 
dela num cafun prolongado, entorpecente...
Torbio comeou a limpar as unhas com a ponta da faca.
- Mas isso no dura, Neco - garantiu ele sem erguer os olhos. - 
Conheo bem esse sujeito. Daqui a uns dias ele mesmo vem te procurar 
pra vocs irem ver as raparigas.
148
Sempre de olhos cerrados, Rodrigo sorria. A verdade era que comeava a 
sentir necessidade de mulher. Precisava descobrir um meio de resolver o 
problema de maneira 
limpa e discreta. Estava diplomado, pretendia clinicar na cidade: no 
podia mais ser visto em penses de chinas. Por outro lado, no 
queria, nem poderia, levar vida 
de asceta. A soluo mesmo era o casamento...
Enquanto escanhoava o amigo, Neco cantarolava o Talento e a formosura, 
modinha que estava muito em voga, pois o famoso Mrio a gravara em 
disco de gramofone para 
a Casa Edison.
Tu podes bem guardar os dons da formosura, Que o tempo um dia h de, 
implacvel, trucidar, Tu podes bem viver ufana da ventura, Que a 
Natureza, cegamente, quis te 
dar!
Tinha uma voz grave e bem entoada, duma doura lnguida de 
seresteiro. - Que fim levou a Natalina? - perguntou Torbio.
- Est vivendo com um sargento. Rodrigo abriu os olhos, interessado.
- Tens visto a Dulce? - perguntou. Antes de embarcar para fazer seu 
ltimo ano de medicina, passara as frias amigado com a rapariga. 
Era uma morena de olhos tristes 
e ternos.
Neco parou, com a navalha no ar.
- Tu no sabias? O Bio no mandou te contar? Pois a Dulce se matou. 
Prendeu fogo na roupa.
Rodrigo franziu o cenho, e uma idia relampagueou-lhe na mente: A 
Dulce se suicidou por minha causa!
Lembrava-se de que a chinoca se despedira dele desfeita em pranto, 
dizendo que jamais haveria de esquec-lo. Uma sbita sensao de 
remorso oprimiu-lhe o peito.
- Mas por qu? - perguntou, hesitante, temendo a resposta. Neco 
encolheu os ombros.
- Besteiras. Se meteu com um anspeada da bateria de obuseiros, pegou 
um rabicho danado por ele e quando o rapaz enjoou dela e disse que ia se 
juntar com outra, 
a Dulce perdeu a cabea e gritou que ia se matar. O anspeada at 
brincou: "Pois toma
149
creolina, meu bem". A rapariga se fechou em casa, derramou querosene na 
roupa, riscou um fsforo e quando viu, estava se incendiando toda. 
Parece que no meio da 
coisa se arrependeu e comeou a gritar. Os vizinhos acudiram, mas 
quando conseguiram abafar o fogo com cobertores, era tarde. A coitadinha 
ainda durou quase um dia, 
penando. Foi uma coisa brbara.
Rodrigo tornou a cerrar os olhos e reviu Dulce seminua na cama onde se 
haviam amado durante trs meses. Depois imaginou-a toda queimada, o 
corpo numa chaga purulenta. 
Santo Deus, como tudo aquilo era horrvel e ao mesmo tempo gratuito, 
supinamente gratuito. Matar-se por causa dum obuseiro, talvez um mulato 
de beiola cada e cabelo 
pixaim! No pde evitar um sentimento de despeito ao pensar que ele, 
Rodrigo Cambar, entrara indiretamente naquela histria vulgar, 
triste e srdida, cujas personagens 
principais eram uma prostituta e um anspeada. Belo tringulo!
Como era bom estar livre dos constrangedores perigos daquela vida de 
prostitutas e bordis, onde tantas vezes ombreara com bandidos e 
desordeiros, contrabandistas 
e capangas! E agora, s de lembrar-se dos riscos que correra, sentia 
um medo retrospectivo. Ao mesmo tempo, porm, no podia fugir a um 
sentimento de admirao por 
si mesmo, por ter tido a coragem de entrar - na maioria das vezes 
desarmado - naqueles antros assustadores. Loucuras dos dezoito anos! - 
concluiu.
Sim, o Rodrigo que agora escava sentado na cadeira da Barbearia 
Capadcio no dia 21 de dezembro de 1910 no era o mesmo que, havia 
cinco anos, andava em companhia 
do Neco Rosa a correr os prostbulos de Santa F.
Ao despertar de seu devaneio, Rodrigo notou que o barbeiro havia mudado 
de assunto. Saltara de mulheres para poltica.
- Ento o marechal Hermes vai chegar em fevereiro, no?
-  verdade.
- E o nosso Rui Barbosa no vem nos visitar! Isso  que  uma 
ingratido.
- No h de ser nada, Neco - consolou-o Torbio. - Havemos de 
ganhar as eleies assim mesmo.
150
- Se o Hermes for eleito - observou o barbeiro -, este pas est 
perdido.
- Deus  brasileiro - exclamou Bio, erguendo-se pesadamente e 
comeando a andar dum lado para outro.
- E maragato! - acrescentou Neco.
- No, Neco - sorriu Rodrigo -, Deus no se mete em poltica.
Depois duma pausa, acrescentou:
- Vou te contar um segredo. Papai e eu estamos pensando em fundar um 
jornal para desancar a situao.
- Menino! Que idia macanuda! Mas esse negcio tem de sair logo, 
antes das eleies.
- Depois do dia primeiro do ano vamos passar um ms no Angico. Na 
volta pretendo fazer o jornal sair.
- Eu s quero ver onde  que vocs vo imprimir esse famoso 
jornal - disse Torbio.
- Acho que a soluo  comprar a tipografia do Mendanha.
- Dinheiro haja!
- Dinheiro no falta - disse Neco.
- E ser um bom emprego de capital, mesmo que se perca at o 
ltimo tosto - garantiu Rodrigo. - O Trindade precisa ouvir umas 
verdades.
- Isso! - incitava o barbeiro. - Isso, Rodrigo!
- Com essa corja - discordou Torbio - palavra no adianta. Ponta de 
faca e bala  que resolve.
O seresteiro interrompeu o trabalho e encarou o amigo:
- Mas eles esto com tudo na mo, homem! Tm os cofres da 
Intendncia, os subdelegados, a polcia, o funcionalismo, a 
capangada, tudo! E por falar nisso, vocs sabem 
que o Trindade j comeou a mandar buscar cabos eleitorais de fora? 
Pois dizem que vem da Soledade um valento que tem dez mortes nas 
costas.
Rodrigo descerrou os olhos, soergueu-se na cadeira e vociferou:
- Pensar ele que vai nos atemorizar com esses bandidos assalariados?
Neco fez uma careta de pessimismo.
151
- Infelizmente h muito sujeito frouxo neste mundo, muito eleitor que 
..se acobarda e acaba votando com o governo. Ningum quer levar 
bordoada nem correr o risco 
de ser degolado. - Parou, sorriu e encostou o fio da navalha no 
pescoo de Rodrigo. - Por falar nisso, imagina se de repente eu 
dissesse: "Civilista sem-vergonha, 
eu sou um hermista dos quatro costados e agora tu vais pagar por tudo 
que disseste contra o coronel Trindade". Que era que tu fazias, hein, 
Rodrigo?
Neco sentiu nas costas o contato dum objeto duro e agudo: Torbio 
apertava-lhe contra as costelas a ponta de sua faca, dizendo:
- Ele no fazia nada, mas eu te comia na faca... Os trs desandaram 
a rir.
De novo na rua, Rodrigo passou a mo pelas faces recm-barbeadas e 
disse:
- O Neco continua a ser o pior barbeiro do mundo.
- Mas como amigo  ouro Bio.
- Isso .
No meio da quadra passaram pela frente da casa de Terzio Matos de 
dentro da qual vinham os sons dum piano em que algum tocava escalas. 
Torbio fez o irmo parar 
e disse-lhe:
- A Gioconda est estudando. Escuta. - Cantarolou: - Cachorro vai 
cachorro vem... cachorro vai cachorro vem...
- Mtodo Czerny - disse Rodrigo. - Conheo bem. Em Porto Alegre na 
minha penso havia uma mocinha, por sinal bem interessante, que todas 
as manhs tocava esses exerccios.
- Dormiste com ela?
- Bio! No pensas noutra coisa!
Continuaram a andar lentamente, perseguidos por aquele repetitivo 
d-r-mi-f-sol-f-mi-r-d.
- Um bom partido pra ti, Bio...
- Quem? A Gioconda? Deus me livre!
152
- Por que no?  bonita, bem-educada, inteligente, sabe tocar piano 
e dizem que tem bom dote...
- Pr inferno! Sabes que no penso em casamento e que se um dia 
ficar de miolo mole e resolver me amarrar a algum, no h de ser 
a nenhuma dessas piguanchas de 
cidade, que vivem na janela ou matraqueando num piano. Mulher pra mim 
tem que ser quituteira e ter mo boa pra fazer queijo. E se no 
souber ler, tanto melhor!
Chegaram  praa Ipiranga. Ali ficavam as residncias mais novas 
de Santa F e o Teatro Santa Ceclia, com sua fachada corde-rosa, no 
centro de cujo fronto triangular 
sustentado por duas colunas se viam em alto-relevo as mscaras da 
Comdia e da Tragdia.
Sentaram-se num banco  sombra dum copado cinamomo. O sol quela 
hora estava j alto e o calor aumentava. Rodrigo tirou o chapu e 
passou o leno pelo rosto e pelo 
pescoo. Depois, olhando para a casa de Aderbal Quadros, l do outro 
lado da rua, disse:
- Ali mora a moa com quem um dia hei de me casar. Ouve o que te digo, 
Bio.
- A Flora?
Rodrigo sacudiu lentamente a cabea.
- Nas frias passadas tive um namorico com ela. Acho que  uma 
moa como poucas. Recatada, cheia de prendas... de boa famlia... e 
bonita, no achas?
- Meio flaquita pra meu gosto.
Rodrigo contemplava a fachada da casa de Aderbal Quadros, com a sua 
longa fileira de janelas e uma srie de grandes compoteiras amarelas 
alinhadas sobre a alta platibanda.
Torbio arrancou do cho um talo de erva e comeou a mastig-lo.
- Sabes que o velho Aderbal anda mal de negcios? - perguntou.
Aderbal Quadros - o Babalo, como era mais conhecido dos ntimos - era 
dos estancieiros mais ricos do municpio. Senhor de duas grandes 
estncias e de muitos milhares 
de cabeas de gado, era tambm proprietrio duns cinco ou seis 
prdios de alvenaria
153
situados na cidade. Alm disso, dava e recebia dinheiro a juros. "O 
Babalo  mais garantido que um banco"- costumava dizer Licurgo. E 
Rodrigo criara-se ouvindo 
contar maravilhas do carter daquele homem que comeara a vida como 
pio de estncia.
- Mal de negcios? - repetiu. - Ser possvel?
-  o que andam dizendo.
- Mas  uma das fortunas mais slidas do estado, Bio! O outro deu de 
ombros.
-  o que se comenta - repetiu. - E parece que, no demora muito, a 
coisa estoura.
- Deve ser puro boato.
- Tomara que seja. Mas at o papai j falou...
Se seu pai falara - concluiu Rodiigo -, a histria devia ser mesmo 
certa, pois Licurgo Cambar no era homem de andar com conversas 
levianas, principalmente quando 
essas conversas envolviam a reputao dum velho e leal amigo.
Rodrigo olhava fixamente para as janelas da casa de Aderbal Quadros, 
desejando ver assomar a uma delas o vulto de Flora.
- Palavra que no compreendo. Um homem trabalhador como o Babalo, sem 
vcios de espcie alguma... No bebe, no joga, no anda com 
mulheres.
- Pois deve ser por isso que vai quebrar.
Torbio tirou do bolso o relgio que pertencera ao av materno, e 
disse:
- Faltam vinte pras dez. Vamos voltar?
Ergueram-se e tornaram a encaminhar-se para a rua do Comrcio. Ao 
chegarem  primeira esquina, ouviu-se uma voz de falsete:
- Ai, meu Deus, olha quem anda por aqui!
Rodrigo sentiu-se abraado pelas costas. Voltou-se e deu com a cara do 
Salomo Padilha - larga, flcida, redonda, duma brancura oleosa, 
pintalgada de cravos negros 
no nariz e no queixo.
- Menino, como ests lindo!
Meio constrangido pelo choque da surpresa, Rodrigo balbuciou coisas sem 
nexo. Sempre se sentira mal na presena do alfaiate
154
Salomo, sobre cuja heterossexualidade pairavam fortes dvidas,
reforadas pelos ademanes e pela voz efeminada da criatura, pela sua
misteriosa vida de solitrio
e pelo gosto adamado com que decorara seu quarto de solteiro, com
colchas rosadas, toalhas de renda e bibels. Agora ali estava na sua
frente o Salomo, dono da
alfaiataria Ao Chie de Paris. Seus lbios polpudos e midos se
abriam como uma rosa, deixando  mostra os dentes grados e cor de
prola. Havia naquele rosto e naquele
corpo umas gorduras femininas que Rodrigo achava repugnantes. O fato de
Salomo cecear, tornava-lhe a voz ainda mais desagradvel. Torbio
afastara-se para a beira
da calada, evitando olhar de frente para o alfaiate.
- Como vais, Salomo?
Foi a nica frase coerente que Rodrigo conseguiu formar.
- Lindo. Lindo como os amores. E tu, safadinho, ests formado, hein,
com diploma de doutor e agora, decerto, nem vais dar mais confiana
prs pobres no , seu ingrato?
- Ora...
- Entra, meu bem. Vem ver a minha casa. Reformei as instalaes.
Rodrigo no teve outro remdio seno entrar.
- Vem, Bio - convidou Salomo.
- No vou - respondeu o outro, brusco.
- Bruto! O teu irmo, que  doutor, entrou. No  soberbo, anda
tambm com os plebeus.
Deu uma rabanada e entrou.
- Aqui  a minha tendinha de trabalho. Muito modesta, como vs...
Era uma sala pequena e asseada, que cheirava a casimira recm-passada
e cera derretida. Sobre uma mesa jazia um enorme ferro de passar, uma
tesoura preta e um pedao
de giz rosado.
Salomo pegou na manga do casaco de Rodrigo e apalpou a fazenda entre
o polegar e o indicador.
- Ai! Que tecido bom! Ests chique, hein? Onde foi que mandaste fazer
este terno? No me digas. J sei. Foi em Porto Alegre, no Germano
Petersen, no foi? Est
se vendo. Muito moderno, muito smart. Mas tu sabes duma coisa? Eu
tambm acompanho as modas. Me chegaram uns figurininhos de Paris, queres
ver? Caminhou at a mesa, abriu a gaveta e tirou umas revistas.
- Depois eu olho, Salomo. Agora estou com pressa.
O alfaiate tomou-lhe da mo. o contato morno com aquela carne
causou a Rodrigo um grande mal estar.
- Olha, tens que me prometer que vais fazer uma roupa aqui
em casa, seno eu brigo contigo, ouviste?
- Est bem. Fica prometido. Vou precisar dum-terno novo
quando entrar o inverno.
- Tenho umas casimirinhas supimpas. Pros amigos fao um preo especial. Quero ter a honra de dizer que o Dr. Rodrgo Cambar tambm se veste no Chic de Pitris.
- Est bem. At logo?
- Adeuzinho!
Na rua, j longe da casa do Salomo, Torbio cuspiu na calada.
- Credo, que nojo! - exclamou. - No posso nem olhar pra aquele tipo. Me da uma vontade danada de quebrar-lhe a cara a bofetadas.
Rodrgo sorriu. Esforava-se por ser tolerante para com Salomo. Perante a cincia - refletiu ele - aquele pobre-diabo era um doente e como tal devia ser tratado.
No entanto sentia que esse verniz de leitura e estudo era nele uma camada tnussima, embora brilhante, atravs de cuja transparncia se podia ver a olho nu o Cambar
macho para quem o vcio de Salomo constitua a maior das vergonhas que podem cair sobre um homem.
Torbio suava e bufava de calor, com a camisa empapada de suor, o rosto reluzente e afogueado.
- Estou com uma sede brbara - disse ele. - Vamos entrar na confeitaria pra tomar alguma coisa.
Rodrigo pensava em Flora e agora, sabedor do desastre econmico que ameaava a famlia Quadros, sua ternura pela moa aumentara de tal modo, que ele sentia uma necessidade
urgente de rev-la. Muitas vezes durante aquele ano pensara nela. Aps suas pndegas noturnas, a doce imagem da rapariga lhe vinha  mente como um refrigrio e um
apaziguamento para suas ressacas. Depois daquelas clidas noitadas com prostitutas (caras, sim, limpas, no havia dvida, mas prostitutas!) Flora voltava-lhe  lembrana
como a promessa duma lmpida manh de sol e cu azul, recendendo a flor e a coisas virgens.
- Por que  que ests to macambzio? - indagou Torbio, tocando o brao do irmo.
- Estou pensando no que me contaste do Babalo.
- No adianta pensar. O que tem de ser traz fora.
- Mas acho que ainda  tempo da gente salvar o homem.
Torbio estacou e encarou o irmo que tambm fizera alto:
- Pretendes derrubar o Trindade, fundar uma companhia de luz eltrica, botar uma adega, abrir um cinema e agora queres salvar o Babalo? Aonde vais parar com todos
esses planos? Quem te ouve falar pensa que s algum miliardrio.
- Tu sabes que no somos pobres.
- Mas tambm devias saber que quase tudo que o papai tem, est empregado em campo, gado e casas. O dinheiro no anda rolando por a.
Entraram na Confeitaria Schnitzler, sentaram-se a uma de suas mesinhas, no salo da frente, e Torbio bateu palmas. O prprio Schnitzler veio atend-los. Era um
alemo retaco e musculoso, de cachao de foca, olhos dum cinza esverdeado e bigode de guias retorcidas para- cima,  Guilherme II.
- Uma cerveja! - pediu Torbio.
- Rpido! - exclamou o alemo com ar gaiato e, como era seu costume, fez quac! quac! imitando o grasnar dum pato. (Era uma gracinha conhecida em toda a cidade.)
Depois, reconhecendo Rodrigo, apertou-lhe a mo com vigor e deu-lhe as boas-vindas. Tinha um sotaque carregado, e seus erres ronronantes davam a impresso de que
ao falar estava sempre triturando biscoitos.
Rodrigo gostava daquela casa - o nico caf e restaurante que existia na cidade. Era um lugar que "cheirava a estrangeiro.
155
Imaculadamente limpo, tinha nas paredes 
quadros com paisagens da Baviera e do Tirol.  hora das refeies 
andava naquelas salas um cheiro de molho de manteiga, batatas cozidas e 
Apfelstrudel. Frau Schnitzler 
era uma doceira de primeira ordem e suas cucas, bolos e tortas eram 
muito apreciados, principalmente pelos habitantes de Nova Pomermia, 
para onde semanalmente ela 
mandava os produtos de seu forno.
Torbio tirou o chapu e passou lentamente a mo pela cabea.
- Eu s queria saber de quanto o Aderbal precisa para evitar a 
falncia... - murmurou Rodrigo.
- Decerto muitas centenas de contos, uns mil ou mil e tantos - respondeu 
Bio desencorajadoramente. - Talvez at mais. O Babalo  uma 
espcie de banco. Meio mundo 
tem dinheiro a juro na mo dele. Mas tu devias deixar de pensar nesse 
negcio. No foi pelo que ns fizemos que o homem est em maus 
lenis.
- O pai de Flora  um sujeito direito e trabalhador.
- No digo que no seja. Mas  teimoso e burro.
- Bio!
- E, sim senhor. No sabe fazer negcio. E desses que compram um 
cavalo de raa hoje e amanh trocam o animal por um boi e depois o 
boi por um carneiro, o carneiro 
por um cachorro, o cachorro por um gato e o gato por um rato. No fim, o 
gato come o rato e o homem fica de mos abanando.
- Ests exagerando.
- No estou. O Babalo  desses que acham que ganhar mais de dez por 
cento num negcio  roubo. - Atirou os ps para cima duma cadeira 
e desabotoou a camisa, deixando 
 mostra o peito cabeludo.
Schnitzler trouxe a cerveja. Torbio encheu os copos e bebeu o 
contedo do seu dum sorvo s, com muito rudo. Rodrigo ficou a 
olhar pensativo para a garrafa.
- Eu te compreendo - disse Bio, lambendo os beios.- Ests com a 
cabea cheia de planos.  sempre assim quando a gente chega de 
viagem. Mas vou te dizer uma coisa. 
Se o papai puder
158
fazer algo por Babalo ele faz, no  preciso que ningum lhe 
pea. - Rodrigo bebeu a sua cerveja, pensando em Flora. Ia ser duro 
para ela mudar bruscamente de vida.
- Vamos embora? - convidou Torbio. -  Jlio, quanto  este 
negcio?
Meteu a mo no bolso.
- Nada! - exclamou o alemo. No quis cobrar-lhes as bebidas, como 
homenagem ao dr. Rodrigo. Fez quacl quacl, flexionou as pernas, desceu o 
busto, num movimento 
ginstico, e ficou a olhar comicamente para os dois irmos.
159

Eram nove horas da noite e Rodrigo estava no quarto a vestir-se para o
rveillon do Comercial. Havia tomado um prolongado banho morno no
bacio e agora aspirava 
com delcia a fragrncia do sabonete UOEillet du Ri que se 
evolava de sua prpria pele. A luz de gs inundava o quarto duma 
claridade lvida.  frente do espelho, 
em ceroulas e de tronco nu, os ps metidos em chinelos, Rodrigo 
examinava o rosto com amoroso cuidado. Positivamente, o Neco era o pior 
barbeiro do universo: deixara-lhe 
vrios tocos de barba debaixo do lbio inferior e do queixo. 
Impaciente, tirou da gaveta do lavatrio uma navalha, abriu-a e, 
passando no rosto seco, rematou como 
pde o servio do amigo. Guardou a navalha e tornou a esfregar a
mo nas faces, primeiro de cima para baixo com a palma, depois de
baixo para cima com o dorso. Cheirou
demoradamente as pontas dos dedos. Gostava de perfumes, contanto que
fossem franceses legtimos. Em Porto Alegre, quando no primeiro ano da
faculdade, usara Jicky
por pura saudade, pois esse extrato sempre fora o preferido de sua
madrinha. Era um perfume seco que ele associava  gente velha, aos
bailes de antigamente e aos
bas de recordaes. Depois passara a usar Rose de France, e agora
estava no Royal Cyclamen, que tinha uma doura evocativa de alcovas em
penumbra.
Pensando no conceito que em geral os gachos tinham de quem usava
perfume, Rodrigo sorria. Para aquela gente afeita ao cheiro de suor de
cavalo, couro curtido, charque,
queijo e esterco, qualquer odor agradvel era um sinnimo de
feminilidade. Como
160
se a masculinidade dum homem dependesse da qualidade de seu cheiro!
Sentou-se na cama e comeou a calar as meias de seda preta.
O rveillon de gala do Comercial era uma festa tradicional que a
sociedade santa-fezense esperava sempre com ansiedade. Muitas damas e 
senhoritas faziam vestidos 
especialmente para essa grande ocasio; os homens tiravam de malas e 
guarda-roupas suas melhores fatiotas pretas, seus fraques, croiss e 
smokings, tratando de arej-los. 
Eram famosas as bebedeiras de champanha dessas noitadas de 31 de 
dezembro em que, de acordo com a tradio, na primeira hora do novo 
ano a diretoria do clube recm-eleita 
devia tomar posse.
Rodrigo calou os sapatos de verniz, imaginando o que seu pai e o seu 
irmo iam pensar quando o vissem com aquela coisa efeminada nos ps. 
Uma pergunta lhe veio 
 mente: "Ser que um dia eu vou mud-los... ou eles me 
mudaro?" Como nica resposta, encolheu os ombros. Que lhe importava 
o futuro? Amarrou os cordes das ceroulas, 
puxou sobre elas as meias e prendeu nestas ltimas a liga, tambm de 
seda preta.
Sabia que ia brilhar no baile daquela noite. Sabia que sua chegada 
causara sensao entre as moas casadouras da cidade. J lhe 
haviam contado que mams e titias 
faziam entre si apostas: com quem danar o dr. Rodrigo a polonaise? 
("Vo ficar de boca aberta quando me virem tirar a Flora.") Apanhou as 
calas do smoking, que 
estavam dobradas sobre o respaldo duma cadeira, e vestiu-as. Quando ia 
prender o suspensrio verificou a falta dum boto. Com uma ruga de 
contrariedade na testa, 
abriu a porta do quarto e gritou para o corredor:
- Madrinha!
Maria Valria apareceu:
- Quem foi que morreu?
- Est faltando um boto nas minhas calas.
- U? Como foi que no vi isso? Aproximou-se do afilhado e 
perguntou:
- Onde?
- Aqui - disse ele, mostrando.
- Espere que j prego.
161
Saiu do quarto e voltou pouco depois com um cesto de costura nas 
mos. - Tire as calas!
- Ora, madrinha, pregue assim mesmo.
- No presta.
- Bobagem! Pregue ligeiro, que j comecei a suar. Est um pouco 
quente, no?
Maria Valria no respondeu. Abriu o cestinho, remexeu nele com A 
ponta dos dedos e acabou apanhando uma agulha, um carretei de linha 
preta e um boto. Comparou 
o boto com os outros das calas, depois ergueu a agulha, molhou nos 
lbios a ponta da linha e enfiou-a no buraco.
- Que olho! - gabou-a Rodrigo.
Maria Valria sentou-se numa cadeira e puxou bruscamente o sobrinho 
pelo suspensrio, trazendo-o mais para perto de si.
- Agora pare quieto - disse. E comeou a costurar, murmurando:
Coso a roupa,
Mas no coso a. sorte,
Coso na. vidn
Mas no coso na morte.
Continuou a repetir o verso, enquanto a agulha subia e descia, entrando 
pelos orifcios do boto. Rodrigo sorria, deliciado.
No esprito de sua madrinha - refletia ele - havia uma curiosa mistura 
de cepticismo e superstio. Era uma realista que jamais se iludia 
com as aparncias nem se 
deixava levar por palavras ou sonhos. Tinha um olho prtico, um jeito 
sco de falar, pensar e agir. Dava sempre s coisas seus verdadeiros 
nomes, e muitas vezes 
suas oportunssimas observaes carregadas de bom senso eram um 
jorro de gua fria sobre a fervura dos entusiasmos dos sobrinhos. Por 
isso tudo Rodrigo achava singular 
que ela acreditasse numa srie de "no presta" que era a negao 
mesma de sua natureza cptica.
No presta varrer a casa de noite - afirmava -- porque os antigos 
diziam que isso pode causar a morte da pessoa mais velha
162
da famlia. Vestir roupa s avessas pode virar a sorte dum vivente. 
Quando via alguma criana a caminhar de costas, Maria Valria 
gritava:
- No caminhe assim, menino, seno teu pai morre.
Um dia em que Licurgo, tendo chegado tarde a casa, comia na cozinha de 
luz apagada, Rodrigo ouvira a madrinha resmungar:
- Teu pai est comendo no escuro. Daqui a pouco o diabo vem comer com 
ele.
Havia, segundo Maria Valria, outros "no presta" que atraam 
desgraas: abrir guarda-chuva dentro de casa; fechar as portas logo 
depois que alguma pessoa da famlia 
sai de viagem; deixar chapu em cima de cama...
Ser que ela acredita mesmo nessas coisas? - perguntava Rodrigo a si 
mesmo, olhando para a cabea grisalha da tia. Provavelmente no... 
Talvez repetisse aqueles 
"no presta" por puro cacoete e um pouco por esprito humorstico.
A verdade era que ningum conhecia direito Maria Valria Terra. 
No era mulher de confidncias: raramente ou nunca falava de si 
mesma. E o que sempre intrigava Rodrigo 
eram as relaes dela com o cunhado. Apesar de viverem na mesma 
casa, havia j uns bons vinte e cinco anos, tratavam-se ainda com 
grande cerimnia. Era estranho 
que jamais um pronunciasse o nome do outro. Quando se falavam, nunca se 
olhavam e em geral o pouco que diziam era em frases curtas e 
destitudas de cordialidade. 
Mais duma vez Rodrigo suspeitara existir entre eles uma profunda mas 
secreta malquerena, que a ambos era difcil esconder.
- Coso na vida, mas no coso na morte - resmungava ela. Rodrigo 
comeou a passar a mo pelos cabelos lisos de Maria
Valria.
- Tire essa mo fedorenta de minha cabea! - exclamou ela.
Ele obedeceu, num sobressalto, como se ainda fosse menino e tivesse sido 
pilhado a roubar doce de leite no armrio da despensa.
- Pronto! - disse ela, cortando a linha com os dentes. - E agora veja se 
vai danar com alguma dessas cadelinhas.
163
Para Maria Valria as "cadelinhas" eram certas moas desfrutveis 
de Santa F com uma das quais ela temia o sobrinho viesse um dia a 
casar-se. Tambm lhes chamava 
"rabichas" ou "bruacas". Namoravam todos os caixeiros viajantes que 
passavam pela cidade e chegavam ao ponto de conversar com eles  
janela. A pior de todas era 
Esmeralda Dias. Os pulos que dava quando valsava com o Chiru ou com 
algum forasteiro! Diziam que danava at maxixe!
- Voc leva mais tempo que uma dama pra se vestir - observou ela, 
erguendo-se. - J so nove e meia.
Depois que a tia saiu do quarto, Rodrigo levou ainda um tempo a 
prender na camisa o colarinho duro de ponta virada, a ajustar-lhe a 
gravata de gorgoro de seda 
preta, a besuntar o cabelo de brilhantina e a pentear-se com um cuidado 
minucioso.
J completamente vestido, ficou ainda por longo minuto diante do 
espelho a mirar-se de frente, de lado, de trs quartos, e a dar 
retoques na gravata, no penteado, 
no peitilho engomado e no leno de seda branca, cujas pontas embebera 
em Royal Cyclamen.
Por fim, satisfeito, saiu do quarto a assobiar a valsa 'A viva 
alegre e desceu.
Na sala de jantar encontrou Torbio de bombachas e em mangas de 
camisa.
- Tu nesses trajos, homem! - admirou-se.
- Querias que estivesse pelado?
- Mas no vais ao baile?
- Sabes que no sou homem dessas festas.
Maria Valria entrou na sala e, as mos tranadas contra o 
estmago, mirou o afilhado de alto a baixo, com olhar avaliador.
- Vire.
Rodrigo fez meia-volta. A madrinha aproximou-se dele e tirou-lhe do 
ombro um fio de linha branca; depois passou a mo de leve pela gola do 
smoking.
- Agora est bem.
Rodrigo voltou-se e beijou-lhe a testa.
- No saia sem falar com seu pai. Est no escritrio. Torbio 
coava o queixo, olhando para o irmo. E quando o
viu deixar a sala, disse  tia:
164
- Que pelintra nos saiu esse fregus! Por quem teria puxado? Ela 
encolheu os ombros angulosos.
- Sei l! Pelo pai no foi. A Alice tambm no era mulher de 
muitos enfeites.
- Ento degenerou...
Rodrigo entrou no escritrio e encontrou o pai sentado  
escrivaninha, remexendo nuns papis. Licurgo Cambar ergueu a 
cabea:
- Ah! E o senhor...
- Vou ao baile do clube, papai.
Pronunciou estas palavras em voz baixa, num tom respeitoso.
O escritrio no tinha mudado em nada. Nas paredes brancas, alm 
do grande retrato de Jlio de Castilhos, s se via um calendrio 
com um cromo ingnuo, brinde da 
Casa Sol. Cadeiras duras achavam-se espalhadas na vasta pea de soalho 
completamente nu. Ali estava ainda a velha escrivaninha de cedro 
lustrado, com seu topo forrado 
de oleado pardo. Quando menino, Rodrigo gostava de mexer-lhe nas gavetas 
onde, de mistura com velhas cartas e papis amarelados, havia sempre 
maos de palha para 
cigarros, pedaos de fumo em rama, uma caixa com penas de ao e 
pedras e mechas de isqueiro.
- Est bem, meu filho. Precisa de alguma coisa?
- No, papai, obrigado. No preciso de nada.
- Vai a p?
- No senhor. Vou de carro.
- Est bem.
Licurgo contemplava o filho com seus olhos graves e tristes. Estava em 
mangas de camisa, e Rodrigo notou que ele mandara aparar a barba aquela 
tarde.
- O senhor vai ao clube?
Licurgo sacudiu a cabea negativamente.
- No gosto de barulho.
165
A palavra barulho - sabia-o Rodrigo - abrangia tambm a msica.
- Bom... - fez ele, indeciso, no sabendo se devia beijar a mo do 
pai, simplesmente apert-la ou ir-se sem fazer nenhum desses gestos.
- At o ano que vem! - disse Curgo, com voz mais clara. E sob os 
bigodes grisalhos seus lbios se abriram num meio sorriso.
- At o ano que vem? Mas eu pretendo ver entrar o AnoNovo aqui em 
casa! Quando faltarem dez pra meia-noite, eu volto pra c...
Curgo sacudiu a cabea, num assentimento.
- Est muito bem, meu filho. Volte.
Rodrigo deu dois passos  frente, tomou a mo do pai e beijou-a.
Na sala disse  tia:
- Antes da meia-noite eu volto.
- Duvido - retrucou ela.
Rodrigo sorriu, parou diante do grande espelho e ajeitou na cabea o 
chapu-do-chile. Dirigiu-se depois para o vestbulo onde parou um 
instante para acender um cigarro 
Pela porta escancarada entrava o bafo morno da noite. Com uma 
sensao de felicidade e absoluto bem-estar, satisfeito consigo 
mesmo e com o mundo, Rodrigo desceu 
os degraus, ganhou a calada e gritou para o Bento, que se achava na 
boleia do carro:
- Linda noite, no?
- Pra caar tatu.
Linda para caar um corao - pensou Rodrigo. - Linda pra caar 
muitos coraes.
Subiu para o carro, que estava com a tolda arriada.
- Toca pr clube, Bento. Mas bem devagar, sim?
O boleeiro fez estalar o chicote no ar e os cavalos se puseram em 
movimento. O carro do Sobrado, um dos poucos que, em todo o municpio, 
tinha rodas de borracha, 
comeou a rodar sem rudo pelas pedras irregulares do calamento. 
Recostado contra o respaldo de couro do banco, as pernas tranadas, 
Rodrigo fumava, olhando para 
um lado e outro. Ao longo da rua do Comrcio os lampies
166
se enfileiravam num alinhamento duvidoso, e suas luzes amarelentas 
tinham algo de comovedoramente provinciano. Sob as rvores da praa 
caminhavam vultos. Chico Po 
achava-se  porta de sua padaria.
- Boa noite, Chico!
O padeiro avanou at a beira da calada, ergueu os braos e 
gritou:
- Divirta-se! Deus l acompanhe. - E depois, mais alto: - Feliz 
Ano-Novo!
Rodrigo olhou para o alto. O cu estava pesado de estrelas. Andava no 
ar tpido um aroma de madressilvas e jasmins-do-cabo.
Rodrigo comeou a recitar baixinho uns versos de Lamartine que em 
muitas noites ele e outros estudantes, ao voltarem de suas farras, 
haviam atirado contra a face 
fresca e silenciosa da madrugada:
Mais je demande en vain quelques moments encore,
L temps m'chappe et fuit; Je ais  cette nuit: "Sois plus 
lente"; et 1'anrore
V dissiper Ia nuit.
Aimotis donc, aimons, dond de 1'heurc fugitive,
Htons-nous, jouissons! L'homme n'n point de port, l temps n'a 
point de rive:
II coule, et nous passam!
Rodrigo suspirou. Num ponto o poeta se enganava. Cada homem tem, sim, 
seu porto. O dele, Pvodrigo Terra Cambar, era Santa F, onde 
lanara profundamente sua ncora. 
O tempo, certo, no tinha margens, deslizava como um rio e o homem 
passava. Mas quantas coisas grandes e belas podia fazer durante sua 
passagem pela terra!
Estava decidido a conquistar Santa F, a submet-la  sua vontade, 
a mold-la de acordo com seus melhores sonhos. No se deixaria 
dominar por ela. Jamais se entregaria 
ao desnimo e  rotina. Jamais seria um maldizente municipal como o 
Cuca Lopes, um indolente intil como o Chim Mena e muito menos um ca-
167
pacho como o Amintas. No perderia de vista Paris, e no esqueceria 
nunca que o mundo no terminava nos limites do municpio de Santa 
F.
Os cascos dos cavalos produziam no calamento um rudo de 
castanholas. Na rua do Comrcio muitas janelas estavam iluminadas e as 
caladas, cheias de gente. Havia 
no ar uma expectativa titilante de festa.
Sob as estrelas daquela ltima noite do ano de 1909, Rodrigo Cambar 
fez um silencioso juramento. Cumpriria seus propsitos, acontecesse o 
que acontecesse. Sentiu-se 
forte, nobre e bom. Se realizasse todas as belas coisas que projetava, 
sua passagem pela terra no teria sido em vo. E se de algum ponto 
do universo Deus pudesse 
v-lo e ouvi-lo... Mas Deus existia mesmo? Tornou a olhar para o cu 
e, tocado pela tranqila e profunda beleza da noite, concluiu que Deus 
no podia deixar de existir. 
A vida era boa, a vida era bela, a vida tinha um sentido.
Estava comovido, e sua comoo era uma febre que lhe queimava o 
corpo e ao mesmo tempo lhe produzia calafrios. A voz do boleeiro passou 
como uma nuvem sobre o territrio 
de seu devaneio, lanando sobre ele apenas uma tnue sombra.
- Acho que vamos ter uma seca braba este vero.
Rodrigo no respondeu, pois seu pensamento andava longe, embora seus 
olhos estivessem fitos na vela cuja chama oscilava, dentro duma das 
lanternas do carro.
3
O cronista social Da Voz da Serra usava todos os anos da mesma chapa 
para descrever os rveillons de 31 de dezembro. Comeava a crnica 
invariavelmente assim: "Revestiu-se 
do mximo brilhantismo o baile de gala com que o Clube Comercial 
comemorou a entrada do Ano-Novo. Nos seus sales iluminados 
feericamente reuniu-se o que nossa cidade 
tem de mais fino e representativo..."
168
Fundado em fins de 1899, o clube ocupara de incio espaosa casa 
trrea numa das esquinas da praa Ipiranga, e l dava suas festas 
 luz de velas e lampies de querosene. 
Quando, cinco anos mais tarde, inaugurou a sede prpria - edifcio 
assobradado no corao da rua do Comrcio -, os bailes passaram a 
realizar-se  luz de lmpadas 
de acetilene, o que obrigou o cronista a alterar levemente a velha
chapa, por achar decerto que a luz de gs merecia um adjetivo mais 
luminoso, de sorte que, de 
1904 em diante, os sales do Comercial, segundo a crnica Da Voz, 
passaram a estar iluminados a giorno. E embora fosse opinio geral que 
nos dois ou trs ltimos 
anos a diretoria "da nossa mais elegante sociedade" tivesse afrouxado um 
pouco o crivo por onde ordinariamente fazia passar os que se 
candidatavam ao seu quadro 
social, a ponto de ter admitido no seu grmio certos elementos que, no 
dizer de Cuca Lopes, eram sabidamente "gentinha de segunda" - o 
semanrio local continuava 
ainda a afirmar que aqueles rveillons reuniam a nata da sociedade de 
Santa F.
Se algum forasteiro pedisse a um santa-fezense para apontarlhe os 
elementos formadores dessa elite, sem hesitar o filho da terra 
responderia que o creme daquele 
leite social era constitudo pelas famlias dos fazendeiros mais 
abastados do municpio, como os Macedos, os Cambars, os Prates, os 
Quadros, os Fagundes, os Amarais, 
os Teixeiras... Diria mais que, em p de igualdade com esse patriciado 
rural, estavam os comerciantes mais fortes da cidade, como o Marcelino 
Veiga, proprietrio 
da conceituada Casa Sol, etc., etc... Eram esses estancieiros chefes de 
famlias numerosas (o coronel Macedo tinha doze filhos, seis mulheres 
e seis vares), moravam 
em vastas e slidas casas situadas numa das duas praas principais 
da cidade ou na rua do Comrcio. Faziam parte das comisses 
executivas dos partidos polticos 
e, no dizer do Chiru Mena, eram "ouvidos e cheirados" a respeito de 
quase tudo quanto interessasse  vida poltica, econmica ou 
social da comunidade. O prestgio 
de que gozavam repousava no apenas no fato de serem gente de 
dinheiro, senhores de terras, casas e gado, mas tambm no seu 
patrimnio moral e na tradio, pois 
em sua maioria descendiam de antigos moradores do municpio, os quais 
lhes haviam transmitido
169
 uma herana de integridade e amor ao trabalho, e raro era aquele 
que no tivesse um antepassado heri de alguma campanha militar. Os 
Fagundes, os Macedos e 
os Amarais eram federalistas; os Teixeiras, os Prates e os Trindades, 
republicanos. Representava tambm cada um desses chefes de cl uma 
fora poltica considervel, 
uma vez que contava com seu grupo de eleitores certos: amigos, parentes, 
protegidos, pees, agregados e posteiros. Quando se perguntava a um 
caboclo se era maragato 
ou pica-pau, com freqncia se ouvia esta resposta: "Sou gente do 
coronel Fulano".
(J afirmara algum que a vida poltica do Rio Grande do Sul se 
resumia numa dana ritual em torno de dois cadveres: o de Silveira 
Martins e o de Jlio de Castilhos. 
Certo, havia homens ligados a qualquer dos dois grandes partidos 
estaduais por laos ideolgicos; a maioria, porm, se deixava 
levar irracionalmente pelo fascnio 
mgico dum nome ou pela cor dum leno: e por esses mitos era capaz 
de matar ou morrer. Santos mais novos do calendrio cvico, como 
Borges de Medeiros, Assis Brasil 
e Fernando Abbott, comeavam a ter j seus devotos, mas entre os 
polticos gachos vivos, s um existia cuja estatura se podia 
comparar com a dos gigantes mortos: 
o senador Pinheiro Machado.)
Em geral eram os estancieiros de Santa F cidados de poucas ou 
nenhumas letras; tinham, porm, olho vivo para os negcios e uma 
certa sabedoria da vida. Muitos 
deles estavam j mandando ou pensando em mandar os filhos a estudar 
medicina ou direito na capital do Estado. Dizia-se que Joca Prates era 
homem de algumas luzes 
e que em sua casa havia at uma prateleira com livros. Toda a gente na 
cidade sabia que Aderbal Quadros era um pitoresco contador de "causos" e 
que o coronel Pedro 
Teixeira sabia fazer contas de cabea com mais rapidez que muito 
bacharel com lpis e papel na mo. Com a exceo do coronel 
Cacique Fagundes, sabidamente um "unha-de-fome" 
terrvel, esses estancieiros eram generosos sem serem perdulrios, 
viviam uma vida de fartura mas nunca de esbanjamento, e educavam as 
filhas como se elas tivessem 
de um dia ganhar seu sustento com o trabalho das prprias mos. 
Cultivavam nelas as virtudes domsticas, obrigavam-nas a aprender a 
cozinhar, costurar, fazer renda, 
po, doces, queijos e a cuidar de
170
crianas. O cronista Da Voz costumava falar nas "deslumbrantes e 
custosas jias" das damas que abrilhantavam com a sua presena o 
rveillon do Comercial. Isso, 
porm, era pura flor de retrica, porque as mulheres pobres do lugar 
no tinham dinheiro para comprar jias e as ricas - com rarssimas 
e clamorosas excees - apresentavam-se 
desataviadas delas, visto como eram educadas espartanamente.
Quando na cidade, alguns dos mencionados fazendeiros tinham o hbito 
de freqentar o clube  noite. Ficavam ali a pitar e a conversar 
sobre negcios ou poltica; 
muitos sentavam-se s mesas cobertas de pano verde e se entregavam a 
um joguinho barato: voltarete, escova ou solo; alguns venciam at a 
desconfiana que certos 
jogos estrangeiros lhes inspiravam e comeavam j a gostar do 
pquer. O bolo, jogo que o clube inaugurara havia pouco, atraa 
principalmente os raros scios de 
origem alem, que a ele se entregavam com muito barulho e muita 
cerveja. E freqentes vezes, ouvindo o rolar surdo das bolas de 
madeira no poro do edifcio, seguido 
do claro pipocar dos paus que tombavam, algum dos scios do Comercial 
que jogavam cartas no andar superior resmungava: "Essa alemoada merecia 
que a gente descesse 
e tirasse eles l de baixo a rebenque!"
Nenhum desses membros do patriciado rural se interessara ainda pelos 
bilhares, de sorte que estes ficavam entregues a seus filhos e 
principalmente aos caixeiros 
e funcionrios pblicos.
O comrcio local queixava-se ( socapa, para no ferir 
suscetibilidades) de que os estancieiros s pagavam suas contas uma 
vez por ano, por ocasio da safra. O Marcelino 
Veiga dissera certo dia a um caixeiro viajante amigo: "Veja que 
negcio, seu compadre! Compro a cento e vinte dias de prazo e vendo a 
trezentos e sessenta e cinco. 
E sem juros, note bem, sem juros!" Fosse como fosse, a verdade era que 
todos os comerciantes do lugar disputavam a freguesia daquelas 
famlias abastadas.
Logo abaixo dessa gorda camada de nata do leite social santa-fezense, 
havia outra, um pouco mais fina, integrada por pessoas que, embora no 
possussem fortunas 
particulares nem tradies,
171
gozavam da importncia do cargo que ocupavam ou de algum ttulo que 
possuam. Assim, quase no mesmo nvel dos ricos estancieiros, se 
encontravam o juiz de comarca, 
o juiz distrital, o promotor pblico, os oficiais da guarnio 
federal, alguns altos funcionrios e a maioria dos mdicos e 
advogados.
Vinha a seguir a terceira camada - nata ainda mais magra que a 
precedente - formada pelos estancieiros e comerciantes de menor 
importncia econmica e por gente 
que, embora possusse tradies de famlia, havia j perdido 
sua fortuna ou nunca a tinha conquistado.
O resto - o leite propriamente dito - eram os funcionrios pblicos, 
sempre muito mal pagos, uma srie de pessoas de profisso incerta, e 
principalmente uma legio 
de empregados do comrcio.
O cronista d'A Voz nunca esquecia de mencionar "as famlias 
tradicionais de nossa comuna". O Zago da Farmcia Humanidade, com seu 
humor cido de maldizente, costumava 
insinuar que a rvore genealgica de muitas daquelas "ilustres 
famlias" tinha razes no cho da cozinha ou da senzala. Claro, 
isso era um exagero caricatural, pois 
embora se notasse na face de um que outro scio do clube 
caractersticos negrides, pele dum moreno excessivamente carregado, 
nariz achatado, lbios arroxeados ou 
cabelos dum crespo suspeito - nas veias da maioria dos freqentadores 
do Comercial o que corria era muito bom sangue portugus, em muitos 
casos - fora era reconhecer 
- j temperado de sangue indgena, fato de que alis muitos 
daqueles homens se orgulhavam. Explicava-se assim a abundncia do tipo 
acaboclado, de pele trigueira, 
zigomas salientes, olhos pequenos e meio oblquos, cabelos negros, 
grossos e corridos e principalmente dum tipo de mulher pela qual Rodrigo 
Cambar nunca se sentira 
muito atrado: a chinoca de buo forte, seios fartos e pernas 
curtas, com uma tendncia alarmante para a gordura. Eram desse 
padro as cinco filhas de Cacique Fagundes,
172
o qual se gabava de ser descendente direto do famoso chefe bugre Fongue.
Mas que havia tradio na maioria daquelas famlias que formavam, 
no dizer do Zago, a Aristocracia do boi" - isso era inegvel. Os 
Amarais descendiam do fundador 
de Santa F, um tal Ricardo Amaral, estancieiro e cabo-de-guerra, neto 
de portugueses do Minho, e nascido no antigo municpio de Curitiba. Em 
sua maioria, as principais 
famlias santa-fezenses tinham seus troncos plantados no solo de 
Sorocaba, pois muitos dos tropeiros sorocabanos que por volta de 1820 
tinham vindo ao Rio Grande 
comprar mulas, para revend-las na feira de sua terra natal, 
tomaram-se de amores por Santa F e ali se estabeleceram 
definitivamente.
Quem olhasse para o rosto claro e oval de Ritinha Prates e 
principalmente para seus olhos, que eram dum azul de cu noturno, 
veria logo que em suas veias no corria 
a menor gota de sangue africano ou indgena. Seu pai, o estancieiro 
Joca Prates, mandara "tirar" sua rvore genealgica por um estudioso 
de histria, e descobrira 
com a mais absoluta certeza ser descendente dos primeiros casais 
aorianos que, em meados do sculo XVIII, tinham vindo para o Rio 
Grande do Sul; e por correspondncia 
trocada com pessoa idnea residente nos Aores, viera a descobrir 
ainda que seus antepassados mais remotos eram os Plantz, famlia 
flamenga que se instalara na ilha 
Terceira, em fins do sculo XV, e que tivera seu nome aportuguesado e 
transformado em Prates.
Quanto  nobreza propriamente dita, havia na cidade dois descendentes 
dum nobre do imprio, o baro de So Martinho. Eram Terzio 
Matos, um agiota, e sua filha nica, 
Mariquinhas. Tinham a casa cheia de retratos a leo de ancestrais 
ilustres e a baixela de prata que pertencera ao falecido baro, e que 
lhes coubera por herana, 
constitua uma das sete maravilhas de Santa F.
Os ttulos de nobreza, porm, pareciam no impressionar muito 
aquelas gentes. J se afirmara num artigo DA Voz que "nossa Santa 
F  uma cidade verdadeiramente 
democrtica, pois aqui no existem preconceitos de raa, de classe 
ou de dinheiro; o que vale para ns  a qualidade pessoal do 
indivduo".
173

Ser mesmo? - perguntava muitas vezes Rodrigo Cambar a si mesmo. Um 
dia chegara a discutir o assunto com o juiz de comarca, o dr. 
Eurpides Gonzaga. Que tipo de 
preconceito regia a sociedade de Santa F? Seriam preconceitos de 
raa? O juiz sacudira a cabea negativamente. No. Ali nunca se 
perguntara a ningum pelos avs, 
se tinham sido negros, pardos ou brancos. Rodrigo, porm, retrucara:
- Mas um negro, doutor, jamais seria admitido como scio deste clube!
- Isso  verdade. Mas o Comercial nunca deixou de aceitar um homem 
decente s porque tivesse a pele um pouco escura.
Rodrigo encolhera os ombros.
- Talvez haja um preconceito social, regulado pela posio 
econmica de cada indivduo, pela sua profisso, pela maneira como 
ele se porta e anda vestido. Mas que 
h um preconceito, isso h.
O juiz ficara a olhar reflexivamente para a ponta de seus sapatos de 
verniz, com uma expresso de perplexidade no rosto.
- Talvez - murmurara - talvez, mas no creio.
- O senhor no negar - tornara Rodrigo - que existem profisses 
que, do ponto de vista desta sociedade, so consideradas baixas: 
sapateiros, ferreiros, funileiros, 
seleiros, alfaiates e muitas outras... enfim, gente que faz trabalho 
manual, o senhor sabe...
- Mas acontece - observara o dr. Gonzaga - que as pessoas que exercem 
tais profisses no se acham em condies econmicas de entrar 
para o Comercial. No poderiam 
pagar a jia e a mensalidade e nem teriam roupas adequadas para 
freqentar seus sales.
- A est! A diferena ento  mesmo de nvel econmico. 
Conhece o caso do Arrigo Cervi?
O juiz sacudiu negativamente a cabea grisalha. Rodrigo contara:
- Pois o Cervi  filho de imigrantes italianos de Garibaldina. Quando 
fez vinte e um anos, abandonou a colnia, por no gostar da 
agricultura, e veio estabelecer-se 
na cidade com banca de sapateiro. Pois bem. Em 1905 quis entrar como 
scio para este clube e foi recusado. A razo? Muito clara: o homem 
era um simples
remendo. De nada lhe servia ser um sujeito honesto que batia sola de 
sol a sol. O ano passado o Cervi tornou a propor-se e foi aceito. O juiz 
erguera a cabea, 
dizendo:
- Perfeitamente. Fez-se justia, embora um pouco tarde...
- Qual justia, doutor!  que em 1905 o Cervi j era 
proprietrio duma casa de calados, situada na rua do Comrcio. 
Deixou de ser remendo para ser comerciante, 
passou a vestir-se melhor, subiu de categoria social.
- Honra ao mrito!
- No entanto no creio que o homem tenha melhorado ou piorado de 
carter...
O magistrado sorrira com benevolncia:
- O senhor  moo, mas um dia h de aprender que todas as 
sociedades so regidas por preconceitos e normas milenares, e que ir 
contra eles  o mesmo que dar murro 
em ponta de faca.
- Ah! - fizera Rodrigo, como se de repente se lembrasse dum novo 
elemento para reforar seu argumento. - Hoje o Arrigo Cervi est 
aqui dentro do clube, mas a gente 
nota claramente que ele  apenas tolerado. O mesmo acontece com todos 
os outros descendentes de imigrantes tanto italianos como alemes. 
So olhados de cima para 
baixo pela aristocracia local.
- Da qual o meu pre?ado amigo tambm faz parte...
- Para mim todos os homens so iguais.
Naqueles tempos Rodrigo andava com a cabea cheia de Chateaubriand, 
Rousseau, Voltaire, Renan e L Bon, leituras que alternava 
confusamente com serenatas e excurses 
pelos bordis. Escrevera ento alguns artigos sobre a igualdade e a 
fraternidade, chegando a fazer um discurso inflamado e quase 
revolucionrio na Unio Operria 
local.
E agora, naquele 31 de dezembro de 1909, ao entrar nos sales 
iluminados do Comercial, Rodrigo ainda no via claro no colorido 
conglomerado humano. Tinha, porm, 
a intuio de que havia ali vrias camadas que no se 
misturavam. Aquelas pessoas no se encontravam num continente; eram, 
antes, moradores dum arquiplago. L estava 
a importante ilha dos estancieiros, comerciantes e pessoas gradas" da 
localidade. Havia as pequenas ilhas, de escassa
174
175
populao, dos descendentes de imigrantes e finalmente a grande, 
populosa, pululante ilha dos funcionrios pblicos e empregadinhos 
do comrcio. Certo, os habitantes 
duma ilha s vezes se aventuravam em excurses pelas outras ilhas 
vizinhas, mas mesmo essas viagens ocasionais obedeciam a certas regras. 
As filhas dos estancieiros 
e dos comerciantes danavam geralmente com os filhos dos estancieiros 
e dos comerciantes; moos, porm, como o promotor pblico e o dr. 
Amintas, que eram solteiros, 
bem como os oficiais da guarnio federal tambm danavam com as 
Fagundes, as Prates, as Teixeiras, as Macedos, e as Amarais. Um dia, 
entretanto, o Lel Pontes, 
caixeiro da Casa Sol, teve a ousadia de convidar para danar a filha 
mais moa de Cacique Fagundes; ora a rapariga, que era bem-educada, 
no recusou, mas fechou 
a cara, no trocou uma palavra com o rapaz e mal parou a msica, foi 
sentar-se na sua cadeira e passou emburrada o resto da noite. Os 
caixeiros, porm, encontravam 
seus pares e escolhiam eventualmente suas namoradas e esposas entre as 
moas pobres, filhas de pequenos comerciantes ou funcionrios.
Os que gozavam de maiores regalias eram os rapazes das famlias ricas. 
Esses iam e vinham entre todas as ilhas, danavam com as "alemoas", 
com as "gringas" ou com 
as moas pobres, para delcia e inquietao das mams destas 
ltimas. Quando, por exemplo, um jovem Fagundes, Teixeira, Amaral ou 
Prates danava de "par efetivo" 
com uma mocinha modesta, os "filhos da Candinha" achavam que aquilo era 
namoro, garantiam que de tal namoro no podia sair casamento e, por 
conseguinte, o rapaz 
"estava desfrutando a moa".
Ningum representava melhor o cdigo social no escrito de Santa 
F do que dona Emerenciana, esposa do coronel Alvarino Amaral. Era ela 
a personificao mesma da 
Opinio Pblica, espcie de monumento municipal, pessoa muito 
acatada, respeitada e admirada, no s por ser uma Amaral e rica, 
como tambm por "suas virtudes de 
dama romana", como dissera, em discurso recente, o promotor pblico. 
Baixa, muito gorda e cinqiientona, com um buo grosso que era quase um 
bigode, o nariz achatado 
e cheio de protuberncias, a lembrar na cor e na forma uma batata com 
casca,
176
Emerenciana Amaral reinava no casaro da famlia, ali na praa da 
Matriz, comandando uma famlia de quatro filhas, trs filhos e cinco 
netos.  tardinha ia sempre 
debruar-se  sua janela para olhar o movimento da praa, e muitas 
pessoas tinham como hbito, e algumas at como devoo, parar 
sob essa janela para conversar
com a matrona.
Quando ia a festas ou bailes, ficava ela na sua cadeira, a respirar com 
dificuldade - pois a gordura lhe dava palpitaes e sufocaes - 
mas de olho atento a tudo 
quanto se passava em derredor. De vez em quando fazia comentrios 
cochichados ao ouvido das pessoas sentadas a seu lado, e jamais perdia 
de vista as filhas e os 
filhos.
Para Emerenciana Amaral as moas dividiam-se em duas grandes 
categorias: as srias e as desfrutveis. As srias portavam-se com 
recato, no riam alto, no permitiam 
liberdades, no eram janeleiras e no danavam com quem no 
tivessem sido apresentadas. As desfrutveis, essas se requebravam 
quando caminhavam ou bailavam, falavam 
alto, riam para qualquer um, namoravam o primeiro que aparecesse, 
principalmente se era forasteiro. De seu posto, dona Emerenciana 
fiscalizava os namoros do salo, 
contava o nmero de "marcas" que cada rapaz danava com a mesma 
moa. "Olhe, dona Zeferina, o Vadico j danou cinco marcas 
seguidas com a Mariquinhas Matos. Isso 
no est me cheirando bem." Ante os noivados crnicos, tinha 
sempre a mesma pergunta, que formulava sem a menor malcia: "Ento, 
quando  que vo nos dar os doces?"
Nos bailes do Comercial apareciam com frequncia caixeiros viajantes, 
que gozavam entre as moas da terra de grande popularidade, por serem 
pessoas alegres, bem 
trajadas e bem-falantes, sempre com uma boa histria ou uma piada 
espirituosa na ponta da lngua. Sabiam animar uma festa e no havia 
ningum como eles para organizar 
quadrilhas e jogos de salo. A popularidade desses cometas" deixava um 
pouco enciumados os moos do lugar, a avor dos quais se erguia dona 
Emerenciana: "Imagine, 
a idia da Ritinha Prates! Deixar de namorar o filho do Teixeira s 
pra se desfrutar com esse caixeiro viajante que ningum sabe donde 
veio". Para a esposa de Alvarino 
Amaral, era muito importante saber a
177
origem duma pessoa, pois haveria quem no soubesse que filho de 
tigre sai pintado e filho de peixe sabe nadar? Dona Emerenciana sabia 
muito bem que os caixeiros-viajantes 
preferiam danar com as "desfrutveis"; divertiam-se com as 
sirigaitas e depois saam a gabar-se para Deus e todo mundo do que 
tinham feito com elas. Eram uns descarados, 
tinham uma namorada em cada cidade. Pobre da moa que se deixasse 
levar pela lbia desses doidivanas! (Por influncia de suas leituras 
dos folhetins do Correio do 
Povo, dona Emerenciana usava termos como doidivanas, tresloucado, 
adrede...) Olhava tambm com certa desconfiana para os aspirantes e 
tenentes da guarnio federal. 
Eram moos de cidade grande: o que queriam era desfrutar nossas filhas 
para depois sarem a fazer troa delas... Acontecia tambm que o 
Exrcito no gozava de boa 
reputao, e o nome pejorativo de "baiano", que se dava aos soldados 
- gente indisciplinada e barulhenta, que conflagrava constantemente o 
Barro Preto - tendia a 
estender-se tambm  oficialidade.
Assim, aqueles rveillon do Clube Comercial transcorriam sob o olhar 
vigilante de matronas como Emerenciana Amaral. Danava-se nas ilhas - 
ilhu com ilhoa - e os 
filhos dos estancieiros, bem como os oficiais do Exrcito, os 
caixeiros-viajantes e outros forasteiros de igual categoria social, 
tinham passe livre em todo o arquiplago: 
danavam ora com uma Prates de vestido de seda e rendo, cheirando a 
essncias estrangeiras, ora com mocinhas mais modestas, que traziam o 
mesmo vestido do rveillondo 
ano passado, e que usavam leo de mocot no cabelo. E nem o ritmo 
sacudido das valsas, das mazurcas, polcas e havaneiras conseguia fazer 
que a nata se misturasse 
completamente com o leite.
Fora, nas caladas e no meio da rua,  frente do edifcio do 
clube, aglomeravam-se grupos. Era o "pessoal do sereno", os que espiavam 
a festa, os que no tinham 
ido ao baile porque estavam de luto, no possuam trajos de gala ou 
no eram scios do Comercial.
178

Eram dez e quinze quando a banda de msica do regimento de infantaria, 
que atestava o coreto do salo de festas, rompeu a tocar os primeiros 
acordes da marcha de 
La geisha. Era o sinal de que a polonaise ia iniciar-se. Rodrigo teve a 
impresso de que o teto corria o risco de ir pelos ares e de que as 
paredes estavam prestes 
a ruir sob a presso daqueles sons explosivos. E a msica, para ele 
evocativa de noitadas de opereta, tambm parecia fazer-lhe uma 
presso terrvel no peito, no 
de fora para dentro, mas de dentro para fora, na forma dum entusiasmo 
trepidante. Dir-se-ia que as ondas sonoras o erguiam em suas cristas 
iridescentes, deixando-o 
a boiar estonteado naquele mar revolto. De sbito, estrondou o bombo e 
a msica parou. O sinal estava dado.
O coronel Cacique Fagundes, o presidente do Comercial cujo mandato 
terminaria naquela noite ao entrar o Ano-Novo, postou-se no meio do 
salo, bateu palmas e exclamou:
- Tirem seus pares pra quadrilha, moada!
Baixo, ventrudo, torso rolio apertado numa sobrecasaca preta, as 
coxas gordas modeladas pelas calas a fantasia, a papada a derramar-se 
sobre as bordas do colarinho 
duro, tinha o coronel da Guarda Nacional um rosto largo e bronzeado de 
bugre.
- Vamos, rapaziada! - insistia ele. - Est na hora da ona beber 
gua! Cada um com sua cada uma!
Os cavalheiros puseram-se a escolher os pares, e naquela sala de cho 
esbranquiado de espermacete - cujo cheiro Rodrigo desde adolescente 
associava ao de carne limpa de mulher jovem em
179
noite de baile - comeou um animado e festivo vaivm. Nos rostos 
das moas que, juntamente com suas mams e titias, estavam sentadas 
nas cadeiras que perlongavam 
as quatro paredes do salo, notava-se um ar de expectativa quase 
nervosa, que se traa por movimentos bruscos de cabea, pela maneira 
frentica com que abanavam 
os leques, alisavam os vestidos, lambiam os lbios ou trocavam 
segredinhos.
Cacique Fagundes aproximou-se do coronel Jairo Bittencourt - que naquele 
exato momento apresentava a Rodrigo sua esposa, uma senhora alta, muito 
alva e magra, metida 
num vestido de rendo negro, com uma aigrette cor-de-rosa na cabea 
- e, tomando-lhe afetuosamente o brao, pediu:
- Marque a polonaise pra ns, coronel.
- Ah, no! - escusou-se o militar. - O presidente do clube  a 
pessoa mais indicada para isso...
- Qual nada! Sou um guasca velho. Sei marcar mas  gado. Vosmec  
homem de cidade grande, conhece todas essas danas da moda. Sou ainda 
do tempo dos lanceiros.
O oficial relutava. Achava que quem estava em condies de fazer 
aquilo era o dr. Rodrigo...
- Ora, coronel - replicou este ltimo - por quem ! Aqui quem est 
mais afeito a comandar homens  o senhor mesmo...
Enquanto os trs discutiam, no meio do alegre zunzum de vozes, a 
esposa do comandante passeava em torno o olhar enfastiado, que parecia 
acentuar-lhe a palidez enfermia 
do rosto. Rodrigo ouvira dizer que Carmem Bittencourt morria de saudades 
do Rio, detestava Santa F e recusava relaes com as damas da 
terra.
O coronel Jairo finalmente capitulou: marcaria a polonaise.
Com sua cabeleira ruiva, o rosto sangneo, os olhos azuis, 
enfarpelado no uniforme de gala: tnica dum cinzento carregado, com 
dragonas e botes dourados, cala 
vermelha de garana - parecia o comandante do regimento de infantaria 
uma figura sada dum cartaz impresso em rica tricromia, com tinta 
ainda fresca.
Rodrigo procurava Flora Quadros com o olhar. Avistando-a nas 
imediaes do toilette das senhoras, sentada ao lado da me, 
encaminhou-se para ela. Mau grado seu, 
ia meio perturbado, 
180
demasiado consciente do fato de estar sendo alvo de muitas atenes: 
l vai o moo do Sobrado, o bom partido... quero s ver quem  
que ele vai tirar pra quadrilha...
Flora parecia ter percebido que ele vinha a seu encontro, pois desviara 
os olhos para um lado, enquanto seus dedos brincavam nervosos com o 
leque pousado no regao. 
Rodrigo dirigiu-se primeiro  me:
- Como est a senhora, dona Laurentina?
A esposa de Aderbal Quadros estendeu-lhe a mo, e seu rosto de imagem 
de pau continuou impassvel. Quando falou, havia em sua voz apenas um 
tom de frio e cerimonioso 
interesse:
- Como vai o senhor? Chegou bem de viagem? Como esto todos no 
Sobrado?
Sem responder quelas perguntas retricas, Rodrigo voltou-se para 
Flora:
- Senhorita, como tem passado? A moa estendeu-lhe a mo.
- Muito bem, obrigada - respondeu, ao mesmo tempo que retirava 
rapidamente a mo que ele apertava com fora.
Rodrigo sentiu que, se no dissesse mais nada, nenhuma daquelas 
criaturas tornaria a falar e os trs se quedariam ali num silncio 
embaraoso.
- Ainda no vi o coronel Aderbal...
- O papai no veio ao baile - disse Flora. - No gosta muito de 
festa...
Rodrigo imaginou o drama: Babalo em casa, sozinho, numa sala escura, a 
pensar nos negcios embrulhados, na falncia que se aproximava 
inexoravelmente. Com toda a 
certeza no contara nada  mulher, nem  filha, para no 
alarm-las. E agora, enquanto ambas ali estavam em plena festa, 
ignorantes de tudo, o pobre homem debatia-se 
em sua solido angustiante, num problema de conscincia... Sim, 
talvez estourasse os miolos com um tiro ao soarem as primeiras badaladas 
da meia-noite. E quando 
Flora e a me entrassem em casa, de volta do baile...
- A senhorita quer dar-me a honra de danar comigo a polonaise?
181
Flora sorriu e, com as orelhas e as faces afogueadas, ergueu-se, 
alisando o vestido branco, de feitio singelo, e a faixa azul que lhe 
circundava a cintura e cujas 
pontas lhe pendiam dum lado, numa laada. Seus olhos, dum 
castanho-escuro, evitavam os de Rodrigo.
 bonita - pensava ele. - Muito mais bonita do que a imagem dela que 
eu guardava na memria... No sei que tem essa carinha que tanto me 
atrai. No so apenas as 
feies, mas tambm um certo ar de inocncia, de dignidade sem 
afetao... Dentes perfeitos. O porte no podia ser mais bem 
proporcionado: cintura fina, ancas estreitas... 
No  peituda como as Fagundes. No tem buo. Pobrezinha, a esta 
hora o pai decerto est morto e ela no sabe... Proteg-la, sim, 
faz-la feliz, dar-lhe tudo que 
tenho: meu amor, meu nome, o Sobrado, o Angico, tudo...
De braos dados e em silncio, ambos caminharam para o centro do 
salo, onde outros pares j se achavam reunidos.
Imponente no seu fraque, com uma rosa branca na botoeira, Chiru Mena 
procurava pr ordem no caos, gritando:
- Vamos! Todos nos seus lugares. O coronel Jairo vai marcar a polonaise. 
Depressa, moada, fiquem nas posies!
Agitava os braos, suava, tirava do bolso o vasto leno de seda 
vermelha - smbolo de seu partido - e passava-o num largo gesto pelo 
rosto e pelo pescoo.
Rodrigo voltou a cabea para Flora e murmurou:
- Est animado o baile, no?
Que coisa estpida! Uma frase digna de qualquer daqueles caixeirinhos 
que ali estavam nas suas roupas pretas domingueiras, os pescoos 
entalados em colarinhos duros, 
as botinas muito bem lustradas.
- Como? - perguntou Flora.
Rodrigo repetiu a frase, achando-a ainda mais abominvel. Ele, o dr. 
Rodrigo Cambar, leitor de Taine e Renan, a repetir uma platitude que 
naquele mesmo momento 
decerto vinte guardalivros estavam a dizer a suas damas!
- Muito... - respondeu ela.
Por que ser que essa menina no me olha? Por que est to
sestrosar
182
No momento em que os pares ficaram a postos, numa fileira dupla, com o 
coronel Jairo e a esposa  frente, a banda atacou novamente a marcha 
de La geisha.
- En avant! - gritou o comandante.
A polonaise comeou. Os pares fizeram duas voltas no salo, 
arrastando os ps ao compasso da msica. O vulto de Chiru 
sobressaa dos demais, gingando, quase aos 
pulos, e seu rosto resplandecia de suor e contentamento. Rodrigo 
segurava delicadamente os dedos de Flora, mirava-a de soslaio, via-lhe o 
perfil sereno, os lbios 
entreabertos... Uri point rose tju'on met sur l'i du verbe aimer. Ah 
Cyranol Voil ta Roxane, et toti patiache, mon panache, mcm pannche... 
Passaram-lhe pela mente 
coloridas geishas e samurais a danar num palco, agitando no ar 
lanternas acesas...
Rodrigo marchava na ponta dos ps, a cabea alada. Havia tomado 
trs clices de conhaque antes de entrar no salo. Sentia um 
estonteamento agradvel, numa leveza 
area e irresponsvel de balo.
De narinas palpitantes farejava o ar, procurando, com um gosto 
discriminador e sensual, identificar os componentes daquele pot-pourri 
de perfumes que pervagava o 
salo. L estavam o Rose de France, o Fieur de Janet, o Fleur 
d'Amour, o Quelques Fleurs, de mistura com essncias menos nobres. 
Sim, porque existia tambm entre 
os extratos uma ntida hierarquia. Os Macedos, os Amarais, os Veigas, 
os Teixeiras e outras famlias de estancieiros e comerciantes 
prsperos preferiam os produtos 
de Houbigant. As gentes remediadas favoreciam os de Deletrez, Pinaud e 
Pivert. Os caixeirinhos, suas namoradas, noivas e esposas cheiravam a 
gua de Hrida, a essncia 
de rosas e vaselina perfumada. Que contraste havia, por exemplo, entre o 
sugestivo L'CEeillet du Ri, que envolvia cahdamente a pessoa de 
Ritinha Prates, e a fria 
e assexuada fragrncia de Patchouli, que se evolava do leno de dona 
Laurentina Quadros! Mas o que deixava Rodrigo mais excitado era aquela 
emanao dos corpos das 
mulheres, o odor quente e humano do primeiro suor depois do banho.
Balancez! Rodrigo enlaou a cintura de Flora e comeou a rodopiar. 
E, como se estivesse montado no cavalo-de-pau dum 
183
carrossel, viu uma sucesso vertiginosa de imagens: as faces das 
mulheres sentadas, os vultos dos outros pares que danavam, de 
azul-ferrete e vermelho - o uniforme 
dos oficiais do Exrcito, o ousado vestido chaudron de Esmeralda e 
mais rabos de fraques e croiss, leques, plumas, o claro das chamas 
de gs nos lustres de vidrilho, 
as caras dos msicos no coreto, as bocas dos pistes e trombones, 
como sis de ouro a dardejar para o salo uma msica vibrante, que 
parecia aumentar ainda mais 
o calor do ambiente.
Rodrigo sentia o suor escorrer-lhe pelo peito e pelas costas. 
no vinha de fora nem a menor virao.
Jairo Bittencourt continuava a dar suas ordens de comando. Agora damas e 
cavalheiros se haviam separado e faziam a volta do salo em duas filas 
simples. Finalmente 
tornaram a unir-se para um novo balancez.
Houve um instante em que o olhar de Rodrigo encontrou o de Flora, e ele 
ousou apertar-lhe os dedos com mais fora.
Em seus pensamentos passou, muito concorrido, o enterro do pobre Aderbal 
Quadros, que por sinal nem entrou na igreja, pois, como  sabido, os 
padres nunca encomendam 
a alma dos suicidas. Que horror! Um quarto na casa do morto: Flora toda 
de preto, os olhos vermelhos de tanto chorar. Dona Laurentina tambm 
de luto, o leno tarjado 
recendendo a Patchouli. Pobre gente! Mas no, Flora agora sorri, toda 
vestida de branco, com uma grinalda de flores de laranjeira na cabea, 
um longo vu... Vem 
saindo da igreja pelo brao do noivo. Um casamento! E a voz de 
Laurinda termina a histria da carochinha: "E casaram-se, tiveram 
muitos filhos e foram muito felizes". 
Conta outra, Laurinda!
Filhos! Rodrigo olhou enviesado para a cintura de Flora. Sim, era uma 
pena, aquela cinturinha ia engrossar, aquele ventre intumescer; e 
aqueles seios ficariam regurgitantes 
de leite, e a boquinha dum beb viria pr o ponto rosado no bico dos 
seios adorados. Mais vous tes embtant, mon cher doctenr. Oui, 
Mlanie, jc crois que je suis 
compltement ivre.
- Chemin de feri - gritou o coronel Jairo. E houve uma alegre contuso 
e risadas, enquanto os pares procuravam fazer a figura indicada.
184
Veio mais uma ordem de balancez e Rodrigo vislumbrou o rosto de Ritinha 
Prates, cujos olhos azuis, ao fitarem por um instante os seus, lhe deram 
uma curiosa e agradvel 
sensao de refrigrio, como se ele tivesse mergulhado 
inesperadamente numa sanga. Mundo errado! Mundo errado! Mundo errado! 
Por que  que um homem tem de se casar 
s com uma mulher?
Ouviu-se uma pancada de bombo e a polonaise terminou. Estrugiram palmas. 
De braos dados, damas e cavalheiros comearam a andar em passos 
lentos ao redor do salo, 
conversando animadamente.
Rodrigo avistou dois jovens oficiais em fardamento de gala, inclinou a 
cabea para Flora e perguntou:
- Quem so aqueles militares?
- O mais alto - respondeu ela -  o tenente Rubim Veloso, da 
artilharia. O mais baixo  o tenente Lucas Arajo, dos obuseiros.
Rodrigo olhava para os oficiais com uma certa m vontade. No pde 
evitar um sentimento de cime com relao queles dois 
forasteiros, nos quais pressentia concorrentes 
em estado potencial. Um deles, o mais baixo, levava pelo brao Ritinha 
Prates; o outro caminhava ao lado de Esmeralda Dias, encurvado sobre 
ela, a dizer-lhe algo 
que devia ser muito engraado, pois a moa no cessava de rir.
- So seus conhecidos?
- So, sim - respondeu Flora. E acrescentou: - O tenente Lucas  
impagvel!
Rodrigo no gostou do entusiasmo com que Flora lhe disse estas 
ltimas palavras.
Naquele instante a banda rompeu a tocar uma valsa: Sobre as Ondas. O 
primeiro que comeou a danar foi o Chiru. Outros pares o seguiram.
185
O baile ainda no se animara verdadeiramente. Predominava uma certa 
atmosfera de cerimnia muito comum s primeiras horas dos 
rveillons. Dir-se-ia que toda aquela 
gente estava como que inibida pelos trajos de gala e pea solenidade 
da festa. Na maioria das faces estampava-se uma expresso de seriedade 
ou constrangimento, e 
eram baldados os esforos que fazia Chiru para estimular os convivas 
com seus passos exageradamente balanceados, seus rodopios, seus sorrisos 
e seus gritos de "Vamos, 
moada! Fogo na canjica!" Todos porm sabiam que  medida que se 
aproximasse a meia-noite, a "coisa iria esquentando" para finalmente se 
transformar num pandemnio.
Rodrigo enlaou a cintura de Flora e comeou tambm a valsar. Os 
cabelos de seu par recendiam suavemente a jasmim-do-cabo. Mulher  uma 
coisa extraoidinria - pensou 
ele. Que seria do mundo se no houvesse mulheres? So a obra-prima 
da Criao - concluiu, esforando-se por no pensar em todas as 
mulheres feias que ali se encontravam. 
E por um irnico acaso, naquele minuto mesmo enxergou Emerenciana 
Amaral, que, como a rainha-me no trono, se achava sentada numa 
poltrona, posta ali especialmente 
para ela. Seus lbios, sob o buo cerrado, estavam fixos numa 
expresso de amuo. Ela se abanava, batendo com o leque naqueles seios 
que haviam amamentado doze filhos, 
dos quais sete estavam vivos e a danar no Comercial.
Valsando com entusiasmo, consciente sempre da sensao agradvel 
que lhe proporcionava o contato da mo de Flora e a proximidade de seu 
corpo - embora houvesse entre 
ambos a respeitosa distncia de um bom palmo -, Rodrigo via em relance 
as faces das outras mulheres: as caboclas do Fagundes, de buos suados 
e peitos ofegantes; 
a cara viva da Esmeralda, que pulava nos braos do tenente de 
artilharia; o sorriso enigmtico da Gioconda... E de repente, num doce 
choque, deu outra vez com o 
rosto mimoso de Rita Prates. Upa! Como Ritinha havia melhorado naquele 
ltimo ano, estava mais mulher... E quem ser aquela moa 
alta e vistosa com um diadema 
na cabea? Quem est certo - refletiu Rodrigo em tempo de valsa - 
so os mrmons... Grande seita! Grande gente! Claro, podia namorar 
muitas. Mas, se quisesse levar
186
a srio o namoro com Flora, teria de portar-se direito. De resto, 
precisava melhorar sua reputao perante as mams de Santa F. A 
notcia de suas proezas nos bordis 
correra mundo, e decerto a cidade no esquecera ainda que, fazia uns 
cinco anos (oh, nesse tempo Flora era uma menininha de tranas 
vestidinho curto!), ele e Neco 
haviam provocado uma briga na Penso Veneza. Havia ainda outros casos 
escabrosos. Muitos outros - pensava Rodrigo, rodopiando com seu par numa 
velocidade cada vez 
maior - e outros. Um estrina! Um libertino! Mas um bom partido, mil 
vezes melhor que qualquer daqueles rapazes que ali danavam... 
Fsica e intelectualmente! Apesar 
de todas as minhas loucuras, aposto como essas mams so capazes de 
me agarrar com ambas as mos para genro! Ah! se so!
Rodrigo apertou a mo de Flora, mas no sentiu nenhuma 
correspondncia nos dedos dela, que continuaram frouxos, frescos e 
levemente midos. Pensou em dizer-lhe um 
galanteio. No era, porm, de bom-tom falar com o par durante a 
dana.
Um estrondo de bombo e um tinir de pratos ps fim  valsa. Os pares 
estacaram, e os cavalheiros puseram-se a enxugar o suor dos rostos com 
os lenos, enquanto as 
damas se abanavam com os leques. E a ronda do salo recomeou.
Rodrigo olhou para Flora e compreendeu que a timidez a deixava muda. Que 
devia dizer-lhe? Falar em coisas fteis - o baile, o tempo, o cometa 
de Halley? Ou conduzir 
a conversa para o rumo do amor? Viu que ela erguia a cabea e sorria. 
Para quem? Seguiu-lhe a direo do olhar e verificou que o sorriso 
era endereado ao tenente 
Lucas, o qual, do outro lado do salo, lhe fazia caretas e sinais com 
as mos. Decerto so namorados - concluiu. E naquele momento odiou o 
tenente de obuseiros. 
Que tolice a sua, imaginar que Flora pudesse ter passado todo o ano fiel 
a ele, s porque haviam tido um namorico de frias! Estava ferido em 
seu amor-prprio e 
tomado dum desejo de humilhar a moa ou de ao menos faz-la sentir 
sua indiferena.
- Danaremos mais uma vez - disse com secura - e depois eu a deixarei, 
pois no quero que seu namorado se zangue...
- No tenho namorado - replicou ela sem o encarar.
187
- Est certa disso?
- Estou.
- Como  possvel que a moa mais bonita de Santa F no tenha 
dzias e dzias de admiradores?
- O senhor est fazendo troa de mim.
- Troa? Mas nem diga isso! Estou falando com toda a sinceridade. 
Creia que sou o maior de seus admiradores.
- No acredito.
Havia um tom obstinado nas palavras dela.
- Se no acredita - aventurou ele -  porque decerto me despreza, me 
odeia ou faz pouco caso de minha pessoa.
Flora no respondeu. Continuou a olhar para a nuca da moa que 
caminhava  sua frente. Seu brao, enfiado no de Rodrigo, estava 
to leve que parecia de papel.
- J vejo que acertei. A senhorita me detesta, no  verdade?
- No.
- Ento por que est se portando dessa maneira?
De novo Flora refugiou-se no silncio. Ele ia insistir na pergunta 
quando a banda comeou a tocar uma polca. Era ridculo - achou ele - 
que tivessem de interromper 
a conversa naquele ponto crucial para sarem saracoteando ao compasso 
da polca. Mas, que remdio? enlaou a cintura de Flora, que 
continuava a evitar-lhe o olhar, 
e puseram-se a danar. Ests me saindo muito arisca! - pensava ele. 
Mas antes do baile terminar eu te domo ou ento no me chamo Rodrigo 
Terra Cambar. Espera, meu 
bem, espera, a noite mal comeou... No queres falar? Est bem. 
No fales. Mas se pensas que vou continuar aqui a fazer papel de bobo, 
ests muito enganada. Terminando 
esta polca vou danar com outra.
Foi o que fez. E quando a banda atacou um schottish, o Porto Clube, viu 
que Esmeralda Dias estava sem par, aproximou-se dela e convidou-a. Flora 
recendia a jasmim: 
os cabelos de Esmeralda cheiravam a leo de mocot.
188
Esmeralda era mais corpulenta que Flora, suas carnes menos rijas, suas 
mos mais grossas, a presso de seus dedos mais quente e firme. Mas 
o diabo da moa no parava 
de dar risadinhas.
- De que  que est rindo?
- Eu? De nada.
- De nada no pode ser.
Era excitante falar com o par durante a dana. As comadres j 
esto reparando... Mas que me importa?
Naquele instante separaram-se para fazer uma figura: deram trs passos 
rpidos para um lado, sempre de mos dadas, e depois tornaram a 
unir-se.
- De que  que est rindo? - insistiu ele.
- Dumas asneiras que o tenente Lucas me disse.
A palavra asneira soou desagradavelmente aos ouvidos de Rodrigo. E o 
fato de o tenente de obuseiros ser to popular entre as moas 
comeava a irrit-lo.
- Pelo que vejo, esse tal Lucas  muito espirituoso...
- Impagvel.
- Quem  a felizarda que ele namora?
- O Lucas?  uma vassoura. Namora todas que pode. Pra ele o que cai na 
rede  peixe.
- E a senhorita tambm j caiu na rede?
Esmeralda soltou uma risada, atirando a cabea pra trs. Rodrigo 
teve vontade de apert-la contra o peito e morder-lhe a boca. A 
rapariga estava longe de ser bonita 
e ele jamais poderia apaixonar-se por ela. Mas era apetitosa, tinha uma 
graa picante e provocadora.
- No sou peixe, dr. Rodrigo! No sou peixe.
-  um peixo.
- Mas no sou pra qualquer rede.
- Diga ento o que  que um pobre pescador tem de fazer para 
pesc-la...
- Para pescar este peixe  preciso primeiro falar com o velho Dias, 
depois arranjar os papis, um padre e um juiz distrital.
- Mas no acha que  muita complicao? Apertou mais os dedos de 
Esmeralda, acrescentando:
189
- No haver um processo mais simples de pesca?
- H - respondeu ela, encarando-o com firmeza. - Se o senhor for 
pescar na penso da velha Tucha!
Rodrigo ficou chocado e ao mesmo tempo desconcertado com a resposta.
Lembrou-se dum ditado de Fandango: "Deve-se danar conforme o par".
- Peixe dessa espcie no me interessa - disse. E tentou puxar 
Esmeralda mais para perto de si. Ela, entretanto, resistiu, mantendo-o 
afastado.
- Devagar com o andor, moo - murmurou. - Se pensa que porque  rico e 
doutor vai me desfrutar, est muito enganado. No sou dessas, est 
compreendendo?
Rodrigo franziu o cenho. O fato de Esmeralda, a famosa Esmeralda Dias, 
repelir daquele modo a ele, o moo do Sobrado, deixava-o numa 
ridcula posio de inferioridade. 
Agora - refletiu - esta bruaca  capaz de sair a espalhar pelo salo 
que eu lhe faltei com o respeito. E todas as mams vo ficar 
escandalizadas e no tiraro o 
olho fiscalizador de cima de mim: e as moas no querero mais 
danar comigo. Estpido! Por que no ficas de boca fechada?
Tentou ento remediar a situao:
- Senhorita, no v levar a srio o que lhe disse. Eu estava 
brincando...
- Mas eu no estava.
- Olhe. Vamos deixar o dito por no dito. No pense que sou um 
confiado. Seria a ltima pessoa neste salo a faltar com o respeito 
a uma senhorita. Por favor...
Esmeralda interrompeu-o:
- No se amofine. No vou contar a ningum. O senhor no  o 
primeiro. Todo o mundo acha que pode abusar comigo, s porque sou 
alegre e no fingida como essas sonsinhas 
que andam por a com ar de santas, mas que no fundo so umas 
sem-vergonha. Eu  que sei bem da vida delas.
Por um momento Rodrigo temeu que Esmeralda lhe dissesse algo 
desagradvel sobre Flora Quadros. Desejou intensamente que
190
ela se calasse. Esmeralda, porm, prosseguia... E aquele maldito 
schottish parecia no ter mais fim!
- A Dulce Fagundes... Olhe s para a cara dela. Parece um anjo. 
Escreve bilhetinhos para um peo do pai. Dizem que se encontram no 
mato quando ela est na estncia.
O mal-estar de Rodrigo aumentava, e ele lanava olhares angustiados 
para o coreto.
- A filha do Trindade - continuou Esmeralda - fugiu de casa com um 
caixeiro-viajante. Casaram sim, etctera e tal, mas agora ela anda 
a como uma grada, e todo 
o mundo acha que est muito direito, s porque ela  filha do 
intendente, o mandachuva de Santa F, e ningum tem coragem de falar 
mal dela...
- O mundo  assim mesmo - disse Rodrigo, achando-se imbecilssimo 
por ter feito tal observao.
- E vocs homens  que so os culpados. Fazem as coisas e depois 
saem se gabando. Dancei com a fulana e fiz isto e aquilo. Ento, 
quando so moos que vm de cidade 
grande, como o senhor, a coisa  muito pior. No sabem fazer 
distino entre uma moa de famlia e uma mulher da vida.
- Mas, senhorita, eu j lhe pedi perdo. Quer que eu me ajoelhe?
- No. Quero  que no aperte tanto a minha mo. J disse que 
no sou dessas, ouviu?
A msica parou. Rodrigo sentiu um alvio. Levou Esmeralda at uma 
cadeira vazia, inclinou levemente a cabea, balbuciou um 
agradecimento, fez meia-volta, afastou-se 
dela em passo acelerado. Sentia-se desmoralizado, irritado, infeliz. 
Fizera papel de tolo. Levara um verdadeiro tableau. E logo com a 
Esmeralda! Contavam-se dela 
coisas horrveis. No entanto a cadelinha assumira ares de donzela 
pudica s porque ele lhe dissera algumas gracinhas um pouco safadas. 
Bolas! O melhor que tinha 
a fazer era ir tomar alguma bebida fresca. Dirigiu-se para a rea no 
fundo do edifcio, onde quela hora muitas pessoas bebiam, sentadas 
ao redor de mesinhas de 
ferro.
191
Olhava em torno,  procura duma mesa, quando avistou o coronel Jairo, 
que lhe acenava com a mo. Aproximou-se dele.
- Sente-se, dr. Rodrigo! - convidou o comandante do regimento de 
infantaria. - Sente-se e tome alguma coisa. J lhe apresentei minha 
esposa, no?
Rodrigo sorriu para a dama plida.
- Tenente Rubim, j conhece o dr. Rodrigo? O oficial ergueu-se, 
perfilou-se e murmurou:
- Ainda no tenho esse prazer.
- Dr. Rodrigo - disse o coronel Jairo - este  o tenente Rubim Veloso.
O tenente Rubim bateu marcialmente os calcanhares, fez uma leve 
curvatura e apertou a mo de Rodrigo.
O outro oficial que ali estava, no esperou que o apresentassem:
- Sou o tenente Lucas Arajo, vulgo Andr Deed. Sorrindo, segurou 
com fora a mo de Rodrigo, sacudindo-a
repetidamente, ao mesmo tempo que piscava o olho e dizia:
- O senhor que vem de Porto Alegre deve conhecer o Deed, no ? O do 
cinema, o cmico...
- Claro! - exclamou Rodrigo. - Quem  que no conhece o Deed?  
impagvel.
- Pois  o que as moas de Santa F dizem de mim - sorriu Lucas, 
fazendo uma careta. E num falsete alambicado: - O tenente Lucas  
im-pa-gvel. Deve ser por isso 
que no me pagam, hein, coronel?
O coronel Jairo, percebendo a aluso ao atraso crnico no pagamento 
do soldo da guarnio, desatou a rir.
Depois pediu aos trs homens que se sentassem.
- Que  que toma? - perguntou a Rodrigo.
- Uma cervejinha fresca.
Quando o empregado do bufete passou perto de sua mesa, Jairo tocou-lhe 
no brao e pediu:
- Uma cerveja fresquinha, meu filho.
192
Inclinando-se confidencialmente sobre Rodrigo, disse:
- O tenente Rubim e eu somos bons amigos e companheiros d'armas, mas no 
terreno filosfico no nos entendemos, absolutamente no nos 
entendemos. Hein, Rubim?
O tenente de artilharia sorriu. Era um homem de rosto mido, a pele 
dum branco rseo, um pince-nez acavalado no nariz afilado e longo, os 
cabelos dum castanho alourado, 
aparados  prussiana. A arcada dentria superior avanava  
feio de limpa-trilhos, dando-lhe  boca um jeito grotesco de 
bico, acentuado pelo recuo do queixo. 
A primeira vez que vira o tenente Rubim, Emerenciana Amaral comentara: 
"Feio como as necessidades". "Mas um feio gostoso" - acrescentara 
Esmeralda Dias, querendo 
com isso dizer que Rubim tinha uma certa simpatia e que, apesar do bico, 
da dentua, do queixo sumido, a gente gostava de olhar para aquela 
cara; at a voz aflautada, 
que a princpio desagradava, no fim chegava a ter certo encanto.
- Na verdade - disse ele - nossas divergncias so mais de 
superfcie que de profundidade...
Rodrigo observava o tenente de artilharia, secretamente satisfeito por 
verificar que contava com um rival a menos. Alto, esbelto, metido 
naquele vistoso uniforme, 
visto de longe Rubim lhe parecera um tito. No entanto, olhando de 
perto, tinha uma cara de boneco de ventrloquo. Quanto ao outro, o 
Lucas, ele compreendia sua 
popularidade com as moas. Era um simptico palhao. Parecia-se 
realmente com o artista francs de cinematgrafo Andr Deed. Era 
uma dessas criaturas de cara franca 
e agradvel de quem a gente logo se faz amigo.
Sempre inclinado sobre Rodrigo, o coronel Jairo fez um sinal na 
direo do tenente de artilharia e murmurou:
-  de Sergipe. Fez um curso brilhantssimo. Um crnio para 
matemtica, um enxadrista de primeira ordem, campeo de esgrima de 
sua turma, e talvez um dos melhores 
artilheiros do Exrcito. Soldado cem por cento. Tem lido tudo o que se 
escreveu sobre a arte militar. Quanto  filosofia, Nietzsche  a 
sua paixo e ele o conhece 
de trs para diante, de cor e salteado. Um dos livros de cabeceira do 
Rubim  a famosa obra de Clausewitz sobre a guerra.
193
Ah! Pergunte a ele qualquer coisa sobre a campanha de 70. Ele sabe tudo, 
tintim por tintim, como se tivesse feito parte do estado-maior de 
Bismarck. Um crnio, rapaz 
de muito valor, e muito firme em suas convices.
Estas palavras tinham sido ditas em voz baixa, num fingido segredo, mas 
era evidente que o coronel desejava que Rubm as escutasse.
Lucas, que entreouvira a conversa, passou o indicador entre o colarinho 
engomado e o pescoo e, dando ao rosto uma exagerada expresso de 
solenidade, disse:
- Pois antes que o coronel lhe diga quem sou, eu me antecipo... Lucas 
Arajo, natural de Alagoas, tenente de obuseiros, mau soldado, mau 
estudante, mau jogador de 
xadrez, mau esgrimista. No leio Nietzschc nem Clausewitz: para falar 
bem a verdade, no leio nem jornal. Quanto ao resto, uma boa praa. 
O coronel que diga...
Calou-se e comeou a fazer contores faciais. No era mais o 
tenente Lucas Arajo, mas sim Andr Deed no papel de tenente de 
obuseiros. Jairo atirou-se para trs 
e desatou a rir, dizendo:
- Esse Lucas  um pndego!
A seguir levou aos lbios seu copo de gua mineral. Rodrigo olhou 
para a esposa do coronel. Notou que os olhos dela continuavam embaciados 
dum tdio mortal.
A banda tocava agora uma havaneira. Lucas comeou a trautear a melodia 
e a mexer os ombros a seu ritmo. Ergueu-se, fez uma pardia de 
continncia diante de seu superior 
e disse:
- Se dona Carmem e o coronel me do licena... vou danar esta 
havaneira. As meninas devem estar loucas de saudade de mim. Minha 
senhora...
Saiu a caminhar na direo do salo. Rubim seguiu-o com um olhar 
que a Rodrigo pareceu inescrutvel: superior tolerncia? censura? 
indiferena?
194
- O dr. Rodrigo deve estar um pouco chocado... - observou o coronel 
Jairo. - Mas o nosso Lucas  um galhofeiro. Com o tempo o senhor vai 
se habituar.
- Ora! - protestou Rodrigo. - O tenente  simpaticssimo. De novo 
concentrou a ateno em Rubim e por um instante
ficou a contemplar, como a uma pintura, o jovem oficial de tnica 
azul-ferrete, aquele homem duma fealdade pattica que tentava,  
custa dum aprumo militar forado, 
esconder seu aspecto de mestre-escola.
- Gosta da nossa cidade, tenente? - perguntou cordialmente.
-  como todas as cidades pequenas. No diferem muito umas das outras. 
E depois - acrescentou, chiando muito nos esses - nunca tive pacincia 
com as pessoas cujo 
estado de esprito depende do lugar onde se encontram. Um homem 
verdadeiramente digno desse nome no poder deixar-se influenciar 
pelo meio. Ele transformar o meio 
em que vive. Poder at dizer "eu sou o meu prprio ambiente. 
Aonde quer que eu v, carrego comigo esse ambiente".
Idiota! - exclamou Rodrigo mentalmente. - A propsito duma pergunta 
casual e puramente retrica, l vinha ele com um destampatrio 
pseudo filosfico. No fim de contas 
aquele tal tenente Rubim lhe estava saindo um grande vaidoso. Mas no 
lhe teve rancor nem mesmo antipatia. Como o outro se houvesse calado, 
achou que devia dizer 
algo mais:
- Talvez o senhor tenha razo.
- Talvez? Estou certo de que tenho.
tamanha pretenso era demais! Rodrigo sentiu um formigueiro no corpo, 
suas narinas se dilataram. Sentado na ponta da cadeira, o busto teso, 
perguntou, j com voz 
fosca:
- E que  que lhe d tanta certeza? Imperturbvel, Rubim 
respondeu:
- Uma profunda convico filosfica amparada numa longa 
experincia.
Jairo olhava de um para outro, interessado. Sua esposa abanava-se com o 
leque em que havia, pintada, uma pardia miniatural de Watteati.
195
Naquele instante o garom chegou com a cerveja. Rodrigo encheu o copo 
com tanto afobamento, que a espuma transbordou. Ergueu-o na 
direo do casal Bittencourt e 
exclamou:
- A sade do casal! - Olhou para o tenente. - E ao super-homem!
Bebeu. O rosto do oficial no registrou a menor emoo.
- Devo tomar isso como uma ironia? - perguntou ele.
- Vamos, vamos - interveio Jairo. - Est claro que o dr. Rodrigo no 
teve a menor inteno...
Fez-se un silncio tenso.
A havaneira continuava, repenicada e alegre. Rodrigo pensou em Flora, no 
Ano-Novo e nas coisas maravilhosas que o futuro lhe tinha reservado. 
Seria estpido iniciar 
uma nova fase de sua vida social brigando em pleno clube com aquele 
forasteiro.
- Est claro que no tive a menor inteno irnica - disse 
ele, dominado por uma clida e repentina onda de cordialidade. - 
Espero que no se tenha ofendido.
Inclinou-se e ps a mo sobre o joelho do oficial.
- Est claro, est claro - repetia o coronel, olhando de um para 
outro. - Logo que conheci o dr. Rodrigo eu disse (no foi mesmo, 
Carmem?): a est um moo para 
o tenente Rubim conversar. Aposto como vo ser grandes amigos. No 
foi mesmo, Carmem? - A mulher sacudia a cabea lentamente, corno um 
cachorrinho amestrado. -Ambos 
jovens, cultos e esperanosos, cada qual na sua profisso. Est 
claro que no houve inteno.
Rubim apertou a haste de seu clice de conhaque, ergueu-o e disse:
- Ento,  sua sade, dr. Rodrigo! Jairo estava radiante.
- Isso! Assim  que so as coisas. Que diabo! No h nada como a 
cordialidade, a fraternidade, a paz!
Carmem bebeu um gole de gasosa e, por um fugidio instante, seus olhos se 
encontraram com os de Rodrigo, que no pde deixar de avali-la 
como fmea. Devia andar 
l pelo meio da casa dos trinta, tinha uma graa fanada e 
romntica de tsica, e seu corpo devia ser branco e frio como um 
mrmore.
196
A havaneira continuava. Na rea, a balbrdia crescia. Joca Prates 
passou, metido num velho fraque, e fez um sinal amistoso para Rodrigo.
A msica cessou. Ouviram-se palmas isoladas.
Alto e rubicundo, as pontas do colarinho duro fincadas na papada, Jacob 
Spielvogel ergueu-se de sua cadeira, ali na rea, abotoou o smoking e, 
com seu jeito desengonado 
de biriba, dirigiu-se para o salo, num andar denunciador de sapatos 
apertados. Tinha a corpulncia cinquentona dum granadeiro. Rodrigo 
mostrou-o ao coronel com 
um movimento de cabea, dizendo:
- O av dele comeou a vida na colnia, l por 1833, abrindo 
picadas no mato. O Jacob tem hoje uma serraria a vapor. Dizem que  
homem que no se aperta por cem 
contos.
 porta do salo, Spielvogel esbarrou em Cacique Fagundes, e por 
alguns instantes ficaram ambos a conversar. O coronel Jairo, que 
acompanhara o teuto-brasileiro 
com o olhar, murmurou:
- Vejam bem o sentido daquele encontro. Ali est um caboclo que tem 
nas veias o sangue dum cacique. Descende, portanto, dos verdadeiros 
donos desta terra. Est agora 
frente a frente com o colono, um homem louro cujos avs vieram dum 
outro mundo, duma outra civilizao...
O tenente Rubim sentenciou:
- O dono da terra   e ser sempre aquele que pela fora se apossar 
dela e pela fora a mantiver.
Rodrigo atirou-se para trs na cadeira e sorriu. No estava disposto 
a discutir. Chamou o garom e pediu outra cerveja. A banda atacou uma 
polca. O coronel comeou 
a marcar o compasso com o p. Carmem soltou um suspiro, que lhe 
sacudiu o magro peito. Rodrigo avistou o coronel Aristiliano Trindade 
sentado a uma das mesas da 
rea, na companhia de alguns de seus apaniguados, e como o homem 
naquele instante lhe fizesse um amvel cumprimento de cabea, fingiu 
no ter percebido nada, baixando 
197
disfaradamente os olhos para o copo. Da por diante, porem, comeou a 
lanar repetidos olhares tortos e enviesados, na direo do 
intendente de Santa F. Jamais sentira 
a menor simpatia por aquele tipo. Tudo nele lhe era repugnante: o rosto 
alongado de cavalo malacara (uma doena de pele lhe punha manchas 
esbranquiadas na testa), 
as mandbulas largas e quadradas de delinqente... O que mais 
initava naquele sacripanta - refletiu Rodrigo - era que seus gestos, 
palavras e atitudes no estavam 
absolutamente de acordo com o que ele era e fazia. Tinha sempre na 
beiola arroxeada de mulato um sorriso hipcrita. Seu ar era 
obsequioso e sua voz, grave e paternal. 
Costumava chamar os outros, at os mais velhos, de "meu filho". Isso, 
porm, era apenas um tnue verniz de superfcie. No fundo daquela 
alma atocaiava-se a hiena. 
Era sanguinrio e cruel, duma crueldade fria e calculada. J se 
perdera a conta das pessoas de cujo assassnio ele fora mandante, isso 
para no falar nos "sustos" 
que mandava dar em seus desafetos - homricas sovas de rabode-tatu ou 
espada, que deixavam a vtima estatelada no cho, sangrando... Desde 
que chegara, Rodrigo evitara 
encontrar o tiranete de Santa F: no fora visit-lo  
Intendncia, como sugerira o patife do Amintas; e sempre que o via na 
rua mudava de calada ou dobrava esquinas 
para no se defrontar com ele.
- Conhece o intendente? - perguntou-lhe Jairo.
- Antes no conhecesse - respondeu.
O comandante do regimento de infantaria pareceu surpreendido, cofiou os 
bigodes, indeciso,  espera duma explicao, que Rodrigo no 
tardou a dar:
- Olhe, coronel, no sei quais so as suas relaes com o Titi 
Trindade. Quaisquer que sejam eu as respeitarei. Mas quero lhe dizer 
desde j, muito claramente, que 
no pretendo manter relaes de amizade com esse homem cruel, 
desptico e imoral. A senhora me desculpe, dona Carmem, mas estou 
dizendo o que sinto e penso.
Jairo pigarreava, muito vermelho, acariciando com a palma da mo a 
coroa da cabea.
- tenho o maior respeito pelos sentimentos alheios - murmurou.
198
Rodrigo sorriu.
- Ao menos aqui no clube, o Trindade est em minoria - disse ele, 
tomando da garrafa que o garom acabava de pr sobre a mesa e 
tornando a encher o copo. - No sei 
se o senhor j reparou, tenente, que o Clube Comercial  o nico 
lugar neste municpio onde a oposio ganha a eleio...
Rubim fez um sinal afirmativo.
- J. S no pude compreender ainda o mecanismo dessa vitria.
- Muito simples. Federalistas, democratas e republicanos dissidentes se 
unem para eleger uma diretoria em que no entre nenhum elemento da 
pandilha do Trindade. 
Cada eleio aqui dentro  um verdadeiro pleito poltico, com 
propaganda antecipada, cabala, discusses e at brigas. Na deste 
ano, o Trindade quis impor um candidato, 
o coronel Prates. Ora, o Joca Prates  um cidado digno, ningum 
tem nada contra ele. Mas  partidrio da situao, republicano 
dos quatro costados, diz amm a tudo 
quanto seu chefe ordena. Ns ento levantamos a candidatura do 
Maneco Macedo, que  maragato, e ganhamos a eleio.
Jairo sacudia lentamente a cabea.
- Mas ainda no compreendo como foi possvel essa vitria.
- Ora, este clube  um grmio de elite e a elite de Santa F 
est contra a situao. E, depois, aqui dentro no h 
subprefeitos, delegados e capangas para intimidar 
a oposio. Na hora da eleio, nossa gente vem de revlver na 
cintura, disposta a tudo, para encorajar os empregados do comrcio e 
outros eleitores hesitantes. 
Ah!  preciso tambm esclarecer que o voto nas eleies do clube 
 secreto. Foi uma sugesto que o dr. Assis Brasil nos deu, quando 
andou por aqui. Se no fosse 
assim, os funcionrios municipais no teriam coragem de votar contra 
a chapa do intendente.
- Muito interessante - exclamou o coronel - muito interessante!
Rubim brincou com as luvas brancas.
- Tudo isso vem em apoio da minha teoria sobre as elites e as massas - 
disse. - As elites tm de governar sempre e para isso
199
precisam usar de fora. O que d aos oposicionistas a vitria 
aqui dentro no  a fora do direito, mas o direito da fora.
- Perdo! - atalhou-o Rodrigo, empertigando-se na cadeira, como se 
fosse saltar sobre o outro. - O sufrgio universal aqui dentro  uma 
realidade.
Rubim procurou acalm-lo com um gesto.
-- Mas tudo isso est certo, matematicamente certo.  um mtodo 
natural. No tenho a menor simpatia pelas massas. A massa  feminina 
e necessita de homens fortes 
que a dominem. No s necessita como clama por eles. Abra a 
Histria e veja. Como foi que vs gachos conquistastes e 
mantivestes estes territrios? Invocando sobre 
eles o direito divino ou qualquer outro direito? No. Vs 
expulsastes os castelhanos a tiro, a ponta de lana e a golpe de 
espada.  a lei da vida, a moral da guia.
Valia a pena discutir com aquele soldado? - perguntou Rodrigo a si 
mesmo. Qual! O que valia a pena era terminar aquela cerveja e ir 
danar com Flora. No. Agora 
danaria com Ritinha Prates. Depois com a Gioconda. Era bom que Flora 
esperasse, para no pensar que ele estava morrendo de amores por 
ela...
7
Jairo ps a mo no brao de Rodrigo e disse:
- Sou um apaixonado pelo seu estado, doutor. Os senhores tiveram a 
fortuna de contar aqui com um homem de grande talento e larga viso, o 
dr. Jlio de Castilhos. 
Graas a ele e a outros repblicos a vossa Constituio estadual 
est cheia da sdia influncia positivista, ao contrrio da 
nacional, que no passa duma cpia servil 
e absurda da norte-americana. O futuro mostrar que os constituintes 
do Rio Grande  que esto com a verdade, com a boa causa. O senhor 
leu bem a Constituio de 
seu estado?
- Claro! - mentiu Rodrigo com veemncia.
- Pois eu a conheo melhor do que muito gacho - gabou-se o coronel 
Jairo, olhando rapidamente para a esposa, que lhe seguiu as palavras com 
ateno. - Conheo igualmente 
bem a
200
vossa histria, meu caro doutor. Sou um rato de arquivo, um estudioso 
de textos e um observador da sociedade humana. Fez um gesto largo que 
abrangia a rea.
- E se eu lhe disser que vossa histria est toda escrita, em 
magnfico resumo, na face e nas vidas das gentes que hoje se acham no 
rveillon do Comercial? E se 
eu vos assegurar que neste clube se agita uma espcie de microcosmo do 
Rio Grande?
Jairo dirigiu a pergunta aos trs interlocutores, olhando 
alternadamente para cada um deles. Rubim no parecia muito 
interessado. Carmem olhava para o leque. Jairo 
apontou discretamente para o coronel Maneco Macedo, que conversava  
porta do salo de bilhar com o coronel Pedro Teixeira.
- Ali esto dois representantes do cl pastoril, os senhores de 
terras e gados, muitos deles descendentes dos primeiros sesmeiros...
- Dois senhores feudais - acrescentou Rodrigo, lembrando-se em tempo de 
que ele prprio pertencia quela "nobreza rural".
- So eles que fazem os intendentes, delegados, deputados, senadores, 
presidentes do Estado - continuou Jairo, entusiasmado. - Em suma:  a 
classe que governa. Ao 
redor dela vive ou, melhor, vegeta a massa dos servos da terra...
O tenente Rubim puxou a tnica, endireitou o busto, ajeitou o 
pince-nez no nariz, e opinou, rpido:
- Como  natural e desejvel.
- L est o Spielvogel - mostrou Rodrigo -, cujo pai comeou a 
revoluo industrial em Santa F com o seu moinho d'gua...
- Exatamente - disse Jairo. - E ele representa o primeiro passo do 
colono da picada para a cidade, abandonando a agricultura para se 
dedicar ao comrcio ou  indstria...
A mesa de Titi Trindade algum disse alguma graa, pois todos 
desataram a rir estrepitosamente, inclusive o intendente, que dava 
palmadas repetidas na mesa de ferro, 
fazendo oscilar copos e garrafas.
- L ri s'amuse... - murmurou Rodrigo.
201
O coronel Jairo, porm, estava demasiadamente absorvido na sua 
prpria dissertao para prestar ateno ao que quer que 
fosse.
- Agora veja bem - prosseguiu ele, pegando na lapela de seda do casaco de 
Rodrigo. - H um grupo, um importante grupo da populao do Rio 
Grande do Sul que ainda 
no est representado aqui, que eu saiba...  o dos agricultores, 
o dos pequenos proprietrios de terras, em sua maioria descendentes de 
imigrantes italianos e alemes. 
 que esses elementos ainda no esto bem incorporados  vossa 
sociedade. Noutras palavras, preste bem ateno, doutor, noutras 
palavras: ainda no entraram no Clube 
Comercial, onde impera a aristocracia rural!
Fez uma pausa para ver o efeito de suas palavras no rosto do 
interlocutor. Rodrigo no tinha pensado ainda naquelas coisas: 
achava-as, sem a menor dvida, interessantes. 
S lhe parecia que aquele no era o lugar nem a hora para conversar 
sobre assuntos to srios. Estava ansioso por voltar ao salo. 
Continuar ali seria pura perda 
de tempo. Agora, porm, embaraava-o um detalhe. Erguer-se e ir 
danar sem pagar a despesa? No podia fazer isso. Chamar o garom, 
meter a mo no bolso e perguntar: 
"Quanto ?" - seria supinamente grosseiro.
Naquele instante Rubim esvaziou o clice e ergueu-se:
- Se me do licena...
Bateu os calcanhares, fez uma rpida curvatura e encaminhouse para o 
salo.
- V bailar, tenente - encorajou-o Jairo, paternal. - Daqui a pouco a 
Carmem e eu tambm danaremos. Quando tocarem uma valsa, no , 
minha flor?
tima ocasio para eu sair tambm - pensou Rodrigo. O coronel, 
porm, de novo se inclinava sobre ele:
- Como eu ia dizendo... Temos agora um segundo grupo, o maior e talvez o 
mais importante de todos: a populao urbana. Olhe l o sr. 
Marcelino Veiga.  um representante 
do comrcio, bem como o sr. Spielvogel o  da vossa incipiente 
indstria, ambos, portanto, burgueses, membros da economia capitalista 
que s agora comea entre vs... 
Sim, porque vossa Idade Mdia, com bares feudais, servos da gleba, 
artesos e um regime de trocas  de 
202
ontem... De ontem? Qual! Ainda hoje sobrevive e tudo indica que 
continuar ainda por muito tempo, paralelamente com o surto 
capitalista. Ah! E no esqueamos de incluir 
no grupo urbano as profisses liberais, os advogados, mdicos, 
engenheiros, os funcionrios, empregados do comrcio e um singular, 
pouco numeroso e ainda maldefinido 
proletariado, que ir fatalmente crescendo  medida que os Veigas e 
Spielvogels forem crescendo em nmero e prosperidade!
Jairo Bittencourt passeava o olhar em torno, como  procura de 
exemplos. Rodrigo pensava em Flora. A orquestra tocava agora um 
schotthb. Vinha do salo um rudo 
ritmado de passos. Algum perto gritou: "Falta uma hora pr Ano-Novo 
chegar!" Rodrigo ensaiou um pretexto para fugir, mas o coronel no lhe 
deu trgua:
- H ainda um outro grupo que no est representado neste clube e 
que talvez no o esteja nem daqui a cem anos.  o dos operrios. 
Rubim sorri quando lhe falo nesses 
prias da sociedade. Acha que seria um erro educar as massas, 
melhorar-lhes a vida. Mas o doutor deve compreender que ns os 
positivistas somos pela incorporao 
do proletariado  sociedade ocidental.

Rodrigo ansiava por voltar ao salo de baile. No entanto no estava 
de todo desinteressado da palestra do coronel: sentia at por suas 
palavras um certo fascnio 
que talvez viesse no propriamente das coisas que ele dizia, mas sim 
do modo como as enunciava. Jairo Bittencourt tinha uma voz 
agradavelmente persuasiva, cheia 
de interesse humano: era uma voz vibrante e ao mesmo tempo grave, tocada 
duma afabilidade paternal.
- Porque - continuou ele - a histria para ns positivistas no 
 essa coisa inexpressiva de trs dimenses que se ensina nas 
escolas. - Ao dizer isso, com ar distrado 
mas nem por isso menos carinhoso, cobriu com a manopla sardenta e peluda 
a delicada mo da mulher. - Augusto Comte acrescentou  histria a 
dimenso que lhe faltava.
203
- Gosto muito de histria, coronel - disse Rodrigo. - No ginsio 
foi das matrias...
Teve, porm, de calar-se, pois o outro, que evidentemente no o 
escutava, interrompeu-o:
- A propsito, qual  o filsofo de sua predileo?
- Spencer - mentiu Rodrigo com to grande convico, que por um 
momento ele prprio chegou a acreditar no que dizia. Havia lido por 
alto os Primeiros princpios, 
achando a obra insuportavelmente indigesta. Alcides Maya, que 
pontificava no mundo das letras de Porto Alegre, lanara entre seus 
discpulos e admiradores o nome 
de Spencer, que era agora o "filsofo da moda", lido, comentado e 
discutido nos jornais e nas tertlias literrias.
O coronel comeou a mover a cabea dum lado para outro, franzindo os 
lbios com o ar de quem est indeciso quanto a um julgamento.
- Bom... Spencer no est muito longe de Comte. Pelo contrrio, 
muito perto at. Mas, meu caro amigo, por que no ir logo s 
fontes, por que no procurar logo o 
papa (se me permite a comparao) em vez de ficar s voltas com 
bispos, arcebispos e cardeais?
Lanou para a esposa um olhar de ternura. Depois disse:
- O doutor naturalmente j ouviu falar na lei dos trs estados...
- Como no! - respondeu Rodrigo. E felicitou-se por rer boa memria. 
- O estado teolgico, o metafsico e o positivo.
Encarou o coronel e pensou: se ele me pede que eu defina esses trs 
estados, estou frito.
- timo! - exclamou Jairo. - Magnfico! Est vendo, Carmem, meu 
bem, ele no  mesmo como eu dizia?
O som da risada eqina do Titi Trindade chegou desagradavelmente aos 
ouvidos de Rodrigo, que pensou: No perdes por esperar, cafajeste. E 
mentalmente comeou a compor 
um editorial contra o intendente.
- Qual  a atitude do positivista diante do mundo? - perguntou o 
coronel. E ele mesmo deu a resposta, inclinando-se muito sobre a mesa, 
como se fosse revelar um 
grande segredo manico:
204
-  estudar a sociedade humana dentro do terceiro estado, o positivo, 
sujeit-la a uma observao cientfica, note bem, cientfica, 
colocando, digamos, os fatos 
sociais num microscpio, observando-lhes as leis, analisando-os como 
hoje se analisa um produto qumico, um tecido orgnico ou um raio de 
luz...
Tornou a olhar para Carmem, que brincava com o leque. E Rodrigo, que a 
observava, notou que ela respirava com alguma dificuldade. Seria mesmo 
tsica como se murmurava?
- Essa histria que se ensina nas nossas escolas - prosseguiu Jairo, 
depois de tomar um gole de gua mineral - no passa duma sucesso 
de nomes prprios e datas. 
 um romance tolo, cujo sentido fica obscuro para o pobre estudante. 
Mas veio Comte, espremeu todos esses fatos, tirou-lhes o sumo, 
estabeleceu as bases duma filosofia 
da histria, cujas leis traou. Ora, o positivismo est baseado na 
experimentao, na observao. Um fato histrico de hoje 
ficar claramente explicado se estudarmos 
a srie, a cadeia de fatos que o prendeu. A histria, meu caro 
doutor, explica a histria. Meu bem, estou te aborrecendo? - Tornou a 
acariciar as mos da mulher. 
- A pobre da Carmem j me ouviu mil vezes dizer estas coisas. Mas sou 
um homem muito franco, dr. Rodrigo, e tenho a lngua solta porque acho 
que no h mal nenhum 
em dizer a gente o que sente e pensa. Algum bem sempre vir disso para 
a humanidade. Mas, voltando ao nosso assunto, s o mtodo positivo 
 que nos permitir analisar 
os fatos sociais em suas inter-relaes. Foi o grande Augusto Comte 
quem criou essa maravilhosa cincia que  a sociologia. - Fez um 
gesto largo. - A cincia da 
sociedade.
A banda rompeu numa valsa. E pela primeira vez, desde que Rodrigo se 
sentara  mesa, Carmem falou:
- Jairo, esto tocando uma valsa...
Tinha uma voz fina de menina mimosa. A princpio, o marido 
lanou-lhe um olhar vago de incompreenso. Depois exclamou:
- Ah!  verdade. A nossa valsa. O doutor vai nos dar licena. 
Garom! No senhor, a despesa  minha, quem convidou foi eu.
- Deteve o outro, que j tinha levado a mo ao bolso interno do 
palet. - No senhor, absolutamente!
205
Pagou a despesa. Ergueram-se. Carmem inclinou a cabea para Rodrigo e 
saiu a andar, rumo do salo.
- No parece mesmo um lrio? - murmurou Jairo, acompanhando-a com um 
olhar amoroso. Num cochicho acrescentou ao ouvido de Rodrigo: - No 
repare. Trato minha mulher 
como se ela fora uma criana. Constituio muito delicada, uma 
verdadeira sensitiva. A Carmem ainda no se refez do choque da 
transplantao. O doutor v, uma orqudea 
do trpico sofre quando transplantada para um clima frio. Vosso 
minuano  tenebroso. Se no me transferem daqui para o Rio ou para o 
Norte, perco a mulher. Coitadinha! 
Mas, meu caro, havemos de nos encontrar outra vez, este ano ou no 
prximo.
Soltou a sua risada contagiante.
Carmem parara a meio caminho, voltara-se com um ar de desamparo, e seus 
grandes olhos pediam socorro.
- Muito obrigado por tudo, coronel.
- Ora, quem agradece sou eu. -Apertou-lhe o brao, depois de fazer um
sinal para a mulher. - E acredite que desejo ser seu amigo. E havemos de
ser, pois no, pois
no. E no leve a mal as loucuras do Lucas nem as esquisitices do
Rubim. Eu lhe afiano que so ambos excelentes rapazes. O Rubim 
um talento, o senhor h de ver
com o tempo. O outro, ah! o outro  um pndego, mas dono dum belo
corao, embora tenha, como dizem os nossos vizinhos castelhanos,
mala cabeza. At a vista, doutor.
Deu dois passos na direo da mulher e de sbito voltou-se:
- Ah! E o senhor seu pai? Perdoe-me por no ter perguntado por ele.
Veio ao baile?
- Qual! O papai  um bicho-de-concha. Ficou em casa.
- Excelente cidado! - exclamou Jairo. - Grande carter, corao 
muito bem formado. Afiano-lhe, sob palavra de honra, que sua amizade 
 das que mais me envaidecem.
Rodrigo no achou o que dizer, limitou-se a sorrir e a sacudir a 
cabea afirmativamente. O coronel tomou do brao da esposa e entrou 
com ela no salo.
A melodia continuava, embaladora: Qttarid 1'nmonr meurt.
206
Danou aquela valsa com Ritinha Prates, que, apesar de ser pequena e 
esbelta, lhe pareceu pesada como chumbo. Tinha, porm, olhos lindos, 
uma boca bem modelada e 
um |eiro suave. Quando a valsa terminou e, de braos dados, 
comearam a dar voltas ao salo, Rita fez-lhe perguntas sobre Porto 
Alegre, disse-lhe de seu grande desejo
de conhecer a capital. Ora, isso infelizmente no era assim to
simples porque, alm de outras dificuldades, ela enjoava muito quando
andava de trem, pois tinha
um estmago fraco, como a mame...
- E o papai, o senhor sabe,  um caro custo pra gente tirar ele da
estncia, o que ele quer  ficar l trabalhando com a peonada, e
eu, o senhor sabe, tenho horror
l de fora, tudo to triste, to desanimado, que at me d
vontade de chorar, principalmente quando anoitece e as vacas comeam a
mugir e a gente acende as velas
e fica tudo que nem velrio e depois todo mundo vai pra cama cedo e a
gente tem de dormir, queira ou no queira, porque no se tem nada
mais que fazer, e se apaga
a luz e pronto...
Rodrigo danou tambm com Rita um schottish: Talento e formosura, e
quando a banda tocou uma havaneira, foi tirar a Mariquinhas Matos.
Danaram num silncio solene. 
E durante o intervalo entre duas danas, conversaram animadamente. A 
Gioconda procurou mostrar-se muito culta e manter a palestra num nvel 
elevado. Achava fteis 
as moas de Santa F: s pensavam em vestidos, festas e bobagens. 
Ah! Ela tinha verdadeita paixo pela literatura. Lera as obras 
completas de Perez Escrich, adorava 
Etigne Sue, principalmente Os mistrios de Paris, e achava 
Richebotirg assim, assim. Ultimamente ficara muito impressionada com Os 
miserveis de Victor Hugo. A 
propsito, como era hipcrita a sociedade que tolerava e at 
adulava os grandes ladres, ao passo que levava para as masmorras os 
miserveis que roubavam uma cdea 
de po para mitigar a fome!
Rodrigo escutava-a com polida ateno, fazendo sinais de 
aprovao com a cabea, mas achando a Gioconda supinamente 
ridcula naquela sua exibio de "cultura". Quando 
ela lhe deu uma
207
oportunidade, desandou a falar nos seus autores de cabeceira. E atirou 
sobre a moa um punhado de nomes esmagadores: Taine, Renan, Anatole 
France, Verlaine, Rostand... 
A Gioconda sacudia a cabea, com uma expresso de perplexidade nos 
olhos aveludados. No conhecia nenhum daqueles escritores. Que 
romances tinham escrito? Ah... 
Espere. Esse Rostand no foi o que escreveu Os mistrios do Falais 
Royal?
- No - respondeu Rodrigo. - Que eu saiba, Rostand no escreveu 
nenhum romance.
E quando a banda atacou uma valsa Boston, ele enlaou a cintura de 
Gioconda e saram a rodar majestosamente. Rodrigo procurava Flora com 
o olhar. Avistou-a nos braos 
do tenente Rubim. Ser que esse sergipano est fazendo a corte a 
Flora? Sobre que conversaro? Naturalmente o tenente deve falar-lhe em 
Nietzsche, planos estratgicos 
e obuses. Um super-homem... com aquela dentua, aquele queixo sumido, 
aquela voz de eunuco.
Agora passava por eles enorme, ondulante e esplndido como um 
transatlntico em mar grosso, Chiru Mena a gritar:
- Menino, j estou de garro frouxo de tanto danar! Ds que o 
baile comeou no refuguei marca!
Rodrigo deixou a Gioconda junto de sua cadeira, fez uma mesura e 
murmurou uma palavra de agradecimento. Limpando com o leno o rosto 
lavado em suor, encaminhava-se 
de novo para a rea quando ouviu um pst. Voltou a cabea e viu que 
Emerenciana Amaral lhe acenava, chamando-o. Aproximou-se, sorrindo, 
tornoulhe da mo ndia e beijou-a:
- Mas ento, seu ingrato, no quer mais saber dos velhos, hein? 
Ento chega em Santa F e nem vem ver a velha Emerenciana? Est 
vendo, dona Ibrama?
Voltou-se para a senhora magra que estava a seu lado, e que por sua vez 
tambm sorria para Rodrigo.
- Nem diga isso, dona Emerenciana. Como  que eu havia de me esquecer 
da senhora?
- Pois  como eu estava dizendo. No acredito que o Rodrigo seja 
to ingrato. Imagine, dona Ibrama, muitas vezes peguei esse
208
menino no colo e muito doce dei pra ele. Tu te lembras da minha 
marmelada branca?
- Se me lembro! A melhor marmelada que j comi na minha vida!
Olhando para a amiga, dona Emerenciana explicou:
- O pai dele, o Licurgo, e o meu marido no se do. Coisas de 
poltica. Mas eu sempre digo: que  que ns mulheres temos que ver 
com as brigas dos homens? E esses 
meninos - tornou a perguntar, mostrando Rodrigo - ser que os 
coitadinhos devem pagar pela culpa dos pais?
Rodrigo sorriu. Dona Emerenciana falava a linguagem das personagens do 
folhetim do Correio do Povo.
- Acho que a senhora tem toda a razo - disse. Mudando de tom, a 
matrona perguntou:
- Como , quem  a felizarda?
- Que felizarda?
Ela piscou o olho e fez um muxoxo.
- Tu bem que sabes, Rodrigo. A namoradinha...
- No tenho nenhuma...
- Pensas que eu acredito?
- Palavra de honra.
Num cochicho ela perguntou:
- Que tal a Ritinha?
- Muito bonita, muito prendada...
- E a Flora, hein, a Flora?
- Tambm muito bonita e muito distinta...
- Por que, ento, no vai danar com ela agora? Olhe l, a Flora 
est sem par... V!
10
Tomou o brao de Rodrigo e empurrou-o na direo da moa. Meio 
desconcertado, odiando dona Emerenciana, Rodrigo afastouse na 
direo de Flora. Estava claro que iria 
danar com ela: apenas
209
havia planejado aquilo para mais tarde, e no era preciso que nenhuma 
alcoviteira, bigoduda, intrometida viesse...
- A senhorita quer dar-me o prazer?...
Flora ergueu para ele os olhos meio alarmados. Levantou-se, deu dois 
passos, ajeitando a faixa. A banda tocava agora a Valsa dos patinadores. 
Rodrigo tomou-lhe da 
mo, e passou-lhe o brao em torno da cintura. A delicadeza daquele 
corpo que carregava, como se fosse de paina, a frgil suavidade 
daquela mo... Sentiu desejos 
de cantar, acompanhando a msica. Mas conteve-se: aquelas coisas eram 
imprprias dum baile do Comercial.
Cuca Lopes, que danava com uma das caboclinhas do Cacique Fagundes, 
passou por ele e gritou:
- Faltam vinte minutos pr ano que vem!
Rodrigo fez um aceno afirmativo de cabea e murmurou:
- Esse Cuca!
Lembrou-se, contrariado, de que havia prometido estar em casa un pouco 
antes da meia-noite, para assistir  entrada do AnoNovo em companhia 
da famlia. Bolas! Seria 
mil vezes melhor ficar com Flora, para que fosse ela a primeira pessoa a 
quem ele cumprimentasse em 1910.
- Senhorita Flora, permite que lhe faa um pedido? - perguntou, ao 
terminar a valsa.
A moca voltou para ele os olhos escuros.
- Que ?
- Que me d a honra de ser a primeira pessoa a cumpriment-la no 
novo ano.
Por um instante Flora nada disse. Depois tornou a olhar para ele com o 
ar de quem no havia compreendido. E antes que ela dissesse o que quer 
que fosse, Rodrigo 
acrescentou:
- Se no a estou molestando, eu lhe pediria tambm continussemos 
a danar at a meia-noite. Espero que isso no lhe traga nenhum 
aborrecimento...
Uma vermelhido cobria as faces e as orelhas de Flora, que caminhava 
com os olhos postos no soalho.
- Sim? - perguntou ele.
Ela sacudiu a cabea afirmativamente.
210
- Sim.
Sentia-se algo de tenso na atmosfera do salo, que o zunzum das 
conversas enchia. Pessoas andavam dum lado para outro e muitos homens 
tiravam o relgio do bolso 
e ficavam a olhar fixamente para o mostrador. Chiru Mena gesticulava, 
gritando:
- Aproveitem, moada, que o novecentos e dez vai ser curto. Em maio 
vem esse tal de cometa e arrebenta o mundo.
Rodrigo sorriu, superior.
- A senhorita acredita que o mundo vai mesmo acabar? Ela encolheu os 
ombros.
- No sei. O papai acha que no.
- Isso no passa de superstio. Este mundo velho tem de 
continuar. E ns continuaremos com ele. Depois de passar o cometa de 
Halley havemos de prosseguir fazendo 
o que sempre fizemos: trabalhar, comer, dormir, sonhar, amar... Por 
falar nisso, a senhorita j pensou que dentro de alguns meses pode 
estar noiva e dentro dum ano 
casada?
- No senhor.
Diabo! A cnaturinha no lhe dava a menor deixa para levar adiante a 
conversa. Suas respostas eram curtas, quase rspidas, verdadeiros 
pontos finais de gelo.
A msica recomeou. Outra valsa. Oh! O Frmito d'ainore. Rodrigo 
sentia-se feliz. Estava decidido a ficar com Flora at a meia-noite. O 
velho compreenderia, tia 
Maria Valria tambm... Permaneceria no clube o tempo suficiente 
para apertar a mo de sua bem-amada e depois correria para casa...
Pelo aspecto de suas caras germnicas e pelo entusiasmo com que 
danavam, Jacob Spielvogel e sua Frau davam ao baile um ar de Kecrb 
colonial, ao passo que Chiru Mena, 
com suas batidas de calcanhares com esporas hipotticas e com seu ar 
de monarca, parecia esforar-se para transformar o rveillon num 
fandango de terreiro.
Cacique Fagundes valsava com sua "patroa", cujos vastos seios parecia 
carregar penosamente sobre o peito, soprando forte como um touro, o suor 
a escorrer-lhe em 
bicas pelo rosto. Aquela hora era grande o nmero de pares que 
danavam. E quando a msica
211
cessou, houve como que um hiato nervoso, pessoas se consultavam com os 
olhos e muitos tornavam a olhar para os mostradores dos relgios.
11
Maneco Macedo, entalado numa sobrecasaca apertada, disse em voz alta 
para Cacique Fagundes:
- Daqui a pouco tu entregas a rapadura e quem vai mandar neste potreiro 
sou eu...
O outro arregaou os beios, mostrando os dentes fortes e parelhos:
- Graas a Deus vou largar esta droga na tua cacunda. Tu vais ver com 
quantos paus se faz uma canoa.
Riram-se.
- Faltam dez minutos - exclamou o Cuca Lopes.
- Doze! - corrigiu-o o Chiru. Aproximaram-se um do outro, cada qual com 
seu relgio na mo, e ficaram a confabular alegremente.
O tenente Lucas fazia caretas  frente de seu par, uma das filhas de 
Pedro Teixeira. "Andr Deed numa de suas hilariantes comdias" - 
pensou Rodrigo, numa reminiscncia 
da literatura dos programas de cinematgrafo.
Empertigado, o pince-nez a relampaguear a cada movimento de cabea, o 
tenente Rubim conversava com a Gioconda. Um belo par - pensou Rodrigo. 
Deviam casar-se e tirar 
uma cruza entre Perez Escrich e Nietzsche.
Os pares no andavam mais  roda. Alguns estavam parados no meio do 
salo, outros se separavam, pois as moas saam  procura dos 
pais, mulheres buscavam os mandos, 
pais reuniam os filhos... Cacique Fagundes comeou a arrebanhar suas 
caboclas, levando-as para as proximidades da me. Andava azafamado, 
dum lado para outro, a fazer 
cht! chti, e como visse que Rodrigo o observava, riu e gritou-lhe:
212
- Estou parando rodeio no meu gado. O ano que vem j est perto. 
Dizem que j dobrou a esquina da Casa Sol.
Ao redor de dona Emerenciana reuniam-se aos poucos todos os Amarais 
machos e fmeas,  espera do grande momento. O vozerio crescia e a 
atmosfera parecia carregada 
de eletricidade.
Rodrigo percebeu que Flora estava inquieta, olhando dum lado para outro, 
como um coelhinho que em meio da floresta pressente a aproximao do 
perigo.
- Onde estar a mame? - perguntou ela, mais para si mesma que para 
o par.
- Ali perto do toilette- mostrou Rodrigo. - No se aflija. Quando 
chegar a meia-noite hei de lev-la at l.
Sentiu que estava comovido. No tirava os olhos de Flora, a qual, 
entretanto, lhe evitava o olhar, brincando nervosamente com o leque e de 
quando em quando alisando 
a faixa. Mas por que ser que essa criaturinha no olha pra mim?
- Dois minutos pra meia-noite - gritou algum. Erguendo os olhos para 
o coreto, Rodrigo viu que os msicos
se preparavam para tocar. O sargento Aristotelino, mestre da banda, fez 
para Rodrigo um sinal amistoso, arreganhando a dentua clara, num 
contraste com o rosto pardo. 
E, quando Rodrigo tornou a baixar a cabea, surpreendeu Flora a 
contempl-lo. E naquela frao de segundo em que os olhos de ambos 
se encontraram ele teve a certeza 
de que ela o amava.
- Eu te amo! - murmurou. - Eu te amo! - repetiu em voz mais alta, j 
com um desejo de dar um passo  frente e tomar Flora nos braos. Era 
um momento grave: a entrada 
dum novo ano. Era um instante de efuso emocional em que todos os 
excessos deviam ser permitidos... Flora pareceu ficar em pnico. Olhou 
na direo da me, como 
que em busca de socorro.
Chiru Mena, que se encontrava no meio do salo a olhar para o 
relgio, deu um pulo e gritou:
- Chegou o bicho!
Da rua vinha agora o pipoquear de tiros de revlver. Dentro do clube 
comeou o caos. A banda rompeu a tocar um galope. Rodrigo tomou com 
ambas as mos a mo de Flora 
e apertou-a.
213
- Muitas, muitas felicidades - murmurou, engasgado de comoo. - 
que o Ano-Novo...
No terminou a frase, pois Flora puxou a mo bruscamente e 
voltou-lhe as costas, saindo quase a correr na direo da me. 
antes que Rodrigo atinasse com o que 
devia fazer, Chiru Mena tomou-o nos braos e estreitou-o contra o 
peito, berrando:
- Feliz Ano-Novo!
E quando Chiru afrouxou o abrao, Rodrigo ficou meio estonteado a 
procurar Flora no meio da colorida balbrdia de gente que andava dum 
lado para outro ao som do 
galope, a trocar abraos, a dar-se encontres.
Agora se ouvia um apito prolongado que vinha de longe: era a sereia da 
serraria do Spielvogel. Fora, os tiros continuavam.
A esposa de Maneco Macedo abraava e beijava as filhas, enquanto as 
lgrimas lhe escorriam pelo rosto moreno. Gritavam-se nomes no ar, 
pessoas procuravam-se com 
nsia, timha-se a impresso de que o clube havia prendido fogo, pois 
havia ali mais um ar de catstrofe que de festa. E o ritmo acelerado 
da msica, as pancadas 
do bombo e o tinir dos pratos agravaram delirantemente aquela confuso 
de fim de mundo.
- Parece at que o cometa j bateu na terra! - gritou Cuca ao 
ouvido de Rodrigo, depois de abra-lo.
Flora! Mas onde est a Flora? Rodrigo procurava-a em vo, voltando a 
cabea dum lado para outro. No coreto, ainda de clentua 
arreganhada, o mestre da banda marcava 
o compasso do galope com as mos, como um demnio a reger aquele 
inferno.
Rodrigo saiu do salo, abriu caminho com dificuldade por entre a 
multido que se comprimia, agitada, nos corredores e desceu a escada.
214
VII

exclamou, ao chegar  calada.
- Bento!
- Pronto, patro!
O caboclo saltou para a boleia.
- Feliz Ano-Novo! J dei cinco tiros pr ar.
- Feliz Ano-Novo, Bento.
Rodrigo subiu para o carro, repoltreou-se no banco, atirou a cabea 
para trs. Estava comovido, e ansioso por chegar ao Sobrado.
- Toca depressa pra casa!
Bento soltou um guincho e fez estalar o chicote. Os cavalos arrancaram.
- Quantos copos de cachaa j bebeste? O boleeiro voltou a cabea.
- Uns trs. Mas estou firme. Olhe s... Ps-se de p na boleia, 
num equilbrio precrio.
- Est bom, Bento, senta!
Viam-se muitas pessoas nas caladas, e de dentro de algumas casas de 
janelas iluminadas vinha o rumor de vozes festivas.
Rodrigo olhava para as estrelas, pensando alternadamente em Flora e na 
frase que ia dizer ao velho quando chegasse ao Sobrado. Reconhecia que 
devia ter ido passar 
o grande momento na companhia dos seus. Enfim...
Quando o carro defrontava o Hotel dos Viajantes, um desconhecido, 
emergido duma boca de rua, deu dois passos na direo do meio-fio, 
tirou o chapu, ergueu-o no 
ar e bradou:
- Viva o dr. Rui Barbosa, futuro presidente da Repblica!
215
Aconteceu, ento, algo de brusco e inesperado. Surgiu - Rodrigo no 
ficou sabendo ao certo de onde - um soldado da Guarda Municipal. 
Desembainhou a espada e, sem 
dizer palavras, desfechou com ela violento golpe no ombro do civilista. 
Sobressaltado, Rodrigo ergueu-se no carro, que no diminura a 
marcha, e olhou para trs. 
O policial continuava a espancar o desconhecido, que vociferava: 
"Socorro! Esto me matando! Socorro!"
- Pra, Bento! Pra!
Sem esperar que o carro estacasse, Rodrigo saltou para o cho e, antes 
que o boleeiro tivesse tempo de perceber o que se passava, lanou-se a 
correr na direo do 
guarda, que continuava a dar pranchadas no crnio e no trax do 
pobre homem, o qual, cado na sarjeta, soltava gemidos lancinantes, 
enquanto procurava proteger a 
cabea e o rosto com os braos e as mos. Como um touro aulado 
por um pano vermelho, Rodrigo atirou-se sobre o agressor com tanta 
fria, que ambos tombaram enovelados, 
no cho.
Alguns homens que conversavam  porta do Hotel dos Viajantes 
retiraram-se apressados para dentro e ficaram a espiar a cena pelo vo 
da porta. Uma senhora que estava 
debruada  sua janela, nas proximidades, prorrompeu em gritos 
nervosos.
Rodrigo conseguiu dominar o adversrio, arrancar-lhe a espada e 
atir-la sobre a calada. Depois plantando solidamente os joelhos no 
peito do soldado, soqueou-lhe 
a cara com tanta ferocidade que o sangue comeou a escorrer daquele 
nariz largo e picado de bexigas contra o qual Rodrigo parecia concentrar 
todo o seu dio.
Ouviu-se um rudo de patas de cavalo, e um outro guarda municipal, 
montado num tobiano, surgiu duma rua transversal, cie espada 
desembainhada. Bento que, de chicote 
em punho, saltara tambm do carro e corria a socorrer o amo, gritou:
- Cuidado!
Rodrigo voltou a cabea e, vendo o guarda montado que se aproximava, 
ergueu-se, rpido, apanhou a espada e recuou contra uma parede. O 
soldado que ficara estendido 
no cho, soergueu-se, tirou o revlver do coldre, ergueu-o e ia 
alvejar Rodrigo quando Bento, agora a dois passos dele, arrancou-lhe a 
arma da mo com
216
uma chicotada e, sem perda de tempo, saltou sobre ele, ficando ambos 
engalfinhados a rolar na sarjeta.
A luz dum lampio caa em cheio sobre a cabea de Rodrigo. O 
policial montado fez estacar o cavalo, apeou, e, empunhando a espada, 
aproximou-se vagarosamente de 
Rodrigo, que bradou:
- Vem, cachorro!
Ps-se numa atitude defensiva. O guarda, porm, reconheceuo e 
exclamou:
- O dr. Rodrigo! Mas que foi que houve, amigo?
- No sou amigo de nenhum beleguim!
O policial embainhou a espada, deu mais alguns passos  frente mas, 
vendo que o outro continuava em postura belicosa, perguntou:
- Ento no se lembra mais de mim? O Gaudncio... Rodrigo 
lembrava-se. Gaudncio fora peo do Angico, havia
alguns anos, e era agora cabo da guarda municipal, homem temido pela sua 
coragem e pela sua percia no manejo de arma branca.
Rodrigo arquejava. No queria conciliao, ardia por continuar a 
briga, terminar aquilo de maneira mais violenta. O suor escorria-lhe 
pela testa, pelo rosto, pelo 
pescoo, pelo trax. Suas narinas palpitavam. Sua goela estava seca, 
mas um contentamento feroz enchia-lhe o peito, fazia-lhe vibrar o corpo 
inteiro.
- Vem! - tornou a provocar.
Agora muitos curiosos olhavam a cena de longe, sem coragem de intervir. 
Entreviam-se caras por trs de vidraas. Olhos medrosos espiavam por 
frestas de janelas e 
portas.
- Prefiro perder um brao a ter que lastimar um filho do coronel 
Licurgo - disse Gaudncio.
- No quero favor de ningum. Faz de conta que no tenho pai. Sou 
filho das macegas. Vamos, tira essa espada!
Consciente agora da presena dum pblico, mais do que nunca Rodrigo 
sentia o desejo e a necessidade de mostrar-se homem.
Bento e o outro guarda, ainda atracados, rolavam na sarjeta, 
resfolegando, escabujando, trocando socos. O revlver Nagant do 
soldado jazia sobre as pedras do calamento. 
O espaldeirado 
217
comtinuava deitado no cho em posio feta!, chorando 
convulsivamente.
O cabo Gaudncio aproximou-se dos lutadores e, com alguma dificuldade, 
conseguiu apart-los.
- Te marquei a cara, milico duma figa - gritou Bento. E quando ele se 
ps de p, aproximando-se do lampio, Rodrigo viu a boca do 
caboclo escancarada num sorriso 
de satisfao.
- Mas que foi que aconteceu? - perguntou o cabo ao soldado, que se 
erguia com dificuldade, estonteado, os cabelos cados sobre os olhos.
Rodrigo vociferou:
- Esse cachorro espaldeirou aquele pobre homem, s porque ele deu um 
viva ao dr. Rui Barbosa!
Com um leno a comprimir o nariz, que ainda sangrava, o guarda 
procurava justificar-se:
- Eu estava mantendo a ordem quando esse moo me atacou de 
traio.
- Cala essa boca - gritou Rodrigo.
- Doutor - pediu Gaudncio. - Me entregue agora essa espada.
-  uma ordem ou um pedido? - perguntou Rodrigo em voz alta, para que 
todos os circunstantes ouvissem.
-  um pedido.
Rodrigo hesitou ainda por alguns segundos. Depois, com um gesto de 
desprezo, atirou a espada aos ps do cabo, que se voltou para o homem 
cado na sarjeta, dizendo:
- Agora, aquele moo tem que ir se apresentar ao delegado.
- Essa  que no! - protestou Rodrigo. - Sou testemunha de que ele 
no fez nada de mal. Soltou um viva e est no seu direito, porque o 
Brasil  uma democracia!
Aproximou-se do ferido e, ajudado por Bento, p-lo de p. O homem 
tremia e seu rosto estava lavado em sangue. Tomado de nova fria, 
Rodrigo exclamou:
- Vejam o que o beleguim fez neste pobre homem! Isso no pode ficar 
assim. Vou mover um processo contra o bandido. Que
218
pas  este em que a polcia em vez de ser uma garantia de vida 
 um elemento de terror?
- Moo - murmurou Gaudncio com voz apertada -, no me desautorize 
na frente do povo.
Rodrigo e Bento conduziram lentamente o ferido na direo do carro. 
Vultos apareciam s janelas. Exaltado, Rodrigo discursava, como se 
estivesse num comcio cvico:
- Digam pr Titi Trindade que de agora em diante ele vai encontrar 
homem pela frente! Estes abusos tm que acabar! Queremos policiais que 
garantam a tranqilidade 
pblica e no sicrios que a perturbem! - Com uma das mos 
amparava o desconhecido, com a outra fendia o ar, em gestos largos. - 
Queremos na Intendncia um homem 
de bem e no um criminoso!
Embriagava-se com as prprias palavras, e sua voz comeava a ficar 
rouca. Depois de acomodar o ferido no banco do carro, desceu para o 
estribo e dali como duma tribuna, 
bradou num desafio:
- Viva o dr. Rui Barbosa!
- Viva! - respondeu num eco o Bento, j do alto da bolia. Ningum 
mais, porm, correspondeu ao viva. As vozes de ambos morreram no ar.
- Viva o civilismo! - gritou ainda Rodrigo, quando o carro se ps em 
movimento. - Abaixo a tirania!
Naquele instante, o cabo Gaudncio, que tornara a montar no seu 
tobiano, arrancou do revlver e inesperadamente comeou a dar tiros 
para o ar, berrando:
- Viva o marechal Hermes! Viva o Partido Republicano! Os vultos 
desapareceram instantaneamente das janelas. E o
grupo que se achava  frente do Hotel dos Viajantes se dispersou em 
pnico.
Rodrigo entrou dramaticamente no Sobrado, conduzindo o ferido.
219
Ao ver o sobrinho com o peitilho da camisa manchado de sangue, o 
smoking sujo de poeira, a gravata fora do lugar, a cabeleira revolta, 
Maria Valria levou a mo 
 boca, num sobressalto que lhe cortou momentaneamente a 
respirao.
- Que foi isso, menino?
Rodrigo tranqilizou-a com um sorriso. E quando o pai e o irmo se 
aproximaram, apreensivos e curiosos, exclamou:
- Entrei o Ano-Novo com o p direito! Acabo de dar uma sova num guarda 
municipal.
Contou tudo, exaltado. Depois atirou-se numa poltrona, arrancando a 
gravata e desabotoando o colarinho. Ficou derreado, ofegante, a olhar do 
pai para o irmo, enquanto 
o ferido, ainda amparado por Bento, permanecia no limiar da sala de 
visitas, a cabea baixa, ambas as mos a cobrir o rosto.
- E eu aqui sem saber de nada! - reclamou Torbio. Ficou a andar dum 
lado para outro, soprando forte. Depois
plantou-se na frente do irmo e quis saber pormenores da briga. 
Rodrigo deu-lhos com prazer e por fim, fazendo com a cabea um sinal 
na direo de Bento, contou:
- Se no fosse ele, a esta hora decerto eu estava estirado no meio da 
rua, com cinco balas no peito.
Bento arreganhou os dentes, num lento sorriso de orgulho.
- Isso no pode ficar assim - resmungou Licurgo. E ps-se a 
pigarrear repetidamente, como fazia quando estava irritado ou 
embaraado. A plpebra do olho esquerdo, 
que ele tinha mais cada que a do direito, comeou a tremer.
Rodrigo ergueu-se e tomou-lhe do brao:
- Papai,  como eu lhe disse, precisamos o quanto antes dum jornal pra 
desancar essa canalha.
Maria Valria queria saber se o sobrinho estava ferido.
- Qual nada, Dinda! S um arranho nas costas da mo.
- V ento lavar essa cara...
- No. Primeiro temos que fazer curativos nesse homem... Puxou 
afetuosamente o desconhecido pelo cotovelo, f-lo sentar-se e 
limpou-lhe a testa com o leno de seda.
- O leno novo! - advertiu Maria Valria.
220
- Deixe, titia. No tem importncia... Imagine, s porque ele deu 
um viva ao dr. Rui Barbosa... Em que pas estamos? Na Cochinchina?
Bio, que se aproximara tambm do ferido, disse:
- Puxa, que galo! - E com o dedo mostrava, na coroa da cabea do 
paciente, um calombo ao redor do qual o sangue se coagulara.
- A orelha tambm est cortada... - observou Licurgo. - Que 
barbaridade!
De novo o desconhecido rompeu a chorar, como se s agora, ante as 
observaes dos outros, avaliasse a extenso e a gravidade de seus 
ferimentos. No parecia ser, 
entretanto, um choro de dor, e, sim de autocomiserao.
- Este homem est muito ferido... - declarou Rodrigo, que continuava a 
passar o leno no rosto do outro, com um cuidado quase carinhoso.
De braos cruzados e meio encolhida, Maria Valria olhava a cena com 
uma expresso que era um misto de pena e repugnncia.
-  melhor chamar um doutor... - aconselhou ela. Bio soltou uma 
risada.
- A senhora no sabe que seu afilhado  mdico?
- Ah!  mesmo... Rodrigo sorriu.
- Bom, Dinda, embora a senhora no tenha confiana em mim... sou 
mdico. Me traga gaze, atadura, iodo e arnica. Ligeiro!
Maria Valria saiu a buscar o que o sobrinho pedia.
Torbio de novo caminhava inquieto dum lado para outro, a coar-se 
todo, como que subitamente atacado de urticria. Queria ainda detalhes 
da briga. Que cara tinha 
o guarda que comeara o "baile"! Quantas pessoas haviam testemunhado o 
fato? Rodrigo repetiu a histria com mincia e, ao reproduzir seu 
dilogo com Gaudncio, enriqueceu-o 
com frases que no pronunciara, mas que agora achava devia ter dito.
- Esse patife - disse Licurgo, que fazia um cigarro com mos nervosas 
- se revelou depois que entrou pra polcia. Quando
221
era peo do Angico sempre foi de boa paz. Depois que vestiu a farda 
 que ficou bandido.
- Sua verdadeira natureza s agora veio  tona, papai - observou 
Rodrigo. - O meio  tudo.
Maria Valria voltou com os medicamentos e Rodrigo pensou os 
ferimentos como pde.
- Como  o seu nome?
- O senhor no me conhece - respondeu o paciente com voz trmula e 
dbil. - Sou do Passo Fundo. Vim pra trabalhar na fbrica de 
sabo. Me chamo Francisco Paiva, 
mas me tratam por Chicuta.
- Por que foi que deu aquele viva?
- Porque sou do dr. Rui Barbosa. Me veio uma vontade e eu gritei...
- Muito bem. Estava no seu direito. Rodrigo voltou-se para a madrinha:
- Prepare um caf bem forte.
Maria Valria dirigiu-se para a cozinha.
- Que ser que vai dizer o Trindade quando souber de tudo? - perguntou 
Licurgo, batendo o isqueiro para acender o crioulo.
Rodrigo deu de ombros.
- O que eu sei, minha gente - disse ele, passando a atadura ao redor da 
cabea de Chicuta -  que a inana comeou mais cedo que eu 
esperava. O Gaudncio vai contar 
tudo ao chefo. A coisa toda valeu como uma declarao de guerra. 
Gritei bem alto pra todo o mundo ouvir.
Licurgo pitava, puxava seus lentos pigarros, mirando o filho com uma 
admirao e uma ternura que em vo procurava disfarar.
Dali a pouco Maria Valria trouxe o caf, que Chicuta bebeu 
vagarosamente, em goles intercalados de sentidos suspiros.
- O senhor vai voltar pr baile? - perguntou Licurgo.
- No sei... Talvez.
- O melhor  no sair mais hoje - recomendou a madrinha.
- Agora  que eu preciso sair pra no pensarem que me acovardei.
- Isso, Rodrigo! - exclamou Bio.
l
- No convm provocar - aconselhou Licurgo. - Ter coragem e 
hombridade  uma coisa; mas provocar sem necessidade  outra muito 
diferente.
Houve um curto silncio. Maria Valria olhava fixamente para o 
sangue que pingara no cho, perto da cadeira do estranho.
- Bento! - gritou Rodrigo. - Leve este cidado pra casa. O boleeiro 
aproximou-se de Chicuta e perguntou:
- Onde  que vassunc mora? O outro deu-lhe o endereo.
- Onde est o seu chapu?
Atarantado, Chicuta olhou em torno. Depois gemeu:
- Acho que ficou l na sarjeta.
- No se preocupe - interveio Rodrigo, metendo a mo no bolso e 
tirando uma cdula de vinte mil-ris, que apresentou ao homem. Este 
olhou da nota para seu benfeitor, 
como se no compreendesse. Por fim balbuciou:
- No  preciso se incomodar, doutor. Eu... Seus lbios tremeram.
- Tome. Compre outro chapu. Aparea amanh pra gente ver como 
esto esses ferimentos.
Meteu a cdula no bolso do outro e empurrou-o cordialmente na 
direo da porta. Chicuta tartamudeava agradecimentos.
- Bento, carregue o seu revlver.
- J carreguei.
- Muito bem. Fique de olho vivo. O polcia no vai lhe perdoar 
aquela chicotada.
O caboclo soltou uma risada.
- Foi pra ele no se esquecer mais de mim.
Depois que Bento e Chicuta saram, Maria Valria mirou criticamente 
o afilhado e disse:
- Vinte mil-ris foi demais.
- Ora, titia. No troco o que me aconteceu hoje por vinte contos de 
ris. Nem por duzentos!
Olhou para o pai, como a pedir-lhe a aprovao. Torbio, que se 
havia retirado por alguns minutos, voltou com o revlver na mo, 
fazendo girar o tambor.
222
223
- U? - fez Maria Valria, olhando para o sobrinho.
- Um homem prevenido vale por dois...
- Ali! - fez Rodrigo. - Feliz Ano-Novo! Abraou a madrinha, o pai e o 
irmo.
- Onde est o champanha, Bio? Vamos  Viva Clicquot. Agora mais 
que nunca, temos razes para comemorar.
Licurgo sentou-se, fumando pensativamente seu cigarro, olhando para 
Rodrigo com uma ruga de preocupao na testa.
Torbio foi at o quintal e tirou do fundo do poo o balde dentro 
do qual havia posto ao entardecer uma garrafa de champanha, para 
refrescar. Voltando para a sala 
de visitas, abriu-a. A rolha saltou com um estampido, bateu no teto e 
caiu sobre um vaso de vidro, produzindo um sonido musical. O lquido 
espumante jorrou com fora 
contra a cara de Rodrigo, escorreu-lhe pelo colarinho e pelo peitilho da 
camisa.
- Dizem que  sinal de sorte - sorriu Torbio.
- Sangue e champanha! - exclamou Rodrigo romanticamente. - Para mim o 
ano de 1910 no podia ter comeado melhor!
O relgio de pndulo da sala de jantar batia uma hora da madrugada 
quando os dois irmos saram e foram sentar-se num dos bancos da 
praa, debaixo da figueira grande. 
Maria Valria recusara-se a beber champanha; Licurgo tomara apenas um 
gole para acompanhar o brinde que um dos filhos erguera ao Ano-Novo; Bio 
contentara-se com 
uma taa, mas Rodrigo bebera avidamente vrias, sem parar, at 
esvaziar a garrafa. Agora estava tonto, duma tontura area e alegre 
que o fazia confusamente feliz, 
dando-lhe um desejo de abraar e beijar toda a gente. Seu 
raciocnio, porm, continuava claro, duma limpidez surpreendente, o 
que lhe tornava a embriaguez esquisitamente 
deliciosa.
- Bio, a vida  boa - disse ao sentar-se repoltreado no banco. Apertou 
o joelho do irmo, acrescentando: - Imagina o
224
que esta cidadezinha ainda vai ser no futuro... E todo esse progresso 
pode depender dum homem. E esse homem pode ser o dr. Rodrigo Cambar!
Torbio havia tirado os ps de dentro dos chinelos e coava os 
tornozelos furiosamente, murmurando: - "Estes micuins do inferno!" No 
parecia, porm, muito interessado 
nos projetos do irmo.
Rodrigo atirou a cabea para trs. Por entre os ramos da figueira, 
vislumbrou no cu uma estrela solitria.
- Vou comear o quanto antes uma campanha pela imprensa contra o 
Trindade. J tenho o nome para o meu jornal: A Farpa. Que te parece?
Torbio deixou escapar um ronco que tanto podia ser de reprovao 
como de aplauso.
- Minha farmcia ser a casa dos pobres. Meu consultrio estar 
aberto para a humanidade sofredora. E sabes no que estou pensando agora? 
Santa F no tem hospital... 
Pois vou abrir uma casa de sade. Alugo aquele prdio junto  
farmcia... mando fazer umas reformas... Que tal? Ali, Bio, no h 
nada melhor no mundo do que a gente 
se sentir amado, admirado e respeitado.
- Muito peso em cima dum homem s...
- Qual!  bom.
- H muitas coisas boas alm dessas.
- Se h! Milhares, milhes. Viver  bom. Mas a coisa toda no 
ter nenhum sentido se a gente se contentar com uma vida puramente 
vegetativa, limitando-se a comer, 
dormir, amar...
Torbio soltou uma risada curta e seca:
- No tenho nada contra essas trs coisas.
- Mas um homem no pode viver sem um ideal.
- X gua! Vocs doutores complicam tudo.
- No digas isso! Depois que a gente l certos livros, os horizontes 
do esprito se alargam.
- Mas o estmago no encolhe... ou encolhe?
Rodrigo riu da observao do irmo com uma condescendncia de 
mais velho.
225
- Pensa em todas essas maravilhas do engenho humano: o telefone, o 
telegrafo, a luz eltrica, o navio a vapor, a estrada de ferro, o 
microscpio, o automvel, o 
aeroplano. No te esqueas tambm dos milagres da medicina. 
Enquanto estamos aqui conversando fiado, em vrias partes do mundo, 
nesta mesma hora, homens encurvados 
sobre seus microscpios e suas mesas de trabalho descobrem drogas que 
ho de salvar milhares de vidas ou inventam coisas que contribuiro 
para tornar nossa existncia 
mais fcil, mais confortvel e mais bela. No, Bio, a vida  mais 
que dormir, comer, amar, ganhar dinheiro...
- Te dou trs meses pra mudares de idia. Rodrigo entesou o busto.
- No sejas bobo! Nem trinta anos. No vou me entregar.
- Espere...
- Por que dizes isso?
- Porque te conheo e conheo Santa P.  uma terra de baguais. 
Aqui nada vinga. Vais acabar perdendo a pacincia. O melhor  
aproveitar a vida enquanto ela dura. 
O mais  conversa.
Rodrigo ergueu-se, caminhou at o ponto onde terminava a sombra da 
figueira, olhou em torno e finalmente fitou o Sobrado.
- A reforma vai comear l por casa.  preciso mais alegria, mais 
claridade l dentro. Uns quadros de arte, uns mveis novos... Estou 
decidido a casar cedo. O Sobrado 
necessita urgentemente do riso duma criana.
- Pensas s no riso, te esqueces do choro.
- Monstro! Tudo isso, riso e choro, faz parte da mesma maravilha, Bio 
mesmo milagre.
- Ests bbedo.
- Dentro duma semana chegaro os caixes com os livros, o gramofone 
e as chapas. As vozes do Caruso, do Amato, da Patti e da Tetrazzini 
vo encher as velhas salas 
do Sobrado. Os fantasmas de nossos antepassados sero varridos ao som 
do Rigolato, de La bohcmc, de La tmviaut!
Levando a mo ao peito num gesto teatral, comeou a cantarolar um 
trecho de trovatorc. Terminou num agudo desafinado, que procurou 
encobrir com uma risada. Tornou 
a sentar-se.
226
- Um dia hei de visitar Paris - prosseguiu, depois de breve silncio. 
- Mas enquanto esse dia no chegar, hei de fazer o possvel pra 
trazer um pouco de Paris pra 
Santa F. Tenho uns quinhentos livros franceses. Tomei uma assinatura 
por dois anos de L'Illiistratio>i. A Frana  a minha segunda 
ptria. Que seria do mundo sem 
a Frana? Voltaire, Diderot, Descartes, Montaigne, Chateaubriand, 
Victor Hugo, Lamartine, Verlaine, Anatole France... -  medida que 
enumerava esses nomes, ia 
fazendo os gestos de quem despetala um malmequer. - A flor da raa 
humana! Ah! Paris... L  que est a verdadeira civilizao.
Toribio comeou a picar fumo. Rodrigo, que olhava para sua casa, viu 
sair dela um vulto no qual reconheceu o pai. No silncio da noite, 
riscado de quando em quando 
pelo canto de galos, ouviam-se os passos do velho. Por alguns instantes 
ficaram ambos em silncio a acompanhar o vulto com o olhar. Quando o 
viram dobrar a primeira 
esquina e entrar na rua dos Farrapos, Toribio murmurou:
- Vai pra casa da amsia.
A observao chocou um pouco Rodrigo. O assunto para ele era quase 
tabu.
- Ento a histria continua?
- Por que no havia de continuar? Esses rabichos duram a vida inteira. 
E, depois, o velho ainda est no cerne...
- E ele vai todas as noites  casa dela?
Um invencvel constrangimento, que comeara no dia em que Bio lhe 
revelara a existncia daquela ligao, impedia-o de pronunciar o 
nome de Ismlia Car. Mesmo agora, 
ao cabo de tantos anos, leituras e experincias, verificava, um pouco 
decepcionado consigo mesmo, que no podia encarar o assunto com a 
tolerncia mundana dum civilizado.
- Quase todas as noites.
- E quando o velho vai pr Angico?
- A smlia vai tambm. Te lembras daquele rancho no fundo da 
invernada do Boi Osco? Pois  l que ela mora.
- E a madrinha, que  que diz?
- Nada.
227
- Mas sabe de tudo, no?
- Claro. O que  que ela no sabe?
Rodrigo sorriu. Afinal de contas devia ser tolerante. O "velho" Licurgo 
era um homem de carne e osso, como os outros.

Bio acendeu o crioulo. Rodrigo tirou do bolso uma carteira de cigarros, 
levou um  boca e acendeu-o tambm na chama do isqueiro.
- Afinal cortaste teu baile pela metade...
- No tem importncia. Me felicito por ter sado exatamente 
quela hora. Se tivesse sado dez minutos antes ou dez minutos 
depois, no tinha a oportunidade de dar 
aquela lio aos capangas do Trindade.
Pensava em Flora, imaginava o que ela ia sentir quando, no dia seguinte, 
viesse a saber do conflito. Tinha a certeza de que ia crescer ante os 
olhos da moa.
- Bio, participo-te que dentro de um ano, o mais tardar, me caso com a 
filha do Aderbal Quadros.
- Ento esse negcio est mesmo resolvido?
- Claro!
- Como foi a coisa hoje no baile?
- No muito bem. Ela est meio arisca.
- Pudera! Santa F ainda no esqueceu as tuas farras na Penso 
Veneza, as tuas orgias e serenatas com o Neco e o Chiru.
- E contigo.
- Sim, e comigo.
- Mas sou um homem novo.
- Novo? No acredito.  bem como essa histria de AnoNovo. S 
muda o nmero. No resto,  a mesma coisa de sempre. No mudaste 
tanto quanto pensas.
- Mudei, Bio, eu sinto. Na minha profisso, o homem que no 
conservar uma linha moral rgida est perdido.
- Mas valer a pena ter linha?
- Naturalmente!
- X gua! Porto Alegre e os livros te viraram a cabea.
- Qual! Me abriram novos horizontes.
228
- Mas te fecharam muitas portas. O meu consolo  que isso no dura.
Rodrigo tornou a erguer-se, contemplou mais uma vez o cu estrelado, 
aspirou o cheiro de po quente que vinha da padaria Estrela d'Alva, 
evocando-lhe cenas da infncia.
Que fazer agora? Ir para a cama? Cedo demais. De resto, estava 
demasiadamente excitado para poder dormir.
- Ai vida!
Torbio tirou o revlver do coldre, apontou-o na direo duma 
lata que se achava a uns vinte passos da figueira, fez pontaria, detonou 
e acertou em cheio no alvo.
- Me d esse revlver - pediu Rodrigo.
Tomou da arma, mirou a mesma lata e atirou: o projtil passou longe do 
alvo e cravou-se no solo.
- Pontaria mixa!
- Sou um homem civilizado. No preciso de armas.
- Fia-te  Virgem e no corras... Conheces aquela histria de 
Santa Eullha! Diz-que no havia homem no povoado que no andasse 
armado at os dentes. Duma feita, 
apareceu por l um sujeito de boa paz que andava por toda a parte sem 
um canivete no bolso. As gentes da terra comearam a olhar pra ele 
atravessado: "Esse camarada 
est nos provocando". No dia seguinte o forasteiro estava enterrado no 
cemitrio com dez balas no corpo.
- Brbaros! - exclamou Rodrigo. - Retardatrios! Como nica 
resposta, Bio tornou a alvejar a lata velha, que
saltou com um rudo seco. Depois beijou o revlver e tornou a 
guard-lo no coldre.
- O meu melhor amigo - disse. - O que fala a verdade. O tira-cisma.
Um vulto aproximava-se.
- Quem ser? - perguntou Rodrigo.
- O espanhol.
229
Don Pepe Garcia abriu os braos e exclamou:
Av que lindo! Los dos hermanitos juntos, charlando. Yo
crei que era um duelo. Oi los tiros. Que sucedi? Abraou os dois 
irmos calorosamente. Estvamos exercitando a pontaria...
- Pero no en seres humanos!
No - explicou Rodrigo - numa lata, apenas numa lata
velha.
- Por que no ahorrar Ias balas para hendc-r crneos humanos? Para Ia 
redencin de Ia htinvanidad es necesario abatir crneos, muchos 
crneos.
Rodrigo contemplava Pepe Garcia com um interesse afetivo. Gostava 
daquele tipo descarnado e esguio como o prprio Dom Quixote, daquela 
cara tostada, oblonga e de 
aspecto dramtico, de olhos fundos, negros e vivos, bigodes de guias 
cadas pelos cantos da boca, e cavanhaque pontudo como uma lana. 
Apreciava-lhe sobretudo a 
voz rica de inflexes, bem empostada, grave e de colorido teatral, que 
ele sabia usar com riquesa e propriedade, ajudando-a com gestos de suas 
mos esbeltas, que 
possuam tambm uma eloqncia prpria. Nascido na Espanha, 
havia trinta e cinco anos, deixara a cidade natal para correr mundo. 
Viajara - segundo contava - por 
roda a Europa e depois descera para a America do Sul, pintando retratos 
e fazendo exposies nas cidades que visitara. Um dia chegou a 
Santa F e, como acontecera 
a tantos outros estrangeiros - casos de que se orgulhava a crnica 
local - tomara-se de amor pelo lugar e resolvera ficar ali por algum 
tempo. De quando em quando 
lhe davam a incumbncia de pintar o retrato de almnn dos estancieiros 
ricos do municpio ou de membros de suas Famlias, Alm disso, 
dava lies de pintura a Ritinha 
Prates, o que causava certa estranheza em Santa F. (Afinal de contas 
que luxo  esse duma moa aprender essas bobagens de pintura, quando 
o importante mesmo par uma 
dona-de-casa  saber cusimhar, lavar roupa e criar bem os filhos?) Guca 
Lopes e outros maldizentes, porm, afirmavam que quem sustentava dom 
Pepe era a amsia, a 
viva Gclamra, mulata quituteira proprietria duma casa de tbuas 
situada no Purgatrio. Mandava ela seus moleques - filhos do
falecido - vender nas ruas e na estao da estrada de ferro seus 
 quindins, bons-bocados e pastis. Graas a isso o 
espanhol se permitia trabalhar muito 
pouco ou nada, o que lhe dava vagares para levar uma vida bomia, 
andar pelos arredores da cidade a pintar paisagens e tipos humanos - 
quadros que nunca chegava 
a vender. Gostava de freqentar os sales de bilhar e a Confeitaria 
Schnitzler, onde fazia eloqentes dissertaes contra a burguesia 
e o clero. Don Pepe Garcia 
dizia-se anarquista, e anarquista puro. hizia questo de frisai. 
Gabava-se de possuir um exemplar do famoso c ranssimo panfleto de 
Bakunin, escrito em cdigo, o 
Catecismo revolucionrio, a bblia dos anarquistas europeus, e dava 
a entender que estivera metido na conspirao que em 1905 fizera 
explodir uma bomba na Rambla 
de as Flores, em Barcelona.
Rodrigo habituara-se a ver em Pepe - apesar de tudo quanto o espanhol 
pudesse ter de falso - um smbolo das coisas maravilhosas que estavam 
para alm dos horizontes 
de Santa F, do Rio Grande e do Brasil. Don Pepe representava o Velho 
Mundo; dom Pepe, o bomio andarilho, era a Aventura; don Pepe era 
sobretudo a romntica e 
trgica Espanha de Dom Quixote, de El Greco, de Santa Teresa de 
vila, de toureiros, das majas e dos monges. Quando, havia uns quatro 
anos, Rodrigo fora apresentado 
ao pintor e lhe perguntara de onde vinha, tivera dele uma resposta 
enigmtica que lhe incendiara a imaginao de vinte anos.
- Sou natural dum quadro de El Greco que se acha na catedral de Halgar. 
Sou o terceiro monge a contar da esquerda...
Dois anos mais tarde, folheando uma enciclopdia ilustrada, Rodrigo 
dera com uma reproduo do quadro a que dou Pepe se referira: O 
enterro do conde de Orgciz. L 
estava o terceiro monge, de rosto oblongo, olhos postos misticamente no 
cu, bigodes negros, cavanhaque pontudo.
Rodrigo vira muitas telas da autoria de Pepe Garcia e admirava-lhe a 
riqueza sensual do colorido, a preciso do desenho, o raro senso 
plstico. Fazia pouco mais 
de um ano, o artista escandalizara Santa F pintando, numa pardia 
de Goya, La itndnta vestida e La mulatn desnuda, que nada mais eram que 
sua Celanira, num dos 
quadros deitada num catre, vestida de azul; noutro, 
231
completamente nua, as fartas carnes cor de canela esparramadas na relva, 
ao p dum chafariz no qual os santa-fezenses reconheceram, indignados 
e ofendidos, a bica 
de onde vinha a gua que toda a cidade bebia. Os quadros foram 
expostos numa vitrina da Casa Sol - que o Veiga cedera depois de muita 
relutncia - mas a exposio 
no chegara a durar nem meio dia, pois a sociedade de Santa F 
lanara tamanhos protestos, que o delegado de polcia, o faanhudo 
Lao Madruga, mandara retirar 
as "imoralidades" da vitrina. O jornal da terra comentara as telas, 
declarando-as "um clamoroso desrespeito  famlia santa-fezense", um 
"verdadeiro atentado ao 
pudor". O padre Kolb referira-se ao incidente em sua prdica dominical 
e, em determinado ponto do sermo, exclamara, com sua voz estrdula 
de pronunciado sotaque 
germnico, que aquilo era "uma grossa indecncia" - e sublinhara 
sonoramente cada slaba de indecncia com um soco na guarda do 
plpito. Durante vrios dias, Santa 
F no falara noutro assunto. A todas essas, don Pepe mantivera-se 
num silncio digno, numa indiferena olmpica. Uma tarde, porm, 
emborrachara-se de vinho Moscatel 
na Confeitaria Schnitzler e fizera um verdadeiro comcio contra a 
burguesia, contra o clero e contra Deus.
Terminara trepado numa cadeira, a berrar:
- Filisteus! Filisteus!
Lembrando-se agora dessas coisas, Rodrigo sorria e olhava para don Pepe, 
que ali estava na sua eterna roupa preta, de gravata  Lavalire, 
boina basca de pano negro, 
os longos ps magros metidos em alpargatas pardas.
- Que fim tiveram os teus famosos quadros?
- Que cuadros, hijo mio?
- La mulata vestida e La mulata desnuda.
- Ay! Los quem.
- Queimou? Mas por qu?
- Porque me di Ia gana.
- Foi uma pena.
- No Io creo.
Disse isto e fechou-se num silncio ressentido. Mas de repente, 
fixando o olhar em Rodrigo, exclamou com jovialidade:
232
- Ay que rico ests, Rodrigo, en ese uniforme de gala de Ia burguesia. 
- Rodrigo riscou um fsforo e, mostrando o peitilho da camisa, 
perguntou: - Te agradam estas 
condecoraes?
- Caray! Que es eso, hombre?
- Sangue, don Pepe, sangue.
- Pero de quien?
Torbio apressou-se a contar a histria. A medida que se inteirava 
dela, Pepe ia ficando to excitado, que por fim j no tinha mais 
sossego: andava para diante 
e para trs, em passos curtos, rpidos e arrastados.
- Muy bien, hijo. Eres muy hombre. Hay que agitar, hay que agitar.
- E isso  apenas o princpio. Daqui por diante, o Trindade vai 
comer fogo comigo. - Ergueu-se, pegou afetuosamente o brao do 
espanhol. - Precisamos sacudir esta 
cidade de seu marasmo, Pepe!
- Claro, hombre!
- Dentro de um ms, o mais tardar, boto o jornal na rua. Vou comear 
com um artigo de fundo, reduzindo o Trindade a p de mico. Lanarei 
tambm um ataque contra 
o militarismo. Posso contar com teu apoio?
- Claro, hombre, cono! Me gusta Ia lucha. Soy como aquel paisano que, 
cuando llegaba a un pais extranjero, preguntaba: "Hay gobierno? Se hay, 
soy contra!".
Rodrigo de novo olhava para as estrelas.
- Don Pepe, se de repente Deus aparecesse l em cima e... O espanhol 
interrompeu-o:
- Dis no existe.
- Bom, no se trata agora de saber se Ele existe ou no. Vamos supor 
que exista. Se Ele te dissesse: "Pepe, tens o direito de me fazer um 
pedido...", que lhe pedirias?
O pintor ergueu a cabea para o cu:
- Deja ei cielo, hombre, no seas cobarde! Eso es Io que quiero: baja a 
Ia tierra. No te quedes escondido en tu casa, huyendo a toda 
responsabilidad. Ven a contemplar 
Ias injusticias de Ia sociedad burguesa, Ia misria y ei hambre dei 
pueblo, ei mercantilismo
233
de tu Iglesa y Ia hipocrisia de tus sacerdotes. Ven a ver ei mundo 
que hiciste!
Rodrigo ria, sacudindo a cabea. Pepe continuava imvel, os olhos 
erguidos para o alto, como a esperar a resposta de Deus.
- No  isso, don Pepe! Eu me referia a um pedido mais modesto, que 
no obrigasse o Criador a mudar Seus hbitos...
O espanhol baixou o olhar para o amigo.
- Bueno, yo l pediria Ia victoria dei anarquismo en ei mundo. Pero no 
creo que ei viejito me atendiera. Es un reaccionrio!
Deus um reacionrio! Rodrigo desatou a rir. Torbio apenas sorria, 
meio desatento.
- Vocs at parecem duas crianas... Quem olhava para o cu 
agora era Rodrigo.
- Pois eu pediria a Deus - disse ele - uma coisa muito simples e ao 
mesmo tempo muito grande. Pediria que me desse uma vida longa. O resto 
ficava por minha conta...
- Y que quietes hacer con tu vida? - perguntou don Pepe, num tom austero 
de inquisidor.
- Uma bela vida...
- Pero qu es una bela vida?
- Uma vida de prazeres e ao mesmo tempo de bondade e beleza.
- Palabras, hombre, palabras, y nada ms que palabras. Hay que definir 
placer, bondad, bellcza.
- Vocs no vo parar mesmo com essas besteiras?
- Callate, miserable - resmungou don Pepe, sem sequer dignar-se olhar 
para Bio. - Vamos, amigo, hay que definir...
Rodrigo segurou com fora ambos os braos do espanhol.
- Precisarei definir a palavra prazer? Quais so as coisas que do 
prazer na vida? Amar... comer e beber bem... vestir bem... alegrias 
espirituais: ouvir boa msica, 
fazer boas aes, ler bons livros, ter bons amigos, e, acima de 
tudo, a sensao de ser querido, admirado, respeitado... Hein, don 
Pepe? Preciso continuar definindo?
- Placeres tipicamente burgueses...
234
- Quanto  bondade, ora! Levar uma vida de bondade e beleza significa 
viver uma vida harmoniosa, que no seja puramente egosta, uma vida 
em que caibam pensamentos 
e atos altrustas, piedade pelos desamparados, pelos fracos e 
oprimidos. Eu estava ainda h pouco dizendo ao Bio: quero fazer 
medicina para os pobres, talvez chegue 
at a fundar um hospital de caridade. Vou tambm livrar esta cidade 
do seu tirano. Se fazer essas coisas no  viver em beleza e 
bondade, ento j no sei mais nada!
Calou-se, esperando a aprovao do interlocutor. Este, porm, 
continuava calado. Meteu a mo no bolso, tirou um pequeno caderno de 
papel de alcatro e uma bolsa 
de fumo, e comeou a fazer um cigarro com os dedos longos e nervosos. 
Rodrigo esperava.
- Ento, don Pepe, ests satisfeito? O artista olhava na direo 
da igreja.
- Eres un burgus irremediable, Rodrigo. Tu idea dei bienestar social 
est basada en Ia caridad, Ia repugnante caridad cnstiana. Cono! Hay 
que hacer Ia Revolucin 
y no hospirales de caridad. - Cuspiu no cho com nojo. - La palabra 
caridad me marea.
- No entanto  a mais bela das virtudes crists.
- Mierda para ei cristianismo. Rodrigo bateu nas costas do espanhol:
- Teu niilismo  apenas de fachada. No creio que um homem como tu, 
um artista de sensibilidade, um pintor, um poeta das cores, possa viver 
sem uma crena...
Don Pepe enrolou o cigarro, acendeu-o, soltou uma baforada, aproximou-se 
do outro:
- Quien te dijo que nosotros los anarquistas no tenemos una creencia?
- Qual!
- Si seor. Como ustedes, catlicos, tenemos hasta um credo.
- Parem com esse negcio! - protestou Bio. - Vamos fazer alguma coisa 
que preste. Que tal se a gente fosse beber umas cervejas na penso da 
velha Tucha? Por mim, 
esta noite eu dormia ernpernado, pra entrar direito o Ano-Novo.
235
Ningum lhe deu ateno. Rodrigo estava interessado no credo de 
don Pepe. O espanhol tirou o cigarro da boca, recuou dois passos e, com 
voz lenta e clara, recitou:
- Creo en el Socialismo revolucionrio todopoderoso, hijo de Ia 
Justicia y de Ia Anarquia que es y ha sido perseguido por todos los 
polticos burgueses, y naci 
en el seno de Ia Verdad, padeci bajo el poder de todos los Gobiernos, 
por los que ha sido maltratado y escarnecido y deportado, descendi a 
los lbregos calabozos 
y de ellos ha venido a emancipar ai proletariado y est sentado en el 
corazn de los asociados. Desde all juzgar a todos sus enemigos. 
Creo en los grandes princpios 
de Ia Anarquia, Ia Federacin y el Colectivismo; creo en Ia 
Revolucin social que ha de redimir a Ia Humanidad de todos los que Ia 
degradan y envilecen. Amn!
- Amm! - repetiu Bio. - Vamos pra penso.
- Y tu, don Rodrigo, en que crees? En el Dis Todopoderoso, creador 
dei cielo y de Ia tierra, en Ia Santa Madre Iglesia Catlica, 
Apostlica, Romana?
- E por que no?
Mas intimamente tinha uma convico que no ousava formular em voz 
alta: "Eu creio em mim mesmo. Deus que me perdoe, mas eu creio  no 
dr. Rodrigo Terra Cambar".
Don Pepe tornou a acender o cigarro, que se apagara durante o recitativo 
do credo anarquista. Deus dois passos  frente, olhou firme para a 
igreja e berrou:
- Mierda para los curas! Mierda para el sumo pontfice! De trs da 
matriz, o eco devolve-lhe as palavras.
- X mico, don Pepe! - disse Bio. - Pra que essa bobagem? Ningum 
est te escutando...
- Pro hay que agitar, hombre. Hay que agitar.
236
VIII
Num dos primeiros dias de janeiro, Licurgo Cambar fechou o Sobrado e, 
como fazia todos os anos, mudou-se com a famlia e a criadagem para o 
Angico, onde iam passar 
o vero. Rodrigo acompanhou-os um pouco contrariado, pois lhe parecia 
que, depois do desafio que lanara publicamente a Titi Trindade, 
retirar-se para a estncia 
poderia parecer uma fraqueza, uma espcie de recuo.
- E o jornal, papai? - perguntou na vspera da viagem.
- Tem tempo.
- Mas as eleies esto perto...
- O senhor pode voltar em fins de janeiro e ainda pega um ms inteiro 
antes do pleito.
Rodrigo calou-se. No costumava contrariar o pai. Aquela ida para o 
Angico, porm, era o mesmo que gua fria na fervura. Que iriam dizer 
os amigos que lhe conheciam 
os planos polticos, as promessas de luta?
Entrou na jardineira de cara sombria. Bio havia partido a cavalo no dia 
anterior, em companhia do pai. - Os machos vo a cavalo - dissera ao 
despedir-se. - As fmeas, 
de jardineira.
Rodrigo no gostou da brincadeira. Iniciou a viagem de mau humor. 
Quando, porm, entraram em pleno campo, comeou a melhorar. Olhando 
para as coxilhas, sob um cu 
azul e lmpido, teve tamanha sensao de espao livre, ar puro e 
liberdade, que ficou eufrico.
Sim, agora ele via que tinha sido bom virem para a estncia. Precisava 
dum pequeno descanso: estudara demais nos ltimos 
237
meses do curso. De resto na solido amiga do Angico, teria tempo de 
preparar melhor, a campanha, coordenar planos e principalmente ficar a 
ss consigo mesmo por 
algum tempo, o que seria benfico para com 
sua alma. Foi pois com resignao que suportou o calor, a poeira e os solavancos da 
estrada.
Quando se viu a frente da casa da estncia a contemplar a campina, 
redescobriu a terra e ficou comovido. Sentiu-se leve, puro, criana: 
concluiu que a verdadeira 
vida estava no campo. Oh! O ar viciado, que se respirava nas grandes 
cidades, as ruas regurgitantes de uma humanidade suarenta e apressada, o 
cheiro de gs, a fumaa 
das chamins, o barulho do trfego... No havia nada melhor que 
estar perto da terra. Apanhou um talo de capim e mordeu-o. 
Quero-queros guinchavam, e suas vozes 
desgarradas pareciam tornar mais ampla a amplido, dar uma perspectiva 
mais funda  paisagen. Olhou com olhos enamorados as coxilhas dum 
verde apeluciado, onde 
as macegas ondulavam, sopradas pelo largo vento que lhe trazia um aroma 
agreste de mato e grama. Teve, em fim, uma to serena e tranqila 
impresso de beleza e paz, 
que lhe vieram lgrimas aos olhos.
Andou pela Cuzinha e pelo galpo a abraar criadas e pees. 
Deixou de lado as roupas citadinas e vestiu-se  gacha, da maneira 
mais ortodoxa possvel, o que deu 
azo a que Bio observasse:
j chegou o carnaval.
Acompanhou o pai e o irmo nas lidas do campo, procurou provar que 
no era - como podiam os outros imaginar - um mocinho de cidade um 
pelintra que no sabe andar 
a cavalo e  incapaz de manejar o lao por isso j na primeira 
oportunidade que se lhe apresentou fez questo de laar na 
presena dos companheiros. Teve sorte: 
bialou com mestria um terneiro. No primeiro rodeio que participou foi o 
mais ativo do grupo, o que mais gritou, o que mais se agitou 
portou-se com tanto espalhafatoso 
entusiasmo, que Bio em um, momento se acercou dele: Calma, rapaz. Isto 
no vai a matar.
Rodrigo voltou para casa derreado. Comeu abundantemente, caiu na 
Cama Como uma pedra e dormiu at s quatro. Ergueu-se com os 
membros e as costas doloridos 
e a cabea pesada, mas, ao
238
entardecer, aceitou o convite de Bio para irem tomar banho na sanga. E, 
depois de terem nadado por algum tempo, quando j estavam deitados na 
grama, esperando que 
o vento lhes secasse os corpos, Rodrigo espreguiou-se com delcia.
- E bom estar no campo, Bio. Esta, sim,  a verdadeira vida.
- Pensas que ests me contando alguma novidade?
- Claro. Sei que este  o teu cho, que nunca poderias viver como 
vivi em Porto Alegre, todo o santo dia de colarinho e gravata...
- Se eu tivesse de usar essas coisas, acho que morria sufocado.
Rodrigo soltou um fundo suspiro.
- Como  que h gente que passa a vida inteira metida numa
cidade, hein?
De olhos fechados e sorrindo, o outro respondeu:
- Esse teu entusiasmo no clura.
- Por qu?
- Fogo de palha.
Rodrigo ergueu-se, aproximou-se da beira da sanga e ficou a mirar com 
olhos ternos seu prprio corpo nu que a gua espelhava.
Rodrigo saboreava o Angico com os cinco sentidos.
Esquecido agora dos perfumes franceses, apreciava discrimnadamente os 
cheiros da estncia, chamava para eles a ateno de Bio, e quando 
este lhe garantia no distingui-los 
uns dos outros, exclamava com fingida impacincia:
- Ests com o olfato embotado! E preciso ter um nariz civilizado para 
distinguir os cheiros, perceber suas nuanas... Qual! No vou gastar 
plvora em chimango.
Calava-se, achando que estava pregando no deserto.
Gostava de, pela manh, aspirar o odor mido e inocente do sereno, que 
lhe sugeria um mundo, recm-nascido, com as tintas ainda frescas do 
pincel do Criador. Era, 
porm, um cheiro que no o predispunha s cogitaes srias, 
mas apenas ao gozo irresponsvel
239
Um dia, no se sofreou, montou a cavalo e mandou-se a galope na 
direo do sol poente, como se esperasse atingi-lo e trazer para 
casa nas mos, nos alforjes, nos 
bolsos, um pouco daquela luminosa beleza.
- Olha, Bio - disse certo anoitecer ao irmo, que a seu lado mastigava 
placidamente um palito -, olha s aquela cor por baixo da nuvem 
vermelha... Ests vendo?  
verde, parece impossvel, mas  verde.
- X mico.
- Quanta cor no cu! Vai tomando nota: prpura, laranja, carmesim... 
ouro-velho... ouro-novo... prata... malva... roxo... verde... 
cor-de-rosa... pardo-avermelhado... 
azul-desbotado... azul-daprssia... E aquelas nuvens crespas l em 
cima, no te parecem os dorsos dum imenso rebanho de ovelhas? E a 
nuvem mais escura no ser o 
vulto do pastor?
- Ora, no me amola!
 hora das refeies Rodrigo comia com um apetite voraz. As vezes 
Maria Valeria tinha de advertir: "Devagar com o andor, menino. Vais 
tirar o pai da forca?" Ele 
sorria, encabulado, sentindo cair-lhe a mscara de civilizado que com 
tanta faceirice usava desde que chegara. Mas como era possvel ter 
bons modos ante as comidas 
de Laurinda? Um dia, ao fim dum almoo suculento - iscas de rins 
grelhadas, feijoada completa, arroz pastoso com galinha, churrasco gordo 
de ovelha, tudo isso rematado 
por um prato fundo cheio at as bordas de leite com gros de milho 
verde cozido - lembrou-se dos banquetes de que fora conviva em Porto 
Alegre, e cujos menus eram 
escritos em francs. Sim, ele sabia apreciar tanto as delicadezas 
civilizadas da cozinha francesa como as brutalidades substanciosas da 
cozinha campeira do Rio Grande!
Assim Rodrigo passava os dias no Angico. E agora, que j provara ao 
pai, ao irmo, a Fandango e  peonada que sabia andar a cavalo e 
laar to bem quanto eles, podia 
dar-se ao luxo de descansar e levar a vida flauteada. No saa mais 
para o campo com os outros ao raiar do dia. No acompanhava Fandango 
no chimnrro das cinco. 
Dormia at s sete, hora em que saltava da cama para tomar caf. 
Passava o dia em andanas ociosas, dormia sesta
242
larga e  tardinha ia tomar banho na sanga em companhia de Bio. E era 
sempre com uma antecipao alegre de passageiro de vapor que 
esperava a hora das refeies.
Tinha tambm o hbito de caminhar  noite, especialmente quando 
fazia luar. Pensava muito em Flora, ruminava aventuras amorosas dos 
tempos de estudante e, nos calores 
daquele janeiro, j andava a olhar em torno para as chinocas da 
estncia,  procura de alguma que lhe pudesse saciar a fome cada vez 
mais intensa de mulher.

Uma tarde sentou-se no pomar debaixo dum pessegueiro, tirou a faca da 
bainha, apanhou um pssego e comeou a descasc-lo, pensando na 
amante que tivera, havia dois 
anos, em Porto Alegre, uma loura de pele muito alva, cujas coxas tinham 
uma penugem dourada que lhe lembrava, sempre que as acariciava, a da 
casca dos pssegos do 
Angico. E agora, olhando para os pssegos, recordava a amante. Riu e 
como Torbio .se aproximasse, trincando um maracoto que nem se dera 
o trabalho de descascar, 
contou-lhe em que estava pensando.
- Como era o nome dela?
- Que importa o nome?
- Que tipo?
- Clara, loura, olho azul, pernas compridas, estrangeira, mulher de 
classe.
1 orbio sentou-se ao lado do irmo.
- Desse artigo no temos aqui no Angico. O nosso material  
aquele... - E, fazendo avanar o lbio inferior, mostrou a 
rapariguinha que saa da cozinha para dar 
milho s galinhas. Era uma chinoca de dezesseis anos presumveis, 
cabelos negros, pernas curtas e fortes, seios midos mas firmes, rosto 
largo de esquim, de mas 
salientes e olhos oblquos. Trazia um vestidinho de chita azul, muito 
curto, e estava descala. Rodrigo contemplou-a com um olhar avaliador 
de macho.
243
- Quem ?
- A Ondina, filha da Joaninha Car.
- Quem  o pai?
Bio sacudiu os ombros.
- Ningum sabe. Nem a Joaninha. O velho Fandango costuma dizer que 
vaca de rodeio no tem touro certo. A Joaninha tem dormido com quase 
toda a peonada do Angico.
Rodrigo ficou a chupar um caroo de pssego e a olhar para a 
chinoca. Ao redor dela agora as galinhas alvoroadas bicavam o cho, 
num atropelo. Ondina era dum moreno 
acobreado, e o sol da tarde dava-lhe  pele reflexos metlicos. De 
vez em quando lanava olhares enviesados na direo de Rodrigo e 
Torbio, mas seu rosto continuava 
duro, inexpressivo, bem como as faces das anamitas e cingalesas que 
Rodrigo tantas vezes vira - com uma leve curiosidade sexual - nas 
fotografias da Indochina e
do Sio reproduzidas em Illustration. Ondina lembrava-lhe tambm
as minsculas prostitutas de Cholon, das quais falava Claude Farrre 
em Ls civiliss, que ele 
lera com delcia aos vinte e um anos.
No dia seguinte, estando j deitado a comear a sesta, ouviu 
passadas de ps descalos no corredor, imaginou que Ondina cruzava 
pela sua porta... Entrou-lhe na cabea 
uma idia que o deixou excitado. Desde o dia anterior, a rapariga 
namorava-o  sua maneira oblqua e arisca. E ali no silncio 
mormacento do quarto e da hora, sentindo 
nas tmporas as marteladas do sangue, tentou ainda chamar-se  
razo. No podia fazer uma coisa daquelas. Ondina teria quando muito 
dezesseis anos, e talvez no 
houvesse ainda conhecido homem. Mas qual! Aquelas rapariguinhas do campo 
comeavam cedo... No! Positivamente no, Rodrigo. J teu pai 
anda metido com uma Car, 
no  direito que tu tambm...
Revolveu-se na cama, sem achar posio cmoda. "Une jeune filie 
Anamite se promne dans ls rues de Sigon." Ora! O melhor  
dormir, esquecer, tratar de resolver 
o problema de outra maneira.
Fechou os olhos e ficou sentindo o surdo pulsar do corao. Mas como 
lhe seria fcil trazer Ondina para a cama! Fcil? Nem tanto. No 
podia esquecer a presena da 
madrinha, com seu olhar fiscalizador. Quando, nos tempos de estudante, 
ele voltava para
244
casa nas frias, a velha redobrava a vigilncia em torno das 
rapariguinhas do Sobrado. "Onde  que vai, sua bruaca?" - "Vou levar 
este jarro d'gua no quarto do 
seu Rodrigo." - "No vai coisa nenhuma, sua assanhada! Deixe que eu 
levo." E certa madrugada quando, descalo e nas pontas dos ps, ele 
se dirigia para o quarto 
duma delas, Dinda lhe surgira de repente no corredor com uma vela acesa 
na mo: "U... Aonde  que vai a esta hora?" Ele balbuciara uma 
desculpa: ''Estou com sede. 
Vou beber gua na cozinha". - "Ento errou o caminho. A cozinha fica 
l do outro lado, sem-vergonha!" E ele voltara para a cama, trmulo 
de raiva e despeito.
O melhor mesmo era desistir. No entanto, se a Ondina quisesse, tudo 
seria to simples... Havia mil lugares aonde poderiam ir sem que 
ningum os visse: o bambual 
atrs da casa, o mato, o capo da sanga... Bio podia ajud-lo. Mas 
ele no queria revelar ao irmo sua fraqueza. Era o diabo. Onde 
estavam seus propsitos de regenerao? 
Prometera a si mesmo e dera a entender aos outros que ia criar juzo. 
Positivamente, dormir com a Ondina seria uma indecncia, uma 
insensatez. Depois, se descobrissem 
a coisa, que seria dele? Ficaria desmoralizado, perderia toda a 
autoridade. Era arriscar tudo para conseguir apenas um pouco. Um pouco? 
Quem sabe? Tornou a fechar 
os olhos e caiu num torpor do qual passou sem sentir para o sono 
profundo. Acordou irritado e quando, aquela mesma tarde, se meteu na 
sanga com o irmo, perguntou 
com ar casual:
- J dormiste com a Ondina?
- Ainda no.
- Ainda no? Quer dizer que pretendes...
- Como  que vou saber, homem? Tudo depende da hora, do jeito, da 
disposio...
Bio no tinha problemas. Comia quando tinha fome; quando no tinha, 
nem pensava em comida. Costumava dizer que o alimento melhor  sempre 
aquele que est no prato.
- Ser que ela j... - Rodrigo hesitou, com pudor de dizer 
claramente o verbo. Usou um eufemismo bblico - ...j conheceu 
homem?
245
- Como  que vou saber? No sou fiscal.
Dizendo isto, Torbio deu um mergulho e emergiu alguns metros adiante, 
bufando e cuspindo, com o cabelo colado a testa, os olhos piscos. 
Acocorado  beira da sanga, 
Rodrigo estava absorto em seus pensamentos. O outro, que agora nadava 
serenamente, em largas braadas, gritou:
- Por que no experimentas?
- No me interessa.
- Ha-ha!
E no falaram mais no assunto.
Uma tarde,  hora da sesta, Rodrigo viu Ondina descer sozinha a 
coxilha, equilibrando na cabea um cesto de roupa suja. O corao 
comeou a bater-lhe com mais fora. 
Esperou um instante, olhou cuidadosamente em torno e, como no 
avistasse ningum, saiu a andar atrs da rapariga. Quando estavam 
ambos l embaixo na canhada, num 
ponto donde no podiam ser vistos por quem se achasse  frente da 
casa, aproximou-se da menina e fez: Psiu!
Ondina parou, voltou lentamente a cabea, mas em seguida tornou a 
olhar para a frente e continuou a andar, apressando o passo.
- Escuta aqui, Ondina...
Rodrigo sentiu as prprias palavras como que voltarem para ele e 
carem-lhe frias no rosto. O que estava fazendo parecia-lhe ao mesmo 
tempo ridculo e excitante. 
Agora era tarde demais para desistir. Iria at o fim, mesmo que lhe 
surgissem pela frente o pai. a tia e toda a peonada do Angico, mesmo que 
se erguessem do cemitrio 
todos os seus parentes e contraparentes mortos e viessem em bando 
suplicar-lhe que no fizesse aquilo. A chinoca continuava a andar em 
passo acelerado, aproximando-se 
cada vez mais do mato. Isso mesmo que eu quero - pensava ele. - Isso 
mesmo que eu quero.
- Ondina, olha aqui!
246
Ela parou, deps o cesto no cho e, sem olhar para o homem, apanhou 
um talo de grama e comeou a mordisc-lo com seus dentes midos.
- Vamos ali pr mato.
Ela se encolheu toda. Rodrigo apanhou com uma das mos o cesto de 
roupa e com a outra segurou com fora o brao da chinoca, puxando-a 
na direo do mato. Ela se 
deixou levar docilmente.
Eram seis da tarde quando Torbio e Rodrigo desceram para o banho.
- Que  que tens? - perguntou o primeiro.
- Nada.
- Algum bicho te mordeu.
- Por qu?
- Ora, te conheo bem.
Rodrigo no sabia se devia ou no contar ao irmo o que se passara 
entre ele e Ondina. Estava certo de que o outro ia gozar sua fraqueza. 
Precisava, porm, desabafar, 
e Bio era a nica pessoa com quem se podia abrir.
- Aconteceu uma coisa horrvel. Levei a Ondina pr mato  hora da 
sesta.
Por alguns segundos Torbio nada disse. Depois, dando um pontap num 
seixo do caminho, perguntou:
- Que tem isso de to horrvel?
- Ela era virgem!
- E da? Todas as mulheres nascem virgens.
- Bio, estou falando srio.
- Eu tambm.
- Mas que  que vai acontecer agora? E se ela fica grvida?
- No h de ser a primeira nem a ltima.
Rodrigo estava revoltado. Aquele cinismo cruel, aquela indiferena 
ante um assunto to srio, fizeram que, pelo menos por
247
um curto instante, ele pudesse transferir para o outro toda a 
indignidade de seu ato. A sensao de culpa, porm, continuava a 
pesar-lhe dum modo que ele queria 
achar insuportvel.
No havia ele lido e amado a Ressurreio de Tolsti? No 
falara muitas vezes nos humilhados, nos ofendidos, nos desprotegidos da 
sorte, prometendo a si mesmo ser 
seu paladino, seu templrio? Apesar de todos esses propsitos, havia 
desonrado uma pobre menina de dezesseis anos! E a idia de que um 
filho - um filho de sua carne 
e de seu sangue - pudesse nascer dela, enchia-o dum temor mesclado de 
repugnncia. E nessa repugnncia descobria, decepcionado, um 
sentimento de aristocracia, uma 
conscincia de casta. Era-lhe friamente desagradvel a idia de 
que o sangue dos Cambars, senhores do Sobrado e do Angico, pudesse 
misturar-se com o dos Cars.
Como se estivesse a ler-lhe os pensamentos, Torbio troou:
- Essa histria de gostar das Cars parece que est na massa do 
nosso sangue, hein?
Rodrigo no respondeu. Fechou-se num silncio casmurro e assim 
acompanhou o irmo at a beira da sanga. Despiram-se. Torbio 
apanhou uma pedra e jogou-a no poo. 
Rodrigo sentou-se, enlaou os joelhos com os braos e ficou a olhar 
pensativamente para a gua.
Vendo-o apreensivo, o outro pousou-lhe a mo no ombro:
- No h de ser nada. Ela pode no pegar filho.
- E se... pegar? - perguntou Rodrigo, usando o verbo com alguma 
relutncia.
- A criana nasce, cresce e vive como qualquer outra.
- Mas eu me refiro ao lado moral da questo.
- Que lado moral, homem?
- Bem sabes o que eu quero dizer.
- Ora, tu no ests preocupado com o lado moral. O que tens  medo 
que o velho e a titia descubram a patifaria.
Rodrigo sentiu as orelhas em fogo. Mais uma vez se via desmascarado. Bio 
era diablico, botava o dedo direitinho em suas feridas, com olho de 
mestre. Mas nem por 
isso Rodrigo queria admitir que seus remorsos eram puro medo, pois se 
fossem, ento
248
ele no passaria dum miservel, dum pulha e de nada lhe teria 
servido os anos passados no ginsio e na academia, de nada lhe teriam 
valido os muitos livros que lera 
nem os protestos de nobreza e decncia que fizera. Tinha suficiente 
hombridade para enfrentar o pai e assumir a responsabilidade de seu ato. 
O que ele sentia mesmo 
- queria convencer-se disso - era pena da rapariguinha.
- Mas eu desonrei a menina! - exclamou. Mal, porm, pronunciara a 
palavra desonrei, sentiu o que ela tinha de literrio, de falso.
- Acho que os Cars nem sabem o que  honra - disse Torbio, 
estendendo-se no cho e apoiando a cabea sobre as mos 
tranadas. - Olha, a me de Ondina tem oito 
filhos e nunca se casou. At hoje, que eu saiba, ningum se lembrou 
de perguntar quem so os pais das crianas.
- Mas  isso que me revolta, Bio! - exclamou Rodrigo, pondo-se de p 
bruscamente. - Por que  que a virgindade numa moa branca e rica 
pode ser mais preciosa que 
a duma coitadinha como a Ondina?
- U, rapaz! Ests talando como se fosse eu que tivesse feito mal 
pra ela...
- Eu sei. O culpado sou eu, e isso  que me atormenta.
O que realmente o preocupava - reconhecia ele, muito a contragosto, era 
ter de enfrentar o pai e a tia, caso estes viessem a saber do que se 
passara. Era-lhe detestvel 
a idia de cair do pedestal que com tanto cuidado erguera e em cima do 
qual se sentia to bem.
- Vais te habituar... - sorriu Torbio. - Te lembras do Mane Bigode? 
Tinha dez mortes na conscincia, se  que o homem tinha 
conscincia. Um dia perguntei: "Mane, 
me diz uma coisa. Que  que a gente sente quando mata um homem?" Ele 
coou a cabea, me olhou com aqueles olhos de peixe morto e 
respondeu:
Pois menino o primeiro homem que matei meio que me embrulhou o estombo. 
Fiquei louco de remorso, jurei que nunca mais puxava de arma. Mas qual! 
Um dia tive de encostar 
o cano do revlver na paleta doutro cabra e incendiar ele por dentro. 
No sou bandido, sou um homem de bem. Mas porm no tenho sorte.
249
Onde vou, sempre me provocam e eu tenho que me defender. Vassunc 
compreende... Assim fui sendo obrigado a despachar outros. Depois do 
terceiro, me acostumei. 
Hoje acho que at gosto da coisa". - Bio soltou uma risada. - Tu 
tambm vais te "acostumar". No penses que a Ondina ser a 
ltima. Elas provocam, rapaz, e a gente 
tem que se defender.
- Cnico!
- Vamos cair n'gua antes que anoitea.
Naquela noite, Rodrigo no pde dormir. Achava o quarto quente e 
abafado, sentia um peso no peito. Ficou por muito tempo a revolver-se na 
cama. Depois acendeu uma 
vela e olhou o relgio. Onze e vinte. Ergueu-se e saiu a caminhar pela 
frente da casa, sob os cinamomos. Era uma noite clara, de lua 
minguante, e a solido das 
campinas deu-lhe uma vaga, indefinvel sensao de angstia. 
Pensou em Ondina, no mal que lhe fizera, e veio-lhe um agudo sentimento 
de remorso, esquisitamente temperado 
pela lembrana do prazer que a rapariga lhe proporcionara.
Engraado - refletiu - como a gente se lembra de certos detalhes sem 
importncia. Por exemplo, aqueles chapus-de-cobra que ambos haviam 
esmagado no mato ao se deitarem...
Caminhava dum lado para outro, em passadas lentas, fumando cigarro sobre 
cigarro. Por fim, foi buscar uma rede, armou-a entre duas rvores, 
deitou-se nela e resolveu 
passar ali o resto da noite. Comeou a balouar-se de leve, os 
pensamentos embalados por aquele ritmo de bero. Cerrou os olhos. 
Viu-se na calada da rua do Comrcio, 
de espada em punho, a bradar para o guarda municipal: "Vem, cachorro", 
sob os olhares de espectadores invisveis... Depois estava a danar 
com Flora, apertando-lhe 
os seios contra o peitilho da camisa manchada de sangue... "Eres muy 
hombre" - dizia-lhe don Pepe sob a figueira... Um dlm 
azul-ferrete, uma voz aflautada: "Uma 
profunda convico filosfica amparada por longa experincia'". 
Idiota! Vem, cachorro!... Viens, rnon
uma
>50
arnour... Mlanie de camisola cor-de-rosa... Viens, mon joujou... Mais 
cette tache sur t chemise... qu'est-ce que c'est que ca Mon dicn! 
Tu es bless? Oui, je 
suis bless d'amonr. Elle s'appelie Flora. Un joli nom.
Um estalido despertou Rodrigo de seu devaneio. Abriu os olhos, 
soergueu-se na rede e olhou em torno. Ningum. Quem sabe se Ondina me 
viu sair e veio para c? Esta 
esperana alterou-lhe subitamente o ritmo da respirao. Se ela 
aparecesse, podia traz-la para a rede: precisava de alguma coisa que o 
ajudasse a passar aquela 
noite de insnia. Estupidez, pura estupidez! Como podia conciliar seu 
remorso e seu arrependimento com tal desejo? O homem  um animal 
ilgico, um feixe de contradies. 
O melhor mesmo  dormir.
"Sossegue o pito e durma!" - gritou Maria Valria em seu pensamento. 
Magra, alta, ereta com uma vela na mo, no meio do corredor do 
Sobrado. "Sossegue o pito e durma!"
Grilos trilavam. Um morcego saiu do beiral da casa, voejou por um 
instante por entre as rvores e depois se sumiu na escurido. 
Aquelas aves sempre causavam a Rodrigo 
um medroso mal-estar. Laurinda contara-lhe histrias de morcegos que 
 noite entravam nas casas para sugar o sangue das pessoas 
adormecidas. Maldita Laurinda! Os 
"causos" da mulata lhe haviam injetado no sangue o veneno de muitas 
supersties. Assobiar de noite  chamar cobra. Galo que canta 
fora de hora: moa roubada. Noite 
de sexta-feira, lobisomem na rua. De pouco lhe servira o antdoto da 
experincia adulta e da cultura. O efeito do veneno continuava a 
fazer-se sentir.
Rodrigo acendeu outro cigarro. Mas que era a moral seno tambm uma 
superstio? O homem no podia viver sem mitos. Inventava-os para 
depois escravizar-se a eles. 
(Bonita frase, belo assunto para um artigo.) Seu pai tinha o mito da 
honra, o mito do "fio de barba  documento". Havia o tremendo mito da 
virgindade da mulher. 
O da cavalaria rio-grandense, que Garibaldi considerava a mais guapa do 
mundo...
Cerrou os olhos e imaginou Flora deitada a seu lado, a cabea pousada 
em seu ombro, os cabelos recendendo a jasmim. Felicitou-se por no ter 
para com ela nenhum 
pensamento lbrico. No
251
fim de contas no sou nenhuma besta - refletiu, sonolento. Sou capaz 
de sentimentos puros. Atirou longe o cigarro e enrodilhou-se, procurando 
uma posio cmoda.

Acordou com o sol na cara e no ficou sabendo ao certo se havia 
dormido ou no durante a noite. Se dormira, fora um sono agitado de 
febre, cheio de sonhos em torno 
duma idia fixa: estava sempre a explicar ao pai que nada tinha a ver 
com ondina Car, pois o filho que ela trazia no ventre era de 
outro... Lembrava-se tambm 
de que se vira, com pesada sensao de culpa, diante dum tribunal 
que o acusava de ter enterrado uma criana viva, mas uma criana que 
era ao mesmo tempo uma raz, 
uma cobra... Santo Deus, que sonho confuso e aflitivo!
- Venha tomar caf, seu preguioso! - gritou Maria Valria, que 
surgira  porta da casa.
Rodrigo atirou os ps para fora da rede e por algum tempo ficou 
estremunhado, os cotovelos apoiados nos joelhos, o queixo no cncavo 
das mos.
- Por que dormiu a fora?
- Porque me deu gana. Bocejou.
- Um bicho cabeludo podia lhe cair na cara.
- Ora!
- Venha tomar caf. Faz horas que seu pai e seu irmo saram pr 
campo.
- E eu com isso? - perguntou ele de mau humor, pondo-se de p.
Maria Valria deu-lhe uma palmada nas ndegas.
- O que voc merecia era uma boa sova de chinela.
Rodrigo lavou o rosto, escovou os dentes, penteou-se, namorou-se por um 
instante no espelho e por fim foi sentar-se  mesa. Ondina entrou com 
o bule de caf e a 
panela de leite.
252
- No se usa dar bom-dia pras pessoas? - repreendeu-a Maria Valria. 
Rodrigo escrutou o rosto da madrinha e concluiu, aliviado: Ela no 
desconfia de nada.
Ao retirar-se da sala Ondina lanou para o rapaz um rpido olhar 
dissimulado.
Rodrigo tomou apenas uma xcara de caf preto e acendeu um cigarro. 
Estava sem fome, a cabea oca, as plpebras pesadas.
- No vieram os jornais, Dinda?
- Ainda no.
- Estou aflito por saber o que est se passando por esse mundo velho.
- Pra qu?
Rodrigo sorriu. Segundo a filosofia de sua madrinha, "o mundo no  
de nossa conta: que cada um cuide de sua vida e deixe a dos outros".
- Estou interessado por notcias da campanha civilista. Por mim, eu 
j estava na cidade em plena luta. Se no fosse o papai...
- Seu pai sabe o que faz. Rodrigo ergueu-se.
- Coma ao menos um bolinho de coalhada, menino.
- Estou sem fome.
- Est sentindo alguma coisa? Que foi que houve?
- No houve nada. No passei bem a noite.
Maria Valria lanou-lhe um olhar oblquo e foi cuidar de seus 
Que fazeres. Rodrigo apanhou um livro - L disciple, de Paul Bourget - 
abriu-o e sentou-se na cadeira 
de balano. No conseguiu, porm, concentrar a ateno no que 
lia. Fechou o volume com impacincia e saiu a caminhar pelo campo, 
falando em voz alta para si mesmo, 
procurando convencer-se de que tudo estava bem e de que o simples fato 
de ele ter levado para o mato uma bugrinha, alterando-lhe levemente a 
anatomia, no podia 
de maneira alguma arruinar sua vida, sua carreira. Se pudesse, seria o 
mais colossal dos absurdos!
Afinal de contas sou ou no o mesmo Rodrigo Cambar de anteontem? E 
ao perguntar-se isso, aspirava com fora o ar fino da manh. Vou ou 
no abrir um consultrio 
e dedicar boa parte de meu tempo a ajudar os pobres? Sou ou no sou um 
homem 
253
profundamente bom e justo? Quem estiver sem pecado que me atire a primeira 
pedra! Quem ousar levantar o brao contra mim? Papai, o amante da 
Ismlia? Quem?
Estava tudo bem, concluiu, parado no toldo duma coxilha, sentindo no 
rosto a fresca brisa da manh. Dentro de poucos dias voltaria para a 
cidade e Ondina seria uma 
apagada lembrana do passado. Se ela aparecesse grvida... Bom, mas 
no era quase uma tradio no Angico no terem os filhos das 
Cars pais certos? Ora, o conde 
Tolsti  o conde Tolsti e eu sou eu. Romance  uma coisa, vida 
 outra muito diferente. E, meu caro dr. Rodrigo, h momentos em que 
precisamos ter a coragem de 
ser cruis e empedernidos, em benefcio dum bem maior. O essencial, 
meu amigo,  no reincidir no erro. Faz de conta que a Ondina 
morreu, sumiu-se, nunca existiu. 
Prometo a mim mesmo que no me meterei mais com essa rapariga nem que 
ela me venha suplicar de joelhos.
Voltou para casa, assobiando.
Almoou com grande apetite e, quando Ondina entrava com os pratos, nem 
sequer olhava para ela. Falou-se  mesa nas eleies que se 
aproximavam. Licurgo achava que 
podiam lanar o primeiro nmero do jornal em meados de fevereiro.
- No fica perto demais das eleies? - perguntou Rodrigo. O pai, 
que ia levar a boca o garfo com um naco de churrasco
passado na farinha, deteve-se e respondeu com uma pergunta:
- Mas o senhor ento est convencido mesmo que com o seu jornal pode 
mudar a situao?
- Como!? - exclamou Rodrigo, subitamente agastado.
- Fazer que toda essa gente de Santa F que vai votar no marechal mude 
de opinio e vote no dr. Rui?
- Claro que estou. Se no estivesse, o jornal nasceria morto.
- No se iluda, meu filho. Nenhum jornal tem essa fora.
- Isso  pessimismo, papai.
- No sou pessimista.  que sei ver as coisas como elas so. Mas 
faa o seu jornal, vale a pena, precisamos ter um rgo da 
oposio em Santa F.
Rodrigo fizera uma bolinha com miolo de po e agora brincava com ela, 
de olhos baixos, pensativo.
254
- Retire os pratos! - gritou Maria Valria para uma das chinocas que 
serviam a mesa.
- Quanto o senhor acha que precisamos gastar com o jornal?
- No sei, papai - respondeu Rodrigo, sem erguer os olhos. Estava 
descorooado. O pessimismo do pai deixara-o gelado.
- A primeira coisa que temos de fazer  comprar uma tipografia. 
Dizem que o Mendanha quer vender a dele. Precisamos tambm de papel, de 
um ou dois tipgrafos...
Ficaram a fazer planos, a esmiuar detalhes, e com isso Rodrigo aos 
poucos se foi reanimando. Quando veio a sobremesa, estava de novo 
entusiasmado:
- Pode ser que A Farpa no d nenhum voto para o dr. Rui Barbosa, 
mas uma coisa lhe garanto: vai fazer poca, e o lombo do Trindade vai 
arder.
Licurgo sorriu, partiu um marmelo cozido e deitou os pedaos no prato 
de leite.
- Vocs vo mas  botar dinheiro fora - disse Maria Valria. E 
em seguida, como quem lava as mos: - Enfim, no  da minha conta 
e o dinheiro no  meu...
Torbio ergueu os olhos do prato de leite:
- Dinheiro foi feito pra isso mesmo, titia.
- No concordo com o senhor - interveio Licurgo, limpando os lbios 
na fmbria da toalha. - No se deve botar dinheiro fora. Mas 
considero bem empregado o que se 
gastar com um jornal pra atacar aquela corja.
Rodrigo lanou para o pai um clido olhar de agradecimento.
 hora da sesta, deitou-se e ficou a fumar. Fazia muito caloi e as 
moscas o importunavam. Quedou-se numa modorra pesada, a ouvir os 
rudos de fora - um cachorro 
latindo longe, o rechinar duma carreta - e houve um momento em que 
acompanhou com o olhar os movimentos duma lagartixa na parede caiada. 
Pela porta aberta enxergava 
o corredor sombrio. Por que deixara a porta aberta, contra seu hbito? 
Para entrar a aragem... Mentes, velhaco! Deixaste a porta aberta na 
esperana de que a Ondina 
passe no corredor,
255
olhe para dentro e... Mentes, velhaco! Para mim Ondina morreu. Daqui 
por diante tudo vai mudar. Mentes, velhaco!
Fechou os olhos mas, ouvindo estalar o soalho, abriu-os imediatamente, 
focou-os no vo da porta e ficou  espera... O silncio 
entretanto, continuava.
Dorme, homem, dorme e esquece. Revolveu-se e acabou ficando numa 
posio de onde podia ver quem passasse no corredor. O melhor era 
fechar a porta e tudo ficaria 
resolvido. Ergueu-se em pensamento, bateu com a porta, voltou para a 
cama. Na realidade, porm, continuou de olhos abertos, com o desejo a 
pr-lhe um calor latejante 
no corpo.
Acendeu outro cigarro, ps-se a olhar a fumaa que subia para o 
teto. O melhor mesmo  ir embora pra cidade o quanto antes... Est 
na hora da luta. No posso perder 
mais tempo no Angico. Nem ficar fazendo estas bobagens...
Ali estava a soluo. Ir embora... Jogou longe o cigarro, fechou os 
olhos e procurou dormir. Ouviu passos leves no corredor. Ou seria 
iluso? Ondina passou pela 
frente da porta, devagarinho, lanou para dentro do quarto um olhar 
furtivo e desapareceu. Pouco depois tornou a passar. Rodrigo fez psiu! A 
rapariga parou, voltou 
a cabea para todos os lados, hesitou por um instante e por fim 
entrou.
- Fecha a porta - sussurrou ele.
Nos dias que se seguiram, muitas vezes teve a chinoca  hora da sesta. 
Uma tarde saa pela porta dos fundos para ir ao encontro dela, atrs 
do bambual, quando Laurinda, 
que estava no pomar, pondo tripas a secar, lhe disse:
- Ento j vai fazer safadeza com a Ondina? Rodrigo estacou, num 
sobressalto:
- Que bobagem  essa! - reagiu ele, com uma indignao que estava 
longe de ser fingida.- Que  que tu pensas que eu sou?
- Um safado igual aos outros.
256
A princpio Rodrigo quis continuar negando, depois achou melhor mudar 
de ttica.
- Que  que tu queres? Se sou safado a culpa  tua. Te lembras das 
patifarias do Malasarte que tu nos contavas?
A mulata desatou a rir, e suas bochechas lustrosas tremeram. Rodrigo 
olhou em tormo para ver se algum os escutava. E, depois de 
certificar-se que no havia ningum 
nas proximidades, acercou-se da cozinheira.
- Se no contares nada pra ningum, te dou um presente bonito.
- Contar pra qu? Que  que ganho com isso? Sina de Car fmea 
 dormir com Cambar macho. No quero presente nenhum, no me 
vendo.
E como Rodrigo a enlaasse num abrao carinhoso, ela se desvencilhou 
com um repelo.
- V embora duma vez, no deixe a china esperar. Ela tem outros que 
atender.
- Hein?
- U... Tu no sabia que tinha scio nesta histria?
- Scio?
- Scio, sim senhor. O Bio  um deles.
- Mentira!
- Se encontravam no marinho da sanga. O outro  o Quincas. O Quincas 
era um dos pees mais jovens do Angico. Rodrigo
estava de cara no cho, ferido no seu amor-prprio, desconcertado 
por uma aviltante sensao de logro.
- Ests falando a verdade?
- Por esta luz que me alumeia.
- Mas como  que sabes? Quem foi que te contou?
- Ningum. Eu vi. No sou cega e no nasci ontem. Mas por que tu 
est com essa cara de defunto? Ser que tambm j pegou rabicho 
pela Carezinha?
- Rabicho coisa nenhuma! E que nessas coisas no admito sociedade.
Deu um pontap num pssego que jazia no cho, e voltou para dentro 
de casa, pisando duro. Agora sim, Ondina estava morta. A bruaquinha! 
Enganando-o com o Bio e com 
um peo! Tudo
257
aquilo era sujo, indecente, ridculo, principalmente ridculo. Bem 
feito, para no seres bobo. Andavas com escrpulos, perdeste uma 
noite de sono, meteste at o 
conde Tolsti no assunto e no entanto a chinoca te engana!
Com um sentimento de frustrao fechou-se no quarto, abriu um livro 
e tentou ler. No conseguiu. Comeou a fazer planos, a compor 
mentalmente o primeiro artigo de 
fundo contra o Trindade e sua camarilha. Por um instante concentrou toda 
a sua raiva no intendente de Santa F.
A hora do banho, desceu para a sanga ao lado de Bio, calado e 
carrancudo.
Depois de se despirem, sentaram-se  beira do poo. Rodrigo olhou 
para o irmo.
- Traidor! Sei de tudo. O outro desatou a rir.
- Quem foi que te contou?
- A Laurinda.
- Pois ela me pegou no sufragante.
- Podias ao menos ter me contado...
Bio deu uma sonora palmada nas costas do irmo.
-  bom aprenderes a no confiar muito em mulheres. So todas 
iguais. Rodrigo olhava para a gua, pensando en Flora.
- No, Bio h mulheres decentes. Ns  que somos uns porcos.
Era-lhe agradvel assumir aquela atitude de auto-recriminao.
- No digas asneiras. Vamos cair na gua.
- Escuta, a Ondina te disse alguma coisa a meu respeito?
- No. O bom  que ela nunca fala.
- E tu sabes que o Quincas tambm anda com ela?
- S o Quincas? O Antero tambm.
- O negro Antero!
- O negro Antero.  pra aprenderes, rapaz. E tu pensavas que eras o 
nico, o queridinho, o preferido!
Para disfarar seu embarao, Rodrigo comeou a assobiar. Depois 
soltou um fundo suspiro e refletiu filosoficamente: "Pelo 
258
menos agora estou livre de todo o remorso, isento de qualquer 
responsabilidade".
Um prprio vindo da cidade trouxe um pacote de jornais, que Rodrigo 
abriu sofregamente. Destruiu sem ler os nmeros de A Voz da Serra - 
que outra coisa no eram 
seno o eco desagradvel da voz servil do rbula Amintas, a cantar 
loas ao Trindade, ao marechal Hermes e ao "glorioso Partido Republicano" 
- e deitouse na rede, 
deliciado, com um mao de exemplares do Correio do Povo. Leu-os 
metodicamente, comeando pelo nmero mais atrasado, que era o de 5 
de janeiro, e concentrou-se nas 
notcias polticas. A campanha presidencial prosseguia. Os 
telegramas do Rio transcreviam a plataforma do candidato civilista e 
resumiam uma verrina do Correio da 
Manh contra o marechal.
E naquele mesmo dia, quando se achavam todos reunidos ainda ao redor da 
mesa do jantar, depois de retirados os pratos, Rodrigo foi buscar os 
jornais a fim de ler 
para a tia, o pai, o irmo e Fandango as principais notcias que 
tivera o cuidado de assinalar.
- Vou comear por uma que no  de poltica mas que me pareceu 
fascinante. Prestem bem ateno.
A luz do lampio caa sobre a pgina rsea do jornal estendido 
sobre a mesa. Sentada muito tesa, Maria Valria remexia num cesto de 
costura. Licurgo foi sentar-se 
na cadeira de balano, tendo preso nos lbios o grosso cigarro de 
palha e, a um canto da boca, um palito. O velho Fandango alisava uma 
palha com a lmina da faca, 
e Bio, que nunca fumava na frente do pai, jiboiava sonolento em sua 
cadeira.
- O artigo intitula-se "Aeroplanos contra dirigveis'' - disse 
Rodrigo. Leu com voz pausada e clara: - Desde que a navegao 
area entrou numa fase mais positiva, 
e foi assim realizando rpidos progressos, pensou-se logo no proveito 
que a arte da guerra poderia tirar dela. Todas as opinies foram logo 
partidrias do dirigvel, 
principalmente pela maior capacidade de transporte que ele apresenta. 
Mas
259
agora, depois das performances da semana histrica de Rcims e da 
grande proeza de Blriot. transpondo a Mancha... - Ergueu os olhos e 
esclareceu: - A Mancha  o 
canal que separa a Inglaterra do continente europeu. Deve ter mais de 
quatro lguas de largura...
- A Ia fresca! - exclamou Fandango. - E esse sujeito atravessou essas 
quatro lguas avoando?
Rodrigo sacudiu a cabea afirmativamente.
- No acredito - declarou o velho.
- Mas est aqui no jornal.
-  inveno. Rodrigo prosseguiu:
....parece que no so os dirigveis, mas sim os aeroplanos os que 
se consideram mais utilizveis na guerra.
Us aeroplanos na guerra? Fandango estava escandalizado.
-  uma indecncia, uma traio - disse ele. - Homem deve brigar 
contra homem, de frente.
Licurgo sacudia a cabea, concordando.
- Indecncia por indecncia - opinou Maria Valria, que cerzia um 
p de meia - a guerra no  l pra que se diga.
- Mas guerras sempre houve - disse Torbio. - Guerra  divertimento 
de homem.
- Pra mim  uma barbaridade - retrucou ela, ajeitando os culos no 
nariz.
- Ah! - exclamou Rodrigo. - Temos aqui uma notcia especial. Prestem 
ateno: Em Saint-Cyr o aeronauta Santos Dumont caiu duma altura de 
vinte e cinco metros, recebendo 
escoriaes nas pernas e na cabea.
- Bem feito! - resmungou Fandango. - E pra ele no se meter a avoar 
como passarinho. Esses estrangeiros so mui sotretas.
- Santos Dumont no  estrangeiro, Fandango.  o nosso patrcio 
que inventou o aeroplano.
- Podia empregar su tiempo inventando una cosa mejor. Por exemplo, uma 
porteira que se gritasse na frente dela e a bicha se abrisse sem ser 
preciso a gente descer 
a hacer fuerza.
Licurgo sorriu. Maria Valria meneou a cabea.
260
- Quanto mais coisas inventam, mais difcil se torna a vida. E bem 
como dizia a finada Bibiana...
Torbio levantou-se, saiu da sala e foi para a frente da casa fazer um 
cigarro. Rodrigo esfregou as mos numa antecipao:
- Agora vamos s notcias da poltica. Preparem-se para ouvir 
boas. Papai, temos aqui um comentrio da plataforma que o nosso 
candidato leu no dia 16 deste ms, 
no Rio. Escutem: Sua profisso de f foi um rebate de perigo  
volta do terror militar que originou a Conveno de Agosto, a qual 
desprezou tudo, estabelecendo como 
seu objeto exclusivo um movimento de reao contra o militarismo 
renascente, sendo o programa da atualidade a consolidao da ordem 
civil.
Licurgo escutava, de testa franzida. Fandango aproximara-se mais de 
Rodrigo, a boca entreaberta, a mo posta em concha atrs da orelha.
- Preconiza a necessidade da reforma da Constituio. Declara-se 
infenso ao intervencionismo do presidente da Repblica rios Estados.
- Muito bem! - exclamou Licurgo.
- Prope o melhoramento do ensino secundrio, a remodelao " do 
ensino jurdico, etc... e tal... esta parte no interessa muito... 
agora deixem ver onde est um 
trecho de escachar... ta-ta-ta - combate a publicidade do voto a 
descoberto, que representa a intimidao e o suborno... no  
isso... ah! aqui est.
Aproximou mais a cadeira da mesa.
- Referindo-se ao Exrcito e  Armada, lembra os servios que lhe 
prestou, em 95 e 98...
- Eu me lembro muito bem - resmungou Licurgo.
- Entretanto, a sua estima por elas no  um vil sentimento de 
ambiciosos cortesos e sicofantas da fora. Acrescenta que essa 
estima  um sentimento veraz e livre 
de patriota, e que est na mesma proporo do horror que lhe 
inspira o militarismo.
- Muito bem! - exclamou Licurgo. Teve um acesso de tosse que durou por 
alguns segundos. Maria Valria murmurou para o sobrinho:
- Enquanto ele no deixar de fumar, no sara dessa tosse.
261

Quando viu o pai de novo calmo, a acender o cigarro que se apagara, 
Rodrigo prosseguiu:
- Diz ver na candidatura militar banidas a organizao, a 
disciplina, a legalidade. - Nesse pomo Rodrigo no estava mais a ler 
um comentrio de jornal para membros 
de sua famlia, mas sim no alto duma tribuna, a falar s massas. - 
Diz que sua plataforma  o grito duma conscincia, a sntese duma 
carreira, o eco da vida e o 
perfil dum homem que apela para as foras populares e para os 
elementos nacionais da opinio, ao passo que o dr, Nilo Peanha 
traz a seu lado a reao oficial 
que apoia um sinistro cortejo de violncias odiosas, que compra 
conscincias pela derrubada administrativa, pela insolncia 
policial, que intimida a imprensa, 
que derrama sangue em Barbacena, que ameaa com mazorcas, com 
carrancas de estado de stio, com bravatas de vitria da candidatura 
marechalcia, seja como for, 
acontea o que acontea, custe o que custar.
Rodrigo deu uma forte palmada na mesa. O lampio oscilou.
- Que  isso, menino' - censurou-o Maria Valria.
- Dinda, este  o nosso homem, o nosso candidato. Se o Brasil no 
eleger Rui Barbosa a 1 de maro, ento tudo estar perdido, o 
pas cair nas mos dos militares 
e a Repblica de Castilhos ser transformada numa ditadura nefasta.
Licurgo sacudia a cabea afirmativamente.
- X gua! - disse Fandango. - Quem proclamou a Repblica no 
foi um milico?
- Agora vejam esta beleza - continuou Rodrigo. - Rio 16. O Correio da 
Manh publicou hoje um violento artigo editorial de ataque ao marechal 
Hermes da Fonseca. 
Diz esse jornal que a candidatura do marechal tem o aspecto criminoso e 
repulsivo de um conluio entre uma parte do Exrcito e os politiqueiros 
mais torpes e ladres 
do pas, a comear pelo senador Silvno Nery. Acrescenta o 
Correio da Manh que na conscincia entorpecida do marechal Hermes 
no h se quer um movimento de revolta 
contra o ultraje que lhe atiram os monarquistas, os quais aderem  sua 
candidatura pela certeza em que esto de que ele trair a 
Repblica.
- Apoiado! - exclamou licurgo. -  o que eu vivo dizendo: os 
monarquistas vo aproveitar a ocasio pra puxar brasa pra
262
sua sardinha. Ah! Se o dr. Jlio de Castilhos estivesse vivo, a coisa 
mudava de figura.
- Diz ainda a mesma folha que  tal a impopularidade do marechal 
Hermes, que ele no  capaz de passar pela Avenida Central e pela 
Rua do Ouvidor depois das cinco 
da tarde com medo de ser vaiado.
Rodrigo ergueu-se to bruscamente, que a cadeira tombou para trs.
- Papai, no sei que  que estou fazendo aqui parado no Angico 
comendo e dormindo sesta larga. Tenho a impresso de que desertei dum 
posto de combate. Pior que isso: 
nem cheguei a assumir esse posto. Quero que o senhor me d licena 
pra voltar pra cidade o quanto antes.
Licurgo mirou-o por alguns instantes, atravs da espessa fumaa do 
cigarro.
- O senhor tem a minha licena. Pode ir quando achar conveniente.
- Vou amanh.
- U! Pra que tanta pressa? - estranhou Maria Valria. Fandango 
soltou a sua risadinha rouca:
- Ele vai salvar a Repblica.
263
IX
Rodrigo voltou para a cidade nos primeiros dias de fevereiro. Maria 
Valria acompanhou-o, alegando que "se eu no vou junto, esse menino 
 capaz de prender fogo 
no Sobrado".
Levou consigo Laurinda e um bom sortimento de lingia, charque e 
queijo.
Rodrigo teve a alegria de encontrar no poro da casa seus quatro 
caixes. Mandou traz-los para o escritrio e chamou o Chiru.
- Me ajuda a desencaixotar as coisas.
O amigo arregaou as mangas, tirou os sapatos e as meias. Rodrigo 
apontou para o caixo maior.
- Que  que tem dentro?
- Livros.
Chiru atirou-se ao trabalho de machadimha em punho, e bufando, gemendo, 
imprecando, rompeu as tbuas do caixo, tirou os jornais velhos que 
o forravam e depois, passando 
a manga da camisa pela testa suada, voltou-se para o amigo.
- E agora?
- Por onde comeamos?
- Por aquele ali.
- Agora vamos tirar os livros de dentro.
- Pra botar naquelas prateleiras?
Fez com a cabea um sinal na direo do armrio vazio.
- Adivinhaste. Que talento, Chiru, que gnio! Mas vai abrindo os 
outros caixes, enquanto eu tiro os livros deste...
264
- A mim me toca a parte mais dura.
- Quem te mandou ser um Hrcules? Trabalha que no fim ters a tua 
recompensa. Sou generoso.
Ps-se a tirar os livros do caixo. Pegava-os com um cuidado 
carinhoso, como se fossem jias delicadas e raras ou crianas 
recm-nascidas. Ali estavam as obras completas 
de Balzac, em edies de 1860. Rodrigo folheava-as, passava os dedos 
pelo papel amarelento e rodo de traa, cheirava as pginas, 
acariciava os dorsos dos volumes 
e a seguir depunha-os no cho, pensando: " melhor primeiro tirar 
todos os livros dos caixes pra depois arrum-los no armrio". 
Apanhou uma edio da Divina comdia 
com ilustraes de Dor.
- Vem c ver que maravilha, Chiru. - O outro aproximouse com a 
machadinha na mo. - Olha s estas gravuras. No achas um colosso? 
So do grande Dor.
O outro lanou para o livro um olhar rpido e indiferente, por cima 
do ombro do amigo, e voltou para o trabalho, com a camisa j empapada 
de suor.
Rodrigo ps Dante no soalho ao lado de Balzac e continuou a esvaziar o 
caixo, de onde tirou as obras completas de Victor Hugo, trs 
romances de D'Annunzio em italiano, 
uma traduo espanhola da obra de Carlyle sobre a Revoluo 
Francesa...
- Ah! O meu inefvel narigudo! - exclamou, ao manusear um exemplar da 
edio prhiceps de Cyrano de Bergerac. Leu um trecho ao acaso, 
esmerando-se na pronncia.
- Que tal, Chiru?
- No entendo!
- Ah, o francs! Isto que  lngua, menino. Tem tudo: graa, 
preciso, riqueza, msica, dignidade...
Tirou do caixo a Histoire ds girondhis, de Lamartine, A velhice do 
Padre Eterno, de Guerra Junqueira, alguns volumes de Nietzsche e Taine, 
L rouge et l noir, 
de Stendhal, o Paraso perdido, de Milton - ai, que grande cacete! - 
trs romances de Ea de Queirs, a coleo completa de As 
farpas...
- Meu querido Ea, meu bom Ramalho, fizeram boa viagem? Esperem um 
pouco, tenham pacincia. Deixem-me pr em ordem
265
esta livraria, montar o consultrio, comear o jornal. Teremos 
depois muitos vagares para conversar. Ah! Schopenhauer! No tens 
razo, mon vieitx, a mulher  a 
obra-prima da Criao. Boa tarde, Herr Goethe! Talvez seja esta a 
primeira vez que teu Fausto, tua Margarida e o teu sutil satans 
respiram o ar de Santa F. E tu, 
Heine? No, tu j andaste por aqui. Encontrei na gua-furtada um 
velho volume que pertenceu ao dr. Winter...
- Abri mais um - gritou Chiru, tirando a camisa.
Mesmo sem ter terminado de esvaziar o primeiro caixo, Rodrigo correu 
para o segundo, pois avistara nele as alegres capas dos livros a que 
chamava "minha brigada 
ligeira". Eram romances galantes de boulevard, histrias fesceninas do 
Quartier Latin... L estavam as novelas de Willy: La mme Picrate, 
Mattresse d'esthhes, Un 
petit vieux bien propre; a ducaiion de prnce, de Mau r ice Donnay 
e Leur beau physiqite, de Henri Lavedan.
- Agora vamos abrir o caixo maior.  l que est o gramofone.
- O gramofone? Vamos a ele!
- Devagar, seu bruto, seno quebras o aparelho. Olha que as chapas 
tambm esto a dentro.
Chiru moderou o mpeto. Aberto o caixo, Rodrigo afastou o amigo.
- Isto requer mo civilizada e olho de conhecedor. Trouxe para fora, 
primeiro a grande campnula esmaltada,
azul e creme. Depois, com o auxlio do amigo, retirou o corpo do 
gramofone e colocou-o em cima da mesa. Foi tirando dentre a palha, com 
muito cuidado, as caixas 
de papelo que continham os discos. Abriu a primeira.
- Isto  uma preciosidade, Chiru. As melhores chapas dos mais famosos 
cantores do mundo.
Comeou a examinar os discos, tirando-os de seus envelopes de papel 
pardo.
As rias de Caruso! Chiru aproximou-se e olhou. Na parte superior do 
rtulo vermelho via-se a marca registrada do produto: um fox-terrier 
branco diante da campnula 
dum fongrafo, a escutar; por baixo, estas palavras: His Master's 
Voicc...
266
- Vesti Ia giubba.  formidvel, Chiru, e o Caruso canta isto como 
ningum. Ali! O sonho de Manon... O Racconto di Rodolfo... A grande 
ria de Ada... O Gelo e 
mar az Gioconda... O M'appari, da Marta. -  medida que lia os 
ttulos, Rodrigo trauteava a melodia correspondente. De sbito 
franziu o cenho. Um disco rachado! 
Leu o rtulo: Di qnella pira, por Enrico Caruso.
- Cachorros! - exclamou, indignado. - Cornos duma figa, filhos duma 
grandessssima... - Soltou o palavro com raiva. - Ento esses 
animais no vem o que est escrito 
no caixo. Frgil! Frgil! - Apontava para o letreiro. - Mas no 
sabem ler. So analfabetos, irresponsveis. Este pas est 
perdido. Canalha! Logo este disco, a 
ria do tenor, Madre hifelice, corro a salvarti,  quando Mannco 
descobre que a cigana que est sendo queimada viva  me dele... 
No fim tem um agudo espetacular 
como s o Caruso sabe dar. No, seu Chiru, essa gente s a bala, 
s a bala...
Andava dum lado para outro, furioso, com o disco rachado na mo.
- Logo o Di quella pira! Vou escrever um artigo n A Farpa arrasar com a 
Compagnie Auxiliaire.
Sua fria redobrou quando viu o que estava gravado na outra face do 
disco:
- O Miserere! Logo o Miserere. Miserveis! Cretinos! O Brasil no 
tem mais compostura. S o marechal Hermes.  o que este pas 
merece.
Sentou-se ofegante. Chiru voltara-lhe as costas e terminava de abrir o 
terceiro caixo.
- Que  isso? - perguntou, depois de arrancar a tampa.
- Conservas, animal, no ests vendo?
- Pra qu?
- Pra que haviam de ser? Pra comer, homem. Vai tirando isso pra fora.
Chiru obedeceu. Comeou por uma dzia de pequenas latas ovais, com o 
letreiro escrito em lngua estrangeira:
- Que droga  esta?
- Caviar. Papa mui fina, come-se com po. Regado com champanha fica 
uma delcia.
267
Chiru retirou do caixo e amontoou no soalho dzias de latas de 
salsichas de Viena, de atum, de sardinhas portuguesas, de pat de foie 
gras, de maquereau, de azeitonas 
espanholas; caixas de passas de uva de Mlaga, e de frutas 
cristalizadas; potes de mostarda, vidros de pickles e de molho ingls.
- Mas isto deve ter custado uma fortuna...
- Dinheiro foi feito para se gastar.
Chiru olhou para o amigo, coou a cabelama loura que lhe cobria o 
peito, e disse:
- Nasceste empelicado. Tens pai alcaide que vai te dar uma farmcia, 
montar um consultrio, custear um jornal e ainda por cima te deixa 
fazer estas extravagncias... 
Escuta aqui, quanto vai custar toda essa brincadeira?
- Sem contar o que temos de pagar pela farmcia, o velho me deu vinte 
contos pr resto.  pra comear a vida. Posso gastar como bem 
entender.
Chiru passou a mo pela cabeleira.
- Com esse dinheiio eu estava feito.
- Que farias com ele?
- Eu? No trabalhava mais.
- Mas nunca trabalhaste na tua vida, homem de Deus? Chiru sentou-se nas 
bordas do caixo e comeou a mexer os
dedos dos ps. - Por falar em dinheiro, Rodrigo, estou com um plano 
supimpa. Nunca ouviste falar no tesouro dos jesutas?
- Claro que ouvi, mas acho que  pura fantasia.
- Fantasia qual nada! Conheci um ndio velho que me deu o roteiro do 
tesouro. Est num subterrneo debaixo da igreja de So Miguel.
- No mintas, Chiru.
- Por Deus Nosso Senhor!
- Est bem. Mas me passa aquela caixa de chapas. Chiru fez o que o 
amigo lhe pedia.
- Vou arranjar um vaqueano de confiana, compro umas ps e 
picaretas, e me toco pra So Miguel.
- Quando?
- Logo que achar um scio que entre com o capital.
268

- Ests falando srio?
- Natural. Esse  o grande sonho da minha vida.
- De quanto precisas?
- Duns duzentos mil-ris...
- Podes contar com o dinheiro.
- Palavra?
- Palavra. Mas vamos continuar o trabalho. Chiru estava radiante.
- Tens cinquenta por cento nos lucros da expedio.
- O que quer dizer que no tenho nada. Cinqenta por cento de zero 
 zero mesmo.
- Se no acreditas, por que vais entrar com o dinheiro?
- Pra te livrar dessa mania. Quero que te convenas de que no 
existe tesouro nenhum, voltes pra casa e sossegues o pito.
Chiru nada disse. Continuou a empilhar no cho as latas de conservas.
Rodrigo sorria, olhando os ttulos dos discos. Tetrazzini no Vissi 
d'arte e uma ria de Uafncana... Tit Rufo no Rigoletto... Tamagno - 
que voz cavalar! - no Otelo... 
A ouverture AO Egmont, de Beethoven. Ali! Uma musiquinha leve: Loin du 
bal.
- Vamos experimentar o gramofone! Deixa isso a, Chiru. Senta e fica 
quieto.
Atarraxou a campnula na caixa do gramofone, ajustou uma agulha no 
diafragma, deu manivela, colocou uma chapa sobre o prato e p-lo a 
girar. Depois fez a agulha 
descer para as bordas do disco e empurrou de leve o diafragma... 
Ouviu-se um chiado forte, seguido dum acorde orquestral. A voz de Caruso 
encheu a sala:
Recitar, mentre preso dal delrio
Rodrigo sentiu um calafrio. Sentou-se e cerrou os olhos, murmurando:
- Garganta de ouro! Chiru falou:
269
- Mas como ser que essa droga...
- Cala a boca, burro!
A gargalhada do tenor jorrou da campnula, vibrante.
Tu sei pagliaccio!
Rodrigo sentia-se no paraso.
Quando a ria do Canio terminou, tocou La donna  mobile. E 
explicou: - Quem canta  o duque de Mntua, um estrina que tem 
muitas amantes. Est dizendo que La donna 
 mobile qual piuma ai vento, a mulher  leviana como uma pluma ao 
vento. O safado! Na pera ele acaba mandando raptar a filha do bobo da 
corte, do Rigoletto. Ah! 
Chiru! No h nada como uma boa noitada de pera!
Quando o duque de Mntua soltou o agudo final, Chiru perguntou:
- Aquele negcio dos duzentos mil-ris  srio mesmo?
- Acaso serei homem de duas palavras? Chiru esfregou as mos, animado:
- E agora? Vamos abrir o ltimo caixo?
- No. Ali esto os meus livros de medicina e os meus ferros. Vou 
deixar pra mais tarde, quando o consultrio estiver montado. Agora te 
convido pra tomar uma cervejmha 
no Schmrzler.
- Vamos embora!
Chiru enfiou as meias, os sapatos e a camisa. Rodrigo vestiu o casaco e 
apanhou o chapu. Saram.
Maria Valria apareceu  porta do escritrio, olhou para os livros 
e latas amontoados no cho e resmungou:
- Eu bem sabia que esse negcio ia estourar nas minhas costas. A tardinha, aps o banho, Rodrigo vestiu uma roupa de linho branco, 
e ficou muito tempo diante do espelho, a dar 
270
cuidadosamente o n na gravata preta com ferraduras vermelhas e brancas. 
Depois entrou no carro que o esperava de tolda arriada  frente do 
Sobrado e disse ao boleeiro:
- Vamos dar um passeio pela cidade. Passe primeiro pela Intendncia. 
Mas, devagarinho, Bento, pra canalha ver que no fugimos.
O boleeiro ps o carro em movimento. Passaram em cadncia de enterro 
pela frente do edifcio municipal, a cuja porta se achava um guarda, 
no seu uniforme de zuarte, 
a aba do quepe puxada sombriamente sobre os olhos, as mos pousadas no 
copo do espado. Rodrigo encarou-o com uma hrmeza provocadora, e 
Bento fez o mesmo. Naquele 
momento o tesoureiro do municpio botou a cabea para fora de sua 
janela e Rodrigo dirigiu-lhe um olhar hostil, exclamando: "Capacho!" O 
homem sorriu amarelo.
O carro entrou na rua do Comrcio. Os cavalos marchavam faceiros, e 
seus cascos produziam um alegre clop-clop nas pedras do calamento.
Amintas Camacho estava parado a uma esquina. Ao avistar Rodrigo, ficou 
todo perturbado, sem saber onde pr as mos. Acabou levando uma 
delas  aba do chapu e terminou 
soltando um boa-tarde automtico. Rodrigo fez uma careta de nojo e 
virou-lhe a cara. Se esse molusco tivesse um pingo de vergonha, no me 
cumprimentaria mais.
Em breve, porm, esqueceu o Amintas e ps-se a pensar em Flora. O 
principal objetivo daquele giro era passar pela casa dela.
- Mais devagar, Bento - recomendou, quando o carro estava a uma dezena 
de metros da residncia de Aderbal Quadros.
Ficou decepcionado ao verificar que todas as janelas do casaro se 
achavam fechadas. Tirou um cigarro do bolso e acendeu-o.
- D uma volta  praa.
Acenou para o coronel Pedro Teixeira, que estava sentado numa cadeira 
 frente de sua casa, tomando chimarro.
- Como l vai? - gritou o estancieiro. - Como l tratam as moas?
- Muito bem, coronel! Recomendaes  famlia.
271
Ritinha Prates achava-se debruada  sua janela. Rodrigo fez-lhe um 
cumprimento derramado, a que a moa respondeu com um tmido aceno de 
cabea.
E justamente quando o carro tornava a passar pela frente da casa dos 
Quadros, Flora saa pela porta central e fazia meno de 
atravessar a rua. Rodrigo sentiu que 
as batidas de seu corao se aceleravam. Como  que meu 
corao pulsa normalmente quando brigo com os beleguins do Trindade 
e agora dispersa, medroso, s porque 
avista essa menina? Tirou o chapu. Flora sorriu. Mil vezes mais 
bonita que a Ritinha! Que dentes! Que porte! Que distino!... 
Soergueu-se, voltou-se para trs 
e verificou, radiante que, parada  beira da calada, Flora o seguia 
com o olhar. Ao ver, porm, que estava sendo observada, baixou a 
cabea, atravessou a rua apressadamente 
e entrou no prdio fronteiro. Rodrigo tornou a sentar-se, feliz, 
assobiando uma valsa vienense. Estava ainda sorrindo quando passou pela 
frente da casa de Ternzio 
Matos. L estava a Gioconda, como uma pintura emoldurada pelos 
caixilhos da janela.
- Boa tarde! - Ela moveu a cabea e imediatamente armou o lendrio 
sorriso.
Bastava que eu fizesse um sinal com o dedo - refletiu ele com orgulhosa 
satisfao - pra essa bichinha vir correndo... A porta da barbearia, 
Neco Rosa ergueu os 
braos:
- Ento? No conhece mais os pobres?
- Pra, Bento.
O boleeiro fez o carro estacar. O barbeiro aproximou-se, trepou no 
estribo e abraou Rodrigo.
- Esta semana tomo conta da farmcia e monto o consultrio. Estou 
ansioso por fazer alguma coisa.
- E o jornal, homem de Deus, quando  que sai esse jornal encantado?
- No saiu ainda porque tenho encontrado certas dificuldades. O 
Mendanha nem queria nos vender a tipografia. Mas eu apertei o cachorro 
contra a parede, abotoei-o 
e disse: "Ou tu me vendes essa droga ou te quebro a cara". Ele afrouxou. 
Mas o tipgrafo no quis ficar comigo. O Trindade andou se metendo 
na
histria, disse pr rapaz: "Se voc trabalhar no jornal do dr. 
Rodrigo, mando lhe dar uma sumanta de espada".
- E agora?
- Preciso arranjar o quanto antes algum que entenda de tipografia.
- E o Pepe... j falaste com ele? Parece que o castelhano entende do 
riscado.
- A est uma idia! Se vires esse animal, manda-o ao Sobrado.
Neco acariciou as costeletas, olhou para os lados e murmurou:
- Sabes da ltima? Me contaram que o tal de Dente Seco j chegou.
- Que Dente Seco?
- Ora, homem, j te falei nele. E um bandido famoso da Soledade. Tem 
dez ou onze mortes na cacunda. O Trindade mandou buscar o bicho pra 
assustar o eleitorado da 
oposio. Parece que vo correr o interior do municpio E a 
todas essas, ns no fazemos nada!
-  preciso lanar o quanto antes o jornal. Despediu-se de Neco, que 
saltou para o cho, gritando:
- Adeus, pombinho!
Rodrigo olhou para a prpria roupa. Maldita poeira de Santa F! 
Pusera aquela roupa de linho branco, limpssima, havia menos de meia 
hora e ela j estava tomando 
uns tons rosados... Era preciso calar as ruas transversais e reformar 
o pavimento da rua do Comrcio. Em suma: era urgente derrubar o 
Trindade!

Na manh do dia seguinte, mandou um prprio ao Angico com um bilhete:
Papai: Por aqui vai tudo sem novidade. O Freitas quer entregar a 
farmcia o quanto antes, e eu no sei o que fazer com relao ao 
dinheiro. Se o senhor pudesse vir 
agora resolver o assunto, eu lhe ficaria
272
273
muito grato. Un abrao do filho que muito o estima e respeita. 
Rodrigo.
Saiu por volta das dez horas, entrou num depsito de mveis e 
adquiriu dois dos maiores burcaux que encontrou: um para seu 
escritrio no Sobrado e o outro para o 
consultrio: Na Livraria e Papelaria Brasil comprou um monumental 
tinteiro de bronze lavrado, com base de granito negro - o artigo mais 
caro da casa -, dois finos 
corta-papis, lpis pretos e bicolores, caixas de penas de ao, 
prensas de mata-borro, envelopes, vidros de tinta, blocos de papel de 
carta. Prefiro de linho. 
Tem? Ponha trs. No! Seis.") Encomendou trs centos de cartes 
de visita e cinqenta blocos de papel para receitas. O papeleiro 
estava radiante. "Pois no. doutor, 
com o maior prazer. Estamos aqui para servir a freguesia."
- Ah! Quero ver cestas para papis usados...
- Temos aqui um artigo muito chique, de madeira de lei, com desenhos a 
fogo.
- Est bem. Tico com duas.
Tinha a volpia de comprar. Nunca perguntava pelos preos e achava 
que regatear era a maior das indignidades. Jamais contava o troco que 
lhe davam, e deixara entre 
os garons dos cafs e restaurantes que frequentara em Porto Alegre 
a reputao de ser o mais generoso dos distribuidores de gorjetas.
Saiu da papelaria e entrou na Farmcia Popular, cujo proprietrio, o 
Freitas, um homenzinho triste e calvo, era natural de Alegrete e sofria 
de bronquite asmtica.
- Ento, seu Freitas, quando  que ultimamos o negcio?
- Quanto mais cedo, melhor, doutor.
A farmcia estava situada na quadra do Sobrado,  esquina da rua do 
Comrcio com a do Poncho Verde. Muito conveniente - refletiu Rodrigo 
-, fico com o consultrio 
praticamente em casa.
- Eu disse ao seu pai que meu estoque anda a pelos vinte contos - 
explicou o Freitas. - Mas precisamos dar um balano pra ver a 
importncia exata. O doutor vai 
mandar alguma pessoa pra fiscalizar o inventrio ou vem pessoalmente?
Num assomo de entusiasmo, Rodrigo respondeu:
274
- Venho pessoalmente.
- Quando  que podemos comear?
- Amanh mesmo. Quero resolver logo este assunto pra iniciar a 
clnica.
- Est bem. Podemos comear s sete da manh... ou  muito 
cedo?
- Cedo coisa nenhuma! Sou um grande madrugador.
No dia seguinte, porm, s acordou s oito e, depois de tomar 
descansadamente seu caf, chegou  farmcia s nove.
-- Tive um contratempo - inventou, antes mesmo de dar os bons-dias ao 
farmacutico. - Das sete s oito e meia atendi um prprio que veio 
do Angico.
O Freitas puxava melancolicamente os suspensrios, de boca 
entreaberta, respirando com dificuldade.
- Eu vou dizendo o nome dos remdios - props -, a quantidade em 
estoque, o preo e o doutor vai tomando nota. Est bem?
- Perfeitamente.
Rodrigo tirou o casaco, sentou-se a uma pequena mesa, sobre a qual havia 
um caderno de papel almao pautado, tinta, caneta e mata-borro.
- Pode ir cantando! - exclamou, jovial.
Freitas subiu penosamente a escada e tirou da prateleira um frasco de 
remdio, aproximando-o dos olhos.
- Quatro vidros de Emulso de Scott.
Disse o preo da unidade. Rodrigo tomou nota e em seguida fez a 
multiplicao.
- Adiante!
- Dois de Salsaparnlha.
Rodrigo assobiava, baixinho, namorando a prpria caligrafia.
- Cinco vidros de Maravilha Curativa do Dr. Humphreys. Para que dizer 
que  do dr. Humphreys? - refletiu Rodrigo.
No escreveu nem o nome do remdio por extenso. Ps apenas Marav. 
Curat. Estamos s portas das eleies e eu aqui, como um simples 
caixeiro, a tomar nota de nomes 
e preos de drogas. No  mesmo um despautrio? Por que me meti 
nisto?
- Desculpe, seu Freitas. Que foi que o senhor disse?
- Trs vidros de Blsamo Alemo.
- Ah!
Rodrigo trabalhou durante quarenta minutos. Tinha comeado com letra 
caprichosa, mas agora j escrevia em garranchos que nem ele mesmo 
conseguia entender. Passou 
o indicador entre o colarinho e o pescoo.
- Est quente, no?
- Regular - respondeu o farmacutico. - Dois vidros de Elixir de 
Nogueira.
Rodrigo ergueu-se. Consultou o relgio, gritou pelo auxiliar da 
farmcia, o Ludovico, um menino de doze anos, feio e retaco, de rosto 
comprido, a lembrar o focinho 
dum bicho que Rodrigo no conseguiu identificar.
- Menino, v me comprar uma cerveja bem fresquinha ali no Schnitzler. 
Ligeiro!
Deu dinheiro ao guri, que saiu a correr, voltando pouco depois com a 
garrafa.
- Toma um pouco, seu Freitas?
- No, obrigado. Tenho o fgado meio bichado. Rodrigo despejou a 
cerveja no copo graduado que o rapaz
trouxera do laboratrio, e bebeu-a dum sorvo s. Tornou a encher o 
copo e a esvazi-lo com a mesma sofreguido.
- Podemos continuar? - perguntou o farmacutico, puxando os tirantes do suspensrio.
O calor aumentava. Rodrigo estava irritado. Bocejou, olhando novamente 
para o relgio:
- No. Vamos deixar pra depois. Tenho agora um compromisso. At 
logo.
Mandou chamar o Chiru ao Sobrado.
- Queres ganhar uns trinta mil-ris na moleza?
- Como?
- Ajudando o Freitas a dar balano na farmcia. Vais como meu 
representante.
- Quanto tempo leva esse negcio?
- Um dia no mximo.
276
- Aceito.
- Podes ento comear hoje de tarde.
Dois dias depois, Licurgo voltou do Angico para efetivar a 
transao. O inventrio acusava uma existncia de pouco mais de 
dezoito contos. Licurgo passou o dinheiro 
para as mos do farmacutico. Naquele mesmo dia chamou Rodrigo ao 
escritrio e entregou-lhe uma chave
- A farmcia  sua.
Comovido, o rapaz pegou a mo do pai e beijou-a. Licurgo pigarreou, 
embaraado.
- Que bobagem  essa, meu filho? E depois:
- Quem  que vai tomar conta do laboratrio?
- O Gabriel.  um moo muito direito e um bom prtico. O Freitas diz 
que ele sabe aviar receitas melhor que o Zago.
Licurgo suspirou:
- Pois , parece que est tudo arrumado. Desejo que o senhor seja 
feliz.
Caminhou para o biirean de Rodrigo, que substitura sua escrivaninha.
- Parece que o senhor me expulsou do escritrio, no?
- Ora, papai. Esse burean  mais seu que meu. Botei todos os seus 
papis na gaveta da esquerda.
- Est bem.
Licurgo olhou em tomo. Demorou o olhar por alguns segundos no armrio 
de livros. Passou a mo pelo vistoso tinteiro.
- Se o senhor no der ponto, no  por falta de material... Tem 
tudo do bom e do melhor.
- E por tudo isso eu lhe estou muito grato. Farei o possvel para 
merecer todas essas...
Ia dizer gentilezas mas achou imprprio. Ocorreu-lhe favores e 
tambm no gostou. Calou-se. E como Licurgo tambm nada dissesse, 
quedaram-se ambos em silncio. 
Rodrigo observou que a plpebra do olho esquerdo do pai tremia, sinal 
de que ele estava comovido.
277
x
O Correio do Povo de 13 de fevereiro noticiava que o marechal Hermes da 
Fonseca chegara a Porto Alegre, tendo sido recebido festivamente. Um dos 
oradores que o saudaram, 
falando em nome do operariado, dissera que a espada do marechal, que 
tanto atemorizava os civilistas, havia de converter-se num ramo de 
flores, sntese da aspirao 
mais elevada dos povos  paz. O prstito do candidato oficial 
estacionara  frente do prdio da Federao, sendo Hermes da 
Fonseca acolhido por uma salva de palmas, 
enquanto, das sacadas, senhoras e senhoritas atiravam sobre ele rosas e 
jasmins.
Rodrigo leu a notcia com impaciente m vontade.
- Deviam mas era atirar trampa na cabea desse farsante! Naquele dia 
foi procurado por don Pepe.
- Neco me ha dicho...
- Pois , Pepe, preciso muito de ti. Alguma vez em tu perra vida 
trabalhaste em tipografia?
O espanhol fez um gesto largo.
- Pues claro, hombre! He sido tipgrafo en Bilbao, en un peridico 
anarquista clandestino.
Rodrigo deu uma palmada nas costas do amigo.
- Pois foi o cu que te enviou.
- O ei infierno.
- No interessa. O importante  que vieste. Preciso botar o meu 
jornal na rua amanh. O marechal vai passar por aqui l pelo dia 19. 
Quero que A Farpa esteja na 
rua quando esse palhao chegar...
278
- Bueno...
- Vamos pr mos  obra. Eu escrevo e tu compes e imprimes. Que 
tal?
- Pues...
- Pago-te bem. Deixo o ordenado a teu critrio. Quanro queres?
- Hombre, no soy mercenrio. Traba|ar por amor a ia lucha. Y por Ia 
amistad.
- Feito!
Instalaram as oficinas 'A Farpa - uma caixa de tipos, uma prensa de 
provas e um prelo - na parte do poro que ficava por baixo da sala de 
visitas. A luz entrava 
por uma janela lateral e pelos olhos-de -boi que respiravam para a rua.
- Eis a nossa barricada! - disse Rodrigo, entregando a oficina ao 
espanhol. - Fica te entretendo por a com essas bugigangas, enquanto 
eu vou l pra cima escrever 
o editorial.
Subiu para o escritrio, arregaou as mangas da camisa, experimentou 
a pena, olhou para as tiras de papel que pusera sobre o Iniretnt e 
comeou a escrever:
Surge A Farpa  luz da publicidade num dos momentos mais dramticos 
da histria da nacionalidade brasileira. Diremos sem eufemismos ou 
meias palavras que este hebdomadrio 
se prope, antes de mais nada, ser a livre tribuna dos oprimidos 
contra os opressores, da justia contra o arbtrio, do direito 
contra a fora, da fraternidade contra 
o banditismo. Isto vale dizer que A Farpa  um jornal de oposio, 
uma bandarilha colorida e aguada a espicaar constantemente os 
flancos do touro cruel e brutal 
do situacionismo!
Releu o que havia escrito, acendeu um cigarro, satisfeito consigo mesmo. 
Imaginou a cara do Trindade ao ler o primeiro nmero
279
do jornal. Molhou a pena na tinta (ah, como um tinteiro de bronze e 
granito melhora o estilo!) e prosseguiu:
Santa F, onde h tantos anos a liberdade tem sido amordaada, o 
direito espezinhado e a justia broncamente substituda pelo 
mandonismo, ter neste semanrio poltico 
e literrio uma voz corajosa, clara e candente, a clamar pelos 
direitos dos espoliados e pelas reivindicaes dos desprotegidos da 
sorte. Fiel aos princpios do 
mais puro republicanismo, A Farpa pugnar na presente campanha 
presidencial pela candidatura civilista, recomendando o grande, o 
imenso, o imortal Rui Barbosa, 
o gnio da raa, ao eleitorado livre de Santa F, do Rio Grande e 
do Brasil!
Basta - disse para si mesmo.  bom que seja uma coisa curta pr 
castelhano compor em tipo grado, com cercadura. Levantou-se, foi at 
a janela lateral da sala de 
visitas, meteu a cabea para fora e gritou:
- Pepito!
Quando o outro apareceu, disse:
- Escuta s.
Leu-lhe com voz vibrante o que havia escrito. Ao terminar, baixou os 
olhos para don Pepe, que cofiava o cavanhaque com sua longa mo ossuda 
de Quixote.
Que tal?
- Muy dbil.
Rodrigo deu um palmada no peitoril da janela.
- Por que dbil?
- Hay que poner ms vitrolo en tus frases, hombre. Hay que agitar!
- Que mais queres?
- Ms pasin, ms sangre.
- O sangue vir depois. Toma. Compe isso, que agora vou arrasar o 
Trindade num artigo especial.
Entregou as tiras a don Pepe e voltou a sentar-se  mesa. Estava com 
calor e com sede. Pensou em sair, tomar uma bebida fresca no Schnitzler, 
ou ento algo de forte 
que lhe desse mais fogo
280
s idias e ao estilo. Boa sugesto... Foi at o guarda-comida 
da sala de jantar, apanhou uma garrafa de conhaque, encheu um clice, 
bebeu-o dum sorvo, voltou para 
o bureau, pegou a caneta e escreveu o ttulo do artigo. "Perfil dum 
tirano." Comeou com o esforo biogrfico em que contava a origem 
duvidosa do intendente de Santa 
F. Depois enumerou seus crimes, crueldade e desmandos, terminando 
assim:
E hoje a est ele, o mala cara cnico, empoleirado na cadeira de 
intendente, como um reizinho num trono, Csar de pardia, Napolco 
de opereta. Pensar o strapa 
que se sumiram da face da terra os homens de coragem, inteligncia e 
dignidade'!
E quando, momentos depois, Licurgo entrou no escritrio, Rodrigo 
leu-lhe em voz alta o que acabara de escrever. O velho escutou em 
silncio e no fez nenhum comentrio.
- Ento, papai? Gostou?
Licurgo tirou da boca o cigarro, tornou a enrol-lo lentamente e s 
depois de soltar uma longa baforada  que falou.
- Meu filho, sei que sou um homem ignorante. Posso no ter muitas 
luzes, mas tenho alguma experincia. Acho que o senhor se excedeu 
nesse artigo.
Rodrigo ergueu-se da cadeira.
- Mas numa questo como esta, papai, no pode haver meias medidas e 
meias palavras.
- Quem est com a boa causa no precisa ofender ningum. O seu 
jornal deve ser um jornal de princpios e no de ataques pessoais. 
No provoque os outros sem necessidade. 
Critique as pessoas quando elas procederem mal. Mas deixe a vida 
particular do indivduo de lado...
Uma idia passou rpida pelo esprito de Rodrigo: o velho tem medo 
que, em represlia, A Voz da Serra mexa em sua vida privada, trazendo 
 luz o caso da Ismlia.
- Ento o senhor acha...
- Acho que deve modificar a linguagem. No quero que digam que estamos 
provocando barulho. Temos o direito de escrever
281 o que pensamos e de lutar pelas nossas idias. Mas no devemos 
ofender os outros. E depois, nem todos os que vo votar no marechal 
 porque so patifes ou covardes. 
O senhor sabe disso.
- Bom, se essa  a sua opinio... - murmurou Rodrigo, com a 
sensao de haver recebido uma ducha fria na cabea.
- Essa  a minha opinio. E acho que tambm  a sua. Pense bem.

Quando o pai se retirou, Rodrigo tomou da pena e cravou-a com raiva no 
pano do bureau, partindo-a. Foi at a janela, respirou com fora, 
murmurou um par de palavres 
e tornou a sentar-se. Como era possvel fazer um jornal vibrante sem 
ataques pessoais? No entanto, sabia que o pai estava com a razo, era 
exatamente isso que o 
enfurecia.
- Laurinda! - gritou. A mulata apareceu.
- Me traga qualquer coisa pra beber. Estou com sede.
- Pensa que no tenho mais que fazer?
- Um refresco! Minha cabea est fervendo.
Laurinda trouxe uma limonada, que Rodrigo bebeu sofregamente, com muito 
rudo.
- Ser que este calor no vai parar?
- No sei, menino. No sou Deus.
- Ai que saudade do banho na sanga!
Tirou impetuosamente a camisa, jogou-a ao cho, amassou com fria as 
tiras de papel em que havia traado o perfil do tirano, e jogou-as no 
cesto. Colocou uma pena 
nova na caneta, mergulhou-a no tinteiro e ficou pensando no que ia 
escrever. Por fim, bocejando, contrariado e infeliz, comeou:
A Farpa no foi fundada para ofender quem quer que seja. Nossos 
objetivos so os mais elevados. De resto, como poderamos ns 
censurar os que nos atacam em nossa 
f poltica, se ns mesmos no respeitarmos
282
as convices alheias? Este semanrio pretende nanter-se no 
nvel superior do bom jornalismo e jamais descer ao terreno 
mesquinho e lamacento das retaliaes pessoais. 
Ser, antes de mais nada, uma tribuna limpa e justa, sempre aberta aos 
que tiverem fone e sede de justia.
- Laurinda, me traz outra limonada - gritou. E, como no obtivesse 
resposta, esqueceu-se do que pedira.
Releu o que havia escrito, franziu os lbios. Uma droga. Uma 
redao de colegial.
Repoltreou-se, recostou a cabea no respaldo da cadeira e ficou 
olhando para o teto. O suor escorria-lhe pelo torso em grossas bagas.
Quando o espanhol voltou com a primeira prova de parte do editorial, 
Rodrigo leu em voz alta, mas sem o menor entusiasmo, o que acabara de 
escrever.
- Hombre, qu sucedi? - perguntou Pepe, num sussurro teatral. - Te 
hs achicado? Te hs acobardado? Cofio!
Rodrigo contou-lhe a conversa que tivera com o pai. Depois, erguendo-se 
brusco, agarrou as lapelas do casaco do pintor e perguntou:
- Fala com sinceridade, Pepito, ser que o velho tem mesmo razo?
- Pero no se trata de tener razn, hombre, sino pasin. - Berrou: - 
Pasin! Hay que agitar. Sm pasin no se puede hacer nada. Se vs a 
escribir cositas templadas 
como essas, entonces para que mantener un peridico?
- Isso, Pepe, isso mesmo. Pra que fazer um jornal se a gente no pode 
dizer tudo que pensa, tudo que sente, hein?  preciso sacudir esta 
cidade adormecida e acobardada!
Sentou-se sobre a mesa e ficou olhando pensativamente para a cesta de 
papis. De sbito inclinou-se sobre ela, apanhou as tiras que 
amarrotara, alisou-as sobre a 
mesa com a palma da mo e entregou-as ao amigo:
- Compe esta verrina. Vou desobedecer a meu pai mas obedecer  
minha conscincia. E seja o que Deus quiser. Amanh,
283
quando o jornal estiver na rua, o papai ter que se render diante do 
fato consumado!
Pepe olhou longa e apaixonadamente para Rodrigo.
- Bendita sea Ia madre que te pari, hijo mio!
Fez meia-volta e saiu da sala nos seus passos leves e curtos de 
toureiro.

Ao descer ao poro, cerca das cinco da tarde, Rodrigo verificou 
decepcionado que Pepe mal havia terminado a composio do editorial 
 do "Perfil dum tirano".
- S uma pgina pronta. o jornal tem que sair amanh sem falta!
- Soy un ser humano, no un dnamo. No puedo hacer milagros.
Sobre uma mesinha tosca de pinho, erguiam-se numa pilha os livros que 
Rodrigo trouxera de sua biblioteca e nos quais marcara os trechos que 
deviam ser transcritos 
n 'A Farpa - "Pra encher lingia, sabes, Pepito?" - Eram: uma das 
Canes sem metro de Raul Pompia; um poema de Guerra Junqueira 
sobre a Histria; uma pequena 
fbula de Coelho Neto e versculos de Assim falava Zaratustra.
- E ainda temos mais isto - disse Rodrigo, mostrando as tiras que 
trazia. Era um artigo doutrinrio, "O verdadeiro conceito de 
democracia", e uma pgina humorstica 
em que, sob o pseudnimo de Fra Diavolo, ridicularizava o Amintas e o 
delegado de polcia.
- Neste passo, A Farpa s pode aparecer depois d'amanh. Que droga!
Inclinado sobre a caixa de tipos, sempre de boina na cabea, don Pepe 
limitou-se a encolher os ombros.
- Ah! - exclamou Rodrigo, dando uma palmada na testa. - Espere, que j 
volto.
284
Atirou os originais em cima da mesa, saiu apressado e voltou meia hora 
depois, trazendo pelo brao um mulato lvido, com grandes olhos 
brilhantes de tuberculoso.
- Don Pepe, este moo  um tipgrafo competente. Trabalhava pr 
Mendanha e agora vai nos ajudar.
O espanhol mal se dignou a lanar para o recm-chegado um olhar 
perfunctrio.
- Mas doutor... - balbuciou o tipgrafo.
- J sei. O Trindade ameaou voc. Mas no tenha medo, que no 
vai lhe acontecer nada. Dou-lhe a minha palavra de honra.
- No  por mim, doutor, mas acontece que tenho mulher e filhos...
- J lhe disse que o Titi Trindade no vai ficar sabendo de nada. 
Vamos, tire o casaco e comece logo a trabalhar. Estamos atrasados.
O homem continuou imvel onde estava, os braos cados. De repente 
frechou na direo da porta. Rodrigo, porm, barrou-lhe o caminho.
- Alto l! Daqui voc no sai vivo.
Tirou da cintura o revlver de cabo de madreprola e apontou-o para 
o mulato, que estacou, os olhos esbugalhados fitos no cano da arma, os 
beios trmulos, o suor 
a pingar-lhe da testa.
- Hay que agitar.
Meu Deus, como  que posso fazer uma coisa destas - pensava Rodrigo, 
sentindo, com uma agudeza cada vez maior, o grotesco da situao.
Guardou o revlver, acercou-se do mulato e pousou-lhe fraternalmente a 
mo no ombro.
- Vamos, companheiro. No precisamos brigar. Trabalhe s hoje... 
Pago-lhe duzentos mil-ris, o que voc no ganhava num ms com o 
Mendanha!
- No  questo do dinheiro, doutor - choramingou o outro -,  
que o coronel me chamou na Intendncia e me disse que se eu ficasse 
trabalhando com o senhor, ele...
Calou-se, engasgado. Rodrigo cresceu sobre o outro.
285
- Estamos num pas livre, onde cada qual faz o que bem entende. E 
voc vai trabalhar por bem ou por mal.
Sorria interiormente da incoerncia entre suas palavras e seus atos, 
achando, porm, a coisa toda mais divertida que sria. Pegou um dos 
livros e meteu-o nas mos 
do tipgrafo. - Comece por aqui.
O mulato tirou o casaco, arregaou as mangas, fungando e ainda 
trmulo, e ps-se a trabalhar.
- Hay un espacio en blanco en Ia primera pgina. Rodrigo olhou por 
cima do ombro do espanhol e resolveu:
- Ponha isto dentro dum quadrado.
Rabiscou num pedao de papel: Dr. Rodrigo Terra Cambar. Formado 
pela Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Clnica Geral. 
Consultrio: Farmcia Popular, das 3 
s 6 da tarde. Grtis aos pobres.
Pepe leu o anncio e fez uma careta de nusea.
- La repulsiva caridad cristiana.
O tipgrafo trabalhava em silncio, e houve um minuto em que Rodrigo 
e o pintor ficaram a observar o mulato, fascinados pela rapidez com que 
ele compunha. Seus dedos 
alongados moviam-se numa dana gil e graciosa sobre os caixotins 
dos tipos.
Trabalharam at o escurecer.
- Tengo hambre - disse Pepe a Rodrigo, no momento em que este acendeu a 
lmpada de acetilene.
- Vocs vo comer aqui. J mandei buscar o jantar. Quando a comida 
chegou, o artista ps seu prato em cima
do volume de Nietzsche e comeu ali de p, teso e digno, ao passo que o 
tipgrafo, sentado num mocho, olhava com uma tristeza resignada de 
presidirio para seu bife.
- No h de ser nada - murmurou Rodrigo, aproximando-se dele. - Fui 
obrigado a usar a violncia porque se trata duma boa causa. Voc 
ento no quer que seus filhos 
cresam livres e felizes numa terra de justia e liberdade? Ou 
prefere que eles se criem sem espinha dorsal e passem a vida lambendo as 
botas do Trindade?
O mulato ergueu para ele os olhos assustados.
- Eu no me meto em poltica, doutor.
286
- No se trata de poltica, homem, mas da dignidade humana.
- O que eu sei  que vou pagar caro por esta brincadeira.
- J lhe disse que ningum ficar sabendo que voc trabalhou pra 
ns.
- Ora, no falta quem v contar ao coronel... Rodrigo fez um gesto 
de impacincia.
s nove da noite a composio estava pronta, as pginas armadas, 
as provas revisadas.
- Toca a imprimir, Pepito!
Quando o primeiro nmero d'A Farpa saiu do prelo, Rodrigo trouxe-o 
para perto da lmpada e comeou a examin-lo avidamente.
- Est um colosso! Vai ser um sucesso!
O espanhol, que acionava o prelo com o rosto banhado em suor e os olhos 
incendiados, exclamou:
- Ay, madrecita mia! Ls cosas que he hecho en mi perra vida!
Tiraram-se quinhentos exemplares.
- Mandamos uns cem para os distritos - decidiu Rodrigo -, uns 
cinqenta para Cruz Alta, outros cinqenta para Passo Fundo e o 
resto distribumos na cidade.
Mandou Bento buscar Chiru e Neco. Quando estes chegaram, alguns minutos 
depois, ps-se a confabular com os amigos.
- Como  que vamos fazer a distribuio?
- O Trindade sabe que o jornal est por sair - disse Chiru - e deve 
andar de olho vivo. A coisa no vai ser fcil. Quem sair 
distribuindo A Farpa tem que ir armado 
e disposto a tudo.
- Naturalmente - replicou Rodrigo. - Mas tive uma idia... Se sairmos 
a fazer a distribuio agora, aposto como pegamos a capangada do 
Titi dormindo...
- Hay que hacer eso a Ia luz meridiana - bravateou Pepe. Rodrigo, 
porm, j tinha seu plano formado:
287
- Botamos os jornais no meu carro e samos os quatro pelas ruas 
principais, metendo A Farpa por baixo de cada porta. - Consultou o 
relgio. - Faltam dez pra meia-noite. 
s doze em ponto comeamos... Ests armado, Chiru?
- Claro.
- E tu, Pepe?
- Mi arma es mi personalidad, son mis convicciones.
A todas essas, o mulato continuava sentado a um canto, os ombros 
cados, as mos a escudar os olhos. Ao v-lo, Rodrigo, que o havia 
esquecido por completo, exclamou:
- O nosso amigo tipgrafo!
Tirou da carteira duas cdulas de cinqenta mil ris e meteu-as no 
bolso do outro.
- S vai servir pra pagar o meu enterro, doutor. Sou um homem morto.
- Morto qual nada! De agora em diante voc vai ficar sob a minha 
proteo. No se mexa da... No! O melhor  ir pra cima. 
Vamos!
Tomou o brao do mulato e puxou-o consigo, rumo dos fundos da casa. 
Andava no ar um cheiro familiar de po quente, que Rodrigo aspirou com 
delcia. Trepou na cerca 
que separava o Sobrado da padaria.
-  Chico!
O padeiro apareceu.
- S Rodrigo, ento, que  que h de novo?
- Me d dois pes bem quentinhos.
Chico Po afastou-se num marche-marche solcito, entrou em casa e 
voltou pouco depois com quatro pes embrulhados em papel pardo.
- Quanto , Chico?
- Ora, havia de ter graa...
Rodrigo tirou do bolso um exemplar d'A Farpa e deu-o ao vizinho:
- Pois te pago com o primeiro nmero do meu jornal. Tambm quentinho 
do forno. Vais ser o primeiro a ler o grande rgo. Boa noite!
288
Saltou para o cho, tornou a segurar o brao do tipgrafo e 
arrastou-o at a cozinha. Bateu  porta do quarto de Laurinda e 
acordou-a, gritando:
- Vem me fazer um caf!
A mulata apareceu, estremunhada. - "Este como malcriado sem-vergonha, 
tirando a gente da cama a esta hora" - e caminhou s tontas para o 
fogo.
- Pacincia, Laurinda.  pr bem da ptria e da humanidade. 
Deu-lhe uma palmada cordial nas ndegas. - Vem fazer um caf pr 
nosso amigo Gutenberg.
Sorriu, apontando para o tipgrafo.
- Meu nome  Camilo.
- Um caf bem quentinho, Laurinda.
Desfez o embrulho, cortou um po pelo meio, barrou uma das metades de 
manteiga e comeu-a sofregamente.
- No deixe o Camilo sair enquanto eu no voltar. Laurinda 
respondeu-lhe com um bocejo.
 frente do Sobrado, Rodrigo reuniu-se aos companheiros, que j 
tinham subido para o carro com a pilha de jornais.
- Toca, Bento. Devagar. Vamos comear pela casa do Alvarino Amaral. 
Chiru, tu vais pela direita. E tu Pepito, pela esquerda. No gastem 
plvora em chimango. O Pitombo, 
por exemplo, no merece receber o nosso rgo. Neco, tu ficas 
comigo.
A distribuio foi feita em pouco mais de meia hora, sem o menor 
incidente, e Rodrigo teve o cuidado de fazer que todos os figures da 
terra recebessem um exemplar 
d'A Farpa.
Ao voltar ao Sobrado, entregou o tipgrafo aos cuidados de Chiru, Pepe 
e Neco:
- Levem agora o nosso amigo pra casa. E vocs tambm podem ir. 
Amanh nos encontraremos na farmcia s oito. Est combinado?
Esfregou as mos, radiante:
- A coisa toda correu melhor do que eu esperava!
289
Entrou no Sobrado trauteando uma valsa. No patamar da escada, no andar 
superior, apareceu-lhe o vulto de Maria Valria, com uma vela acesa na 
mo.
- Seu pai perguntou onde voc tinha ido.
- Andamos distribuindo o jornal pela cidade, Dinda.
- Voc anda mas  procurando sarna pra se coar.
Como nica resposta Rodrigo sorriu, aproximando-se da tia e beijou-lhe 
a testa. Depois entrou no quarto, riscou um fsforo, acendeu o 
lampio sobre a mesinha de 
cabeceira, escancarou as janelas que davam para a rua, despiu-se por 
completo e atirou-se na cama. Estava cansado e feliz. Entregou-se  
recordao das coisas que 
fizera nas ltimas vinte e quatro horas...
Desobedeci a meu prprio pai, lancei uma colossal provocao ao 
situacionismo; mexi, enfim, num ninho de marimbondos... Estamos em 
minoria absoluta. Eles podem assaltar 
o Sobrado e massacrar seus moradores. Podem mandar seus beleguins 
atacar-me numa esquina  noite. E no municpio inteiro no 
haver quem ouse protestar contra essas 
violncias, pois quem erguer a voz ser tambm esmagado. O 
prprio coronel Jairo, com todos os seus protestos de amizade, dir 
que como militar tem que ficar neutro 
na questo...
Tudo isso, longe de deixar Rodrigo amedrontado, dava-lhe uma alegria 
nervosa que lhe roubava o sono, tornando-lhe difcil o ficar deitado, 
apesar da canseira que 
lhe moa o corpo. Desejava com ansiedade a vinda do novo dia, a fim de 
poder tomar o pulso da cidade, auscultar aquele corao dbil, 
meio morto que, com toda a 
certeza, ia comear a pulsar furiosamente depois que seus habitantes 
lessem A Farpa. Que batesse de susto, de alegria, ou surpresa, mas que 
pulsasse, isso era o 
essencial, que mandasse, atravs de suas veias e artrias, um sangue 
vivo, quente, turbulento, capaz de desentorpecer-lhe os membros...
Rodrigo respirou fundo, passou as mos cariciosamente pelo trax 
inflado e depois pelos msculos do brao. Era bom viver, e a melhor 
maneira de provar a si mesmo 
e aos outros que estava
290
vivo era amando e lutando. Imaginou o que Flora ia sentir quando lesse A 
Farpa. Santo Deus! Acho que nestas ltimas doze horas no pensei uma 
nica vez na minha
querida...
Veio-lhe  mente a presena do tipgrafo com tanta nitidez, que 
teve a impresso de sentir-lhe at o cheiro. Como foi que tive a 
coragem de ameaar com o revlver
aquele pobre-diabo? As coisas que a gente faz num impulso, sem pensar! 
Isso prova que ainda no me conheo direito...
Apagou a luz.
 faut cultiver notre jardin. Oui, M. Voltaire, mas que devo fazei se 
uma cobra venenosa entra no meu jardim? Segurar a jararaca candidamente, 
mon cher Candide,
e beijar-lhe a boca? No. craser l'infme, isso sim, pau na 
cabea dela. O Titi Trindade  a jararaca do meu jardim. E, no fim 
de contas, prezados leitores Da
Farpa,  necessrio que os bons sejam tambm fortes e tenham 
coragem de ser violentos e at cruis quando essa violncia e essa 
crueldade forem necessrias para
o bem-estar da comunidade!
Ouviu o relgio grande da sala de jantar bater uma hora, uma e meia, 
duas... Revolvia-se na cama, irritado por no poder conciliar o sono. 
Ps-se de p num pulo,
andou um pouco s cegas pelo quarto escuro, pensando vagamente em 
tomar um soporfero. Depois atirou-se na cama de bruos, agarrando o 
travesseiro com ambas as mos,
e ficou nessa posio at adormecer.
291
XI
Acordou s dez da manh seguinte e, ao descer para o caf, verificou com certo alvio que o pai j havia sado.
Foi at a farmcia e encontrou o prtico debruado sobre o balco, tomando um mate.
- Bom dia, Gabriel.
O empregado perfilou-se, meio desconcertado, sem saber o que fazer com a cuia.
- Bom dia, doutor.
Rodrigo bateu-lhe afetuosamente no ombro.
- Bom proveito. Tambm aceito um chimarro.
Gabriel Luigi sorriu. Era um rapaz de vinte anos, alto e espigado, de cabelos crespos e castanhos. Tinha uma fisionomia plcida e algo de fraternalmente aliciante 
nos olhos cor de mel queimado. Filho de colonos italianos de Garibaldina, deixara a casa paterna aos quinze anos para tentar a vida em Santa F. O Freitas, tomado 
de simpatia pelo menino, transformara-o num excelente prtico de farmcia.
Rodrigo entrou no consultrio, que ainda cheirava a tinta fresca, sentou-se  mesa, segurou com ambas as mos o corta-papel de marfim lavrado, e passeou o olhar 
em torno. L estavam, nas prateleiras do armrio os tratados de medicina com suas lombadas severas. Contra a parede, sob a janela que dava para a rua, havia um div
coberto de oleado preto. A um canto branquejava a mesa de operaes, com um balde de metal ao lado. Num pequeno 
292
armrio todo de vidro, reluziam, frios e asspticos, os instrumentos cirrgicos.
Rodrigo olhava para todas essas coisas com uma certa perplexidade, como se no soubesse por que ou para que estavam ali. Folheou um bloco de papis de receita que 
tinham seu nome no cabealho, e sorriu. Sim, era mdico e pretendia levar a srio a profisso, cumprir  risca o voto de esculpio. Mas o que o interessava no momento 
- empurrando a medicina para um plano inferior - era sua luta contra o Trindade.
Ps-se a tamborilar na mesa com a ponta do corta-papel. Estava ansioso por saber da reao da cidade ao primeiro nmero d'A Farpa. Mas por onde andar essa gente 
que no aparece?
O prtico entrou com a cuia e entregou-a a Rodrigo.
- Ento, Gabriel, que  que h de novo?
- Nada que eu saiba, doutor. Rodrigo deu um chupo na bomba.
- No ouviu falar nada sobre o jornal?
- Que jornal?
Os olhos do farmacutico eram lmpidos e puros como os duma criana. Rodrigo sorriu para disfarar seu desapontamento.
- O Chiru no apareceu ainda?
- No senhor.
Devolveu a cuia ao prtico, ergueu-se e foi at a porta da farmcia. Naquele instante, o Cuca Lopes chegava.
- Menino - despejou ele, logo ao entrar, atirando-se numa cadeira. - O Trindade est fulo de raiva.
Os olhos de Rodrigo brilharam.
- Ento o touro j sentiu a farpa no lombo?
- Diz-que est l na Intendncia, caminhando dum lado pra outro, botando a boca no mundo.
- Quem foi que te contou?
- Um primo meu que  oficial de justia. - Cuca fez uma pausa, passou o leno encardido pela testa, olhou firme para Rodrigo e murmurou: - Mas tu  um bicho, hein? 
 preciso ter caracu pra fazer o que fizeste.
- Tragam um mate pr Cuca!
293
Poucos minutos depois apareceu o Chiru, tambm esbaforido, com quase um palmo de leno encarnado a pender-lhe do bolso superior do casaco.
- Foi uma bomba! Pior que o cometa. O Amintas, vi ele ind'agorinha, chega a estar verde de raiva.
Contou detalhes. O delegado de polcia ameaava cus e terra: ia mandar empastelar a redao 'A Farpa, dar uma sova em Pepe Garcia, chamar o diretor do jornal  
responsabilidade...
- Eles que venham! - exclamou Rodrigo, batendo no cabo do revlver que trazia  cintura.
A cuia andou a roda. Cuca estava to excitado, que no podia parar no mesmo lugar. Rodopiava como uma piorra, cheirava a ponta dos dedos e de instante a instante 
exclamava:
- Este nosso Rodrigo  mesmo um bicharedo! Chiru lanou-lhe um olhar enviesado e rosnou:
- Cala a boca, Cuca. Quem te v pensa que s nosso amigo. Todo o mundo sabe que no passas dum xereta safado, um leva e traz que acende uma vela a Deus e outra ao 
diabo!
Cuca Lopes recuou trs passos, num movimento rtmico que foi quase uma figura de ballet.
- Eu, Chiru!? - gritou, espalmando as mos sobre o peito. - Que injustia! Sou amigo do Rodrigo at debaixo d'gua, no , Rodrigo? Sempre fui, sempre serei.
- Te conheo bem das casas velhas... - replicou Chiru.
- Vamos, rapazes - apaziguou-os o dono da farmcia. - Nada de briguinhas! Precisamos estar unidos pra enfrentar a canalha.
Cuca recostou-se no balco, vexado.
- Esse Chiru sempre foi um ingrato. No  de hoje...
- Toma mais um mate, Cura - convidou Rodrigo. - O Chiru est brincando.
- No, muitas grcias. Preciso ir andando. At logo, Rodrigo, conta sempre comigo.
Saiu para o sol. O fundilho de suas calas de brim pardo reluziam. Em duas largas passadas, Chiru aproximou-se da porta e bradou:
294
- Vai agora beber gua na orelha do Titi, sem-vergonha! Cuca voltou a cabea, ps a lngua para fora e depois continuou a andar, rua do Comrcio abaixo.
Don Pepe apareceu por volta das onze. Os outros o miraram interrogado ramente.
- Ento? Que  que se conta por a?
O pintor sentou-se, tirou a boina e passou os dedos por entre as melenas. - Estoy muy fatigado.
- Mas no ouviste comentar nada, homem? - indagou Chiru. - E impossvel!
- He odo dos o trs comentrios.
- Favorveis? Desfavorveis? Desembucha!
- Ay que ver primero quien los hace...
- Deixa de conversa e conta logo tudo. Pepe ergueu os olhos.
- Por ejemplo, habl com tu pap... Rodrigo aproximou-se, curioso.
- Ele j leu?
- Creo que si.
- Homem de Deus, que foi que ele disse?
- Nada. Cerrado como una tumba.
- Ora! Est claro que o papai no gostou do tom do jornal. Mas agora  tarde pra voltar atrs. - Sorriu. - Parece mentira, mas o primeiro que vou enfrentar por causa 
d'A Farpa no vai ser o Trindade nem o Amintas nem o Madruga, mas sim o meu prprio pai...
- No te achiques, hijo.
 hora do almoo, Rodrigo foi o ltimo a sentar  mesa. Aproximou-se de Licurgo e beijou-lhe a mo. - A bno, papai.
295
O velho no disse o costumeiro "Deus te abenoe, meu filho". Apenas pigarreou e ficou a olhar para o prato, Rodrigo beijou a testa da madrinha e sentou-se em silncio. 
Maria Valria comeou a servir. Durante dez minutos nenhum outro rudo se ouviu na sala de jantar alm do tique-taque do relgio de pndulo, das batidas dos talheres 
nos pratos e de um que outro pigarro seco de Licurgo.
At quando ele vai ficar assim? - perguntou Rodrigo a si
mesmo.
O velho, porm, no tardou a falar.
- Li o seu jornal.
Rodrigo deps o garfo sobre o prato, encarou o pai, esperando que ele continuasse. Licurgo passou o guardanapo pelos lbios:
- O senhor, ento, no quis seguir o meu conselho...
- Sei que no procedi direito. Mas meu desejo de luta era to grande, que me deixei levar por um impulso...
-- Pois fez muito mal, e agora tem que agentar as conseqncias.
- Nunca pretendi fugir  responsabilidade!
- O Trindade pode processar o senhor por crime de calnia.
- Mas no se trata de nenhuma calnia. Tudo o que escrevi sobre ele  verdade.
- O senhor tem provas?
- So coisas que todo o mundo sabe.
- Mas na hora de depor perante os tribunais, no aparece ningum, todos se acobardam.
- Todos menos eu.
De olhos postos no prato, Maria Valria comia no mais absoluto silncio. No olhava para o pai nem para o filho: era como se estivesse sozinha  mesa.
Houve uma nova pausa, prolongada e tensa.
Rodrigo amassava com o garfo uma batata, pensando no que devia dizer. Sentia-se infeliz. Era-lhe insuportvel a idia de que o velho pudesse estar zangado com ele.
- E agora, que  que o senhor acha que devo fazer? - perguntou com bruscada humildade.
296
Sem fitar o filho, Licurgo respondeu:
- Continuar com o jornal pra no dizerem que o senhor se acobardou. E no andar mais por a de noite sozinho. O Trindade  capaz de tudo. Um homem precisa ter coragem, 
mas no deve ser temerrio. Ande sempre armado, mas, por amor de Deus - acrescentou, alteando subitamente a voz e batendo com o punho cerrado na mesa - no provoque 
os outros sem necessidade!
Afastou o prato num gesto brusco.
- Se um filho meu fosse um cobarde, claro que eu ficava envergonhado. Mas no pense que estou contente por ter um filho desordeiro!
Rodrigo ficou vermelho. Quis continuar a comer mas no pde. O alimento como que se lhe trancava na garganta, descia-lhe a custo pelo esfago, caindo-lhe no estmago 
quase como um peso de pedra.
- O senhor sabe que no sou nenhum desordeiro.
- No , mas se portou como se fosse.
Entrou a negra Paula com uma travessa de arroz com galinha.
- No quero mais nada - disse Licurgo.
- Eu tambm no.
- Leve esse prato pra cozinha. A preta obedeceu.
Que me resta fazer? - refletia Rodrigo. Imaginou uma soluo dramtica. "Pois bem, papai. Acho que sou demais nesta casa. No quero que o senhor, o Bio e a madrinha 
venham a sofrer as conseqncias dos meus atos. Vou fazer uma declarao pblica dizendo que eu, s eu sou responsvel pelo que A Farpa publicou. Adeus, papai. Adeus, 
Dinda." Viu mentalmente a cena. Ergueu-se da mesa, subiu ao quarto, arrumou as malas, deixou o Sobrado e mudou-se para o Hotel dos Viajantes. Dias depois, apareceu-lhe 
o Bio. "Que histria  essa, homem? O velho anda triste, no come, no dorme, s fala em ti. Volta pra casa. Ele mandou pedir desculpas pelo que te disse. Vem, no 
sejas bobo."- "No, mano,  ainda muito cedo, a minha ferida ainda est sangrando. Deixa o velho sofrer um pouco."
297
- Papai - exclamou, com voz quebrada pela emoo -, sei que fiz mal em no seguir o seu conselho. Mas, por favor, me diga agora francamente o que  que devo fazer. 
No quero que ningum sofra por causa de meu... de minha...
Calou-se. O velho comeou a palitar os dentes e seu rosto refletia uma tristeza preguiosa e oblqua de caboclo.
O senhor sabe o que aconteceu pr'aquele moo que l
ajudou a fazer o jornal?
Rodrigo teve um sobressalto:
- O tipgrafo? No.
Foi esbordoado hoje de manh por dois policiais. Ficou
atirado no barro, numa rua do Purgatrio.
- No me disseram nada! Quem foi que lhe contou?
- Ningum me contou. Eu ia passando a cavalo e vi o homem cado. Eu mesmo levei ele pra casa...
Rodrigo respirava com dificuldade, a indignao a encher-lhe sufocadoramente o peito. Ergueu-se.
- Aonde vai?
- Preciso ir ver esse pobre homem.
- O dr. Matias j fez os curativos nele.
- Mas eu no posso deixar de ir v-lo.
- Se eu fosse o senhor, nem entrava naquela casa. O homem me disse que foi obrigado a trabalhar contra a vontade. Contou at que o senhor ameaou ele com um revlver... 
 verdade?
- ...
Maria Valria olhou vivamente para o sobrinho. Rodrigo sentia-se aniquilado.
Sentou-se e por alguns segundos permaneceu calado, de olhos baixos. Depois perguntou:
- Os ferimentos so graves?
- Talvez no sejam coisas de matar, mas leves no so. O senhor sabe como  que a polcia age.
Rodrigo amarfanhava o guardanapo na mo crispada. Pensava na cara plida e assustada do tipgrafo, lembrava-se da desagradvel impresso de fragilidade que tivera 
ao segurar-lhe o brao magro... Miserveis! Covardes! Surrarem um pobre homem fraco e doente...
Licurgo pigarreou.
- No vai comer mais nada, menino? - perguntou Maria Valria.
Rodrigo sacudiu negativamente a cabea. Levantou-se e deixou a sala em passo acelerado.
Subiu para a gua-furtada. Escancarou a janela, sentou no peitoril e ficou a olhar distraidamente para as copas do arvoredo da praa. Mundo absurdo! Um homem bem-intencionado 
ergue-se corajosamente para lutar contra o erro, a violncia e a injustia e no processo mesmo dessa luta fere inadvertidamente um inocente...
Tentou fumar. O cigarro, porm, lhe soube mal. Jogou-o fora, irritado. Ps-se a assobiar algo sem melodia. Olhou a lombada dos livros, apanhou um velho volume e 
abriu-o ao acaso. Poemas de Heine em alemo. Na margem superior duma das primeiras pginas, estava escrito um nome em tinta desbotada: Gertrude Weil. Quem seria? 
Mas que importa? Quem sou eu? Que sou eu? Apenas um vaidoso, um feixe de apetites e contradies? Um homem decente? Um farsante? Que devo fazer? Voltar atrs, ou 
continuar lutando? Claro que vou continuar! O tipgrafo tuberculoso no ser a ltima vtima desses bandidos. (Vou mandar  casa dele um envelope com duzentos mil-ris 
dentro.) Outras cabeas rolaro... Talvez a minha. Andra Chnier ao p da guilhotina...
Olhou para a campnula do velho fongrafo. Precisava ouvir um pouco de msica. Algo de forte, para reanim-lo. Tamagno numa das rias de Andra Chnier. Caruso na 
Celeste Ada...
Tirou o casaco, fechou a porta, apanhou um livro ao acaso e estendeu-se no catre. O melhor mesmo  dormir, deixar que as guas agitadas serenem e toda a sujeira 
caia no fundo. Lembrou-se duma pea de Ibsen que lera havia pouco: O inimigo do povo, O dr. Stockmann estava com a verdade, por isso no trepidara em ficar sozinho 
contra o resto da populao de sua cidade. Se fosse necessrio ele, Rodrigo Cambar, ficaria sozinho contra toda Santa
298
299
F. Inclusive contra meu pai - murmurou, sentindo ainda o travo amargo de seu ressentimento para com o velho. Leu uma pgina inteira sem compreender nada. Os olhos 
seguiam as palavras, mas a ateno estava nos pensamentos e estes corriam num tumulto.
Com o livro pousado sobre o peito, Rodrigo modorrava, olhando fixamente para um desenho que a umidade traara na parede e que lhe lembrava a representao dum rio 
num mapa. O rio Amazonas - dizia dona Malvina -  o rio mais caudaloso do mundo velho sem porteira - exclamou Liroca. A ordem dos fatores no altera o produto - 
insistia a mestra, riscando algarismos e figuras geomtricas no quadro negro. A hipotenusa e o cateto... o catete era um bicho... No irs ao Catete, marechal... 
Escreverei um artigo de fundo no prximo nmero provando por a + b que a hipotenusa no ir ao cateto...
Dormiu um sono profundo. Acordou duas horas mais tarde, banhado em suor. Deixou o catre, aturdido, caminhou s tontas ao redor da gua-furtada e, por alguns segundos, 
no atinou com a razo por que estava ali. De repente lhe veio  mente a lembrana desagradvel do seu dilogo com o pai  hora do almoo. Que bom se tudo tivesse 
sido um sonho!
Por volta das cinco da tarde, Rodrigo foi chamado ao escritrio, onde encontrou o pai em companhia de Joca Prates e Pedro Teixeira. Cumprimentou estes ltimos com 
certa reserva, pois num relance compreendeu que - republicanos e ntimos de Titi Trindade - ali estavam em cumprimento duma misso poltica. De resto, a cara sombria 
do velho era um indcio de que algo desagradvel se estava passando.
- Sente-se.
- Estou bem de p, papai.
Licurgo procurou resumir a situao. O coronel Prates e O coronel Teixeira tinham vindo em nome do intendente...
300
- No senhor - explicou Joca Prates. - Ns no viemos propriamente em nome do coronel Trindade. Viemos em nosso nome...
- Pois  - interrompeu-o Licurgo, impaciente, olhando para o filho. - O que sei  que querem que o senhor pare com seus ataques  situao.
Pela maneira como o pai resumira o caso, Rodrigo sentiu que ele repudiava aquela tentativa de conciliao.
- Isto ... - disse Joca Prates, brincando com a corrente do relgio - ns somos amigos do Curgo e do senhor, dr. Rodrigo, no queremos que esse negcio continue 
assim, porque pode acabar mal...
Rodrigo sorriu.
- E o que  que o senhor chama de "acabar mal"?
- Ora, acabar em briga, em vias de fato, no , coronel? Joca Prates voltou os olhos para o companheiro, que sacudiu
lentamente a cabea.
Houve uma curta pausa. Licurgo olhava fixamente para o retrato de Jlio de Castilhos. Rodrigo continuava de p, a encarar com firmeza Joca Prates, que se remexeu 
na cadeira.
- O coronel Trindade at no queria que ns vissemos aqui. Os senhores sabem, ele  um homem violento. Mas eu insisti. Ora, que diabo, pensei, no final de contas 
o Curgo tambm  republicano... no custa falar... pois ... s vezes falando a gente arranja as coisas, no  coronel?
Com as mos tranadas sobre o ventre, os olhos pesados como se ainda no tivessem espantado o torpor da sesta, Pedro Teixeira tornou a sacudir a cabea, num sonolento 
acordo.
- Devo esclarecer aos senhores que meu pai nada tem a ver com o que escrevi Na Farpa. A responsabilidade total  minha, s minha. Papai at reprovou a linguagem 
que usei...
Licurgo interveio:
- No reprovei coisa nenhuma! O que o senhor fez est muito bem-feito e agora no voltamos atrs.
Fitou um olhar duro nos visitantes e acrescentou:
- Podem dizer isso a quem interessar.
301
--  o diabo - murmurou Joca Prates. - Ns queramos evitar que essa histria azedasse. Sei como so essas coisas. Pode dar em droga...
- Pode at correr sangue - reforou Pedro Teixeira. Rodrigo sorriu.
- Sangue? H muito tempo que corre sangue impunemente neste municpio, cavalheiros. Se os senhores tm boa memria, devem estar lembrados do que aconteceu ao Tito 
Chaves. O sangue desse moo empapou o barro da rua Voluntrios da Ptria. Ningum me contou: eu vi. Inda hoje de manh os beleguins do Trindade quase mataram a espadaos 
um pobre tipgrafo que teve a audcia de me ajudar a compor o jornal. E  para o povo ficar sabendo dessas barbaridades e de muitas outras que eu fundei A Farpa 
e hei de mant-la at o dia em que nossa gente crie vergonha e ponha o Titi para fora da Intendncia a toque de caixa!
Estava vermelho, excitado, com vontade de levar longe, muito longe aquele destampatrio. O pai, porm, cortou-lhe a palavra com um gesto. Os dois visitantes consultaram-se 
com o olhar. Joca Prates cuspiu na escarradeira, limpou os lbios com o leno e murmurou:
-  o diabo...
Fez-se um silncio de constrangimento.
- Com boa vontade tudo pode se arranjar - tentou ainda o pai de Ritinha.
Licurgo estava sentado numa posio rgida, as mos a segurar com fora as guardas da cadeira. Seu rosto era a mscara mesma da obstinao.
- No sbado vai aparecer A Voz da Serra - contou Joca Prates. - E eles vo l atacar forte, Curgo.
- Que ataquem!
- E ao senhor tambm, doutor.
- No estou esperando outra coisa.
- Mas  que a gente podia dar um jeito... Somos todos republicanos. Essas brigas de famlia s trazem vantagens prs maragatos.
- Agora  tarde demais - disse Licurgo.
302
Os visitantes levantaram-se pesadamente, com a relutncia de quem ainda no considera dita a ltima palavra.
- Bom, se a coisa  assim, ns vamos embora, no , compadre?
Licurgo acompanhou-os at a porta.
- Quero que vassunc compreenda, Curgo - comeou Joca Prates, quando j estava no vestbulo.
- Eu compreendo muito bem, Joca. Mas no tem jeito. Com certa impacincia foi empurrando o outro na direo da
escada. Pedro Teixeira j estava na calada e comeava a fazer um crioulo.
- Vassunc  um homem impossvel - murmurou Joca Prates, sacudindo lentamente a cabea. No meio da escada voltou-se ainda:
- Se o dr. Jlio de Castilhos estivesse vivo, nada disso acontecia.
As palavras que Licurgo Cambar disse a seguir no foram propriamente articuladas: foram escarradas para baixo, com raiva surda:
- Se o dr. Jlio de Castilhos estivesse vivo, esse sacripanta do Trindade no estava na Intendncia. Estava mas era na cadeia!
Rodrigo tomou um banho rpido, meteu-se numa roupa de linho branco, levou um bom tempo diante do espelho a dar o n na gravata e depois, assobiando a ria do conde 
Danilo, A viva alegre, embebeu o leno em perfume e ajeitou-o no bolso superior do palet. Estava de novo alegre, a cabea leve, o peito desoprimido. As palavras 
do pai soavam-lhe alvissareiramente na memria. No reprovei coisa nenhuma. O que o senhor fez est muito bem-feito. Isso significa que ele fez as pazes comigo, 
que estou perdoado. Papai  um homem imprevisvel.  hora do almoo me chama de desordeiro: agora me apoia em toda a linha... Seja como for,  melhor assim. Fico 
sem remorsos.
303
- Aonde vai a esta hora? - perguntou Maria Valria.
- Dar uma volta. Estou ansioso por saber qual foi a reao da cidade ao primeiro nmero d'A Farpa.
Ela mirou o afilhado de alto a baixo.
- No sei de quem foi que voc herdou essa faceirice.
- No herdei de ningum.  minha mesmo. At logo. Desceu os degraus, lpido. Na calada parou, olhou na direo
da Intendncia e sorriu. O Sobrado e o pao municipal estavam frente a frente, pareciam medir-se de longe como duas cidadelas adversas.
Entrou na Estrela d'Alva, abraou Chico Po, perguntou-lhe se tinha gostado d'A Farpa e, antes que o homem tivesse tempo de gaguejar seus elogios saiu por outra 
porta, entrando em seguida em sua farmcia. Ludovico, o aprendiz, estava recostado no balco, lendo o Almanaque de Ayer. Ergueu os olhos assustados e Rodrigo ento 
descobriu com que bicho o rapaz se parecia.
- Como vais, rato-do-banhado?
Ludovico sorriu, encafifado. Temendo que ele no tivesse gostado da brincadeira, Rodrigo tirou do bolso um pataco, gritou:
- Toma! - e atirou a moeda para o guri, que a apanhou
no ar.
- Como vai o movimento, Gabriel?
O prtico, metido num guarda-p branco muito asseado, respondeu:
- A fria de hoje vai ser boa, doutor.
Rodrigo olhou em torno e viu alguns claros nas prateleiras.
- Precisamos ver as nossas faltas.
- Por falar nisso, chegou ontem um viajante da Drogaria Inglesa.
- Pois quando o homem aparecer, faz os pedidos. Tu entendes disso melhor que eu.
Leu no rosto do outro a satisfao que estas palavras lhe causavam.
- Precisamos criar aqui uma seo de perfumaria. Olha, Gabriel, vai hoje ou amanh l no Pitombo e encomenda um balco novo, com frente de vidro, assim como uma 
vitrina, compreendes?
304
 pra botar os perfumes. Mas quem vai fazer os pedidos sou eu. Em matria de perfumaria sou doutor.
Abriu a caixa, tirou dela um chumao de cdulas e, sem cont-las, meteu-as no bolso.
- Sabes duma coisa, Gabriel? Vou mandar buscar de Porto Alegre uma caixa registradora.
Percebeu que o prtico no sabia de que se tratava.
- Nunca viste?  uma mquina pra guardar dinheiro. Aperta-se nuns botes pra marcar a importncia da venda, depois se force uma manivela e a gaveta se abre automaticamente.
- Veja s...
- Nossa farmcia vai ser a primeira casa comercial de Santa F a ter uma registradora. Estamos no sculo XX, Gabriel. O sculo do progresso!
O prtico escutava-o, com uma luz de afeio quase filial a animar-lhe os olhos pueris.
- Bom. Se algum perguntar por mim, diz que fui at o Schnitzler.
Ganhou a calada e comeou a descer a rua.  primeira esquina encontrou o Liroca, que o envolveu num abrao.
- Li o teu jornal, Rodrigo - disse ele, grave e afetuoso. - Est bom, muito bom, especial! Teus escritos at me lembraram os do Conselheiro Gaspar Martins.  bem 
como dizia o finado meu pai: "A quem Deus promete no falta".
-  Liroca, no me podias fazer elogio maior!
O narigo de Jos Lrio reluzia, pontilhado de cravos.
- Agora tu precisas te cuidar muito - segredou, com ar de conspirador. - Essa gente  capaz de tudo.
Rodrigo ia continuar seu caminho, mas o outro segurou-lhe o brao.
- No quero ser importuno, mas quando  que me arranjas aquele negcio?
- Que negcio?
- A minha volta ao Sobrado.
305

- J est quase arranjado - mentiu. - No te aflijas.  questo de dias...
As feies de Liroca, de ordinrio fixas numa expresso de rabugice, adoaram-se.
- Deus te pague!
E enquanto Rodrigo se afastava, j completamente esquecido dele, Jos Lrio ficou a resmungar elogios ao amigo, ali parado  esquina, com o leno encarnado a esvoaar 
 brisa da tarde.
 frente da Confeitaria Schnitzler, Rodrigo encontrou o tenente Rubim Veloso, de braos abertos. Estava  paisana, os lbios arregaados num sorriso que lhe descobria 
toda a dentua.
- Ah! O homem do dia. Venha de l um abrao!
Rodrigo estava surpreendido ante aquela inesperada cordialidade. Depois do baile de 31 de dezembro encontrara o tenente Rubim uma nica vez e recebera dele um cumprimento 
seco.
- Sabe que li seu jornal. Est esplndido!
- Pensei que, como partidrio do marechal... O outro atalhou-o:
- No se trata do marechal Hermes nem do senador Rui Barbosa. O que vejo no Farpa , antes de tudo, a voz dum homem que ergue a luva do desafio, e faz isso com 
inteligncia, coragem e altivez. Sim senhor, meus parabns!
Entraram na confeitaria, sentaram-se a uma mesa. A dentua do tenente continuava exposta.
- O mundo  dos fortes, da guia e no do cordeiro. Mas vamos tomar alguma coisa!
Marta Schnitzler aproximou-se. Estava vestida de branco e seus cabelos recendiam a macela. Rodrigo aspirou o perfume da alemzinha e teve o desejo de enlaar-lhe 
a cintura, sent-la sobre os joelhos, beijar-lhe a boca, manipular-lhe os seios. Pediram cervejas.
306
- H homens que se exprimem atravs da arte - disse Rubim, tirando o pince-nez, bafejando as lentes, e limpando-as com o leno.
 paisana, seu todo de boneco desengonado ficava ainda mais acentuado.
- Um quadro - continuou o oficial - uma escultura, uma sinfonia... Mas h outros que se exprimem na luta, na ao. Urn ato de coragem e hombridade vale tanto quanto 
a Odissia de Homero, o Davide Miguel ngelo ou a Pattica s. Beethoven. Csar, Napoleo, Bismarck so artistas a seu modo. O cl do cordeiro objetar que, pra 
eles atingirem a glria, ser necessrio morrer muita gente. Mas que importa a morte de alguns milhares ou milhes de seres humanos num mundo que est cada vez mais 
atravancado? Qual  o destino das massas seno trabalhar e morrer a fim de permitir a florao dos super-homens? A Revoluo Francesa com toda a sua sangueira est 
plenamente justificada por ter tornado possvel Napoleo Bonaparte. Napoleo est completamente redimido de qualquer pecado por ter tornado possvel o nacionalismo. 
E no  s isso. Os maiores acontecimentos do sculo XIX devem-se a Napoleo!
Marta trouxe as cervejas.
-  sua sade, dr. Rodrigo!
- No me chame de doutor, seno serei obrigado a chamar voc de tenente.
- Seja!  sua sade, Rodrigo!
Rubim bebeu com gosto e lambeu a espuma que lhe ficara nos lbios.
- Agora vou lhe fazer uma confisso... - disse. - Na noite em que nos conhecemos l no clube, no gostei de sua cara...
- Ah... sim? Mas por qu?
A Rodrigo era difcil acreditar que algum pudesse no gostar dele.
- Ora, pareceu-me um desses muitos moos bonitos, enfants gts, filhinhos de papai que se adornam dum diploma e vm parasitar  sombra das tradies da famlia...
307
Rodrigo escutava, sorrindo, enquanto com a ponta da unha do indicador raspava o rtulo mido da garrafa.
- E eis que de repente surge A Farpa. Agora estou ansioso por ver a rplica. Calculo que o revide seja mais feroz que o ataque.
- Eu tambm. A Voz vai aparecer sbado.
- Depois vou esperar ansioso a sua trplica.
- E como acha que vai terminar tudo isso?
- A bala! - exclamou Rubim, desatando numa gargalhada assustadora que fez avanar o limpa-trilhos da dentadura, crescer as bochechas, dando-lhe ao rosto um ar entre 
imbecil e simptico de boneco de ventrloquo. O acesso de riso convulsivo durou alguns segundos.
- No sabe se o coronel Jairo leu o meu jornal? Rubim tornou a encher o copo.
- Leu.
- Que foi que achou?
- Ora, voc sabe, o coronel no  bem deste mundo.  um homem culto, de corao puro. Vive nas esferas positivistas com aquela tolice da religio da humanidade, 
a acreditar em coisas que no existem nem podem existir. No tem os ps bem plantados na terra. Pois o homem leu o jornal, olhou para mim, mordeu os bigodes e disse: 
"Esse rapaz tem mesmo fibra e talento. Mas o ataque me parece um tanto forte..."
- Um tanto?
Rubim desatou nova gargalhada. Rodrigo mirava-o, fascinado por aquela fealdade paradoxalmente sedutora.
- Devo fazer uma restrio. No. Muitas restries. O que admiro em voc  o esprito combativo, a coragem de se rebelar contra a situao, estando, como est, numa 
minoria, no direi esmagadora, mas com mais preciso, esmagvel. Mas no concordo com certos termos de seu editorial. Refiro-me quela histria de opressor e oprimido, 
etc... O homem fraco no merece viver. No vale a pena quebrar lana por ele.
Rodrigo sorria. No estava disposto a discutir. A admirao do tenente pela sua coragem bastava-lhe. No momento nem 
308
chegava a desejar que o outro estivesse de acordo com todas as suas idias.
- Bem, enfim cada qual pensa a seu modo...
- Voc mesmo no fundo concordar comigo. H de chegar a hora em que o que vale mesmo  a ao, a violncia e no essa conversa fiada sobre direitos, justia e no 
sei mais o qu.
Em pensamento Rodrigo viu-se de revlver em punho a intimidar o tipgrafo.
- No creio...
No balco onde estava embrulhando uma cuca, Jlio Schnitzler fez-lhe um sinal amistoso. Rodrigo notou com satisfao que Marta o namorava, postada  porta que dava 
para a cozinha, de onde vinha um agradvel cheiro de molho de manteiga.
Rubim baixou a voz, olhou o interlocutor bem nos olhos e disse:
- Vou lhe fazer outra confisso, e esta a maior de todas. Quer saber qual  a paixo dominante da minha vida? A poltica.
- Engraado... Pensei que fosse a carreira das armas.
- Tambm . No v que ambas tm uma analogia profunda?
- Como?
- Ambas do aquilo que mais ambiciono: fora, poder, a volpia de mandar, conduzir homens. Outra coisa no desejam todos esses polticos pequenos e grandes, esses 
chefetes distritais, municipais, estaduais e federais. No entanto, vivem a falar em direito, justia e democracia, pura conversa fiada para iludir o eleitorado, 
porque, na verdade, o que querem mesmo  poder discricionrio.  ou no ?
- No  bem assim... Rodrigo cocava a alemzinha.
Rubim tornou a encher o copo e a enxug-lo em seguida, num largo sorvo. Tocou o peito do outro com o indicador entesado.
-  por isso que gosto do senador Pinheiro Machado. Sabe o que quer, no esconde objetivos e porta-se de acordo com suas ideias. Conhece aquela sua frase: "Para 
governar este pas no  preciso surrar, basta erguer o rebenque".
309

- No acredito que o senador tenha dito isso.
- Pois eu acredito. O estilo  dele. Pinheiro Machado  um nietzschiano que provavelmente nunca leu Nietzsche.  a grande figura do teatro poltico do Brasil, a 
fora por trs do trono.
- Um Metternich guasca? Um Talleyrand dos pampas? Um Maquiavel serrano?
- Nada disso! Por que buscar smiles estrangeiros? Sejamos nacionalistas. Nossa mania de imitao faz com que os argentinos nos chamem de macaquitos. - Mudou de 
tom. - Por falar nisso, estou convencido de que uma guerra entre o Brasil e a Argentina  inevitvel, questo apenas de tempo...
- Ora, tenente, no vejo razo...
- E ser preciso razo para comear uma guerra?
- Bom, por algum motivo as guerras comeam...
- Diga-me uma coisa: quando dois tigres se defrontam e agridem na floresta, h alguma razo para isso?
- Mas o caso  diferente.
- No se iluda. O Brasil e a Argentina so as duas potncias mais fortes da Amrica do Sul e portanto adversrios naturais, competidores natos... Uma guerra entre 
ambos  uma fatalidade e, se a coisa  assim, o melhor  que comecemos desde j a pensar realisticamente. Tivemos h pouco um atrito por causa das Misses. Outros 
viro... E eu lhe asseguro que o Exrcito no est dormindo.
Tirou um lpis do bolso e esboou um mapa da Amrica do Sul no mrmore da mesa.
- Olhe, aqui est o Brasil, aqui a Argentina.  possvel que eles invadam por ali... Na primeira fase da campanha, tudo indica que eles nos levaro de roldo at, 
digamos, Santa Catarina ou Paran...  a que nossa contra-ofensiva comear para s terminar em Buenos Aires. Nosso potencial humano  maior, nossos recursos econmicos 
mais largos.
Entrou em detalhes tcnicos. A ateno de Rodrigo j no seguia mais as palavras do oficial. No estava interessado naquela guerra hipottica entre a Argentina e 
o Brasil, mas sim em sua guerra particular contra Titi Trindade e seus asseclas. E naquele
310
exato instante estava interessado tambm em Marta, que no tirava os olhos dele, e, muito corada, lhe sorria um sorriso entre tmido e provocante.
- Menina, outra cerveja! - gritou Rubim. E prosseguiu em sua ofensiva rumo de Buenos Aires. Marta aproximou-se para pr a nova garrafa sobre a mesa. Rodrigo baixou 
os olhos para os tornozelos da rapariga, imaginando as pernas e as coxas que a saia escondia.
- Desafio a que me contestem! - exclamou o tenente de artilharia. - Os limites do Brasil devem ir no mnimo at a margem esquerda do rio da Prata. No mnimo! Foi 
um erro histrico entregar a Colnia do Sacramento aos castelhanos!
Naquele momento Pepe Garcia entrou no caf e Rodrigo chamou-o.
- Senta, homem. J conhecias o tenente Rubim Veloso? Don Pepe olhou para o oficial e inclinou de leve a cabea.
- Que  feito de ti? Estava com medo que te tivessem prendido... ou assassinado.
O pintor estava srio. Olhou para os lados, com ar misterioso.
- Creo que me siguen, hijo.
- Quem?
- No s. Es un presentimiento...
- Ests com medo?
- Miedo, yo? No me conoces.
- Toma alguma cousa.
O espanhol pediu um clice de conhaque, bebeu e limpou os bigodes com a manga do casaco.
- El miedo es un preconcepto burgus! Voltou-se para Rubim, e encarou-o firme.
- No tengo ei ms mnimo placer en conocerlo, capitn!
311

XII

Sbado pela manh, Chiru entrou intempestivamente no Sobrado com um nmero d'A Voz da Serra na mo.
- Olha s o que o canalha escreveu!
Bufava, furioso, passando atabalhoadamente o leno pela cara gotejante de suor. Rodrigo pegou o jornal com sofreguido. O ataque vinha na primeira pgina: era um 
editorial composto em tipo negrito com cercadura dupla. O ttulo, em caracteres maisculos e grossos, era: "Sepulcro caiado".
- Te prepara, menino - disse Chiru - porque a coisa  braba.
A simples leitura do cabealho, Rodrigo sentiu montar-lhe no peito uma raiva destruidora que o deixou estonteado, anuviando-lhe os olhos, impedindo-o de ler com 
clareza. Entrou no escritrio e disse ao amigo com voz fosca:
- Fecha essa porta.
Chiru obedeceu. Rodrigo sentou-se ao bureau e leu o editorial - a primeira vez com aodamento e um dio surdo, sem entender muito bem o que lia, pois a cada momento 
sua ateno fugia do artigo e ele ficava a imaginar coisas excitantes - dar uma sova no Amintas... entrar na Intendncia, ir direito ao gabinete do Titi, segur-lo 
pela lapela do casaco e partir-lhe a cara... correr  redao d'A Voz e quebrar tudo: vidros, mveis, mquinas, cabeas...
Leu o artigo duas vezes. Era duma torpeza sem par. A verrina era to vil, to srdida, que chegava a cheirar mal.
312
De onde partem as pedradas traioeiras que pretendem atingir o honrado governo deste municpio? De alguma casa que no tem telhado de vidro? No. Elas partem duma 
casa vulnerabilssima, do Sobrado dos Cambars, sepulcro caiado, manso do vcio, da iniqidade, da desdia e da podrido; duma casa que, para usarmos a imagem do 
grande Guerra Junqueira,  sinistra e suja como o lenol das velhas prostitutas; duma casa cujo chefe, em vez de dar-se o respeito que se exige de todo o cidado 
digno desse ttulo, afronta nossa sociedade vivendo amancebado com uma mulher por ele teda e manteda, a quem instalou numa casa  rua dos Farrapos, como  de todos 
sabido e notrio.  l que ele passa muitas de suas noites em orgias inconfessveis.
Do meio para o fim, o artigo assumia um tom sarcstico.
E agora que j demos ao pai o que ele merecia, vamos ao filho. No gastaremos muita cera com to ruim defunto. Que importncia pode ter o dr. Rodrigo Cambar (ai, 
doutor da mula rua!) esse mocinho pelintra que pensa conquistar Santa F com sua "formidvel" inteligncia e seus dotes fsicos? Ai, Rodriguinho! Onde foi que compraste 
tuas botininhas de cano de camura? E as tuas guas-de-cheiro? Quem confeccionou essas roupinhas que te fazem o dandy mais completo de Santa F? Teria sido o Salomo 
Padilha, teu amiguinho particular? Dizem que trouxeste de Porto Alegre muitos caixes com bugigangas, e que entre estas veio um gramofone, com chapas de Caruso. 
Ser que o grande tenor canta a famosa cano intitulada Ismlia Car? O estribilho  assim:
Ai Licurgo Cambar Ai Licurgo Cambar Onde est, onde estar A tua Ismlia Car?
Ouvimos tambm dizer que o dandy trouxe muitos vinhos e conservas estrangeiras. Decerto tudo isso  para as orgias do Sobrado, em
313
que tomam parte ele, o pai, o irmo e outros cafajestes que infestam a nossa cidade.
Como tudo aquilo era abjeto, barato, indigno!
Rodrigo ergueu-se, brusco, foi at uma das janelas, olhou na direo da Intendncia e comeou a soltar improprios.
Voltou-se para o amigo.
Depois disso, Chiru, s a bala - disse com voz apertada.
-  a nica resposta.
- Calma, menino!
- Envolverem nisso meu pai, minha casa, minha famlia - vociferou, apanhando de novo o jornal. - Escuta s. Ai, Rodriguinho! Me tratando como se eu fosse um efeminado. 
Me comparando com o Salomo. S a bala, Chiru.
- No te precipites. No caias na armadilha que te prepararam. Calma, calma.
Rodrigo, porm, no lhe dava ateno. Desferiu um pontap na cesta de papel e virou-a.
- Ser que o papai j leu essa sujeira?
- Se no leu, vai ler...
- E a tia? Que  que a Dinda vai dizer de tudo isso?
-  o diabo...
Rodrigo estava ferido. Esperava dos inimigos muitos insultos. Imaginara-os, porm, de outra natureza. Preferia que o Amintas lhe tivesse dito os nomes mais sujos 
do dicionrio, mas que o houvesse tratado de homem para homem. No entanto o cafajeste fizera humorismo, como se ele, Rodrigo Cambar, fosse um menino de colgio 
e ainda por cima um mancas!
Atirou-se numa cadeira e ali ficou a olhar fixamente para Chiru.
- Com que cara vou aparecer pr papai? Me diga, com que cara?
Naquele instante a porta abriu-se e Licurgo entrou. O filho ps-se de p como um autmato, voltando os olhos instintivamente para o jornal.
Licurgo, que fizera o mesmo, murmurou:
- J li.
314
Sentou-se e comeou a fazer um cigarro. Suas mos estavam um tanto trmulas. Por alguns segundos ningum falou.
- Me d o fogo, Chiru.
Chiru apalpou os bolsos, atrapalhado, e levou um tempo para encontrar os fsforos. Licurgo acendeu o cigarro.
- Eu sabia que eles iam me atacar por esse lado. A culpa  nossa: foi o seu jornal que comeou os ataques pessoais, meu filho.
Rodrigo olhava para o cho, de crista cada. Queria dizer alguma coisa, pedir perdo ao pai ou blasfemar, mas no conseguia arrancar nada do peito.
- No tenho do que me envergonhar - disse Licurgo, depois de algum tempo. - Nem tenho que dar satisfaes a ningum.
Os outros continuavam calados. Erguendo os olhos para o filho, o senhor do Sobrado perguntou:
- Quando  que vai sair o prximo nmero do jornal? Era a ltima coisa que Rodrigo esperava ouvir.
- No sei... Talvez amanh.
- Ento precisamos comear a trabalhar desde j. Rodrigo bravateou:
- Antes de preparar o segundo nmero Da Farpa, acho que devia sair e quebrar a cara do Amintas.
Licurgo sacudiu a cabea, numa lenta mas obstinada negativa.
- No, meu filho. Essas coisas a gente no faz assim. A esta hora o canalha deve estar fechado em casa, com guardas na porta, e quando sair pra rua h de ser com 
um batalho atrs. J lhe disse mais duma vez que no confunda coragem com temeridade. Pra gente ganhar uma batalha  preciso chegar vivo ao fim.
- Isso, coronel! - exclamou Chiru - isso! Voltou-se para Rodrigo:
- Vamos, homem. Comea a escrever, seno eles vo pensar que nos acovardamos. Aproveita enquanto a coisa est quente.
- Vai ento chamar o Pepe. Temos que comear agora mesmo.
Compunha mentalmente frases tremendas para arrasar o Trindade e o Amintas.
315
Chiru retirou-se. Rodrigo teve mpetos de abraar o pai, mas no ousou o gesto. Como achasse que devia dizer alguma coisa, balbuciou com afetuosa humildade:
- O senhor ento me autoriza a continuar? Licurgo falou sem olhar para o filho.
- Quando se pega na rbica do arado, deve-se ir at o fim do rego.
Quando se viu a ss no escritrio, Rodrigo escancarou as janelas e ps a funcionar o gramofone. Caruso encheu a sala com sua voz vibrante e metlica. Era a grande 
ria de Radams. Rodrigo acendeu apressadamente um cigarro, sentou-se ao bureau, mudou a pena da caneta e tirou da gaveta algumas tiras de papel em branco. Tinha 
j achado a forma que ia dar  sua resposta ao cachorro do Amintas. Escreveu o titulo: "Carta aberta a um crpula". Apanhou A Voz da Serra e releu, agora com mais 
calma, o editorial. Viu em pensamento a cara plida do rbula, chegou at a sentir o cheiro enjoativo do perfume que ele usava, e mentalmente esbofeteou-o muitas 
vezes, com a palma e as costas da mo, como se estivesse a lavar a tapas aquelas bochechas repulsivas. Ficou, depois, a escutar o tenor, pensando vagamente em faras, 
pirmides, guerreiros...
O que sentia agora era uma raiva fria e fina, de mistura com a sensao de haver sido vtima duma formidvel injustia. De certo modo julgava-se inatacvel ou pelo 
menos invulnervel. Quando lanara A Farpa, estava decidido a manter-se sereno, viesse o que viesse, fosse qual fosse a linguagem de seus inimigos no revide. No 
entanto, o editorial do crpula - era foroso confessar - fizera-o perder as estribeiras, tocando-o fundo. Agora,  idia de que Flora j tivesse lido aqueles insultos 
imundos  sua pessoa, a seu pai, a seu irmo,  sua casa - sim, porque aquilo atingia at tia Maria Valria! - ele compreendia que a coisa chegara a um ponto em 
que tinha de passar do terreno da palavra escrita para o da reao
316
fsica. No entanto A Farpa precisava sair, para que a populao de Santa F visse que ele no recuara e estava disposto a tudo.
O tenor aproximava-se da frase final. Rodrigo levantou-se, como se a ele e no a Caruso competisse arrancar do peito um si natural. Un trono vicino ai ciei! - cantou 
Radams. O copo vazio, em cima do bureau, vibrou. A voz de Caruso sumiu-se ficando apenas o chiado da agulha a rascar no disco. Rodrigo fez parar o gramofone, voltou 
para a mesa e comeou a carta:
Pstula: Quando Deus, num momento infeliz de mau humor, resolveu criar-te, viu logo que no eras digno dum ventre de mulher, e por isso te fez nascer numa cloaca, 
como produto do viscoso conbio entre uma ameba disentrica e um verme recm-cevado no cadver dum chacal.
Releu o perodo, achou que estava bem, e continuou: s um aborto langanhento, e o simples fato de existires constitui um formidvel insulto ao gnero humano. Pretendeste 
atingir com tua baba ofidica minha casa, minha famlia, minha pessoa, mas o que fizeste, molusco, foi apenas cuspir para o cu: a podrido que jorrou de tua pena 
mercenria caiu-te inteira e fedorenta nessa cara ridcula de funmbulo.
Ergueu-se, ficou a caminhar na sala dum lado para outro, com o papel na mo, mordendo freneticamente a ponta da caneta. Aquilo estava ainda fraco. Era preciso ferir 
o outro mais fundo. Sentou-se de novo e escreveu:
Perguntas onde comprei as minhas botinas de cano -de camura. Eu te direi, antes de mais nada, que as comprei com dinheiro limpo, honestamente ganho, e no com dinheiro 
sujo, roubado aos cofres pblicos, como  o com que te paga o Titi Trindade, teu patro. E sabes para que as comprei? Foi para te aplicar um pontap no traseiro 
na primeira oportunidade em que te encontrar, seja onde for, estejas com quem estiveres. Porque se a um macho se bate na cara, a um invertido se bate no rabo!
317
- Aqui est o que eu queria! - exclamou, dando uma palmada na mesa.
Quando don Pepe chegou, j sem casaco e de mangas arregaadas, Rodrigo mostrou-lhe o que acabara de escrever.
- Precioso, hijito, precioso. Ahora, a trabajar y a trabajar.
- Precisamos lanar A Farpa amanh.
- Imposible. Estoy solo.
- Desta vez vamos publicar o jornal s com duas pginas.  por causa do efeito rnoral. Tem de sair logo, pra coisa no esfriar. Comea a compor esta carta aberta. 
Vamos, desce pra oficina. Vou agora dar a dose do Trindade.
 tardinha daquele mesmo dia, Neco entrou no Sobrado e, com ares misteriosos, arrastou Rodrigo para a janela, mostrando-lhe um homem que estava parado na calada 
fronteira.
- Sabes quem  aquele cabra?
- No.
- O Dente Seco.
- Opa!
Rodrigo debruou-se  janela para olhar melhor, j com um desejo formigante de interpelar o forasteiro. Neco, porm, puxou-o para trs, fazendo com que ambos ficassem 
a observar o gacho dum ngulo de onde no pudessem ser vistos por ele.
- Sabes o que me aconteceu? Pois o bandido hoje me entra todo pimpo na barbearia, pendura o chapu no cabide e senta-se na cadeira. Eu, que no conhecia o bicho, 
perguntei: "Cabelo ou barba?" Ele respondeu seco: "Barba". Olhei pra cabeleira dele e fiquei com vontade de meter a tesoura. O bicho  cabeludo, Rodrigo, os cabelos 
dele do pra, fazer trana. Comecei a examinar a cara do homem pelo espelho. Ele viu que eu estava olhando e perguntou: "Sabe quem sou eu?" Respondi que no. E o 
homem: "Me chamo Silvino Neves, mas me tratam por Dente Seco".
- E tu, que disseste?
318
- Ora, fiquei mais pra l que mais pra c, e achei melhor dizer que j conhecia ele de nome. Ensaboei a cara do cabra e indaguei assim com ar de quem no quer nada: 
"Ainda que mal pergunte, que  que o patrcio anda fazendo por estas bandas?" E tu sabes o que foi que ele respondeu? "Vim fazer um servicinho pr coronel Trindade." 
Comecei a passar a navalha no assentador. "Que servicinho?" E ele, mais que depressa: "Dar um susto nuns mocinhos bonitos". E meio que riu. Quando eu j estava barbeando 
o bandido, ele revirou os olhos pra cima, viu o meu leno colorado e disse: "Pelo que vejo, o amigo  maragato, no?" "Dos quatro costados", respondi. "Pois ento 
me faa essa barba direito, seno nos estranhamos."
- E tu... fizeste direito?
Rodrigo no tirava os olhos de Dente Seco, que continuava no mesmo lugar, picando fumo com uma faca de lmina larga, e a olhar sempre fixamente para o Sobrado.
- Naturalmente - respondeu Neco. - Mas quando passei a navalha nos gargomilos do homem me veio uma idia. Se eu aperto o fio agora, talvez salve a vida de muita 
gente, talvez salve at a vida do Rodrigo. Palavra de honra, bandido no sou, mas que senti ccegas nos dedos, isso senti. E tu sabes duma coisa, menino? O diabo 
parece que adivinhou meus pensamentos e perguntou: "Vassunc j degolou algum?" Respondi que no. "Pois ento no sabe o que perdeu."
Rodrigo observava o bandido. Era um homem de meia-idade, baixo e fino de corpo. Estava de chapu de barbicacho, camisa branca, leno verde ao pescoo, bombachas 
de riscado e botas muito sujas. Como ele erguesse a cabea para olhar a gua-furtada, Rodrigo pde ver-lhe melhor o rosto triangular e acobreado, de bigodes espessos 
e negros que lembravam fumo em rama e lhe escorriam pelos cantos da boca com as pontas quase a tocarem os lbulos das orelhas.
Esse cachorro est me provocando... - murmurou Rodrigo, por entre dentes. - Decerto pensa que vai me assustar. Acho melhor ir perguntar o que ele quer...
319

Fez meno de sair da sala, mas Neco segurou-o pelo brao e, como naquele instante Licurgo entrasse, o barbeiro p-lo ao corrente do que se passava.
- Fique quieto, meu filho. O que eles querem  que o senhor aceite a provocao pra l matarem e depois dizerem que foram agredidos.
Dente Seco botou a faca na bainha, tirou a palha de trs da orelha, ps nela o fumo picado, enrolou o crioulo, ficou por algum tempo batendo o isqueiro e, aceso 
o cigarro, saiu a andar lentamente na direo da Intendncia.
s oito da noite o coronel Jairo Bittencourt desceu dum carro  frente do Sobrado e bateu na porta. Conduzido para a sala de visitas,  presena de Licurgo e Rodrigo, 
colocou sobre o consolo o pacote que trazia, e foi logo dizendo, na sua maneira pomposa mas calidamente cordial:
- Vim apresentar meus respeitos aos queridos amigos e renovar meus protestos de amizade...
E como pai e filho nada dissessem, prosseguiu:
- O ataque de que fostes alvo  duma mesquinhez sem limites. Como militar no me  lcito tomar partido em questes polticas. Mas acontece, caros amigos, que quando 
entrei para o Exrcito ningum me exigiu que abdicasse dos direitos de cidado, nem dos sentimentos de fraternidade, de dignidade, de justia, de... - Ergueu a mo 
e comeou a abri-la e fech-la, como se quisesse apanhar no ar a palavra arisca - de... enfim, de solidariedade social. E como cidado, como ser humano, no posso 
deixar de lanar meu protesto contra a maneira brutal e injusta como o jornal da situao atacou esta famlia e esta casa.
Licurgo estava to constrangido, que pigarreava repetidamente, olhando para o bico das prprias botinas.
- Posso garantir-vos que meu protesto no  platnico, pois acabo de enviar uma carta enrgica, embora vazada em termos 
320
decorosos, ao redator d'A Voz da Serra, protestando contra sua linguagem e suas calnias.
- Muito obrigado - disse Rodrigo - sua amizade muito nos desvanece.
Como os trs estivessem ainda de p, Licurgo convidou:
- Sente-se, coronel.
Jairo Bittencourt sentou-se, tranou as pernas, tirou do bolso um leno e passou-o pelo rosto. Olhou longa e afetuosamente para Rodrigo:
- O meu prezado amigo  duma combatividade e duma coragem admirveis.
-  bondade sua...
Erguendo a mo sardenta e rosada, o militar segurou o brao de Rodrigo, que se conservava de p, ao lado de sua cadeira.
- Se permite que um homem mais velho que o senhor e naturalmente mais experimentado, embora no mais culto nem mais talentoso, lhe faa uma observao...
- Faa, coronel.
- Promete que no me vai levar a mal?
- Ora, por quem !
- Eu diria que lhe est faltando ainda uma orientao doutrinria... O amigo tem o sentimento da justia social. O que lhe falta  uma base ideolgica slida. Perdoe 
a franqueza.
- Talvez... O coronel naturalmente est falando como positivista convicto...
- Naturalmente! E que melhor base existe para uma ao social que o positivismo?
Fez um gesto largo de apstolo jovial. Depois, ergueu-se e apanhou o pacote que deixara em cima do consolo, sob o grande espelho. Tirou o invlucro de papel pardo 
e aproximou-se de Rodrigo com um livro na mo.
- Vou lhe pedir um favor, um grande, imenso favor. - Bateu na capa do volume. - Leia isto quando tiver tempo. - Systme de Politique Positive, de Augusto Comte. 
E um livro bsico. Leia e medite. No me conformo com a idia de que um moo
321
esclarecido e combativo como o senhor fique por mais tempo divorciado da boa causa.
- Mas coronel.
- Eu sei o que vai dizer. Mas no diga nada antes de ler a obra. Se depois de chegar  ltima pgina no estiver ainda convencido das verdades que o livro encerra... 
pacincia. Mas leia quand mme.
- Est bom - disse Rodrigo, folheando distraidamente o volume. E mentiu: - Vou comear hoje mesmo.
Jairo tornou a sentar-se.
- Mas ento - perguntou - depois do ataque que sofreram, qual vai ser a vossa atitude?
- Vamos contra-atacar.
- Se me permite a pergunta, em que termos?
- Nos mais violentos. Quer ouvir o editorial que escrevi? O militar fez um sinal afirmativo. Rodrigo tirou do bolso uma
prova da carta aberta e comeou a l-la com veemncia. De quando em quando erguia os olhos para observar as reaes do outro. O rosto do coronel, de ordinrio rosado, 
foi ficando aos poucos cor de lacre. Quando Rodrigo chegou ao final do artigo, Jairo Bittencourt ps-se de p bruscamente.
- Mas  uma barbaridade! - Voltou-se para Licurgo. - E o senhor vai permitir que se publique isso?
- Por que no? O Rodrigo  maior e sabe o que faz. Como que aturdido, o positivista olhava do pai para o filho.
- Mas depois disso, senhores, no pode haver mais argumentos seno a violncia, a agresso fsica!
Rodrigo encarava o visitante em silncio, gozando o efeito que a carta aberta produzira nele. Jairo segurou-o pelos ombros e sacudiu-o.
- Em nome de tudo quanto  mais sagrado, peo-lhe que no publique essa carta!
- O artigo que escrevi contra o Trindade  um pouquinho mais violento... Assassino  a palavra menos ofensiva que usei.
- Por favor! Terminemos com isso enquanto  tempo. Essa polmica pode ter conseqncias trgicas no s para esta casa como para toda a famlia santa-fezense.
- Agora  tarde, coronel. O jornal est pronto e vai ser distribudo amanh  porta da matriz, na hora da missa.
- Mas  um acinte.
- Exatamente. Ns queremos que seja isso mesmo: um acinte. O comandante do regimento de infantaria ofegava, e em suas
narinas esvoaaram pelinhos fulvos. Seus olhos claros fitavam ora o rosto de Rodrigo, que sorria, ora o de Licurgo, que continuava taciturno. Por fim o militar tornou 
a sentar-se, desta vez pesadamente, como num dramtico final de ato, e ficou por muitos segundos em silncio, a olhar para o soalho. Depois, com voz mais calma:
- Se o senhor quer realmente servir sua terra e sua gente, no  essa a orientao que deve dar  campanha. As ofensas pessoais no conduzem a parte nenhuma a no 
ser  violncia e  destruio. O que precisamos  construir e no destruir.
- Eu pretendo tambm construir, coronel. O senhor acha possvel plantar alguma coisa til num terreno cheio de ervas daninhas? O que estou fazendo  arrancar essas 
ervas.  duro, perigoso e cruel, mas necessrio.
- Mas acontece que estais em absoluta minoria! Sabeis disso melhor que eu. O intendente  senhor de barao e cutelo. Olhe, no quero ser veculo de boatos nem de 
intrigas, mas pessoa de muita responsabilidade me assegurou que o delegado de polcia mandou vir de fora um indivduo de maus antecedentes, um capanga...
- Eu sei. Por sinal hoje  tardinha ele estava parado ali na calada fronteira, olhando para o Sobrado.
O coronel meneou a cabea lentamente.
- Tudo isso  puro desperdcio de energia, puro malbaratar de coragem e mpeto combativo.  uma atitude suicida, dr. Rodrigo, e eu no posso permitir que amigos 
queridos se lancem assim para a morte.
322
323
Levantou-se com o ar de quem ia fazer algo de violento e definitivo.
Licurgo, que passara todo o tempo a pontilhar a conversa com seus pigarros secos, perguntou:
- O senhor, ento, como autoridade militar, vai proibir que o jornal de meu filho saia?
- Absolutamente! Seria outro ato de violncia no s inconstitucional como tambm contrrio s minhas convices polticas e filosficas.
Deixou cair os braos e soltou um prolongado suspiro.
- Enfim, fiz o que pude, cumpri o meu dever. E agora, se me do licena, retiro-me. Meus respeitos  sra. dona Maria Valria.
Apertou a mo de Licurgo. Rodrigo tomou-lhe cordialmente o brao e levou-o at a porta.
- No quero que v embora zangado comigo, coronel... Peo-lhe que compreenda a minha situao...
O militar sorriu.
- Tambm j tive vinte e quatro anos, meu amigo. Rodrigo percebeu que Jairo estava comovido. Pararam no
meio da calada.
- E no se aflija, coronel. No vai me acontecer nada.
- E que  que lhe d tanta certeza disso?
- Um pressentimento, algo que no sei explicar. No fundo sou um otimista incorrigvel. Sempre fui. Acho que no se fabricou ainda a bala que h de me matar.
Pensou em que naquele mesmo momento podia ser alvejado por algum que estivesse atocaiado nas sombras da praa, e essa possibilidade de perigo produziu-lhe uma estranha 
sensao de gozo.
Abraaram-se. E quando o coronel j estava a atravessar a rua, Rodrigo gritou-lhe:
- Precisamos qualquer noite destas fazer uma tertlia aqui em casa, comer um caviarzinho com champanha e ouvir boa msica. E meus respeitos  esposa, coronel!
Quando o outro se sumiu entre as sombras do arvoredo, Rodrigo ficou ainda por algum tempo a contemplar as estrelas.
324
XIII
Na manh seguinte, pouco antes das dez horas, deixou o Sobrado e atravessou a rua em passadas vagarosas, na direo da matriz, cujos sinos badalavam anunciando que 
a missa ia comear. Caminhava com uma lentido calculada, atento s pessoas que quela hora se dirigiam para o templo ou passeavam pelas redondezas, num cio domingueiro. 
Tinha vestido pela primeira vez uma muito bem cortada roupa de tussor de seda - coisa que at ento ningum vira em Santa F -, calava sapatos de verniz de bico 
fino e levava na cabea, que mantinha altivamente erguida, um palheta de copa baixa e aba curta e espessa. Estava de rosto recmescanhoado (o Neco viera ao Sobrado 
s sete da manh, para barbe-lo) e passara alguns minutos diante do espelho a escolher uma gravata que combinasse com o tom de palha da fatiota.
Avistou Emerenciana Amaral, que caminhava penosamente entre duas filhas, e sorriu para ela, tirando o chapu. Cumprimentou tambm Maneco Macedo, que descia de seu 
carro  frente da igreja. Queria que todos o vissem alegre e sereno, para ficarem sabendo que a lama jogada contra ele pelo escriba do Trindade no o atingira. Parou 
um instante na calada fronteira  matriz e ficou a olhar as pessoas que entravam. Tirou do bolso o relgio: faltavam ainda cinco minutos para comear a missa. Decidiu 
- e essa deciso lhe deu uma ccega de antecipao parecida com a que sentia quando, nos tempos de menino, aproveitava os silncios da sesta para ir furtivamente 
 despensa roubar bom-bocados - decidiu passar pela Intendncia antes de entrar na igreja. Ps-se em 
325
movimento e, quando estava j na metade da quadra, avistou Lao Madruga, que caminhava na mesma direo mas em sentido oposto. Era a primeira vez que encontrava 
um de 
seus inimigos frente a frente, depois que atirara a primeira farpa. O delegado de polcia estava vestido de preto e, como era seu hbito, caminhava de cabea baixa, 
a aba do chapu de feltro puxada sobre os olhos, as mos s costas, segurando a grossa bengala de casto de prata. Um soldado da guarda municipal seguia-o, armado 
de espada e Nagant, e tambm com a aba do quepe cada sobre a testa. Instintivamente Rodrigo levou a mo  altura do rim direito e apalpou o cabo do revlver. Comeou 
a assobiar automaticamente a havaneira da Carmen. Achava-se agora a poucos passos do famigerado Madruga, o terror de Santa F! Murmurava-se que fora ele prprio 
quem degolara o Tito Chaves. Canalha!
O capito Madruga ergueu os olhos e fitou-os em Rodrigo, que o encarou firme. Aconteceu, ento, algo de inesperado. O delegado fez avanar o brao esquerdo, cuja 
mo segurava a bengala, e com o indicador da mo direita bateu na aba do chapu, dizendo claramente: "Bom dia!" Rodrigo sentiu um sbito calor nas faces e quedou-se 
por um instante confuso. Teve pena do animal e ao mesmo tempo desejou cuspir-lhe na cara.
V gente entender as pessoas! Quando imaginei que ia me meter a bengala na cabea, o homem me deseja bom-dia!
Continuou a andar, mas com a cadncia dos passos alterada. E,  medida que se afastava do delegado, ia sendo invadido por um sentimento de despeito, pois j agora 
lhe parecia que a atitude benvola do capito Madruga dava a entender que o bandido no o tratava como homem, mas sim como um menino a cujas mcriaes no se deve 
dar muita importncia.
Cachorro! - murmurou. - Depois de tudo o que eu disse, ainda me cumprimenta!  o cmulo do rebaixamento!
Parou diante do edifcio da Intendncia, j agora sem saber ao certo se havia ou no, na confuso do momento, correspondido ao cumprimento do facnora. A dvida 
embaraosa picou-o por alguns instantes.
326
Os sinos silenciaram. Rodrigo voltou apressado para a igreja, entrou e assistiu  missa at o fim, suspirando com impacincia durante o longo e fastidioso sermo 
do padre Kolb.
 medida que se aproximava o fim do culto, sentia sua ansiedade aumentar. Que iria acontecer quando se pusessem a distribuir o jornal? Talvez os capangas de Trindade 
andassem pelos arredores e o tiroteio comeasse ali mesmo, na frente da igreja, o que seria desastroso, pois havia mulheres e crianas na missa. Eu devia ter escolhido 
outro lugar e outra hora... Diabo!
Quando a missa terminou e os fiis comearam a sair, Rodrigo postou-se do lado de fora da porta do templo, no alto dos degraus, de onde avistou logo o Chiru, que 
comeava a distribuir A Farpa, gritando e fazendo largos gestos de camel. Maneco Macedo e Joca Prates receberam seus exemplares: o primeiro, sorrindo, o segundo 
de cenho fechado. Outras pessoas, no estonteamento da surpresa, pegavam automaticamente a folha que Chiru lhes dava e muitos, depois de verem do que se tratava, 
amassavam o jornal e o lanavam na sarjeta. Rodrigo no podia perceber se faziam isso com raiva ou apenas com medo de serem apanhados pela gente de Titi com aquela 
coisa comprometedora na mo. No meio da rua, Bento tambm andava ativo na distribuio, ao mesmo passo que, parado a uma esquina, don Pepe atacava todos que por 
ali passavam e metia-lhes nas mos ou debaixo dos braos, meio  fora, um, dois ou mais exemplares do jornal, gritando:
- Edicin especial de La Farpa, matutino independiente! Vamos, senores, que esto es grtis. Hay que agitar!
Muitos passavam de largo; outros pegavam a folha e paravam para ler os cabealhos. Alguns at pareciam ensaiar protestos. O vento fazia esvoaar os jornais que juncavam 
as caladas e o pavimento da rua. Rodrigo avistou, sob as rvores da praa, o Neco Rosa no momento em que ele metia  fora debaixo do sovaco de Arrigo Cervi um 
jornal dobrado. Vrias mulheres  frente da igreja
327
puseram-se a falar nervosamente e Rodrigo entreouviu algumas das palavras que diziam - ligeiro... vamos embora... vai haver briga... Nossa Senhora... onde est 
o teu pai? As caboclinhas do coronel Cacique desceram os degraus em fila indiana, todas vestidas de branco. Rodrigo tirou o chapu, num prolongado cumprimento que 
pretendia abranger toda a famlia Fagundes. O coronel Cacique parou e sua face lustrosa e gorda alargou-se ainda mais num sorriso.
- Que negcio  esse?
- Comeou a inana, coronel! E a edio especial d'A Farpa.
- O senhor tem tutano mesmo, moo!
Rodrigo viu quando Chiru fez meno de entregar um exemplar d'A Farpa a Cuca Lopes, que sacudia as mos e a cabea em frenticos gestos negativos. E como o outro 
procurasse meter-lhe  fora o jornal no bolso, Cuca saiu quase a correr na direo da praa, em cuja calada foi atacado pelo Neco, de quem se esquivou, quebrando 
o corpo e embarafustando em ritmo de fuga por entre pltanos e cinamomos.
Rodrigo contemplava a cena, exaltado. L ia a Ritinha Prates, ao lado dos pais. O tenente Lucas a seguia de pequena distncia, metido no seu uniforme de gala. Os 
lenos vermelhos que drapejavam como pendes de guerra nos pescoos de Chiru e Neco; o vestido azul-eltrico da Gioconda; a sombrinha verde de Ritinha; as calas 
de garana do tenente de obuseiros; o vaivm das gentes nas ruas e caladas, num movimento multicor de calidoscpio; o repicar dos sinos, que parecia emprestar uma 
certa iridescncia  dourada claridade da manh - tudo isso, sob o vasto e lmpido azul do cu, dava  cena um ar festivo de feira.
Rodrigo sorriu ao avistar Salomo Padilha que, de fraque cor de caf com leite, calas e chapu da mesma cor, passava rebolando a bengala de junco e as ancas. O 
pelintra! O sem-vergonha! O cara-dura!
Dentro de poucos minutos a rua e a calada fronteiras ao templo ficaram quase desertas. Don Pepe, Chiru e Neco aproximaram-se do amigo, de mos vazias e caras radiantes.
- Magnfico, pessoal! - elogiou-os Rodrigo. - Servio muito limpo.
328
- Estou admirado de no ter aparecido nenhum beleguim - comentou Chiru.
- Dei um jornal pr capito Madruga - gabou-se Neco. E Chiru:
- Meti um no bolso do juiz de comarca. Don Pepe sorria silencioso,
- E tu, homem?
O espanhol perfilou-se.
- He tenido ei gran placer de regalar a don Kolb, ei cura, un ejemplar dei peridico. Lo ech lejos, me miro con un santo horror, como si yo fuera ei propio Satans, 
y me dijo algo en alemn. Creo que ofendi mi madre.
Rodrigo atravessou a rua e continuou a andar na direo da rua do Comrcio. Como os companheiros fizessem meno de segui-lo, deteve-os com um gesto.
- Fiquem aqui. Vou descer a rua sozinho. No quero que pensem que ando cercado de capangas.
Os outros obedeceram, contrariados. E quando Rodrigo j se afastara deles uns dez passos, Chiru gritou:
- Te cuida, homem! - E em tom mais baixo: - Esse menino se arrisca demais.
Aquela hora viam-se muitas pessoas s janelas pois era hbito dos moradores da rua do Comrcio virem todos os domingos assistir  passagem dos que voltavam da missa. 
Rodrigo cumprimentava amavelmente os conhecidos. Notava com satisfao que era olhado dum modo todo especial e sabia que, depois que passava, as comadres ficavam 
a fazer comentrios. Era o homem do dia. Fizera o que at ento ningum tivera a coragem de fazer em Santa F: atacara de frente e de rijo o strapa municipal e 
sua camarilha. Ah! Era uma pena que Flora tivesse ido passar o resto do vero numa das estncias do pai, pois lhe seria muito agradvel ir agora
329
at a casa dela... Em todo o caso prolongaria a caminhada at o Schnitzler e entraria para tomar uma cerveja fresca ou um Fernet
- Bom dia!
Tirou o chapu ao defrontar a residncia do Marcelino Veiga que estava debruado  janela. Pareceu-lhe que o homem respondeu, ao cumprimento com certa relutncia 
e sem a habitual cordialidade Ser que esse cachorro est com medo de se comprometer? Ele teve mpetos de parar e gritar: "No preciso de teu cumprimento! Por que 
no 
o cortas duma vez? Comigo no h meias medidas, quero tudo claro!"
Continuou, porm, a andar, sorrindo com superioridade e la mentando que houvesse em Santa F tantos homens indecisos, in capazes dum gesto de coragem cvica, de 
desprendimento, de...
Avistou o Dente Seco, de rebenque na mo, encostado na porta da Farmcia Humanidade... Ai, ai, ai... Vamos ter barulho instintivamente apalpou o revlver e a seguir 
desabotoou o casaco. A prudncia me manda atravessar a rua, mudar de calada... Mas a prudncia que v pr diabo. No vou dar a ningum o gostinho de dizer que tive 
medo.
Havia  frente da farmcia um pequeno grupo de homens que fumavam e palestravam. Ao verem Rodrigo aproximar-se, mudaram imediatamente de atitude: ficaram numa imobilidade 
e num silncio tensos, a olhar alternadamente do moo do Sobrado para o capanga do Trindade.
Rodrigo passou pela frente do caboclo a passo lento. Que boa cara para uma bofetada - pensou, ao lanar para o outro um olhar enviesado. Ali estava o tipo clssico 
do bandido: melenudo, as mandbulas quadradas, os olhos estreitos, a bigodeira basta... Rodrigo no pde deixar de sentir certo mal-estar ao cruzar to perto daquele 
homem que fora chamado a Santa F "para assustar uns mocinhos".
Estava j distante de Dente Seco uns cinco passos quando ouviu uma voz em falsete:
- Ai-ai, mame! Que rica mocinha!
Foi como se lhe tivessem chicoteado a cara. Voltou-se, brusco, e olhou. De mos na cintura, agora no meio da calada, o capanga contemplava-o, rindo provocadoramente.
330
- Falou comigo?
- Falei - retrucou o bandido. - Quer me arranhar o papo guri?
Sem dizer palavra, Rodrigo avanou... Viu o cabra dar dois passos  retaguarda e erguer o rebenque. Saltou para um lado, mas no pde esquivar-se de todo ao golpe, 
que lhe arrancou o chapu, atingindo-lhe de refilo o brao esquerdo. Dente Seco tornou a golpear, de novo Rodrigo quebrou o corpo. A sola do rebenque, porm, mordeu-lhe 
a ponta da orelha e caiu-lhe em cheio no ombro. Com um vigor que a raiva duplicara, Rodrigo atracou-se com o bandido, agarrou com ambas as mos a haste do rebenque 
e arrebatou-o com to furioso repelo, que quase tombou de costas E durante a frao de segundo em que ele ficou a debater-se para manter o equilbrio, o outro levou 
a mo  cintura e arrancou o revlver. Rodrigo, entretanto, no lhe deu tempo de fazer mais nada. Segurando o rebenque pela ponta, desferiu com o cabo um golpe seco 
no pulso do capanga, que deixou cair a arma. E quando o viu inclinar-se para apanh-la, cerrou os dentes e, cego de dio, golpeou-lhe violentamente a nuca com a 
argola do rebenque. O cabra caiu de borco, sem soltar um ai.
O grupo que se havia dispersado quando a briga comeara, tornou a reunir-se. Rodrigo atirou o rebenque na sarjeta, apanhou o chapu, enfiou-o na cabea, e ps-se 
a limpar as mos no leno com um cuidado exagerado.
Sentiu que lhe seguravam o brao. Olhou Era o tenente Lucas, que lhe perguntava, aflito: "Que foi que houve? Ests ferido?"
Fez um sinal com a cabea, mostrando o homem que continuava estendido na calada, imvel. Depois voltou-se e comeou a caminhar, rumo do Sobrado. Naquele momento 
surgiam curiosos de todos os lados; pessoas saam de suas casas e se aglomeravam, j numa algazarra, ao redor de Dente Seco. Rodrigo ouvia palavras soltas - 
morto?... chamem um mdico... barbaridade!
Estarei plido? Ou vermelho? Apalpou o cabo do revlver. Sentia como que uma cinta de ferro a apertar-lhe o peito, dificultando-lhe a respirao. As pernas, porm, 
estavam firmes. Aos poucos comeou a ficar tomado de uma satisfao selvagem, que lhe
331
dava uma vontade de gritar coisas para as pessoas que se achavam s janelas ou que passavam por ele na calada. Parou a uma esquina e olhou para trs. Havia agora 
 frente da Farmcia Humanidade uma pequena multido. Nas proximidades da praa, encontrou Chiru, Neco e don Pepe, que sabiam j do conflito e queriam pormenores. 
Rodrigo resumiu dramaticamente a situao:
- Deixei o Dente Seco estirado na calada na frente da farmcia do Zago.
Entrou calmamente no Sobrado e contou ao pai e  tia, j mais exaltado, o que acontecera. Tirou da carteira um cigarro e acendeu-o, verificando, com profunda satisfao, 
que suas mos no tremiam.
- O homem ficou muito ferido? - indagou Licurgo, apreensivo.
Fingindo uma indiferena que estava longe de sentir, Rodrigo respondeu:
- No tenho a menor idia.
- No me olhe com essa cara, Dinda! - exclamou quando, ao erguer os olhos, viu Maria Valria plantada em sua frente, com os braos cruzados.
- U! Que cara?
- A senhora parece que ainda no se convenceu de que no sou mais criana. Est a me olhando como se eu tivesse feito uma travessura.
- E no fez? Ento andar de aloites na rua com um bandido  coisa que se faa?
- Fui provocado.
- Por que no voltou pra casa depois da missa? Por que foi se mostrar na rua do Comrcio?
Licurgo andava dum lado para outro, mastigando nervosamente a ponta do cigarro apagado. Maria Valria foi at a cozinha, de onde voltou pouco depois com uma xcara 
de caf.
332
- Tome.
- No estou nervoso. Olhe.
Espalmou a mo no ar para mostrar a firmeza dos dedos.
- Mesmo que no esteja, caf sempre  bom. Tome duma
vez.
Rodrigo segurou a xcara e bebeu um gole.
- Hum! Est amargo.
- Assim  melhor.
Bebeu com certa relutncia, fazendo caretas, bem como nos tempos de menino, quando a madrinha o obrigava a tomar leo de rcino, seguido de caf amargo "pra tirar 
o gosto ruim da boca".
- No est lastimado?
- No - respondeu Rodrigo com o laconismo de quem queria cortar o assunto.
A ponta da orelha esquerda agora lhe ardia, como se estivesse queimada. Cachorro! No me arrependo do que fiz. Os bandidos vo ver, duma vez por todas, com quem 
esto tratando.
O relgio da sala de jantar comeou a bater as doze badaladas do meio-dia.
- O almoo est pronto - anunciou Maria Valria.
- Ora! - exclamou Licurgo, agastado. - Numa hora destas quem  que vai pensar em comida? Sabe l o que aconteceu pr'aquele homem...
S ento  que passou pela cabea de Rodrigo a idia de que podia ter matado o capanga. Isso lhe deu uma to desagradvel sensao de frio interior e nusea, que 
por um instante teve a impresso de que ia regurgitar o caf. Lembrava-se de ter batido na nuca do caboclo com o cabo do rebenque, de ferro macio, munido duma argola 
tambm de ferro... Recordou, com um calafrio, o rudo fofo que o golpe produzira... Mas no... No dei com tanta violncia que pudesse... Qual! No adiantava querer 
iludir-se. Sabia que tinha golpeado Dente Seco com a fora que lhe vinha da raiva... Santo Deus! Se matei o cabra, estou perdido.
Ps-se de p bruscamente.
- Papai, preciso ir ver se o homem j voltou a si... Licurgo olhou para o filho com ar autoritrio.
333
- Ningum me sai desta casa. Fique sentado e espere.
- O senhor se esquece de que sou mdico.
- Mas no  o nico na cidade.
- O meu dever era ter ficado l pra medicar a criatura.
- E por que no ficou?
Rodrigo no achou resposta. Via agora como tinha procedido mal. Em vez de mandar carregar o caboclo para dentro da farmcia, tratando de reanim-lo - recriminava-se 
ele -, assumira uma "atitude herica", s porque havia uma platia e ele queria proporcionar ao pblico o espetculo de sua coragem, de seu sangue-frio, de seu aplomb. 
Pouco lhe importara a vida daquele ser humano (um facnora, sim, mas uma criatura de Deus) pois o dr. Rodrigo Terra Cambar s tivera olhos e cuidados para seu penacho!
Por um instante os dois homens mediram-se com o olhar. Rodrigo de repente percebeu que, pela primeira vez em sua vida, acendera um cigarro diante do pai. Jogou-o 
na escarradeira e, sem dizer palavra, entrou no escritrio, fechando a porta a chave.

Sentado ao p do gramofone, a olhar fixamente para a campnula, Rodrigo debatia-se numa confuso de sentimentos. Ora se arrependia do que havia feito - a comear 
pela provocao que lanara a Trindade e sua gente e que redundara naquele conflito com Dente Seco -, ora procurava convencer-se de que procedera com acerto e de 
que as coisas no podiam ter se passado de outra maneira. Devia ele, na frente de tanta gente, "pagar um vale" e continuar a andar indiferente, quando o cabra lhe 
atirara em rosto uma frase gaiata em que sua masculinidade era posta em dvida? Claro que no. Por outro lado, a idia de ter matado um homem enchia-o dum horror, 
duma sombria sensao de culpa. Era como se, de repente, em sua vida se tivesse feito um hiato, um vcuo medonho dentro do qual s ouvia o latejar medroso do prprio 
sangue...
Assassino. Eu, um assassino. Nunca esperei que isso me pudesse acontecer. Meu nome nos jornais, em todos os jornais do
334
pas. Esto vendo aquele sujeito que ali vai?  o dr. Rodrigo Cambar. Matou um homem. Foi absolvido mas o remorso est acabando com ele aos poucos. No tem ainda 
trinta anos mas est com a cabea completamente branca.
Adeus, Flora! Adeus, belos planos! Adeus, msica! Adeus, livros! Adeus, carreira! Adeus, tudo!  estpido, estpido, estpido... Ficou olhando para o cho, a repetir 
a palavra, obstinadamente, e a sacudir a cabea.
De sbito veio-lhe uma esperana. E se o homem no morreu? Claro. Como  que posso ter como certa uma coisa que pode no ter acontecido. Em sua mente soou uma voz... 
"Esses golpes na nuca so sempre fatais." Imaginou o dr. Matias a escrever o atestado de bito: "Causa mortis, fratura na base do crnio produzida por um instrumento... 
"O corpo do Dente Seco velado na Intendncia, com todas as honras. O bandido apresentado a Santa F, ao Rio Grande do Sul e ao Brasil como um mrtir republicano. 
A explorao que o Titi Trindade ia fazer de tudo aquilo... O que o pulha do Amintas ia escrever na Voz... A lama que outra vez iam jogar sobre o Sobrado e os Cambars... 
Corja! Deu um murro na guarda da cadeira e procurou encher-se dum sentimento de indignao suficientemente forte para afogar o prprio remorso. E se o capanga tivesse 
conseguido me meter uma bala na cabea? Quem ficaria cado na calada era eu...
Em sua mente um quadro delineou-se, ntido: o cadver de Rodrigo Cambar estendido sobre a mesa da sala de jantar, entre quatro velas acesas, cercado de parentes 
e amigos que lhe choravam a morte, enquanto o Pitombo em sua oficina batia os pregos do esquife em que haviam de enterrar o moo do Sobrado. Vinte e quatro anos... 
Na flor da idade... Que banditismo!
Levantou-se, num acesso de autocomiserao.
Sim, eu podia estar morto. Sejamos lgicos e no apenas sentimentais. Compare-se a vida do Dente Seco com a minha. Dum lado, um bandido que cometeu vrios crimes, 
cortou muitas vidas, um assalariado, um homem bronco e cruel, socialmente intil. Do outro, um cidado de bons sentimentos, nobre e caridoso, culto e cheio de belos 
planos de trabalho...
335
Mas a verdade  que ele estava vivo, ao passo que o outro... Tornou a sentar-se. Beber um clice de conhaque? Sim. Ia fazer-lhe bem, muito bem. O remdio era embriagar-se 
e esquecer aqueles pensamentos negros. Pensou em Deus. Deus era o Supremo Juiz. Deus via tudo. Deus era justo.
Desabotoou o colarinho, desfez o n da gravata e achou-se supinamente ridculo naquela fatiota de tussor de seda. Ai Rodriguinho, quem confeccionou essas roupinhas 
que te fazem o dandy mais completo de Santa F? Cachorros! Provocaram um homem e o resultado est a...
Olhou para o armrio de livros, para as lombadas de couro com letras douradas. Aqueles autores queridos eram testemunhas silenciosas de que a vida com que ele sonhara 
nada tinha a ver com os Amintas, os Trindades, os Madrugas e os Dentes Secos. Era antes uma vida de bondade e harmonia. (Pero hay que definir, hijito!) Desejava 
construir e no destruir, curar e no ferir.
-  o Destino - murmurou. - O Destino que nos arrasta, queiramos ou no...
Ouviu vozes na sala vizinha. Pouco depois, duas batidas  porta. Seu corao disparou. Decerto algum chegara para contarlhe que Dente Seco estava morto. Deu alguns 
passos e abriu a porta. O tenente Lucas entrou e caiu-lhe nos braos.
- Antes de mais nada, parabns pelo golpe de mestre. Foi a briga mais rpida que vi em toda a minha vida. Sim senhor, golpe de mestre. E que calma, rapaz, que linha!
Lucas Arajo atirou o quepe para cima do bureau, recuou dois passos e olhou Rodrigo de alto a baixo.
- Sim senhor! Meus parabns!
O outro olhava-o sem compreender. Mal pde balbuciar:
- Ento... e o homem?
Naquele instante entrou Licurgo, seguido de Maria Valria, e os trs ficaram a olhar num silncio interrogador para o tenente de obuseiros.
- Levamos o bicho pra dentro da farmcia e chamamos o dr. Matias. Mas que cara, Seu Rodrigo!  de tirar o sono de qualquer. Nunca vi bigodeira como aquela...
336
- Por amor de Deus, tenente! O homem morreu ou no morreu?
Lucas soltou uma risada.
- Morreu coisa nenhuma! Aquele tipo s com obus!
- J voltou a si?
- Quando sa de l, estava comeando a gemer e a resmungar.
- Que  que o doutor diz?
- Diz que o que salvou o cabra foi ele ser guedelhudo. A cabeleira amorteceu o golpe.
Rodrigo soltou um assobio. Uma grande sensao de alvio amolentava-lhe o corpo e desoprimia o peito. Teve vontade de rir e ao mesmo tempo de chorar. Sentou-se pesadamente.
- Dinda, nos traga um conhaque. Enxugou a testa que um suor frio umedecia.
- O ferimento  srio? - indagou Licurgo.
- Brincadeira no ... - respondeu Lucas. - Diz o mdico que por uns dias o homem tem de ficar na cama. Mas vai sarar. No quebrou nada. S ficou com um galo quase 
do tamanho dum ovo de galinha.
Rodrigo lanou para o tenente um olhar de agradecimento, como se ele tivesse acabado de salvar-lhe a vida.
Maria Valria entrou trazendo numa bandeja a garrafa de conhaque e trs clices, que Rodrigo encheu. (Engraado, logo agora que tudo passou  que minha mo est 
tremendo.)
- Vamos beber um brinde, tenente. Lucas Arajo ergueu o clice:
- Ao dr. Rodrigo Cambar, com votos para que sua boa estrela jamais se apague, e para que Deus lhe conserve o olho vivo, o p ligeiro e a mo firme.
Rodrigo gostou do brinde. Sentia uma alegria mole e boba de convalescente.
Licurgo no quis beber. Estava visivelmente apreensivo.
- Mas ser mesmo que o ferimento do homem no  srio? Ouvi dizer que esses golpes de cabea s vezes na hora parecem sem importncia mas depois...
- Ora, papai! - exclamou Rodrigo, tornando a encher os clices. - No devemos ser pessimistas.  tua sade, Lucas!
337
Tornaram a beber.
- No se assuste, coronel - disse o tenente de obuseiros, voltando-se para o dono da casa. - Esses caboclos tm flego de gato. Vai ver como dentro de dois dias 
o Dente Seco est de p.
- Est de p - completou Maria Valria - e vai acabar dando um tiro no Rodrigo. Era melhor que tivesse morrido.
- Nem diga isso, Dinda! Queria que eu fosse um assassino?
- Morrido de morte natural... - corrigiu-se ela. - Ou ento que nunca tivesse nascido.
- Sua tia tem razo - murmurou Licurgo. - Daqui por diante o senhor tem que se cuidar muito. Homens como o Dente Seco so vingativos.
- Mas no h nada que possa com uma boa estrela - observou o oficial.
Licurgo sacudiu a cabea.
- No acredito nessas coisas.
Houve um curto silncio, ao cabo do qual Maria Valria se voltou para o cunhado.
- Meia hora depois do meio-dia. Posso servir o almoo?
- Pode.
- O tenente almoa conosco - disse Rodrigo, passando o brao sobre os ombros do amigo.
- E por que no?
- Para comemorar, tomaremos um bom Mdoc.
- Santas palavras!
E ento, perplexos, Maria Valria e Licurgo viram o tenente de obuseiros gritar allez houp! - como os artistas de circo de cavalinhos - dar uma corrida, virar uma 
cambalhota e depois fazer uma mesura, atirando beijos para um pblico imaginrio. Rodrigo sorriu, mas o rosto do pai e o da tia permaneceram srios. No de Licurgo 
havia um ar taciturno de reprovao. No de Maria Valria, um meio sorriso de tolerncia, que, traduzido em palavras, queria dizer: ''Coitado,  louco".
Chiru apareceu  hora em que se servia a sobremesa. Despejou as novidades: Dente Seco havia sido levado em braos  casa do
338
Madruga, onde estava hospedado. O Titi Trindade bufava de raiva e falava em represlias. A cidade inteira vibrava com o incidente e Rodrigo era o heri do dia.
As trs da tarde, depois duma sesta em que no conseguira pregar olho, Rodrigo botou o chapu na cabea e o revlver na cintura, e foi at a farmcia, a qual de 
acordo com o convnio feito com Zago, estava aberta quele domingo.  porta da padaria, Chico Po, os olhos meio anuviados, abraou efusivamente o arnigo, gaguejando 
protestos de solidariedade. Na farmcia, o prtico pareceu espantado de v-lo.
- Ento, Gabriel velho, que  que h de novo?
- Muita coisa, doutor.
- Conte l!
- Esto dizendo que vo atacar o Sobrado.
- Conversas, Gabriel, co que ladra no morde.
- E que vo tambm atacar a farmcia e quebrar tudo.
- E tu acreditas nisso? Gabriel engoliu em seco.
- Acredito. No foi um nem dois que me disseram. lnd'agorinha o Cuca Lopes andou por aqui...
- O Cuca  um boateiro.
- O d r. Matias tambm me contou que esto falando em toda a cidade que o assalto vai ser hoje de noite.
- Qual!
Rodrigo entrou assobiando no consultrio. Sentou-se  mesa, pegou um lpis, ps-se a fazer rabiscos no bloco de receiturio, onde escreveu muitas vezes, em letras 
de imprensa, o nome da namorada.
Tirou do bolso o termmetro de ouro - presente de sua madrinha - e ficou a olhar fixamente para ele. Seu primeiro e mais importante cliente havia sido sua prpria 
terra natal, que sofria de marasmo crnico e pavores noturnos. Quem estava com febre.
339
e febre alta era Santa F. Ele, Rodrigo Cambar, havia provocado essa febre. A cidade sara de seu torpor, a cidade delirava. Ele sentia isso no ar, no jeito como 
as pessoas o fitavam na rua... Depois do almoo aparecera no Sobrado o Neco, que lhe transmitira impresses colhidas em rodas da Confeitaria Schnitzler e  porta 
do Comercial. Diziam-se frases como estas: "O Rodrigo  um bicho.  preciso ter tutano pra enfrentar o Dente Seco... S a cara do bicho  de matar a gente de susto". 
''E sabem da melhor? Ele estava armado e nem encostou o dedo no revlver." Murmurava-se at que algum ouvira a Gioconda dizer - e de todas as frases era essa a 
que mais lisonjeava Rodrigo - "Isso  que  homem'.
Rodrigo sorria, olhando para o termmetro, quando o Cuca irrompeu no consultrio:
- Sabes da ltima? O Dente Seco j est de p.
- No imaginas como essa notcia me alegra...
- Me contaram que ele jurou que vai te matar.
- Que esperavas que ele fizesse, depois do que aconteceu? Que me desse beijinhos?
Cuca aproximou-se do amigo e sussurrou:
- Pessoa muito chegada ao Titi me garantiu que eles vo atacar o Sobrado hoje de noite. J esto reunindo gente da Intendncia. Te conto isso, Rodrigo, porque sou 
teu amigo.
- Est bom, Cuca. Muito obrigado pela informao. Mas no acredito.
Durante o resto da tarde, porm, continuaram a chegar  farmcia pessoas que repetiam a advertncia. A cidade estava cheia de boatos. Afirmava-se que quem ia comandar 
o ataque era o prprio capito Madruga. Um amigo chegou a aconselhar:
- Pelas dvidas o melhor  fechar a farmcia, no acha?
- A farmcia continuar aberta at a hora de costume - replicou Rodrigo.
Ao chegar a casa, encontrou o pai no escritrio.
- Esto falando que a canalha vai atacar o Sobrado - disse o Velho.
- O senhor acredita nisso?
- Essa gente  capaz de tudo.
340
- Acha, ento, que devemos nos preparar?
- Acho.
Rodrigo chamou Bento.
- Bata na casa do Marcelino Veiga e pea para ele nos vender quatro caixas de balas de revlver calibre 38. Tome o dinheiro. - O boleeiro j estava na calada quando 
Rodrigo lhe gritou da janela:
- Traga dez!
Pensou: O Marcelino vai logo contar ao Trindade que estamos nos preparando... Esfregou as mos, satisfeito. Comeava a acreditar na possibilidade do ataque, e isso 
lhe dava uma exaltao guerreira. Era preciso, porm, que a corja do Trindade e toda Santa F ficassem sabendo que ali no Sobrado ningum estava atemorizado. Ps 
o gramofone a funcionar, e por muito tempo as pessoas que passavam na rua ouviram a voz de Caruso, de Amato e da Melba, a cantar rias vibrantes.
- No seria bom mandar a madrinha e a Laurinda pra casa da tia Vanja? - perguntou Rodrigo ao pai.
Antes que este tivesse tempo de responder, Maria Valria protestou:
- Daqui ningum me tira. Havia de ter graa. Se pude agentar o stio de 95, por que  que hei de fugir agora?
Essas palavras encerraram a questo. Rodrigo beijou a testa da madrinha e foi azeitar o revlver.
 tardinha tiveram uma surpresa agradvel. Torbio apeou do cavalo no quintal do Sobrado e entrou pela cozinha como um furaco.
- Me prepara um mate, Laurinda - gritou ao passar pela mulata.
Beijou a mo do pai, abraou o irmo e foi logo reclamando: -- Egosta! Como  que no mandaste me avisar de nada? Quando li o artigo da Voz o sangue me ferveu. 
Dei seis tiros num tronco de corticeira pra aliviar o peito. Nas Trs Forquilhas me contaram hoje do teu pega com o tal de Dente Seco. E verdade? Rodrigo contou-lhe 
a histria com pormenores.
- A todas essas eu l na estncia, marcando terneiro e botando creolina em bicheira... Vocs me fazem cada uma!
341
Maria Valria entrou nesse momento e, vendo Torbio, excla-
mou:
- Xii... Era o que faltava. Chegou o capito Rompe-Ferro. V lavar essa cara, menino!
7
Durante o jantar Rodrigo narrou animadamente a Torbio os ltimos acontecimentos. Depois da sobremesa, mostrou-lhe o ltimo nmero d'A Farpa, que o irmo leu, s 
gargalhadas, sob o olhar desaprovaclor do pai.
Pouco antes das oito horas comearam a chegar os amigos. O primeiro foi o Chiru Mena, de bombachas, botas e esporas, revlver e adaga na cintura, um largo chapelo 
com barbicacho na cabea, e um pala atirado sobre o ombro.
- U! - exclamou Maria Valria. - Vai viajar? Um tanto desconcertado, Chiru retrucou:
- Nunca se sabe, dona. A gente tem que estar preparado pra tudo.
Pouco depois chegou o Neco Rosa, tambm armado de pistola e faca, trazendo o violo a tiracolo. Pepe Garcia no tardou a aparecer; vinha como de costume sem um canivete 
no bolso. Tirou a boina, dobrou-a, meteu-a no bolso e, aproximando-se grave de Rodrigo, cochichou:
- He odo decir que el ataque est aplazado para Ia media noche en punto. La cosa es seria, hijito.
Rodrigo sorriu e deu-lhe uma palmada amistosa no ombro.
- Entra, Pepito, e fica  vontade.
Era como se estivesse recebendo amigos para uma festa. Maria Valria olhava para os recm-chegados com uma pontinha de m vontade. Ao v-los entrar para a sala de 
visitas, lanava-lhes olhares hscalizadores para os ps, a ver se no estavam sujos de barro ou esterco.
As oito em ponto. Cacique Fagundes apareceu, chamou Rodrigo  parte e disse que trazia um recado. Alvarino Amaral man-
dava dizer que, apesar de no manter relaes de amizade com Licurgo, estava disposto a vir com os filhos machos ajudar a defender o Sobrado contra a corja do Trindade.
- Espere a, coronel, que eu vou dizer ao papai.
Licurgo escutou o recado de seu desafto com a fisionomia impassvel. Por fim resmungou:
- No acredito que ele tenha coragem de entrar no Sobrado.
- Papai, o senhor deve compreender que a inteno do homem  boa.
- Somos inimigos e eu no posso me esquecer que ele j atirou contra esta casa. No me falem mais nisso!
Rodrigo voltou ao emissrio.
- O Velho no aceita o oferecimento, coronel. O senhor conhece o papai.  um homem muito difcil. - Pegou no brao do caboclo. - Escute. Conte a coisa com jeito 
ao Alvarino, diga que eu compreendo o gesto dele e estou muito grato...
Cacique Fagundes encolheu os ombros.
- Em todo o caso, dei o recado.
Saiu para levar a resposta ao Alvarino Amaral e voltou pouco depois para ficar. Entrou no momento mesmo em que chegava ao Sobrado um grupo: o coronel Maneco Macedo 
com seus seis filhos, o mais moo dos quais tinha apenas dezessete anos. Estavam armados de revlver e faca, e traziam lenos vermelhos amarrados ao pescoo. Comovido 
ante aquele quadro, Rodrigo recebeu-os com efuso, abraando todos os Macedos, cujo chefe exclamou:
- No quisemos perder esta festa. Foi por isso que viemos sem convite.
Desataram todos a rir. Rodrigo correu para a madrinha:
- Mande preparar um mate e uns cafezinhos, Dinda. Maria Valria, que pelo vo da porta olhava fixamente para
as botas dos recm-chegados, murmurou:
- Isto at parece velrio.
- Se for velrio de algum - retrucou Rodrigo - que seja do Trindade.
Licurgo conversava com o Cacique e Maneco Macedo, e seu semblante continuava anuviado. Discutiam as probabilidades 
342
343
daqule ataque, no qual o coronel Fagundes absolutamente no acreditava ("S se o Titi estiver louco varrido") e sobre o qual Licurgo manifestava suas dvidas.
- Mas se vierem - concluiu Maneco Macedo - vo en-
contrar com quem tratar.
Rodrigo mandou fechar todas as janelas do andar inferior. Reuniu depois os amigos e disse-lhes de onde deviam atirar no caso de ser a casa assaltada. Era-lhe agradvel 
assumir aqueles ares de comandante. Ouvidas as instrues de combate, os homens se dividiram em dois grupos. No escritrio ficaram os mais velhos. Na sala de jantar, 
os mais moos. Vieram duas cuias e o chimarro correu ambas as rodas.
Chiru e Bio trocaram bravatas. Don Pepe recordou suas negras noites de conspirador em cidades da Espanha. Algum pediu a Neco que cantasse, e o barbeiro, no se 
fazendo rogar, tirou uns acordes do violo, limpou a garganta e cantou a Margarida vai  fonte.
O tempo passava. Por volta das nove e meia, Rodrigo subiu  gua-furtada e de l ficou a espreitar a praa. Pareceu-lhe ver movimentos suspeitos  frente da Intendncia, 
um entrar e sair de gente. Um vulto moveu-se na calada fronteira ao Sobrado e depois se diluiu nas sombras do arvoredo. A rua do Comrcio quela hora estava completamente 
deserta. A notcia do assalto espalhara-se por toda a cidade: era natural que ningum ousasse sair de casa depois do escurecer, temendo as balas perdidas.
Rodrigo atirou as pernas por cima do peitoril da janela e comeou a caminhar sobre o telhado, achando saborosa aquela sensao de perigo iminente: podia escorregar 
e cair... podia ser alvejado por algum inimigo utocaiado nas sombras da praa. Lembrouse das histrias que se contavam em torno do cerco do Sobrado, em 95. Olhou 
instintivamente para a torre da igreja. A silhueta do galo do cata-vento recortava-se, negra e ntida, contra o azul-violeta do cu. Uma brisa fresca, que recendia 
a campo noturno, bafejoulhe a face. Acendeu um cigarro, ergueu a cabea e quedou-se a olhar para as estrelas, tirando um prazer esquisitamente vertiginoso da idia 
de estar se oferecendo como alvo ao inimigo invisvel. Era
344
quase o mesmo que caminhar sobre um fio de arame estendido entre a gua-furtada e a torre da matriz... E de sbito, no campo de sua memria, armou-se um remoto circo: 
a japonesinha, de pra-sol colorido na mo, equilibrava-se no arame... Ah, as paixes da adolescncia!...
Voltou para a gua-furtada e depois desceu. Neco cantava A casa branca da serra.
Bio bocejou.
- Acho que esses calas-hmixas ficaram com medo de nos atacar.
- So quase dez horas... - disse algum.
Naquele instante bateram  porta da frente. Neco Rosa calouse. Fez-se um silncio repentino. Bio quis abrir a janela, mas Rodrigo deteve-o.
- Espera. Pode ser uma cilada. Deixa que eu vou ver. Dirigiu-se para o vestbulo, de revlver na mo, desceu os
degraus, parou junto da porta e esperou. Tornaram a bater: duas pancadas fortes e distintas.
- Quem ?
- Sou eu.
- Eu quem?
- O Liroca.
Rodrigo abriu a porta e deixou o amigo entrar.
- Homem de Deus! Que foi que te aconteceu?
- Faz duas horas que estou escondido ali na praa, falando sozinho, numa luta de conscincia. Entro ou no entro? Se no entro, podem pensar que sou um ingrato que 
abandona os amigos na hora amarga. Se entro, o Licurgo pode me botar pra rua com um pontap no rabo.  uma situao horrorosa, Rodrigo.
- Vamos subir...
Liroca segurou com fora o brao do outro.
- No. Tens que primeiro arranjar o consentimento do teu pai. Sem isso no entro. Mas se ele no me deixar entrar, palavra que fico deitado na porta, como um cachorro 
escorraado. E quando a capangada do Trindade chegar, vo me furar o corpo a bala, me deixar que nem paliteiro.
345
Rodrigo subiu, chamou o pai  parte e p-lo ao corrente da situao. Licurgo mordeu a ponta do cigarro por alguns segundos, sem dizer palavra.
Depois:
-  preciso no ter nenhum amor-prprio pra fazer uma coisa dessas.
- Ora papai, tenha pena do homem. Faz anos que ele anda rondando o Sobrado. O Liroca  uma boa alma. Se cometeu algum erro, est arrependido...
- E o senhor pensa que eu estou satisfeito por ver toda essa gente de leno vermelho dentro da minha casa? Em 95 eles estavam do lado de fora atirando contra ns, 
contra mim, contra sua me, contra sua tia, contra seu irmo, contra o senhor, contra os meus amigos. Pensa que me esqueci?
Rodrigo reprimiu a custo um suspiro de impacincia.
- Mas o senhor se esquece que os que hoje vo atirar contra o Sobrado e contra ns esto do lado de fora e no tm leno vermelho no pescoo!
Licurgo engoliu em seco. Rodrigo ps-lhe afetuosamente a mo no ombro e, com voz macia e persuasiva:
- Deixe o Liroca entrar. - pediu. - Eu respondo por ele. Vai ficar quietinho num canto sem incomodar ningum. Eu lhe garanto que ser o dia mais feliz da vida dele.
Por um instante Licurgo permaneceu mudo. Depois, olhando para o filho, resmungou:
- Est bem. Mande o homem entrar. Mas no me faa apertar a mo dele.
Rodrigo correu a buscar Liroca, que entrou de chapu na mo, arrastando os ps, murmurando boas-noites desajeitados para todos, sem olhar direito para ningum.
- No se preocupe com o papai - sussurrou-lhe Rodrigo ao ouvido. - Faz de conta que ele no est aqui. Essas coisas se resolvem devagarinho.
Liroca sentou-se a um canto, com o chapu sobre os joelhos, e quando Maria Valria atravessou a sala, tesa, sem sequer olhar para o recm-vindo, este soltou um fundo 
suspiro. E como todos
346
ali soubessem de sua antiga "paixo" pela cunhada de Licurgo, houve risinhos abafados, troca de sinais gaiatos, piscadelas.
Quando o relgio de pndulo deu onze badaladas, Torbio achou que os capangas do Trindade no viriam mais.
- Est muito abafado aqui dentro, pessoal. Vamos abrir as janelas.
Sem esperar a aprovao do pai ou do irmo, escancarou as janelas da sala de visitas e debruou-se para fora, bem no instante em que subia da rua um tropel em cadncia 
militar.
Rodrigo precipitou-se para a janela e viu com surpresa que um peloto de soldados do Exrcito fazia alto  frente do Sobrado. Um superior no qual reconheceu o tenente 
Lucas comeou a dar vozes de comando e a soldadesca formou diante da casa numa fileira singela, ali ficando em posio de descanso.
- Lucas! - gritou Rodrigo. - Que histria  essa? L debaixo, o tenente de obuseiros respondeu:
- No se impressione. So ordens do coronel Jairo. Daqui a pouco ele estar aqui.
Licurgo, que tambm se aproximara da janela, resmungou:
- Minha casa cercada de soldados... Era s o que faltava. Poucos minutos depois o coronel Jairo Bittencourt entrava
apressadamente no Sobrado. Estava de uniforme caqui, com o rosto mais rosado que de costume. Fechou-se com Licurgo e Rodrigo no escritrio:
- Quando me informaram que o intendente pretendia assaltar esta casa para empastelar a redao d'A Farpa, tomei todas as precaues para evitar a hecatombe!
Parou e tomou flego.
- Faz exatamente duas horas e quarenta minutos que tenho um peloto de armas embaladas, de prontido ali na rua do Poncho Verde.
Licurgo, que o mirava, srio, disse com pachorra:
347
- No era preciso se incomodar, coronel.
- At a ltima hora duvidei que o coronel Trindade tivesse coragem de levar a cabo essa barbaridade. Por fim fui pessoalmente verificar o que havia. Pois bem. 
Os boatos se confirmavam. O homem estava com toda a polcia municipal e mais um grupo de capangas preparados para o assalto. Tivemos uma altercao. O intendente 
quis me amedrontar, dizendo que eu no tinha direito de me meter em poltica. Ameaou de me denunciar ao ministro da Guerra, de passar um telegrama ao presidente 
do estado, queixar-se ao marechal Hermes e no sei mais o qu. Perdi a calma e gritei-lhe um par de verdades que tinha atravessadas na garganta h muito tempo.
Sentou-se e, com voz mais calma, pediu:
- Um copo d'gua, por favor.
- Que tal um conhaque, coronel?
- No. gua.
Rodrigo saiu do escritrio e voltou trazendo a gua, que Jairo bebeu dum sorvo s. Depois de passar o leno pelos lbios e pelos bigodes, continuou:
- E disse-lhe mais: "Se vossncia persistir nessa loucura e atirar seus apaniguados contra o Sobrado, dou-lhe a minha palavra de cidado e de soldado como nenhum 
deles voltar vivo!" "Mas isso  uma arbitrariedade!", gritou ele. E eu respondi: "Para preservar vidas humanas sou capaz de cometer todas as arbitrariedades e de 
passar por cima de todas as leis!"
- Magnfico, coronel!
- Ah! E disse-lhe mais: "Mande o seu capanga Dente Seco embora daqui o quanto antes! Sei para que o senhor mandou busc-lo. E desde j eu o responsabilizo pelo que 
possa acontecer ao dr. Rodrigo Cambar e seus parentes e amigos".
Calou-se. Um pingo de suor caiu-lhe do queixo na tnica. Rodrigo aproximou-se do militar e apertou-lhe a mo num agradecimento silencioso.
- Pode mandar embora os seus amigos. Meus soldados ficaro montando guarda ao Sobrado at o amanhecer.
- No carece - disse Licurgo.
348
- No poderei dormir tranqilo se eles no ficarem.
Jairo Bittencourt ergueu-se e caminhou para o gramofone, sorrindo.
- Ento este  o famoso aparelho que o amigo mandou buscar?
-  um primor, coronel. Quer ouvir alguma coisa?
- No. Obrigado. Fica para outra ocasio. Preciso voltar a casa. A Carmem est sozinha e preocupadssima, a coitadinha!
- Mas oua s uma chapa...
- Est bem.
Rodrigo ps o gramofone a funcionar. Os primeiros acordes da ouverture de Egmont encheram a sala. O coronel deixou escapar um suspiro de satisfao.
- A msica, a divina msica! Como  que pode haver gente no mundo que no compreenda nem ame a arte? Quando ouo msica, comovo-me a ponto de me virem lgrimas aos 
olhos. O que est faltando  humanidade, meu caro dr. Rodrigo,  uma religio. F, f e amor  o que necessita este velho mundo cansado!
Licurgo pitava calmamente, olhando para o oficial com olhos apertados e cpticos.
Na sala contgua, Maria Valria aproximou-se de Bio:
- Tocarem msica a esta hora da noite! Esto doidos varridos...
Dou Pepe, que bebera com Torbio toda uma garrafa de caninha, acercou-se da janela, lanou um olhar sobranceiro para os soldados e, fitando depois a igreja, bradou:
- Clero y ejrcito! Los dos aliados de Ia burguesia! Me cago en Ia leche de Ia madre de todos los militares, de todos los curas, de todos los burgueses!
Aps uma curta pausa, acrescentou:
- Me cago en Ia leche de mi propia madre! Voltou a cabea e baixou a voz, respeitosamente.
- Con ei perdn de usted, dona Maria Valria...
349
XIV
Dias depois, encontrando Chiru e Neco na farmcia,  hora do chimarro matinal, Rodrigo fez com ambos um exame da situao. A interveno decidida do coronel Jairo 
dera novo rumo aos acontecimentos. Dali por diante, Aristiliano Trindade teria de andar com mais cuidado, e rigorosamente dentro da lei. Constava que mandara Dente 
Seco de volta para Soledade: havia quem afirmasse ter visto o capanga, com a cabea envolta em ataduras, entrar numa diligncia que deixara a cidade uma daquelas 
madrugadas.
- Ganhamos a primeira batalha! - exclamou Rodrigo jovialmente sentado no bureau do consultrio. - Ataquei o situacionismo, disse horrores do intendente, do delegado 
e de toda a sua camarilha. Mandam buscar um bandido pra me assustar e eu deixo o cabra estirado na calada, sem sentidos. O Trindade planeja um assalto ao Sobrado 
e o coronel Jairo intervm, dando claramente a entender que est do nosso lado, isto , do lado do direito, da razo, da justia...
- E agora?
Rodrigo apanhou a esptula e premiu-lhe a ponta contra o ventre de Chiru. - Agora chegamos ao ponto que eu desejava. Minha inteno nunca foi provocar barulho, mas 
botar as coisas nos seus devidos lugares. Descobri as baterias, mostrei que no tenho medo e. principalmente, provei ao povo da minha terra que  possvel ir contra 
a situao sem perigo de perder a vida ou ser espaldeirado na rua pela polcia. Em ltima anlise, apliquei no eleitorado indeciso uma injeo de leo canforado. 
Pois bem. De
350
hoje em diante A Farpa mudar de tom, transformando-se de jornal de ataques pessoais em jornal puramente doutrinrio. Vou dar a essa corja uma lio de elegncia 
moral!
- Que histria  essa? - perguntou Neco Rosa.
- Quinta-feira que vem, o marechal chega com sua comitiva. Nesse dia vou fazer sair mais um nmero d'A Farpa, e o editorial ser uma saudao cordial ao candidato 
militarista.
- Saudao? - estranhou Chiru.
- Saudao. Vou elogiar o homem, porque no fim de contas o Hermes parece um sujeito bem-intencionado...
Neco tirou a bomba da boca.
- Ests louco? Rodrigo sorriu:
- Nunca estive to bom do juzo em toda a minha vida. Chiru fungava, o cenho cerrado:
- O marechal no passa dum boneco manejado pelo Pinheiro Machado, que no  trigo limpo.
- Sabes duma coisa, Chiru? Tenho um fraco pelo senador...
- No diga isso! O Pinheiro  a asa negra do Brasil. Quero ver a caveira dele, pra felicidade da nossa terra.
- Bom, no vamos discutir esse assunto agora. Mas, voltando ao editorial, farei ver aos leitores que no estamos fanatizados pela causa civilista e sabemos reconhecer 
tambm o mrito de nossos adversrios. Est claro que no fim do artigo puxo brasa pr nosso assado, provo por a + b que o senador Rui Barbosa  superior ao marechal. 
Mas provo com idias, com fatos e no com adjetivos apaixonados.
Efetivamente, no dia em que o marechal Hermes da Fonseca chegou a Santa F, A Farpa foi distribuda pela manh por toda a cidade. Trazia na primeira pgina, dentro 
de vistosa cercadura, um editorial cujo fecho rezava:
Bem-vindo, pois, seja o ilustre candidato oficial  cidade de Santa F, que saber receb-lo de braos abertos e um sorriso amigo nos lbios, embora seu corao 
palpite de admirao e simpatia pelo candidato
351
civilista, para o qual est reservando seus votos, no prximo e grandioso pleito de primeiro de maro!
O trem que conduzia o marechal Hermes da Fonseca e sua comitiva chegou a Santa F s onze da manh e foi esperado na estao da estrada de ferro pelos representantes 
militares, que envergavam uniformes de gala, e pelas autoridades civis,  frente das quais se achava o coronel Aristilano Trindade, muito pouco  vontade dentro 
dum apertado fraque preto. Na plataforma transbordante de gente, a banda de msica do regimento de infantaria tocava dobrados. No largo estavam formados os trezentos 
e tantos alunos do Colgio Elementar David Canabarro, que agitaram bandeirinhas e soltaram vivas quando o marechal apareceu  porta da estao.
A pedido do intendente as casas comerciais haviam cerrado suas portas, e o nordeste que soprava aquela manh bulia com as bandeiras hasteadas  frente da Casa Sol, 
da repartio dos Correios e Telgrafos, do Clube Comercial e do Centro Republicano.
O jornal da situao, aparecido na vspera, informara que o marechal passaria o resto daquele dia em Santa F, continuando a viagem para Cruz Alta na manh seguinte. 
No salo nobre da Intendncia haveria, com incio  uma hora, grande banquete de cento e vinte talheres, em homenagem ao "futuro presidente da Repblica", o qual, 
"aps o gape", se recolheria a "'seus aposentos, para um merecido repouso". As cinco da tarde, Sua Excelncia visitaria os quartis e o Centro Republicano, onde 
lhe seria oferecida uma taa de champanha.  noite estaria presente ao "comcio monstro a realizar-se em sua honra  frente do pao municipal".
Faltava um quarto para o meio-dia quando o carro da Intendncia, de tolda arriada, chegou  praa da Matriz, conduzindo Hermes da Fonseca ladeado pelo coronel Trindade 
e pelo coronel Prates. O marechal estava  paisana, numa roupa cor de chumbo, e trazia na cabea um chapu do Panam.
352
A gente do Sobrado - menos Licurgo, que se fechara no quarto, birrento, "'para no ver a cara do sargento" - debruou-se s janelas da sala de visitas. Olhando 
para o rosto corado do candidato militarista, com o seu volumoso nariz adunco, Torbio murmurou:
- Eta bichinho bem feio!
Da janela, Maria Valria retrucou:
- O Dr. Rui no  nenhuma beldade.
- Quem tem talento no carece de formosura, titia.
No momento em que o carro defrontava o Sobrado, Joca Prates murmurou qualquer coisa ao ouvido do marechal, que voltou a cabea para a direita, na direo dos irmos 
Cambars, e tirou o chapu. Sua calva reluziu ao sol.
- Bom dia, filho da me... - murmurou Torbio por entre dentes.
Num assomo de cordialidade, Rodrigo fez um largo aceno para o visitante.
Pouco depois do carro oficial, desfilou pela frente do Sobrado a banda de msica militar, tocando O General Oyama, o dobrado predileto de Rodrigo. O negro Srgio 
marchava na vanguarda dos msicos, soltando foguetes, que acendia em ties conduzidos pelos moleques que o acolitavam.
A melodia vibrante espraiava-se no ar, e no s as superfcies polidas dos instrumentos de metal refletiam a claridade da manh como tambm suas rtilas vozes reverberavam 
festivamente naquele largo cheio de ecos.
O nordeste fazia girar o galo do cata-vento da torre. As copas do arvoredo da praa agitavam-se, num verde movimento de gua. De cada lado da porta central da Intendncia, 
a bandeira nacional e a do Rio Grande drapejavam alegremente. Os rojes explodiam como tiros de canho. As narinas dilatadas, a respirao j meio opressa, Rodrigo 
ia sendo aos poucos tomado dum entusiasmo marcial. Tudo aquilo - o esfuziar e o estrugir dos foguetes, a msica, as bandeiras, o vento, o sol, os uniformes flamantes, 
o faiscar dos metais -, tudo aquilo lhe sugeria guerra e herosmo. E um passado inteiro feito de textos e gravuras escolares, discursos patriticos,
353
romances de capa e espada, hinos, heris, mrtires, clarinadas, apoteoses; todo um passado de mitos que Rodrigo julgava mortos, ergueu-se como um vagalho e arrebatou-o, 
atirando-o, por um mgico segundo, s praias da infncia. Lomas Valentinas... Riachuelo... Itoror... Quem for brasileiro que me siga!... Com a cavalaria dos Farrapos 
conquistarei o mundo!... Tiradentes esquartejado... Frei Caneca... Ana Nri... Filipe Camaro... O estudante alsaciano batendo no peito: A Frana est aqui dentro!... 
O tamborzinho ingls que no sabia tocar retirada...  auriverde pendo de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balana!
Rodrigo estava inquieto. Queria aproveitar a presena do marechal para fazer alguma coisa, e comeava a irritar-se porque no conseguia descobrir o que era. Tinha 
energias de sobra para gastar, e no entanto ali estava  janela, inerte. No se conformava com a idia de no participar - fosse como fosse - daquele momento cvico. 
Arrependia-se de no ter mandado imprimir boletins com frases anti-hermistas, para distribuir agora ali na praa, s barbas do candidato oficial.

Don Pepe entrou no Sobrado em grande agitao e puxou Rodrigo para um canto.
- Que oportunidad, hijo, que oportunidad! Una bombita, no ms que una bombita chiquitita y, ay madre de mi alma, que hermoso espectculo.
Rodrigo sorria. Os ardores niilistas do espanhol o divertiam. O pintor estava a andar para diante e para trs, nos seus passinhos nervosos.
- Es que estoy perdido en esta miserable ciudad, hombre. Estoy ablandado, no hago nada. Sabes Io que deca Bakunin dei verdadero anarquista?
Ah! O grande Bakunin escrevera em seu Catecismo que o revolucionrio no deve ter interesses pessoais nem sentimentos nem propriedade. Deve concentrar-se num nico 
pensamento: a 
354
Revoluo. Um nico alvo deve preocup-lo: a destruio. Despreza a moral, pois para ele  moral tudo quanto possa favorecer a Revoluo. Entre o verdadeiro anarquista 
e a sociedade existe uma luta de morte, um dio irreconcilivel. Ele deve estar sempre pronto a morrer, a suportar mil torturas e a matar com suas prprias mos 
todos quantos ponham obstculos  Revoluo. Toda a afeio deve ser-lhe estranha, pois os sentimentos dessa natureza podem s vezes deter-lhe o brao.
- Mas como explicas - perguntou Rodrigo - que o grande Tolsti seja anarquista e pregue o amor como a lei suprema da vida?
- Tolsti es un anarquista moderado. Yo soy un anarquista exaltado. - Depois duma pausa reflexiva, ajuntou: - Pro hay que respectar el viejito, corio!
Sentou-se dramaticamente no sof.
- Ay! Una bombita, no ms que una bombita...
- Vamos tomar alguma coisa, Pepito?
- Si. Soda custica.
Bio foi buscar as garrafas de cerveja que havia posto a refrescar dentro do poo. Encheram os copos, fizeram um brinde ao candidato civilista e  sua prxima vitiia. 
Com os bigodes coroados de espuma, as magras pernas estendidas, don Pepe tomou a palavra e procurou provar aos amigos que, em ltima anlise, o assassnio poltico 
devia ser considerado tambm como uma das belas-artes. Ah! Os formosos atentados da Frana! Vaillant, fazendo jus a seu nome, atirara uma bomba no Parlamento. Caserio 
abatera em Lyon, a golpes de punhal, o presidente Sadi Carnot. Os mais lindos atentados do mundo, porm, eram os russos! Alexandre II fora vitimado por uma bomba 
nilista em 1881... Exaltado, o espanhol pintava o quadro. As ruas de Moscou sob um cu funreo, de chumbo e triste... O czar passando no seu carro, cercado de cossacos... 
De repente, surge o anarquista, precipita-se para o meio da rua com um objeto negro apertado contra o peito e lana-se aos ps dos cavalos... Um claro, uma exploso 
medonha e o czar l se vai pelos ares, com carruagem, cavalo, nilista e tudo!
355
Em 1902 os anarquistas russos liquidaram Bobollepot, ministro da Instruo. Em 1903, Bogdanovitch, governador militar de Ufa. Em 1905 tombara o gro-duque Srgio, 
comandante militar de Moscou. E Pepe ia pronunciando os nomes das vtimas com o mesmo prazer com que um guloso mencionaria pratos esquisitos: Bobikov, Boguslavski, 
Sipiaguin... Governadores, ministros, groduques, reis... Que safra magnfica! O pintor lambia os beios.
- Y que hago yo, senores, que hago yo? Pufi Bebo cerveza en Santa F con dos representantes de Ia burguesia!
Olhou desconsolado para o copo vazio, que Torbio se apressou a encher.
- Est bem, don Pepe - disse Rodrigo, sorrindo. - Presta um servio  ptria e  humanidade. Assassina o Titi Trindade.
O espanhol olhou firme para o amigo, o cenho franzido. Depois fez uma careta de repugnncia.
- Trindad? Trindad es indigno de Ia lmina de mi punal! Rodrigo desatou a rir, pois sabia que o punhal de Pepe Garcia,
bem como suas bombas, tinha uma existncia puramente imaginria.
Aquela noite Rodrigo foi com Torbio, Chiru e Neco sentar-se debaixo da figueira da praa, a fim de observar o comcio mais de perto. Uma grande multido aglomerava-se 
 frente da Intendncia, que tinha as janelas e portas escancaradas, e todas as dependncias iluminadas. Era uma noite de lua nova, e os lampies que o negro Srgio 
acendera ao anoitecer, mal alumiavam a cena com sua luz escassa e amarelenta.
De vez em quando foguetes subiam, zunindo, e espocavam no alto, em relmpagos seguidos de estrondos que o eco duplicava. Um que outro viva se erguia no meio do povo.
Uma multido humana - refletiu Rodrigo - no diferia muito dum rebanho de carneiros fcil de conduzir. Mais uma vez lhe veio, profundssima, a orgulhosa certeza 
de no ter nenhuma vocao para carneiro. A simples idia de estar ali protegido pela
356
sombra da figueira, a espiar clandestinamente o comcio, dava-lhe uma vil sensao de inferioridade.
Pouco antes das nove horas, o grupo que havia pouco sara do Centro Republicano, puxado pela banda de msica militar e carregando bandeiras e fachos acesos, chegava 
 praa e, depois de passar sob vivas e estampidos de foguetes pela quadra do Sobrado e pela da matriz, fez alto diante do pao.
Contemplando a turbamulta, aquela aglomerao de vultos escuros sem fisionomias (aqui e ali se vislumbrava um que outro semblante ao claro dum archote), Rodrigo 
murmurava: "Pura Idade Mdia... Pura Idade Mdia". Pensou em autos-de-f, cmaras de tortura, tribunais inquisitoriais... E por alguns instantes brincou com uma 
idia que lhe produziu uma sensao de vcuo na boca do estmago. Precipitar-se a correr, entrar na Intendncia, aproximar-se duma das janelas e dali fazer um discurso-relmpago 
contra o marechal... Imaginou a reao do povo, a fria do Trindade e seus asseclas, o tumulto, a confuso... Isso lhe deu um prazer to intimamente intenso, que 
foi quase como se tivesse posto a idia em prtica.
Uma pancada de bombo. A msica cessou. Ergueram-se novos vivas, a que o povo respondeu num coro roufenho. E quando Hermes da Fonseca apareceu  janela, acompanhado 
de Aristiliano Trindade, o povo rompeu em aplausos e aclamaes, enquanto a banda atacava o Hino Nacional.
Discursou em primeiro lugar o promotor pblico, saudando o homenageado em nome do intendente e da populao do municpio. Falou a seguir Amintas Camacho, como porta-voz 
da mocidade santa-fezense. O marechal foi o ltimo orador da noite. Leu o discurso em voz to baixa, que Rodrigo e os amigos quase nada puderam ouvir.
- X mico! - exclamou Torbio.
Rodrigo estava agora fechado num silncio soturno. Sentia-se roubado, diminudo por no estar participando positiva ou negativamente do comcio. Arrependia-se de 
ter tratado to bem no seu editorial o candidato militarista. Devia, isso sim, ter aproveitado a oportunidade para arras-lo. Maldito sentimentalismo!
357
- Depois duma bambochata dessa. - disse Toribio, quando a multido comeou a dispersar-se - s uma boa farra!
- Idia me! - aprovou o Neco. - Vamos at a Penso Veneza. Que tal, Rodrigo?
- No contem comigo. J disse que no tenciono ir mais a esses lugares.
Chim, vezado em assumir ares paternais, interveio:
- No. Ir  penso  perigoso. Muitos desses hermistas que saram do comcio na certa vo tambm pra l, se embebedam e acabam nos provocando.
- Pois se provocarem, se briga - simplificou Bio.
- No  negcio. Tenho outra idia. Vamos buscar umas raparigas e umas cervejas e tocamos pra casa do Saturno. Me passa a vinte mil-ris.
Rodrigo meteu a mo no bolso, meio contrariado, e tirou a carteira.
- Mas no contem comigo - repetiu, dando o dinheiro ao amigo.
- E agora? - Chiru olhou para Neco. - Que raparigas tu achas que devemos levar?
O barbeiro refletiu por alguns segundos.
- Tem a De, a china Amndia, a Ruiva...
- Est bem. Somos trs.
- Falta uma. Vamos levar a Morena pr Rodrigo.
- J disse que no vou - repetiu este ltimo, mas j com menos nfase. Aqueles nomes de mulher haviam-lhe soado aos ouvidos como uma msica cheia de inesperadas 
promessas.
Toribio tomou-lhe o brao e puxou-o consigo.
- Vamos, homem, no sejas bobo.
Rodrigo deixou-se levar. Que diabo! No podia ir dormir quela hora... No estava disposto a ler nem a ouvir msica. Ficar caminhando  toa e sozinho pela cidade, 
como um cachorro sem dono? No fim de contas...
- Que tal  a Morena? - indagou.
Chiru passou-lhe o brao sobre os ombros e comeou a contar-lhe maravilhas da rapariga. Tinha um sinal na cara, uns vinte
358
anos, era boa de peitos, boa de ancas, assim com um jeito de castelhana, mas crioula de Santa F, Rodrigo velho, prata da casa,
um peixo!

No princpio da segunda quinzena daquele fevereiro, chegou a Santa F um grupo de cinco membros influentes do Partido Democrtico de Cruz Alta, que foram logo procurar 
Licurgo e Rodrigo, com os quais confabularam longamente, tratando de conseguir que ambos se filiassem ao novo partido que Assis Brasil lanara de maneira to espetacular 
na famosa conveno de Santa Maria, em 1908. Licurgo repeliu a sugesto, alegando que era castilhista e que castilhista pretendia continuar at o fim.
- Mas pense bem, coronel, o dr. Assis Brasil tambm continua castilhista. O Partido Democrtico nada mais  que o Republicano passado a limpo!
Licurgo, porm, manteve-se irredutvel. Quanto a Rodrigo, declarou que acompanharia o pai aonde quer que ele fosse.
- Bom - disse por fim um dos democratas -, j que essa questo est encerrada, vamos tratar da propaganda civilista em Santa F. Estamos s portas das eleies e 
temos que fazer alguma coisa enquanto  tempo.
Combinaram realizar um comcio em praa pblica naquela mesma semana, e irem depois em caravana visitar vrios distritos, especialmente as colnias de Garibaldina 
e Nova Pomernia.
Licurgo no escondia seu pessimismo. Achava agora que fazer propaganda do candidato civilista em Santa F era puro desperdcio de tempo, energia e dinheiro. Estava 
convencido de que a eleio, como de costume, seria uma fraude e o candidato oficial sairia vitorioso por grande maioria de votos. Entretanto, como prova de sua 
boa vontade, estava disposto a contribuir com dinheiro para
custear as caravanas.
O comcio dos civilistas em Santa F realizou-se  noite,  frente do Sobrado, de cuja sacada Rodrigo e dois outros oradores
359
dirigiram a palavra a um pblico entusiasta mas escasso. Nessa noite, temendo que o intendente mandasse dissolver o comcio a bala - como se murmurava -, o coronel 
Jairo mandara patrulhas do Exrcito, montadas e armadas de mosquetes, rondar a praa desde o anoitecer at as primeiras horas da madrugada.
No dia seguinte Rodrigo acompanhou os democratas de Cruz Alta numa excurso pelo interior do municpio. Achou penosa a viagem de jardineira por aquelas estradas 
esbarrancadas e poeirentas. Em Garibaldina conseguiram para o comcio uma assistncia de quinze pessoas. Postado na boleia da jardineira, em vo Rodrigo no seu discurso 
invocou Garibaldi, o guerreiro de dois mundos. Garibaldi, o campeo da liberdade, que passara por aquelas campinas em sua prodigiosa aventura libertria. Falou tambm 
em Dante, em Mazzini e at no papa. Recitou trechos literrios em italiano, enquanto o suor lhe escorria pelo corpo todo e ele sonhava com um banho e uma larga sesta 
em cama limpa. Via a seu redor as faces vermelhas dos colonos, que o escutavam com a mo em pala sobre os olhos, por causa da claridade do sol a pino. Era domingo 
e haviam aproveitado a hora da sada da missa para realizar o comcio. Terminado este, Rodrigo visitou um dos maiorais da terra, o velho Lunardi, cujo filho, o Marco, 
havia sido seu colega de escola primria em Santa F. Tratou de saber com quantos votos podia o senador Rui Barbosa contar ali em Garibaldina. O velho desiludiu-os. 
Talvez na colnia o candidato civilista no conseguisse um nico voto. Rodrigo voltou-se para o amigo de infncia:
- Nem o teu, Marco?
O outro sacudiu negativamente a cabea.
- Nem o meu.
- Mas por qu, homem?
- Se ns votamos contra o governo - justificou-se o rapaz - o subdelegado persegue a gente, carrega nos impostos. Ningum quer ser piejudicado.
- Mas  um absurdo! - exclamou Rodrigo, batendo com o punho na mesa. - Estamos num pas livre em que cada cidado pode e deve votar em quem bem entender!
360
Marco sorriu. Era um homem troncudo e atltico, de quase dois metros de altura. Os cabelos bronzeados coroavam-lhe a face duma simpatia aliciante, em que a tez cor 
de tijolo contrastava agradavelmente com os olhos azuis. Desde menino Rodrigo sentia uma grande atrao por aquele "gringuinho" com o qual tantas vezes jogara sapata 
e bandeira  frente do Sobrado. O velho Lunardi mandara-o aprender as primeiras letras em Santa F, visto como no havia escolas em Garibaldina. Agora, homem feito, 
auxiliava o pai no trabalho da lavoura, cujos produtos levava periodicamente  sede do municpio, para vender. Mas seu grande sonho - contara ele um dia a Rodrigo 
- era montar na cidade uma fbrica de massas alimentcias.
- Marco - disse-lhe Rodrigo, quando pde falar a ss com o amigo -, estou desapontado contigo.
O colono ficou silencioso, de cabea baixa, e ps-se a riscar o cho com a ponta do p descalo. Tinha uma voz macia, duma doura que estava em desacordo com sua 
estatura fsica.
- Pois . . .
- Que diabo! Dependia de vocs todos se unirem e resolverem falar grosso. Que era que o Trindade ia fazer? Aumentar os impostos  ilegal. Mandar a polcia espingardear 
os colonos? Claro que ele no chegaria a esse extremo. Vocs so como bois, que no tm conscincia da prpria fora e se deixam levar por qualquer criana!
Marco Lunardi fitou em Rodrigo os olhos claros, e com sua voz mansa, cheia de esses chiantes e apertados de vneto, replicou:
- Boi no vota nem paga imposto.
Rodrigo deu-lhe uma palmada no ombro e disse com afetuosa energia:
- Pois tenho pena de ti e da tua raa. Fica agentando a canga. E adeus! Temos ainda hoje um comcio em Nova Pomernia.
Na colnia alem no tiveram melhor sorte. O comcio realizou-se  noite, no salo do clube ginstico, e a ele compareceram
361
Para que no se diga que ando enxergando fantasmas e, qual novo hdxote, transformando o moinho d'gua do velho Spielvogel em guerreiros fabulosos, transcrevo um 
trecho tirado do livro A Arcdia da Alemanha, de Leyser, e citado na obra Contrastes e confrontos, do eminente escritor Euclides da Cunha. Ei-lo: "Hoje, nestas provncias 
(Paran, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) cerca de 30% dos habitantes so germanos ou seus descendentes: e, por certo, nos pertence o futuro dessa parte do mundo. 
De feito, ali. no Brasil meridional, h paragens ricas e salubres, onde os alemes podem conservar a nacionalidade, e um glorioso futuro se antolha a tudo o que 
se compreende na palavra germanismus".

Foi, pois, com pessimismo que Rodrigo viu aproximar-se o dia das eleies. Os jornais traziam notcias de distrbios nas ruas de Porto Alegre, onde civilistas e 
hermistas trocavam sopapos e bengaladas.
Ali em Santa F o governo fazia preparativos para a luta eleitoral. Cuca Lopes viera esbaforido ao Sobrado contar que vira o Dente Seco entrar na Intendncia, a 
cabea ainda envolta em ataduras. E no estava s: iam com ele uns dois ou trs tipos de m catadura, armados at os dentes. A coisa est feia, menino!
Chegavam diariamente  cidade grupos de cavaleiros, vindos do interior do municpio. Eram caboclos bem montados que percorriam as ruas fazendo grande estardalhao, 
os rebenques erguidos, as abas dos sombreros quebrados na frente, os palas ondulando ao vento. Passavam pelo Sobrado soltando vivas ao Partido Republicano, ao coronel 
Trindade, ao dr. Borges de Medeiros, ao dr. Carlos Barbosa e, eventualmente, ao marechal Hermes. Apeavam  frente da Intendncia, onde a maioria ficava hospedada. 
Da janela de sua casa, Rodrigo via essas cavalgaras e murmurava, indignado:
- Isto  um pas de botocudos. S a bala!
Sua indignao subiu ao auge quando um dia, perto das onze da manh, os pees de Trindade trouxeram para a praa grandes
quartos de reses e puseram-se a fazer fogo debaixo da figueira, dentro duma longa vala rasa. Churrasco para a capangada! - compreendeu Rodrigo. E teve gana de gritar 
desaforos.
Pouco antes do meio-dia comearam a aparecer os caboclos e se foram sentando ou deitando  larga sombra da figueira. Um deles se ps a tocar cordeona e, dentro em 
pouco, dois cabras comearam a trovar. Um deles cantou:
Eu me chamo Antnio Almeida Do Jari sou natural E c estou em Santa F Pra votar no marechal
- Oigal bichinho bom, seu! - gritou um bigodudo que picava fumo recostado ao tronco da grande rvore. A gaita chorou sozinha por algum tempo. Por fim outro caboclo 
soltou a voz:
Pra votar no marechal Foi que vim de Santa Rosa Ai que surra vamos dar Nesse tal de Rui Barbosa!
Rodrigo arrastou o gramofone para perro da janela e f-lo funcionar. E Caruso, cantando o Che glida rnanina, entrou tambm no torneio de trovadores.

O dia 1 de maro amanheceu sombrio e abafado. Rodrigo havia sido indicado pela oposio para fiscal duma das mesas eleitorais. Ps o revlver na cintura, uma caixa 
de balas no bolso e encaminhou-se para seu posto, no salo nobre do Centro Republicano. A chamada dos eleitores comeou s sete da manh. Plantados junto da porta, 
os capangas do Trindade ofereciam cdulas com o nome dos candidatos oficiais a todos os eleitores que entravam.
364
365
Estes, em sua quase totalidade, tomavam docilmente dos papeluchos e depositavam-nos na urna, depois de assinar a autntica. Os que se recusavam a isso, tinham os 
nomes acintosamente anotados. De raro em raro aparecia um maragato de leno "colorado" no pescoo, trazendo j na mo sua chapa, que metia na urna com ar altivo 
e quase provocador.
Rodrigo estava deprimido. Deve ser o calor - concluiu, tirando o casaco e desabotoando o colarinho. Passou o leno pelo rosto e pensou em que tinha de passar o dia 
inteiro ali naquela sala desagradvel que tresandava a sarro de cigarro crioulo e a suor humano.
O mesrio que fazia a chamada, gritou:
- Arnesto Tavare Nune.
Apareceu um homenzinho baixo, de ar bisonho.
- Protesto, senhor presidente! - bradou Rodrigo.
- Por qu?
- Este sujeito  um impostor. Ernesto Tavares Nunes j morreu. O presidente dirigiu-se ao eleitor.
- Como  o seu nome?
O homem olhou primeiro para Rodrigo, hesitante, depois para a cdula que um capanga lhe havia posto nas mos, e finalmente balbuciou, visivelmente embaraado:
- Arnesto Tavare Nune. Rodrigo ps-se de p.
- Apelo para os membros da mesa e para os senhores aqui presentes que sabem to bem quanto eu que Ernesto Tavares Nunes est morto e enterrado!
Fez-se um silncio.
- Vamos ao cemitrio - convidou Rodrigo - e eu lhes mostrarei o tmulo desse cidado.
O presidente da mesa coou a cabea com a ponta da caneta.
- Dr. Rodrigo, ns no temos tempo pra essas coisas, e mesmo a lei no nos autoriza...
- Ora, quem quer falar em lei! Vamos ao registro de bitos, ento.
- O homem vai votar e o senhor depois lavra o seu protesto.
- A velha histria! Meu protesto no ser levado em conta!  a indecncia de sempre!
- Assine seu nome aqui - disse o presidente ao eleitor.
- Continuem a farsa! - gritou Rodrigo. Sentou-se, indignado, pegou um lpis e comeou a escrever numa folha de papel todos os palavres que sentia mpetos de atirar 
na cara do presidente da mesa e na dos fiscais hermistas.
Ao meio-dia Bento apareceu, trazendo-lhe um prato de comida e uma garrafa de cerveja. Contou que a coisa ia muito mal para os civilistas na maioria das mesas.
- Lastimaram um homem - sussurrou o caboclo ao ouvido do patro.
- Quem?
- Um filho do Maneco Vieira. Quiseram obrigar o rapaz a pegar uma chapa do marechal, ele se incomodou, disse uns desaforos e ento fechou o tempo.
- Est muito fendo?
- Bastantinho.
Rodrigo largou o talher e afastou o prato.
- Com essa gente, s a bala! - disse em voz alta, lanando olhares torvos na direo dos outros componentes da mesa, que tambm comiam ao p da urna.
Acendeu um cigarro, ficou a fumar e a caminhar dum lado para outro, sentindo mais que nunca o calor, a presso atmosfrica, o desejo de ir embora e a misria de 
tudo aquilo.
 tarde, Chiru veio anunciar-lhe a chegada de eleitores picapaus que haviam votado pela manh em Cruz Alta e que agora estavam votando pela segunda vez na mesa instalada 
no edifcio da Intendncia.
- Dizem que no interior do municpio houve barulho feio
- acrescentou.
Eleitores continuavam a chegar ao Centro Republicano. Pelo que Rodrigo observara, os civilistas ali estavam apenas com uns escassos cinco por cento da votao, e 
esse talvez fosse um clculo otimista.
366
367
- S h um lugar onde vamos vencer - disse a Cbiru. - E no terceiro distrito.
O terceiro distrito era uma espcie de feudo dos Macedos. L Rui Barbosa teria maioria absoluta, pois nele votariam todos os Macedos, que no eram poucos, e mais
seus numerosos pees, capatazes, posteiros, agregados e amigos.
- Mas aposto que os hermistas vo dar um jeito de anular essa mesa - retrucou Rodrigo.
Depois de encerrada a votao, lavrou seu protesto, assinou a ata, com uma violenta ressalva, e ergueu-se para sair. O presidente da mesa estendeu-lhe a mo. Rodrigo
murmurou apenas "Passe bem", voltou-lhe as costas e se foi. Estava cansado, desiludido e triste. Ansiava por um banho, mas um banho que no s lhe lavasse o corpo
como tambm a alma.
Seguiu rua do Comrcio acima, rumo do Sobrado. Viam-se nas caladas grupos que comentavam animadamente as eleies. Um cu baixo de spia pesava sobre a cidade,
e andava na atmosfera carregada de eletricidade um prenncio de tempestade e desastre. Por que ser que Santa F no tem ainda uma fbrica de gelo? - pensava Rodrigo.
Por que ser que no tem luz eltrica? Por que ser que ainda no criou vergonha?
Concluiu que no valia a pena sacrificar-se por aquele burgo podre. Os santa-fezenses simplesmente no queriam ser salvos...
Entrou no Sobrado. Maria Valria veio a seu encontro:
- Graas a Deus voc chegou! J estava comeando a ficar assustada. Ainda bem que no lhe aconteceu nada.
- Quem foi que lhe disse? Me aconteceu tudo. Acabo de me desiludir da poltica, da minha terra, da minha gente e de mim mesmo.
- Pois no  sem tempo. Agora sossegue o pito e cuide da sua vida.
- E o que vou fazer. Papai j chegou?
- J. Na mesa que ele fiscalizou, correu tudo em ordem.
- E o Bio?
- Ainda no veio.
368
Rodrigo apanhou o sabonete e uma toalha, entrou no quarto de banho, despiu-se e tomou uma prolongada ducha fria. Estava a enxugar-se quando Torbio entrou e despejou
a notcia:
- Houve barulho no terceiro distrito e mataram um filho do Maneco Macedo!
Por alguns segundos Rodrigo quedou-se mudo, de boca entreaberta, a olhar estupidamente para o irmo.
- Qual deles? - perguntou por fim.
- O mais moo.
Rodrigo sentou-se num mocho e ali ficou, enrolado na toalha, os olhos fitos no cho, o ritmo da respirao alterada, e j comeando a sentir de novo o suor escorrer-lhe 
pelo corpo.
Bio tirou a roupa e foi para baixo do chuveiro.
- Houve um tiroteio brabo - contou. - O Trindade sabia que o marechal ia perder a eleio no terceiro distrito e mandou pra l a capangada. Quando a votao acabou, 
quiseram roubar a urna. Foi a que comeou o cu-de-boi.
De olhos fechados, Bio recebia o jorro d'gua em pleno rosto. Rodrigo estava to cansado e deprimido, que parecia ter perdido a capacidade de indignar-se.
Torbio fechou a torneira.
- Morreram tambm dois dos capangas. E sabes quem era um deles? O teu amigo, o Dente Seco. Caiu abraado com a urna.
s nove horas Licurgo Cambar e os filhos tomaram o carro e dirigiram-se para a casa dos Macedos, onde estava sendo velado o corpo do caula da famlia. A noite 
continuava abafada, o ar parado. A cidade fervilhava de boatos sombrios. Murmurava-se que Titi Trindade, em represlia pela morte de seus cabos eleitorais, ia atacar 
a bala a casa dos Macedos.
No carro, os trs Cambars deixavam-se levar em silncio. Licurgo pigarreava, com uma insistncia que j comeava a irritar o filho mais moo.
369
Boatos negros comearam a circular pela cidade. Ahrmava-se que os Macedos se preparavam para exigir de Amimas Camacho Lima satisfao. Dizia-se: "Se  verdade, 
vai correr muito sangue, porque o Amimas tem as costas quentes". Pouco depois do meiodia, algum contou na roda de chimarro da farmcia do Zago que os Macedos 
estavam-se armando (tinham at mandado buscar trs pees da estncia) para ir quela tarde empastelar A Voz e dar uma sumanta em seu diretor.
Licurgo e Rodrigo correram  casa dos Macedos e, verificando que eles pretendiam mesmo atacar a redao do jornal situacionista, procuraram dissuadi-los disso.
-  uma loucura, Maneco - disse Licurgo -, vassuncs esto em minoria, vo ser massacrados.
- Que m'importa? Esse negcio no pode ficar assim.  uma vergonha.
Por fim, impaciente, esgotados os argumentos, Licurgo exclamou:
- Pois se vassuncs vo, ns vamos tambm!
Rodrigo, porm, telefonou ao coronel Jairo e pediu-lhe o auxlio. O comandante do regimento de infantaria apressou-se a vir  casa de Maneco Macedo. Fechou-se com 
ele num quarto e, aps um colquio que durou quase uma hora, arrancou-lhe a promessa, sob palavra de honra, de no levar adiante seu propsito. Depois que o comandante 
se retirou, Maneco olhou para Licurgo.
- Estou desmoralizado. Mataram meu filho e eu aqui parado, fechado dentro de casa, sem fazer nada.
Rodrigo tentou consol-lo. Todo o mundo sabia que os Macedos tinham reagido com hombridade  agresso, e uma das provas disso era que dois dos bandidos do Trindade 
haviam ficado estendidos no cho, sem vida.
- Mas essa cachorrada escreveu aquelas sujeiras no jornal! Rodrigo voltou para casa e redigiu um telegrama de protesto,
que devia ser dirigido ao presidente da Repblica, narrando os acontecimentos do terceiro distrito, acusando o Trindade e seu delegado de polcia como responsveis 
pelo conflito, e exigindo justia. Saiu depois de casa em casa a colher assinaturas para o memorial. Todos
372
os federalistas assinaram sem hesitar; alguns republicanos dissidentes fizeram o mesmo; mas muitos foram os que se esquivaram, usando de subterfgios ou dizendo 
claramente que no queriam meter-se naquele embrulho. Ao fim do dia o telegrama contava apenas com quarenta e trs assinaturas. Rodrigo, que esperara conseguir no 
mnimo cento e cinqenta, estava desapontado. Santa F era um caso perdido.
Decidiu imprimir um nmero especial d'A Farpa. Sentou-se a mesa e redigiu um manifesto ao povo de sua terra, dando a verdadeira verso da "tragdia do terceiro distrito" 
e concitando os conterrneos a reagir por todos os meios - primeiro pelos legais e depois, se falhassem estes, pelos ilegais - contra aquela situao vergonhosa 
que os aviltava, pondo em constante perigo a vida dos homens livres do municpio. Num outro artigo atacou o governo, que fraudara as eleies, acusou o intendente 
e o delegado de polcia, e lanou sobre o Amimas - "capacho imundo, escriba crapuloso - uma nova rajada de insultos.
Chamou Pepe Garcia e f-lo compor e imprimir s pressas o nmero especial. E, pronta a edio, estava a pique de telefonar para Chiru e Neco, pedindo-lhes que viessem 
ajud-lo na distribuio, quando Torbio interveio:
- No! Agora a coisa  comigo. Que diabo! Vocs nunca deixam nada pra mim. Quem vai distribuir o teu pasquim sou eu, no de carro, que no sou maricas, mas a cavalo 
e em plena luz do dia. Mas fecha essa boca, no digas nada pr papai nem pra titia, seno eles me estragam a festa.
Vestiu a melhor bombacha, amarrou um leno de seda branca no pescoo, botou o revlver na cintura, montou no bragado, apanhou um monte de jornais e saiu a distribu-los. 
Comeou pela rua do Comrcio. Fazia o cavalo subir nas caladas, aproximava-se das janelas abertas e atirava para dentro de cada casa um exemplar da folha. Na rua 
entregava-os a amigos, conhecidos e desconhecidos. Fazia isso com tamanha deciso, com to turbulenta energia, que os outros nem sabiam como recusar. E quando algum 
lhe dizia ou fazia que no, Bio perseguia-o, chegava a meter-lhe o cavalo em cima, gritando: "Pega o jornal, molenga!" E assim foi descendo
373
em ziguezague a rua principal. A frente da Casa Sol uns trs republicanos conversavam com Marcelino Veiga. Torbio aproximou-se do grupo, exclamando jovialmente: 
"Olha A Farpa, minha gente!" Houve murmrios de protesto no grupo e, como Bio insistisse em dar-lhes o jornal, os homens lhe viraram a cara. Vendo, porm, que o 
cavalo subia para a calada, embarafustaram quase em pnico para dentro da loja. "Fugindo, covardes!" Torbio impeliu o bragado loja adentro e ps-se a atirar jornais 
a torto e a direito, gritando e rindo no meio do susto de empregados e fregueses, enquanto as patas e ancas do animal iam derrubando caixas e sacos, fazendo grandes 
queijos carem das prateleiras e sarem rolando pelo soalho, e tombando, numa barulheira que agravava a confuso, panelas, canecos, latas e garrafas. Glorioso, Torbio 
saiu por outra porta e prosseguiu na tarefa. Ao chegar  praa Ipiranga, aproximou-se da casa de Titi Trindade e jogou para dentro, atravs duma janela aberta, um 
mao de jornais. Depois enfiou pela rua Voluntrios da Ptria, sempre em ziguezague e, ao cruzar a esquina da rua do Poncho Verde, avistou o Amintas, que caminhava 
na calada oposta. Fez o cavalo atravessar a rua  trote e gritou: "Pra a, cachorro! Tenho um presente pra ti!" Ao avistar Torbio Cambar, o redator Da Voz recuou 
alguns passos e encostou-se na parede, amarelo de pavor. Torbio entregou-lhe um jornal, que ele apanhou automaticamente, os olhos muito arregalados e turvos de 
medo fitos no rosto do cavaleiro. O bragado estava a encostar o focinho na cara do rbula. "No tenhas medo que no vou te fazer nada, miservel! No costumo surrar 
em fmea." Meteu os calcanhares nos flancos do animal e gritou: "Vamos embora, bragado velho, porque isto aqui est fedendo!"
Ao chegar ao Sobrado, encontrou o pai de cara amarrada. - J fiquei sabendo das suas estripulias. O Veiga me telefonou fazendo queixa do senhor.
Torbio nada disse. E Rodrigo, que se achava presente, percebeu imediatamente que o Velho no estava muito disposto a repreender o filho.
374
Por alguns instantes nenhum dos trs falou. Por fim, Licurgo tirou do bolso um pedao de fumo em rama e comeou a pic-lo. Olhando para Bio, disse:
- O senhor e eu no temos mais nada que fazer na cidade. J votamos, j cumprimos a nossa obrigao. Vamos voltar amanh pr Angico. E o senhor, seu Rodrigo, comece 
tambm a cuidar da sua vida, que j no  sem tempo.
375

XV
Licurgo e Torbio voltaram para o Angico, e Rodrigo ficou com a madrinha no Sobrado, o que lhe deu uma gostosa sensao de liberdade. Queria bem ao pai, respeitava-o, 
e era-lhe intimamente necessria a idia de que ele o estimava e admirava. No entanto, quando o velho estava perto, no podia deixar de sentir uma impresso de mal-estar, 
por ver um implacvel olho fiscalizador permanentemente focado em sua pessoa. No havia criatura mais crtica de seus atos que Maria Valria, mas Rodrigo tinha 
para com ela a liberdade de replicar. Alm do mais, as repreenses da tia geralmente faziam-no rir. Com Licurgo, porm, era diferente. Havia pouco, ao receber algumas 
caixas de vinhos franceses e italianos encomendadas a uma firma de Porto Alegre, Rodrigo transformara um dos compartimentos do poro numa adega. Levara o pai a v-la, 
mas o nico comentrio que arrancara dele fora uma srie de pigarros de contrariedade. Soube depois que o Velho dissera  cunhada: "Esse rapaz  um perdulrio. No 
sei por quem puxou".
Doutra feita, durante o almoo, Rodrigo abrira uma garrafa de Borgonha. Ao fazer meno de encher o clice do pai, este o detivera.
- Pra mim, no.
No dia seguinte, vendo o filho abrir uma garrafa de Chianti, franzira o cenho.
- O senhor pretende tomar vinho todos os dias?
Fora uma pergunta desconcertante. Num rompante, Rodrigo meteu a rolha no gargalo, saiu da sala a pisar duro, levando a garrafa
376
de volta  adega. Passaram o resto do almoo num silncio que em vo Bio mais duma vez tentara romper.
A primeira coisa que Rodrigo fez quando o pai deixou o Sobrado foi mandar esconder todas as escarradeiras que se achavam espalhadas pela casa. "Uma porcaria, Dinda, 
uma coisa dum mau gosto horrendo!"
Maria Valria encolheu os ombros.
- Sua alma, sua palma.
- Se dependesse s de mim - murmurou Rodrigo -, eu tirava tambm aquele retrato do Jlio de Castilhos da parede do escritrio...
- Se voc tirar, seu pai bota o mundo abaixo.
- No  que eu no admire o homem... Mas acontece que esse retrato tem qualquer coisa de cemitrio, de mausolu. Temos de alegrar esta casa. Precisamos de cor!
Estava pensando em quadros com mulheres nuas - nus artsticos, naturalmente - reprodues de obras de pintores famosos como Rubens, Ticiano, Manet, Renoir... Ah! 
Como ele gostaria de ter no Sobrado as sugestivas pinturas de Toulouse-Lautrec, to tpicas da galante vida parisiense!
- Dinda - disse ele um dia, ao erguer-se da mesa do almoo -, vou convidar uns amigos para virem aqui em casa no sbado de noite.
Ela olhou de vis para o afilhado.
- Festa?
- No, no se assuste. Uma pequena reunio. Que diabo! Gosto de gente, no quero viver como uma fera enjaulada. Vou convidar o coronel Jairo, o tenente Lucas, o 
tenente Rubim... Pode vir tambm o Chiru, o Saturnino, o espanhol...
- Isso est me cheirando a festa.
Tomou-lhe a cabea com ambas as mos e deu-lhe um sonoro beijo na face. Ela permaneceu sria e fria.
- No adianta me adular. Conheo bem as suas manhas.
- Venha me fazer um cafun.
- Pensa que no tenho mais o que fazer?
377
Rodrigo arrastou-a para o quarto, estendeu-se na cama, na beira da qual Maria Valria se sentou. Seus dedos loucos e magros meteram-se pelos cabelos do sobrinho 
e comearam a friccionar-lhe o couro cabeludo, vagarosamente.
Ele cerrou os olhos, com um profundo suspiro de prazer. O relgio l embaixo bateu uma badalada.
- No h nada no mundo melhor que um cafun. Aaaai! Feliz de quem tem uma tia, quando essa tia  um anjo!
- H um...
- Devagarinho... Assim...
- No suje a colcha, porcalho, tire essas botinas. Rodrigo fez um p descalar o outro e jogou os sapatos para
fora do leito.
- Dinda, vou lhe contar meus planos. Daqui por diante pretendo cuidar da profisso, do consultrio, da farmcia. O resto que v pr diabo!
- Promessa de bbado.
- Palavra de honra. Esse pas no tem jeito. S uma revoluo.
Soergueu-se na cama, e, como se a frase anterior tivesse sido dita por ela e no por ele, perguntou:
- Fazer uma revoluo com quem? Com o povo? Mas no  possvel ir contra as classes armadas! (Na verdade no se estava dirigindo  tia, mas aos leitores d'A Farpa.) 
Neste pobre pas parece que nada se pode fazer sem o concurso dos militares. Foram civis como Castilhos, Patrocnio, Bocaiuva e outros que fizeram a Repblica com 
idias. Mas na hora de dar o golpe, desgraadamente recorreu-se ao Exrcito. O primeiro presidente foi um marechal. E que fez ele? Dissolveu o Congresso. Agora, 
pra ma! dos pecados, parece que vamos ter outro soldado na presidncia. Outro Fonseca! Este pas est perdido. S uma revoluo!
Tornou a deitar-se. De novo os dedos de Maria Valria se afundaram em seus cabelos.
- Coce mais pra baixo, Dinda. No, mais pra baixo. A...
- No sei por que essa gente s pensa em poltica.
378
- Eu sei.  porque a poltica lhes da as coisas que eles mais ambicionam: posies de mando, fora, prestgio. no h quem no goste disso.
- Voc no  obrigado a se meter...
- Mas acontece que tambm gosto!
- Ests bem arranjado...
Fez-se um longo silncio durante o qual Rodrigo pareceu adormecido. Maria Valria parou o cafun e fez meno de levantar-se. Ele sorriu, segurando com um gesto 
vivo o pulso da tia.
- Ia fugindo, no, sua traidora? Fique a, que eu quero lhe contar outro segredo. Vou me casar ainda este ano.
- Pra que tanta pressa?
- Ora! Preciso ter minha mulher, meus filhos, meu lar...
- Mas tudo vem a seu tempo. No  bom a gente precipitar
as coisas.
- No sou homem de meias medidas. No tenho pacincia pra esperar. Veja o que aconteceu pr Macedinho. Morreu com dezessete anos.
- O Fandango est com cem.
- Seja como for, j resolvi. Sabe quem  ela?
- A filha do Babalo.
- Claro, quem mais podia ser? A moa mais bonita e prendada de Santa F. No  do seu gosto?
- .
- Ento diga isso com mais entusiasmo.
- .
- Quando ela voltar de fora, vou falar com o pai.
- Sabe que o Babalo anda mal de negcios?
- Mais uma razo pra apressar o casamento.
- J falou com a moa?
- No. Mas tenho a certeza de que ela vai me dar o sim.
- Presunoso.
A voz de Rodrigo estava comeando a ficar arrastada, e ele sorria com a languidez da sonolncia.
-  bom viver, titia... Mesmo que a gente viva cem anos como o Fandango, ainda  pouco. Quero viver cento e vinte...
379
cento e oitenta... cento e sessenta... - Mal movia os lbios. - Mil e quatrossss...
Adormeceu sorrindo. Maria Valria ergueu-se e saiu do quarto na ponta dos ps.
Laurinda olhava com uma expresso de perplexidade para Rodrigo, que, parado junto da mesa da cozinha, barrava de caviar pequenos quadrados de po que ele mesmo acabara 
de cortar com todo o cuidado.
- Parece mentira! - exclamou a mulata, olhando para Maria Valria. - O Rodrigo virou mulher.
- Prove, titia!
- No quero. Isso  capaz? de me arruinar o estmago.
- Coma tu, ento, Laurinda.
- Credo! Essa porqueira at parece chumbo mido.
A negra Paula, que estava acocorada no canto da cozinha, soltou a sua risada cava e rouca.
Rodrigo meteu o pedao de po na boca e por um instante ficou a mastig-lo com delcia.
- Milagres dos milagres! - exclamou, metendo a ponta da faca dentro da lata de caviar. - A Argentina planta o trigo, pescadores escandinavos pescam esturjes no 
mar do Norte e com suas ovas se fabrica o caviar. O Chico Po faz o po com farinha argentina e o dr. Rodrigo Cambar passa nele o caviar nrdico para oferecer aos 
seus convidados, um dos quais nasceu no Rio de Janeiro, os outros em Sergipe, em Alagoas, na Espanha e em jacarezinho, quarto distrito de Santa F. E assim  a vida, 
meus senhores!
.Ali estava uma boa coisa para dizer aos convidados no momento em que lhes servisse a iguaria.
Voltou-se para a cozinheira e, mostrando-lhe uma lata de salsichas de Viena:
- Bom, Laurinda, l pelas nove horas tu me botas essas latas em banho-maria. No te esqueas, sim? Essa coisa tem que ser servida quente.
380 
Saiu da cozinha assobiando uma valsa. Maria Valria seguia-o com um olhar em que havia um misto de censura e maldisfarada admirao.
Rodrigo abriu as janelas que davam para a rua, acendeu os bicos de acetilene, aproximou-se do consolo, ajeitou as rosas que mandara botar no vaso, e depois mirou-se
por um instante no espelho. Que o Sobrado tomava outro jeito, no havia que negar. Tinha mandado fazer uma estante especial para o gramofone, com gavetas destinadas 
aos discos. Comprara um tapete feito a mo para a sala de visitas e um plo de tigre para o cho do escritrio. Pensou no pai... Como acontecia com quase todos os 
homens do campo, Licurgo Cambar desprezava o conforto. Gachos como ele em geral dormiam em camas duras, sentavam-se em cadeiras duras, lavavam-se com sabo de 
pedra 
e pareciam achar indigno de macho tudo quanto fosse expresso de arte, beleza e bom gosto. Isso explicava a nudez e o desconforto de suas casas, a aspereza espartana 
de suas vidas.
Aproximou-se do gramofone, abriu uma das gavetas da estante 
 escolheu um disco Lon do Val - colocou-o no prato e estava a dar manivela ao aparelho quando Maria Valria entrou.
- Acho que voc no devia tocar msica.
- Por qu?
- Faz to pouco tempo que morreu o Macedinho...
Por um instante Rodrigo hesitou, no sabendo se devia ou no dar razo a tia. Bastou-lhe, porm, uma frao de segundo para perceber que ia cometer uma indelicadeza. 
Diabo, como  que eu no penso numa coisa dessas! Ficou a censurar-se a si prprio, mas nem por isso menos contrariado por no poder ouvir msica.
Eram oito e quarenta da noite quando o prprio Rodrigo foi  cozinha buscar a bandeja onde estava a travessa com po e caviar. Voltou para a sala de visitas, radiante.
381
- Vejam s quanta coisa aconteceu atravs do tempo e do espao para que este simples momento fosse possvel! - Parou no meio da pea e passeou o olhar pelas faces 
dos convivas. - Um lavrador na Argentina plantou o trigo...
E desenvolveu a tese. Quando terminou, o coronel Jairo avanou para ele, de braos abertos.
- Pois tudo isso  sociologia, meu caro doutor! Para Comte todos esses elementos contavam, no estudo da histria!
Rodrigo fez a bandeja andar  roda.
O tenente Lucas provou o caviar e em seguida representou a pantomima do homem envenenado: atirou-se ao cho e comeou a rolar no tapete, as mos crispadas sobre 
o ventre, o rosto convulsionado. Liroca, que aparecera sem ser convidado, estava quieto no seu canto, a olhar para o pndego, com uma expresso entre rabugenta e 
triste.
Chiru fumava, recostado ao peitoril duma das janelas, discutindo com Saturnino o lesultado das eleies. Meteu um pedao de po na boca e engoliu-o sem mastigar.
- Vamos beber alguma coisa! - exclamou Rodrigo.
Foi at a cozinha e voltou com uma garrafa de champanha. Fez saltar a rolha, que bateu no espelho e caiu entre as rosas do vaso. O vinho jorrou sobre o tapete. Rodrigo 
encheu a primeira taa e entregou-a ao coronel. Serviu depois os outros. Liroca e Saturnino no quiseram beber. Lucas perguntou a Rodrigo se nunca havia bebido "champanha 
de cascata". De cascata? Sim - com a sua licena, coronel - despe]a-se a garrafa na cabea duma mulher bonita, o champanha escorre pelo rosto, pelos peitos, a gente 
se agacha, mete a boca debaixo dos seios da criatura, e bebe...
- Devasso! - exclamou Rodrigo, lembrando-se de que, no fazia muito, ele prprio bebera champanha nos sapatos dourados duma atriz.
O coronel ficou muito vermelho e levou o copo de limonada aos lbios, depois de ergu-lo, num brinde silencioso. Liroca continuava a olhar, intrigado, para o tenente 
de obuseiros. Chiru achou a idia de Lucas interessante.
- Vou experimentar na primeira ocasio. S que  uma brincadeira meio cara...
- O que  caro  bom - retrucou o tenente.
Chiru e Saturnino entraram a discutir animadamente as eleies. Nos primeiros dias de maro o Correio do Povo publicara alguns resultados parciais das cidades, que 
acusavam pequeno saldo de votos favorvel a Rui Barbosa. Agora, porm, vinham de todo o pas telegramas desanimadores para os civilistas: o marechal estava vitorioso 
na maioria das urnas, e tudo indicava que o candidato oposicionista se encontrava irremediavelmente derrotado. Rui Barbosa lanara um manifesto, afirmando que as 
eleies haviam sido feitas sob presso do governo,  sombra da fraude: os herraistas subtraam as atas ou as falsificavam. A propalada neutralidade de Nilo Peanha 
- clamava o candidato civilista - era como as saias postas em moda na Frana por Mme. de Maintenon para esconder a barriga das mulheres grvidas.
- Esse manifesto do Rui - interpretou Saturnino -  uma confisso pblica de derrota.
- Cala a boca, animal!
Jairo ps afetuosamente a mo no ombro do ecnomo.
- Meu amigo, no vamos trazer  baila esse assunto ingrato. J basta o que aconteceu...
- Isso mesmo, Saturno - disse Chiru -, mete a viola no saco.
Saturnino encolheu os ombros.
- Foste tu quem puxou o assunto.
Don Pepe chegou depois das nove. Como Rodrigo lhe oferecesse caviar e champanha, recusou-se por considerar ambas essas coisas smbolos dos prazeres da alta burguesia. 
Aceitou, porm, po simples e vinho tinto, "expressiones de Ia tierra y dei pueblo". Sentou-se, um pouco taciturno, e ficou a comer e beber em silncio.
382
383
Rodrigo Foi buscar as salsichas de Viena, trazendo com elas uma garrafa de vinho branco e clices, que encheu generosamente. Liroca no pde deixar de murmurar:
- Que desperdcio...
- Que ceia rgia! - exclamou Jairo.
-  para comemorar a minha retirada da vida poltica... - disse Rodrigo, um pouco por brincadeira e um pouco a srio.
Don Pepe lanou-lhe um olhar que exigia explicaes.
- No me olhes assim, Pepito. Aqui onde me vs, sou um homem mudado. - Sentia-se tonto, areo, irresponsvel. - Santa F no merece o nosso sacrifcio. Os povos 
tm o governo que merecem, no , coronel Jairo? Sejamos egostas. Bebamos vinhos estrangeiros e comamos caviar. A vida  curta. - Ergueu a taa. -  sade... de 
quem?
Pepe ergueu-se, teatral.
- A Ia salud de todos los que muneran en vano por sus ideales!
- Vai mesmo desertar a arena? - perguntou Rubim. E acrescentou. - No acredito. Qual  a sua opinio, coronel?
O comandante do regimento de infantaria coou o queixo e olhou para Rodrigo.
- O homem se agita e a humanidade o conduz. Os vivos so sempre cada vez mais governados pelos mortos. O dr. Rodrigo no poder fugir ao seu destino.
Com uma salsicha apertada entre o polegar e o indicador, o tenente Lucas dirigia-se a Liroca, que o escutava com o ar de quem est diante dum dbil mental.
- Pois  como lhe digo, sr. Liroca. Estas linguicinhas vm da cidade de Viena e so feitas de carne de criana. Mas tem que ser de criana com menos de dez anos. 
Quanto mais novo o beb mais tenra a carne. Trincou a salsicha e explicou.
- Por exemplo, esta  feita da coxinha de um recm-nascido. Jos Lrio mirava-o de soslaio, srio.
- Moo, o senhor pensa que eu sou algum bobo?
384
Rodrigo desenvolvia para Jairo e Rubim uma tese que se poderia intitular "O Brasil, pas perdido". Perdido qual nada! - protestou o coronel. O Brasil tinha um futuro 
fabuloso.
Rubim sacudia a cabea. Achava que o progresso no pode ser nunca o resultado do esforo coletivo, mas sim a obra magnfica duma casta superior, a qual s poder 
existir  custa do trabalho escravo das massas, cuja misso  mourejar a fim de que os superhomens se possam entregar ao cultivo do esprito, das artes e da cincia.
- Mas que absurdo! - protestou Rodrigo. - Para principiar: como pr em prtica esse individualismo aristocrtico?
- Muito simples - replicou Rubim, com sua voz de flauta. Tomou um gole de champanha. - Nietzsche preconiza, e nisso estou plenamente de acordo com o Mestre, a formao 
do Estado militar.
- Tenente! - repreendeu-o Jairo, sorrindo.
- Estamos entre amigos, coronel. Mas, como dizia, s esse Estado militar  que poder consolidar o domnio da casta superior, usando da fora para organizar disciplinarmente 
todos os recursos sociais...
- Mas ser uma ditadura insuportvel! - atalhou-o Rodrigo. E tomou com fria um largo gole de champanha, enchendo logo em seguida a taa com vinho branco.
- Isso mesmo. Uma ditadura. E insuportvel, sim, para as classes inferiores. Porque ser preciso esmagar sempre todas as tentativas de insurreio das massas.
Don Pepe levantou-se, avanou para o tenente de artilharia e, erguendo a mo que segurava o copo, como se fosse atirar vinho na cara do militar, bradou:
- Pro no hay tuerza humana que pueda detener ias masas! Rubim limitou-se a lanar para o espanhol um rpido olhar
neutro.
- O Brasil - continuou -  um pas novo e informe, que s poder ser governado mediante uma ditadura de ferro.
Jairo estava escandalizado.
- Tenente, o senhor est se excedendo!
385 
Rubim sorriu e encheu o clice de vinho.
- Coronel, estou apenas dizendo o que penso.
- Deus nos livre de ter o tenente um dia na presidncia da Repblica! - exclamou Rodrigo.
Olhou para Pepe, que comeava j a dar seus passinhos para diante e para trs, e viu nos olhos do anarquista duas bombas prestes a explodir.
- Essa casta superior - prosseguiu Rubim, cruzando as pernas - no dever de maneira nenhuma preocupar-se com a educao das classes populares. O cultivo das massas 
pode prejudicar os objetivos mais altos do Estado, isto , a formao da aristocracia...
Rodrigo j no sabia ao certo o que o embriagava mais, se o vinho ou as idias do tenente de artilharia.
- A cerrar todas Ias escuelas! - exclamou Don Pepe, abrindo os braos como um crucificado. - A quemar todos los libros! El senor temente quiere para su clase ei 
monoplio de Ia cultura!
Rodrigo, que estava curioso por ouvir toda a tese do oficial, fez um sinal para que o espanhol se calasse.
- E qual  a finalidade dessa tua esplndida, mirabolante aristocracia? - perguntou.
- Produzir a raa superior, o super-homem, que est para o homem atual assim como este para os animais.
- Tenente! - advertiu Jairo. - No beba mais. A dentua avanou, nua e cintilante.
- Nunca em toda a minha vida, coronel, estive mais lcido
que agora.
Continuou:
- No mundo primitivo o bom era o audaz, o forte; o mau era o dbil, o impotente. Depois veio o cristianismo e subverteu tudo.
- Me cago en Ia eche dei cristianismo!
Liroca arrancou do fundo do peito um longo suspiro, e seus olhos se dirigiram para a sala contgua, por onde passara, havia pouco, vago e areo como um espectro, 
o vulto de Maria Valria.
386
- Ento no acreditas na concepo evolucionista da histria? - perguntou Rodrigo, que se sentia como suspenso no ar.
Rubim sacudiu vigorosamente a cabea.
- Acho a concepo erradssima.  um otimismo tolo acreditar no progresso ininterrupto da humanidade.
O coronel Jairo remexeu-se na cadeira e olhou o relgio.
- Dez e meia. Preciso retirar-me. A Carmem, coitadinha, ficou sozinha em casa. Ps a mo no ombro de Rodrigo:
- O meu amigo precisa casar-se o quanto antes, para eu poder trazer a Carmem a estes esplndidos seres.
Despediu-se. Rodrigo levou-o at a porta, junto da qual o militar ciciou:
- O Rubim s vezes me desconcerta quando expe essas idias extravagantes. Pode at parecer que esse  o ponto de vista do Exrcito, mas asseguro-lhe que no . 
E, meu caro doutor, no confunda a ditadura cientfica, humanssima e nobre, preconizada pelo grande Augusto Comte, com essa brbara ditadura que o tenente prega.
Apertaram-se as mos.
- Foi uma noitada agradabilssima. Boa noite!

Pouco depois das onze, Chiru e Saturnino retiraram-se. Era hbito de ambos caminhar todas as noites pela cidade, at alta madrugada. Lucas deixou tambm o Sobrado 
dez minutos mais tarde, confidenciando ao ouvido de Rodrigo que tinha combinado passar a noite com uma "morena cotuba", na Penso Veneza. Desceu de gatinhas a escada 
do vestbulo.
Como Rubim tambm fizesse meno de ir-se, Rodrigo deteve-o.
- Fica, homem.  muito cedo. Vamos tomar ainda um licorzinho especial. E tu, Pepito, no te muevas. Quero mostrar a vocs uma coisa...
387
De repente, dando com os olhos em Liroca, que, de plpebras cadas, continuava sentado no seu canto, exclamou:
- Liroca velho de guerra! Por que  que ests a to quieto? No comeste nada. No bebeste nada. Que  que tens? Ests triste?
-  a minha sina, Rodrigo,  a minha sina. Suspirou.
Rodrigo foi buscar no escritrio um exemplar do Correio do Povo que havia guardado com especial cuidado.
- No sei se vocs leram esta notcia... Edmond Rostand acaba de levar  cena no teatro Porte Saint-Martin a sua nova pea, Chnntcder, na qual trabalhou durante 
doze anos. Diz o jornal que no se fala noutra coisa em Paris. As confeitarias fazem bolos, tortas e pasteles com efgie de Rostand, e a imagem de seu heri, o 
Chantecler, anda por todos os cantos, nas vitrinas, nas revistas, nos jornais, no corao do povo parisiense. O que j se escreveu sobre essa pea d para encher 
toda uma biblioteca!
- Y que hay de tan extraordinrio en esas cosas?
- Paris est em polvorosa! A revista L Hlustration comprou a Rostand os direitos de reproduzir na ntegra o Chantecler, e est agora processando em nome do autor 
os jornais parisienses L Eclair e o Paris Journal ainda Secolo, de Milo, por terem eles publicado sem licena o cornpte rcndu e algumas estrofes da pea...
- Escndalos de Ia podrida sociedad burguesa! - exclamou o espanhol. E apanhou distrado, com as pontas dos dedos, o ltimo quadrado de po com caviar.
Rodrigo bebeu sofregamente um largo gole de vinho.
- No dia 6 de fevereiro, por ocasio do ensaio geral de Chantecler, o Boulcvard Saint-Martin estava agitadssimo. Uma enorme multido se apinhava  porta do teatro.
- Mas afinal de contas - interrompeu-o Rubim - em que consiste a pea?
- Originalssima! Imaginem vocs que as personagens so quase todas animais domsticos: galos, galinhas, ces, faises... E os atores aparecem realmente travestidos 
nesses animais!
- Ridculo! - bradou Pepe Garcia.
388
- No - protestou Rodrigo - quando temos no papel de Chantecler um Lucien Guitry, no de Co um Jean Coquelin e no de Faisoa uma Mme Simone.
- Assim mesmo  um pouco... esquisito.
- O primeiro ato passa-se num terreiro. O cenrio foi feito em tais dimenses que os espectadores tm a impresso de que os "animais" so realmente do tamanho de 
galos, galinhas, etc.... E a histria, em suma,  esta: Chantecler  o rei desptico do terreiro. A Galinha est despeitada e cheia de cimes, por que o Galo prefere 
as outras a ela...
- Ridculo! Infantil! - exclamou o pintor.
- Temos ento o eterno tringulo do romance francs. O Galo est apaixonado por uma bela faisoa... pela qual tambm se morre de amores um galo mais novo.
- Nesse caso - interrompeu-o Rubim, com seu amor  preciso - no se trata mais dum tringulo.
- Bom, seja o que for, a situao  essa. No primeiro ato vemos a vida ntima do galinheiro, onde impera Sua Majestade Chantecler, que est convencido de que, sem 
o seu cocoroc matinal, o sol jamais se ergueria. No segundo ato a cena mostra os ramos superiores das rvores duma floresta, onde uns mochos se acham empoleirados. 
 noite e a coisa toda tem um ar de sabbat. As aves noturnas conspiram, querem matar o Galo, pois esto tambm convencidas de que  Chantecler quem obriga o sol 
a erguer-se todas as manhs, trazendo para o mundo a luz, a maior inimiga dos mochos.
- Pro, hijo, eso es un cuento de liadas!
- Espere, Pepito. No terceiro ato o Galo  informado da conspirao, mas no lhe d a menor importncia, pois est preocupado com o que o Co, seu amigo fiel, lhe 
veio contar: um galo novo acaba de fazer uma declarao de amor  Faisoa. Furioso, Chantecler provoca o rival para um duelo. Trava-se uma luta de vida e de morte 
em que o galo jovem  vencido. A Faisoa toma o vencedor nos braos e embala-o com palavras de amor. Chantecler adormece no colo da amada e, ao despertar, verifica, 
estonteado, que o dia j vai alto. Ento o sol pode nascer sem que ele cante? No  ele, o Galo, quem regula o curso do rei do dia? Em vo a
389
bem-amada lhe recita ao ouvido belas palavras de amor. Chantecler morre de vergonha e humilhao.
Rodrigo calou-se, levou o clice  boca, esvaziou-o, e olhou depois para os amigos. Rubim sorria, a cabea recostada no respaldo da cadeira. Pepe mirava o amigo 
com fisionomia inescrutvel.
- Que tal, Liroca? - perguntou Rodrigo, curioso por saber o que Jos Lrio, natural do quarto distrito de Santa F, pensava da pea de Edmond Rostand.
- Que bicho  essa tal de faisoa?
-  a fmea do faiso, um galinceo de carne muito gostosa, uma verdadeira iguaria.
Liroca ficou um momento calado, com ar reflexivo. Depois murmurou, srio:
- Galo velho de bom gosto...
- Rubim, que tal?
Rodrigo deu uma palmada na perna do tenente.
- Parece-me uma grande borracheira - disse este.
- Borracheira? Ento escuta este Hino ao Sol e me diz se uma pea que tem uma jia potica deste quilate pode ser considerada uma borracheira.
Aproximou o jornal dos olhos:
To i qui sches ls pleurs ds moinarei gramines Qi jais d'itne fleur morte un vivant papillon Lorsqu'on you, s'effeuillant comme ds destines,
Tremhler nu vent ds Pyrnes,
Ls amandiers dn Roussillon.
Sentiu que a voz lhe saa um tanto arrastada, como se a lngua e os lbios estivessem inchados. Diabo! O vinho francs devia ajudar a gente a falar melhor a lngua 
de Rostand...
J e t'aelore, Solei l!  toi dont Ia lumire, Pour bnir chaque front et mrir chaque ciei, Entrant dans chaqie fleur et dans chaque chaumire,
Se divise et demeure entire
Ainsi que l'amour maternel!
Vieram-lhe lgrimas aos olhos, como acontecia sempre que lia um trecho literrio com emoo. Rubim escutava, as mos tranadas diante do peito, como se estivesse 
orando. Pepe mastigava com dignidade uma salsicha. Liroca, o olhar embaciado de sono, mirava fixamente o tapete e de quando em quando cabeceava.
- Agora prestem bem ateno! - pediu Rodrigo. E recitou:
J e t'adore, Soleil! Tu mets dans l'air ds roses,
Ds flammes dans Ia source, un dieu dans l buisson!
Tu prends un arbre obscur et tu l'apothoses!
O Soleil! toi sans qui ls choses
Ne seraient que c qu'elles sont
Rodrigo atirou o jornal no cho.
- Se isto no  uma pea de antologia, ento no me chamo mais Rodrigo Terra Cambar! Bolas!
Rubim abriu os olhos.
-  bonito, no h dvida. Mas apenas bonito.
- O Chantecler  o teu super-homem, Rubim! No compreendes isso? O rei absoluto do terreiro! Os mochos e os melros so a massa que tanto detestas, a massa que conspira 
inutilmente.
Rubim sacudiu a cabea.
- No, Rodrigo. O meu super-homem venceria o galo mais novo no duelo, mas depois no dormiria o sono da vitria nos braos da bem-amada.
- Por qu? Acaso o teu super-homem ter de ser necessariamente um impotente sexual?
- Meu caro Rodrigo, para o super-homem a felicidade no consiste na posse dum objeto determinado, mas sim numa continuada superao de si mesmo. O que importa para 
ele  a vontade de poder, que consiste em desejar e escolher o sofrimento e a dor, se tanto for necessrio para essa superao. No exemplo de Chantecler vimos como 
a mulher pode desviar o super-homem de seus objetivos mais altos. E no esqueas que no meu mundo ideal, se queres usar os smbolos desse teu Rostand, o sol de fato 
no se erguer sem que Chantecler, o super-homem, cante!
390
391
- Isso sim  um conto de fadas!
- E o meu Chantecler no admitir no seu terreiro leis que glorifiquem a fraqueza como acontece nesta nossa sociedade regida pela moral crist, que  uma moral de 
escravos. Para principiar, o super-homem ter de ser duro e cruel consigo mesmo e viver numa constante busca de novas aventuras. Ele sofrer e far os outros sofrerem.
Rodrigo desatou a rir.
- De que ests rindo?
- Estou te vendo fantasiado de galo, recitando no meio dum palco...
- Ests bbedo!
- Talvez. Mas vamos tomar ainda um licorzinho. Serviu-lhes Chartreuse. E, enquanto os outros bebiam, apanhou o jornal do cho e leu mais um trecho da pea.
CHANTECLER Jc chaute! Vaincment
La nuit, four transiger, m 'offre l crpuscule, Jc cbante! Et tout  coup...
LA F AI SANE
Chantecler!
CHANTECLER
Je recule, bloui de me voir moi-mme tout vermeil. Et d'avoir, mi, l Coq, fait lever l soleil.
Don Pepe se ps de p:
- Mierda para ei gallo, rnierda para Ia gailina, mierda para Ia humanidad! Buenas noches, caballeros!
Enfiou a boina e saiu. Rubim e Liroca tambm se foram pouco depois. Rodrigo ficou algum tempo  janela, olhando a praa deserta, as estrelas, e pensando em Paris. 
Fechou depois as janelas, apagou as luzes e dirigiu-se para a escada. Quando ia subir, viu surgir l no ltimo degrau Maria Valria.
392
- Isso so horas de deitar? - perguntou ela. - Os galos j esto cantando,
- bloui de me voir rnoi-mme tout vermeil - murmurou Rodrigo. E, alteando a voz, recitou como se estivesse num palco: - Et d'avoir, mi, l Coq, fait lever l soleil!
393
XVI

Naquela terceira semana de maro, abriu o consultrio. Os primeiros doentes que lhe apareceram foram pobres-diabos do Purgatrio, do Barro Preto e da Sibria. Entravam 
humildes e acanhados, contavam seus males, mostravam onde sentiam suas dores, iam como que amontoando todas as suas queixas sobre a mesa do mdico. Rodrigo examinava-os 
- bote a lngua... respire forte... diga trinta e trs - aplicava-lhes o estetoscpio no peito, nas costas, auscultava-lhes o corao, os pulmes, e, enquanto fazia 
essas coisas, procurava conter o mais possvel a respirao, pois o cheiro daqueles corpos encardidos e molambentos lhe era insuportvel. Por fim sentava-se e, aps 
um breve interrogatrio, fazia uma prescrio e entregava-a ao paciente.
- Mande preparar este remdio aqui na farmcia. Tome uma colher das de sopa de duas em duas horas.
Na maioria dos casos o doente quedava-se a olhar imbecilmente para o papelucho.
- Mas  que no tenho dinheiro, doutor...
- Isso no vai lhe custar nada. A consulta tambm  grtis. Os clientes balbuciavam agradecimentos e se iam. Rodrigo
ento abria as janelas para deixar entrar o ar fresco, lavava as mos demoradamente com sabonete de Houbigant, tirava do bolso o leno perfumado de Royal Cyclamen 
e agitava-o de leve junto do nariz. Conclua que o sacerdcio da medicina, visto atravs da arte e da literatura, era algo de belo, nobre e limpo. Na realidade, 
porem, impunha um tributo pesadssimo  sensibilidade do sacerdote, 
394
principalmente ao seu olfato. Rodrigo comovia-se at as lgrimas diante da misria descrita em livros ou representada em quadros; posto, porm, diante dum miservel 
de carne e osso - e em geral aquela pobre gente era mais osso que carne - ficava tomado dum misto de repugnncia e impacincia. Achava impossvel amar a chamada 
"humanidade sofredora", pois ela era feia, triste e malcheirante. No entanto - refletia, quando ficava a ss no consultrio com seus melhores pensamentos e intenes 
- teoricamente amava os pobres e, fosse como fosse, estava fazendo alguma coisa para minorar-lhes os sofrimentos. No tens razo, meu caro Rubim. Podemos e devemos 
elevar o nvel material e espiritual das massas. Tenho uma grande admirao por Csar, Cromwell, Napoleo, Bolvar; foram homens de prol, dotados de energia, coragem 
e audcia, figuras admiradas, respeitadas e temidas. Mas para mim, meu caro coronel Jairo,  mais importante ser amado que respeitado e mesmo admirado.
O tipo humano ideal, o supremo paradigma, seria uma combinao de Napoleo Bonaparte e Abrao Lincoln. O ditador perreito, amigos, ser o homem que tiver as mais 
altas qualidades do soldado corso combinadas com as do lenhador de Illinois. O diabo  que a bondade e a fora so atributos que raramente ou nunca se encontram 
reunidos numa mesma e nica pessoa. A menos que essa pessoa seja eu - acrescentou, um pouco por brincadeira e um pouco a srio.
Certa madrugada, pouco depois das trs e meia, o telefone do Sobrado tilintou insistentemente. Maria Valria, que tinha o sono leve, acordou, acendeu a vela, apanhou 
o castial e desceu a atender o chamado. Quem falava, aflitssima, era a esposa do dr. Eurpedes Gonzaga, o juiz de comarca. Pedia por amor de Deus que o dr. Rodrigo 
corresse a sua casa, pois o marido estava gravemente enfermo.
395
Maria Valria tornou a subir, entrou no quarto do sobrinho, ficou um instante parada a contempl-lo e depois, numa sbita resoluo, inclinou-se sobre ele e sacudiu-o. 
Rodrigo resmungou qualquer coisa, entreabriu os olhos e  luz da vela entreviu o rosto da tia, confusamente, como num sonho. Tornou a cerrar os olhos e voltou-se 
para o outro lado. Maria Valria sacudiu-o de novo e, quando lhe pareceu que o sobrinho estava mais desperto, transmitiu-lhe o recado. Como ele permanecesse de olhos 
fechados, deu um puxo nas cobertas e aproximou a chama da vela do rosto do rapaz. - Vamos, cumpra a sua obrigao. U, gente! No quis ser doutor? Agora agente. 
O homem est passando mal.
Sentado na cama, Rodrigo coava a cabeleira revolta, bocejando. Ps-se de p em movimentos tardos. Maria Valria meteu a mo dentro do jarro do lavatrio e respingou 
gua fria no rosto do afilhado, o que o deixou mais desperto, mas nem por isso menos irritado. Tirarem um homem da cama quela hora da madrugada. Enfiou as calas 
e as botinas, e por um momento ficou desorientado, a dar voltas inteis pelo quarto. A tia tornou a sacudi-lo e repetiu-lhe o recado, lentamente, com toda a clareza, 
para que ele compreendesse o que se estava passando. Desceram a escada juntos. Rodrigo resmungava... Que era que o juiz estava sentindo? Aposto como andou comendo 
alguma porcaria.  sempre assim. Tiram um cristo da cama por qualquer indigesto sem importncia. No tero sal amargo ou bicarbonato em casa? Por que no chamaram 
o dr. Matias?
- Vou acordar o Bento pra ir com voc.
- No sou nenhuma criana. Vou sozinho.
- Est bem. Mas v.
Apanhou a maleta e saiu. Ficou por alguns segundos  esquina, como se tivesse perdido a memria ou cado de sbito numa fantstica cidade desconhecida. Voltou a 
cabea para o Sobrado, a cuja porta luzia a chama da vela de Maria Valria.
-  na casa do dr. Eurpedes - dizia ela. - Pra aquele lado, menino!
Rodrigo fez meia-volta e seguiu pela rua do Comrcio, ouvindo o som e o eco dos prprios passos, e achando que isso tornava
396
ainda mais profunda a solido da noite. As chamas dos lampies agonizavam. As estrelas estavam apagadas. Rodrigo sentia um peso nos olhos, uma lassido nos membros, 
uma vontade de atirar-se na calada e ali ficar estendido, dormindo... Havia j caminhado duas quadras quando lhe ocorreu que se esquecera de pr o revlver na cintura. 
Mas agora no volto. Quem  que vai se lembrar de me atacar a estas horas da madrugada?
A esposa do juiz, que ele conhecia apenas de cumprimento, esperava-o a porta da casa, plida e escabelada. Rodrigo foi levado imediatamente ao quarto do casal, onde 
encontrou o dr. Eurpedes Gonzaga sentado na cama, a tossir e debater-se numa falta de ar que lhe transtornava as feies. Pelas comissuras dos lbios escorria-lhe 
uma baba rosada.
- Ele est vomitando sangue, doutor! - choramingou a mulher.
O juiz de comarca olhou para Rodrigo e no primeiro momento pareceu no reconhec-lo. Depois balbuciou:
- Me acuda, doutor, eu morro...
O peito magro arfava. Da boca entreaberta saa um ronco de estertor e pelo rosto lvido escorria-lhe um suor lento e viscoso. Rodrigo sentou-se na beira do leito.
- Calma, dr. Eurpedes, eu estou aqui, o senhor no vai morrer. Chegue um pouquinho pra c. Assim...
Encostou o ouvido nas costas do paciente e ps-se a escutar. Que rudo era aquele? Uma chuva de estertores midos, de cima para baixo... Hum! Auscultou o corao, 
que batia num ritmo de galope. Tomou o pulso: acelerado e arritmico.
Em sua memria desenhou-se a figura do professor Graciano Braga numa aula remota: "...e nesse caso devemos ento pensar logo num edema pulmonar agudo!"
Sim. Devia ser um edema agudo de pulmo: a respirao curta e opressa, a dispneia, a expectorao rosada... Mas se fosse uma crise de asma? O diabo era que no conhecia 
o passado mrbido do homem... Tentar fazer perguntas quelas duas criaturas alarmadas seria pura perda de tempo. Era necessrio agir com urgncia.
397
- Ai! - gemeu o magistrado. - Ai que eu morro... Abram uma janela, quero ar...
Parada ao p da cama, a mulher chorava desatadamente, cobrindo o rosto com as mos.
Rodrigo abriu a maleta para ver se tinha trazido os instrumentos e os remdios de que ia precisar. Felizmente no lhe faltava nada do essencial.
- Uma vela, depressa!
Ao som da palavra vela a sra. Gonzaga teve um sobressalto, deixou cair os braos e fitou no mdico os olhos cheios dum sbito pavor.
-  pra desinfetar a lanceta - esclareceu Rodrigo. - Vamos, dona, traga uma vela, uns trs lenos limpos e um prato fundo.
Teve de repetir o pedido, antes que a mulher se dispusesse a atend-lo. Depois que ela saiu do quarto, voltou-se para o paciente:
- Coragem, meu amigo. Vou lhe fazer uma pequena sangria e dar-lhe uma injeo de morfina para aliviar a dispnia. Vai ser o mesmo que tirar com a mo essa falta 
de ar e essa angstia.
A esposa do juiz voltou com os objetos pedidos.
- Agora a senhora vai me fazer um favor de esperar no corredor. Quando voltar, ver como seu marido ressuscitou...
Tomou delicadamente o brao da dona da casa e conduziu-a para fora do quarto. Fechou a porta, tirou o casaco, arregaou as mangas da camisa e ps-se a trabalhar. 
Garroteou o brao direito do paciente com um dos lenos, acendeu a vela e passou-lhe na chama a lmina do bisturi.
- Uma linda veia! No se mexa. Vai doer menos que a picadura duma agulha.
Aproximou a ponta da lanceta da veia da prega do cotovelo.
- Pronto!
O sangue esguichou e comeou a escorrer para dentro do prato que Rodrigo colocara debaixo do brao do doente. Quando lhe pareceu que j havia no recipiente uns trezentos 
centmetros cbicos, fez com os lenos restantes um curativo compressivo na veia. Olhou para o juiz.
398
A cabea recostada no travesseiro, o dr. Eurpedes sorria respirao normalizada, as reies tranqilas. O homem estava salvo.
Rodrigo ergueu-se, assobiando de mansinho. Se no chego em tempo, era uma vez um juiz de comarca!
Ps a seringa a ferver e, minutos depois, aplicou no msculo do paciente, uma injeo de morfina.
- Nunca vi veias melhores que as suas!- elogiou. - Agora no h mais perigo. O senhor vai dormir em paz...
- Parece at um milagre, doutor - murmurou o doente com voz dbil.
Rodrigo abriu a porta e a sra. Gonzaga entrou.
- Veja como seu marido est outro! Agora o que ele precis  ficar em repouso absoluto. D-lhe amanh de manh tirn pur tivo. Pode ser de aguardente alem. Quanto 
 alimentao, s lquidos.
A sra. Gonzaga olhou longamente para o marido e depois para, o mdico. Seus lbios se moveram como para dizer alguma coisa de sua boca no saiu o menor som. 
Estava duma palidez cadavrica e suas mos tremiam. Rodrigo observou que os olhos dela se vidravam e, prevendo o que ia acontecer, deu dois passos  frente e enlaou 
a cintura da mulher no momento exato em que ela perdia os sentidos.
- Era s o que me faltava!
Ergueu a magra senhora nos braos e deitou-a na cama a lado do marido, que dormia tranqilamente.
Uma hora depois estava na rua, a caminho do Sobrado. Havia animado e medicado a sra. Gonzaga, deixando-a aos cuidado duma vizinha solcita.
Sentia-se feliz. Tinha salvo uma vida. Lembrava-se do clido olhar de gratido que lhe dirigira a esposa do juiz ao despedir-se dele. Aquilo fizera-o sentir-se maior 
e melhor. Digam o que disserem, a profisso mdica  dura e difcil, mas tem as suas compensaes.
Ps-se a cantarolar.  esquina da rua do Poncho Verde encontrou o Chico Po na sua carroa, a entregar po  freguesia F-lo parar, contou-lhe de onde vinha e de 
como salvara a vida do
399
dr. Eurpedes. Pediu-lhe um po cabrito, que o padeiro lhe deu com um sorriso amoroso, e continuou a andar. Galos cantavam nos quintais. Jc chante! Vainement Ia 
riuit, pour transiger, m'offrc Ic crpuscule. Mas o que eu quero mesmo  o sol, o sol... O Salvini nos Espectros de Ibsen, engatinhando como uma criana no palco, 
pedindo o sol, me, o sol... Mi, l Coq, je vcux Ic soleil! Mas quem me v a esta hora da madrugada, na rua, comendo po, vai pensar que estou voltando de alguma 
farra, bbedo. Bela profisso escolhi! Mas que diabo! Um homem tem que sair de seu comodismo se quiser fazer alguma coisa pela humanidade. O Rubim  uma besta. O 
Nietzsche  outra.
Parou a uma esquina e olhou para o nascente, onde a barra do dia era dum ouro que se degradava em prpura. bloiii fie me voir to u t vcrmeil. Havia um doce e leve 
mistrio nas ruas adormecidas, uma frescura transparente de vidro no ar. Acendeu um cigarro, tragou a fumaa e depois expeliu-a com fora. Como sabe mal o fumo quando 
a gente est em jejum! Mi l Coq, je ueux un chimarro.
Ia passando pela frente da meia-gua onde morava Neco Rosa. Parou, bateu  janela, uma, duas, trs vezes, primeiro de leve, e por fim aos murros. Fez o amigo sair 
da cama e esquentar a gua para um mate. Ficaram depois sentados em mochos, sob as laranjeiras do pomar, a saborear o amargo, a fumar e a conversar.
Quando Rodrigo chegou ao Sobrado, o sol j havia sado. Maria Valria, que esperava o sobrinho, debruada  janela, exclamou:
- Pensei que tinha lhe acontecido alguma coisa. J ia mandar o Bento atrs de voc.
- A senhora sabe que meu anjo da guarda  muito forte.
-  Mas tenho medo que um dia ele canse.
Uma tarde Rodrigo recebeu no consultrio a visita do dr. Matias, um homem baixo e franzino, de bigodes grisalhos de foca, e culos de grossas lentes.
400
- Vim fazer uma visita ao meu caro colega.
No havia o menor tom de sarcasmo na voz da criatura Rodrigo achou aquilo divertido. O dr. Matias era o mdico de sua famlia, uma das mais vivas recordaes da 
infncia. Verificou, divertido, que diante do homenzinho, ele quase chegava a sentir as impresses do menino quando via o "doutor" entrar no Sobrado: a medrosa expectativa 
do leo de rciuO) da cataplasma de mostarda e linhaa, do clister... Como era dramtico o instante em que o dr. Matias lhe metia na boca o cabo duma colher para 
examinar-lhe a garganta! Ah! Os angustiosos segundos em que se debatia numa nsia de vmito... Todas essas impresses estavam ligadas  figura do velho mdico, ao 
seu cheiro de iodofrmio e sarro de cigarro,  sua "voz de queijo bichado', aos seus dedos de pontas amareladas de nicotina, e ao rudo que Seus punhos engomados 
produziam quando ele sacudia o termmetro para fazer o mercrio baixar. Ali estava agora o lendrio dr. Matias com sua roupa surrada e a sua maleta negra. No 
tinha mudado muito. Estava apenas mais grisalho.
- Sente, doutor.
O dr. Matias olhou em torno, deteve-se a examinar a lombada dos livros. Depois dirigiu o olhar para os instrumentos cirrgicos.
- Vocs so mdicos modernos. Eu sou da velha escola. Menos livros, menos petrechos, porm mais prtica.
- O mdico  mais importante que a medicina, doutor. O que vale mesmo  a experincia pessoal.
O dr. Matias tirou fumo duma bolsa de borracha e comeou a enrolar um cigarro em papel de alcatro. Depois de acend-lo e soltar uma baforada, olhou para Rodrigo 
com ar escrutador.
- Ento, como vai se dando na profisso?
- Bem. No tenho por que me queixar.
- J fez alguma burrada?
- Acho que sim.
- Isso  do programa. No se impressione. Acontece com todos. No final de contas os mdicos no sabem nada. Nem os grandes do Rio de Janeiro nem os figures da Europa 
Todos vo mas  no palpite, na apalpao.
401
- Eu sei.
- E se a gente fosse pensar no que no sabe e nas doenas que no tm cura, acabava ficando louco. Tu pensas?
- Fao o possvel pra no pensar.
- Olha, vou te dar um conselho. No vs muito atrs de conversa de doentes. Eles falam demais. E quanto mais falam menos a gente entende o que  que esto sentindo.
- J descobri isso.
- E mesmo quando no for caso de dar remdio, d remdio, porque o paciente desconfia do doutor que no receita muita droga. E quando estiver diante dum caso complicado 
e ficar no escuro, receite uma dose pequena de citrato de magnsia. No faz mal pra ningum.  s pra ganhar tempo e estudar melhor o caso. Mas no digas nunca que 
no sabes. O doente pode perder a f... e adeus, tia Chica!
- Muito obrigado pelos conselhos, doutor. O outro lanou-lhe um olhar enviesado.
- Acho que tu ests rindo de mim por dentro e dizendo: "Esse velho bobo e ignorante me vem aqui com um sermo que ningum lhe encomendou".  isso mesmo. Tens razo. 
Mas sabes duma coisa? Muita dor de barriga te curei, guri. Pra mim tu s sempre aquele pi que ia roubar doce da despensa de Maria Valria e depois quem pagava o 
pato era eu, que tinha de sair de casa em noite de minuano pra ir te apertar a barriga, sem-vergonha!
Rodrigo soltou uma risada. O velhote entrara em seu consultrio cerimonioso, chamando-lhe colega: agora tratava-o como se ele ainda tivesse doze anos.
- Sente, doutor - insistiu.
- No. Isto  visita de mdico. Vou andando. Ah! Outra coisa. No princpio a gente se atrapalha no receiturio, na dosagem dos medicamentos. Quem nos salva de matar 
os doentes so os farmacuticos prticos, como esse menino, o Gabriel, que  uma jia, ou como o Zago, que  um falador sem-vergonha, mas profissional muito competente. 
Pois no te afobes, Rodrigo, que Roma no foi feita num dia. E depois, para um caso de aperto, o -
402
Chernoviz est a mesmo. No  nenhuma vergonha a gente consultar o Livro.  melhor que intoxicar ou matar o paciente.
Apanhou a bolsa. Sua calva sebosa reluzia, como a sua roupa preta j rua. Junto da porta disse ainda:
- E no te iludas com a clientela. No fundo essa gente acredita mas  nessas negras velhas benzedeiras e nos curandeiros. E quando a gente no acerta logo com o 
remdio prs achaques deles, procuram logo o ndio Taboca, que vem com as suas aginhas milagrosas e suas benzeduras.
- Em caso de aperto - sorriu Rodrigo - o recurso ento  pedir uma conferncia mdica com o Taboca.
O dr. Matias piscou-lhe o olho.
- Pois tu sabes duma coisa? Uma vez at eu recorri ao Taboca.
- Como foi isso?
- No vale a pena falar nessa histria. At mais ver! Enfiou na cabea o velho chapu de feltro negro e se foi. Por uma curiosa coincidncia, no fim daquela semana 
Rodrigo
se viu frente a frente com o curandeiro ndio cuja legenda ele conhecia desde criana. Torbio mandara trazer do Angico para o Sobrado o negro Antero, que havia 
sido picado por uma cobra venenosa.
O peo chegou j porejando sangue, a lngua paralisada, os olhos amortecidos. Rodrigo no encontrou na cidade uma nica ampola de soro antiofdico. Censurou Gabriel, 
aos berros, por ter deixado o estoque da farmcia desfalcado dum medicamento de tamanha importncia. Foi rude para com o Zago e, como este lhe respondesse com outro 
desaforo, esteve a ponto de esbofete-lo, no que foi impedido por Torbio, que o arrastou para fora da Farmcia Humanidade. Ao chegarem ao Sobrado, Maria Valria 
sugeriu que chamassem o Taboca. Rodrigo achou a idia absurda e recusou-se a tomar parte "naquela palhaada". A verdade  que, com ou sem seu beneplcito, Taboca 
apareceu: um ndio retaco, de tez acobreada, olhos enviesados e plo duro - homem taciturno e de poucas falas. Tirou do bolso das calas de riscado a garrafa que 
trazia a sua "milagrosa aginha" e deu-a de beber ao doente. Acocorou-se
403
depois ao p do catre onde jazia Antero, fustigou-lhe o rosto com um galho de arruda, murmurou algumas palavras em guarani e por fim se ergueu:
- T bom o homem.
Maria Valria acompanhou-o at a porta e meteu-lhe um pataco no bolso. No fim do dia Antero estava melhor: movia os lbios, balbuciava algumas palavras, cessara 
por completo de sangrar. Na manh seguinte deixou a cama, dizendo que se sentia perfeitamente bem.
Olhando para o peo, Rodrigo fez reflexes amargas. Taboca, um curandeiro ndio, acabara de salvar a vida do negro Antero, que no Angico partilhara com ele, dr. 
Rodrigo, o amor da chinoca Ondina. Era o desprestgio da raa branca, da cultura e da cincia! - concluiu, sorrindo e achando tudo aquilo muito estranho. Chcrs Messieurs 
Richet et Charcot, estais convidados a explicar os mistrios das milagrosas agiiinhas do Taboca! Porque mi, eu desisto.
Uma tarde, depois de atendei a um velho polaco reumtico, uma china que dizia sofrer de "flautos", e um caboclo que sentia "uma pontada no peito que arresponde nos 
bofes" -, Rodrigo foi procurado por um dos filhos de Spielvogel, o Arno, que se queixava de dores no estmago e tonturas. Examinou com todo o cuidado, interrogou-o 
minuciosamente, receitou-lhe uma poo e prescreveu-lhe uma dieta. No momento em que o cliente se preparava para sair, aconteceu algo que chocou Rodrigo dum modo 
que jamais ele poderia imaginar. No momento em que terminava de vestir o palet, Arno Spielvogel meteu a mo no bolso e perguntou:
- Quanto lhe devo?
Rodrigo teve a impresso de que o esbofeteavam e seu primeiro impulso foi o de agredir o outro fisicamente. Aquele "quanto lhe devo'' dito de cima para baixo (o 
rapaz tinha quase dois metros de altura) como que colocava o teuto-brasileiro numa posio superior  sua, assim como a do patro perante o empregado.
404
Vermelho, o rosto a arder, Rodrigo teve uma rpida hesitao, mas depois, com a voz alterada pela indignao, vociferou:
- No me deve coisssima nenhuma!
- Mas como, doutor?
- J lhe disse que no me deve nada.
O rapaz mantinha a mo no bolso e olhava espantado para o mdico.
- Desculpe, eu... eu s queria lhe pagar. Pensei... Caindo em si, Rodrigo tratou de remendar a situao.
- Depois falamos nisso. O tratamento no est terminado. Voc ter que voltar aqui dentro duma semana.
- Bem. Ento... muito obrigado.
Depois que o cliente saiu, Rodrigo sentou-se, pegou o cortapapel e comeou a tamborilar nervosamente sobre a mesa.  melhor eu ir me acostumando com essas coisas. 
No fim de contas um mdico tem de cobrar as consultas... O dr. Miguel Couto cobra, no cobra? O dr. Olinto de Oliveira no vive de ar...
Mas, fosse como fosse, receber dinheiro diretamente das mos dos clientes era coisa que, na sua opinio, dava ao consultrio um ar de banca de mercado pblico, de 
boliche de beira de estrada. Decidiu que dali por diante, em matria de dinheiro, os clientes pagantes se entenderiam na farmcia com o Gabriel. Para que, diabo, 
tinha ento aquela bela mquina registradora National?
Numa manh de sbado, quando j se preparava para ir a casa almoar, recebeu no consultrio a visita do Ananias Silva. O aguadeiro de Santa F queixava-se de dores 
nos rins e de cansao - "uma lombeira danada, doutor, uma fraqueza...' Rodrigo examinou-o, lembrando-se das histrias que Torbio lhe contara a respeito do "pipeiro".
- Ananias, no vou lhe receitar muitos remdios, mas quero lhe dar um conselho.
405
-
- Qual , doutor? - perguntou o homenzinho, sungando as calas e metendo as tradas da camisa para dentro.
- Diminua a sua atividade.
- Que atividade?
- Voc sabe. No estou me referindo  sua pipa, mas s suas mulheres.
- Ora, doutor!
O aguadeiro parecia ofendido.
- Fale a verdade, Ananias. Pra mdico e padre a gente no deve mentir. Voc tem ou no tem duas mulheres?
O "pipeiro" comeou a coar o queixo, onde apontava uma barbicha rala e dura. Fitou no mdico seus olhinhos de esclertica amarelada.
- Pois , dizem...
- Com quantos anos est?
- Cinqenta e quatro.
- Pois j  tempo de criar juzo. Uma mulher  o quanto lhe basta... - Rodrigo fez uma pausa e depois acrescentou, sorrindo: - Z do Meio.
O aguadeiro tambm sorriu, descobrindo dois cacos de dentes e as gengivas descoradas. E, entre gaiato e encabulado, informou:
- Uma delas at nem funciona mais, doutor.
Rodrigo soltou uma risada e mandou o Ananias embora com uma receita, novas recomendaes e uma cordial palmada nas costas.
Em princpios de abril, teve Rodrigo alguns casos felizes que de certo modo o ajudaram a firmar a reputao de mdico na cidade, onde j se comeava a falar - notava 
ele, envaidecido - no seu "olho clnico". Alegrava-o tambm saber que era o dolo da pobreza e que em certos ranchos do Barro Preto, do Purgatrio e da Sibria, 
seu nome era venerado como o de um santo.
O Chiru - a quem naqueles dias Rodrigo dera os duzentos mil-ris que deviam custear sua encantada excurso em busca dos tesouros dos jesutas - contou um dia a Maria 
Valria, na presena de Rodrigo, "as fricas do seu afilhado".
- O diabo nasceu mesmo pra mdico, dona. Tem um jeito com os doentes, que s vendo. O filhinho do Lus Macedo que
ele tratou, acordava de noite e choramingava que queria o doutor. O Teixeirinha me disse que quando estava de cama com febre, s de ver o Rodrigo entrar no quarto 
j melhorava... Olhou para o amigo.
- No sei o que e que esse filho da me tem na cara que todo mundo fica logo gostando dele.
Rodrigo escutava em silncio, intimamente satisfeito com as palavras do Chiru, mas fazendo gestos que davam a entender que a coisa no era bem assim, que o outro 
exagerava...
- E o dr. Eurpedes? Anda dizendo pra todo o mundo que estava j no fundo da cova quando apareceu o Rodrigo e puxou ele pra cima. A mulher do juiz, essa ento acha 
que  Deus no cu e o dr. Rodrigo na terra. Esse filho duma me!
Enfim, refletia Rodrigo, seus planos se realizavam, seu programa de vida se cumpria. Estava fazendo alguma coisa pelos pobres de sua cidade natal. S de sua cidade? 
No. J lhe chegavam clientes do interior, das colnias, de outros municpios... Comeava a ser respeitado - ele via, sentia - e no havia a menor dvida que j 
era amado. Tudo isso lhe dava uma profunda satisfao ntima, uma reconfortante paz de esprito.
Claro, havia momentos em que simplesmente no podia agentar o ambiente do consultrio, que cheirava a suor humano, pus, sangue, ter, fenol, iodo... Era com ansiedade 
que esperava a hora de voltar para casa. Havia tambm os dias de mau humor em que lhe era difcil suportar com pacincia, e mantendo o ar paternal, as longas conversas 
dos clientes, que nunca iam direto ao assunto, que raziam interminveis rodeios, contando doenas passadas, no s prprias como tambm de pessoas da famlia, vizinhos 
e conhecidos. Detestava os chamados  noite, principalmente quando o levavam a algum rancho das zonas conhecidas pela denominao geral de "pra l dos trilhos", 
e nas quais se metia em bibocas, as vezes com barro at meia canela, entrando em ranchos ftidos e miserveis, iluminados a vela de sebo.
No raro, quando lhe caa nas mos um caso difcil, alguma doena que no sabia diagnosticar ou curar, seu amor-prprio recebia golpes terrveis que o deixavam por 
algumas horas, s vezes
406
407
durante dias inteiros, mal-humorado e j quase decidido a abandonar a profisso, ''porque afinal de contas, Chiru, eu no preciso dessa porcaria pra viver".
Esses momentos escuros, porm, eram passageiros. Diante dum caso bonito sentia a confiana em si mesmo retornar e, com ela, a alegria de ser mdico, a volpia de 
se saber necessrio na comunidade, querido e admirado pelos amigos e pelos clientes.
Havia quase um ms que A Farpa no aparecia. Quando amigos pediam notcias do "grande hebdomadrio", Rodrigo respondia: "No morreu. Est apenas hibernando. No momento 
crtico reaparecer". Com momento crtico, ele queria dizer a hora em que soassem de novo os clarins de guerra, em que fosse preciso atacar o situacionismo, protestando 
contra alguma nova arbitrariedade do Titi Trindade, ou respondendo a alguma verrina d'A Voz da Serra. O jornal republicano, entretanto, andava nas ltimas semanas 
surpreendentemente benvolo para com a oposio. Ocupava-se de modo quase exclusivo com o resultado das eleies, segundo o qual o candidato oficial estava vitorioso 
em todo o pas. Os editoriais do Amintas tinham agora carter doutrinrio, falavam em "verdadeira democracia" e faziam elogios ao dr. Borges de Medeiros "nosso nclito 
chere" e ao senador Pinheiro Machado, "o gigante do Palcio Monroe".
Rodrigo lia os resultados das eleies sem grande emoo. Estava j certo de que o candidato civilista perdera a batalha. O prprio Rui Barbosa, reconhecendo isso, 
publicara nos jornais do Rio de Janeiro e de So Paulo um artigo em que falava nos "Estados escravizados". Rodrigo atirava longe os jornais num gesto teatral com 
o qual queria dar a entender que estava no s desiludido da poltica como tambm indiferente ante os resultados daquela farsa eleitoral. Meter-se em poltica seria 
no s perder tempo como tambm fazer papel de tolo. De resto, no trocava seu prestgio de mdico pela posio do Trindade ou de qualquer deputado estadual ou federal. 
Sentia-se forte, feliz e de conscincia tranqila. Chegara a Santa F e erguera a luva do desafio, dando  canalha governista e ao povo de sua terra uma prova de 
hombridade. Exercia agora
408
um direito que ningum lhe poderia tirar: o de cultivar em paz seu jardim.
Flora voltara da estncia com os pais, e Rodrigo, naquelas tardes de princpio de outono, costumava passar depois do banho pela frente da casa da namorada. Parava 
 esquina e olhava para as janelas agora abertas, onde as cortinas de renda branca esvoaavam. E por trs dessas cortinas entrevia o vulto de sua amada. Quedava-se 
longamente na esquina a fumar, meio encabulado por estar-se portando como um adolescente, num namorico indigno de sua idade e de sua posio social. Fazia, depois, 
uma volta completa  praa, onde os pltanos j comeavam a perder as folhas. Andava no ar um escondido arrepio de inverno. Rodrigo recitava baixinho poemas de Verlaine 
e Samain. Tornava a passar pela casa de Aderbal Quadros, verificando com satisfao que l estava ainda Flora por trs das cortinas,  sua espera...
Pensava num pretexto para se aproximar da moa de maneira digna. As oportunidades, porm, no eram muitas. Depois da morte do Macedinho, o clube no dera mais bailes. 
Flora pouco saa  rua. Todos os domingos pela manh Rodrigo ia esperar  porta da igreja o fim da missa e, quando a moa saa pelo brao da me, ele as seguia a 
uma distncia respeitosa. Flora jamais voltava a cabea para trs, e, embora desejasse ver essa prova de interesse da parte da namorada, ele sabia antecipadamente 
que ficaria decepcionado se ela fizesse esse gesto. Havia coisas que podiam ficar bem para a Esmeralda e para as Fagundes, mas no para a Flora Quadros.
Num daqueles dias, Gabriel lhe contou que andavam murmurando com insistncia que o cometa de Halley ia destruir o mundo. Rodrigo bateu-lhe afetuosamente no ombro 
e, pensando em Flora, respondeu:
- O fim do mundo? Qual nada, Gabriel, o mundo agora  que vai principiar.
Certa manh Cuca Lopes entrou no consultrio e, sem ao menos dizer bom-dia, foi contando:
409
- Sabes duma? O Zago anda falando pra todo o mundo que tu s o doutor das chinas.
Rodrigo, que amanhecera de bom humor, soltou uma risada.
- Pois  a pura verdade, o Zago tem razo. E podes dizer pr'aquele boticrio de meia-tigela que prefiro ser mdico do chinaredo do Barro Preto a ter de tratar das 
mazelas morais dele!
Mas as chinas que freqentavam o consultrio do Rodrigo no eram propriamente as marafonas descalas e molambentas do Barro Preto ou do Purgatrio, e sim as prostitutas 
mais categorizadas de Santa F, as que tinham casa prpria - em geral montada e mantida por algum comerciante ou fazendeiro do municpio - as que usavam na intimidade 
quimono de seda e chinelos com pompom, as que aos domingos iam, muito bem vestidas,  missa da matriz. Muitas dessas mulheres eram aceitas at pelas famlias mais 
humildes do lugar, principalmente pelas que viviam nas vizinhanas, e com as quais Rodrigo freqentes vezes as vira conversando e tomando mate doce, sentadas  fremte 
de suas casas.
Vestiam-se e portavam-se como damas e - diferentes das profissionais francesas, judias e polacas que Rodrigo conhecera em Porto Alegre e que trabalhavam doze horas 
por dia como verdadeiras mquinas de fazer dinheiro - dificilmente recebiam mais dum homem por noite. Rodrigo observara tambm que, em matria de amor, aquelas prostitutas 
nacionais e provincianas observavam uma rigorosa ortodoxia, o que - conclua ele entre srio e trocista - era um padro de honra para nossa raa. Tinham dignidade 
e recato, e sempre que no consultrio a natureza do exame a que se iam submeter exigia que se despissem, elas o faziam com certa relutncia e com um pudor que no 
princpio deixara Rodrigo um tanto desconcertado. Raramente ou nunca se referiam ao ato sexual, e quando o faziam era por meio de eufemismos que seriam ridculos 
se no fossem antes de tudo comovedores.
Entre seus clientes Rodrigo contava agora a famosa Rosa Branca - Rosinha Peito-de-Pomba na intimidade -, prostituta famosa na histria galante da cidade, no s 
por ter dormido com vrias geraes de santa-fezenses, como tambm e principalmente por ter a postura e muitas das virtudes duma romana. Alta, farta de seios,
410
com cabelos dum crespo duvidoso, a peile cor de marfim e grandes olhos escuros e bondosos de me de famlia, agora no fim da casa dos quarenta era ainda uma mulher 
vistosa que chamava a ateno quando passava na rua, fazendo os homens voltarem a cabea e arrancando deles comentrios como este: "Sim senhor, a Rosinha ainda est 
em forma!"
Cara na vida aos quinze anos e desde essa idade at o presente exercera a profisso com competncia e honestidade. Afirmava-se que sempre recusara receber dinheiro 
dos moos pobres que a procuravam, e por mais duma vez tirava muitos deles de aperturas financeiras. Era uma mulher limpa, que adorava os perfumes ativos e as cores 
berrantes. Em sua casa, dum asseio impecvel, viam-se por todos os cantos vasos de flores artificiais; na sala de visitas, em que havia uma abundncia de almofades 
de cetim de tons vivos, estava entronizada uma imagem do mrtir So Sebastio.
Rosinha sabia receber os fregueses, obsequiando-os com um clice de licor de buti e com bolinhos de polvilho. Nunca os levava para o quarto sem antes entret-los 
na sala de visitas com uma conversao bem-educada, e jamais se deitava com eles sem primeiro apagar a luz. E quando algum rapazote de quatorze ou quinze anos vinha 
procur-la, ela o repelia, escandalizada, e mandava-o embora depois de pregar-lhe um sermo.
Jos Lrio era grande entusiasta da Rosinha Peito-de-Pomba e mais duma vez Rodrigo ouvira do amigo esta opinio: " uma verdadeira dama".
Agora, na vizinhana da casa dos cinquenta, Rosa Branco vivia amasiada com o Marcelino Veiga e era-lhe - todos sabiam - duma fidelidade verdadeiramente conjugal.
Rodrigo gostava de conversar com essa espcie de clientela. As prostitutas lhe faziam confidncias e pediam-lhe conselhos. E como ele recusasse terminantemente cobrar-lhes 
as consultas e os tratamentos ("Havia de ter graa, madrinha, eu receber dinheiro dessas chinas!") elas lhe mandavam presentinhos, lenos de seda com as iniciais 
R. C. bordadas a um canto, gravatas, cestos com ovos, cocadas, pastis...
411
Um dia,  hora do almoo, Rodrigo reproduziu para a tia um dilogo interessante que mantivera aquela manh no consultrio com uma de suas "cortess". Maria Valria 
escutou-o em silncio e por fim disse: "Agora s falta voc trazer uma dessas piguanchas pra almoar aqui em casa". Pra escandalizar a madrinha, Rodrigo replicou: 
"Por que no? So mulheres muito limpas e direitas. E fique sabendo duma coisa, Dinda, nunca me faltaram com o respeito".
Mas naquela tarde a moreninha que vivia com um filho do Joca Prates tentou seduzi-lo  hora da consulta: Rodrigo repeliu-a com jeito, com um sorriso paternal e indulgente 
de quem quer dizer: "Ora vamos deixar dessas bobagens, menina". A rapariga retirou-se, mal podendo conter o despeito, e Rodrigo voltou para casa contente consigo 
mesmo, orgulhoso de seu autodomnio, que lhe permitira manter a tica profissional pois, que diabo! a rapariga era nova e bonita, uma morena bem-feita de corpo, 
com um sinal preto na face esquerda e uns olhos travessos. Quando, porm, voltou ao consultrio, dois dias depois, a morena repetiu o assdio, beijando-o na boca 
no momento em que ele baixava o rosto para auscultar-lhe o corao. (Mas no  que esta diabinha est me provocando mesmo?) Rodrigo achou que aquilo era um abuso 
e que, afinal de contas, ele no era de ferro. Agarrou a cliente com uma fria de canibal e atirou-a para cima do div.
Naquele dia voltou para casa numa confuso de sentimentos. Estava um pouco decepcionado consigo mesmo por ter fraquejado e ao mesmo tempo contente por no haver 
perdido a gostosa oportunidade. Por outro lado esforava-se para no dar ouvido a uma voz interior, que lhe sugeria num cochicho malicioso que a profisso mdica 
estava cheia de oportunidades erticas, como aquela. Como para afugentar o demnio ntimo ps-se a cantarolar um trecho de Von Supp. Entrou em casa, tomou um banho 
de chuveiro, vestiu-se, gritou sorrindo para o Bento que atrelasse os corcis  carruagem e poucos minutos depois estava passando de carro pela frente da casa de 
Aderbal Quadros. Flora achava-se  janela, toda vestida de branco, e como de costume ficou ruborizada ao cumpriment-lo.
412
Em casa, aquela noite, Rodrigo fez um silencioso mas solene voto de castidade. E, para se fortalecer em sua resoluo, pediu o auxlio de Caruso, Amato e Tamagno, 
que ficaram boa parte do sero a cantar para ele suas rias mais hericas.
7
Desde que chegara a Santa F, de volta do Angico, Rodrigo raramente se erguia da cama antes das nove da manh. Esse hbito irritava Licurgo que, antes de partir 
para a estncia, advertira:
- Acho que o senhor anda levantando muito tarde. Isso no est direito.
Rodrigo sabia que o levantar da cama cedo era parte importantssima do ritual daquela ferrenha religio do dever e do trabalho, professada por gente da tempera de 
seu pai e de Aderbal Quadros. Achavam esses dois gachos ortodoxos que um homem deve trabalhar de sol a sol e que h algo de desonroso e indecente no dormir at 
tarde, pois isso sugere noite de orgia, vcios condenveis, vadiagem e falta de fora de vontade; , em suma, um pssimo hbito que atrasa a vida das pessoas ao 
mesmo tempo que lhes solapa o carter.
No entanto, agora que o pai se encontrava no Angico, Rodrigo, que nunca conseguia dormir antes de uma da madrugada, s deixava o quarto, na manh seguinte, depois 
das nove. Dessa hora em diante seguia uma norma para ele docemente agradvel e que, muito nova, no tinha ainda o carter ranoso da rotina.
Descia para a cozinha e l tomava dois ou trs mates com a tia e Laurinda. Depois bebia uma pequena xcara de caf simples, sem o que no podia fumar, e se dirigia 
para a farmcia, onde ficava a atender os clientes at as onze, hora da roda de chimarro,  qual compareciam invariavelmente o Chiru, o Neco e don Pepe, e na qual 
se falava principalmente em mulheres e poltica. Nos momentos em que no estava a dizer mal do clero e da burguesia ou a derrubar cabeas coroadas, Pepe Garcia era 
um conversador pitoresco que sabia narrar com verve suas viagens pelo mundo e
413
"l i
suas experincias com "esos animalitos singulares llamados mujeres". Chiru vendia seus campos imaginrios ou ento dissertava sobre os fabulosos tesouros dos jesutas 
que haviam de trazer-lhe a independncia financeira para o resto da vida. No raro aparecia para chupar apressadamente um chimarro o dr. Matias, e ao se retirar 
enchia os bolsos de almanaques e figurinhas, que costumava distribuir com grande sucesso entre seus clientes. O prprio tenente Rubiiri uma vez que outra entrava 
na roda das onze, embora se recusasse a participar do chimarro, por achar aquilo uma coisa "anti-higinica e promscua" - observao que deixava Chiru 
profundamente ofendido.
Rodrigo detestava comer sozinho, e era raro o dia em que no tivesse um convidado ou dois  mesa. Chiru, no dizer de Maria Valria, estava ficando um verdadeiro 
"fregus de caderno". J pela manh, antes de sair, Rodrigo entrava na cozinha e comeava a abrir e cheirar as panelas, perguntando: "Que  que vamos ter pr almoo, 
Laurinda?" Dava sugestes, pedia pratos especiais e quase sempre, insatisfeito com o que a mulata preparava, abria vidros de azeitonas recheadas, latinhas de f a 
t fie foie gras, de sardinhas portuguesas ou anchovas e comia esses petiscos antes, durante e s vezes depois do almoo ou do jantar, aproveitando a ausncia 
do pai - que s voltaria ao Sobrado em princpios do inverno -, tomava sempre s refeies uma garrafa de vinho francs ou italiano. Quando via Chiru beber Chianti 
ou Mdoc em longos sorvos, protestava:
- Isso no  gua, animal! Vinho se bebe aos pouquinhos, degustando bem. Assim... Ests vendo, selvagem?
Chiru sorria, olhava para Maria Valria, sacudia a cabeorra leonina, dando a entender que perdoava tudo a Rodrigo porque lhe queria muito bem.
O Lucas era tambm um dos convivas habituais dos jantares do Sobrado. Fazia horrores  mesa, simulava comer o guardanapo, os talheres, contorcia o rosto nas caretas 
mais grotescas. Rodrigo ria-se no porque achasse muita graa nas momices do tenente de obuseiros, mas porque queria ser-lhe simptico. Maria Valria, essa ficava 
a cozinhar o convidado com seu olhar fixo e frio, o rosto
414
absolutamente srio. s vezes o mais que dizia era: "Muito riso, pouco siso'. Como ltimo recurso, Lucas escondia o rosto nas mos e desatava num simulacro de choro, 
soluando convulsivamente.
Um domingo Rodrigo teve  mesa do almoo o coronel Jairo e a esposa. O positivista apreciou os vinhos, saboreou o jantar, falou em Augusto Comte, nos grandes couraados 
que o governo havia adquirido - o Minas Gerais e o So Paulo, unia honra para a nossa Marinha! - e,  sobremesa, ps-se a elogiar Rodrigo, a contar-lhe o que ouvira 
na cidade a seu respeito. Era um grande mdico - dizia-se -, um grande carter e um grande corao!
- O senhor, dr. Rodrigo, professa, talvez sem o saber, a religio positivista. Vive para os outros, altruisticamente, cultivando a famlia, a ptria e a humanidade.
Fez um largo gesto com a mo que segurava o clice do Borgonha. Enquanto o marido falava, prosseguindo em seus ditirambos, Carmem Bittencourt ali continuava calada 
e tristonha, toda vestida de escuro, com um solitrio a faiscar-lhe num dos magros dedos. Rodrigo lanava-lhe de vez em quando olhares furtivos. No queria demorar 
nela os olhos, temendo que o coronel pudesse achlo impertinente. Era-lhe, porm, agradvel mirar aquele rosto duma beleza meio apagada, a qual lhe lembrava estranhamente 
certas nsperas que, de to maduras, esto a pique de se tomarem murchas mas que apesar disso ou, melhor, por isso mesmo perdem a acidez, e so duma doura e maciez 
deliciosas.
Seria tsica, como se murmurava? Rodrigo imaginou-se a encostar o ouvido naquele descarnado peito. Diga trinta e trs, minha senhora. Trinta e trs. Trinta e trs. 
No diga mais nada. Diga s se  feliz. Fale a verdade. Um mdico  como um sacerdote. Abra a sua alma. Abra o seu corpinho. Que seios, que mos, que lbios gelados! 
O senhor me perdoe, dr. Pasteur, mas h ocasies em que no acredito em bacilos...
Quando deu acordo de si estava a olhar fixamente para a mulher de Jairo Bittencourt, o qual naquele momento lhe perguntava:
- Ento, j leu o Systme de politique positive que lhe emprestei?
415
- Ah! No, coronel. Ainda no tive tempo. O senhor no imagina como tenho trabalhado naquele consultrio!
Uma vez por semana Laurinda fazia sua famosa feijoada completa. Nessas ocasies Rodrigo convidava Chiru, Neco e don Pepe. A presena desses amigos como que lhe fazia 
o apetite redobrar. Tinha-se a impresso de que para aquele quarteto comer no era apenas uma coisa necessria e gostosa, mas de certo modo tambm humorstica.
A feijoada como que possua a virtude de despertar-lhes uma espcie de erotismo verbal. Enquanto a comiam com gulosa pressa, Pepe recordava anedotas fescemnas de 
frades em torno de estmago e sexo, comidas e mulheres. Contava-as, lambendo os bigodes, nos momentos em que Maria Valria se retirava da sala de jantar para ir 
buscar alguma coisa ou dar alguma ordem  cozinha. E quanto mais comiam, mais fome pareciam ter e mais disposio para contar histrias escatolgicas. Rodrigo nunca 
provocava esses torneios frascrios e quando Neco ou Chiru se lanavam a ele, queria convencer-se a si mesmo de que aquelas porcarias lhe feriam a sensibilidade 
refinada de civilizao. Soltava, porm, gargalhadas gostosas s piadas dos outros, e por fim ele prprio comeava a contar suas anedotas, usando de circunlquios 
e eufemismos quando a madrinha se encontrava  mesa.
Rematavam a feijoada com caninha, "pra consertar o estmago", e depois ficavam jiboiando, numa sonolncia feliz e meio estpida. Neco Chiru e o espanhol retiravam-se 
do Sobrado e, com os olhos j pesados de sono, Rodrigo subia para o quarto. Como de costume, atirava-se na cama e dormia sem tardar.
Acordava por volta das trs, com a lngua pastosa, a cabea pesada e uma vontade rabugenta de brigar com todo o mundo. Tomava um cafezinho, acendia um cigarro e 
voltava para o consultrio, onde ficava at s cinco e meia ou seis.
A parte mais amorvel de sua rotina incipiente era a descida da rua do Comrcio, s seis e meia da tarde, rumo da casa da
namorada. Parava sempre que encontrava amigos no caminho. Tinha o cuidado de deter-se junto da janela  qual Emerenciana Amaral estava debruada e ali ficava, por 
cinco slidos minutos, a conversar com a matrona, a dizer que ela estava de muito boa aparncia, e a recusar sempre os convites que ela lhe fazia para entrar, "pois 
eu j disse ao Alvarino que vocs tm que acabar com essas bobagens de poltica e fazer as pazes".
Dona Emerenciana queixava-se invariavelmente de pontadas, palpitaes e dizia mal do dr. Matias, que nunca acertava com um remdio para seus achaques.
No mnimo trs vezes por semana Rodrigo entrava na Funilaria Vesvio, do italiano Camerino, um homem retaco, de nariz vermelho de palhao, espessos bigodes castanhos 
- a nica pessoa em Santa F que era vista a comer tomates maduros s dentadas, como quem come uma pra ou uma ma. Dante, o filho do funileiro, havia instalado 
na pequena sala da funilaria sua cadeira de engraxate. O italiano no cansava de contar a Rodrigo que seu bambino estava juntando dinheiro para custear futuramente 
os estudos.
Rodrigo um dia perguntara ao menino.
- Que  que vais ser quando fores grande?
- Doutor - respondera Dante, lustrando as botinas do "moo do Sobrado".
- Advogado?
- No. Doutor de curar gente.
Tinha dez anos, um par de olhos vivos e uma cara redonda, de feies agradveis, em que o vermelho das bochechas carnudas era realado pelas manchas escuras de pomada 
e tinta de sapato que lhe riscavam as faces.
Rodrigo dava-lhe sempre gorjetas generosas e tinha um prazer especial em passar a mo pela cabeleira hspida do guri, dizendo:
- Dante Camerino, bello bambino, bravo piccolino, futuro dottoririo!
Dia sim, dia no, Rodrigo entrava na barbearia do Neco, sentava-se na cadeira, fechava os olhos e entregava o rosto ao seresteiro, que ele continuava a considerar 
o pior barbeiro do planeta. E, 
417
enquanto a navalha lhe cantava nas faces, ouvia o Neco contar as
ltimas", narrar alguma farra da noite anterior, noticiar a chegada
de alguma rapariga nova ou ento cantarolar modinhas em voga.
Conheces esta, Rodrigo? "Quisera amar-te, mas no posso, Elvira,
porque gelado tenho o peito meu."  um schottish supimpa! E esta?
A Europa curvou-se ante o Brasil e clamou parabns em meigo
tom." E a respeito do Santos Dumont, o inventor do aeroplano.
A modinha  do Eduardo das Neves...
J estava comeando a fazer parte tambm da rotina de Rodrigo debruar-se a uma das janelas do Sobrado no momento em que o velho Srgio, o acendedor de lampies, 
vinha chegando com a escadinha s costas. Era um negro alto e descarnado, de pele bronzeada, corn um bigode, uma barbicha e uma certa finura de traos que lhe davam 
ares dum nobre etope. Desde menino Rodrigo ouvia a Laurinda afirmar que nas noites de sexta-feira o Srgio virava lobisomem e saa pelas ruas a uivar, entrando 
nos quintais para devorar galinhas. E ai de quem se atravessasse no seu caminho!
Quando Srgio encostava a escada no poste,  esquina do Sobrado, Rodrigo de ordinrio mantinha com ele demorados dilogos, e nunca deixava de atirar-lhe um nquel 
de quatrocentos ris, que o preto aparava com o seboso chapu de feltro, ficando l embaixo a fazer mesuras e a resmungar, de olhos postos no cho, como se estivesse 
falando com uma terceira pessoa. " como eu digo. O dr. Rodrigo no  soberbo. Conversa com os pobres.  como eu digo. Um moo de senhoria e distinta considerao."
Rodrigo sempre tivera curiosidade de conhecer a vida ntima daquele vulto espigado que ao anoitecer andava pela cidade de poste em poste a prender fogo nas mechas 
dos lampies. Que ser do Srgio quando vier a luz eltrica? - pensava, s vezes.
E uma noitinha, estando em veia romntica, ao ver o negro no alto da escada, perguntou-lhe:
Srgio, ser que existe no cu algum encarregado de acender as estrelas todas as noites?
U lobisomem ficou por um instante em grave silncio e depois, voltando a cabea, respondeu:
Ha sim, senhor. So os anjos de Deus, Pai de ns todos.
418 -
Durante algumas semanas, Rodrigo frequentou quase todas as noites o clube, onde passava as horas a jogar pquer com amigos. Era mau jogador, no tinha sorte e invariavelmente 
perdia. Voltava para casa vagamente inquieto, pois percebia que, se continuasse a encher as noites daquela forma, acabaria irremediavelmente dominado pela paixo 
do jogo. Conhecia-se bem e sabia que esse era um de seus fracos. Se se entregasse de novo  fascinao do pano verde (em Porto Alegre durante todo um ano fora escravo 
da roleta, na qual perdera um dinheiro), sua vida estaria arruinada e seus mais belos planos iriam guas abaixo. Era por isso que agora, ao anoitecer, fazia o possvel 
para resistir  tentao de ir ao clube. Convidava amigos para virem ao Sobrado, abria lacas de conserva e garrafas de vinho, punha o gramofone a funcionar e tratava 
de interessar-se pela palestra dos visitantes.
Quando no aparecia ningum - o que era raro - fechava-se no escritrio para ler. Tinha a ateno vaga e dificilmente conseguia vencer mais de cinco pginas duma 
sentada. Lia muitos livros ao mesmo tempo. Alternava os romances de boidcvard com obras mais srias. Muitas vezes largava La chemise de Mme Crapoiiillot para pegar 
La vte de Jesus. s vezes tomava-se de brios profissionais e abria um tratado de medicina, principalmente quando tinha em mos algum caso difcil que lhe exigia 
conhecimentos especializados. Mas acabava bocejando e fechando o livro. Aquilo era supinamente cacete. A medicina que fosse para o diabo!
9
Em meados de abril recebeu de Paris os primeiros nmeros de
Illustration Folheou-os avidamente, com um prazer no s visual mas tambm ttil e olfativo, pois
era com volpia que passava a mo espalmada no papel gessado da revista e aspirava-lhe o cheiio de tinta. No fim de contas, aquilo era um pedao de sua querida Paris 
que lhe chegava pelo correio!
Um daqueles nmeros trazia no frontispcio um desenho que representava Chantecler (M. Guitry) apoiando com a asa La Faisane
419 Mme Simon) a qual, perseguida pelo Co Briffaut, refugiara-se num canto no terreiro e agora estava desfalecida nos "braos" do Galo.
Rodrigo leu com avidez o artigo em que se descrevia as peripcias que precederam a mise-en-scne de Chantecler, os patins sociais e literrios de Paris a propsito 
da pea, as discusses de Coquelin com Edel, o desenhista de figurinos, em torno das dificuldades surgidas com relao aos costumes. Que fazer da cabea dos artistas? 
Conservar-lhes os rostos? E os braos... deix-los livres ou dissimul-los sob as asas? Mas seria possvel para um comediante recitar seu papel sem gesticular? Coquelin 
afirmava que no. Um dia estava ele a tomar seu banho quando Edel chegou. Comearam a falar no Chantecler e o ator, tomado de entusiasmo, ps-se a recitar o Hino 
ao Sol. Ao terminar, perguntou: "Hein? No  bonito? Que dizes, Edel?" O desenhista respondeu: "Digo que acabas de me fornecer a prova que eu procurava h tanto 
tempo. Recitaste magnificamente o Hino ao Sol sem tirar os braos de dentro d'gua! Est provado que se pode declamar sem gestos!"
Rodrigo estava encantado com a oportunidade de participar das conversas de bastidores, penetrar na caixa do teatro Porte SaintMartin, espiar para dentro dos camarins 
e ver atores e atrizes a se meterem naqueles grotescos costumes que os transformavam em enormes galos, galinhas, faises, melros, ces e mochos - que ali estavam
maravilhosamente reproduzidos em cores nas pginas de Illustration.
Mergulhou fundo na leitura do primeiro ato da pea, que vinha transcrito integralmente no nmero 12 de fevereiro. Leu das sete e meia da noite at s onze. Ao fechar 
a revista, sentiu de sbito, pesada e angustiante como nunca, a solido do Sobrado. Caminhou at a janela, como que sufocado, numa busca de ar. Era uma noite de 
lua nova, pobre de estrelas, e s a luz tbia dos lampies alumiava as ruas. Um ventinho em que j se sentia um precoce calafrio de inverno, remexia as folhas secas 
no cho da praa. No se via vivalma naquelas redondezas.
Rodrigo comeou a andar pelo escritrio, dum lado para outro, mascando um cigarro apagado. Dinda estava fechada no quarto.
420
A criadagem, dormindo. Por onde andariam quela hora os patifes do Chiru, do Neco e do espanhol? Teve mpetos de gritar. A vida que levava era a mais estpida que 
se podia imaginar. Para onde quer que se voltasse, s via homens: na farmcia, no Sobrado, no clube. S machos, machos, machos! Precisava casar, ter mulher em casa, 
carinho, filhos, calor humano, aconchego... Detestava aquela solido. Illustration lhe havia trazido imagens de Paris, ecos da vida da Cidade Luz. Damas em vestidos
de noite, envoltas em peles, faiscantes de jias, perfumadas e belas, dentro de automveis  sada de teatros; homens de casaca, chapu alto, sobretudos de astrac... 
Cancs no Moulin Rouge. Museus, livrarias, cafs. A bomia intelectual da Rive Gache. Canes alegres, ditos espirituosos, gente civilizada e interessante. Vida, 
enfim! Que tinha ele em Santa F? A civilizao da vaca, do sebo, do charque. A boalidade, a banalidade, a rotina, a pobreza de esprito, o atraso dum sculo! Ou 
vou para Paris o ano que vem ou me caso. Ou fao as duas coisas. Ou meto uma bala nos miolos.
Apanhou o chapu e saiu. Desceu a rua do Comrcio, monologando sobre suas tristezas. Parou  frente do clube, pensou num joguinho de pquer, mas reagiu contra a 
idia e continuou a andar. Entrou na Confeitaria Schnitzler e sentou-se a uma mesa, na sala deserta. Quando Marta se aproximou, pediu-lhe algo de comer. A moa trouxe 
um sanduche, especialidade da casa: rodelas de presunto e mortadela entre duas grossas e largas fatias de po de centeio barradas de manteiga. Rodrigo gritou:
- Uma cerveja preta!
Deu uma dentada no sanduche e comeou a mastig-lo com uma pressa gulosa. Encheu o copo de cerveja e bebeu. Podia estar bebendo vin blanc e comendo iguarias esquisitas 
num caf-concerto de Paris. Imaginou Marta vestida como as bailarinas de canc: as pernas modeladas por meias de seda preta, um bom palmo de coxa branca  mostra, 
juntamente com as ligas, as calas de renda... Rodrigo olhava cupidamente para a filha do confeiteiro, que estava recostada ao caixilho da porta do corredor. Num 
dado momento teve a impresso de que Marta lhe sorria de modo significativo. E como ela em seguida fizesse meia-volta e se encaminhasse para o
421
fundo do corredor sombrio, ele no hesitou sequer por um segundo. Ergueu-se, apressado, e seguiu-a. L estava o vulto claro da alemzinha... Rodrigo avanou, enlaou-lhe 
a cintura, apertou-a contra a parede e beijou-lhe avidamente a boca. Marta entregou-se sem a menor resistncia. Rodrigo sentiu nas suas o calor das faces dela. E 
j sua mo comeava a explorar o corpo da rapariga, quando algum riscou um fsforo. Voltando-se num sobressalto, Rodrigo viu,  luz da minscula chama, a cara de 
flio Schnitzler.
- Ah, doutor! Isso no se faz!
Soltou Marta, que se precipitou para o salo da confeitaria. Na penumbra mal se distinguia o vulto do confeiteiro.
Rodrigo encaminhou-se em passos firmes e dignos para o salo. Ao passar por perto do outro, pensou: Agora ele vai me agarrar... Schnitzler, porm, no se moveu. 
Sem olhar para trs, Rodrigo aproximou-se de Marta.
- Quanto ?
- Quatro mil-ris.
Meteu nas mos da moa uma cdula de dez, voltou-lhe as costas e saiu da confeitaria sem dizer palavra. O vento fresco da noite bateu-lhe em cheio no rosto. Foi 
bom o alemo ter aparecido - refletiu - seno, podia ter acontecido o diabo...
Levava, porm, um sentimento de derrota e estava furioso consigo mesmo, principalmente por ter tratado to mal a alemzinha  sada.
Ao chegar  casa subiu logo para o quarto e meteu-se na cama. Custou-lhe um pouco dormir. Teve um sonho confuso: andava de gndola pelas ruas inundadas de Paris... 
Na proa ia um vulto que lhe parecia ora Flora Quadros ora Marta Schnitzler. A Torre Eiffel erguia-se acima do casario, imensa e ereta. O velho Srgio, vestido de 
galo, andava acendendo as luzes de Paris. E Rodrigo achava estranho que o Sobrado estivesse na Place de 1'toile, o que afinal de contas tornava Paris conveniente 
mas prosaica. O gondoleiro (seria o Schnitzler?) cantava uma cano que ele se esforava por identificar mas no conseguia

Abriu os olhos e continuou a ouvir a voz do gondoleiro. Aos poucos identificou, na penumbra, a silhueta familiar dos mveis do quarto.
A voz vinha da rua. Uma serenata! Desperto, Rodrigo sentouse na cama. Reconheceu o vozeiro do Neco. Ps-se de p, caminhou at a janela e ergueu a guilhotina. L 
estava o barbeiro, a dedilhar o violo e a cantar
Quisera amar-te mas no posso, Elvira Porque gelado tenho o peito meu.
Saturnino acompanhava-o com trmulos de flauta. No vulto ao lado do ecnomo, Rodrigo reconheceu Chiru. Inclinou-se sobre o peitoril e gritou:
- Que bobagem  essa serenata em noite sem lua?
Neco Rosa calou-se. Por alguns instantes s se ouviram os trinados da flauta do Saturnino. Por fim este tambm cessou de tocar.
- Ns no cantamos para lua, homem! - replicou Chiru. - Cantamos pras moas. Desce e vem com a gente!
- Que horas so?
- Uma e pouco.  cedo.
- Esperem que j deso.
Vestiu-se s pressas e foi reunir-se aos amigos.
- Aonde  que vamos? - perguntou.
- Vamos primeiro fazer uma serenata pra Esmeralda...
Rodrigo encolheu os ombros. O itinerrio pouco lhe importava. O essencial era fazer alguma coisa aquela noite, fosse o que fosse.
422
423
XVII

Em fins de abril Rodrigo recebeu um chamado que o deixou em alvoroo. Aderbal Quadros telefonou uma tarde, pedindo-lhe fosse ver sua mulher, que estava de cama, 
com uma pontada nos rins.
Babalo recebeu-o  porta com uma cordialidade que muito o desvaneceu, e levou-o imediatamente ao quarto do casal. Dona Laurentina achava-se recostada em travesseiros, 
em cima da cama, mas completamente vestida, com um xale de l sobre os ombros. Era uma senhora de meia-idade, e seus cabelos negros e lisos, entre os quais se viam 
raros fios brancos, estavam puxados para trs, num coque. Seu rosto, de expresso severa mas serena, lembrava o duma esttua que tivesse sido talhada naquela pedra 
morena das caladas de Santa F.
Ao entrar, Aderbal gracejou:
- Preciso l avisar, doutor, que a Titina no acredita no senhor como mdico...
Laurentina apertou a mo do recm-chegado:
- Como  que vou acreditar, se j peguei ele no colo? Rodrigo tratou com carinho a me de Flora: sentou-se na beira
da cama, enquanto lhe tomava o pulso, fez-lhe perguntas nesse tom que os mais velhos usam para com as crianas quando querem convenc-las de que esto sendo tratadas 
como gente grande.
- Aposto como est doente porque fez alguma travessura! - sorriu, ao pr-lhe o termmetro debaixo do brao. - Conte aqui em segredo pr seu amigo de infncia...
424
Laurentina permanecia sria e calada, fitando no doutor seus olhos descrentes e dando a entender que se prestava a todas aquelas coisas apenas para contentar o marido.
- Eu disse pr Aderbal que no era preciso chamar mdico. J estou melhor. Acho que  dos rins.
- Agora vamos ver, dona Laurentina. Fique bem quietinha. Tirou o termmetro e ergueu-o contra a luz.
- timo! No tem febre.
- Ests vendo, Aderbal?
Rodrigo comeou a apalpar a cintura da paciente.
- Di aqui?
- Um pouco.
- E aqui?
- Tambm.
-  a primeira vez que sente essas pontadas?
- No.
- Agora me conte um segredo. Que foi que a senhora andou fazendo de ontem pra c? Fale a verdade.
Ela hesitou por um instante.
- No andei fazendo nada, ora essa!
Rodrigo ergueu os olhos para Aderbal, que picava fumo tranqilamente ao p da cama.
- Ontem essa mulher lavou o soalho e andou descala na umidade.
Rodrigo deu uma palmada na prpria coxa:
- A est! Logo vi. Por castigo agora tem de ficar uns dias de resguardo na cama, debaixo das cobertas.
- No posso! Tenho muito que fazer.
- No tem fun-fun nem fole de ferreiro! So ordens que estou lhe dando. Tem tomado algum remdio caseiro?
- Ch de pata-de-vaca.
- Pois continue com o seu chazinho e tome mais as cpsulas que vou lhe receitar.
Fez uma prescrio, recomendou uma dieta e, dando como encerrada a consulta, puxou outros assuntos, no s porque lhe era agradvel conversar com os pais da Flora, 
como tambm porque
425
desejava prolongar a visita, na esperana de ver a moa. Babalo falou nas suas estncias, no seu gado, nas suas roas. Saltou depois para a poltica e contou os 
atos de violncia e arbitrariedade que presenciara na mesa eleitoral em que votara. Era, como Licurgo, um velho castilhista desiludido com o partido.
-  a sina deste pobre pas! - exclamou. - Os homens de honra e saber nunca vo pr governo. A morte do dr. Jlio de Castilhos foi um desastre pra toda a nao.
Tinha uma voz lenta e por assim dizer quadrada. Falava dum jeito seco: no pronunciava ris, mais e pois e sim rs, ms c ps. Pitoresco contador de causos, sua 
pachorra era famosa na cidade. Enfrentava as situaes mais difceis e embaraosas com uma calma imperturbvel. Jamais perdia as estribeiras e tinha sempre nas conjunturas 
mais dramticas um dito chistoso, e nas maiores desgraas uma serena atitude filosfica. Havia pouco, Cuca Lopes encontrara-o na rua e gritara: "Seu Babalo, a coisa 
est preta. O cometa vem a e diz que o mundo vai acabar!" Aderbal Quadros parou, tirou uma palha de trs da orelha e respondeu: "Ser que ainda d tempo pra eu 
pitar um crioulo?
Homem de estatura mdia e constituio slida, tinha uma face mscula e um tanto angulosa, duma tonalidade de marfim antigo. O nariz era fino e nobre e seus olhos 
escuros e meio amendoados estavam quase sempre tocados dum brilho risonho e malicioso, mesmo quando a boca carnuda, dum vermelho enxuto e pardacento, permanecia 
sria. Recm-entrado na casa dos cinqenta, os cabelos j se lhe faziam ralos, e nos bigodes e na pra comeavam a apontar fios prateados.
Rodrigo olhava com simpatia para aquele homem que ali estava em mangas de camisa, bombachas de riscado, chinelos sem meias e que, mesmo dentro de casa, conservava 
ordinariamente o chapu na cabea.
Ouviu-se um rumor de passos no corredor. Rodrigo ficou alerta, em alegre antecipao, esperando que Flora entrasse a qualquer minuto. Os passos, entretanto, apagaram-se 
e a porta do quarto permaneceu fechada.
Malditas convenes sociais! Por que no posso dizer claramente a estas duas simpticas criaturas que estou apaixonado pela Flora e que desejo casar-me com ela? 
Pr diabo as convenes! Levantou-se e disse:
- Talvez este no seja o momento oportuno, mas h muito desejo dizer uma coisa ao senhor, seu Aderbal, e  senhora, dona Laurentina...
Fez uma pausa, um tanto embaraado, porque no silncio do quarto teve a impresso de que suas palavras continuavam soando no ar, como se houvessem sido pronunciadas 
por uma quarta pessoa e ele ainda as escutasse, achando-as tolas e improvveis.
- No farei rodeios, irei direito ao assunto, Gosto muito de Flora e minhas intenes para com ela so as mais srias... e nem poderia ser de outro modo.
Laurentina mirava-o com uma expresso ptrea. Babalo amaciava vagarosamente as partculas de fumo depositadas no cncavo da mo, como se, indiferente s palavras 
do visitante, tivesse toda a ateno concentrada no crioulo que fazia.
- Estou com vinte e quatro anos, tenho uma profisso certa e no  nenhum segredo que perteno a uma famlia de posses. Sei que isso no  tudo. Para um homem como 
o senhor, seu Aderbal, isso talvez at no seja nada. No me compete falar de minhas qualidades pessoais, do meu carter. Cometi muitos erros e sei que nem sempre 
tive um comportamento exemplar. Mas asseguro-lhes, sob palavra de honra, que hoje sou um homem diferente, que estou encarando a vida com a maior seriedade. Preciso 
e desejo casar, ter uma esposa e um lar. No apenas porque minha profisso exija que eu seja casado, mas porque meu corao se inclina para o casamento, e principalmente 
porque tenho uma afeio muito grande pela Flora...
Calou-se. Estava comeando a ficar comovido com suas prprias palavras. Sentiu a testa mida de suor e ficou meio decepcionado por no notar no casal Quadros nenhuma 
reao particular ao seu discurso. Esperava que Babalo o abraasse, num impero de cordialidade, exclamando: "No pode haver partido melhor pra minha filha!"
426
427
Naquele instante, Aderbal colocava o fumo picado sobre a palha. Enrolou o cigarro, levou-o  boca, bateu nos bolsos  procura do isqueiro e, como no o encontrasse, 
olhou para Rodrigo:
- Me d o fogo.
Acendeu o cigarro e soltou algumas baforadas, como se nada de extraordinrio estivesse acontecendo. Rodrigo esperava, com uma incmoda sensao de frio interior. 
Era como se houvesse acabado de defender uma tese e agora esperasse o veredicto duma banca examinadora inescrutvel.
Por fim a voz grave e descansada de Babalo encheu o quarto:
- Ps me alegro, Rodrigo. Sou amigo do Licurgo ds do tempo que eu era pio de estncia e passava com meu pai l pelo Angico, levando tropas pra Passo Fundo e Soledade. 
L conheo desde criana. E isso de ter feito farras  coisa que acontece pra qualquer um. Eu no fiz porque no tive tempo, trabalhava de sol a sol, meu pai me 
trazia num cortado loco. - Sorriu, seus olhos travessos se apertaram e luziram. - Agora estou velho demaiss pra comear.
Voltou-se para a mulher.
- Ps ns fazemos muito gosto, no , Titina?
No se moveu um nico msculo na face da mulher. Por um segundo, Rodrigo se sentiu perdido, como um ator que no meio da pea tivesse esquecido o papel.
- Pois bem - disse por fim - eu lhe peo, seu Aderbal, que, depois que eu sair, fale com a sua filha. Se ela corresponde  minha afeio, quero que o senhor me d 
licena pra frequentar a casa...
- J? - deixou escapar Laurentina.
- E por que no? Creio que conheo Flora o suficiente... No h razo pra termos de passar por todas essas fases tolas: o namorico de longe, a conversa ao p da 
janela, etc. ...
- O dr. Rodrigo tem razo, Titina. No estamos ms em mil oitocentos e oitenta e ds.
Ps a mo no ombro do rapaz.
- O meu noivado com a Titina foi combinado entre o pai dela e o meu. Quando eu ia visitar a noiva, quem me recebia era
428
o futuro sogro. A Titina ficava me espiando por uma fresta da porta.
- Ficava coisa nenhuma! No seja gabola.
- S vi a noiva bem de perto no dia do casamento. - Apontou para a mulher. - Foi por isso que cometi esse erro!
Soltou uma risada, que tambm era lenta, clara e quadrada
como a voz.
- Estamos em 1910 - continuou - e no no tempo do ariri. O dr. Rodrigo no anda de carreta. Anda mas  de trem.
Fez uma pausa e depois, num tom mais srio, prometeu:
- Vou conversar com a Flora.
Rodrigo saiu feliz da casa dos Quadros. Atravessou a rua e teve a intuio de que Flora estava a espi-lo por trs da cortina duma das janelas. Voltou a cabea e 
verificou que no se enganava. Achou, entretanto, que seria mais delicado fingir que no a vira. Por isso no a cumprimentou. Continuou a andar, trauteando o Loin 
du bal. Estava ganho o dia. Apressara de muitos meses o noivado. Flora evidentemente daria o sim, e dentro de breve ele estaria a freqentar-lhe a casa. Duas ou 
trs vezes por semana? Trs. Teras, quintas e sbados. Um que outro domingo, tambm. Dali ao noivado seria um pulo; do noivado ao casamento, outro pulo. Quando 
ele completasse vinte e cinco anos, em dezembro, poderia comemorar o acontecimento em companhia da esposa. Flora Quadros Cambar.
Ia to satisfeito da vida, que ao encontrar no meio da quadra o padre marista com quem viajara de Santa Maria a Santa F, abraou-o com uma cordialidade ruidosa, 
uma efuso que suas relaes com o homem no justificavam.
- Mas onde  que se tem metido, irmo Jacques?
- Oh, muito ocupado no colgio.
-- Aparea l pelo Sobrado uma noite destas. V jantar com a gente. Quero lhe mostrar uns livros franceses e umas revistas que
429
 
recebi de Paris. - Piscou-lhe o olho. - Tenho uns Borgonhas e uns Mdocs de primeira ordem. Est-ce que vous n'aimezps un bon verre de vin, hein?
- Mais oui! - exclamou o marista. - Certainement, mon cher docteur!
E ficou vermelhssimo, como se j houvesse bebido os vinhos do outro. Contou-lhe que o Colgio Champagnat progredia e seus eleves j cantavam canes francesas. 
Connaissez-vouz l'histoire du petit navire? Cantarolou os dois primeiros versos. Rodrigo no conhecia. E Jacques Meunier, os olhos muito azuis a refletirem a claridade 
daquela tarde de abril, contou tambm que estava tratando de fundar um clube de futebol. Vous savez, Cruz Alta j tem um time, por que Santa F no pode ter tambm 
o seu, e muito melhor, hein?
- O senhor tambm vai jogar? - troou Rodrigo.
- Claro. Eu era o melhor center-forward da minha cidade natal.
- Conto com o senhor para ajudar o nosso sport club, sim? Rodrigo prometeu-lhe tudo: prestigiar o novo grmio, ajud-lo
com dinheiro... E se o irmo Jacques quisesse, ele poderia at vestir uma camiseta colorida, uns cales curtos e sair a dar pontaps numa bola!
Despedir-se rindo, com um forte e demorado abrao.
Pouco depois Rodrigo avistou Marco Lunardi, no momento em que o gringo saa da Casa Schultz, com um saco de farinha de trigo s costas.
- Atlas carregando o mundo sobre os ombros! - exclamou. Ao ver o amigo, Marco largou o saco no cho e parou no
meio da calada. Tinha os cabelos, o rosto e a roupa manchados de farinha. As calas de riscado estavam arregaadas at meia canela. Seus grandes ps rosados e encardidos 
achavam-se bem plantados no cho, dando uma impresso de equilbrio e solidez. Mais uma vez a beleza fsica daquele colono produziu em Rodrigo um cordial sentimento 
de inveja. Chegava a achar quase ofensivo que um diabo daqueles, nascido em Garibaldina, duma famlia de imigrantes, pudesse ser um to belo espcime humano. Parecia 
mais um ator
430
caracterizado para representar o aspecto de um colono, que um colono
autntico.
- Como vai Garibaldina?
- Regular pra campanha.
- E quando  que vens pra cidade homem?
- Quando puder comprar as mquinas pra fbrica
- Quanto te falta ainda?
- Ah, muito dinheiro.
- Diga quanto.
- Uns dois contos e pico,.
- Bagatela, Marco, bagatela
Rodrigo estava exaltado, via o mundo a luz cor-de-rosa, bom, fcil.
- Bagatela pr senhor...
- Pelo amor de Deus no me chame de senhor Mirou o amigo, de alto a baixo.
- Pois manda buscar essas mquinas, o quanto antes., homem! Eu te dou o dinheiro que falta.
Marco sorriu. Parecia no saber se Rodrigo estava brincando ou falando srio.
- Palavra de honra. Te dou o dinheiro
- Mas como?
- Te empresto. Quando puder, me paga. Se no puder, 
no pagas. Pronto.
- Mas doutor...
- Doutor coisa nenhuma!
comea a fazer as tuas massas.
O colono sorria pelos olhos azuis, pelas faces rosadas, suas grandes mos calosas pareciam sorrir tambm. No entanto continuava mudo. 
- Aparece no Sobrado quando quizeres, que eu te dou o dinheiro.
- Eu assino uma letra. No assinas coisssima nenhuma, no sou argiota. Estendeu a mo.
- At logo, Marco Lunardi
- Estou com as mos sujas doutor. 
431

- Deixa de bobagens. As mos dum homem honrado sempre esto limpas.
Neste ponto quem se comoveu foi o prprio Rodrigo, pois os olhos do colono se embaciaram, e o seu pomo-de-ado ps-se a subir e descer no slido pescoo vermelho.
Apertaram-se as mos demoradamente. Depois abraaram-se. Como sua cabea mal chegasse  altura do ombro do outro, Rodrigo no pde deixar de aspirar o cheiro acre 
daquele corpo suado, o que lhe deitou a perder a emoo do movimento.

Continuou a andar. A vida  boa. Flora me ama. Vou ajudar esse rapaz a realizar um sonho.
Entrou na Funilaria Vesvio. Deitado de bruos, os cotovelos fincados no cho, as mos a apoiar a cabea, Dante Camerino lia uma brochura. Rodrigo acocorou-se junto 
do pequeno engraxate e leu o ttulo do livro: Cinco semanas em balo.
- Vou te dar todas as obras de Jlio Verne que tenho em casa. Aparece por l no sbado e leva um cesto grande, ouviste?
Dante sorriu, pondo  mostra os dentes midos e limosos. Rodrigo passou-lhe a mo pela cabea. Dante Camerino, bello bambino, bravo piccolino, futuro dottonno.
- Engraxa o sapato, doutor? - gritou o funileiro, do fundo da oficina.
- Fica pra outro dia! De novo ganhou a rua.
Encontrou o Cuca  porta da Farmcia Popular.
- Que  que h de novo?
- Est feia essa histria do cometa.
- Que histria, homem?
- Ento no leste o Correio do Povo de hoje? Falta pouco tempo pr bicho aparecer. Esto dizendo que ou a Terra se espatifa ou ns morremos envenenados pelo rabo 
do bruto.
432
Rodrigo entrou no laboratrio, onde Gabriel tambm quis saber se o doutor achava possvel que o fim do mundo estivesse marcado para meados de maio. Vio, o aprendiz, 
aproximou-se do patro e focou nele os olhinhos vivos de roedor.
Rodrigo tirou o chapu, sentou-se e ps-se a falar sobre o cometa de Halley, baseado num artigo de Camille Flammarion que lera em
Illustration.
- Tudo quanto se tem publicado at agora  considerado prematuro pelos cientistas, principalmente essas histrias que falam do envenenamento da humanidade e do fim 
do mundo. Em maio que vem, haver um encontro do cometa de Halley com a Terra. Vio, v esquentar a gua pr mate! Nesse dia a cauda do cometa estar dirigida pra 
c. Se ela nos atingir, ficaremos submersos nesse apndice gasoso, compreendem?
- De que  feito o rabo do cometa? - indagou o Cuca, que de certo modo parecia encarar aqueles acontecimentos siderais como uma espcie de mexerico social do cosmos.
-  duma matria radiante muito rarefeita - explicou Rodrigo, felicitando-se intimamente por ter boa memria. - E o nosso planeta atravessar a cauda do cometa como 
uma bala de canho atravessaria uma cerrao de inverno, com uma velocidade de cento e seis mil quilmetros por hora.
- Pomba!
- Mas esse encontro - esclareceu Rodrigo - s se dar se a cauda do cometa tiver uma extenso de mais de vinte e trs milhes de quilmetros...
Ao chegar  casa contou  tia com mincias sua conversa com os Quadros. Maria Valria escutou, imperturbvel.
- Para que tanta pressa em frequentar a casa da moa?
- Ora,  o meu jeito. No tenho pacincia pra esperar.
- Voc puxou foi pelo seu bisav. Tia Bibiana me contava que o capito Rodrigo era homem que fazia tudo fora de hora e andava sempre com pressa, como se o mundo 
fosse acabar.
433
- Pois pra ele o mundo no acabou cedo mesmo? O capito morreu antes dos quarenta. Decerto tinha algum pressentimento e queria aproveitar.
- Boa desculpa...
Naquelas primeiras semanas de maio Rodrigo notou em Santa F um absoluto desacordo entre o tempo e as pessoas. Os dias eram tranqilos, duma beleza doce e madura, 
os cus distantes, os crepsculos vespertinos longos. Pairava no ar uma paz lnguida, tocada de brumas douradas e sombras lilases. As pessoas, porm, andavam inquietas, 
moviam-se e falavam com nervosismo, numa expectativa de catstrofe. Claro, havia os descrentes que se riam daquelas tolas histrias de fim do mundo. Lembravam-se 
de outras eras, outros cometas e vos temores. Esses continuavam a viver em paz. A maioria, porm, se fazia perguntas e no eram poucos os que tratavam de reunir 
seus familiares, a fim de que a hecatombe no os apanhasse separados. Os Teixeiras reuniram-se todos na fazenda na esperana, talvez, de que o cataclismo pudesse 
ser menos violentamente sentido no campo que na cidade. Homens que estavam projetando viagens por aqueles dias, adiavam-nas. Os que se achavam fora de Santa F, 
apressavam-se a voltar para casa. Nas lojas, escritrios e reparties pblicas j no se trabalhava direito, e o cometa de Halley (a que Liroca insistia em chamar 
"cometa do Alves") era o assunto permanente de todas as rodas. Algum bravateou: "Que venha esse cometa. Mas  preciso que ele tenha muito caracu pra acabar com 
o Rio Grande!" O padre Kolb nos seus sermes dizia no acreditar que Deus estivesse mesmo com tenes de "liquitar sua opra magnfica", mas aconselhava os crentes 
a que, pelas dvidas, se fossem preparando para o pior. Assim, naqueles dias teve um nmero desusado de fiis no confessionrio. Mulheres piedosas acendiam velas 
para os santos de sua devoo, fazendo as mais extravagantes promessas. Outras comeavam as visitas de despedida, corriam s casas de amigos e parentes. Nem todas 
-- notava Rodrigo - se entregavam a isso com sinceridade, na crena absoluta de que o mundo fosse mesmo acabar. Em sua maioria diziam esses adeuses por precauo, 
porque sabiam por experincia prpria que as piores coisas podem acontecer. Muitas, entretanto, pareciam
434
aproveitar a ocasio apenas para acelerar o passo da vida, de ordinrio to lento e igual, pois o fim do mundo no deixava de ser um assunto fora do comum.
Alguns homens procuravam-se para liquidar dvidas ou desfazer negcios; houve at mesmo uns dois ou trs casos de inimigos que se reconciliaram. E don Pepe, que 
parecia querer arrogar para o anarquismo o direito de destruir pessoas e coisas, comentou: "Quin sabe Dios aderi ai anarquismo y quiere destruir ei mundo con una 
bombita?"
4
Dona Evangelina Mena, a tia de Chiru, veio um dia procurar Rodrigo ao Sobrado. Era uma velhinha muito asseada, com cara de querubim, cabelos completamente brancos, 
pele rosada e olhos claros. Tinha qualquer coisa de esquilo no jeito gil e vivo de andar, mexer a cabea e gesticular.
Viva sem filhos, vivia com aquele sobrinho, que levara para sua casa no dia em que o rapaz, aos dez anos, ficara rfo de pai e me Chamava-lhe meu "velocino de 
ouro" por causa de sua cabeleira crespa e loira, e tivera sempre para com ele mimos de av.
Ao completar vinte e um anos, Chiru entrara na posse da herana dos pais, mas antes de chegar aos vinte e cinco anos havia j perdido tudo em maus negcios e prodigalidades.
Desde o dia em que seu "velocino de ouro" ficara sem vintm, tia Vanja passara a sustent-lo. Proprietria duma casinha  rua Voluntrios da Ptria, era tida como 
a mais hbil doceira e bordadeira de Santa F. Fazia bolos, doces, tortas e pastis para casamentos, batizados e banquetes. Bordava colchas, toalhas, guardanapos
 roupa-branca para enxovais. Era assim que sustentava a casa e as 'adiagens do sobrinho.
Desde criana Rodrigo sentia um enternecido fascnio por
aquela criaturinha recendente a patchuli que costumava passar-lhe a 
mo pelos cabelos, murmurando: "De quem  esta bolinha de
bano?" bano, ento, passou a ser para o menino Rodrigo uma
435
palavra misteriosa, inseparvel dos cheiros de tia Vanja, e do contato macio de suas mos. No havia em Santa F casa que Rodrigo gostasse mais de visitar que a 
meia-gua da tia de Chiru. " um verdadeiro brinco", diziam dela as comadres. Evangelina Mena muitas vezes  noite recitava para o "velocino de ouro" e para a "bolinha 
de bano" O noivado do sepulcro. Apagava a luz e, depois que via os dois meninos sentados direitinhos a seu lado, como pintos sob as asas duma galinha, comeava:
Vai alta a lua! na mamo da morte J meia-noite com vagar soou; Que paz tranqila! dos vaivns da sorte S tem descanso quem ali baixou.
Tinha uma voz fina e melodiosa, que lembrava o som duma caixinha-de-msica. Rodrigo sentia um calafrio na espinha quando o poema chegava ao trgico final:
Quando risonho despontava o dia, J desse drama nada havia ento. Mais que uma tumba funeral vazia, Quebrada a lousa por ignota mo.
Porm mais tarde, quando foi volvido Das sepulturas o gelado p, Dois esqueletos, um ao outro unido, Foram achados num sepulcro s.
Findo o recitativo, tia Vanja erguia-se, acendia o lampio e, ainda com lgrimas nos olhos, dava sorrindo aos dois meninos suas deliciosas balas de ovos.
Rodrigo sempre achara que tia Vanja era diferente de todas as outras pessoas que ele conhecia. S mais tarde, ao voltar numas frias para casa, com o curso de preparatrios 
terminado,  que percebera, encantado, que a velhota falava como as personagens dos folhetins que lia com tanta paixo. Tia Vanja era uma literata!
436
Rodrigo nunca esquecera o dilogo que, j moo, entreouvira no Sobrado entre Evangelina Mena e Maria Valria Terra.
- A senhora j viu o despautrio? - disse a primeira. - Uma matilha de ces andarengos anda infestando as ruas de nossa urbe. Urge aos poderes competentes tomar 
uma providncia enrgica, a fim de coibir o abuso.
A outra fez uma observao seca:
-  uma cachorrada braba, mesmo.
- Dar-lhes veneno seria crueldade, pois, como diz o anexim popular, maltratar os animais  indcio de mau carter. Alis os pobres irracionais no tm culpa de serem 
como so. Se o TodoPoderoso assim os fez, decerto  porque assim os quer, a senhora no acha?
- .
- Mas tambm temos que levar em conta a convenincia dos transeuntes, pois esses animais no tm o menor senso de decncia, de decoro e de higiene.
- Muito homem tambm no tem.
Rodrigo ficou numa agradvel expectativa quando a madrinha lhe veio dizer aquele dia:
- A dona Vanja est a e quer falar com voc. Precipitou-se para a sala de visitas e beijou a mo da velha
amiga.
- Ento, que milagre  este?
- Ora, Rodriguinho, quando Maom no vai  montanha, a montanha vai a Maom.
Soltou a minscula risada melodiosa. Sentou-se, comps o vestido com um gesto faceiro e fitou no rapaz os olhos de boneca.
- Pois estou muito apreensiva, meu filho. O Chiru meteu-se-lhe na cabea de ir fazer escavaes nas runas jesuticas de So Miguel.
- E que tem isso, tia Vanja? Deixe aquele marmanjo ir pra se desiludir duma vez por todas e no incomodar mais a gente com essas bobagens de tesouros enterrados.
- Mas  que agora vai surgir esse cometa de Halley, e afirmam os cientistas que teremos um cataclismo universal. Talvez
437
tudo isso no passe de grosseiro erro de clculo astronmico mas como diz o rifo popular, mais vale prevenir que remediar, e como o fato tem visos de verdade... 
Bem, eu no sei. Mas suponhamos que a cauda do dito seja slida e colida com o nosso planeta... Imaginemos essa hiptese horrenda, meu anjo, onde iremos ns todos 
parar? Que acontecer para esta humanidade sofredora que Deus fez  sua santa imagem?
- Sim, mas que  que o cometa de Halley tem a ver com a viagem do Chiru s Misses?
- Rodriguinho, ser que no compreende o que a tua tia est insinuando? O Chiru quer embarcar a semana que vem, e eu acho arriscado esse menino viajar agora. Vamos 
que o cometa...
- Ora, tia Vanja!
- No sei, podes apodar-me de alarmista, mas apesar de eu ser um pouco como So Tom, que queria ver para crer, como rezam as Escrituras, estou muito apreensiva. 
E meus pressentimentos, meu anjo, sempre se confirmam. Ns vamos ainda nos incomodar com esse cometa. Toma nota do que eu digo. Imagina tu se esse astro errante 
e indesejvel surpreende o menino em pleno descampado...
Calou-se, suspirou, brincou com a bolsa de croch pousada no regao e por fim tornou a falar.
- Eu queria que tu convencesses o Chiru a transferir essa viagem. O rapaz no me ouve.  um obstinado, puxou ao pai, que Deus o tenha em sua santa glria! E, tu 
sabes, quem herda no furta.
- Est bem. Posso lhe garantir que o Chiru no sair de Santa F antes do cometa passar. Se for preciso, sou capaz at de prender aquele safado no poro.
- Coitado!
Pouco antes de sair, tia Vanja tirou da bolsa umas balas de ovos e meteu-as nas mos de Rodrigo.
- Toma. Sei que so balinhas da tua preferncia.
A porta da rua ergueu o brao e passou a mo pela cabea de Rodrigo.
- Quem  a minha bolinha de bano? - Fez um muxoxo. - Antigamente eu baixava a mo pra te acariciar a cabea. Agora tenho de erguer. Mas isso  lei da vida. Uns 
crescem, outros minguam. Deus te abenoe, meu anjo.
Ps-se na ponta dos ps, beijou a testa do rapaz e se foi, muito tesa, caminhando miudinho e depressa, a voltar a cabea dum lado para outro.
Naquele mesmo dia Rodrigo conversou com o Chiru e foi-lhe faclimo convenc-lo a transferir a excurso s Misses para qualquer data depois da passagem do cometa.
- J que o tesouro esperou tantos anos - filosofou o velocino de ouro - acho que no vai se perder por esperar mais um ms.
438
439
XVIII
Quando, naquela noite de tera-feira, Rodrigo saiu para visitar Flora - depois de haver passado longos minutos diante do espelho a pentear-se e a aperfeioar o n 
da gravata -, Maria Valria despediu-se dele com estas palavras:
- Pobre da Titina! Est de cacete em casa.
- Qual! Ela vai pegar pra genro o melhor partido de Santa F!
Rodrigo ia quase sempre de carro  casa da futura noiva, aspirando o ar daquelas noites outonais, recendentes a folhas secas queimadas, o que o levava a pensar - 
ele no sabia bem por qu
- em cidades orientais que nunca vira, como Cairo, Istambul, Bagd... Recomendava sempre ao Bento que no apressasse o andar dos animais. Fazia j parte daquela 
suave rotina ficar ali no carro antegozando o sero que ia passar junto da namorada. Levava-lhe todas as noites um presentinho, por mais insignificante que fosse: 
barras de chocolate, bombons, nmeros de O Malho e da Kosmos, ou ento livros. Descobrira com alegria que Flora gostava de ler e tinha at sua instruozinha. Claro, 
estava ainda na fase dos romances de gua com acar de Macedo e Alencar, mas, que diabo! era j um princpio. Com o tempo, pouco a pouco, havia de traz-la para 
um tipo mais srio de leitura. No raro levava-lhe tambm os almanaques e as figurinhas em tricromia que certas fbricas de produtos farmacuticos costumavam mandar 
como brinde s farmcias
- efgies de santos ou heris, reprodues de quadros clebres, historietas cmicas. Flora recebia essas coisas com uma to simples alegria menineira, que ele, Rodrigo 
Cambar, o civilizado, achava
440
uma graa e um encanto indescritveis naquela inocncia. A coisa toda chegava a ter um sabor entre doce e picante, que o deixava ao mesmo tempo enternecido e excitado, 
fazendo-o sentir pela namorada, ora ternuras de irmo mais velho ora ardores de amante.
Nas primeiras visitas, Flora revelara um acanhamento que seria constrangedor para outro que no fosse Rodrigo. Falava pouco, corava com freqncia, chegava a no 
ter coragem de encarar o futuro noivo, limitando-se a lanar-lhe olhares furtivos. Ele, entretanto, no cessava de contar histrias dos tempos de estudante e anedotas 
de consultrio. E assim, na sala de visitas da residncia dos Quadros, iluminada pela luz dum antigo lampio de quebra-luz esfrico, aqueles seres passavam depressa. 
Dona Laurentina no se afastava da sala. Ficava sentada na sua cadeira de balano, ao p da mesinha do lampio, e Rodrigo tinha a impresso de que com um olho fazia 
croch e com outro fiscalizava os namorados, cujas cadeiras estavam afastadas uma da outra quase um metro. Aderbal aparecia s vezes no princpio do sero, conversava 
um pouco com o futuro genro, e depois se recolhia, pois era hbito seu ir para a cama antes das nove.
s oito invariavelmente entrava na sala uma criada preta, que servia caf com roscas de polvilho ou bolinhos de coalhada.
Uma noite em que se fizera um silncio mais prolongado e dona Laurentina, com os culos na ponta do nariz, parecia absorta no seu croch, Rodrigo contemplou Flora 
longamente, com olho crtico, procurando descobrir que trao ou combinao de traos naquele rosto tinha sobre ele um fascnio to poderoso. Pensou nas mulheres 
que lhe haviam feito "bater a passarinha", segundo uma expresso muito do agrado de Maria Valria. Claro, no negava que gostasse de todas as mulheres e que dificilmente 
voltaria as costas a qualquer portadora de saia razoavelmente bonita que lhe fizesse um aceno. Sabia que, em matria de amor, era ecltico. Tivera, porm, na vida 
umas trs mulheres que lhe haviam transtornado a cabea. A primeira que lhe veio  mente foi a equilibrista do Circo Sabbatini, Kazuko Tasaki, a japonesinha que 
o fizera fugir de casa aos dezessete anos e seguir os burlantins at Passo Fundo, de onde o pai o arrastara  fora, de volta para Santa F. 
441
Lembrou-se depois duma paraense que o deliciara e ao mesmo tempo atormentara, no primeiro ano de estudante... Houvera tambm a mulher de um professor em cuja casa 
costumava almoar aos domingos - criatura estranha, dez anos mais velha que ele, e pela qual tivera uma paixo que lhe parecera devastadora, a maior de todas, a 
ltima... Numa sucesso de imagens rpidas, teve no campo da memria a japonesinha a equilibrar-se no arame, com um prasol na mo, as curtas coxas e pernas apertadas 
numa roupa de malha branca, um saiote vaporoso de bailarina, a cabeleira preta e lustrosa, de franja, a emoldurar-lhe a cara de boneca... A seguir viu os lbios 
de Jussara, que dizia ter sangue ndio nas veias, Jussara de pele cor de canela e olhos enviesados... Mas a imagem da paraense fundiu-se com a de outra mulher. Dona 
Lcia passava-lhe o prato de peixe e sorria: seus olhos verdes e oblquos tinham algo que lembrava um aqurio ou o fundo do mar; o rosto era ovalado e dum moreno 
de terra de Siena. Descobri! - concluiu Rodrigo a olhar para a namorada. Flora tinha olhos de musm e tez trigueira - dois traos presentes no rosto das trs mulheres 
do passado. Era como se a acrobata, a bugra e a mulher do professor se houvessem encontrado milagrosamente numa nica e maravilhosa mulher que estava agora  sua 
frente, ao alcance de suas mos e que dentro em breve seria sua esposa, senhora do Sobrado, me de seus filhos. Teve ento mpetos de erguer-se, tom-la nos braos, 
beijar-lhe a boca - coisa que no fizera a Kazuko, de quem no conseguira aproximar-se, nem a Lcia, que jamais suspeitara de sua paixo.
Na noite da quinta-feira seguinte, Rodrigo levou a Flora uns nmeros de Illustration, o que lhe pareceu excelente pretexto para se aproximar um pouco mais da namorada,
no momento em que fossem folhear juntos as revistas. Dona Laurentina, entretanto, no cessava de vigi-los. E ele, contrariado, teve de manter uma distncia respeitvel 
de Flora, e nem uma vez as pontas de seus dedos tocaram as mos dela, e no houve sequer o mais leve roar casual de cotovelos. Folheou as revistas, leu as legendas 
das gravuras, dissertou sobre as belezas das cidades europias, como se as tivesse realmente visitado, e deteve-se nas pginas que mostravam Paris durante a grande 
inundao do ltimo janeiro.
442
- Olhe, esta  a Rua Saint-Dommique. No parece um canal de Veneza, com esses barcos navegando por entre as casas?
Flora sacudia a cabea, sorrindo, o rosto afogueado.
- Sabe o que  aquilo l no fundo? A famosa Torre Eiffel, um arcabouo de ao de trezentos metros de altura. Agora aqui temos um efeito noturno na praa do Palcio 
Bourbon. Ali est a ponte da praa de L'Alma, a avenida Montaigne e o cais da Confrence.
Falava naqueles lugares com uma intimidade de velho conhecido. O mais que Flora arriscava fazer eram perguntas tmidas:
- E aquilo ali?
-  uma cena de L'Opra-Comique. A inundao interrompeu o servio de luz eltrica e a pera teve de dar funo  luz de lmpadas de acetilene... Est vendo? Ali
est o maestro, parte da orquestra e a primeira fila de espectadores...
No resistiu ao desejo de dar  namorada uma demonstrao de sua pronncia francesa. Leu:
- ...c qui riempecha ps 1'Qpra-Comique deprsenter un soir un pittoresque spectacle de son orchestre, clair par ds lanternes du modele l plus primitif.
Traduziu. Depois voltou a cabea para Flora e os olhos de ambos se encontraram por alguns instantes que para Rodrigo foram de deliciosa, esquisita vertigem.
- Ah! Paris! - suspirou ele. - Um dia ns dois havemos de ir l.
A me de Flora ergueu vivamente os olhos do croch e fitou-os em Rodrigo, que se apressou a explicar:
- Quando nos casarmos, dona Laurentina, um de meus planos  fazer com a Flora uma viagem  Europa. Talvez seja a nossa viagem de npcias. Quem sabe?
O rosto duro da futura sogra permaneceu impassvel e indecifrvel. Dona Laurentina tornou a baixar os olhos para o croch. Rodrigo continuou a folhear a revista. 
Apontou para uma gravura que mostrava o recinto dum salo de Berlim, onde se realizava uma exposio de arte francesa do sculo XVIII: quatrocentas obras de pintores 
e escultores como Watteau, Fragonard, Pajou, Pesne, Bou-
443
cher... Rodrigo percebeu logo que Flora estava interessada principalmente nos vestidos das personalidades femininas que haviam comparecido  exposio, com seus
monumentais chapus emplumados, de abas largas, as cinturas finas e as saias rodadas e compridas. Traduziu:
- "Entre as personalidades presentes achavam-se S. M. Guilherme II, da Alemanha, a imperatriz, a Kronprizessin, o senhor embaixador da Frana e o baro Henri de
Rothschild". Veja quanta gente importante! Se isso fosse em 1911 eles talvez tivessem de acrescentar: "Entre os convidados viam-se o dr. Rodrigo Cambar e exma.
esposa..."
Fechou as revistas e falou nos seus planos de vida. Flora escutava-o com ateno. Ao cabo de cinco minutos dona Laurentina comeou a pigarrear com tanta insistncia,
que Rodrigo compreendeu o que ela queria dizer. Afastou sua cadeira (Agora - refletiu, meio ressentido - s comunicaes semafricas ou telegrficas...) e o sero
continuou. Como sempre, ao ouvir o relgio bater as primeiras badaladas das dez, Rodrigo despediu-se de Flora ali na sala, na presena da me, num rpido aperto
de mo que ele tentou, mas em vo, tornar mais prolongado. Dona Laurentina acompanhou-o at a porta e a despedida seguiu a frmula de costume.
- Boa noite. Lembranas pra Maria Valria.
- Sero dadas. Boa noite.
No dia 12 de maio o coronel Jairo telefonou a Rodrigo:
- Ento, j soube da infausta nova?
- No, coronel. Que foi?
- Morreu Eduardo VII
- Quem?
- O rei da Inglaterra.
- Ah...
- Uma grande perda para o Reino Unido e para a humanidade. Eduardo VII era um monarca popular, um verdadeiro liberal,
444
um grande diplomata e um gentleman na mais ldima acepo do termo. No sei o que vai ser dos ingleses agora, porque o filho dele, o Jorge, parece no ter a fibra 
do pai. Enfim, a Histria tem de seguir seu curso e os vivos sero sempre cada vez mais governados pelos mortos.
- Amanh talvez estejamos todos mortos, coronel.
- Ol! Ol! Como disse?
- Disse que amanh talvez estejamos todos mortos. O cometa de Halley anda por a...
- Havemos de sobreviver, dr. Rodrigo, no tenha dvida... Sabia que h uns dois meses esse mesmo cometa atravessou a rbita da Terra? Pois  como lhe digo. No creio 
que possa haver qualquer coliso. Segundo os clculos astronmicos, a 1 de abril o cometa atravessar a rbita de Vnus e no prximo dia 30 cortar a da Terra pela 
segunda vez...
Rodrigo sorriu:
- E o senhor no acha que isso  uma provocao?
A risada do coronel chegou-lhe ao ouvido como o zumbido duma abelha encerrada numa caixa de fsforos.
Naquele mesmo dia don Pepe irrompeu no Sobrado trazendo debaixo do brao um quadro enrolado em jornais. Dep-lo sobre uma cadeira, tirou a boina, jogou-a longe e 
sentou-se. Rodrigo provocou-o:
- Sabes quem morreu? Eduardo VII da Inglaterra.
O artista, porm, pareceu no ouvir o que ele dizia. Apontou para o quadro.
- Todo Io que yo esperaba ocurri. Burgueses tramposos!
- Conta logo, Pepito. Que foi que houve?
- No aceptaron mi cuadro.
- O retrato do coronel Teixeira?
o l.
- Mas por qu?
- Porque est demasiado bien hecho, demasiado artstico, demasiado parecido.
Ergueu-se, comeou a caminhar miudinho: trs passos  frente, trs  retaguarda.
445
trs  retaguarda.
- Pero no se trata de una semblanza . fotogrfica, no seor,
pero psicolgica.
Olhou srio e firme para o amigo.
- Rodrigo, quiero tu opinin sincera sobre mi obra. N hables en seguida, si no tienes opinin. Mira, analiza, compa y despus juzga.
Avanou para o quadro, rasgou os jornais e deixou a tela mostra. A primeira vista, o retrato chocou Rodrigo. Hava nele; algo de brutal, de disforme, de caricatural,
e um empastamento de cores que causava certa confuso no esprito do observador. Aos poucos, porm, foi comeando a descobrir a inteno do artista. O que ali estava
na tela era uma estranha figura, metade homem" metade animal. Rodrigo punha a mo em pala sobre os olhos, recuava, avanava, procurando olhar a pintura de diferentes
ngulos.
- Y que tal ?
- Pepito, te juro como, dum certo modo no fotogrfico. est parecido. H qualquer coisa nesse quadro.. .
- Que hay, eso yo lo s, madre de mi vida! - Tomou o brao do amigo e explicou: - Mira, hijito, no te parece natural que un hombre que vive del buey, con el buey 
y para el buey acabe adquiriendo el aspecto de un buey?
- Levaste a coisa longe demais. Chegaste a botar chifres na testa do homem. Olha que isso pode ser mal interpretado .. .
- Pues, hombre, no sou apenas cuernos de buey, no seior. La simbologia es ms sutil. Son los cuernos de satans!
- Por qu? No vejo nada. de satnico no Coronl Pedro Teixeira.
- Es un burgus y la burguesia ha vendido su _ alma al diablo. Mira, por que cres que el fondo del cuadro tiene el caolor de la sangre? No es solamente la sangre
de las vacas y carneros sacrificados en los mataderos, pero tambin la sangre de todos los hombres que mureran en todas las revoluciones hechas en el inters de
la clase de Tejera. Ven, acrcate del cuadro. Que hay en lugar de la pupila en el ojo izquierdo?
- Uma libra esterlina?
- Claro! Es la unica cosa que los burgueses sabem ver. Oro, dinero, libras! Y esos labios gruesos denotam animalidad, ausencia de preocupaciones espirituales.
- Mas o homem tem algumas qualidades positivas e at nobres, Pepe. : um cidado honesto e um bom chefe de famlia.
446
- Me cago en la leche de la famlia Tejera y de todas las famlias.
Rodrigo contemplava_ o quadro. Apesar de todas as extravagncias do pintor, podia-se reconhecer naquele misto- de homem-fauno-boi-satans, o pachorrento Pedro Teixeira,
estancieiro e argentrio.
- No admira que noo tivessem aceito o quadro, Pepe. Esse
retrato  um insulto.
- El unico insultado soy yo, el artista. - O Coronl Teixeira viu isso?
- No. Pero el Coronl Prates, que me lo encomend, lo ha
visto.
- E que foi que disse?
- Se qued indignado, me dijo que no me pagaria un tostn.
- Pois eu te pago. Pepe, te compro o quadro, gosto dele.
Quanto queres?
Pepe refletiu por um instante.
- Nada. Te lo regalo. S quieres pagarme con algo, dame
um copetn de cognac.
Quando Rodrigo saiu da sala para ir buscar a bebida, o
espanhol ficou a resmungar:
- No se por qu me quedo en esta ciudad podrda.
 447 Naquele anoitecer, ao subir a escada para acender o lampio da esquina do Sobrado, o velho Srgio saudou Rodrigo:
- Salve o Dr. Rodrigo neste dia glorioso para ns, os morenos. Salve a Rainha D. Isabel, moa de muito saber e condies. Salve D. Pedro II, nosso Imperador festeiro,
e Deus Nosso Senhor, pai dos brancos e dos pretos.
Sua voz, cava e spera, parecia sair duma gruta escura cheia de morcegos.
De sua janela, Rodrigo atirou um pataco, que o negro apanhou com o chapu, ficando a examinar a moeda e a resmonear
- Moo de muita senhoria e da mais distinta considerao. Fala com os pobres, no  soberbo. Deus lhe d muita vida e uma boa morte.
Acendeu a mecha, reps a manga no lugar, desceu a escada, p-la ao ombro e continuou seu caminho.
Rodrigo achava-se tomado dum inexplicvel mal-estar, duma espcie de premonio de desastre cuja origem no podia precisar. Era a noite em que se esperava o aparecimento 
do cometa. Estava claro que ele no acreditava na possibilidade dum choque com a Terra. Que tinha, ento? Devia estar feliz, pois s oito horas ia fazer o pedido 
de casamento. Escrevera, havia dias, para o Angico, pedindo licena ao pai para dar um carter oficial ao noivado. Viera-lhe uma resposta seca mas positiva:
Acho precipitado o pedido, pois faz to pouco tempo que o senhor freqenta a casa da moa, mas em todo o caso o senhor  um homem feito e sabe o que quer e eu fao 
gosto, pois a Flora  uma moa prendada, filha dum amigo meu. O senhor tem meu consentimento.
Aderbal Quadros esperava-o aquela noite, e Rodrigo pensava agora nas palavras com que ia fazer o pedido. Como tudo aquilo era complicado e at certo ponto, ridculo!
Jantou sem muito apetite. Durante a refeio a tia mirava-o de quando em quando com seu olhar frio mas interessado.
- No fique to nervoso. Essa histria  mais fcil do que parece.
- No estou nervoso.
- Eu ento  que estou...
- A senhora est mas  com cime.
- Voc no se enxerga!
448
- Se dependesse da senhora eu passava o resto da vida solteiro.
- No seja bobo.
- Est se vendo que a Dinda no est contente.
- Eu s disse que voc est indo com muita sede ao pote. Podia esperar um pouco mais pra fazer o pedido.
- Ora, titia!
Fez um gesto brusco, derrubou o clice, e uma mancha de vinho alastrou-se na toalha branca.
- Sinal de sorte... - murmurou Maria Valria.
- Supersties!
Houve um silncio em que Rodrigo se imaginou na sala de visitas dos Quadros,  frente de Aderbal. "Tenho a honra de pedir..." A voz da tia cortou-lhe o pensamento.
- Ficava mais bonito que o senhor esperasse seu pai pra ele mesmo fazer o pedido.
- Que absurdo! Isso se usava antigamente, no tempo do ona. Hoje as coisas esto mudadas.
- Mas era uma considerao pr seu pai.
Rodrigo ficou irritado porque, no fundo, achava que a madrinha tinha razo. Precipitara-se. No lhe teria feito nenhum mal esperar mais um ms... Por outro lado, 
j que freqentava a casa de Flora, achara melhor oficializar logo o noivado para evitar os falatrios. Mas desde quando estou dando importncia  lngua do povo? 
Vo todos pr inferno! Fao o que entendo. Sou dono do meu nariz.
Levantou-se, subiu ao quarto, escovou os dentes, e postou-se diante do espelho, numa toilette demorada. Meteu-se numa fatiota de casimira cor de chumbo, de palet 
trespassado. Pela primeira vez ia usar o chapu-coco - a que o Chiru e outros idiotas insistiam em chamar de cartola. Sabia que podiam rir de sua elegncia cosmopolita 
naquela terra de botocudos. Quebraria a cara de quem se atrevesse a tanto.
Ficou por alguns minutos ao p do lavatrio, indeciso diante dos frascos de perfume que se alinhavam na prateleira, sob o espelho. Por fim decidiu-se pelo de Quelques 
fleurs, destampou-o, 
449
encostou a boca do vidro contra a lapela e emborcou. Fez o mesmo no leno.
Antes de sair apresentou-se  tia.
- Estou direito?
Ela o examinou com ar crtico.
- Enfeitado que nem o mastro da festa do Divino e fedendo como um zorrilho.
Rodrigo no gostou da brincadeira.
- At logo, Dinda.
- V e faa papel bonito.
Quando ele j estava na calada, Maria Valria debruou-se  janela.
- Mas no marque o casamento pra amanh, j'ouviu? Tem tempo.
Rodrigo entrou no carro.
- Vamos, Bento.
Os cavalos puseram-se em movimento. Rodrigo notou uma animao desusada na rua do Comrcio: muitas pessoas debruadas s janelas, vultos a andar dum lado para outro 
nas caladas. O cometa - concluiu. E lamentou a prpria imprevidncia. Ao marcar aquela noite para o pedido de casamento, no se lembrara do aparecimento do cometa. 
Sempre imaginara que o noivado do "moo do Sobrado" pudesse ser um acontecimento social capaz de fazer Santa F vibrar, de levar dezenas de curiosos at a frente 
do palacete dos Quadros, onde ficariam a olhar para as janelas festivamente iluminadas, a esperar com ansiedade a chegada do noivo e dos convidados. Nada disso, 
porm, ia acontecer. Toda a gente estava preocupada com o cometa de Halley. As janelas da casa da noiva estariam fechadas. Babalo comunicara-lhe que no ia fazer 
festa, que a cerimnia teria carter simples, pois no convidara para ela nem os parentes mais chegados.
No que eu seja vaidoso - refletia Rodrigo, como a querer convencer-se a si mesmo -, no que eu goste de me mostrar, mas que diabo! esta  uma noite importante da 
minha vida. S se contrata casamento uma vez.  natural que eu queira deixar a data assinalada para sempre. No entanto aqui vou para o pedido de
450
casamento sozinho, sem meu pai (e a voz da tia em sua mente: "por culpa sua!", sem meu irmo, sem um nico amigo. Na casa da minha noiva no haver ningum alm 
dela, da me e do pai. Pronunciarei a frase convencional, porei a aliana no dedo da moa, e voil, estaremos noivos. Vir licor, doces, um caf... Dona Laurentina 
nem sequer sorrir para ns, Babalo talvez fique na sala a prosear sobre a safra, o carrapato do gado ou a vitria do marechal... Depois ir para a cama,  hora 
do costume; dona Titina ficar a fazer aquele seu eterno croch, e eu me quedarei como um dois de paus na frente da noiva, sem poder ao menos tocar-lhe a fmbria 
do vestido com a ponta dos dedos.
Suspirou, sentindo-se vtima duma colossal conspirao. Ficou a escutar melanclico o castanholar das patas dos cavalos nas pedras da rua. Um vulto se destacou dum 
grupo  frente do clube, fez-lhe um aceno e gritou-lhe um boa-noite efusivo. Rodrigo ergueu com indiferena o brao, como um prncipe blas que responde  saudao 
dum sdito.
Santo Deus, estarei doente? Decerto  febre. Levou a mo  testa. No. Fresca..
Era ento a languidez do outono - refletiu - aqueles cheiros de ramos e folhas secas queimados. ( Istambul!  Bagd!  Scheherazade! Era a mgoa de verificar que 
nem todos os seus belos sonhos se faziam realidade.)
O carro parou  frente da casa de Aderbal Quadros. Rodrigo olhou em torno e no viu vivalma. Um grande acontecimento, o meu noivado! - refletiu com amargura. - Um 
formidvel sucesso!
- Venha me buscar s dez em ponto - disse ao boleeiro.
Apeou, apalpou o bolso e apertou o estojo de veludo onde estava a aliana. Bateu  porta e depois ficou ajeitando o n da gravata.
Naquela noite muita gente no dormiu em Santa F. As janelas de suas casas, nos quintais, nas caladas, no meio das ruas e
451
praas, os santa-fezenses esquadrinhavam o cu com o olhar. O padre Kolb, que passara boa parte da noite numa das salas privadas da Confeitaria Schnitzler a beber 
cerveja em caneces bvaros de barro, saiu por volta das onze e, ao cruzar pela frente do Comercial, vendo um grupo de homens com os rostos voltados para o cu, 
parou e ergueu o dedo proftico.
- Deviam estar procurando no o cometa, mas Deus! Ficou debaixo do lampio, imponente na sua batina negra, o
rosto imerso na sombra que sobre ele projetava a larga aba do chapu. Um gracioso respondeu:
- No enxergamos ainda nem o cometa nem Deus, padre. O vigrio de Santa F empertigou o busto, inflou o peito,
pareceu que ia dizer uma coisa tremenda, uma formidvel verdade apocalptica, mas permaneceu em silncio, deixando escapar o ar pelo nariz, num sopro sibilante. 
Continuou depois seu caminho, o tranco firme, numa milagrosa linha reta.
s duas da madrugada ainda no se via no cu o menor sinal do cometa. "Que fracasso!" - exclamavam alguns, decepcionados. "X mico!" era uma exclamao que se ouvia 
em diversos lugares. "V a gente acreditar nesses astrnomos. Pra mim o homem do campo entende mais de tempo e de estrelas que todos esses sabiches que manejam 
o telescpio."
Muitos foram deitar-se, desiludidos. Um escriturrio da intendncia disse  mulher: " Domiciana, se o fim do mundo comear, tu me acorda, j'ouviu?" E meteu-se na 
cama. Neco, Chiru e Saturnino, que haviam preparado uma serenata especial para o cometa, resolveram faz-la para Rodrigo. Plantaram-se  frente do Sobrado e atacaram 
uma valsa. Rodrigo assomou  janela:
- Entrem. Vamos comer e beber alguma coisa. Estou sem sono.
O trio aceitou o convite e ele se dirigiu para a cozinha a preparar os hors-d'oeuvres.
- No faam muito barulho - recomendou ao voltar. - A madrinha est dormindo.
Pelas janelas entrava um cheiro de po quente. Neco dedilhava o violo, cantando em surdina um fado que aprendera com certo caixeiro-viajante portugus, numa memorvel 
noite de farra.
452
Puseram-se a comer, a beber e a conversar. O relgio do refeitrio bateu trs badaladas.
Poucos minutos depois das trs da madrugada, a cauda do cometa apontou no cu, nas bandas de leste, por trs das coxilhas da Sibria. Comeou, ento, o alvoroo 
na cidade. "Olha o bruto!" - exclamavam. Homens e mulheres, alguns em camisolas de dormir, apareciam s janelas. Houve correrias nas ruas, exclamaes de triunfo 
e de pavor. Alguns fiis bateram  porta da igreja e o padre Kolb, que ainda no pregara olho, mandou o sacristo abrir o templo, que dentro em pouco ficou cheio 
de mulheres ajoelhadas, a
rezar.
Lucas e Rubim entraram no Sobrado, encontrando Rodrigo e os amigos completamente alheios ao grande acontecimento.
Dirigiram-se todos para a cozinha, de cuja janela ficaram a contemplar a cauda do cometa, que subia no cu como o feixe luminoso dum gigantesco holofote.
- Mas onde est o ncleo? Ningum respondeu.
- Vnus ainda no apareceu... - estranhou Rubim.
- Parece at que se a gente subir a coxilha da Sibria pode agarrar o rabo do bruto.
- Olhem l! - exclamou Saturnino. - Estrelas cadentes.
- Blides - corrigiu o tenente de artilharia. Eram riscos luminosos que cortavam o cu por baixo da cauda do cometa.
Rodrigo apreciava a cena, deslumbrado. O ar frio da madrugada bafejava-lhe o rosto. Seus olhos estavam fitos no cu luminoso que se estendia no horizonte, mas dentro 
em breve seus pensamentos nada tinham a ver com o cometa. Recordava-se do momento em que fizera o pedido de casamento. J no lamentava mais que a cerimnia houvesse 
sido to simples e sossegada, pois tivera uma longa e amistosa conversa com Babalo, que lhe contara de seus negcios, dos grandes prejuzos que vinha tendo naqueles 
cinco ltimos anos com a plantao de trigo em grande escala. "Mas por que  que o senhor insiste?" E o futuro sogro lhe respondera: "No h nada mais lindo que 
um 
trigal maduro. E depois, amigo,  com
453
trigo que se faz po, e no h nada melhor que a gente comer po do trigo que plantou..." Babalo plantava trigo por uma razo potica! Tinham ficado os quatro na 
doce paz da sala,  luz do lampio, como se aquela casa estivesse fora do tempo e do espao.
A voz de Rubim despertou Rodrigo do devaneio. O tenente de artilharia afirmava que a cauda do cometa tinha mais de trinta milhes de quilmetros de comprimento. 
Saturnino sacudiu a cabea, numa aquiescncia respeitosa. Chiru, porm, ps em dvida a exatido daquela fantstica cifra. Neco dedilhava o violo, cantarolando 
uma toada campeira.
Os blides continuavam a riscar o cu.
Rodrigo voltou com os amigos para a sala de jantar, onde Rubim e Lucas participaram dos restos daquela ceia improvisada, e os outros continuaram as libaes. 
Ao emborcar o quinto copo
de vinho, Lucas, com a voz arrastada, confessou que estava loucamente apaixonado.
- Quem  a felizarda? - indagou Rodrigo. Rubim informou:
- A filha do coronel Prates.
- A Ri tinha? Magnfico. Uma bela moa.
O alagoano, porm, estava infeliz. O pai da jovem no aprovava o namoro. A famlia fazia-lhe desfeitas.
- Por que, Rodriguinho? - perguntou ele, de olhos amortecidos. - Por qu? Sou um sujeito direito, no fao mal a ningum. Sou um pndego, sim senhor, sou o Andr 
Deed, o Max Linder, o Bigodinho, mas isso no  crime, no  mesmo? No  mesmo?
Puxava com insistncia a manga do casaco de Rodrigo, repetindo a pergunta.
- Claro que no, Lucas. Mas tudo isso se arranja com o tempo.
O tenente de obuseiros sacudia a cabea, desesperanado.
454
- No se arranja, no, o remdio  eu tomar uma bebedeira e sair comandando a bateria pela rua, nu em plo, sabes, Rodrigo? Nu em plo, em cima dum cavalo, de espada 
em punho, ests me ouvindo? De espada na mo e nuzinho da silva, a cavalo, sabes? E passar pela frente da casa da Ritinha, de espada na mo, a cavalo, e nu, pra 
desacatar a famlia, sabes?
Rodrigo sorria, olhando para Rubim, que folheava distraidamente um nmero de
Illustration. Neco e Saturnino tocavam uma valsa lenta e sentimental, em doce surdina.
Os trmulos da flauta pareciam soluos, e os bordes do violo sugeriam graves, profundas paixes humanas. Lucas escutava, repoltreado na cadeira, a tnica completamente 
desabotoada, o copo vazio na mo que pendia abandonada ao longo da cadeira. Junto da mesa, Chiru raspava com a faca o fundo da lata de pt de foie gras.
Rodrigo olhou em torno.
- Daqui a vinte anos, amigos, estarei falando a meus filhos a respeito desta noite. Direi: "Quando o cometa de Halley apareceu, em 1910, vocs no eram nascidos 
e o papai tinha apenas vinte e quatro anos. Todos pensavam que o inundo ia acabar, no entanto nada de maior aconteceu. Reuni no Sobrado os meus melhores amigos e 
ficamos comendo, bebendo e conversando at o raiar do dia".
- Tu s feliz - lamuriou o Lucas -, ters, um dia, mulher e filhos. Eu vou ficar um velho solteiro, reumtico, linftico, sorumbtico, caqutico. Vou pedir minha 
transferncia pr Amazonas. Quero morrer comido por uma ona. Ou de febre balastre.
- Palustre - corrigiu Rubim, sorrindo.
- Balastre - repetiu o outro. - No , Rodrigo? Tu que s mdico... Febre balastre. Me bota mais vinho. Balastre!
Falava de boca mole, babando-se.
A msica, chorosa e lnguida, parecia narrar a histria dum amor infeliz. Ei a uma valsinha brasileira de serenata, doce como uma noite de luar, sentimental como 
as raparigas que morrem de amor. Lucas escutava-a, enquanto grossas lgrimas lhe escorriam pelas faces e pingavam na tnica. Chiru encheu o copo e ergueu-o num brinde:
455
- Ao nosso Rodrigo, que hoje contratou casamento!
Rodrigo e Rubim ergueram os copos e fizeram as bordas tocarem-se de leve. Saturnino, que tinha o bocal da flauta colado ao lbio, saudou o amigo com um alar de 
sobrancelhas. Neco sacudiu a cabea melenuda.
A valsa terminou. Houve aplausos discretos. Rubim aproximou mais dos olhos a revista em que estivera a ler um artigo ilustrado sobre a construo do canal do Panam.
Deu uma palmada na coxa.
- Aqui est uma admirvel ilustrao para a minha tese sobre as relaes entre as elites e as massas. Quem idealizou o canal do Panam? Um super-homem: De Lesseps. 
Outros homens de prol compreenderam o alcance dessa gigantesca obra e a puseram em execuo. Uma equipe de engenheiros e empreiteiros competentes, isto , uma aristocracia 
da inteligncia e da cultura, encarregou-se da direo dos trabalhos. E a massa, uma multido de ndios, mestios e negros, trabalha como os escravos trabalharam 
para construir as pirmides do Egito. Muitos deles esto morrendo e ho de morrer como moscas. Mas que importa? Esse  o destino da ral.
Chiru escutava-o com ar inteligente. No cansava de dizer que admirava o saber e que, apesar de ignorante, podia apreciar os homens preparados. Aproximou-se do tenente 
de artilharia, por cima de cujo ombro ficou a olhar as fotografias da obra do canal estampadas nas pginas de
Illustration.
- Mas sem essa ral - replicou Rodrigo -, sem essa escria que tanto desprezas, no ser possvel a construo do canal.
- Claro! Que seria dos teus gachos se no fossem os cavalos que montam e os bois que puxam as carretas? No ser isso que me levar a colocar o cavalo ou o boi 
no mesmo nvel do cavaleiro e do carreteiro.
Neco tirou um acorde do violo e comeou a cantarolar a Casinha pequenina.
Tu no te lembras da casinha pequenina,
Onde nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro do lado, que coitado,
De saudade j morreu...
456
Puxou um sentido ai, que lhe veio do fundo do peito de seresteiro.
- Eu quero mame! - soluou Lucas.
Saturnino deps a flauta sobre o consolo, aproximou-se do tenente com ares de enfermeiro, tirou-lhe o copo da mo, limpou com um leno a baba que lhe escorria pelo 
queixo e tratou de faz-lo sentar-se direito.
Rubim, ainda com LIllustration sob os olhos, traduziu:
- A Frana no poderia esquecer que foi ela a iniciadora dessa grande empresa, que foi ela que comeou os trabalhos com mais sucesso do que se quer reconhecer. No 
foi sem um profundo desapontamento que viu escapar-lhe a glria de levar a cabo uma tarefa to memorvel, e, desde ento, sempre seguiu com uma ateno benevolente 
os esforos dos americanos aplicados na continuao dessa obra.
Atirou a revista em cima da mesa e ajustou o pince-nez no nariz.
- Os franceses no podem esconder o seu despeito diante do fato de serem os americanos e no eles quem est construindo o canal do Panam.
- E  pena - observou Rodrigo - porque tenho mais confiana na engenharia francesa do que na norte-americana.
Intimamente no ignorava que isso era mero "palpite", nascido de sua simpatia pela Frana, pois para falar a verdade no sabia quase nada da engenharia francesa 
e muito menos da norte-americana.
- Esse canal interessa principalmente  Amrica do Norte - disse Rubim. -  uma obra de alcance no s comercial como tambm estratgico.
Rodrigo deu, ento, voz  sua m vontade para com os Estados Unidos. Era um pais grosseiramente materialista, uma nao de novos-ricos e comerciantes empedernidos. 
Que grande poeta, que grande romancista, que grande filsofo, que grande pintor, que grande compositor haviam dado ao mundo? A nica figura de estatura universal 
que tinham produzido - por uma inexplicvel aberrao - fora a de Abrao Lincoln. Confundiam tamanho com qualidade, preocupavam-se demais com cifras e estatsticas. 
Tudo
457
quanto possuam ou faziam era "o maior do mundo". E, apesar de serem senhores dum territrio quase to grande como o do Brasil, estavam estendendo seus tentculos 
de polvo pelos pases vizinhos, tinham j abocanhado Puerto Rico, e viviam a meter-se na vida de Cuba e do Mxico, do qual j haviam arrebatado o Texas e a Califrnia.
- E como detesto Theodore Roosevelt! - exclamou. - Esse sargento caador de onas!
- Pois eu o admiro - retrucou Rubim. - Pode no ter a inteligncia dum super-homem, mas tem os nervos, a vontade e a coragem dum lder.
- Dem-me a Frana! Toujours Ia Fmnce, l'espnt, Ia finesse, Ia juste mesure!
No estava bem certo de amar a justa medida, mas - que diabo! - quando se est um pouco tonto, ama-se tudo, tudo menos Teddy Roosevelt!
- A Frana morreu em 70 - replicou o tenente de artilharia.- De l pra c tem procurado no amor, na depravao, nos bizantinismos literrios, no refinamento do gosto, 
uma compensao para seu fracasso como nao guerreira. Os descendentes de Napoleo Bonaparte hoje em dia bebem champanha nos sapatinhos das vedettes, danam canc 
nos cafs-concertos e lem novelas pornogrficas. Uma nao em pleno processo de decadncia!
- Tu no te lembras das tuas juras,  perjura? - perguntava o Neco com voz dolente. Saturnino lidava ainda com Lucas, que agora ressonava, o queixo cado sobre o 
peito.
- Toujours Ia France! - gritou Rodrigo. E em seguida, levando o indicador aos lbios, murmurou: - Silncio, a Dinda est dormindo.
- Pois me dem a Alemanha - retrucou Rubim -, a terra dos grandes filsofos, dos grandes msicos, dos grandes poetas e dos grandes guerreiros.
- Vive Ia France!
Rodrigo lanou um olhar amoroso para a aliana de ouro que lhe luzia no anular da mo direita.
458
- Viva o Brasil, bolas! - vociferou Chiru, vermelho de patriotismo.
Saturnino aproximou-se de Rodrigo.
- O Lucas est bbedo como um gamb.
Todas as atenes se voltaram para o tenente de obuseiros. Rubim tentou acord-lo mas no conseguiu.
- E agora, como  que vou levar esse cavalheiro para o hotel?
- Deixe o tenente aqui - sugeriu Rodrigo. - Tenho camas de sobra l em cima. Neco! Pra com essa cantoria e vem nos dar uma demo. Chiru, tu que s um Hrcules...
Chiru passou os braos por baixo das axilas de Lucas e tranou as mos contra o peito dele; Neco segurou o tenente pelas pernas e assim o levaram para cima, estendendo-o 
na cama de Torbio. Saturnino tirou-lhe as botinas e a tnica, afrouxou-lhe a cinta e cobriu-o com uma colcha.
Eram mais de quatro horas da madrugada quando os amigos deixaram o Sobrado. Duma das janelas do escritrio, Rodrigo acompanhou-os com o olhar. Chiru ia de brao 
dado com Rubim, provavelmente a falar-lhe em tesouros enterrados e salamancas. Atrs deles, Neco e Saturnino tocavam uma polca, e por muito tempo ainda, mesmo depois 
que o grupo desapareceu por entre as rvores da praa, Rodrigo ficou a ouvir os trinados da flauta.
Fechou as janelas, voltou para a cozinha e ali se quedou a olhar para o cometa. Seu ncleo finalmente se fazia visvel - um ponto luminoso e ntido na extremidade 
superior da cauda, que tomava um quarto do cu. Vnus agora brilhava intensamente.
459


XIX
Junho entrou com fortes geadas. Um velho morador de Santa F garantiu: "Vamos ter um inverno brabo". Rodrigo tirara do guarda-roupa, numa aura de naftalina muito 
agradvel a seu olfato, pelo que evocava de coisas limpas e civilizadas - o sobretudo de casimira preta com gola de astrac. E era com prazer que o usava  noite, 
quando saa a visitar a noiva. Enfiava tambm as luvas de pele de co e as polainas de camura cinzenta. No podia deixar de sorrir ao pensar no berrante contraste 
entre seus trajes citadinos e os dos homens que encontrava nas ruas, encolhidos dentro de ponchos, os ps metidos em botas embarradas, as caras assombreadas sob 
as largas abas dos chapus campeiros.
Numa fria manh daquela primeira semana de inverno, chegou um prprio do Angico, trazendo-lhe um bilhete de Licurgo:
Meu filho. O velho Fandango morreu hoje ao clarear do dia e ns vamos retardar o enterro para o senhor poder assistir.
Rodrigo leu e releu o lacnico bilhete com o esprito em branco, sem sentir a emoo que a notcia devia despertar-lhe. Sua primeira impresso foi de contrariedade: 
sair de jardineira num dia gelado como aquele e rodar durante quatro horas a fio pelas estradas que levavam  estncia, era positivamente a ltima coisa que ele 
desejava. O bilhete, porm, podia ser resumido numa palavra: Venha. Mostrou-o  tia.
- Pobre do velho. Eu tambm vou.
460
Embarcaram logo aps o almoo e chegaram  estncia por volta das quatro e meia. Rodrigo abraou o pai - que lhe pareceu desfigurado e abatido - e o irmo, que lhe 
contou como Fandango morrera. O velho estava debruado sobre uma cerca, bombeando o nascer do sol, quando de repente caiu para a frente, sem um ai, e ali ficou, 
dobrado sobre a tbua, com os braos pendentes.
- No morreu - concluiu Torbio. - Foi uma vela que o vento apagou.
O vento soprava ainda sobre as coxilhas do Angico, entrava assobiando pelas frestas da casa e fazia farfalhar os bambuais no fundo do quintal. Os campos eram dum 
triste tom de mate, sob o cu de cinza.
Fandango estava estendido dentro dum caixo rstico que os pees haviam feito com madeira dos matos do Angico. Parecia apenas adormecido e Rodrigo teve a impresso 
de que ele sorria. Era um sorriso matreiro, como se o velho estivesse empulhando a morte ou zombando daquela gente que ali estava ao redor do seu corpo, calada e 
sria, enquanto as chamas das velas de sebo lutavam com o vento, num aflitivo apaga-no-apaga.
Pees, agregados e posseiros do Angico encontravam-se no velrio com suas mulheres, chinas e filhos. Rodrigo reconheceu, em muitas daquelas fisionomias, traos que 
lhe eram familiares. Na pequena pea achavam-se congregados quase todos os Gares moradores dos campos de seu pai. Muitas das mulheres estavam grvidas, as barrigas 
intumescidas sob os molambos sem cor. Viu Ondina a um canto e achou-a mais corpulenta, mais adulta. Olhou com certa apreenso para o ventre da chinoca, mas ficou 
tranqilo ao verificar que ela no apresentava nenhum sinal externo de gravidez.
Licurgo acercou-se do filho e murmurou:
- O velho vivia dizendo que queria ser enterrado no topo da coxilha do Coqueiro Torto. Vamos fazer a vontade dele.
Rodrigo sacudiu a cabea lentamente. Sentia muito frio e o quadro que tinha diante dos olhos deixava-o confrangido. No lamentava o velho Fandango, que afinal de 
contas, vivera vida longa e rica. Tinha pena, isso sim, dos outros, dos que o estavam velando. Era, porm, uma pena temperada de impacincia, uma piedade sem
461
1":
calor humano, em suma, um sentimento gelado e triste como aquela tarde de junho. Por mais que se esforasse, no podia amar aquela gente e era-lhe difcil e constrangedor 
ficar com aqueles miserveis por muito tempo na mesma sala, a sentir-lhes o cheiro, a ver-lhes as caras terrosas, algumas das quais duma fealdade simiesca.
Maria Valria aproximou-se do caixo, olhou longamente para o velho amigo e depois fez algo que Rodrigo jamais poderia esperar dela. Inclinou-se e deps um beijo 
na testa do morto. E de olhos secos, fisionomia impassvel, fez meia-volta e se foi.
s cinco horas da tarde, o cortejo fnebre deixou a casa da estncia. Como o caixo no tivesse alas, foi levado numa carroa. Licurgo, ladeado pelos filhos, seguiu 
a p atrs do veculo, encabeando o cortejo.
Das estncias das redondezas viera gente a cavalo, de carreta, de carroa ou a p para assistir ao funeral: fazendeiros, agregados, capatazes, pees, posteiros. 
Vieram tambm ndios vagos, esmoleiros e at alguns gringos das colnias. Todos conheciam e amavam Fandango. Cavalarianos postaram-se em duas longas alas na encosta 
da coxilha e, quando a carroa passou com o corpo, tiraram os chapus. L no alto, ao p do coqueiro torto, em torno da cova aberta pelo negro Antero, via-se uma 
aglomerao de homens, mulheres e crianas.
Contemplando o quadro do sop da coxilha, Rodrigo sentiu um calafrio, e a custo conteve as lgrimas. Aquilo lhe parecia o funeral dum guerreiro antigo. O vento gemia. 
O cenrio em derredor tinha uma beleza severa e spera. No entanto, refletiu ele, Fandango costumava dizer: "Quero que meu enterro seja abaixo de gaita e que seis 
morochas bem guapas carreguem cantando este corpo velho, coxilha acima".
Antes de descerem o caixo ao fundo da cova, abriram-no mais uma vez.
Fandango ainda sorria. Num mpeto que no procurou conter, Rodrigo saltou para cima da carroa e falou:
- Fandango, amigo velho, quero te dizer alguma coisa em meu nome e no de todos os teus amigos, antes que te vs embora pra sempre. Um hornem como tu no pode se 
acabar. Algo de ti
462

tem de continuar com a gente, e  por isso que ns vamos te plantar no cho, nesta terra boa do Angico, na esperana de que te transformes amanh numa rvore de 
sombra, bela, forte e generosa como tu. Viveste uma vida comprida e cheia. Morreste como querias: de p e de repente. No eras apenas um homem, mas tambm um smbolo 
- um smbolo deste velho Rio Grande indomvel, meio rude mas cavalheiresco e bravo, eras o representante duma estirpe antiga e nobre, que hoje est correndo o risco 
de se acabar...
Fez uma pausa. Olhou para o pai. Licurgo estava de cabea baixa, apertando com fora o chapu nas mos crispadas. Ao seu lado, Torbio, de cara erguida, no fazia 
nenhum gesto para esconder as lgrimas que lhe escorriam pelas faces.
Rodrigo, ento, no pde mais conter o pranto. Tentou continuar o discurso, mas um soluo lhe afogou a voz. Por alguns segundos ficou a chorar de mansinho, com as 
mos espalmadas sobre o rosto, mais comovido com suas prprias palavras e com a beleza do momento do que com a morte do amigo. Por fim, mais calmo, enxugando os 
olhos com o leno, prosseguiu:
- Tinhas o mapa do Rio Grande na cabea e no corao. Por onde quer que andasses, at os passarinhos te conheciam e estimavam. Foste um sbio e um santo  tua maneira, 
um rapsodo desta terra e desta gente, o melhor contador de causos que conheci. E neste momento, no outro lado da vida, montado num dos teus muitos pingos de estimao 
que morreram antes de ti, imagino-te cruzando num trote faceiro as invernadas da eternidade. Vejo-te chegar  porteira do cu, gritando: " de casa!" E vejo So 
Pedro olhar para fora e dizer aos seus anjos: "Abram a porta, meninos,  o Fandango. Entre, compadre, sente e tome um mate, faz de conta que a casa  sua". Fandango, 
amigo velho, at por l!
O caixo foi descido  cova. Licurgo agachou-se, apanhou um punhado de terra e atirou-o sobre ele. Outros o imitaram. O negro Antero tomou da p e comeou a entupir 
a cova. Aos poucos o grupo se foi dispersando.
Ao descerem para a casa, Licurgo resmungou, taciturno:
463
- No carecia o senhor fazer discurso. O Fandango no era homem dessas coisas...
Rodrigo, que imaginava o pai orgulhoso de sua orao, ficou desapontado. Sentiu-se, porm, um pouco consolado quando Bio, tomando-lhe afetuosamente o brao, cochichou:
- Me fizeste chorar, filho da me.
- Eu tambm chorei...
- Somos duas vacas.
Em fins de julho, a caminho de So Lus, o senador Pinheiro Machado fez uma breve visita a Santa F. Hospedou-se na casa de Joca Prates, confabulou com os correligionrios, 
foi homenageado no Centro Republicano e, durante vrias horas, fez a cidade vibrar com sua presena.
Quando saiu  rua, de botas, bombachas, casaco de casimira escura, chapu de feltro negro, e um pala de seda enrolado no pescoo e atirado por cima do ombro - mulheres 
corriam s janelas para v-lo passar, homens detinham-se nas caladas, cumprimentavam-no respeitosamente, tirando os chapus, e depois ficavam a segui-lo com o olhar. 
E assim, ladeado por Joca Prates e Titi Trindade, o senador subiu a p a rua do Comrcio, encabeando um grupo que foi aos poucos engrossando e que, ao chegar  
praa da Matriz, parecia quase uma procisso. Pinheiro Machado entrou com a comitiva na Intendncia, onde foi homenageado pela Cmara Municipal, cujo presidente 
o saudou num breve discurso. Menos de meia hora mais tarde, saiu sozinho do pao municipal, atravessou a rua, entrou na praa e parou um instante junto ao busto 
do fundador de Santa F. E os curiosos que o observavam, viram depois o poltico mais poderoso do Brasil cruzar a praa a bater na porta do Sobrado. O senador ia 
visitar os Cambars! A notcia espalhou-se, rpida, pela cidade, despertando os comentrios mais desencontrados. "Vai puxar as orelhas do Licurgo e do filho"- diziam 
uns. "Qual! - retrucavam outros - Vai s visitar um velho
464
correligionrio e amigo." "Pois eu acho - insinuava-se ainda - que o senador quer trazer a ovelha negra de volta ao aprisco republi-
cano...
Rodrigo estava no consultrio quando lhe vieram contar a grande novidade. Seu primeiro impulso foi o de voltar correndo para casa. O amor-prprio, porm, ditou-lhe 
outra conduta. Que diabo! A visita no  pra mim... Afinal de contas, estamos em campos opostos nesta campanha poltica. Se o homem quiser conversar comigo, que 
venha ao meu consultrio. Se no quiser, que v pr diabo!
Sabia, porm, que essa atitude de superioridade estava longe de ser sincera. Na realidade, a notcia da visita do senador ao Sobrado deixara-o alvoroado. Mandou 
embora os clientes que se encontravam na sala de espera, lavou as mos, vestiu o casaco, sentou-se  mesa e comeou a rabiscar nervosamente nos papis de receita. 
No podia esconder sua admirao por aquela figura de caudilho urbano. Sempre achara prodigioso que um homem nascido numa casinhola da rua do Comrcio, em Cruz Alta, 
pudesse ter atingido tamanhas altitudes na geografia poltica do Brasil. Seus ditos e a crnica de seus feitos corriam o pas de norte a sul, constituindo j elemento 
de folclore. Muitas vezes em discusses no Senado fizera frente a Rui Barbosa e, embora no pudesse ombrear com a "guia de Haia" em matria de erudio e eloqncia, 
sua presena de esprito, sua solrcia e seu bom senso de tropeiro lhe haviam feito levar a melhor em mais duma polmica com o senador baiano.
Rodrigo sentia-se no s fascinado como tambm intrigado por aquela personalidade complexa, que s vezes lhe parecia um singular ponto de encontro do campo com a 
cidade. Pinheiro Machado trajava com o esmero dum Brummel, mas as bombachas e as botas com esporas lhe sentavam to bem quanto o fraque e as botinas de verniz. O 
fato de ser visto na rua do Ouvidor de colarinho engomado e plastro no o impedia de levar um punhal na cava do colete a fantasia. Embora no fosse homem habituado 
a recorrer  violncia, poder-se-ia dizer que psicologicamente trazia sempre nas mos um rebenque com o qual no hesitava em fustigar
465
a cara dos insolentes. Sedutor consumado, sabia fascinar tanto as mulheres como os homens, e para aliciar adeptos entre estes ltimos, contava-se que costumava 
alternar o tratamento paternal com o sobranceiro, chegando, no raro, a usar artifcios quase femininos de conquista. Era fora de dvida que nascera para mandar. 
Tinha como poucos o senso de autoridade combinado com o da oportunidade, e mesmo os que no o amavam (e estes eram legio) no deixavam de respeit-lo ou admir-lo.
E esse homem excepcional entrara, havia pouco, no Sobrado!
Rodrigo ps-se de p e caminhou at a janela, no instante em que Pepe Garcia chegava  farmcia.
- Mira, hijito! - gritou o pintor, excitado, irrompendo no consultrio. - El senador est en tu casa.
- Eu sabia - respondeu Rodrigo, com buscada indiferena.
- Tu pap te llama. El senador quiere hablar contigo, Rodrigo ps o chapu e saiu. No caminho perguntou:
- Falaste com o homem?
- Pues claro. Don Licurgo me Io present.
- Que achaste dele?
- Es muy hombre. Me gustara pintar su retrato. Parece um jefe gitano. Que querer ei de ti?
Rodrigo sorriu:
- Decerto vem me oferecer a pasta da Justia...
- Quien sabe, hijo? Chiru dice que nasciste empelicado...
- Anda. Despus me Io contars todo.
Achavam-se os trs na sala de visitas, e Licurgo, no breve silncio que se fizera aps as apresentaes, puxara j trs pigarros. Sentado numa poltrona, com as pernas 
cruzadas, Pinheiro Machado olhou firme para Rodrigo, com ar avaliador.
- Estive conversando com seu pai - disse, com sua voz pausada e grave. - Um homem como ele, um castilhista dos bons tempos, no pode ficar  margem do partido. Essas 
brigas de famlia
466
so como chuvas de vero: caem com muito barulho mas 
passam.
Rodrigo olhava intensamente para o senador, cuja presena parecia aquecer a atmosfera da sala. Don Pepe tinha razo. Aquele homem de negra cabeleira crespa e olhos 
magnticos lembrava mesmo um chefe cigano. Em seu rosto, dum moreno queimado, havia uma expresso que tanto sugeria crueldade como ascetismo: podia ser tanto a face 
dum bandoleiro como a dum profeta, Era, sem a menor dvida, a mscara dum condutor de homens. O visitante puxou do bolso a cigarreira de ouro, tirou dela um crioulo 
caprichosamente feito, prendeu-o entre os lbios e ps-se a bater distrado nos bolsos. Rodrigo ergueu-se, rpido, riscou um fsforo e aproximou-o da ponta do cigarro 
do senador.
(Um dia - contava-se - estando a jogar bilhar com amigos no Rio de Janeiro, Pinheiro Machado fez uma pausa para acender o crioulo. Como o vissem apalpar os bolsos 
 procura de fogo, dois dos companheiros riscaram fsforos ao mesmo tempo, com uma presteza servil. Mas o senador entrementes encontrara o isqueiro, com o qual acendeu 
o cigarro, murmurando com toda a pachorra: "Quem pita carrega fogo".)
Rodrigo corou, soprou a chama do fsforo e volveu para sua cadeira, furioso consigo mesmo por se ter mostrado to solcito.
O senador entrecerrou os olhos e lanou para o mais jovem dos Cambars um olhar cativante.
- O senhor, dr. Rodrigo, um moo inteligente e de futuro, que  que est fazendo fora do partido?
- Senador, devo dizer-lhe com toda a sinceridade que nas ltimas eleies no s permaneci fora do partido como tambm...
Pinheiro Machado cortou-lhe a frase com um gesto.
- Eu sei, eu sei... Estou  par de todas as suas atividades. Vi o seu jornal, li os seus artigos.
Rodrigo sentiu-se diante de Malvina Travassos, professora pblica, na hora negra da palmatria.
- O senhor pertence a uma antiga famlia republicana. Nesta hora, qualquer diviso do partido s poder ajudar nossos inimigos. Alis, todo o seu esforo ficou perdido... 
O candidato civilista foi
467
derrotado, o marechal Hermes est eleito, ser empossado por bem ou por mal, e h de governar at o fim de seu quatrinio com a maioria ou sem ela!
Rodrigo olhava fixamente para as botas lustrosas do senador, que tinha os ps pequenos (coisa - dizia-se - de que ele prprio se envaidecia).
Em vo Rodrigo se esforava por combater o sentimento de culpa que o desconcertava e inibia. Tomara as palavras do visitante como uma repreenso paternal. De resto, 
Pinheiro Machado parecia-se um pouco com seu pai, no s no fsico como tambm no timbre de voz e no jeito pausado e grave de pronunciar as palavras.
- Afinal de contas - animou-se Rodrigo a perguntar - que  que o senador prope?
- Que cessem duma vez por todas esses ataques mtuos, que no dispersem foras, que no percam tempo com essas brigas municipais. J bastam os inimigos que o Rio 
Grande tem fora daqui!
- Mas voltar atrs agora seria uma desmoralizao...
- Quanto tempo faz que seu jornal no aparece?
- Uns meses...
- Pois ento? Ningum obriga o senhor a continuar. Fique quieto poi uns tempos. O Trindade me garantiu que A Voz j cessou por completo os ataques.  ou no  verdade?
Rodrigo sacudiu a cabea lentamente, numa afirmativa relutante. Por alguns segundos Pinheiro Machado ficou a pitar em silncio, mas com o olhar sempre focado no 
rosto do interlocutor.
- Ainda que mal pergunte, doutor, que foi que o senhor pretendeu mesmo com a sua campanha contra o intendente?
- Fazer justia, senador.
Pinheiro Machado sorriu o seu famoso sorriso s de olhos, em que os lbios permaneciam imveis e apertados.
Olhou para Licurgo e, fazendo com a cabea um sinal na direo de Rodrigo, perguntou:
- Com quantos anos est essa figura?
- Vinte e quatro - respondeu o rapaz, com uma aspereza agressiva.
- Tem ainda muito que aprender...
468
O visitante passou pelos cabelos a mo pequena e bem modelada.
- No, senador, ou a gente nasce decente ou nunca mais aprende.
Esperou que o outro explodisse num protesto. Pinheiro Machado, porm, olhou reflexivamente para a ponta do cigarro.
- Todas as coisas dependem dei cristal com que se Ias mira, como dizem os castelhanos.  muito difcil fazer sempre o bem ao povo sem nunca causar-lhe algum mal. 
O senhor, que  mdico, sabe disso melhor que eu... Um tumor s vezes pode vir a furo com emplastro de basilico. Mas h tumores que pedem bisturi. Talho de bisturi 
di, mas  para o bem do paciente.
Rodrigo sorriu. O senador sofismava.
- Eu s lamento que um moo como o senhor - continuou este ltimo - gaste a sua energia e o seu talento nestas questinculas inglrias.
Licurgo olhava tambm fixamente para o filho. Parece que sou um ru - pensava Rodrigo.
- Calculo que o senhor no queira passar toda a vida a escrever catilinrias contra o Titi Trindade. Tem que se projetar no cenrio estadual e mais tarde no federal. 
No acha, coronel?
Rodrigo percebeu um tremor na plpebra do olho esquerdo do pai.
- , meu filho, o senador tem toda razo.
- Mas uma reconciliao agora seria vergonhosa e eu prefiro o anonimato, o ostracismo poltico, tudo, a ter que me retratar.
- No estou pedindo que o senhor se retrate. Seria uma indignidade. Fique quieto no seu canto e vamos deixar que o tempo se encarregue do resto.
Quando o visitante se retirava, Rodrigo percebeu que Maria Valria ficava a espi-lo pela fresta duma porta. Licurgo levou o senador at a porta, onde se apertaram 
as mos.
- Sua visita foi uma honra para esta casa.
Rodrigo sentiu um contentamento de namorado quando Pinheiro Machado ps-lhe a mo no ombro, j com uma intimidade de velho amigo.
469
- Vamos, Rodrigo, quero que me acompanhes at a casa do Joca Prates. No tenhas receio, o Trindade no estar l e, se estiver, dou-te a minha palavra como no 
te forarei a uma reconciliao com ele.
Foi com uma exaltada sensao de orgulho que Rodrigo saiu a caminhar pela rua do Comrcio ao lado de Pinheiro Machado.
- Vou conversar com o dr. Borges de Medeiros a. teu respeito - prometeu o senador. - Vejo em ti um bom corte de deputado.  s questo de tempo. Ests ainda muito 
moo. Mas... digamos, daqui a uns quatro ou cinco anos, quem sabe? Deixa que esses petios de flego curto fiquem correndo carreira nestas canchas municipais. Tu 
s parelheiro que merece tomar parte em preos mais importantes.
Est tentando me subornar - refletiu Rodrigo - est me acenando com uma deputao...
No sabia se devia indignar-se ou envaidecer-se ante aquelas palavras. Amanh poderia fazer o que bem lhe aprouvesse: ressuscitar A Farpa, romper fogo de novo contra 
a situao, atacar o prprio Pinheiro Machado... (esta idia lhe dava uma reconfortante sensao de fora, por mais improvvel que parecesse). Agora, porm, ele, 
Rodrigo Cambar, simplesmente se entregava ao esquisito prazer de ser cortejado por uma figura do porte do "condestvel da Repblica".
Entraram a conversar sobre as ltimas eleies, e, ao passarem pela frente do Centro Republicano, de cujas janelas muitos dos apaniguados de Titi Trindade viram 
com indisfarvel espanto Pinheiro Machado de brao dado com o diretor Da Farpa, Rodrigo perguntou:
- O senhor no acha uma pena que um homem da inteligncia, da cultura e do carter de Rui Barbosa no tenha ainda conseguido chegar  presidncia da Repblica?
O outro, que naquele momento tirava o chapu para responder ao cumprimento dum homem que passava a cavalo pelo meio da rua, pareceu no ter ouvido toda a pergunta. 
Deu alguns passos mais em silncio e, depois, sem fugir completamente ao assunto, desconversou:
- Quando meus amigos vieram me dizer que o Rodrigues Alves tinha recusado sua candidatura pela oposio, estavam todos contentes, pois achavam que no senador Rui 
Barbosa teramos um adversrio fraco, sem dinheiro nem partido. Discordei deles e disse: "Esto enganados! No podamos ter pior adversrio. Se o candidato fosse 
o conselheiro Rodrigues Alves, ele ficaria em casa, depois de fazer dois ou trs discursos, e seus correligionrios  que teriam de levar adiante a campanha, e, 
fechadas as Cmaras, a comdia estaria acabada. Mas com Rui a coisa muda de figura. Esse homenzinho vai agitar o pas inteiro, na imprensa e na praa pblica. No 
se iludam, o Rui no teme coisa alguma. Ouam o que lhes digo, rapazes, esse baiano s tem uma qualidade maior que seu talento:  a sua coragem".
Pouco depois, quando j se aproximava da praa Ipiranga, Pinheiro Machado baixou a voz:
- Sabes que a situao financeira do Rui  calamitosa? No tem dinheiro e est cheio de dvidas. Foi o que ganhou com a campanha civilista.
Rodrigo sorriu.
- Ento essa histria de "mrtir da conveno"  mais que uma frase?...
O senador sacudiu lentamente a cabea. E minutos depois,  frente da casa de Joca Prates, disse ao apertar a mo de Rodrigo:
- H homens que nasceram talhados para o sacrifcio. Mas uma coisa te posso garantir: eu no tenho vocao para mrtir.
470
471
XX
Foi um inverno rude e cruel, aquele. A gua da lagoa do cemitrio amanheceu um dia coberta com uma camada de gelo da espessura dum vidro de vidraa. As geadas eram 
freqentes e, para cmulo dos males, junho fora um ms chuvoso. Agosto entrou com um rijo minuano, que soprou durante dois ou trs dias sem parar, sob um cu to 
lmpido e rtilo, que parecia - no dizer de Maria Valria - ter sido esfregado a coco com sabo. O Zago declarou que, desde que se estabelecera com farmcia, jamais 
vendera tantos xaropes e pastilhas contra tosse, tantos sinapismos, cataplasmas e linimentos. Os bolicheiros aumentaram sensivelmente a venda de cachaa. A Casa 
Sol esgotou seu estoque de ponchos, capas e artigos dela.
Sempre que fazia sol, depois do meio-dia viam-se nos quintais, nas praas ou nas caladas, homens a lagartear, metidos em ponchos, capas ou sobretudos, pitando, 
conversando, tossindo, expectorando ruidosamente, falando do tempo ou da poltica, recordando outros invernos e comparando-os com o presente. Quando anoitecia, as 
ruas ficavam completamente desertas e s vezes as nicas vozes que se ouviam nelas era o uivo do vento ou o ladrar de algum cachorro vagabundo. Em compensao, aquele 
inverno trouxe uma abundncia de laranjas e bergamotas duma doura de mel.
Os seres na casa dos Quadros recendiam confortavelmente a acar queimado. Dona Laurentina esperava Rodrigo com uma panela cheia de pinhes quentes. Aderbal zombava 
do futuro genro
472
que, muitas vezes, para ser agradvel  noiva, ficava a tomar mate doce em companhia das mulheres. E agora, passado o perodo de cerimnia, o noivo era recebido 
na cozinha, onde durante os seres, conversavam ao p do fogo.
No princpio daquele inverno, o coronel Maneco Macedo cara de cama com pneumonia, ficando  morte. Chamado a atendlo, Rodrigo passou vrias noites em claro  cabeceira 
do doente, conseguindo p-lo completamente fora de perigo antes de agosto. E quando, ainda na cama, emagrecido, plido, barbudo, numa trmula alegria de convalescente 
o estancieiro lhe pediu a conta, Rodrigo perguntou: "Por que tanta pressa?" Como o paciente insistisse, resolveu: "Bom. Fica a. seu critrio. O que o senhor decidir 
est bem". Achava ainda desagradvel fazer preos, cobrar contas, principalmente quando o cliente era pessoa de suas relaes. No dia seguinte Maneco Macedo mandou-lhe 
 casa dois contos de ris dentro dum envelope, o que pareceu a Rodrigo um pagamento mais que generoso. E estava ele a pensar na melhor maneira de gastar aquele 
dinheiro - mais conservas, discos novos? perfumes? roupas? um presente para Flora? - quando lhe apareceu Marco Lunardi, dizendo que a maquinaria encomendada para 
a fbrica estava a caminho, e, se o doutor inda se lembrava - no ? - do que haviam conversado o outro dia, pois ... E ficou com um ar acanhado, as mos na cintura, 
sem muita coragem de olhar o amigo bem nos olhos. Claro! - exclamou Rodrigo. E passou-lhe sem pestanejar o dinheiro que recebera do coronel Macedo. E quando o colono 
falou em assinar uma letra, repeliu a sugesto. Haveria melhor documento que a palavra dum homem honesto?
- Mas os honestos tambm morrem, doutor...
- Pois se morreres perderei apenas dois contos de ris, ao passo que tu ters perdido a vida. Como vs, teu risco  maior que o meu. Portanto, no se fala mais no 
assunto. Vamos comemorar o acontecimento.
Beberam um copo de Chianti  prosperidade da fbrica de massas alimentcias de Marco Lunardi.
473
Dona Emerenciana tambm cara de cama em meados de julho. No quis saber do dr. Matias nem do dr. Pndaro, o mdico militar: queria era o Rodriguinho. "Chamem esse 
menino, seno eu morro!"
Rodrigo sentiu uma curiosa sensao ao entrar pela primeira vez em sua vida no casaro dos Amarais. No Sobrado sempre ouvira referncias  velha rivalidade entre 
Cambars e Amarais. Sabia que fora naquele severo casaro de pedra que seu bisav morrera em
1836 varado por uma bala disparada possivelmente por um Amaral. Em 95 os federalistas, comandados por Alvarino, haviam sitiado o Sobrado, atirando contra a casa 
e seus moradores. As relaes de Rodrigo com o marido de dona Emerenciana eram as mais equvocas. Pouco se viam, e quando se avistavam na rua mudavam de calada, 
dobravam esquinas, faziam o possvel para no se defrontarem. Rodrigo, porm, no tinha nenhum rancor por aquele homem, e sabia que Alvarino mais duma vez se referira 
a ele em termos elogiosos e cheios de simpatia.
Agora c estou eu entrando no casaro dos Amarais... Uma cena que bem podia estar nos folhetins de dona Emerenciana. Que dir o papai quando souber disto? Bolas, 
no fim de contas sou mdico e no posso faltar ao meu juramento. Recebi um chamado e vim...
Alvarino, que o esperava no vestbulo, estendeu-lhe a mo. Rodrigo, apertou-a em silncio. Dona Emerenciana recebeu-o efusivamente, com beijos na face e protestos 
de amizade. Rodrigo examinou-a e interrogou-a com todo o cuidado. Saiu do quarto e chamou o marido  parte.
- O corao de sua senhora no est nada bem... O que ela precisa  dum mximo de repouso e dum mnimo de emoes. Ah! E imprescindvel tambm que emagrea uns dez 
quilos.
O dono da casa fez um gesto de impacincia.
- A Emerenciana  uma mulher das custosas! Gosta de doce que nem formiga. Passa o dia comendo essas porcarias.
474
- Vou receitar um remdio e dar instrues para uma dieta.
Durante os vrios dias seguintes, Rodrigo visitou sua amiga a horas certas. Uma noite encontrou no quarto da doente tia Vanja, que, sentada ao p do leito, com os 
culos na ponta do nariz, lia  luz dum lampio o folhetim do Correio do povo, enquanto dona Emerenciana, sentada na cama, especada entre travesseiros a escutava 
de olhos semicerrados e uma expresso de felicidade no rosto. Rodrigo ficou entre as duas mulheres por alguns minutos estonteado no meio de tantas expresses carinhosas 
que partiam ora duma ora doutra, numa espcie de torneio em que cada qual se empenhava em descobrir a frase mais tenra, o adjetivo mais elogioso para atirar sobre 
o "Rodriguinho". Despediu-se delas, deixando-as a discutir as personagens do folhetim como Se se tratasse de criaturas vivas que conhecessem na intimidade. Ser 
que o conje vai casar com a Marie? E por que  que aquele sem-vergonha do dr. Monet no volta para o lar? Anda bebendo nas tavernas enquanto a pobre da esposa fica 
em casa se esfalfando a costurar, a costurar, a costurar...
Certa manh de espessa geada, espalhou-se a notcia de que na Sibria uma criana havia morrido enregelada. Rodrigo tomou o carro e foi v-la. Dava-se o nome de 
Sibria a um agrupamento de ranchos miserveis situado no alto duma coxilha, a leste da cidade. A denominao vinha do fato de ser aquela a zona mais fria de Santa 
F.
A criana morta estava atirada no cho, ao ar livre, hirta e roxa, com o rosto mido de geada, os olhos abertos e vidrados. Os parentes achavam-se reunidos em torno 
do pequeno cadver, com uma expresso de estupidez nas caras macilentas
Rodrigo providenciou para que se fizesse o enterro  sua custa deu dinheiro aos pais da criana e voltou para casa profundamente abalado. Era incrvel que coisas 
como aquela pudessem acontecer. Sentia-se um pouco culpado daquilo, pois no havia levado avante
475

seus projetos de assistncia aos pobres. Andava demasiadamente absorto na fruio feliz de sua prpria vida, de seus prazeres e de seus xitos.
Naquela semana levou ao Barro Preto, ao Purgatrio e  Sibria carroas cheias de sacos de feijo, milho, arroz, batatas - gneros que distribuiu entre os necessitados 
com entusiasmo e generosidade, mas sem o menor mtodo. Comprou cobertores e andou pelas casas dos amigos a pedir roupas e cobertas velhas, sapatos usados, ponchos, 
palas, chapus, meias... Encheu algumas carroas com todas essas coisas e tornou aos subrbios da misria. Convidou Chiru, Neco e don Pepe para ajud-lo. O espanhol 
trabalhou com os amigos sob protesto, murmurando a cada passo: "Esta no es Ia manera de resolver los problemas sociales. Eso es humillante. La ftida caridad cristiana! 
La ptrida generosidad burguesa!"
- Cala a boca, Pepito - ralhava Rodrigo, alegremente. - Trabalha, vamos!
Ele prprio andava dum lado para outro, a distribuir roupas, entrando e saindo dos ranchos e fazendo perguntas: - Quantos filhos tem? Onde  que trabalha? Quem  
que est doente aqui? - Enfurecia-se quando no conseguia respostas claras ou quando, no temor de serem esquecidos, aqueles miserveis se acotovelavam num atropelo, 
procurando cada qual ser o primeiro a receber os presentes.
- Ou vocs se acalmam ou eu paro com a distribuio e vou-me embora!
Erguiam-se para ele mos ossudas e encardidas, caras terrosas e descarnadas, como de cadveres recm-desenterrados. Santo Deus! Ali estavam mulheres feias e entanguidas, 
muitas delas aleijadas e quase todas com grandes olhos de tsicas; e homens guedelhudos, cujas barbas escuras e intonsas faziam ressaltar a palidez doentia dos rostos. 
Havia ali, numa promiscuidade repugnante, criaturas anquilosadas, rodas de tuberculose ou sfilis, escalavradas pela sarna, debilitadas pela disenteria. Crianas 
sem infncia, algumas com caras de fetos ou de bugios, outras de ventre intumescido pela opilao. Aquela gente tresandava a suor mil vezes dormido, a picum e a 
urina seca. Rodrigo chegava a ver em alguns deles os pulmes
476
carcomidos: quando falavam, parecia que iam vomitar pedaos dos bofes. Surgiam tambm homens e mulheres com feridas purulentas  mostra. Aonde vai parar a nossa 
raa? - perguntava Rodrigo a si mesmo. Se no tomarmos uma providncia sria, dentro de cinqenta anos seremos um povo liquidado!
Tornou  casa deprimido e fatigado, com um peso na conscincia. O que ele fizera naqueles dias no resolveria o problema. A misria e a doena continuariam entre 
aquela populao desgraada. A chaga seguiria aberta, a verter sangue e pus. Poderia ser remediada e at mesmo curada se todos os ricaos de Santa F decidissem 
entrar com uma quantia mensal com o fim de dar assistncia queles indigentes. Mas qual! Viviam insensveis s desgraas alheias, passavam sempre ao largo por aquela 
misria.
Exaltado, Rodrigo planejava fazer mais, e mais. E ainda naquele inverno, mandou trazer a seu consultrio muitos dos habitantes dos subrbios. Examinou-os, deu-lhes 
remdios e dinheiro para comprar leite.
" o pai da pobreza" - dizia tia Vanja para Maria Valria. - "Cabecinha de bano, corao de ouro."
E Cuca Lopes, adulo, uma tarde na farmcia, puxando insistentemente no guarda-p branco de Gabriel, que mirava Rodrigo com uma expresso quase exttica, exclamou: 
"Que seria de ns sem o Rodrigo, hein, que seria de ns?" O Pitombo da casa funerria fez um poema de p quebrado a que deu o ttulo de "Pai dos desgraados e no 
qual narrava os feitos caridosos
Do mancebo que habita Aquela casa bonita...
4
A visita do Pinheiro Machado ao Sobrado e o fato de ter sido o grande homem visto na rua de brao dado com Rodrigo Cambar tiveram um efeito mgico sobre muitos 
santa-fezenses a quem a campanha da Farpa contra a situao afastara dos Cambars. Ro~
477 
Rodrigo notava isso na maneira amvel e cordial com que certos republicanos agora o cumprimentavam.
Em meados de agosto, A Voz da Serra apareceu com um editorial cheio de subentendidos, em torno dessas rusgas de famlias que ocorrem periodicamente dentro dos partidos, 
mas que nada significam, por serem meras tempestades dentro dum copo d'gua. Nesse mesmo nmero, publicava-se uma notcia discreta sobre a distribuio de gneros 
alimentcios, roupas e cobertores  pobreza, por iniciativa dum jovem e prestigioso conterrneo, cujo nome deixamos de mencionar para no lhe ferir a reconhecida 
modstia.
Rodrigo leu o editorial e a notcia a sorrir e a murmurar por entre dentes ''Cachorros", mas na realidade j sem muito rancor, esquecido das ofensas passadas, compenetrado 
de seu papel de pai dos pobres, que o predispunha  tolerncia e ao perdo. Mostrou o jornal a Licurgo:
- Esto procurando uma brecha pra reconciliao. Influncia do senador...
- E qual vai ser a sua atitude?
- A de sempre. Inflexvel. Tenho mais que fazer do que andar me preocupando com essa corja.
Com efeito, tinha muito que fazer. Durante aquele agosto, sua atividade profissional chegou ao auge. S numa semana atendeu quase duzentos indigentes no consultrio 
e uns vinte a domiclio.
Um dia vieram-lhe contar que o Zago dissera: "O Rodrigo est fazendo toda essa caridade por pura exibio".
Ficou possesso, botou o chapu na cabea, deixou no consultrio um cliente semidespido ("Fique a que eu j volto!"), entrou na Farmcia Humanidade, segurou o Zago 
pela gola do guarda-p, sacudiu-o, empurrou-o violentamente contra a parede e berrou-lhe
na cara:
- Se continuares a falar mal de mim, cafajeste, eu te quebro essa cara, ests ouvindo? Fica sabendo que comigo ningum brinca.
O Zago empalideceu. No reagiu, ficou mudo, a boca aberta de espanto, os olhos esbugalhados, os braos cados. Rodrigo largou-o com uma careta de nojo, fez meia-volta 
e ganhou a rua, j irritado consigo mesmo por ter feito aquilo. Que lhe importava o
478
que pudesse andar dizendo dele um boticrio ignorante e despeitado?
Ao consultrio j agora no lhe vinham apenas doentes: comeavam a aparecer pessoas que pediam conselhos, solues para problemas de natureza ntima, em geral questes 
de famlia, dificuldades financeiras ou desavenas entre marido e mulher. "O senhor, que  um moo instrudo e viajado, me diga o que  que devo fazer."
Em casa,  hora das refeies, Rodrigo falava  madrinha nos casos que surgiam. Maria Valria achava uma pouca-vergonha ter uma pessoa a coragem de contar a estranhos 
intimidades de alcova, mazelas morais prprias ou de membros da famlia.
- Imagine, titia, eu agora feito juiz de paz. Era s o que me faltava!
Dava a entender que aquilo o desgostava, mas a verdade era que se sentia lisonjeado. Homens que teriam a idade de seu pai, vinham pedir-lhe o apoio moral, uma orientao 
na vida. Naquela ltima semana havia reconciliado um casal e impedido que um filho de Pedro Teixeira tirasse uma moa de casa.
Um sapateiro remendo que tinha a banca na rua do Faxinai, e a quem Rodrigo lancetara um tumor no pescoo, apareceu-lhe um dia no consultrio, contando-lhe, choroso, 
que um empregado da Auxiliaire lhe havia desonrado a filha de dezessete anos e recusava casar-se com ela.
Rodrigo foi procurar o sedutor, que era foguista, e encontrou-o nas oficinas da estao, junto da locomotiva, vestido de zuarte, com a cara riscada de carvo. Disse 
quem era e a que vinha. O rapaz quedou-se num silncio constrangido. O mdico comeou o sermo.
- O senhor procedeu muito mal e agora a nica soluo decente  o casamento.
479
- Mas foi ela que se ofereceu, doutor.
- No importa. Repare o mal que causou e evite que essa pobre menina caia na vida.
- Mas  que ganho muito pouco.
Rodrigo continuou a arengar o foguista. Usou a princpio de meios persuasrios. Por fim, perdeu a pacincia e ameaou: ou casa ou vai pra cadeia! Com quem  que 
voc 
pensa que est tratando? Tenho prestgio suficiente junto da Auxiliaire pra botar voc pra rua imediatamente!
O foguista ficou lvido. Seus lbios tremeram e por seus olhos

midos e escuros passou a sombra do medo. Rodrigo no tardou em compadecer-se do pobre-diabo. Tomou-lhe o brao. No se preocupe. Eu ajudo vocs. Meu pai tem um 
chalezinho perto dos trilhos. Casem e vo morar l de graa. Eu pago tambm as despesas do casamento. Vai ser no dia 1 de setembro. Est bem? Vamos ento providenciar 
prs papis...
Assistiu ao casamento religioso como padrinho da noiva. Seu primeiro pensamento ao v-la foi: "No teve mau gosto, o salafrrio". A menina tinha uma languidez morna 
e quase mrbida nos olhos castanhos, de longos clios, e era duma sensualidade que por assim dizer estava visvel a flor dos lbios carnudos.
Levou os noivos de carro para o chal, e ao voltar para casa soltou um tundo suspiro, dizendo para Bento:
- Ufl Desta estou livre.
Acendeu um cigarro, contente por ter feito uma boa ao. Mais um crdito na minha conta corrente no cu - pensou, sorrindo.
Duas semanas mais tarde, a noiva entrou-lhe no consultrio choiamingando que o marido estava embriagado em casa, ameaando espanc-la.
Rodrigo ficou agastado. Que diabo! Que  que pensam que eu sou? Delegado de polcia? Vigrio? Fiz vocs casarem, arranjeilhes onde morar, paguei as despesas, que 
mais querem?
A rapariga no dizia nada, limitava-se a chorar de mansinho, mordendo os lbios, apertando os olhos e deixando que as lgrimas lhe escorressem livres pelo rosto 
cor de oliva.
480
 Est bem. Vamos embora.
Mandou o boleeiro trazer o carro, entrou nele cinco minutos depois chegavam ao chal.
- Me espere aqui, que j volto, Bento. Se precisar, eu grito.
Entraram. O chal era pequeno, mas asseado. Encontrou o ferrovirio estirado na cama, de borco, a ressonar, uma garrafa de cachaa ao lado. Olhou 
para a rapariga como a pedir-lhe uma explicao. Ela balbuciou:
- Ainda agorinha ele estava acordado, querendo surrar em mim. Saram do quarto e fecharam a porta. Rodrigo voltou-se
para a menina e ps-se a dar-lhe conselhos. Tenha juzo, procure conversar direitinho com seu marido, seja boa para ele, tenha esperana, vocs so muito novos...
Continuou a falar, sem prestar muita ateno os olhos sempre fitos na interlocutora, que o mirava de um jeito que comeava a deix-lo perturbado. Calou-se, e o 
silncio que se fez
naquela sala sombria, de janelas fechadas, foi to sugestivo i
de sbito teve uma conscincia agudssima da presena
daqule corpo clido e jovem ali junto do seu. Conntinuou a falar... Pois . Tenha pacincia, com o tempo isso se arranja. Os seios dela arfavam e em pensamento 
tomou-os nas mos como se fossem limes 
verdes e rigos. Por que no? Por que no? Essa bruaquinha talvez nem saiba direito o que est fazendo. Mas acontece que eu sei.  melhor ir embora antes que 
me metam noutra enrascada... Aqule idiota bbado l no quarto, sem saber direito o que tem em casa. Deus d nozes... Sim, mas eu tenho dentes, e rijos. Vou morder 
esses limes. -
A morena sorria. Rodrigo estendeu os braos, puxou-a para si.
Pensou nos chapus-de-cobra que o corpo de Ondina tinha esmagado no cho do mato. No havia cogumelos no chal e a mulher do foguista, ao contrrio da caboclinha
481
revelou uma experincia amorosa que o deixou surpreendido. Onde, diabo, essas rapariguinhas aprendem tanta coisa em to pouco tempo?
Instinto - refletiu ele ao sair do chal, um quarto de hora mais tarde. Onde  que os animais aprendem? Em alguma escola? Em algum compndio? No. Puro instinto. 
Sexo  instinto.
No gostou do olhar oblquo e malicioso que Bento lhe dirigiu, quando ele subiu para o carro. Ser que o patife suspeita de alguma coisa? Ser que andou me espiando?
- Me metem em cada embrulho! - exclamou. Bento fez estalar o chicote. Os cavalos arrancaram.
No caminho, Rodrigo arrependeu-se do que havia feito. Ser que nunca vou criar juzo? Trao uma linha de conduta, sigo-a durante algum tempo e de repente, sem saber 
como, caio no primeiro alapo que me armam. Minha afilhada de casamento! Bom. Que seja a ltima vez. Mas o que eu preciso mesmo  casar o quanto antes!
Naquela noite teve uma conversa particular com o futuro sogro e sugeriu que o casamento fosse marcado para outubro prximo. Babalo chamou a mulher e consultou-a. 
Impossvel! - declarou Dona Titina. O enxoval da Flora ainda estava atrasado. Ento novembro!- contemporizou Rodrigo. A futura sogra sacudiu negativamente a cabea. 
Tambm no d,  muito em cima do lao... Pra que tanta pressa? At nem fica direito. Por que no deixam a coisa pr ano que vem?
Rodrigo saltou da cadeira:
- Isso no!
Babalo picava fumo, fleumtico, olhando para o futuro genro corno que a divertir-se com seu aodamento.
- No se afobe. V comendo os bolinhos da Titina. Tem tempo! Depois conversaremos.
Depois! Depois! Sempre depois! As eternas convenincias sociais, os eternos "no se pode", o medo dos filhos da Candinha, da boca do povo! Soltou um suspiro de impacincia, 
mas no teve outro remdio seno conformar-se com a situao.
Um dia foi procurado pelo irmo Jacques e mais dois maristas, que lhe vieram comunicar tei sido ele eleito presidente honorrio do Sport Club Chairua.
- Mas eu no entendo nada de futebol! - escusou-se, no de todo contrariado pela notcia.
- No  mesmo para entender, doutor - disse um dos religiosos. - S queremos o seu nome para prestigiar o nosso clube. J temos o nosso team, o nosso gronnd, e domingo 
que vem jogaremos uma partida contra o Sport Club Cruz Alta.
Rodrigo mandou buscar  adega uma garrafa de vinho branco e bebeu com os trs maristas  sade da nova sociedade esportiva.
No domingo seguinte, por volta das duas e meia da tarde, a banda de msica militar rompeu a tocar inesperadamente diante do Sobrado. Maria Valria e Licurgo correram 
 janela, intrigados. Rodrigo apressou-se a tranqiliz-los.
- No se assustem! Devem ser os jogadores.
De fato, no meio da rua,  frente da banda do regimento de infantaria, achava-se um dos filhos do Pedro Teixeira, empunhando uma grande bandeira tricolor. A seu 
lado, formados em fila singela, viam-se onze rapazes metidos em camisetas de listas coloridas, cales brancos curtos, e grossas meias de l de cano comprido.
Quando Rodrigo apareceu  janela, um dos maristas ergueu o chapu no ar e bradou:
- Viva o nosso presidente honorrio!
Os jogadores romperam a gritar em unssono: Hip-hip-hurrah! Hip-hip-hurrah!
Rodrigo sorria, respondendo  saudao com acenos. A seu lado, muito sria, Maria Valria murmurou:
- Que pouca vergonha! Uns homens grandes e peludos de cala curta!
Rodrigo teve a surpresa de ver, quase irreconhecvel entre os jogadores, o irmo Jacques, tambm uniformizado, com um barrete vermelho na cabea. Pendia-lhe do pescoo, 
amarrado a um barbante, um apito de metal.
482
483
O team de Cruz Alta, chegado aquela manh em trem especial, estava hospedado no Hotel dos Viajantes, onde agora esperava os rapazes do Charrua para com eles desfilar 
pelas ruas, ao som de dobrados, rumo da cancha, que ficava para as bandas do cemitrio.
Rodrigo no teve outro remdio seno assistir  partida. Pediram-lhe que desse o kick-off. Antes, porm, teve de fazer um breve discurso de saudao aos visitantes. 
Depois deu um pontap na bola, sob aplausos, e voltou para as bancadas, onde ficou sentado em companhia de dois maristas.
Havia pouca gente assistindo ao jogo. Um dos religiosos disse:
- O doutor compreende,  um esporte novo e o povo ainda no est familiarizado com ele. Mas dentro de alguns anos o futebol ter muitos aficionados.
Entrou a explicar as regras do jogo a Rodrigo, que no conseguiu interessar-se por elas e muito menos compreend-las. O que ele achava interessante e pictrico era 
ver aqueles rapazes de uniformes coloridos (os cruz-altenses traziam camisetas azuis) a correr dum lado para outro, sob um cu luminoso sem nuvens, enquanto um nordeste 
picante fazia tremular as bandeiras de ambos os clubes. Quanto ao mais, parecia-lhe grotesco, absurdo que andassem aqueles vinte homens a correr desesperadamente 
atrs duma bola, a darem-lhe valentes pontaps, a se empurrarem e trocarem caneladas. Ao cabo de vinte minutos de jogo os cruz-altenses conseguiram fazer a bola 
passar por entre as traves do goal dos santa-fezenses, o que ps toda a equipe visitante num delrio de pulos, abraos e aclamaes. Os maristas estavam arrasados. 
"Foi culpa do goal-keeperf - bradou um deles, gesticulando. - "Deixou a bola passar pelo meio das pernas."
A esfera de couro foi posta no centro do campo e Rodrigo viu irmo Jacques pass-la para o companheiro da direita, que tornou a devolv-la ao marista, o qual se 
precipitou a correr com ela na direo do goal cruz-altense, esquivando-se dos adversrios que o atacavam e conseguindo, por fim, com um violento pontap, faz-la 
passar por entre as mos do goal-keeper de Cruz Alta. Estava empatada a partida. Os dois maristas, de p, os chapus no ar, gritavam: "' Epatanti Formidable! Colossal!' 
E faziam sinais frenticos
484
para o irmo Jacques, que acenava para eles, sorridente, e quase to vermelho quanto o barrete que lhe cobria a cabea.
Na segunda metade do jogo houve, em dado momento, um tremendo choque, peito contra peito, entre dois adversrios, e ambos tombaram ao cho, aparentemente sem sentidos. 
Rodrigo foi chamado para atend-los. Empregou num deles a respirao artificial, mandou dar um gole d'gua a ambos, e dentro de dez minutos declarou-os aptos para 
continuarem a jogar.
Pouco antes das cinco horas, voltou para o Sobrado, extenuado, o corpo modo, como se ele tivesse andado a correr durante oitenta minutos atrs daquela pelota de 
couro.
- Presidente honorrio do Charrua! - exclamou ao estender-se na cama com um gemido. - Me acontece cada uma!
7
Na primeira semana de setembro uma troupe espanhola, Los Farsantes de Sevilla, veio dar quatro espetculos no Teatro Santa Ceclia. Era um grupo pequeno, composto 
de don Porfrio Palcios, bartono, de sua esposa, soprano ligeiro, duma canonetista e danarina ainda jovem, "La Granadina", e dum catalo atarracado e de ar aborrecido, 
e que batia os acompanhamentos no piano com uma m vontade que se evidenciou ao pblico desde o primeiro espetculo. Don Porfrio e a esposa cantavam rias e duetos 
de zarzuelas como Los gavilanes, La gran via, La verbena de Ia paloma e Dona Francisquita. Na primeira noite, ao interpretar o Cabbalero de grada, metido numa casaca 
bem cortada, don Porfrio conquistou desde logo a platia. Era um homem bem conservado para os seus cinqenta e cinco anos de idade: estatura me, rosto comprido 
e escanhoado, mas sempre sombreado de azul pela barba cerrada, a cabeleira rala com fundas entradas, o nariz longo e afilado. A esposa - alta, cheia de corpo, loura 
e imponente como uma valquria - no estava artisticamente  altura do marido. Tinha uma voz estrdula e meio gasta, desafinava com freqncia e no conseguia atingir 
as notas agudas das rias e canonetas que interpretava.
485
O verdadeiro elemento de atrao dos espetculos, entretanto, era "La Granadina", que desde o primeiro nmero como que prendera fogo no elemento masculino da platia. 
Era uma madrilenha que beirava a casa dos trinta, mida mas bem-feita de corpo, de olhos negros e vivos, uma voz meio rouca e um jeito canalha de menear os quadris. 
Danava jotas, seguidilhas e paso-dobles e cantava canonetas cuja letra picante sabia enfatizar com olhares safados e oportunas piscadelas. As mulheres de Santa 
F acharam-na indecente, mas no puderam ficar indiferentes ante seu rico guarda-roupa, seus mantons fie mamla, seus leques, berloques, e peinetas. Quando ela entrava 
em cena, Rodrigo, que no perdeu espetculo, tinha a impresso de que o teatro de repente ficava mais quente, como se houvessem aberto a boca duma fornalha.
Don Pepe, que desde a chegada dos Farsantes de Sevilla travara relaes com os compatriotas, disse a Rodrigo:
j-j.jy qe conoccrlos, hombre. Don Porfrio es un tipo muy
culto. Hijo de una famlia iluscrsima de Madrid, sabes? Me conto toda su vida; una verdadera novela. Es abogado pero abandono Ia profesin porque su pasin es ei 
teatro. Muy interesante. Y mira, hijo, "La Granadina", cofio, que mujercita!
No estava Rodrigo interessado em conhecer pessoalmente Los Farsantes? indagou o pintor. Claro, homem, claro.
Combinaram que se encontrariam naquela noite na Confeitaria Schnitzler, depois do espetculo com que a troitpe se despedia "dei distinguido pblico de esta hermosa 
ciudad".
Don Porfrio fez um breve discurso em cena aberta. Um admirador desconhecido mandou ao palco uni ramilhete de flores para La Granadina. A sra. Palcios cantou uma 
ria da Traviata, c Rodrigo fechava os olhos e retorcia-se na cadeira, agoniado, sempre que a cansada soprano se avizinhava dos agudos.
Terminado o espetculo, deixou Flora em casa e, como havia combinado, dirigiu-se para a confeitaria. Don Pepe l estava, sentado a uma mesa com Los Farsantes de 
Sevilla. Fizeram-se as apresentaes. Don Porfrio com suas mesuras de fidalgo, parecia ainda estar no palco, no papel dum caballero de grada. "Encantado, seiior, 
encantado, es un gran honor." A soprano, vista de curta distncia.
486
 luz de acetilene, com sua pele muito branca e gretada, tinha algo de boneco de maapo. O aperto de mo de La Granadina foi quente e demorado e Rodrigo sentiu 
no olhar dela um mundo de promessas titilantes. Que pena essa diabinha ir embora amanh... Don Pepe traou para os compatriotas uma breve biografia de Rodrigo: quem 
era, o que fazia, o que representava para Santa F. Os outros olhavam para o biografado - don Porfrio com um ar respeitoso e admirativo; a esposa, apenas com um 
vago interesse; La Granadina, com uma espcie de ateno gulosa.
- Que vamos a beber? -- perguntou a sra. Palcios. Rodrigo teve uma idia.
- Esperem. Por que no vamos l para casa? Temos melhores cadeiras, timos vinhos, umas guloseimas e um bom gramofone... Que tal?
A sugesto foi aceita com entusiasmo. Mas o bando no havia ainda chegado  calada e j Rodrigo se arrependia do convite. Era-lhe agradvel a idia daquela tertlia 
bomia, mas ocorria-lhe agora que a visita dos espanhis podia dar motivo a maliciosos comentrios na cidade. Levar atores e atrizes a uma casa de famlia? Era uma 
coisa inaudita. Para aquela cidade provinciana, atriz era sinnimo de prostituta. Vou pagar caro por esta extravagncia - refletia, caminhando ao lado de Porfrio, 
rua do Comrcio em fora. Pensou na noiva e no que ela podia imaginar quando viesse a saber daquilo. E que diria seu pai? E sua madrinha? Felizmente eram onze horas 
da noite, a rua estava deserta, as casas fechadas. Ao mesmo tempo que fazia essas reflexes, Rodrigo revoltava-se no s contra os preconceitos sociais como tambm 
contra si mesmo por lhes estar pagando aquele tributo. Bolas !... Sei o que fao. Fao o que entendo.
Ao entrarem no Sobrado, don Pepe pediu que falassem bai-xo, pois a madrinha de "mi amigo, una preciosa seiiora, ya est acostada".
Rodrigo teve o cuidado de fechar a porta da sala de visitas que dava para o vestbulo. E quando, depois duma excurso  cozinha, voltou com uma bandeja na qual se 
via uma garrafa de champanha, cinco taas e um prato com pequenas fatias de po
487
barradas de caviar, don Pepe olhou para os compatriotas como a dizer-lhes "miren el amigo que tengo".
Ficaram a conversar sobre cidades, viagens, vinhos e pessoas.
Rodrigo ps o gramofone a funcionar. O Caruso, o Ainato, a Tetrazzini, e a Patti cantaram rias, mas don Pepe e don Porfrio estavam de tal modo empenhados numa 
discusso sobre poltica espanhola, que pareciam indiferentes s vozes que saam da campnula do aparelho. E para se fazerem ouvidos um do outro, em meio do furor 
opertico dos cantores, tinham quase que berrar. A sra. Palcios, que j bebera duas taas de champanha, dava risadinhas juvenis, com uma das mos espalmada sobre 
os seios. Rodrigo divertia-se vendo o entusiasmo miudinho de roedor com que ela mordiscava o po com caviar, exclamando de quando em quando: "Precioso, pre-ci-o-so".
Rodrigo sussurrava perguntas ao ouvido de La Granadina. Gosta de ler? No? E de msica? Tambm no? De que  que gosta ento? "Yo? Me gustan los muchachos guapos." 
E lanou-lhe um olhar que foi um convite.
Esta j tenho no papo - pensou Rodrigo. - E tem de ser agora. Nem que o mundo venha abaixo. 
Correu, azafamado,  cozinha e trouxe outra garrafa de champanha. Quando a rolha saltou com um estampido e a espuma transbordou La Granadina gritou "Ol!" e estendeu 
a taa. A soprano apanhou mais uma fatia de po com caviar.
Don Porfrio fazia a defesa do rei Afonso XIII. Era um caballera perfecto, um homem de esprito e um democrata. No tinha culpa "de Ias tonteras de su ministro, 
ese imbecil de Canalejas". Don Pepe confessou que em 1905 tomara parte no atentado da rua Rohan, em Paris, contra a vida do soberano espanhol. "No!"- exclamou Don 
Porfrio. E quedou-se, de olhos muito arregalados, a contemplar o anarquista.
A meia-noite os dois espanhis, a quem o champanha emprestava um ardor novo, entraram numa discusso de carter topogrfico: uma divergncia sobre a localizao 
dum determinado caf de Barcelona. ''Se queda en Ia Rambla de Ias Flores" - dizia um. "No - retrucava o outro. - Se queda en Ia Calle Aribau."
488
- "Ests equivocado." - "Pro, hombre, he passado quince anos en Barcelona." - "Pues yo he passado veinte, cofio!"
A soprano mal podia manter os olhos abertos. La Granadina e Rodrigo escolhiam discos, de p ao lado do gramofone, muito prximos um do outro, as cabeas a se encostarem, 
as mos a se tocarem. Ele cochichou uma pergunta:
- Os Palcios so seus parentes?
- Oh! No, no. Simplesmente amigos.
La Granadina cheirava a claveles e tinha mos de criana. Rodrigo no gostava da maneira como ela se vestia: os brincos dourados de cigana, o vestido cor de morango, 
A peinera com uma imitao de brilhante... Mas, que diabo! roupa  o que menos 
interessa neste caso...
- Quer ver a minha biblioteca?
- Donde?
- Na outra sala.
- Bueno...
Rodrigo ps a girar no gramofone um disco de Caruso - a grande ria da Aida - para atordoar os outros e em seguida meteu-se com a espanhola no escritrio. Sei que 
 loucura, mas agora ningum me ataca, nem eu mesmo. Nestes assuntos, a surpresa  tudo. E at mais gostoso.
Fechou a porta a chave.
- Senor! - exclamou ela.
Rodrigo no perdeu tempo. Atirou-se sobre a La Granadina, enlaou-lhe a cintura e beijou-lhe a boca com to prolongada fria, que a espanhola chegou a perder o flego. 
Quando teve oportunidade para respirar, balbuciou:
- Pro los otros...
- Que vo pr inferno!
- Mira, por que no vienes a mi hotel, despus?
-  agora ou nunca.
No havia acendido o gs. A luz do luar entrava pelas bandeirolas. Na outra sala, Radams proclamava seu amor pela celeste Ada.
489
Diabo! Quando o disco acabar, o idiota do Pepe  capaz de vir bater  porta. No h tempo para perder.
La Granadina relutou por alguns segundos, esquivou-se em passos de dana, fez um pouco de teatro e acabou por se refugiar no espao que havia entre o bureau e a 
parede, 
sob o retrato do Patriarca.
 a mesmo que eu te quero, castelhana - pensou Rodrigo.
E avanou.
Nunca ficou sabendo se os outros "se haviam dado cuenta" do que acontecera. Voltaram  sala de visitas pouco depois para encontrar a soprano com a cabea atirada 
sobre o respaldo da cadeira, cochilando, e Don Pepe e Don Porfrio ainda a discutir acaloradamente, enquanto a agulha do gramofone estava a rascar, a rascar, a rascar 
no rtulo do disco.
Los Farsantes de Sevilla retiraram-se do Sobrado  uma da madrugada em companhia de Pepe. Rodrigo ficou a ss no escritrio, a fumar e a pensar em que a melhor coisa 
que tinha a fazer para seu bem, para o bem de Flora e do futuro de ambos era casar o quanto antes.
No dia seguinte,  noite, teve uma nova conversa com o futuro sogro e acabou por convenc-lo de que o casamento devia ser aprazado para dezembro. Dona Titina foi
chamada, quis espichar o prazo ("Por que no em princpios do ano que vem?") mas Rodrigo dessa vez se mostrou inflexvel. Ficou ento combinado que casariam no prximo
Natal.
490
XXI
Em meados de setembro, Rodrigo embarcou para Porto Alegre, onde permaneceu durante quatro dias. Escolheu na melhor casa de mveis da capital uma moblia de quarto
de dormir; mandou fazer vrias fatiotas na alfaiataria de Germano Petersen; tirou retratos no Atelier Calegan; andou pelas lojas a comprar roupas brancas, gravatas,
meias, lenos, perfumes; procurou alguns companheiros dos tempos de estudante; fez uma visita sentimental a Mlanie, com quem passou uma noite; comprou uma jia
para Flora, um pala de seda para o pai, um revlver para Torbio e uma srie de outros presentes para distribuir entre os amigos e a negrada da cozinha... Feito
isso tudo, preparou-se para voltar.
Na vspera da partida, meteu-se no Cinema Ideal. Viu uma comdia de Max Linder e um filme natural em que, entre outras coisas, aparecia, de chapu alto e crois,
Mr. Fallires, presidente da Repblica Francesa, a caminhar ligeirinho, com movimentos de boneco de mola, a cortar fitas inaugurais e a passar tropas em revista.
Seguiu-se um filme dramtico da Vitagraph, uma fbrica norte-americana. Rodrigo achou-o divertido mas ingnuo. As htas que vinham dos Estados Unidos - refletia ele
- no se podiam comparar com os capo/avori Italianos da Cines nem com as artsticas produes francesas da Gaumont, da Path Frres ou da Eclair. Saiu do Ideal a
pensar em que seria magnfico se ele pudesse dotar sua terra dum cinematgrafo.
Chegou a Santa F com uma euforia de turista, decidido a pr em prtica muitos de seus velhos projetos.
491
- Precisamos de luz eltrica urgentemente! - disse ao pai. Licurgo, porm, sacudiu a cabea, discordando.
- Acho que  muito cedo.
- Por que, papai? Podemos organizar uma companhia e vender aes a esses estancieiros. O dinheiro deles est criando bolor nos bancos e nas burras. A firma Bromberg
& Cia. de Porto Alegre compromete-se a ficar com a metade das aes e a mandar as mquinas, engenheiros e mecnicos competentes para fazer a instalao da usina.
Naquela semana mesmo reuniu no Sobrado as pessoas mais importantes de Santa F e exps-lhes o plano da organizao duma sociedade annima para explorar o fornecimento
de luz eltrica  cidade. Os homens o escutaram com uma ateno cptica. Quando Rodrigo lhes perguntou quantas aes iam subscrever, os estancieiros deram a
entender que fora da pecuria nada os interessava. ("So mais fiis s vacas do que s prprias esposas"- queixou-se mais tarde Rodrigo a Chiru.) Joca Prates prometeu
pensar no assunto. Pedro Teixeira respondeu que no momento no dispunha de numerrio. Cacique Fagundes disse um no redondo. Maneco Macedo declarou que poderia ficar
com umas cinco aes, em ateno a Licurgo. E a reunio terminou nisso.
Rodrigo ficou desapontado. Cruz Alta estava nno ponto de construir uma usina e em breve teria suas casas e ruas iluminadas a eletricidade, ao passo que Santa F 
parecia
condenada a passar o resto da vida a depender dos tristes lampies do lobisomem...
Os positivistas tinham razo. Cada povo tem o governo que merece. Para uma cidade de mentalidade pecuria como aquela, s um intendente bovino como o Titi Trindade.
Em princpios de outubro Rodrigo recebeu pelo correio as cpias das fotografias que tirara em Porto Alegre: doze de corpo inteiro, de frente, e doze de busto, de
trs quartos. Ao mostr-las aos amigos, dizia:
- No foi por faceirice, vocs sabem que no sou vaidoso. Mas quis ter uma lembrana deste momento feliz da minha vida...
Pepe Garcia examinou as fotografias demoradamente, de cenho franzido e, como Rodrigo lhe pedisse a opinio, cuspia:
- Ptridas!
- No digas isso, homem! Esto esplndidas, todo o mundo acha.
- Todo el mundo menos yo. Y me gusta muchsimo estar contra el mundo.
- Mas que  que achas de mau nestes retratos? No esto parecidos? A qualidade da fotografia no  boa? Ou  a pose? Vamos, explica-te.
- No tienen alma. Estn muertos.
- Que quer dizer com "no tienen alma"?
- Mira, angelito, que vemos en estas fotografias? La imagen miniatural, en sepia, de un hombre. Pero quien puede decir, ai ver esas figuritas, como es ese hombre,
Io que piensa, Io que siente?
- Mas como  possvel uma fotografia exprimir tudo isso?
- Ah! Dices bien, como es posible que una fotografia... Bueno! Eso es Io que est mal. Una cmara fotogrfica es una mquina e una mquina no tiene alma...
O pintor olhou fixamente para o amigo e recuou dois passos.
- No te muevas. Un instante... Bueno. Soltou um suspiro.
- Rodrigo, me gustaria pintar tu retrato de cuerpo encero... No! De alma entera!
Rodrigo lanou-lhe um olhar enviesado.
- Como pintaste o do coronel Teixeira?
- Oh, hombre, no, tu eres diferente. Ah, hijo, se consigo hacer io que me imagino, esa ser Ia gran obra de mi vida. Despus de eso enterrar mis pinceles e mi paleta.
Rodrigo sorria, j seduzido pela idia. Ver-se retratado em cores, de corpo inteiro, no seria nada mau... O diabo do espanhol era habilidoso e, quando queria, era
capaz de apanhar o parecido de seus modelos.
Quem sabe?
- Ya estoy a ver Ia obra acabada... Los hombres Ia miran e descubren tu alma, como si fueras transparente. Porque en ei retrato
492
493
estar no solamente tu cuerpo, pro tambin tus pensamientos, tus deseos, tus pasiones, tu pasado, tu presente y tu futuro...
- Basta, Pepito. Eu me contento com o presente. Se me pintares bem como sou hoje, ficarei satisfeito.
- Pro yo no me contentar con menos que Ia perfeccin. Todo o nada. Ls cosas hay que hacerlas con pasin o no hacerlas. Qudate inmovil. Ya veo todo. Tamano natural, 
una ropa negra. La postura? Bueno, nada de convencionalismos burgueses; el modelo sentado en una silla, con Ia faz apoyada en Ia mano derecha, Ia izquierda apretando 
un libro? Nada de eso. Te veo en Ia cirna de una colma a mirar el horizonte, el porvenir, Ia gloria... El vicnto te agita los cabellos, tu hermoso rostro...
- Pepe! - sorriu Rodrigo. - Isso at parece uma declarao de amor...
- Y por que no, cofio, en el momento en que estar pintando yo te amare como solo un artista sabe amar... Pro no me interrumpas... El fondo dei cuadro ser formado 
por Ias loxilhas y por el cielo de tu tierra, pro el observador tendr Ia impresin de nue en el rondo est el infinito.
- Qual  a cor do infinito?
- Te burlas de mi, no? Crees que estoy borracho, no? Pro ya tengo ttulo para el cuadro. Puede llamarse El favorito de los ioses...
Rodrigo sorria, imvel, como se fosse j a sua prpria imagem pintada na tela. De sbito, como numa revelao, o pintor exclamou:
- Chantecler! Si, tu eres el Glio. Tu canto ha hecho el sol alzarse cn el horizonte, y ahora el sol te acaricia el rostro. Es Ia maana de tu vida...
- Ests borracho, Pepito.
- Si, borracho, pro no de lcohol. Borracho de belleza como solo un artista verdadero puede estar.
Sentado agora, o pintor contemplava o amigo com olhos parados e mortios. Foi numa voz diferente, cansada e lisa, que tornou a falar.
494
- Necesito preparar un lienzo... un metro de largo por dos de alto. Hay que comprar tintas, pinceles. Esa es Ia parte material de Ia cosa, hijo.
Estendeu para Rodrigo a mo magra e alongada, como a dos fidalgos e santos de El Greco.
- Dame dinero, vamos!
Sorrindo e sem saber bem at onde Pepe ia levar aquela farsa, Rodrigo meteu a mo no bolso - gesto que sempre fazia com espontaneidade - ,tirou um mao de notas 
e deu-as ao amigo sem contar.

Depois desse colquio, pepe Garcia desapareceu por completo da casa dos Cambars durante uma semana inteira. Decerto botou fora o dinheiro que lhe dei para comprar 
a tela e as tintas - concluiu Rodrigo, achando isso muito natural e at divertido. E esqueceu o assunto.
Uma tarde, porm, o pintor irrompeu no Sobrado, trazendo a grande tela e um cavalete.
- Donde vamos a trabajar?
Rodrigo ficou um tanto apreensivo. No lhe era agradvel a perspectiva de ficar parado por largas horas, a posar.
- Essa histria no vai levar muito tempo?
- Pro que es el ciempo? Los hombres verdaderamente superiores no piensan en el tiempo. Yo nunca he usado reloj en toda mi perra vida. Mi medida de tiempo es Ia 
eternidad. Nosotros los espanoles somos as. Pro Ia eternidad quizs no pase de una ilusin de los msticos. Y los msticos no pasarn de enfermos mentales. Ser 
yo un mstico? O un enfermo mental? Bueno, los artistas verdaderos nunca son normales. Pro quien es normal? Cllate, Pepe, cllate. A trabajar y a trabajar.
Ficou combinado que Rodrigo posaria duas ou trs horas por semana, preferivelmente pela manh, num dos quartos do andar de cima. 
495
Rodrigo ficou meio confuso diante do que via na tela. No conseguia reconhecer a prpria fisionomia naquela confuso de riscos negros. O outro explicou:
- Un pintor verdadero hace casi todo con ei pincel, con los colores.
No dia seguinte, Pepe comeou a misturar as cores e Rodrigo, ao entrar na sala, achou agradvel aquele cheiro de tinta a leo e aguarrs. Imaginou que dali por diante 
tudo seria mais fcil e mais rpido. Enganava-se. A cada passo surgiam dificuldades e interrupes. Havia momentos em que Pepe estava de mau humor, nada o satisfazia, 
e ele acabava por fechar-se em silncios casmurros. Duma feita, desesperado por no poder reproduzir o tom exato da tez do modelo, atirou longe a palheta, lambuzando 
o soalho de tinta.
Noutros dias, era Rodrigo quem - no dizer de Maria Valria - "amanhecia com o Bento Manuel atravessado". Vendo o modelo assim de aspecto azedo e sombrio, Pepe cruzava 
os braos e recusava pintar.
- No eres Rodrigo Cambar. Eres una otra persona, un impostor. Vamos, Ia sonrisa, Ia faz despejada, Ia mirada viva e limpia, Ia alegria de vivir, Ia confianza en 
ei porvenir!
Nas manhs em que ambos estavam de mau humor, surgiam atritos e discusses, e mais duma vez Rodrigo abandonou a sala, intempestivo, batendo com a porta. Esses arrufos, 
no raro, duravam dias.
- No sou nenhuma criana pra estar aqui fazendo papel de bobo! - exclamou ele no dia em que Pepe, de sbito, num capricho de prima-dona, largou a palheta e os pincis 
e declarou que ia suspender o trabalho porque: "Ia luz hoy tiene algo de desfavorable, un cierto tono gris". Rodrigo, a quem a luz parecia to clara e dourada como 
nas melhores manhs, vociferou:
- Ou tu apiontas essa droga duma vez ou eu no piso mais nesta sala!
- Ingrato!
Muitas vezes, porm, Rodrigo acabava rindo das excentricidades do espanhol. Por mais que se esforasse, no podia levar muito
498
a srio aquele tipo, e j agora comeava a duvidar de que o retrato pudesse ser terminado de maneira satisfatria.
Pepe contava que andava passando as noites em claro, a pensar naquela obra, e confessava que, se no conseguisse fazer o que queria, essa seria a mais amarga derrota 
de toda a sua vida.
- Me mato, chiquito, palabra de honor que me mato.
- Deixe de besteira, homem!
E assim se passou todo aquele resto de outubro e a primeira semana de novembro, que entrou com aguaceiros bruscos. Rodrigo j agora encontrava freqentes desculpas 
para faltar as poses: noites maldormidas, chamados urgentes alta madrugada, excesso de trabalho no consultrio...
Certa manh apareceu radiante no atelier cantarolando o La dojina  mobile, e contou a Pepe que na noite anterior uma comisso encabeada pelo coronel Maneco Macedo 
viera ao Sobrado pedirlhe licena para lanar sua candidatura  presidncia do Clube Comercial.
- Ya aceptaste? - indagou Pepe, indiferente, sem tirar os olhos da tela.
- Por que no? E preciso no deixar cair a diretoria nas mos da cambada do Trindade.
- Glorias burguesas...
- Ah! Deixa-te de bobagem. H muito que fazer naquele clube. Vou aumentar o salo de baile, reformar o bufete, botar uns quadros nas paredes...
- Hablas como si ya estuvieras elegido...
- Se h coisa que no me passa pela cabea  a idia duma derrota. O coronel Macedo me garantiu que muitos republicanos vo votar em mim. Disse mais: que a situao 
at nem vai apresentar candidato!
- Bueno, bueno, me alegro que eso te haga feliz. Es exactamente esa expresin que deseo en tu rastro. La expresin de un triunfador.
Continuaram a conversar animadamente. Don Pepe, de quando em quando rompia a cantar trechos de Dona Francisquita, Rodrigo contou-lhe seus projetos. Estava tratando 
de convencer o pai
499
de que ele e Flora deviam passar a lua-de-mel na Europa. Disse isso e calou-se, a imaginar suas andanas por Paris em companhia de sua querida mulherzinha. Iriam 
ao Louvre, s Tulherias,  praa de 1'toile, ao Quartier Latin... Cus, quanta coisa! Imaginou, sorrindo, a expresso do rosto de Flora quando ele lhe mostrasse 
o pequeno pot l chambre de Maria Antonieta...
Maria Valria vinha s vezes olhar o progresso da obra. Parava diante do quadro, de braos cruzados, ficava ali por algum tempo em silncio, e, depois de dirigir 
um olhar enviesado para o pintor, retirava-se.
Rodrigo observara que nos dias de ventania Pepe ficava mais agitado que de ordinrio, dava voltas inteis e incompreensveis pelo quarto, exclamando:
- Maldita primavera! No hace ms que ventar, ventar y ventar...
No dia 15 de novembro Rodrigo apareceu com ar taciturno.
- Hoje toma posse o marechal Hermes. Pobre pas!
Dias depois, porm, abriu impetuosamente a porta do atelier e, de cabea erguida e ventas dilatadas como um potro, avanou para o pintor e despejou a notcia que 
o coronel Jairo acabara de lhe transmitir pelo telefone:
- A esquadra revoltou-se, Pepito!
- Que escuadra, hombre?
- Ora, que esquadra! A nossa, a brasileira!
Contou, exaltado, que os marinheiros dos couraados Minas Gerais e So Paulo e os do scout Bahia, de canhes assestados para o Rio, haviam passado um radiograma 
ao governo da Repblica, exigindo a extino do castigo da chibata a bordo, sob pena de bombardearem a Capital Federal.
- E o fim do governo do marechal! Imagina tu as bocas-defogo daqueles dois colossos da nossa armada assestadas para o Rio! O Hermes no tem outro remdio seno renunciar.
500
Pepe umedecia com a ponta da lngua as bordas do cigarro que acabara de enrolar.
- Bueno, bueno, pero vamos a trabajar.
- Nunca! Hoje no vou posar. Tenho que sair pra desabafar. Naquele mesmo dia, aps o almoo, encontrou no clube,
como de costume, o coronel Jairo Bittencourt, que lhe narrou detalhes da revolta.
O capito-de-mar-e-guerra Joo Batista das Neves, comandante do Minai Gerais, fora trucidado pelos seus subordinados. Os oficiais que no tinham conseguido escapar 
em tempo, haviam sido assassinados ou gravemente feridos pela marinhagem amotinada.
- Mas quem  o chefe da revolta, coronel?
- Um mannheiio preto, um tal de Joo Cndido, que h uns trs anos comandou um motim a bordo do Tamandar.
Sacudindo a cabeleiia fulva, Jairo suspirou.
- L. uma calamidade, meu amigo, uma verdadeira calamidade.
- Mas e o governo? Que faz o governo? Jairo encolheu os ombros.
- Parece que se recusa a negociar com os rebeldes.
- Mas  uma loucura. Mais tarde ou mais cedo ter que ceder para evitar que o Rio seja destrudo!
Rodrigo passou os dois dias que se seguiram em estado de exaltao, desinquieto, ansioso ante a falta de notcias. As edies do Correio do Povo de 23 e 24 de novembro 
nada traziam sobre os acontecimentos da Capital Federal. As comunicaes telegrficas com o centro do pas pareciam interrompidas.
No dia 26 Rodrigo foi pessoalmente  estao comprar o Correio do Povo que vinha no trem de Santa Maria. Abriu o jornal. L estava uma pgina inteira de telegramas 
sobre a revolta da armada. Ps-se a ler as notcias com a sofreguido de quem devora uma novela de aventuras. Mas j dois dos subttulos o deixaram gelado: "A anistia 
- Terminao da revolta". Sim, vinham ao p da pgina notcias decepcionantes. O Senado apressara-se a conceder a anistia aos revoltosos, e o presidente da Repblica 
no se opusera  vontade dos senadores. Os rebeldes se haviam rendido.
501
 Neste momento os navios Minas Gerais, So Paulo, Bahia e Deodoro acabam de arriar o sinal de guerra, hasteando bandeira branca e salvando a terra com vinte e um 
tiros.
- Palhaos! - exclamou Rodrigo, amassando o jornal e atirando-o no cho.
Naquela mesma tarde entrou no atelier. calado e de cabea baixa.
-  uma misria, Pepe. A revolta fracassou. O Senado concedeu anistia e o governo continua de p. Isso significa que temos de agentar o marechal quatro anos!
O artista, porm, estava mais interessado no seu trabalho que na revolta de Joo Cndido ou nas possibilidades de queda do governo.
Naquele dia deu os ltimos retoques no rosto do retrato e quando, terminada a pose, o outro quis ver o quadro, ele no permitiu.
- No. Prefiero que Io veas despus, cuando yo haya terminado el fondo.
Levou a tela para casa e passou sumido uma semana inteira. Novembro estava a findar quando o castelhano telefonou a Rodrigo, comunicando-lhe dramaticamente que "Ia 
obra estava consumada" e que ele a levaria ao Sobrado dentro de poucos minutos.
Ao chegar, encarapitado na boleia da carroa que trazia a tela toda envolta em panos, encontrou o amigo a esper-lo  porta. Levaram o retrato para a sala de visitas, 
onde o colocaram no cavalete.
- Preprate, Rodrigo.
O pintor comeou a desenrolar com mos nervosas os panos que envolviam o quadro. Ao ver a prpria imagem na tela, Rodrigo sentiu como que um soco no plexo solar. 
Por um momento a comoo dominou-o, embaciou-lhe os olhos, comprimiu-lhe a garganta, alterou-lhe o ritmo do corao. Quedou-se por um longo instante a namorar o 
prprio retrato. Ali estava, nas cores mesmas da vida, o dr. Rodrigo Cambar, todo vestido de preto (Pepe explicava que o plastro vermelho era uma licena potica), 
a mo
502
esquerda metida no bolso dianteiro das calas, a direita a segurar o chapu-coco e a bengala. O sol tocava-lhe o rosto. O vento revolvia-lhe os cabelos. E havia 
no semblante do moo do Sobrado um certo ar de altivez, de sereno desafio. Era como se - dono do mundo - do alto da coxilha ele estivesse a contemplar o futuro com 
olhos cheios duma apaixonada confiana em si mesmo e na vida.
O xtase de Rodrigo durou alguns segundos.
- Y que tal, hombre?
Foi ento que ele se lembrou de que o retrato tinha um autor.
- Magnfico, Pcpito, formidvel! Uma obra de arte. A parecena est surpreendente. . Eu... queres saber duma coisa? Pois olha... At...
No encontrava palavras para exprimir seu contentamento, sua admirao.
Precipitou-se para o pintor e estreitou-o contra o peito.
- Caramba! Pepe, palavra que nunca pensei...
Tornou a contemplar o quadro. Havia naquela figura uma poderosa expresso de vitalidade. Era o retrato de algum que amava intensamente a vida, que tinha nsias 
de abra-la, de goz-la totalmente e com pressa. Sim, ele se reconhecia naquela imagem: a tela mostrava no apenas sua aparncia fsica, as suas roupas, o seu "ar", 
mas tambm seus pensamentos, seus desejos, sua alma. Como era que o diabo do espanhol tinha conseguido tamanho milagre?
- Quizs sea mi canto de cisne...
- Mas por que, homem de Deus?
- Milagros como ese no ocurren dos veces en ia vida de un artista.
Os olhos do pintor estavam agora inundados de lgrimas. Rodrigo esforava-se por dominar a prpria comoo.
Maria Valria foi chamada para ver a maravilha. Parou diante do quadro, olhou-o demoradamente em silncio, e por fim disse:
- S falta falar.
- Pro, seora, ese retrato habla, dice todo!
Chiru e Neco tambm apareceram. O barbeiro achou que estava "supimpa". Chiru mirou o artista com admirao e afeto:
503
- Esse castelhano duma figa at que tem jeito pra coisa!
O tenente Lucas ps-se de ponta-cabea para olhar o quadro e deu a sua impresso mimicamente, como uma personagem de cinematgrafo.
-  uma tela digna de qualquer museu! - opinou o coronel Jairo. - Vou trazer a Carminha para v-la.
Carmem Bittencourt veio ao Sobrado naquela mesma noite, olhou longamente para a pintura e depois para Rodrigo, dum jeito que o deixou desconcertado.
O marido perguntou:
- Ento, meu amor, que achas? Sem altear a voz, respondeu:
-  um retrato to revelador que chega a ser indiscreto. Jairo desatou a rir. Rodrigo ficou perturbado, sem saber como
interpretar as palavras da esposa do coronel.

Durante os dias subseqentes, grande foi a romaraa ao Sobrado. Todos queriam ver "o portento".
Tia Vanja tranou as mos diante do quadro, como se fosse rezar.
- A minha bolinha de bano!
Dona Emerenciana queixou-se de que, como no freqentava o Sobrado por causa "dessas bobagens de brigas polticas", ia ficar privada de ver a obra-prima. Rodrigo 
generosamente mandou levar-lhe  casa o retrato, em cuja contemplao a esposa de Alvarino Amaral ficou por longo tempo. O quadro veio de volta com um recado:
Diga pr Rodrigo que  a coisa mais formosa que j vi em toda a minha vida.
Flora apareceu uma noite com a me e o pai, especialmente para ver a tela.
504
- Nunca pensei que fosse ficar to bem assim - disse. E mirou a figura por tanto tempo e com tamanha expresso de ternura, que Rodrigo chegou a ter cime da prpria
imagem.
Babalo plantou-se por alguns segundos a pitar na frente do quadro, enchendo o ambiente com a fumaa e o cheiro acre de seu cigarro de palha. Por fim, olhando para
Maria Valria, murmurou
- Est mais parecido com o Rodrigo do que ele mesmo. Que csa brbara!
Gabriel ficou de boca entreaberta diante da pintura, num silncio meio amedrontado. O Cuca aproximou-se da tela, cheiroua e noo resistiu  tentao de encostar
o
dedo nela.
- Que beleza, Rodrigo, que chique! Vai fazer inveja a muita gente. J andam at dizendo pela cidade que no est parecido. Que mentira, hein? Que injustia!
Mariquinhas Matos, que havia muito no entrava no Sobrado, achou um pretexto qualquer para vir, em companhia da me, visitar Maria Valria. Depois de contemplar
por algum tempo Oretrato, disse uma frase que escandalizou ambas as senhoras:
- Um rapaz bonito como o Dr. Rodrigo no devia se casar nunca.  muito homem para uma mulher s.
Sua me empertigou-se na cadeira, alarmada.
- Mariquinhas! Isso  coisa que uma moa direita diga?
- Ora, mame, no estamos mais no sculo XIX, e sim em 1910!
Com uma loquacidade nervosa, comeou a falar no movimento
das sufragistas na Inglaterra. Quando ela terminou, a me procurou desculp-la:
- So os malditos livros que essa menina l, D. Maria Valria. Eu vivo dizendo pro Terzio que no deixe ela ler essas coisas modernas.
Rodrigo ficou encantado quando a tia, ao lhe reproduzir a ousada frase, da Gioconda, acrescentou
- Aquela, se pudesse, te agarrava com as duas mos.
Ele sorriu dum jeito que queria dar a entender que "a coisa noo era bem assim como a Dinda dizia". Mas no fundo concordava com ela e sentia-se lisonjeado.
Quando Licurgo e Torbio vieram do Angico para uma curta estada na cidade, Rodrigo ficou curioso por ouvir a opinio do pai e do irmo sobre o retrato.
- No tinhas mais nada que fazer? - perguntou Bio.
O -pai teve uma reao que Rodrigo noo esperava. Olhou para
o quadro, num silncio enigmtico, amaciando uma palha de milho
com a lmina da faca, depois sorriu, dizendo:
- Est muito bom. Quanto vai pagar pro castelhano? - No sei ainda, papai. Qual  a sua opinio?
- Pague bem. O quadro vale. D quinhentos mil-ris. - Que despropsito! - exclamou Maria Valria.
Pepe Garcia passou muitos dias ausente do Sobrado. Uma tarde um dos moleques da mulata Celanira apareceu no consultrio com este recado: "A mame mandou pedir pro
senhor ir l em casa, que o seu Don Pepe est doente." Rodrigo foi, imediatamente. O chal de Celanira ficava no meio dum banhado, mas era confortvel, limpo, e
tinha cortinas e vasos de flores nas janelas. A mulata - gorda, grisalha e ativa, recebeu o doutor  porta com uma cordialidade de velha tia.
- Pois o Pepe caiu de cama faz dias e no quis que eu incomodasse o senhor.
- Devia ter me chamado em seguida, D. Celanira.
Muito plido, a pra j a crescer-lhe de novo, o pintor achava-se estendido numa cama de casal, sobre lenis imaculados que cheiravam a alfazema, e coberto por
uma colcha de retalhos.
- Ento que  isso, Pepito? - perguntou Rodrigo jovialmente.
- Ay que me muero, hijo, ay que me voy. Esto es el final. - Qual nada !
Rodrigo sentou-se na beira da cama, ps a mo na testa do amigo e achou-a escaldante. Tirou-lhe a temperatura: 39 graus.
- Tem uma febrinha ... - mentiu para Celanira, que se encontrava ao p do leito.
Auscultou o pulmo e o corao do paciente. Tomou-lhe o
pulso. Examinou-lhe a garganta e a lngua.
-Tudo em ordem.
Apalpou-lhe os intestinos, a vescula, os rins. Fez-lhe perguntas. Comeu alguma coisa indigesta? No. Sente alguma dor?
No sentia nada, s aquela impresso de febre, uma excitao e
ao mesmo tempo um abatimento, uma canseira .. .
- Passou a noite variando, doutor - contou a mulata.
- Ay, vida mia, que noche! Si yo pudim describir mi de
lrio, Rodriguito, creo que escribra una pgina inmortal. Soergueu-se de repente e ezclamon:
- No. Se yo pudiera pintar lo que he visto era mi delrio.
hara cara cuadro nmortal, ms temble que e1 Apocalipse, ms dra
mtico que el Toledo de El Greco.
Rodrigo f-lo deitar-se de novo.
- Calma, Pepito, calma. No te ezaltes. O que tu tens 
puramente de fundo nervoso. A canseira de todo  o retrato. Tirou do bolso o bloco de papel de receitas e prescreveu um
calmante para os nervos e uns papis de pinmido. Depois. 
mudando de tom e de assunto:
- Sabes, Pepe? O retrato tem feito um sucesso danado. 
 o assunto da cidade.
- Filisteus!
- Oh! No digas isso. H em Santa F muita gente instruda, capaz de apreciar o belo.
Falo-lhe agora em pagamento? - perguntou-se a si mesmo.
- Ou deixo tudo pra depois?
Aproveitou o momento em que Celanira saa do quarto com
a receita na mo:
- Pepito, agora precisamos acertar contas. - No te entiendo.
- Preciso te pagar. - Por que?
- Pelo retrato, homem!
Pepe sentou-se na cama com uma ezpresso de dignidade 
ferida no rosto macilento.
 507 - No hables ms.
- No hables ms.
- Mas Pepe! Levaste um tempo fazendo aquele trabalho.  a tua obra-prima. Vou te pagar um conto de ris. Vale at mais.
- Rodrigo, si eres mi amigo, no me hables en dinero!
- Que bobagem!
- Tu me insultas.
Rodrigo ps-se de p fazendo um gesto de desnimo. Estava intrigado ante a reao do pintor. Um homem que praticamente no ganhava um vintm, recusava receber um
conto de ris! Positivamente o castelhano era um poo de surpresas e mistrios.
- Est bom. Ento quero que prometas tomar todos os remdios que te receitei e que s te levantars quando eu te der licena. Prometes?
- Te Io prometo, Chantecler.
Rodrigo apertou a mo do amigo. Estava j  porta do quarto, quando o outro gritou:
- Mira! Prstame cincuenta mil-ris.
- Homem de Deus, acabei de te oferecer um conto!
- No. Eso es diferente. Quiero cincuenta, pero prestados, comprendes?
- Est bem. Eu entrego o dinheiro a Celanira.
- Se tienes ms confianza en ella que en mi...
Rodrigo sorriu. Ao sair do chal, entregou um conto de ris  mulata, recomendando:
- No conte a ele que lhe dei todo esse dinheiro. Diga que foi s cinqenta mil-ris. O Pepe  uma mula de teimoso.
- Est dizendo pra mim? - sorriu a mulata, mostrando os caninos de ouro.
508
XXII
Na noite de onze de dezembro, Rodrigo convidou os amigos a sua casa para uma ceia e uma tertlia. "A minha despedida da vida de solteiro" - explicava ao fazer os 
convites. Mandou Laurinda preparar uma mayonnaise de maquereau, ps cinco garrafas de champanha num balde, dentro do poo, e ao entardecer comeou a abrir as "suas 
latinhas", sob o olhar irnico de Maria Valria. Debruou-se a uma das janelas laterais e gritou para o ptio da Estrela-d'Alva " Chico!" E quando o padeiio trepou 
na cerca com a cara e a cabea manchadas de farinha, pediu: "Hoje ali pelas dez me manda uns vinte pes quentinhos, ouviste?"
Ainda bem que o papai voltou pr Angico - refletia ele, enquanto andava pela casa a fazer os ltimos preparativos. -Assim no tenho de ver nenhuma cara feia.
Ps-se a ananjar na sala de visitas e no escritrio as rosas e os junquilhos que tia Vanja lhe mandara ao entardecer. Estava a contemplar, com a cabea inclinada 
para um lado, o vaso que se achava sobre o consolo, quando Laurinda entrou e, lanando-lhe um olhar truculento, murmurou: "Marico!" Rodrigo, que a enxergava pelo 
espelho, respondeu-lhe com um gesto obsceno, que pretendia ser uma afirmao de sua masculinidade. "Bandalho!" - exclamou a mulata, com fingida clera.
Ao anoitecer Rodrigo acendeu os bicos de gs da sala de visitas e do escritrio, escancarou as janelas e ps a rodar no gramofone um disco de Amaro. Sentou-se e 
ficou a pensar em Flora. Dentro de duas semanas poderia traz-la para o Sobrado, como sua esposa
509 Imaginou a cena... A casa silenciosa. Dinda discretamente recolhida ao quarto, Laurinda, a indecente, decerto a espi-los por uma fresta de porta... 
Flora e ele trocariam ali na sala o primeiro beijo e beberiam ambos uma taa de champanha, num brinde ao
futuro. Depois, abraados, subiriam vagarosamente a velha
escada, aqules degraus, naqueles quase sessenta anos de existncia do Sobrado tinham sido pisados por incontveis ps: as botas dos homens que haviam defendido
a casa contra os maragatos, no cerco de 95; Os Chinelos de ourelo de sua bisav Bibiana; os coturnos do dr.
Winter,
 mdico e filsofo, de cuja figura ele, Rodrigo, tinha uma
lembrana to viva; os sapatinhos de sua me e, mais remotamente,
de sua av paterna, criatura nebulosa e meio lendria de quem
no ficara nenhum retrato, e cuja memria andava envolta numa
atimosfera equvoca...
E daqui a alguns anos - refletiu, sorrindo - os meus filhos estaro descendo essa velha escada, montados no corrimo, bem
como Bio e eu fazamos quando meninos.
De sbito despertou de seu devaneio para ouvir o chiado da agulha do gramofone, a qual, depois de ter percorrido a ltima
ranhura do disco, estava a arranhar-lhe
o rtulo. Acercou-se do aparelho, fez parar o prato e levantou o diafragma.
Torbio entrou. Estava de bombachas, botas e esporas e de
xau na cabea. Sentou-se pesadamente, olhou para os jornais impilhados sobre o bnrcau e perguntou:
- Alguma novidade no Rio?
Interessava-se mornamente pela poltica, mas tinha preguia
de ler os jornais. Rodrigo contou-lhe que a situao de insegurana e
inquietude, agravada pela revolta da esquadra, continuava. Circulaam pelo pas os boatos mais
alarmantes.
- E o pior - acrescentou -  que o marechal mandou  cmara uma mensagem pedindo o estado de stio!
- Se essa coisa vem, que  que vai ser da gente?
-  o fim de tudo, a debacle moral e material do pas, o escalabro completo. O que as pessoas decentes tm a fazer  emigrar, homem. O remdio  fazer uma revoluo 
e derrubar esse Sargento.
- Qual nada! Emigrar  a ltima coisa em que se deve pensar. Inda quero ver o senador Pinheiro passar pra So Lus, de crista cada... isso se escapar com vida
e no for parar na cadeia.
Rodrigo sorriu. Aquilo era muito bonito de dizer, mas tudo indicava que o governo estava forte e que a Cmara e o Senado iam votar a favor do estado de stio.
Rodrigo estava debruado  janela quando viu trs vultos aproximarem-se do Sobrado. Reconheceu neles Neco, Chiru e Saturnino. Os menestris! - pensou com alegria, 
vendo que o barbeiro e o ecnomo haviam trazido os instrumentos. Quando os amigos entraram, ele os conduziu imediatamente ao andar superior para mostrar-lhes "umas 
coisas que recebi de Porto Alegre. F-los entrar no quarto nupcial, cuja moblia de jacarand lavrado tinha um aspecto de pesada e digna solidez. Sobre o mrmore 
rosado do lavatrio de espelho oval, via-se uma bacia com um jarro, ambos de loua branca estampada de ramilhetes de flores multicoloridas. E ao p da cama, duma 
larga imponncia de leito imperial, estendia-se um vasto tapete "legtimo da Prsia", assegurou Rodrigo. Escancarou as portas do guarda-roupa para exibir aos amigos 
as fatiotas que mandara fazer em Porto Alegre: o novo smoking, uma fatiota de vicunha, duas de casimira e dois ternos de linho branco. Abriu as gavetas e mostrou 
a roupa-branca e umas duas dzias de gravatas de cores e padres variados.
- s um nababo! - exclamou Chiru, apalpando com visvel prazer as gravatas de seda, l, gorgoro e malha.
Neco tomou-se logo de amores por uma gravata verde com losangos negros e brancos.
- Quando essa bichinha ficar velha, no botes fora. Me d pra mim.
Rodrigo puxou a gravata num gesto brusco e meteu-a no bolso do seresteiro.
- Toma.  tua.
511
d!"
- No sejas bobo, nem usaste ainda...
- Cala a boca.
- Mas...
- Est encerrada a questo. Vamos descer.
Foi empurrando os amigos na direo da porta. Diabo! - pensou - no dei nada prs outros. Voltou ao guarda-roupa, apanhou s cegas duas gravatas e entregou uma a 
Chiru e outra a Saturnino. O primeiro tentou um protesto grandiloqente. O ltimo aceitou o presente num silncio cheio de gratido.
- No se fala mais nisso - decidiu Rodrigo. - Quem v pensa que eu dei um palacete a cada um de vocs!
O coronel Jairo e o tenente Rubim no tardaram a chegar. Liroca tambm apareceu, poucos minutos aps os militares. Como sempre, entrou com o ar reverente de quem 
penetra numa catedral. Silencioso, de chapu na mo, caminhando na ponta dos ps, procurou uma cadeira, sentou-se, sem rudo, e ficou quietinho, como que a orar. 
Rodrigo divertia-se com aquela comdia de que eram protagonistas sua madrinha e Jos Lrio. Desde o dia em que Liroca voltara ao Sobrado, depois de quinze anos de 
ausncia, o pobre homem ainda no conseguira fazer com que Maria Valria lhe apertasse a mo ou mesmo lhe dirigisse um olhar frontal. Quando a cumprimentava - "Boa 
noite, dona, como tem passado?" - ela se limitava a fazer uma relutante inclinao de cabea e a murmurar algo que tanto podia ser "Boa noite" como "V pr diabo!"
Quando Lucas, o ltimo conviva a chegar, entrou na sala, Torbio correu a abra-lo. Naquele instante diante do Retrato, Rubim comentava os mritos da obra.
- Nunca imaginei que esse espanhol fosse capaz de fazer uma coisa sria assim... Sempre o considerei um farsante, uma personagem de opereta.
- O que prova - observou Rodrigo - que a gente nunca chega a conhecer direito as pessoas, por mais que conviva com elas.
Rubim examinava a tela com ar professoral.
- Como ser - perguntou - que um homem dotado desse talento e dessa habilidade no tira melhor proveito dele? No posso
512
compreender como  que um artista como don Pepe anda perdido neste fim de mundo...
Ao ouvir estas ltimas palavras, Liroca quebrou seu silncio:
- H gentes que pensam que s a Capital Federal  que presta...
Rubim prosseguiu:
- No sou nenhum conhecedor de pintura, mas tenho visto bons quadros e posso afirmar que estou diante duma obra nada vulgar. Todo o artista, seja ele poeta, compositor, 
pintor ou escultor, tem o seu momento milagroso em que o acaso colabora com ele.  o minuto do mistrio: uma pincelada feliz, um conjunto de circunstncias que se 
combinam, e, zs!, l est a obra de arte!
A voz do tenente de artilharia lembrava a Rodrigo as notas mais graves da flauta de Saturnino. Rubim envergava um uniforme caqui, e naquela noite sua fealdade se 
fazia notada dum modo todo especial. Por qu? Talvez fosse a desordem em que estavam seus cabelos ressequidos. Ou ento era porque naquele dia no havia escanhoado 
o rosto. Quando no se achava em cima do cavalo, num desfile militar, seu busto raramente se mantinha em postura rgida: em geral suas costas se encurvavam acentuadamente, 
o que lhe dava um ar de cansao, de envelhecimento precoce e ao mesmo tempo um certo qu erudito de professor.
Jairo contou a Rodrigo como ficara sensibilizado ao ler recentemente nos jornais a notcia da morte do conde de Tolsti.
- No foi s a morte, coronel - disse Rodrigo - mas tambm as circunstncias dramticas que a precederam.
A tragdia do grande romancista causara-lhe profunda impresso. Desgostoso com o artificialismo e o materialismo da civilizao ocidental, Leon Tolsti, o apstolo 
da vida simples e do amor ao prximo, pregara nos ltimos anos de sua vida o retorno ao cristianismo primitivo. Um dia, ao voltar dum passeio pelo campo, com o corao 
partido pelo espetculo da srdida misria em que viviam os camponeses, encontrou  frente de sua casa uma esplndida carruagem, smbolo do fausto e do conforto
de lasnaia Poliana. Ficou to abalado pelo contraste, que decidiu abandonar a famlia para levar a vida dum simples campons. Deixou  esposa uma
513
carta em que lhe dizia no poder mais continuar naquela vida de gro-senhor, to contrria a suas crenas. Pedia que lhe perdoasse o desgosto que ele ia causar
e suplicava-lhe no tentasse faz-lo voltar atrs, pois sua deciso era irrevogvel. Numa madrugada de novembro meteu numa maleta roupa-branca, livros e outros objetos 
de uso pessoal e, ajudado por um amigo, deixou a manso de lasnaia Poliana. Quatro dias depois era encontrado na estao de Astapovo em estado febril, conseqncia 
duma inflamao pulmonar. Os mdicos chamados para socorr-lo nada puderam fazer. Uma semana mais tarde, Leon Tolsti expirava, e sua morte comovia o mundo inteiro.
- Que grande homem e que grande vida! - exclamou Rodrigo.
- Que era um gnio, no resta a menor dvida - disse Rubim. - Mas que tinha um crebro doentio, tambm  coisa que ningum em boa razo poder negar. Um homem sadio 
de esprito no procede como Tolsti procedeu. Essa obsesso com os humildes no passa duma fraqueza, o desejo, talvez, de ganhar o cu.
- No faa tamanha injustia a um dos maiores escritores que a humanidade produziu! - protestou Rodrigo.
Rubim armou o seu melhor sorriso cnico:
- A explicao mais simples que encontro para o caso do conde Tolsti : cristianismo complicado com sfilis!
O coronel Jairo soltou um oh! escandalizado. Rodrigo teve vontade de esbofetear o tenente. Voltou bruscamente as costas ao itreverente artilheiro e, aproximando-se 
do gramofone, p-lo a tocar a Serenata de Schubert, num solo de flauta.
As conversas estavam animadas. Lucas e Bio confabulavam a um canto da sala, soltando risadinhas e trocando-se palmadas nas costas. Estava claro que falavam em mulheres 
- concluiu Rodrigo. E Chiru, que suava em bicas, e que j havia pedido licena aos
514
patrcios e circunstantes" para tirar o casaco, dirigiu-se ao coronel Jairo:
- Pois  como lhe digo, comandante. Este vero vou buscar o tesouro dos jesutas. O Rodrigo  meu scio na empresa. Vamos achar uma verdadeira salamanca.
Laurinda entrou, trazendo uma bandeja cheia de clices com vermute, que comeou a distribuir entre os convivas. Rubim discutia com Jairo as possibilidades da decretao 
do estado de stio.
- No tenho a menor dvida - dizia. - A Cmara votar o stio por uma maioria esmagadora e o Senado confirmar.
- Teremos ento a ditadura! - exclamou Rodrigo. - E s pessoas decentes deste pas no restar mais nada a fazer seno emigrar para o Paraguai.
Rubim sorriu.
- No seja to dramtico - disse, depois de bebericar o vermute. - Acredite que a ditadura  o nico meio eficiente de governar um pas como o nosso.
- No diga tamanha asneira!
Jairo, que aquela noite estava um tanto taciturno, interveio na discusso, mas sem muito calor:
- Eis um assunto delicado e cheio de perigos - murmurou com sua voz paternalmente grave. - Eu preferia que vocs, rapazes, no o levassem muito longe...
- Ora, coronel - tranqilizou-o Rodrigo -. estamos em famlia, aqui somos todos amigos. E no vejo no momento assunto mais importante, mais vital que esse. E ouam 
o que eu digo: o marechal talvez no chegue ao fim do quatrinio...
Rubim sacudiu a cabea numa vigorosa negativa.
- Vou fazer outra profecia. O estado de stio ser decretado e o marechal ir at o fim do perodo!
- Mas por que razo afirmas que a ditadura  a nica forma de governo para o Brasil? - perguntou Rodrigo.
- Porque este  um pas de mestios e analfabetos. Os eleitores em sua maioria mal sabem desenhar o nome e no tm idoneidade intelectual para escolher seus administradoies 
e legisladores. Cabe, portanto, as elites cultas dirigir o povo e organizar os governos.

Chiru saltou de seu canto.
- E onde fica a democracia? - gritou.
- A democracia - replicou o tenente de artilharia -  uma fico baseada na romntica iluso de que o homem  essencialmente bom e que portanto a vontade da maioria 
ser sempre uma expresso da verdade.
Jairo, muito vermelho, sacudia a cabea, discordando, mas sem dizer o que pensava do assunto.
- E depois - prosseguiu Rubim -, se por um lado a democracia tem como objetivo o bem-estar do povo em geral, por outro a histria tem provado sobejamente que essa 
felicidade s poder ser atingida por meio dum governo aristocrtico. Continuo a afirmar que no tem nenhum sentido lgico ou prtico essa busca da felicidade geral. 
 uma absoluta perda de tempo que atrasa a produo de super-homens. Neste ponto Plato e Aristteles esto de acordo com Nietzsche ou, melhor, Nietzsche est de 
acordo com esses dois filsofos clssicos.
jairo continuava a menear a cabea, o cenho franzido.
- Pois eu - declarou Rodrigo - sou liberal, isto , um partidrio da tolerncia religiosa, da livre iniciativa, do livre pensamento, do respeito ao indivduo. Acho 
que todos os homens nasceram iguais e o que os torna desiguais so as circunstncias em meio das quais crescem.
Rubim soltou uma risada e a dentua projetou-se para a frente, agressiva. Depois de tomar o ltimo gole de vermute, replicou:
- O liberalismo, meu caro Rodrigo, no passa dum disfarce muito transparente do medo. O liberal  um cidado que se recusa a admitir em voz alta que o homem  um 
animal de rapina e que o verdadeiro, o nico direito que existe na natureza  o direito da fora. Por ser liberal ele se considera muito nobre, uma espcie de farol 
a iluminar o mundo. No entanto, o liberalismo, como o decantado amor cristo, tem origem apenas num sentimento inferior: o medo de que o prximo nos possa fazer 
mal. Isso nos leva a "am-lo" (como se tal coisa fosse possvel!) a fim de que ele tambm nos ame ou, pelo menos, no nos queira muito mal nem nos agrida. No entanto, 
se o liberal se sentisse invulnervel na sua torre de
516
marfim, o que ele faria era seguir a sua tendncia natural, ficar indiferente ao prximo ou transform-lo em seu escravo.
- Absurdo! - aparteou Jairo. - Sem a menor base cientfica!
Rodrigo aproximou-se do tenente de artilharia e fez-lhe uma pergunta incisiva, marcando bem as slabas:
- E esse desejo de fora, essa necessidade de afirmao que vocs os nietzschianos sentem, no ser tambm um produto do medo?
- No.  antes um desafio aos deuses!
Ao pronunciar estas palavras Rubim soltou com elas sua gargalhada convulsiva. Rodrigo teve a impresso que estava na frente dum grande boneco mecnico a que tivessem 
dado toda a corda para que ele se pusesse a imitar uma dana de So Vito.
- Mas que mrito podemos ter, tenente, nesse desafio a entidades em cuja existncia no acreditamos?
- Muito bem dito - aprovou Jairo -, muito bem respondido!
Rodrigo avistou a tia que,  porta da sala de jantar, lhe comunicava mimicamente que a ceia estava servida.
Liroca soltou um profundo, sentido suspiro que lhe sacudiu
o peito.
- Vamos cear, minha gente! - exclamou Rodrigo. Segurou afetuosamente o brao de Jairo. - Venha, coronel.
Fez um sinal para os outros. Entraram todos na sala de jantar e sentaram-se  mesa.
Lucas e Torbio continuavam em seus segredinhos, e o tenente de obuseiros de quando em quando soltava risadas secas e curtas.
- A mayonnise est divina - avisou Rodrigo.
Serviu primeiro o coronel, depois passou a travessa a Chiru.
- Agora, que cada um faa pela vida. Sirvam-se  vontade! Houve uma alegre troca de pratos, no meio das conversas e
dos tinidos dos talheres. Rodrigo trouxe duas garrafas de champanha, abriu-as e andou com elas ao redor da mesa a encher as taas. Em dado momento ouviu-se, alta 
e clara no meio das outras, a voz de Torbio:
517
- ...uma morena macanuda, com uns peitorais de respeito, recm-cada na vida...
Lez-se um sbito silncio. Chiru e Neco romperam a rir e quiseram saber de quem se tratava.
- Respeita os mais velhos, Bio - troou Rodrigo, fazendo com a cabea um sinal na direo do coronel. E enchendo pela segunda vez a taa de Rubim, perguntou-lhe, 
provocante: - Ser que participas tambm do desprezo do teu mestre pelas mulheres?
O artilheiro inclinou o busto para trs.
- Modus in rcbus. Nietzsche no levava as mulheres muito a srio. O que ele pensa do sexo oposto parece estar consubstanciado naquela frase de Zaratustra: "O homem 
deve ser exercitado para a guerra e a mulher para a recreao do homem".
lorbio ergueu o garfo:
- Esse  dos meus!
Rodrigo comia com gosto e ao fim da terceira taa comeou a sentir os efeitos do champanha.

Deixaram a mesa pouco depois das dez horas. Rubim tomara e mantivera a palavra durante os ltimos quinze minutos, procurando mostrar que a histria da jovem Repblica 
brasileira no passava duma sucesso de golpes de fora em que havia prevalecido sempre a vontade duma elite ou dum super-homem, mas nunca a do povo. A propaganda 
fora feita por um grupo de tribunos e jornalistas em meio da indiferena popular, pois o povo ou no sabia do que se tratava ou estava ainda fascinado por aquele 
imperador lendrio, paternal e fracalho.
Apenas uma minoria esclarecida desejava o novo regime, que fora proclamado por Deodoro, um militar, num golpe de fora. E esse militar, a quem se entregara depois 
a presidncia da Repblica, irritado ante a oposio do Congresso, dissolvera-o, tentando o golpe de Estado. E quando, pouco depois, impotente diante da onda insurrecional 
que sacudia o pas, Deodoro renuncia, Floriano,
518
o vice-presidente, assume o governo e, com mo de ferro, sufoca a revoluo, salvando a Repblica. Seu sucessor, entretanto, pe-se a falar a linguagem crist e 
feminina da concrdia, quando o que devia fazer era seguir a poltica enrgica e masculina do antecessor. Como resultado da indeciso e da cordura de Prudente de 
Morais, faz-se sentir de novo em todo o pas o fermento revolucionrio. O drama de Canudos - afirmara Rubim - ilustrava de maneira viva a sua tese de que o Brasil 
era um pais de mestios analfabetos capazes de todos os fanatismos.
- No, senhores! Nos momentos de crise em nossa histria sempre surgiu um Homem cuja vontade mudou o rumo dos acontecimentos. A figura que vejo hoje no cenrio nacional, 
capaz de influir nos destinos da nao,  a de Pinheiro Machado. Digam dele o que quiserem, mas a verdade  que o senador  uma fora contra a anarquia, um dique 
oposto  enxurrada popular, um mantenedor inflexvel do prestigio da autoridade.
Voltara-se para o anfitrio:
- No entanto, um homem culto e inteligente como o Rodrigo chegou a desejar que o negro Joo Cndido depusesse o marechal Hermes e institusse no Brasil o governo 
da patulia!
Sentaram-se nas cadeiras da sala de visitas.
- O que eu temo - disse Rodrigo  que o senador
Pinheiro acabe chamando sobre o Rio Grande a antipatia do resto do Brasil.
- Um homem verdadeiramente forte no necessita da simpatia de ningum. Ele se basta a si mesmo. Talvez nunca venha a ser amado, mas  fora de dvida que ser sempre 
respeitado e temido.
Torbio e Lucas chamaram Rodrigo  parte.
- Olha - disse o primeiro - ns vamos embora. Tem muito homem aqui, no , Lucas? Vamos correr as casas das chinas.
- Bom proveito - murmurou Rodrigo, dando palmadinhas protetoras nas costas do irmo e do amigo.
Pouco depois Chiru e Saturnino tambm se retiraram. Iam fazer uma serenata para a filha do coletor estadual, que Chiru estava
519
tentando conquistar. Havia j escolhido o repertrio: Elvira; Perdo, Emlia; Ai Maria e O talento e a formosura. Chiru puxou Rodrigo para o vestbulo.
- Escuta, me empresta a uns dez pilas. Estamos despilchados.
- E aqueles duzentos que te dei o outro dia? Chiru fez uma cara grave.
- No. Aquele dinheiro  sagrado.  pra expedio. Rodrigo sorriu, meteu a mo no bolso e tirou uma cdula.
- No tenho nenhuma de vinte. Leva cinqenta.
- Depois te trago o troco.
- No sejas cnico.
Os menestris ganharam a rua e, ao voltar  sala de visitas, Rodrigo ouviu, vindos de fora, os trinados da flauta do Saturnino.
Jairo folheava um nmero de Illustration e estava particularmente interessado nas reportagens ilustradas sobre as famosas semanas de aviao da Frana. Numa das
pginas da revista estampava-se o retrato da aviadora M me Laroche que, na festa aviatria de Champagne, fora ferida num acidente.
- Imaginem! - comentou o coronel. - At as mulheres j andam de aeroplano. Estamos sem dvida no limiar duma nova era de prodgios.
- Que diria teu Nietzsche - perguntou Rodrigo - se fosse vivo e presenciasse essas maravilhas?
Rubim encolheu os ombros.
- Diria talvez que o avio no  produto do povo mas sim do crebro privilegiado dum homem superior.
- E parece - prosseguiu Jairo, sem tirar os olhos das pginas da revista - que no futuro o avio ser usado tambm como arma de guerra, no s para reconhecimentos 
como tambm para lanar bombas explosivas sobre tropas e cidades inimigas.
Rodrigo sorriu:
- De acordo com o nunca desmentido amor cristo...
- Ah! - fez o coronel. - Aqui est um clich interessante. Um automvel equipado com uma metralhadora: pour Ia poursuite ds aroplanes.  fantstico!
520
Rodrigo repoltreou-se na cadeira, com uma taa de champanha na mo.
- Estamos vivendo uma grande hora!
Jairo apanhou um outro exemplar de L'Illiistmtion e ps-se a folhe-lo com grande interesse.
- Ouam esta! - exclamou, ao cabo de alguns minutos. - O ttulo : "A mais gloriosa faanha da aviao em 1910".
Traduziu em voz alta:
- Essa coisa inaudita que, mesmo depois das mltiplas travessias da Mancha, depois das performances dos representantes do Circuito de Leste, depois das proezas quase 
cotidianas e cada vez mais audaciosas dos aviadores, j algum tempo, essa coisa que, apenas trs meses atrs, parecia o mais insensato dos sonhos do mais louco 
dos campees do ar, a travessia dos Alpes em aeroplano,  um fato consumado. Tal como o marinheiro que depois de ter percorrido todos os mares e afrontado 
todas as tempestades vem morrer em terra firme, num acidente banal, o infortunado Chvez, cuja coragem tocou verdadeiramente as raias do herosmo, sucumbiu em conseqncia 
duma queda terrvel comeada a alguns metros do solo, no momento de aterrar... de aterrar (se  que se pode usar este neologismo) na plancie de Domodossola.
Calou-se. Ergueu depois os olhos para os amigos.
- Pobre rapaz! Quebrou ambas as pernas, mas veio a morrer mais tarde em conseqncia do deslocamento do corao.
- Uma bela morte - disse Rubim. - Morte de heri... A est, a aviao  um esporte para super-homens.
- E supermulheres... - sorriu o coronel.
- E a Frana, meu caro tenente - exclamou Rodrigo -, a eterna Frana, que est  frente de todas as outras naes do mundo como pioneira da aviao!
- Mas foi um brasileiro - interveio Jairo - quem inventou o aeroplano.
- A discutir - replicou o tenente. - Os americanos afirmam que foram os irmos Wright.
- Absurdo! - protestou Rodrigo. - Est provado que Santos Dumont voou muito antes desses yankees...
521 Naquele instante a campainha do telefone tilintou e Rodrigo precipitou-se para o vestbulo, voltando pouco depois:
- Um chamado para o senhor, coronel.
- Santo Deus! Ser que aconteceu alguma coisa a Carminha? Correu para o telelone. Rodrigo ouviu-lhe a voz ansiosa. Sim...
Quem? Ah! Pode dizer... Sim.,. Quando? Sim... Quantos?... Ah... muito obrigado. Boa noite.
O comandante do regimento de infantaria tornou  sala.
- Senhores - disse, quase com solenidade, - acaba de chegar ao quartel um telegrama do Rio, comunicando que a Cmara votou o estado de stio. Do total de cento e 
cinqenta e oito votos apenas treze foram contrrios. O Senado confirmou por trinta e seis a um.
- Ento - perguntou Rubim, olhando para Rodrigo - quando  que vai embarcar para o Paraguai?
- No, tenente, vou esperar um pouco mais. Porque estou com o pressentimento de que quem vai para o Paraguai no sou eu, mas o presidente Hermes da Fonseca...
Jairo deixou o Sobrado s onze. Rubim ficou a beber e a conversar com Rodrigo at s doze, hora em que tambm se retirou. Don Pepe apareceu inesperadamente depois 
da meia-noite, com os olhos brilhantes, a voz arrastada, o hlito alcolico.
- Pepe, no devias andar na rua a estas horas! Com licena de quem saste da cama?
O espanhol segurou-lhe ambos os braos com fora.
- No he podido resistir, hijito. Tengo que ver ei Retrato esta noche. No te enojes. Estoy bicn.
Sentou-se na frente da tela e ficou a mir-la com apaixonada fixidez. Rodrigo deu-lhe uma. taa de champanha, que o pintor apanhou distraidamente e bebeu com ar 
de quem no sabe o que est tazendo.
522
- Cono, hay que respectar ei castellano. Puede ser un borracho, u n miserable, puede no tener dinero ni caracter. Vive con una mulata y no tiene valor como para 
seguir su destino. Pero, mierda, don Pepe Garcia es un artista, un verdadero artista!
Voltou-se para o amigo.
- Que dices, prncipe? Rodrigo ergueu a taa:
- A sade do artista e de sua obra-prima!
O pintor atirou com fora a taa no cho, partindo-a. Ergueuse, aproximou-se de Rodrigo e segurou-o pela gola do casaco.
- Todo pasar, hijo. Tu padre, tu hermano, tu tia, tus hijos, tu. Pero ei Retrato quedar. Tu envejecers, pero ei Retrato conservar su juventud. Vamos, Rodrigo, 
despdete dei otro. - Fez um sinal na direo da tela. - Hoy ya ests ms viejo que en ei dia en que termine ei cuadro. Porque, hijito, ei tiempo es como un verme 
que nos est a roer despacito y es dei lado de ac de Ia sepultura que nosotros empezamos a podrir.
- No sejas fnebre, Pepe. Hoje estou feliz. Caso-me dentro de duas semanas. Vamos beber e esquecer a velhice e a morte.
O artista sacudia a cabea com uma obstinao de bbedo.
- Hay hombres que estn ya completamente podridos.
- Eu sei, eu sei...
Pepe bateu no peito com fora.
- Yo estoy mitad podrido, sabes?
- Ora, Pepe, muda de assunto.
- Si nosotros tuviramos ei olfato ms desenvolvido como los perros, sabes? podramos sentir ei hedor de los cadveres alrededor nuestro... Y nuestro propio hedor 

nos seria insoportable, sabes?
Rodrigo sorria amarelo. Para manter o amigo  distncia, dizia:
- Est bem, Pepito, estamos todos mortos. Mas senta, descansa.
- Ya s, crees que estoy borracho, no? Pues... tienes razn. Que otra cosa puede hacer un hombre lcido, sino emborracharse?
- Que tal uma xcara de caf bem forte, hein?
- Caf? Ridculo!
523
Empertigou-se, tomando um ar digno. Rodrigo ps-lhe a mo no ombro e, com voz persuasiva, disse:
- Pepito, ests doente. Tens de ir pra casa imediatamente. Vou chamai o Bento pra te levar de carro. Quem est te falando no  o amigo, mas o doutor. E isso  uma 
ordem.
Don Pepe tez meia-volta e apontou para a tela.
- Aquel, si, es mi amigo. Mi nico amigo. Pero tu, tu eres un impostor!
Precipitou-se para o Retrato de biaos abertos e com tanta fria que perdeu o equilbrio e tombou ruidosamente, abraado com o quadro.
Passava j de uma hora da madrugada, quando Rodrigo conseguiu que Bento levasse o pintor do Sobrado para os braos de Celanira.
Ps-se ento a fechar as janelas. Sentia-se num estado muito agradvel de pr-embriaguez: o suficiente para deix-lo areo, eufrico e satisfeito com o mundo. Era 
delicioso estar tonto e ao mesmo tempo conservar a lucidez
Maria Valria atravessou a sala de jantar com uma vela acesa na mo: como de costume examinava as portas e janelas, antes de recolher-se ao quarto de dormir. Parecia 
um espectro. Parou  porta e perguntou:
- No vai dormir?
- J vou, Dimda.
A tia entrou no vestbulo e subiu a escada. Rodrigo seguiu-a com o olhar, soirindo. O meu fantasma de estimao...
Despejou na taa o resto de champanha que havia na garrafa, tomou um largo trago, olhou para o Retrato e recitou baixinho:
J c recule,
Ebloui l me voir moi-mme tout vernieil
Et d'avoir, mi, L Coq, fait lever l soleil.
A sombra do anjo
Passava das quatro da manh quando Rodrigo e a esposa deixaram o salo do Clube Comercial.
- O melhor rveillon da minha vida! - exclamou Flora, com um suspiro de canseira feliz, apoiando-se no brao do marido.
Rodrigo inclinou-se sobre ela e tocou-lhe os cabelos com os lbios. Estava tonto: misturara durante a festa muitas bebidas - boivle, champanha, cerveja, conhaque... 
Que baile! Que noite! Pouco antes das trs da madrugada, Saturnino lhe viera segredar que em toda a existncia do clube jamais se consumira tanta bebida como naquele 
31 de dezembro. Dois ou trs rapazes das melhores famlias de Santa F haviam cado no meio do salo em estado de coma. Senhores respeitveis e damas de ordinrio 
quietas e tmidas estavam num alegrete cmico, a rir, a dizer asneiras e - francamente, Rodrigo - a danar dum jeito que s em cabar...
- Qual, Saturno! No sejas puritano. Santa F civiliza-se! Parados na rea lateral do clube, Rodrigo e Flora olhavam
sorrindo para o Bento, que dormia ao guidom do automvel, l embaixo junto da calada, a boca entreaberta, a cabea cada sobre o respaldo do banco dianteiro, a 
aba do chapelo puxada sobre os olhos. Rodrigo sorriu. Achava uma graa irresistvel naquele hibridismo. O Bento, peo analfabeto natural de Trs Forquilhas, feito 
chofer dum automvel de fabricao alem... Como lhe fora custoso convencer o boleeiro de que ele podia aprender a dirigir aquele carro sem cavalos! Mandara buscar 
um mecnico de Porto Alegre, especialmente para ensinar-lhe o manejo do Adler. E que sucesso
524
525
"
fizera o caboclo no primeiro dia em que descera a rua do Comrcio sozinho na direo do automvel, a fonfonar faceiro e a receber das caladas e das janelas os acenos 
de parabns e os gracejos dos amigos e conhecidos! Havia, porm, um ponto em que Bento se mantinha irredutvel. Negava-se a substituir o chapu de campeiro pelo 
bon de chofer: recusava obstinadamente trocar as bombachas e as botas pelo uniforme azul e pelas perneiras de couro que o patro mandara vir da capital.
Os Cambars desceram lentamente a escada, num equilbrio meio instvel, e entraram no carro.
Rodrigo sacudiu o caboclo.
- Vamos, Bento, acorda!
Bento endireitou bruscamente o busto, atirou para cima com um tapa a aba do chapu e voltou a cabea.
- Ah! - fez, com os olhos piscos, pondo  mostra a forte dentadura amarelada. - Feliz Ano-Novo!
- O mesmo para ti - respondeu Flora.
- E que o novecentos e quinze seja melhor que o novecentos e quatorze - desejou-lhes o caboclo.
Saiu do carro em movimentos lerdos, agachou-se diante do radiador e, resmungando e gemendo, ficou a dar manivela.
- Ooooi, bicho bem custoso, seu! Puxa-lo alazo caborteiro! Por mais voltas que desse  manivela, o motor no pegava.
- Filho duma grandessssima... - Engoliu o palavro. - Corno duma figa! - continuou a resmonear. - Tu pega ou conta por que no pega!
Deu com toda a fora um novo giro  manivela. A hlice do motor ps-se a rodar e o carro foi sacudido por uma tremedeira.
- Est corcoveando, o bicho! - exclamou Bento, alegremente, precipitando-se para o assento dianteiro, onde ficou a regular, azatamado, a fasca.
Destravou o automvel e f-lo arrancar dum modo to abrupto, que Rodrigo e Flora, que estavam sentados na beira do banco, foram atirados para trs.
- Barbeiro! Quando  que vais aprender a sair sem solavanco? Estou vendo que tenho de mandar vir um chofer de Porto Alegre.
526
- Pois mande, eu quero voltar pra bolia...
As vezes Rodrigo tambm tinha saudade do carro, que lhe parecia um veculo mais romanesco que o automvel. Numa chuvosa tarde de dezembro do ano de 1830, uma carruagem 
puxada por dois jocosos alazes e conduzida por um cocheiro de libr estacou diante do n" 18 da Rua T... Era assim que comeava um dos romances que lhe haviam deliciado 
a adolescncia. Seria ridculo, prosaico, inconcebvel, escrever: Naquela madrugada do vero de 1914 um automvel da afamada marca Adler parou h frente do n" 15 
da Rua do Comrcio.
Pensou no primeiro automvel que aparecera em Santa F, l por fins de 1911. Era um estranho veiculo eltrico de trs rodas e dois lugares, mandado vir da Alemanha 
pelo Spielvogel. Causara pnico a primeira vez que percorrera as rua;, da cidade. Ao ver a engenhoca passar, um gacho que se achava  frente da Casa Schultz, levara 
a mo ao revlver e s no alvejara o "bicho" porque Marco Lunardi, que aparecera na ocasio, impedira-o disso, imobihzando-o com seus braos possantes.
Com o tempo, entretanto. Santa F habituara-se  "aranha" do Spielvogel. Mas fora ele, Rodrigo, quem adquirira o primeiro automvel de quatro rodas e cinco lugares, 
movido a gasolina. O Adler fizera tambm os seus "estrupidos" no dizer do Liroca. assustando pessoas e animais com as exploses de seu motor e os roncos de sua buzina. 
Muitas vezes, por impercia do Bento, o auto subira nas caladas, indo de encontro a muros ou a paredes. Incontveis tambm foram as ocasies em que por causa de 
desarranjos no motor ou da falta de alguma pea, o Adler tivera de ficar imobilizado na garagem. (Esta ltima palavra e outras como jasca, radiador, marcha  r, 
guidom, pneumtico, jonfom e chofer comeavam a ser incorporadas ao vocabulrio corrente.) Fosse como fosse - conclua Rodrigo - valia a pena ter automvel.
joca Prates animara-se a comprar no ano passado um Mercedes igual ao que Spielvogel trouxera da Alemanha em 1913. Dizia-se que o Maneco Macedo encomendara, havia 
pouco, um Fiat. Era uma espcie de competio entre um pequeno grupo de estancieiros e comerciantes locais: cada qual procurava exibir nas ruas,
527
em passeios dominicais, o automvel maior e mais caro. Rodrigo esperava agora um Ford de quatro cilindros, no porque quisesse entrar no torneio - coisa que achava 
supinamente tola - mas sim porque lhe haviam assegurado ser esse o carro indicado para vencer com sucesso aquelas estradas deplorveis que levavam ao Angico.
- Guarda o auto e vai dormir, Bento! - disse ele ao apear  frente do Sobrado. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e empurrou Flora para dentro, docemente. Procurou 
s apalpadelas o comutador e torceu-o: o vestbulo iluminou-se de sbito. Tinham energia eltrica em Santa F desde fins de 1912, mas era sempre com a sensao de 
fazer um milagre que Rodrigo dava volta  chave da luz. Como aquilo era infinitamente mais prtico, mais fcil e mais limpo que o ace<-'lene! No entanto, ele jamais 
poderia imaginar Mme Bovaiy ou Ana Karnina a outra luz que no fosse a de gs...
Como que sem foras para subir, Flora estava parada ao p da pequena escada, de braos cados e olhos quase fechados.
- Que  que tens, meu amor?
- Ai! Estou com uma moleza... Acho que foi o bowle. Rodrigo ergueu-a nos braos e subiu a escada. Flora enlaou
o pescoo do marido e como que se lhe aninhou de encontro ao peito.
-  a vantagem de ter uma esposa porttil - murmurou ele ao p-la de p no cho do vestbulo.
Encaminharam-se abraados para a escada grande, acendendo as luzes das peas por onde passavam.
- Se eu fosse casado com uma grandalhona como a Esmeralda...
Calou-se, arrependido de haver mencionado este nome. De olhos entrecerrados, a voz sonolenta, Flora balbuciou:
- Pensas que no vi o jeito dela olhar pra ti no baile?
- Hein?
528
- Eu bem que vi. Sempre que podia, vinha falar contigo. Uma vez chegou at a encostar a mo no teu brao. E que olhos ela te botava. Nossa Senhora!
- Ora que bobagem, Flora! Ela sorria, com ar de sonmbula.
Que intuio diablica tinham as mulheres! - refletiu Rodrigo.
Naquela noite tivera realmente um flerte com Esmeralda Pinto. Haviam danado uma valsa e por mais duma vez ela projetara com fora os seios contra seu peito, ao 
mesmo tempo que a presso de seus dedos se fazia mais forte. V a gente entender as mulheres! H quatro anos, quando ns dois ramos solteiros, s por causa duma 
brincadeira inocente a criatura fez um barulho dos demnios. Agora, que estamos ambos casados, sem a menor provocao da minha parte, ela me vem com esses olhares 
e esfregaes.
Tornou a erguer a mulher nos braos.
- No quero que digas mais essas bobagens, ests ouvindo? - repreendeu ele carinhosamente.
- Que bobagens?
- Essa histria da Esmeralda Pinto. Tu sabes que no sou homem dessas coisas.
Flora no respondeu. Com a cabea pousada no ombro do marido, parecia adormecida.
- E tu sabes muito bem - continuou ele, enquanto subia lentamente os degraus - que pra mim s existe uma mulher no mundo inteiro. Tu!
Como nica resposta, Flora espichou os lbios e beijou-lhe o pescoo.
- Se eu no tivesse a certeza de que te amava, no me casava contigo. Se h coisa que no me passa pela cabea  namorar as mulheres dos outros.
Flora beijou-lhe chochamente a ponta do queixo.
- Est espinhando - queixou-se, lambendo os lbios.
-  que a esta hora da madrugada a barba j est meio crescida.
- Que horas so?
- Mais de quatro, meu bem.
529
riu
Entraram no quarto, Rodrigo acendeu a luz e deps a mulher sobre a cama.
- Estou com preguia at de tirar a roupa... - murmurou ela. Pela cabea de Rodrigo passou uma idia picante.
- Queres que eu te dispa?
Como se lhe tivessem atirado um jorro d'gua fria, Flora abriu os olhos num sobressalto.
- Rodrigo!
- Estou brincando, meu bem.
Mas na realidade falava srio. Estava excitado e sem sono. Por um instante ficou a despir a mulher em pensamento, a tirar-lhe as roupas, uma por uma, com propositada 
lentido, a antegozar o sensacional momento da nudez completa. No precisava fazer aquilo com a luz acesa... Ficaria at mais interessante se deixassem o quarto 
numa penumbra azulada de luar... Diabo! Por que no podiam entregar-se de quando em quando a extravagncias como aquela? No seriam por acaso marido e mulher? Ou 
estarei bbedo?
De p, no meio do quarto, contemplava a companheira. Estavam casados havia quatro anos e Flora jamais se despira em sua presena. Esse pudor geralmente o encantava: 
em certas ocasies, porm, deixava-o irritado. Muitas vezes chegava  concluso de que, em matria de sexo, preferia que o casal fugisse  consabida burocracia conjugai, 
que acabaria por transformar-se com o passar do tempo numa rotina inspida: amor em dias e horas certos, com a luz apagada e sob as cobertas, dentro da mais rigorosa 
ortodoxia - tudo muito digno, muito srio, muito "famlia". Flora entregava-se com o ar de quem cumpre um dever grave. )amais dera a entender por gestos ou palavras 
que aquilo lhe dava prazer. Rodrigo, s vezes, desejava que na alcova ela fosse mais amante que esposa. Tinha, porm, a antecipada certeza de que, se tal acontecesse, 
ele prprio ficaria escandalizado e tomado duma ciumenta e meio alarmada apreenso.
Flora ressonava, e seus seios midos (nem parece que j amamentou os dois filhos!) subiam e desciam num ritmo lento e regular. Rodrigo despiu o casaco do smoking 
e jogou-o sobre uma cadeira. Arrancou o colarinho e a gravata, atirando-os em cima da cama.
Descalou os sapatos e deixou-os virados no meio do quarto. Sorriu ao lembrar-se do que a mulher costumava dizer: "s um desorganizado! Quando tiras a roupa, deixas 
tudo espalhado pelo cho. Pareces uma criana". Mas como era possvel ter mtodo e ordem, fazer todas as coisas da vida com um cuidado meticuloso? Havia observado 
que os chamados metdicos eram geralmente homens incapazes de paixo, tipos frios, eficientes e insuportavelmente cacetes.
Sentou-se na beira da cama, acendeu um cigarro e ps-se a fumar, com os olhos postos na mulher. O casamento fizera bem a Flora. Deixara-a mais fornida de carnes, 
sem entretanto deformarlhe o corpo. Notava-se nela um certo amadurecimento que no se revelava apenas nas feies, nos gestos, na maneira de andar e olhar, mas tambm 
e principalmente nas palavras, nos juzos, na atitude diante das pessoas e da vida. Tinha um bom senso desconcertante. Era agora, por assim dizer, o poder moderador 
de sua vida. Ele notara o ressentimento, a ciumeira de sua madrinha quando vira entrar no Sobrado, como senhora, aquela menina inexperiente. Flora, entretanto, desde 
o primeiro dia suportara as impertinncias de Maria Valria com um sorriso tolerante e compreensivo, evitando qualquer atrito. E, com uma sabedoria digna dum poltico 
consumado, sempre que a outra com visvel m vontade vinha consult-la sobre assuntos domsticos, respondia: "Ora, titia, a senhora  quem manda. E, depois, eu no 
entendo nada desses negcios de casa..."
E Maria Valria, aparentemente satisfeita, continuara a governar discricionariamente o Sobrado.
3
Galos amiudavam, longe. Dentro duma hora estaria a nascer o novo dia - pensou Rodrigo -, mas o sono no lhe vinha. Estendeu-se na cama, com os ps para a cabeceira, 
e ali ficou com o cigarro preso entre os lbios, os braos cruzados, os olhos postos no teto. Sempre imaginara que o casamento lhe pudesse trazer um certo apaziguamento 
sexual. Talvez no fundo no chegasse a esperar
530
531
nem isso: estava mas era procurando um pretexto para trazer Flora legalmente para aquela cama. Cnico! Ora, seria tolice tentar tapar o sol com uma peneira. Sabia 
que no era homem que se contentasse com uma nica mulher. Apesar disso, fora absolutamente fiel  esposa durante... quantos anos mesmo? Sorriu. No. No haviam 
sido anos, mas meses. Uns seis ou sete... Quando Flora chegara s ltimas semanas de sua primeira gravidez, ele se vira de tal maneira acicatado por uma to grande 
insatisfao sexual que, sem saber como resolver seu problema discretamente ali em Santa F, inventou um pretexto para ir a Porto Alegre, onde passara dez dias inesquecveis: 
noitadas no Clube dos Caadores, ceatas com amigos e mulheres, muitas mulheres. Durante uma semana inteira "chafurdara", sem a menor inibio ou antecipado remorso. 
Como mdico, encontrava uma explicao natural para aquilo: era uma purga. Que o organismo humano necessita periodicamente duma purga, isso era coisa que nem o dr. 
Matias ignorava. Pois aquela prolongada farra em Porto Alegre, em setembro de 1911, tinha sido a purga de que ele tanto precisava. Voltara para casa, aliviado, com 
um leve sentimento culposo que fizera redobrar seu amor, sua ternura pela mulher, a quem cumulara de atenes e presentes. Chegara, satisfeito,  concluso de que 
Flora no havia sido prejudicada em coisa alguma por aquela escapada, ao passo que ele, tendo salvo as aparncias, se sentia renovado, pronto para enfrentar um longo 
perodo de respeitabilidade monogmica.  assim, depois do nascimento de Floriano, o casal tivera sua segunda lua-de-mel...
De olhos cerrados, a fumar e a ouvir os borborigmos do estmago, Rodrigo lembrava-se, divertido, das juras que ento fizera a si mesmo, a olhar para o filho adormecido 
no bero: "Prometo nunca mais andar atrs das outras mulheres. Para mim a Flora  e continuar sendo a nica at a morte". Curioso! Apesar de tudo quanto aconteceu 
nos anos seguintes, aquela promessa havia sido formulada com a mais absoluta sinceridade.
Tivera a princpio a impresso de que a paternidade o tornara um homem novo. No pudera nem tentara reprimir as lgrimas no dia em que pela primeira vez vira a mulher 
amamentando o filho. E que sensao agradvel e ao mesmo tempo embaraosa a
532
de ter na cama  noite uma Flora maternal, de seios tmidos de leite, uma Flora alvoroadamente feliz e apesar disso agoniadamente inquieta, a acordar a cada passo 
para olhar o filho no bero ao lado da cama. ("Ser que essa criana est respirando direito? E se ela pega crupe? Meu Deus! O Floriano est ficando roxo...") Rodrigo 
observara, perturbado, que a mulher e o filho tinham o mesmo cheiro: recendiam ambos leite, cueiros de flanela midos e talco. Com freqncia Flora trazia Floriano 
para a cama e dormia com a criana nos braos. Todas essas coisas concorriam para deix-lo inibido, com a impresso de que possuir fisicamente a mulher naquela conjuntura 
seria cometer incesto.
Abriu os olhos e ficou olhando para a espiral da fumaa do cigarro. Os chineses (que grande povo, que sbia gente!) tinham razo em reconhecer que todo o varo necessita, 
alm da esposa legtima, de uma ou mais concubinas. Porque o homem , sem a menor dvida, um animal polgamo. No existe nenhuma lei natural que justifique a monogamia. 
Mas que  que a gente vai fazer, com dois mil anos de cristianismo na conscincia?
Voltou a cabea e ps-se a contemplar com certa fascinao os tornozelos de Flora, que estavam a poucos centmetros de seus olhos. Sentiu um desejo travesso de erguer 
o vestido da esposa para ver-lhe as pernas, mas conteve-se no temor de que, despertando, ela o pilhasse a fazer aquele gesto juvenil.
Cerrou os olhos. Os borborigmos continuavam. Estou precisando duma dose de bicarbonato. Amanh a ressaca vai ser colossal.
Retomou o fio dos pensamentos de alcova. Que  que vai fazer um homem moo, sadio e sensual quando v que a esposa, grvida, perde as formas, deixa de despertar-lhe 
desejo? Ficar na abstinncia como um eremita? Ora, isso no  para qualquer temperamento. A soluo mesmo  a concubina, queiram ou no queiram, doa a quem doer...
Atirou o cigarro no cho, revolveu-se na cama  procura duma posio e acabou deitado de bruos.
A segunda gravidez de Flora no lhe trouxera menos problemas. Lembrava-se duma certa noite em que, j tarde, chegara  casa de volta do teatro, aonde fora sozinho. 
Despira-se de luz apagada, no maior silncio, para no despertar a mulher, e depois deitara-se
533
ao lado dela, mas bem na beira da cama, pois vivia obcecado pelo temor de, durante a noite, bater inadvertidamente no ventre dela, apertar-lhe os seios ou mago-la 
fisicamente de qualquer outra forma. Era uma noite quente de fevereiro de 1913 e por muito tempo ele permanecera de olhos aberlos, a recordar cenas da opereta a 
que assistira no Santa Ceclia. Tinha a mente cheia de msica, luzes e imagens. Ficara impressionado com Gina Carelli, a melhor Viva alegre que jamais vira em toda 
a sua vida. Era uma jovem italiana, muito bem-reita de corpo, de cabelos oxigenados e olhos escuros, dona duma voz quente, duma doura pegajosa. A soprano da companhia 
era uma ragazza de feies clssicas: sua beleza, tranqila e pura, convidava  contemplao esttica. Mas La Carelli, a soubrette, essa tinha uma boniteza jovial 
e meio canalha, que provocava a ao ertica. No era, entretanto, uma fmea que fizesse pensar em srias, vagarosas, profundas paixes de alcova, mas sim em escapadas 
ocasionais, amores roubados e urgentes, tanto mais excitantes quanto mais furtivos e temperados de acidentes e incidentes grotescos.
Como lhe custara trazer aquela companhia de operetas a Santa F! O empresrio exigia-lhe como garantia um mnimo de cento e vinte assinaturas para cinco espetculos, 
de sorte que ele, Rodrigo - que s conseguira passar noventa e cinco entre os amigos - tivera de pagar do prprio bolso as vinte e cinco restantes. Mas valera a 
pena gastar todo esse dinheiro para ter o privilgio de ver La Carelli a danar um canc no palco do Santa Ceclia, mostrando quase meio palmo de coxa.
Estava ainda a pensar na soubrctce quando ouviu o choro malabafado de Flora. Voltando a cabea, vira na penumbra os ombros dela sacudidos por soluos.
- Que  isso, minha filha?
Nenhuma resposta. Tomara-a nos braos, com todo o cuidado, e, fazendo-a voltar-se para ele, estreitando-a suavemente contra o peito, sentindo contra a boca do estmago 
aquele ventre bojudo e quente.
- Que  isso, meu bem? Conte pr seu maridinho o que  que tem. Est sentindo alguma dor? No? Ento o que ? Teve algum sonho mau?
534
Depois de muita relutncia Flora contara por que chorava.  que estava feia, disforme, velha, medonha...
- Tu nem me olhas mais. Tens tanto horror de mim que chegas a dormir na beira da cama, bem longe...
- Mas, meu bem,  que eu tenho medo de te magoar, no compreendes?
Com a cabea da esposa aninhada no peito, ficara como que a nin-la, sussurrando-lhe ao ouvido ternas palavras de amor. O choro fora cessando aos poucos mas, mesmo 
depois de veiificar que Flora dormia, ele no tivera coragem de retirar o brao sobre o qual a cabea dela repousava. Por muito tempo permanecera naquela posio, 
a sentir no peito o bafo mido e morno da mulher, e a pensar no encontro que marcara para o dia seguinte com Gina Carelli. O plano era simples. Convidara-a para 
um passeio de automvel, que diabo!, a coisa mais natural do mundo, pois a soubrette no era nenhuma provinciana... Iriam os dois contemplar o prdo-sol ao p dos 
muros do cemitrio. Voltariam para a cidade ao anoitecer e o Bento j estava instrudo para,  altura da Sibria, desviar o Adler da estrada real, lev-lo at a 
orla do Capo das Almas e l, sob qualquer pretexto, desaparecer...
O resto fica por minha conta. Mas preciso no esquecer que La Carelli no pode chegar tarde para o espetculo da noite. Para o outro espetculo.
Estava sorrindo a pensar nessas coisas quando sentira contra o prprio ventre a palpitao do ventre da esposa. Era seu filho que esperneava... Santo Deus! A criaturinha 
estava a toc-lo, como que a fazer-lhe um sinal. Essa idia deixara-o de tal modo sensibilizado, que ele rompera a chorar e a beijar, arrependido, os cabelos de 
Flora.
Despertou no dia seguinte quase s duas da tarde, com a cabea pesada, a boca amarga, o corpo lasso e lavado em suor. 535 

soergueu-se na cama, ficou por um instante a piscar e a olhar atarantado em torno do quarto. Flora dormia a seu lado completamente vestida, tal como estava ao chegar 
do baile. Ele tambm no havia tirado a camisa de peito engomado nem as calas do smoking.
Ergueu-se, zonzo, aproximou-se duma das janelas e abriu-a. A claridade da tarde feriu-lhe os olhos. Um bafo de fornalha subiu da rua. Que calor, me de Deus! Sentia 
a camisa colada ao peito e s costas, o suor a escorrer-lhe pelo rosto, pelo corpo todo. O remdio era um chuveiro frio... Dirigiu-se para o quarto de banho. Pelo 
caminho foi tirando a roupa: jogou o colete no cho do corredor, deixou a camisa sobre o corrimo da escada, baixou os suspensrios e livrou-se das calas na sala 
de jantar... Ao chegar ao quarto de banho estava j completamente despido. Soltou um suspiro de profundo gozo quando o fresco jorro d'gua lhe envolveu o corpo. 
Sentou-se debaixo do chuveiro e ali ficou longo tempo, de olhos cerrados, os braos a enlaar os joelhos. E quando, pouco antes das trs, tornou a descer para o 
andar inferior, Maria Valria lanou-lhe um olhar crtico:
- Grossa farra, hein?
- Bom dia - disse ele com voz amarga.
- Boa tarde!
A mania de horrio que tinha aquela gente antiga! Eram os supersticiosos da ordem, da disciplina, da regularidade. Don Pepe  quem tinha razo. Que es ei tiempo? 
Nosotros los espanolcs somos as. (Onde estaria o diabo do castelhano quelas horas? No Par? No Amazonas?)
Flora apareceu pouco depois do marido. Desceu as escadas devagarinho, segurando o corrimo, como uma convalescente que arrisca os primeiros passos depois de longa 
enfermidade.
- Est na mesa! - anunciou Laurinda com a jovialidade de quem havia dormido suas sete horas tranqilas e deixado a cama s seis da manh.
Flora franziu o nariz.
- No me falem em comida. Eu quero  uma boa dose de bicarbonato.
536
Com todo o cuidado, os olhos semicerrados, a cabea ereta, inclinou-se para beijar os filhos que brincavam na sala de visitas.
- Ano novo, vida nova - sentenciou Maria Valria. Flora declarou que ia apenas fazer ato de presena  mesa.
Estava plida e com olheiras. Rodrigo achou que no lhe ficava nada mal aquela mscara de ressaca.
Feijo com toicinho; carne frita com batatas assadas; talharim coberto de queijo parmeso ralado; galinha ensopada; arroz luzidio...
Rodrigo atirou-se  comida com um apetite que no s surpreendeu a mulher e a tia como tambm a ele prprio. Ao despertar jurara que no teria coragem de botar o 
que quer que fosse na boca, a no ser talvez caf preto sem acar.
- Invejo o teu estmago - disse a mulher.
Naquele instante Alicinha desatou o choro: Floriano lhe havia arrebatado das mos o cavalinho-de-pau.
- Faa essa criana calar a boca, Dinda! - suplicou Rodrigo. Os gritos da menina pareciam atravessar-lhe o crebro como pontaos de fogo.
- Quem pariu Mateus que o embale! - retrucou a tia. Disse isso apenas no automatismo do hbito, pois levantou-se imediatamente e dirigiu-se para a sala, onde arbitrou 
 sua maneira decidida a pendncia dos irmos.
- D o cavalo pra sua maninha. U, gente! Onde se viu? Floriano obedeceu, a cabea baixa, o beicinho trmulo. Era
uma criana quieta, duma docilidade que preocupava um pouco Rodrigo, que preferia v-lo - homem que era - mais rebelde e turbulento.
Alicinha parou de chorar. Maria Valria tornou a sentar-se.
- Como se foi de discurso no clube?
- Uma beleza, titia! - exclamou Flora. - Um dos melhores que Rodrigo tem feito.
- Tapei a boca de muita gente - disse ele. - Na minha primeira gesto, em novecentos e onze, me acusaram de ser um presidente perdulrio, de ter ficado com as glrias 
de reformador do clube e deixado as dvidas pras outras diretorias pagarem. Pois
537

bem. Minha gesto de 1914 foi um modelo de equilbrio e economia. Entreguei ontem o clube  nova diretoria sem uma nica conta a pagar e com quase um conto de ris 
em caixa!
- Sim - observou Maria Valria - mas quanto gastou do seu bolso?
Sei l! Perdi a conta, Dinda, perdi a conta. Reformei a
sala de jogo carteado com o meu dinheiro. A moblia do toilctte das senhoras tambm foi eu quem pagou. E as cortinas do salo de baile... e o novo coreto...
- E que foi que ganhou com isso? Vo continuar a falar mal de voc do mesmo jeito. E esse dinheiro no volta mais pr seu bolso.
Rodrigo encolheu os ombros.
- Por
que  quel
as
- moedas so redondas? Pra rolar! Dinheiro
no nos falta, Dinda. Estamos na poca das vacas gordas.
Sim, sua farmcia atravessava um perodo de grande prosperidade. As vendas aumentavam dia a dia. O movimento agora era to grande, que tivera de admitir mais dois 
empregados. Esse progresso se devia em grande parte s operaes do dr. Cario Carbone. Felicitava-se por ter tido a idia de trazer aquele italiano para Santa F. 
O diabo do gringo tinha mos de mago: era indubitavelmente o maior operador que jamais aparecera no Rio Grande do Sul. Outra grande idia fora a de construit no 
quintal da farmcia aqueles pavilhes de madeira com os quartos onde ficavam os doentes aps as operaes. Era uma espcie de pardia de sua sonhada casa de sade... 
E esse hospital improvisado vivia sempre cheio e no raro tinham de acomodar precariamente os operados nos corredores em cima de colches estendidos no soalho. De 
todos os pontos de Santa F e dos municpios vizinhos afluam doentes. O dr. Carbone trabalhava desde o raiar do dia e s vezes tinha de continuar operando noite 
adentro. Cada operao deixava para a farmcia um aprecivel lucro, isso sem contar a renda do aluguel dos quartos.
Era realmente uma poca de vacas gordas. Tolice preocupar-se a gente com dinheiro!
538
No dia seguinte pela manh, em companhia da mulher e dos filhos, Rodrigo foi visitar os sogros, que viviam agora numa pequena chcara situada a um par de quilmetros 
a noroeste do cemitrio municipal. Como as estradas para aquelas bandas fossem sofrveis, arriscou-se a fazer o percurso de automvel. E enquanto Flora ia calada 
no seu canto, os olhos cerrados, a cabea pendida (o balano do Adler e o cheiro de gasolina queimada causavam-lhe tonturas e nuseas), Rodrigo pensava na singular 
histria do sogro, que continuava a ser para ele uma fonte inesgotvel de surpresas.
Numa tarde de fevereiro de 1911, exatamente no dia em que havia chegado com Flora a Santa F, de volta da viagem de npcias a Buenos Aires, espalhara-se pela cidade 
a notcia de que Aderbal Quadros estava falido. Flora desatara logo o choro, pois em seu esprito a palavra falncia estava associada a outras igualmente dramticas 
como cadeia, fuga, vergonha, suicdio...
Rodrigo ficara chocado pela subitaneidade do golpe e ao mesmo tempo magoado com o sogro por no t-lo avisado com antecedncia do que estava por acontecer. Claro, 
havia muito, murmurava-se que Babalo andava mal de negcios, mas sempre que amigos ntimos tratavam de esclarecer o caso, o velho desconversava. Escondera tudo at 
a ltima hora. Por que, Santo Deus? Por qu?
O acontecimento produzira em Santa F uma espcie de pnico, pois vrias dezenas de pessoas de condio humilde - que confiavam mais em Aderbal Quadros que nos estabelecimentos 
bancrios - tinham pequenas quantias nas mos dele, a render juros. Rodrigo correra  casa do sogro, esperando encontr-lo arrasado. O velho, entretanto, viera sorrindo 
a seu encontro.
- Ento, j soube do estouro da boiada? - perguntara ao abra-lo.
- E agora, que  que o senhor vai fazer?
- Agora? Liquidar a massa falida e comear de novo. O principal  no prejudicar ningum. Pagarei tudo e todos at o ltimo tosto. - E em seguida, mudando de tom 
e evidentemente buscando um pretexto para fugir do assunto-
539
- Ento? Como se foram de viagem? Se divertiram muito? Naquele mesmo dia Rodrigo procurara o dr. Ruas, o advogado
de Aderbal, para saber ao certo da situao do sogro. Estava pasmado. Um cidado que no bebia, no jogava nem se metia com mulheres; um homem que levava a mais 
espartana das vidas, trabalhando de sol a sol - como podia ter chegado a uma situao como aquela?
Muito simples - explicara o advogado. Aderbal Quadros recebia dinheiro a juro alto - mais alto que o de qualquer banco do pas - e emprestava-o a juro baixssimo, 
sem garantia de espcie alguma. E o pior de tudo - esclarecera ainda o dr. Ruas, alteando a voz indignada -, o pior de tudo era que o simplrio chegava ao cmulo 
de no exigir nenhum documento das pessoas a quem fazia emprstimos, pois achava - o inocente! o anjinho! o idiota! - que a palavra de um homem de bem valia tanto 
quanto qualquer letra selada, com assinatura reconhecida em cartrio. Ali! Mas as "loucuras" do Babalo no pararam a. Descobrira tambm que o homem no trazia nada 
anotado, suas transaes eram feitas sob a palavra e registradas apenas na memria. Livro? Inveno estrangeira para complicar as coisas.
E o produto da venda das terras que o velho possua - indagava Rodrigo - no daria para cobrir com folga as dvidas? Nas estncias de Santa Rita e Santa Clara estavam 
os melhores campos da regio serrana... Seriam no mnimo umas boas quinze lguas bem povoadas. E o gado? E os prdios que o velho possua na cidade?
O dr. Ruas sorria sardonicamente. Babalo no era apenas seu constituinte, era tambm seu amigo de muitos anos. Por essa razo a coisa toda o deixava furioso. Nunca 
me consultava! Nunca me ouvia! Decerto acha que advogado  sinnimo de vigarista.
- Pois saiba duma coisa, dr. Rodrigo, depois de vendidas essas duas estncias com todo o gado, aos melhores preos do momento; depois de vendidas todas as casas, 
pagos os impostos, etctera, etctera... o total apurado mal dar pra pagar o que esse cretino deve!
-  assombroso!
540
- As pessoas a quem ele emprestou dinheiro esto insolventes, j morreram ou se mudaram de Santa F sem deixar nem rastro.
- Espantoso!
- S no ano passado seu sogro perdeu uns cento e tantos contos numa charqueada de Rosrio. Imagine, scio duma charqueada que nunca viu! E pior que isso: faz uns 
cinco ou seis anos que vem perdendo dinheiro com a tal lavoura de trigo. Essa  que foi a grande sangria. Ora, se os nossos avs deixaram de plantar trigo no Rio 
Grande deve ter sido por alguma razo muito boa!
Ao saber da falncia do amigo, Licurgo precipitara-se do Angico para a cidade, fechara-se com Babalo numa sala durante mais duma hora, tentando convenc-lo da necessidade 
de salvar as estncias a qualquer preo. Ele, Licurgo, e mais um grupo de amigos estavam dispostos a levantar o dinheiro para atender aos principais credores. O 
resto se arranjaria com o tempo...
Babalo passara quase todo o colquio a sacudir negativamente a cabea. No queria sacrificar os amigos. Mas no  sacrifcio, vivente de Deus! Se eu estivesse nessa 
situao, sei que vassunc faria o mesmo por mim.
No conseguiu, porm, convencer o outro. Aderbal Quadros queria vender tudo o que possua, pagar as dvidas at o ltimo vintm, e comear de novo, com o cofre e 
a conscincia igualmente limpos. Parecia at que, naquela histria toda, a nica coisa que realmente o interessava era recomear a vida na estaca zero, como se fosse 
ainda um pi e no um homem de mais de cinqenta anos.
Agastado, Licurgo encerrara a entrevista com uma frase muito de seu agrado: "Amarra-se o burro  vontade do dono". E Babalo, chupando o cigarro, glosara: "O burro 
nesse negcio fui eu. Portanto eu  que devo agentar as conseqncias".
Pensando nessas coisas Rodrigo olhava para as coxilhas, sob a soalheira daquela manh de vero. Numa das invernadas que margeavam a estrada, queimava-se campo, e 
o vento trazia at o automvel uma fumaa azulada e espessa, cujo cheiro lhe evocava longnquos veres da infncia, no Angico.
541 
Aproximavam-se da chcara a que Babalo dera - ningum sabia ao certo por qu - o nome de Sutil. Bento ps-se a fonfonar. Uns cinco ou seis guaipecas, dos mais variados 
plos e tamanhos, surgiram na estrada e entraram a perseguir o automvel, ladrando furiosamente.
Rodrigo avistou a casa dos Quadros, uma meia-gua de porta e duas janelas, de paredes que haviam sido brancas num passado remoto, e coberta de telhas vs esverdinhadas 
de limo. Parecia uma velha triste e encolhida, com um xale sobre os ombros, sentada quietinha atrs daquele renque de coqueiros.
- Quem diria? - murmurou Rodrigo. - O dono das estncias de Santa Rita e Santa Clara reduzido  condio de rendeiro duma chacrinha!
Flora entreabriu os lbios num desbotado sorriso:
- Deixa o coitado. Ele gosta dessa vida...
- Pois  exatamente isso que me intriga. O velho gosta!
- Quando morvamos na casa da rua do Comrcio, s vezes o papai ia sestear no fundo do quintal, debaixo das rvores e em cima dos arreios. Dizia que era pra se lembrar 
dos tempos de tropeiro...
O Adler parou  frente da casinhola. Babalo e a mulher, que os sons da buzina haviam atrado para fora, aproximaram-se do automvel.
As duas crianas apearam e precipitaram-se, de braos erguidos e aos gritos na direo dos avs. Babalo acocorou-se, enlaou os netos, um em cada brao, puxou-os 
contra o peito e beijou-lhes as faces. Dona Titina, secarrona, limitou-se a dar-lhes a mo:
- Tomem a bno da vov.
Levou-os depois para dentro e, sob os protestos de Flora, encheu-lhes as mos de roscas de polvilho e rapaduras de leite. Aderbal quis saber como ia a guerra.
- Um pouco parada - informou Rodrigo. - Na Europa agora  inverno. Cai muita neve, os caminhos esto impraticveis,
542
o frio  brabo. O remdio  fazer guerra de trincheira enquanto a primavera no vem. Babalo sorriu.
- s vezes at chego a pensar que toda essa histria de guerra no passa duma inveno do Correio do Povo e dos outros jornais, s pra terem assunto.
- Antes fosse...
Entraram. A "varanda", de cho de terra batida, teria quando muito trs metros de frente por dois e meio de fundo. Viam-se grandes falhas no reboco das paredes manchadas 
de umidade e onduladas de calombos. A moblia era a mais rstica e resumida possvel: uma mesa de pinho sem lustro, quatro cadeiras de assento de pau e um velho 
guarda-comida meio desmantelado. Moscas zumbiam no ar recendente a queijo fresco, charque e cinza fria.
Flora e a me conversavam animadamente sobre assuntos domsticos. Aderbal puxou o genro para fora.
- Venha olhar a minha estncia - convidou com mansa ironia. - No  to grande como a de Santa Clara ou a de Santa Rita, mas sempre  melhor que nada...
Ficaram parados a conversar por um instante  sombra das rvores do pomar. Babalo tirou do bolso um pedao de fumo em rama e comeou a pic-lo com a faca de cabo 
de prata. O Sutil - refletia Rodrigo - era mesmo uma estncia em miniatura. Tinha um pomar com laranjeiras, bergamoteiras e pessegueiros; uma coxilha em cuja encosta 
Babalo fizera sua roa de milho e feijo; um caponete por dentro do qual corria um riacho; um potreiro, uma horta, uma mangueira, um galpo...
- Est vendo o galinheiro novo? A Titina est criando umas legornes. Diz que vai vender ovos pra fora, Quero s ver. Se ela for to boa negociante como o marido, 
vai acabar quebrando...
Soltou sua risada clara.
- Tenho tambm trs vacas leiteiras. Estamos bebendo um leite mui especial. A semana passada a velha fez uma batelada de queijos. Levem uns pra vocs.
543 
Rodrigo avistou o rosilho de Babalo amarrado a um tronco de cinamomo e completamente aperado. Sabia que todas as manhs o sogro montava a cavalo e saa a percorrer 
"suas terras". Seis pobres hectares... Um homem que j tivera de seu tanto campo que a vista nem alcanava!
Ali estava um caso que lembrava o duma personagem d'O pato selvagem. Ekdal, o velho caador, ao fim duma vida de frustraes e derrotas, para aplacar a saudade dos 
tempos hericos da mocidade, em que caava ursos nas montanhas, metia-se no viveiro da casa do filho e l ficava a dar tiros em pobres coelhinhos assustados. Babalo 
procurava matar no Sutil a saudade de suas grandes estncias... Ah! Mas havia uma diferena: a personagem de Ibsen era uma alma submersa, um vencido, ao passo que 
Aderbal Quadros lutava com o aprumo dum triunfador. E com que alegria, com que entusiasmo, com que gosto!
- Vou te mostrar uma coisa - murmurou ele, tomando o brao do genro. - Botei nomes de polticos importantes em algumas dessas rvores mais bonitas.
Aproximaram-se do sop da colina. Aderbal apontou para a rvore alta que se erguia ao lado do galpo:
- Aquele cedro  o dr. Jlio de Castilhos. Est vendo aquela cabriva no topo da coxilha?  o conselheiro Gaspar Martins. L na beira do riacho tem uma corticeira 
que d uma flor mui linda,  o dr. Assis Brasil. Ando meio brigado com o dr. Borges de Medeiros, mas botei o nome dele num desses cinamomos...
Enrolou o cigarro, acendeu-o e soltou um par de baforadas. Um sorriso de malcia apertou-lhe os olhos e fez saltar os zigomas, acentuando a angulosidade do rosto.
- Aquela arvorezinha enfezada ali perto da horta (est vendo?)  o marechal Hermes. Sabe por que  que no cresce? Por causa da grande, do jacarand que, a bem dizer, 
est por cima dela. O jacarand se chama senador Pinheiro Machado.
Rodrigo sorriu, olhando para o sogro com uma admirao tocada de inveja. Gostava do velho, mas a presena dele deixava-o levemente perturbado. Sempre que via aquele 
homem bom, simples e slido a lidar com a terra, descalo e em mangas de camisa, era
544
tomado dum estranho sentimento de remorso e culpa, da vaga sensao de haver trado todo um passado, rompido uma tradio de famlia, renegado o pai, a me, os avs 
- as origens, enfim. Sentia-se (mas todo esse mal-estar desaparecia logo que ele se afastava do sogro) frgil e vulnervel no seu extremado apego  vida urbana, 
com suas mquinas, seu conforto amolecedor e todas as superficialidades que Babalo tanto desprezava: roupas, perfumes, festas, vinhos, guloseimas, honrarias...
Aquele homem telrico parecia contentar-se com as coisas essenciais da vida: o ar, o fogo, a gua, o po, o sol, a terra. Vivia numa tal comunho com a natureza 
que, com sua pele dum tom terroso, parecia algo que houvesse brotado do cho e que longe dele no pudesse vicejar. Em toda a sua vida nunca tinha lido um livro ou 
entrado num teatro. Desprezava o dinheiro e jamais procurava o prestgio ou o poder poltico. Mesmo quando morava no casaro da cidade, nunca deixara de falar com 
saudade dos tempos em que carreteava ou fazia tropas. Talvez - refletia Rodrigo, olhando para o sogro -, talvez os maus negcios que haviam levado aquele homem  
falncia no tivessem sido pura obra do acaso. No era impossvel que o prprio Aderbal Quadros houvesse colaborado com o destino, procurando inconscientemente a 
prpria runa, a fim de poder voltar  vida simples, rstica e dura que tanto amava. Porque aquele campeiro parecia ter a volpia de vencer dificuldades.
- Qualquer dia - disse o velho quando subiam a encosta, margeando a roa - vou fazer uma tropa. J ando cansado desta vadiao.
Vadiao? Rodrigo sabia que o sogro trabalhava de sol a sol todos os dias, inclusive os domingos.
Os guaipecas lanaram-se a correr coxilha acima e, latindo e sacudindo os rabos, cercaram o amo, a fazer-lhe festas. Amigo dos animais, Babalo recolhia e, por assim 
dizer, perfilhava todos os cachorros e gatos extraviados que apareciam no Sutil.
- Veja que freguesia, Rodrigo! - murmurou ele, acocorando-se para brincar com os guaipecas. Ficou por alguns segundos a resmungar frases carinhosas e alisar o plo 
dos cachorros, que, 
545 - ganiam, e lhe lambiam as mos e as faces. Depois ergueu-se e continuou a subir com o genro fazendo alto no cimo da coxilha, de onde se avistava o casario de 
Santa 
F.
- Vamos ali pra sombra do conselheiro. Aproximaram-se da cabriva. Babalo espraiou o olhar pela paisagem.
- Campos lindos. Parecem um veludo.
As coxilhas desdobravam-se a perder de vista, rumo daqueles luminosos horizontes de janeiro.
Aderbal apontou para a encosta da colina a cujo sop ficava o capo do riacho.
- Sabe o que  que vou fazer aqui? Uma lavourinha de trigo. O ano que vem, se Deus quiser, vou comer po feito com trigo do Sutil.
Todos os dias, aps o almoo, Rodrigo subia para o quarto com um exemplar do Correio do Povo debaixo do brao, deitava-se e ficava a ler, com lenta e preguiosa 
volpia, at adormecer. Invariavelmente caa no sono com o jornal aberto sobre o peito.
Naquele 3 de janeiro, mal Bento lhe entregou o jornal que fora comprar  estao, subiu para o quarto, j a bocejar. Fazia um calor abafado e as pedras das ruas 
e caladas escaldavam como chapa de fogo. ("D pra fritar ovo" - garantiu o caboclo.) Rodrigo foi tirando a roupa aos poucos e, sem encontrar alvio para o calor, 
acabou por ficar completamente nu. Estendeu-se na cama e abriu o jornal. As duas primeiras pginas estavam cheias de telegramas da guerra, que continuava na sua 
estagnao de inverno. Passou ao editorial, cujo ttulo era - "1914-1915".
Ano-Novo! Ano-Bom!
A alma popular teima, a cada novo ano que surge, em querer ver no seu despontar os raios duma nova aurora, o incio dum novo perodo de ventura e de bondade. O Ano-Novo 
 sempre o Ano-Bom.
Assim nos iludamos todos a l" de janeiro desse malsinado 1914. Todos espervamos que de nos viesse compensar dos desgostos de 1913, que nos viesse ressarcir dos 
males que este nos causara. E, no entanto, nunca houve ano de to dolorosas provaes para todo o inundo, de tantas misrias, de tantas dores, de tantos horrores.
Aqui no Brasil tivemos, logo aos primeiros meses desse ano terrvel, a tragdia do Cear e o seu longo cortejo de desgraas; vieram depois o estado de stio, a perseguio 
 imprensa, os crimes do Contestado; a debacle financeira, o abalo do nosso crdito no estrangeiro, arrastando-nos ao beco sem sada do funding loan.
No foram mais felizes os outros pases do continente.
O editorialista passava a enumerar as desgraas continentais: revolues no Mxico e o conflito desse pas com os Estados Unidos; o assassnio do presidente da Repblica 
da Colmbia; crimes no Prata e luto na Argentina pela morte de Saenz Pea. A Europa no fora mais feliz: a "semana vermelha" na Itlia, com os desatinos revolucionrios 
de Ancona; agitao poltica na Frana, onde a tragdia do Figaro - o escandaloso ''affaire Calmette' - agitara a nao e o mundo; greves na Rssia; novos rumores 
de guerra entre a Turquia e a Grcia; a farsa das sufragistas na Inglaterra e boatos de guerra civil na Irlanda. Por fim - continuava o editorial - a maior catstrofe 
de todas: o assassnio do arquiduque herdeiro do trono dos Habsburgos, que desencadeara na Europa a mais terrvel guerra da histria da raa humana. E era  sombra 
dessa pavorosa hecatombe que surgia o ano de 1915.
Que das duras provaes de boje surja uma humanidade melhor, mais tolerante, menos egosta, mais inclinada a perdoar as culpas do prximo e desculpar-lhe os erros.
Rodrigo deixou o jornal cair sobre o peito, tranou as mos por cima dele e ficou a pensar naquela fria noite de julho de 1914, em que o Cuca Lopes entrara esbaforido 
no Sobrado, trazendo a dramtica notcia.
546
547 - Rebentou a guerra na Europa!
Havia semanas que os jornais andavam cheios de negros pressgios em torno da possibilidade dum conflito armado no continente europeu. Depois da tragdia de Serajevo, 
esperava-se para qualquer momento a deflagrao da guerra. Entretanto, no seu incurvel otimismo Rodrigo achava que as dificuldades seriam contornadas e a crise 
vencida graas aos esforos conjugados da diplomacia francesa e inglesa.
- Quem foi que te contou, homem de Deus?
- Chegou um telegrama ind'agorinha. Por acaso eu estava no Telgrafo...
- Adeus, viagem a Paris! - exclamou Rodrigo, sentando-se, prostrado, numa cadeira.
No dia seguinte o coronel Jairo confirmou a notcia. A ustria declarara guerra  Srvia,  qual se unira o Montenegro. A esquadra alem concentrava-se em pontos 
estratgicos. A austraca bloqueava o porto de Antivari. A Rssia j declarara que ordenaria a mobilizao geral, caso os austracos ocupassem Belgrado. A Alemanha 
ameaava mobilizar todas as suas foras de terra e mar, se a Rssia fizesse qualquer movimento de tropas, ainda que parcial.
- No vejo a menor esperana duma soluo pacfica do problema - declarou o comandante do regimento de infantaria, sacudindo penalizado a cabeleira ruiva. - A entrada 
da Alemanha, Rssia, Inglaterra e Frana no conflito  questo apenas de dias, talvez de horas. A conflagrao vai ser geral. As bestas apocalpticas andam de novo 
s soltas. Pobre humanidade!
Generalizado o conflito, Rodrigo ficou a segui-lo avidamente atravs dos jornais. Desde logo ficara evidente que a maioria da populao santa-fezense era simptica 
 causa aliada. Quanto a Rodrigo, no tivera a menor hesitao. Onde estivesse a Frana, l estaria tambm seu esprito e seu corao. Em meados de agosto organizou 
uma marcha aux flambeaux em que os partidrios dos aliados, puxados pela banda de msica militar, desfilaram pelas ruas de Santa F com bandeiras da Frana, da Inglaterra 
e do Brasil, a
soltar vivas a Poincar, ao czar da Rssia, ao rei Jorge da Inglaterra e ao rei Alberto da Blgica.
A Farmcia Popular ficou sendo conhecida como o mais importante centro de concentrao aliadfila da cidade, ao passo que a Confeitaria Schnitzler era o ponto de 
reunio dos membros da colnia alem e dos teuto-brasileiros, cujas simpatias naturalmente estavam voltadas para o Vaterland.
Os jornais noticiavam que nas sociedades germnicas de Porto Alegre, So Leopoldo e Santa Cruz faziam-se subscries e festas em benefcio dos soldados alemes e 
austracos. Rodrigo enfurecia-se com isso, pois o Brasil em peso - afirmava - achava-se coeso ao lado da causa aliada, que era a causa mesma da democracia e da civilizao! 
Aqueles alemes e seus descendentes deviam meter a viola no saco e ficar quietinhos no seu canto, pois se continuassem naquelas manifestaes insolentes acabariam 
mas era levando bordoadas!
Tomou assinaturas de revistas e jornais espanhis e platinos que comeavam a trazer reportagens e comentrios ilustrados sobre a guerra europia. No podia ver retratos 
do Kaiser sem sentir o sangue ferver-lhe nas veias. Compare-se a fisionomia de Raymond Poincar com a de Guilherme II. Dum lado temos esse homem culto e civilizado, 
com ar de professor universitrio, uma expresso de bondade paternal no rosto. Do outro, todo enfarpelado no seu vistoso uniforme, o maldito Hohenzollern, de bigodes 
de guias torcidas para cima, o olhar duro e cruel como o ao de seu antiptico capacete. Senhores, entre um e outro no podemos ter a menor hesitao.
A batalha do Marne trouxera Rodrigo angustiado durante mais duma semana. Dela dependia a sorte de sua amada Paris e talvez o desfecho da guerra. Quando chegou a 
Santa F a notcia de que a grande ofensiva alem havia sido repelida, chamou o negro Srgio e mandou-o soltar duas dzias de foguetes  frente da Farmcia Popular. 
E quando, atrados pelos estrondos, curiosos se aproximaram, formando pequena multido sugestiva dum comcio, Rodrigo transmitiu-lhes a notcia em altos brados e 
acabou fazendo um veemente discurso em que exaltou a coragem e o gnio dos gauleses
548
549
e atacou "os hunos que com o taco de suas botas de brbaros esto ameaando a civilizao, a cultura e a democracia!"
 medida que ia lendo as notcias das atrocidades cometidas pelas tropas alems na Blgica, onde - informavam os jornais - aldeias inteiras eram destrudas, velhos, 
mulheres, invlidos e crianas fuzilados juntamente com homens vlidos, sua indignao crescia de tal forma, que ele j nem podia discutir com o capito Rubim, germanfilo 
empedernido, sem que acabassem ambos vermelhos e aos berros, como se estivessem prestes a engalfinhar-se em luta fsica.
- No acredite nessas notcias - dizia Rubim. - Isso  pura propaganda aliada. E, depois, guerra  guerra e no podemos esperar que os soldados se portem como anjos. 
Os alemes no so melhores nem piores que os ingleses e os franceses. Mas uma coisa lhe digo, meu caro. So mil vezes mais humanos que os russos. Esses eslavos, 
sim,  que so brbaros.
O que mais deixava Rodrigo agastado era saber que em Nova Pomernia se faziam comcios e festas pr-Alemanha, Kerbs em que se cantavam hinos alemes e em que o Deutschland 
ber alies era repetido entusiasticamente como um refro de vitria. Contava-se que muitos colonos tinham mandado seus filhos alistarem-se nas foras do Kaiser. 
Desaforo! - vociferava Rodrigo. - O governo deve proibir isso. Afinal de contas esses lambotes vivem na nossa terra, comem o nosso po, bebem a nossa gua, respiram 
o nosso ar, dependem, enfim, da nossa generosidade e da nossa tolerncia.
Rubim sorria ante essas exploses. "S lhe falta - ironizou ele um dia - organizar e comandar uma expedio punitiva contra Nova Pomernia." Rodrigo no achou nenhuma 
graa na observao. "E por que no? - replicou. - H de chegar esse dia!"
Cortou o cumprimento a Jlio Schnitzler e comeou a boicotar-lhe a confeitaria. Olhava com rancor e m vontade para os Spielvogel, os Kunz, os Schultz, enfim, para 
todos os que ali em Santa F tinham nomes germnicos. "Se algum desses boches me olhar atravessado, parto-lhe a cara!"
Continuava a acompanhar a guerra atravs das revistas e jornais que lhe chegavam do Prata. Aqueles primeiros dias do conflito
550
tinham abalado o Brasil. O governo decretara moratria e frias comerciais para os bancos, muitos dos quais foram fechados e guardados pela polcia. Havia no tom 
das notcias econmicas e financeiras algo que sugeria um princpio de pnico.
Rodrigo, que via a guerra atravs dum prisma apaixonadamente romanesco (a revanche de Sedan, o estudante alsaciano, o esfrit contra a Kultuf) ficava indignado quando 
Cacique Fagundes, Joca Prates e Pedro Teixeira, revelando um descaso assustador pela sorte dos belgas, pela segurana de Paris ou pelas vitrias da formidvel esquadra 
britnica, mostravam-se preocupados apenas com as alteraes de preos nos gneros de primeira necessidade e com a paralisao do mercado da banha. Naquelas primeiras 
semanas os estancieiros andavam apreensivos, alarmados mesmo, ante a possibilidade de a guerra trazer desastrosos prejuzos  pecuria. O couro, que havia pouco 
estava a $640, agora no tinha cotao. Os proprietrios das barracas do interior do estado ordenavam aos seus representantes que suspendessem todas as compras.
Aquela gente s pensava na barriga - conclua Rodrigo, entristecido e revoltado. Seu prprio pai no era diferente dos outros. No tinha a menor noo do que fosse 
realmente a Europa e sua importncia no mundo. Blgica, Srvia, Montenegro, Frana? Pura inveno dos jornais e dos compndios de geografia...
Don Pepe, esse andava tomado duma agitao toda particular. Nos ltimos dias de julho ainda afirmava, com a f dum apstolo, que a guerra no seria deflagrada porque 
a conscincia socialista do mundo no apoiaria sob nenhum pretexto aquela criminosa aventura capitalista!
Vibrara de emoo e esperana ao ler no Correio do Povo que em Porto Alegre o Partido Socialista, considerando uma explorao inqua contra o interesse do povo o 
aumento injustificvel de certos produtos nacionais, o que viria agravar a misria das classes trabalhadoras, convocara a populao para um mceting de protesto na 
praa da Alfndega.
- Es para Io que sirven ias guerras capitalistas! - exclamara, sacudindo o jornal no ar como uma bandeira. - Para explorar ei
551
,ni o
pueblo. La Standard Oil ya aumento el precio dei kerosn y de Ia nafta.
- Mas no se trata de explorar ningum, Pepito - retrucara Rodrigo com uma falsa pacincia. -  uma guerra de vida e de morte: a civilizao contra a barbrie, o 
despotismo contra a liberdade.  necessrio esmagar a Alemanha para que o mundo possa de novo respirar em paz.
Ao ler a notcia de que um estudante assassinara em Paris o deputado Jean Jaurs, lder do Partido Socialista, don Pepe ficara to acabrunhado, que cara de cama, 
com febre alta.
- Est tudo perdido - murmurava ele.
E nos seus delrios fazia discursos incendirios.
Se por um lado as atrocidades dos alemes causavam a Rodrigo a mais profunda revolta, por outro a leitura de telegramas que relatavam atos de herosmo e sacrifcio 
por parte de soldados aliados enchiam-no dum clido, comovido entusiasmo. Foi com lgrimas nos olhos e com calafrios a percorrerem-lhe o corpo que leu a narrativa 
da proeza do aviador Garros - esse Garros que, para destruir um dirigvel alemo, no hesita em atirar contra ele o aeroplano que pilotava com maravilhosa destreza, 
tendo a tranquila certeza de que essa morte seria simplesmente sublime. Poucas vezes subiu to alto o alis tradicional herosmo francs.
Rodrigo tomou-se de grande ternura pelo Japo ao saber que seu governo declarara guerra  Alemanha. Aquele pequeno pas isolado nos confins do continente asitico 
honrara sua aliana com a Inglaterra, apesar de no estarem em jogo os interesses nacionais!
E a Itlia? Que fazia a Itlia que no entrava tambm no conflito ao lado da Frana, sua irm latina? "Marco Lunardi!'' - gritava ele quando encontrava o amigo. 
- "Quando  que vocs entram nessa guerra, homem?" Interpelava-o com ar de brincadeira, mas com certa impacincia, como se a declarao de guerra dependesse do jovem 
proprietrio da Fbrica talo-Brasileira de Massas Alimentcias. Fazia a mesma pergunta ao dr. Carbone, que sorria: "Pacincia, carino. Espera a primavera. Agora 
faz muito frio".
Um dia, quando, no Sobrado, Rodrigo comentava apaixonadamente a guerra  mesa do jantar, Licurgo observou:
552
- Esto morrendo patrcios nossos nessa luta no Contestado, e o senhor parece que nem se importa com isso. Ainda ontem passou por aqui um trem cheio de soldados 
que iam pra Marcelino Ramos. Esto falando que os fanticos vo invadir o nosso estado pelo Passo Fundo.
- Ora, papai, no acredito que esses caboclos mal-armados possam pr em perigo a vida da Repblica. Mas o Kaiser, esse sim  um pesadelo para toda a civilizao.
Nos primeiros dias daquele setembro de 14, Rodrigo organizou em Santa F uma grande festa, com leilo e tmbola, em benefcio da Cruz Vermelha belga.
- Essa tua paixo pela Blgica - disse-lhe Rubim - tem origem na velha piedade crist pelos fracos. Segundo um conceito corrente mas errneo, o fraco  necessariamente 
o bom, ao passo que o forte  o mau. Ora, vamos e venhamos, isso  um raciocnio infantil!
Rodrigo apanhou um exemplar do Correio do Povo que transcrevia um discurso que Rui Barbosa pronunciara recentemente no Senado.
- Veja o que diz da Blgica o maior brasileiro vivo.
Leu: Agora que a Blgica atravessa as provaes de seu martrio sobre-humano, com um herosmo cuja sublimidade obumbra s vezes as pginas mais belas da antiga histria 
grega... (Aqui h um "muito bem" do Senador Azeredo.)
- Boa bisca - interrompeu-o Rubim. - Dem-lhe um baralho e um parceiro e ele ficar feliz...
O outro prosseguiu:
...da luta helnica contra as hordas do Oriente, se por ali voltssemos s encontraramos naquele solo da indstria, do progresso, das letras, vastas necrpoles, 
campos ermos, cho gretado pelas ossadas, cidades, consumidas, construes em runas. E que a guerra escolheu aquele torro de liberdade e trabalho para a ma semeadura 
de cinzas e luto. A guerra, uma guerra que baniu o direito, a humanidade, o cristianismo; uma guerra que eliminou as inviolabilidade mais sagradas, uma guerra que 
passa com a iracndia do furaco sobre o princpio
553

tutelar das neutralidades; uma guerra que rasga todas as leis internacionais, uma guerra que considera os tratados como trapos, que no admite os direitos dos fracos, 
que no conhece o dever dos fortes; uma guerra que incendeia museus, bibliotecas e templos, uma guerra que arrasa cidades abertas, queima aldeias pacficas, tala 
campos sorridentes, cativa populaes desarmadas; uma guerra que fuzila velhos, invlidos, corta seios das mulheres, decepa mos das crianas; uma guerra que sistematizsa 
a crueldade, a destruio e o terror; uma guerra que escancara as fauces hiantes para a Europa dilacerada e se sacia nas presas sanguinolentas, no meio dum ciclone, 
a cuja rajada o mundo todo parece estremecer, como se o prprio solo da conscincia se lhe houvesse abatido debaixo dos fundamentos divinos, e sorvedouros do inferno 
se abrissem para tragar a civilizao fecundada pelo cu...
Rubim escutou o discurso at o fim com um sorriso cptico.
- At o nosso grande Rui - comentou ele por fim - caiu na esparrela da propaganda aliada...
"O que se passava - acrescentou - era to claro e de natureza to prtica que dispensava a eloqncia e a retrica. A Alemanha e a ustria tinham, havia muito, os 
olhos voltados para o Oriente e para a sia Menor; talava-se at em estender a Grande Germnia de Berlim a Bagd. Por outro lado a Rssia queria impor o domnio 
eslavo a Constantinopla, numa expanso rumo do Adritico, passando pela Srvia... No havia no mundo inteiro rea mais confusa e inflamvel que os Balcs. Jamais 
houvera na histria dasnaes zona mais confusa e cheia de intrigas polticas e complicaes religiosas e raciais. Aqueles pases, verdadeiras comdias de erros, 
colchas de retalhos de nacionalidades que se repeliam, no tinham estatura para se tornarem naes independentes. Eram apenas presas em estado potencial cobiadas 
por dois colossos: o alemo e o russo. Ora, a Frana, que vivia iludida com o poderio militar da Rssia, tinha com esta uma aliana. O povo francs esperava de certo 
modo tirar a revanche de 70. Quanto  Inglaterra, a velha raposa ficaria de bom grado fora do conflito, deixando que as outras potncias se destrussem, a fim de 
que ela, intervindo no fim, pudesse ficar com a parte do leo. O diabo era que, vencedora a
554
Alemanha, a sorte do Reino Unido estaria selada. No devamos esquecer tambm que entre a Inglaterra e a Alemanha existia uma tremenda rivalidade comercial. Os produtos 
alemes, em geral melhores e mais baratos que os ingleses, estavam comeando a dominar os mercados mundiais. A destruio da Alemanha, portanto, era coisa indispensvel 
no s para a sade econmica do Imprio Britnico, como tambm para a tranqilidade da Frana.
"O resto, meu amigo - rematou o capito -,  rui-barbosismo, pura retrica dum pas de mulatos pacholas e pernsticos."
555

Abolir a sesta... Essa era a grande resoluo que Rodrigo havia tomado. Andava entusiasmado com o movimento da farmcia e do hospital e com as atividades do dr. 
Carbone. Queria dedicar mais horas ao consultrio, acompanhar o negcio mais de perto, enfim, no perder tempo a dormir estupidamente, enquanto o operador e seu 
assistente l estavam a abrir e fechar barrigas de colonos e nativos, e o pobre Gabriel se desdobrava entre o laboratrio, o balco e a sala de operaes, onde o 
cirurgio, como era natural, queria tudo a tempo e a hora.
Mas no era fcil cortar drasticamente um hbito to velho e gostoso. A resoluo era antiga, e ele vivia a prometer a si mesmo que ia p-la em prtica "na segunda-feira 
que vem"... Semana nova: vida nova. Mas qual! Mal terminava de almoar, vinha-lhe o torpor, o peso nas plpebras, os bocejos, e ele acabava sempre encontrando um 
bom pretexto para subir ao quarto e deitar-se. Uma vez na cama, estava tudo perdido: dormia at s trs.
Naquela segunda-feira de janeiro, decidiu: hoje no sesteio. Apanhou na biblioteca Ls maladies de Ia volante, de Ribot, e sentou-se. Era preciso educar a vontade, 
seguir o exemplo dos hindus. Illustration publicara, havia pouco, uma srie de gravuras mostrando um iogue nos seus incrveis exerccios. Aqueles monstros conseguiam
libertar o esprito da matria, desviar os sentidos do mundo exterior. Ora, eu quero apenas perder o hbito da sesta...
556
Abriu o livro, passou os olhos por alguns pargrafos do prefcio (coisa que j fizera em outras ocasies) mas no pde concentrar a ateno no que lia.
O diabo era o calor. No inverno seria mais fcil dispensar a sesta. Mas no vero, depois dum almoo pesado... , mas seja como for, hoje no durmo. Est resolvido.
Fechou o livro e os olhos. (No vou dormir - comunicou a si mesmo. - S descansar um pouquinho.) Estava  beira do sono quando um grito agudo o despertou. Ps-se 
de p, sobressaltado, e precipitou-se para a sala de jantar, de ontem partiam os berros duma das crianas.
- Que foi? Que foi?
Maria Valria veio a seu encontro, com Alicinha nos braos. A menina chorava, o rosto contorcido de dor, as lgrimas a rolarem pelas faces afogueadas. Um filete 
de sangue escorria-lhe do canto da boca.
- Santo Deus! - exclamou Rodrigo.
Quis arrebatar a filha dos braos da tia, mas esta o repeliu com um gesto decidido.
- Deixe de fita! No  nada. A criana caiu e cortou o beicinho por dentro. Bota-se maravilha curativa e est pronto.
Com uma expresso de angstia no rosto, Rodrigo ficou a acompanhar com os olhos a Dinda, que subia a escada grande com a menina nos braos.
A meio caminho, Maria Valria deteve-se por um instante e olhou para o afilhado:
- No precisa fazer essa cara de capo de pinto. J disse que no  nada.
Rodrigo voltou para sua cadeira. Por algum tempo ficou a ouvir, penalizado, o choro da filha. Quando alguma das crianas se feria ou adoecia, ficava desnorteado, 
portava-se - no dizer de sua madrinha - como uma solteirona histrica, e s lhe faltava romper tambm o choro.
Um dia Floriano rolara pela escada e tombara com um estrondo a seus ps, ficando estatelado e imvel no cho, como que
557
sem sentidos. Desatinado, ele erguera o filho nos braos e por algum tempo quedara-se aturdido, incapaz duma palavra, duma resoluo.
- Chamem um doutor, depressa! - gritara depois. - Esta criana est com o crnio fraturado!
Lgrimas brotaram-lhe nos olhos, soluos rebentaram-lhe do peito. Flora, muito plida, andava dum lado para outro, cega e perdida no seu desespero. Fora nesse instante 
de confuso que Maria Valria interviera, arrebatando Floriano dos braos do pai e deitando-o no sof, onde o sacudira at faz-lo abrir o berreiro. Apalpara-lhe 
depois a cabea, as pernas, as coxas, os braos, tiraralhe a camisa para examinar-lhe o trax. E quando o menino cessara de berrar, ficando apenas a fazer beicinho, 
os ombros sacudidos por soluos secos, ela tornara a apalpar-lhe vrias partes do corpo, perguntando: "Di aqui? E aqui?" Ele respondia que no, com movimentos de 
cabea. Poucos minutos depois estava de p a brincar, como se nada lhe tivesse acontecido.
- Esto vendo? No ficou nem galo. Eu sempre digo que vocs se assustam por qualquer coisimha.
Rodrigo agora sorria, recordando a cena. Reconhecia que era um pai sentimental e bobo. Vivia a contar as gracinhas dos filhos, coisa que nos tempos de solteiro achava 
to ridculo nos outros. Quando vinham visitantes ao Sobrado, chamava Floriano  sala, punha o gramofone a tocar um disco e perguntava ao menino: "Que msica  essa?" 
Floriano hesitava por um instante e depois, com o dedo na boca, os olhos baixos, respondia: " o Palhao do Caruso'' ou " a Traviata". Esto vendo a figurinha? 
Com trs anos e j entende de pera! Eu queria que vocs vissem como essa criana gosta de msica!  capaz de ficar horas e horas (claro que era um exagero!) sentadinha 
ali no sof, escutando a Tetrazzini, o l amagno, o Amato...
Rodrigo tornou a fechar os olhos. Juro, dou a minha palavra de honra como no vou dormir.
Da cozinha veio a voz doce e afinada da Laurinda:
Ai, Filommti. Se eu fosse como tu, Tirava a urucubaca Da careca do Dudu!
558
Sorriu. Ah! Os tempos do Dudu... Aqueles quatro anos de governo do marechal haviam sido um prolongado pesadelo, uma enfiada de desastres polticos e administrativos. 
A revolta dos marinheiros. O estado de stio. Os fuzilamentos do Satlite. O escndalo da prata. A interveno em Pernambuco. O bombardeio da Bahia. O caso do Amazonas. 
Nunca em toda a Histria do Brasil houvera governo mais catastrfico e acidentado. Jamais se vira tanto mandonismo, tanto nepotismo, tanta arbitrariedade, tanta 
poltica
de corrilho. E o marechal todo o mundo sabia - no passava
dum fantoche nas mos hbeis e poderosas de Pinheiro Machado. Por mais que admirasse o senador, Rodrigo no podia deixar de reconhecer que ele era autoritrio, prepotente 
e egocntrico. Durante aqueles quatro anos tormentosos, a voz eloqente de Rui Barbosa no cessara de clamar no medonho deserto nacional na defesa da Constituio, 
da liberdade de pensamento e palavra, e da autonomia dos Estados. No entanto, um homem da cultura e da fibra moral do senador baiano havia sido derrotado nas urnas 
por Hermes da Fonseca! Ah! Mas o povo tirara a sua desforra. Sem recursos materiais para derrubar o governo pelas armas, usara da caricatura, do humorismo para lan-lo 
ao ridculo. E por todo o Brasil se espalhara a lenda da estupidez do presidente. O Dudu transformara-se em personagem de anedota. Atribuam-se-lhe os ditos mais 
obtusos, as intenes mais lorpas, as ignorncias mais crassas, as atitudes mais rastaqueras, as gafes mais clamorosas. Era um verdadeiro golpe de Estado pela stira. 
E atravs de quadrinhas, chistes, piadas, trocadilhos, a figura do marechal fora projetada no pas inteiro como uma espcie de bobo da prpria corte. Sabem a ltima 
do Dudu? E l vinha a anedota... Apareciam em jornais e revistas, eram repetidas pelo homem da rua. Por fim inventara-se que o Dudu tinha urucubaca, azar, caiporismo. 
E a palavra urucubaca da noite para o dia ganhara foros nacionais. Aonde quer que fosse - afirmava-se - o Dudu levava a sua aura negativa. O que quer que fizesse 
saa torto; o que quer que dissesse era sempre errado ou cmico.
No entanto - refletia Rodrigo - uma coisa sempre lhe parecera clara: o Z Povo da caricatura no queria mal a Hermes da
559

Fonseca. Atacava-o por ach-lo mais vulnervel do que a pessoa que realmente o populacho odiava. Pinheiro Machado era imune  stira. O ridculo no atingia aquela 
figura olmpica.
Rodrigo abriu a boca num prolongado bocejo. Na cozinha, Laurinda continuava a cantar.
Abra os olhos. No. Vou ficar assim s um pouquinho mais...
Imaginou que Pinheiro Machado estava ali na sala, pitando o seu crioulo bem como naquele dia de inverno, em 1910...
Olhe, senador, vou lhe dizer uma coisa com toda a franqueza que me caracteriza. O senhor cometeu um erro quando procurou candidatar-se  sucesso presidencial. Foi 
muito bom terem eleito o Venceslau Brs. Outro erro seu  esse de querer agora fazer do Dudu um senador da Repblica. Deixe o homem em paz. No provoque a sanha 
popular. No chame mais dios sobre a sua pessoa e sobre o Rio Grande!
J agora Pinheiro Machado estava seminu como um faquir, sentado no soalho a fazer horrendas deslocaes de membros, como um contorcionista de circo. "Quem me ensinou 
estes exerccios - dizia ele - foi um iogue, um ndio velho de Nonoai. Nisto est o segredo de meu poderoso magnetismo pessoal.
O escritrio estava completamente s escuras e Rodrigo s via um ponto luminoso, que no sabia bem se era o olho ou o cigarro do senador.
Quando Flora entrou, poucos minutos depois, encontrou o marido a dormir profundamente.
Rodrigo passou no Angico com a famlia todo o ms de janeiro e boa parte de fevereiro, aproveitando da maneira mais plena uma sucesso de dias luminosos, dum calor 
seco e agradvel: campereadas em companhia do pai e do irmo; largas sestas na rede,  sombra de cinamomos; caadas de jacutingas e bugios nos matos; banhos na sanga 
ao entardecer.
560
Encontrou Licurgo ainda mais taciturno que de costume, e isso o deixou apreensivo. Que grande mgoa estaria a roer-lhe o corao? Sabia que o pai no aprovava o 
tipo de vida que ele, Rodrigo, levava na cidade: achava-o um perdulrio, um bomio; um dandy. Estaria o velho zangado com ele? Ou toda aquela tristeza vinha da situao 
de constrangimento criada por suas relaes com a Car, as quais j agora ningum mais ignorava?
Por que papai no se abre? Por que no pe as cartas na mesa francamente, atacando o problema de frente e tratando de resolvlo' Qual! Aquela gente antiga sofria 
porque procurava viver de acordo com um cdigo de honra que quase sempre estava em violento desacordo com suas necessidades e desejos mais profundos.
- Que diabo! - exclamou uma tarde em que viu o pai sair a cavalo  hora da sesta, rumo do rancho de Ismlia Car. - Por que  que no se casam duma vez e acabam 
com esse mistrio?
Mas ele sabia que tal casamento seria impossvel e que a soluo do problema no era to simples assim.
Outra coisa que lhe causava grande mal-estar eram as relaes do pai com Maria Valria. Nas poucas vezes em que se falavam era em dilogos lacnicos: duas lixas 
a se tocarem em contatos speros e rpidos. Nunca se olhavam de frente: evitavam-se o mais que podiam. Era evidente que se queriam mal. Mas por qu? Por qu?
A hora das refeies Rodrigo fazia o possvel para alegrar o ambiente, quebrar a atmosfera de gelo criada pela presena do pai e da cunhada. Contava histrias, ria 
alto, encontrando em Flora e Torbio uma platia interessada e entusiasta, sempre pronta a achar graa em suas anedotas, ditos e casos. O pai, porm, parecia no 
escut-lo. Mantinha a cabea baixa, os olhos no prato.
Ser que ele tem alguma coisa contra mim? - perguntava-se Rodrigo. E a idia de no contar com a estima e a admirao do velho era-lhe to opressiva que chegava 
a embaciar-lhe a limpidez daqueles dias de vero. Um dia em que caminhava ao lado de Licurgo (dirigiam-se para a mangueira, a ver um terneiro que acabava de nascer) 
resolveu abrir-se.
561
- Papai, tenho notado que o senhor anda srio comigo. Ser que fiz alguma coisa que no foi de seu agrado?
Licurgo deu alguns passos em silncio; depois, sem voltar a cabea, respondeu:
- No. O senhor no fez nada. Se tivesse feito eu lhe dizia
como  meu costume.
- Ento que  que tem?
- Nada.  o meu jeito.
Entrou na mangueira. Inclinou-se sobre o animal recm-nascido, acariciou-lhe o plo e sorriu. Era o primeiro sorriso que Rodrigo via naquele rosto queimado e melanclico, 
desde que chegara ao Angico.
- Se no fosse um insulto  memria da nossa me - disse ele ao irmo, duma feita em que discutiam o pai -, eu diria que no somos filhos do velho Licurgo.
Torbio soltou uma risada. Eram seis da tarde e ambos se despiam para mergulhar na sanga. Rodrigo ficou a contemplar o corpo troncudo e musculoso do outro. Torbio 
parecia-lhe mais forte que nunca, e muito mais "judiado", como j lhe observara Maria Valria. Seus olhos estavam injetados, a pele curtida pelo sol e pelo vento, 
as mos calosas e encardidas. Com sua cabea raspada a mquina nmero zero e seu cachao ndio dava a impresso - fantasiou Rodrigo - dum guerreiro trtaro.
Um dos seus divertimentos prediletos era segurar um novilho pelas aspas, torcer-lhe o pescoo e tomb-lo, mantendo-o por longo tempo subjugado. Os pees - a quem 
Bio tratava como iguais - adoravam-no. Rodrigo no se lembrava de jamais ter visto no rosto do irmo a mais leve sombra dum cuidado. Torbio parecia achar que todos 
os problemas, mesmo os chamados morais, eram passveis duma soluo fsica. Nada lhe dava mais alegria que a ao. Comia desmedidamente e no podia passar por uma 
venda sem entrar para tomar uma talagada". Confessava, aparentemente sem a menor mossa, ser pai de uns dois ou trs guris a no Angico e arredores, acrescentando: 
"E nem sei direito que cara tm os desgraadinhos".
E naquela tarde, depois do banho, quando, ainda despidos, estavam ambos deitados na grama, Torbio fez um relato de suas andanas e divertimentos na estncia e redondezas, 
durante os cinco meses em que andara ausente de Santa F: aventuras amorosas com chinocas e colonas, algumas sob os maiores riscos; bailes de "cola atada" que quase 
sempre terminavam em tiroteio; caadas e pescarias que duravam dias: carreiras dominicais em cancha reta nas quais se apostava  grande e se brigava a fartar; rinhas 
de galo e jogos de osso em que no raro os jogadores "se estranhavam" e acabavam arrancando os faces...
- E o velho que diz de tudo isso?
- No diz nada, porque no sabe da missa a metade. Vou te contar uma coisa que ainda no contei a ningum. Um dia briguei com um cabra numa cancha de osso. Fui 
pra cima dele desarmado porque no queria lastimar o infeliz. Deitei ele no cho com uma tapona no ouvido. Pois no  que o canalha se levanta e vem pra cima de 
mim com um faco desta idade e me finca o bruto na coxa? Apliquei-lhe um soco nas ventas que o deixei dormindo. Botei creolina no talho, amarrei um pano por cima 
e me toquei pra casa. Passei uma noite cachorra, o ferimento doendo e latejando, acho at que tive febre alta, mas no soltei um pio pr velho no descobrir a coisa. 
Porque, se ele descobrisse, acho que morria de desgosto.
Acariciando o peito nu com as mos espalmadas, Rodrigo olhava para o desbotado cu do entardecer, enquanto escutava a voz lenta e fosca do irmo.
Um dos divertimentos que mais apreciava - prosseguiu ele - era ir aos domingos a Garibaldina especialmente para jogar luta com os "forudos" da colnia. Tiravam 
as camisas e as botas e atracavam-se, pelo puro prazer de lutar. No fim, suados, ofegantes e sujos, iam abraados beber vinho nas cantinas.
- Isso  que  vida, Rodrigo. E  por essa e por outras que eu passo tanto tempo sem ir  cidade.
Nada, porm, divertia mais Rodrigo do que o espetculo que lhe proporcionava o quarto do irmo. Era uma pea acanhada, de cho de terra batida, com uma cama-de-vento, 
uma cadeira de
563
palhinha e um caixo vazio de sabo que fazia as vezes de mesa-de-cabeceira e sobre o qual se via uma garrafa com um toco de vela metido no gargalo. Espalhados pelo 
cho, por cima da cama e sobre o peitoril da janela jaziam muitos livros - brochuras esbeiadas de capas encardidas e manchadas de espermacete. Rodrigo lia-lhes 
os ttulos com delcia: Os mistrios de Paris, Rocambole, O ltimo dos moicanos. Havia tambm folhetins ilustrados: aventuras de Buffalo Bill, Nick Crter, Arsne 
Lupin e Rafles.
- Sabes o que  que estou estranhando? - disse um dia ao irmo. -  no teres aqui nenhum livro pornogrfico.
Bio encolheu os ombros.
-  porque no sou nenhum bandalho. Essas coisas a gente no l, faz. E quem faz no tem necessidade de ler.
No domingo de Carnaval, mascarados comearam a aparecer nas ruas desde as primeiras horas da manh. Uns vinham a p, outros a cavalo, e eram - segundo a classificao 
de Maria Valria - os "sujos". Pees de estncias e chcaras prximas, changadores ou vagabundos, conservavam a indumentria habitual, em geral calas de riscado 
ou bombachas com ou sem botas, o colete aberto sobre a camisa suja, chapus sebosos de aba revirada para cima, as caras escondidas sob velhas mscaras de papelo 
ou barbas feitas grosseiramente de pedaos de pelego ou chumaos de l. Um que outro envergava um fraque dum preto ruo e trazia um espadago  cinta. Aparentemente 
o nico divertimento dos sujos era andar pelas ruas, acima e abaixo, a gritar fininho - hi-hi-hi-hi! - e a dirigir gracejos em falsete para as pessoas que se encontravam 
nas caladas ou s janelas. Bandos de moleques perseguiam os mascarados, provocando-os com dichotes - "Mascarado esculhambado!"... "Oia a cara dele, vov!" - puxando-lhes 
os rabos dos cavalos ou dos fraques, numa gritaria estridente. Os "mascras" reagiam, erguiam os rebenques, perseguiam os garotos e, quando os alcanavam, desciam-lhes 
com vontade o chicote sobre os lombos.
Havia tambm os fantasiados "de famlia". Os ricos e os remediados exibiam fantasias de cetim-paris, tarlatana e lentejoulas. Eram pierrs, pierretes, colombinas, 
arlequins, ciganas, damas e cavalheiros antigos, piratas, caraduras, apaches... Os pobres improvisavam disfarces baratos com o que encontravam em casa: fraques, 
vestidos, cartolas e chapus avoengos.
Mas esses mesmos - observava Rodrigo - eram to tristes quanto os "sujos", e muito menos dinmicos. Andavam pelas ruas sozinhos ou aos bandos, srios e solenes como 
se estivessem travestidos de anjos ou santos numa procisso. Traziam nas mos bisnagas, limes e pacotes de serpentina ou confete, e parecia divertirem-se principalmente 
com a idia de que estavam sendo vistos e ''apreciados" pelo povo naquelas fantasias.
Duma das janelas do Sobrado, Rodrigo observava que desde s nove da manh um solitrio pierr cor-de-rosa dava voltas  praa, com a cara coberta de alvaiade, a 
cabeorra metida num gorro de meia preta, os braos cados, o passo lento, a expresso melanclica, a larga tnica com pompons negros a danar-lhe no corpo magro. 
Depois de dar muitas voltas, sentou-se num banco que os moleques em breve cercaram em algazarra e ali ficou aptico e inerte, sem reagir  provocao dos garotos. 
Aquele homem estava se divertindo! - observou Rodrigo, perplexo.
 tarde comeou o entrudo. Nas ruas as pessoas se encontravam e jogavam umas nas outras os limes de cera com gua de cheiro, ou se trocavam os esguichos de suas 
bisnagas de metal. Era, porm, na tera-feira gorda que o entrudo atingia o auge e, no fim do dia, esgotado o estoque local de limes e excitados os nimos, os carnavalescos 
saam para a rua com canecas ou baldes cheios d'gua do poo e se davam banhos espetaculares.
Nos bailes do Comercial, o jogo de lana-perfumes assumia um carter geralmente romntico entre os namorados, mas entre os casados transformava-se quase sempre em 
ferozes duelos ou batalhas, em que o objetivo supremo era esguichar o ter perfumado dentro do olho do adversrio, que ficava a sapatear, a gemer, a lacrimejar e 
a esfregar as plpebras com os dedos, num frenesi. Esses combates tinham um aspecto selvagem e no raro degeneravam em
564
565
luta corporal - mas tudo dentro do esprito carnavalesco, em meio de risadas e exclamaes de alegria. Rodrigo observava essas cenas, divertido. Por que ser - 
perguntava a si mesmo - que o gacho acaba sempre por transformar seus jogos e divertimentos em simulacros de guerra? Deve ser porque o Rio Grande comeou com um 
acampamento militar e seus habitantes passaram mais de metade da vida de armas na mo.
Ao entardecer daquele domingo, estando  janela do Sobrado em companhia de Flora, Rodrigo viu passar na rua um carro de tolda arriada, conduzindo uma dama espalhafatosamente 
vestida de seda azul-eltrico e trazendo na cabea um chapelo de palha, de largas abas, coroado de plumas tricolores. Era corpulenta, tinha as mos e os antebraos 
cobertos por mitenes negras e abanava-se com um amplo leque, em movimentos lentos e majestosos, batendo-o contra os volumosos seios. Voltou o rosto para a janela 
do Sobrado, fez um aceno de cabea e sorriu. Rodrigo correspondeu ao cumprimento, intrigado. Quem seria? Havia naquela cara branca de p-de-airoz, com um indecente 
excesso de carmim nas faces, algo de estranho e ao mesmo tempo de repulsivamente familiar.
- Quem ? - perguntou Flora.
- Alguma mulher da vida. Decerto me conhece do consultrio...
De repente, porm, como que lhe veio  mente um claro de reconhecimento.
- Cachorro! - exclamou, batendo com o punho cerrado no peitoril da janela. - Desavergonhado! Sabes quem  aquela mulher? O Salomo Padilha, o alfaiate.  o cmulo 
do descaramento. S a bala. S ca...
Engoliu as duas ltimas slabas do verbo, em ateno  esposa.
Na tera-feira gorda Rodrigo convidou Rubim para vir assistir da janela do Sobrado  passagem do prstito carnavalesco que A
Voz. da Serra anunciava como "o mais belo destes ltimos anos, e da autoria do habilidoso artista conterrneo, sr. Jos Pitombo".
Os rapazes do "Z Pereira" local saram  rua pouco depois das quatro horas e fizeram uma volta pela praa. Onze deles rufavam em caixas-claras; cinco batiam em 
tambores-surdos; o filho do Marcelino Veiga tocava bombo; um corneteiro do batalho de infantaria solava o Z Pereira. Achavam-se os componentes do grupo fantasiados 
de "cataduras": calas brancas, fraques de cetim verde vivo, gravatas-borboletas da mesma cor; nas cabeas, cartolas altas e negras como chamins. Suas caras pintadas 
a carvo estavam srias, solenes mesmo, apesar de o cronista d'yl Voz chamar-lhes habitualmente "os alegres folies do Z Pereira". Marchavam numa cadncia dura, 
quase militar, e parecia que sua noo de divertimento tinha muito a ver com a produo de barulho. Que moada sem graa! - pensou Rodrigo, que os contemplava de 
sua janela. Mas no gostou quando Rubim, pousando-lhe a mo no ombro, disse:
- Os gachos, me desculpe a franqueza, so um povo triste e sem encanto. Olhe s esses rapazes: no cantam, no danam, no riem, no brincam. Ali vo graves e compenetrados 
como se estivessem a cumprir um dever cvico ou religioso. E depois, meu caro, vocs aqui no Sul no tm msica prpria nem arte popular nem tradio.
- Como no? - protestou Rodrigo. - Temos uma tradio muito rica e muito nossa.
Procurou exemplos para atirar na cara do capito de artilharia, mas eles no lhe ocorreram com a desejada espontaneidade.
- Que queres? Passamos a vida brigando desde os primeiros tempos do povoamento do Continente. Tivemos onze campanhas em setenta e sete anos, veja bem, onze! No 
nos sobrou muito tempo para fazer msica, danar ou cantar. Os castelhanos nunca nos deixavam em paz!
- E quando deixavam, ramos ns que amos provoc-los...
- Isso! Praticamente trabalhvamos com a enxada numa mo e a espingarda na outra, porque o inimigo podia surgir a cada
566
567
momento. Ou ento vinha de repente l de cima uma ordem de mobilizao.
Mascarados macambzios passeavam lentamente pelas caladas da praa, solitrios ou em pequenos grupos.
- Queria que voc conhecesse o Norte - disse Rubim -, que visse o carnaval do Recife com os seus tradicionais blocos como os "Vassourinhas", os "Abanadores"... E 
as danas! e as cantigas! O clio-de-barriga, o frevo, o maracatu, as congadas! Aquilo  que  riqueza folclrica, seu Rodrigo! O bumba-meu-boi, os pastoris, as 
cheganas...
Rodrigo fechara-se num silncio enciumado, e olhava para os rapazes do Z Pereira, que agora passavam pela frente da igreja, a repetir a cadncia barulhenta e enjoativa 
de seus tambores, enquanto o pisto traava no ar, hesitante e fanhoso, a velha melodia carnavalesca.
- E no  s no Recife - continuou Rubim. - Em todo o Norte voc encontrar uma arte popular riqussima, na forma de cermica, canes, danas, supersties e lendas.
Fez avanar o rosto, com a dentua  mostra, como se quisesse morder o interlocutor.
- E que  que vocs tm aqui que no seja importao ibrica, quando no  pura imitao dos vizinhos platinos?
- Ora, no diga isso! A lenda do Negrinho do Pastoreio  autctone, e, sem favor algum, a mais bela do Brasil!
- No  a mais bela lenda do Brasil, no. Reconheo que  uma das mais belas. Mas  a nica. No, meu caro, a imaginao de vocs  pobre.
Rodrigo sacudia a cabea, numa negativa obstinada.
- No senhor, no concordo. O que nos tem faltado no  imaginao, mas tempo, vagares, tranqilidade. E depois, me parece fora de dvida que as lendas e supersties 
nascem do mistrio, do medo. Ora, na nossa paisagem no h mistrio. So campinas rasas, horizontes largos, cus imensos, tudo limpo, claro, amplo, convidando  
ao, ao arremesso,  carga. Quanto ao medo, creio que  coisa que aqui no conhecemos.
- Isso  que nos icfta l em cima! - replicou Rubim. - Vocs gachos vivem dando a entender que tm no Brasil o mo-
noplio da coragem. S vocs so machos, s vocs sabem brigar, s vocs lutaram pela ptria! Ora, isso no  verdade. Abra a nossa histria militar e veja o contingente 
com que o Centro e o Norte sempre contriburam para todas as campanhas guerreiras.
- Sim, mas o campo de batalha era quase sempre o nosso territrio. Esta foi a terra devastada. J pensaste nisso? Imagina s as incertezas duma fronteira mvel a 
subir e a descer ao sabor das guerras e dos tratados. O perigo constante, as nossas mulheres sempre de luto e meio abandonadas, as lavouras destrudas ou sem braos, 
o gado dizimado, os homens mortos ou mutilados. J pensaste?
Rubim soltou uma risada.
- Estamos conversando como se fssemos representantes de duas naes rivais, hein? E quem tem culpa disso so vocs, com essa mania de separatismo, de...
- Alto l, capito! - interrompeu-o Rodrigo. - Nunca fomos separatistas, mas sim liberais que sempre desejaram uma repblica federativa. Esse foi o sentido da Guerra 
dos Farrapos. Alis para seres coerente com tuas idias nietzschianas devias admirar um estado espartano como o nosso, que  uma espcie de Prssia brasileira...
- Claro que admiro, homem! Mas eu queria que voc conhecesse o Nordeste, para ver que gente rija  aquela, que gente brava e que gente pitoresca. No tivemos vizinhos 
castelhanos com quem brigar, mas tivemos e ainda temos um inimigo que nunca nos deu trguas: a terra, o clima. E o pior, ou o melhor  que apesar de tudo ns amamos 
esse inimigo.
Calaram-se  aproximao do prstito, que foi anunciado pelos clarins da banda do regimento de artilharia, cujos soldados, fantasiados de mandarins, abriam o cortejo.
5
Na noite do ltimo sbado de maro, Rodrigo reuniu alguns amigos no Sobrado, para se despedirem? do capito Rubim, que havia sido transferido para a guarnio de 
So Paulo.
568
569
Pouco depois das oito chegou o coronel Jairo com a esposa, que estava trajada como para um baile de gala. Flora, que vestia uma simples blusa de musselina verde-jade 
e uma saia cor de chocolate, pareceu ficar desconcertada ao ver entrar, toda de negro e coruscante de jias, aquela branqussima criatura cuja esbeltez e elegncia 
lembravam a dos desenhos dos figurinos parisienses. Carmem Bittencourt dirigiu-se para a sala de visitas no seu andar lento e frgil de gara, de fisionomia impassvel, 
os grandes olhos amortecidos por um desinteresse cansado. Flora seguiu-a a balbuciar amabilidades, a elogiar-lhe o vestido e o aspecto. Rodrigo observava que a esposa 
perdia a naturalidade na presena da carioca: ficava numa atitude humilde, era a provinciana diante da dama da Capital Federal. Suas palavras, de ordinrio fluentes, 
transformavam-se num tartamudeio acanhado de colegial. Carmem no fazia o menor gesto nem dizia a menor palavra para deixar a outra  vontade. Portava-se com uma 
altivez um tanto desdenhosa (era sabido que aborrecia Santa F e no perdia ocasio de pr em ridculo seus habitantes, principalmente as mulheres) e no raro dirigia 
a Flora ditos irnicos que deixavam Rodrigo indignado, ansioso por dar-lhe o troco na mesma moeda - coisa que no fazia apenas em considerao ao marido. Esnobe! 
- exclamou ele mentalmente, lanando um rpido olhar na direo da sala, onde Flora fazia a carioca sentar-se no sof. Pomadista! Nem que te multipliques por dez 
chegars aos ps da minha mulher! Imaginava despiques torpes: despir aquela insolente e am-la da maneira mais aviltante. E ao pensar nisso verificava, um pouco 
contrariado, que a idia de possuir a mulher do coronel no lhe era indiferente. Sentia por ela uma curiosidade sexual meio mrbida, com um esquisito sabor de incesto.
- Passe pra c, coronel - disse em voz alta, puxando o outro pelo brao e fazendo-o entrar no escritrio. - Sente-se naquela poltrona.
Jairo Bittencourt obedeceu. Rodrigo acendeu um charuto e sentou-se tambm, soltando uma baforada feliz.
-  uma pena o senhor no fumar. No sabe o que perde. Um charuto no  apenas um prazer fsico, mas uma delcia tambm para o esprito. Ser que algum j escreveu 
sobre os efeitos
570
psicolgicos dum bom charuto? No h nada de melhor que um havana para levantar o moral!
Esperou que o coronel aproveitasse a deixa e, como era seu costume, entrasse numa dissertao que acabaria fatalmente no positivismo. O amigo, porm, continuou silencioso, 
a fisionomia tristonha, a mo a acariciar num gesto perdido a cabeleira fulva onde j apontavam fios prateados.
Rodrigo falou na guerra e deu voz  sua indignao ante o fato de os alemes estarem empregando o lana-chamas.
-  uma monstruosidade! - exclamou. - Uma arma de brbaros!
Jairo encolheu os ombros.
- A guerra em si mesma j  a maior das monstruosidades. Pode parecer estranho que eu, um militar, faa tal afirmao. Mas  que antes de ser militar sou uma criatura 
humana.
- Veja como nesse assunto de guerra a humanidade tem retrogradado desde os tempos das nobres lias medievais, de homem contra homem, at este nosso sculo em que 
se massacraram populaes civis indefesas e os boches andam a empregar essa arma horrvel que chamusca t torra os inimigos, como se eles fossem ratos pesteados. 
Aonde  que vamos parar?
Fez-se um curto silncio. As janelas do escritrio e da sala de visitas estavam abertas para aquela serena e tpida noite de princpios de outono. Da praa, onde 
crianas cirandavam, vinham vozes finas e musicais em coro:
O meu belo
do castelo, mata-tira tirarei.
Rodrigo sorriu. As crianas de hoje - pensou - vivem numa paz e numa segurana que as de meu tempo no conheceram... O charuto preso entre os dentes, as pernas tranadas, 
atirou a cabea para trs e ficou a escutar a cantiga. Sentia-se feliz e em paz com o mundo. Havia jantado bem, sua vida estava em ordem; no tinha
571
 
problemas materiais nem espirituais. Mas que diacho teria o coronel que estava to deprimido?
- E o bandido do Rubim? - perguntou afetuosamente. - J capito, hein?
- Foi uma promoo merecida. No tenha dvida: esse moo vai fazer um carreiro.
- Talvez chegue a ministro.
- Por que no?  dessa massa que se fazem os estadistas. Rodrigo sorriu.
- Mas no dia em que o Rubim assumir a pasta da Guerra, a Argentina deve decretar sem tardana a mobilizao geral.
Jairo atirou o brao no ar, num gesto de quem quer afugentar
uma mosca.
- Ora! As tolices do Rubim! No  ele o nico oficial do nosso Exrcito que vive com essa idia fixa duma guerra entre o Brasil e a Argentina. Isso  pura falta 
de viso sociolgica, dum conhecimento mais profundo da histria e da psicologia dos povos.
Depois de uma curta pausa, Rodrigo perguntou:
- Tem sabido do Lucas?
- Notcias recentes, nenhuma. S sei que ainda est em Mato Grosso.
- A nossa Sibria. Jairo suspirou.
- Quando nos queiem castigar  para l que nos mandam. Rodrigo sorria, pensando no tenente de obuseiros. Havia trs
anos, Lucas Arajo provocara um escndalo que fizera a cidade inteira vibrar. Como o coronel Joca Prates continuasse a opor-se ao seu namoro com a Ritinha, o rapaz 
vivia em constantes bebedeiras e mais duma vez ameaara desacatar aquele "coronel de bobagem". Um dia cumpriu a ameaa. Embriagou-se, despiu-se por completo, enfiou 
na cabea o quepe militar, apanhou uma espada, montou a cavalo e, saindo do quartel por entre as sentinelas embasbacadas, precipitou o animal a galope na direo 
da cidade. Sua teno era entrar assim na rua do Comrcio e cruzar pela frente da casa de Joca Prates. Ao avist-lo, as mulheres que estavam nas caladas ou debruadas 
s janelas soltavam gritos, tapavam os olhos
com as mos ou fugiam. Os homens, uns rompiam em ditos chistosos e gargalhadas, outros protestavam, indignados, contra o ultraje. Maneco Vieira, que se encontrava 
a cavalo na frente da Casa Schultz, a conversar com um amigo, viu o tenente de obuseiros passar, compreendeu tudo num relance e no teve a menor hesitao. Meteu 
as esporas nos flancos do animal, tocou-se atrs de Lucas e alcanou-o quando ele j entrava a praa da Matriz. Tirou o lao dos tentos, reboleou-o no ar e laou 
o oficial, colhendo-o pelos ombros e imobilizando-lhe os braos. Lucas tombou do cavalo no cho da praa, com um baque surdo. Maneco Vieira apeou, envolveu o tenente 
no seu poncho, levou-o a um mdico - "pra ver se o moo no tinha quebrado alguma coisa" - e depois entregou-o a seu comandante.
Rodrigo e outros amigos do alagoano tentaram abafar o escndalo, mas nada conseguiram. Era tarde demais: a cidade inteira j sabia do ocorrido.
Lucas foi recolhido  priso militar. Poucas semanas depois era transferido para Mato Grosso.
- Bom corao - sentenciou o coronel Jairo - mas mala cabeza.
E assim se vo os amigos, um por um - refletiu Rodrigo. Em setembro de 1914, depois da morte sbita de Celanira, Pepe Garcia decidira deixar Santa F, "huir a los 
recuerdos tristes", sair a burlequear pelo Brasil. Queria conhecer o Norte, subir o Amazonas num gaiola, passar uma temporada em Manaus, pintar a selva, "quizs 
morir de malria o devorado por una onza".
O coronel Jairo olhava fixamente para o soalho. E com uma voz sentida que Rodrigo jamais lhe ouvira, queixou-se:
- Pois , meu amigo, e a todas essas eu vou ficando por aqui. Nem promoo nem remoo. Tenho a impresso de que se esqueceram de mim. No  que eu no goste desta 
terra e desta gente, mas, que diabo! j era tempo de me mandarem para um lugar maior.
Baixou a voz, lanou um olhar furtivo para a sala de visitas.
- A Carminha no tem sade para agentar este clima. Num destes invernos, o vosso minuano pode levar a pobrezinha.
572
573
Rodrigo ia dizer-lhe uma palavra de conforto quando foi interrompido pelo capito Rubim, que entrou no Sobrado soltando a sua risada convulsiva e arrastando pelo 
brao o padre Astolfo.
Alto, esguio, meio encurvado, o rosto duma palidez oleosa de seminarista, o novo vigrio de Santa F tinha algo de adolescente na fisionomia, apesar de j haver 
completado trinta e trs anos. O cabelo cortado  escovinha e os grandes culos de aro de tartaruga davam-lhe um ar estudioso de ginasiano aplicado. Suas feies 
eram regulares e duma delicadeza quase feminina. "Que tal  o novo vigrio?" - perguntara Maria Valria ao afilhado, no dia em que este fora apresentado ao padre 
Astolfo. A resposta viera espontnea: "'Um gurizo simptico". J agora, depois dum convvio mais ntimo e prolongado, Rodrigo acrescentava algo  definio: "Um 
homem culto e inteligente, duma seriedade que impressiona".
Natural de Minas Gerais, o padre Astolfo Neves, segundo se murmurava, fora j chamado  ordem por mais dum bispo, por causa de sua perigosa tolerncia no domnio 
das idias. Era indisfaravelmente um liberal, embora no chegasse aos extremos do lendrio padre Romano, que aceitava o evolucionismo e lia com paixo Voltaire, 
Diderot e Renan.
Depois de cumprimentar as senhoras na sala de visitas, Rubim apertou a mo do coronel Jairo e do dono da casa, exclamando jovialmente:
- Vou m'embora de Santa F sem ter convertido o vigrio  minha filosofia!
Rubim envergava um uniforme de brancura imaculada, num contraste com a batina negra do padre. E no haveria - pensou Rodrigo - uma oposio identicamente radical 
entre as ideias daqueles dois homens?
O vigrio sentou-se, cruzou as longas pernas e, num cacoete muito seu, ficou a puxar o lbulo da orelha, apertando-o entre o polegar e o indicador.
- Eu vinha procurando convencer o padre - contou Rubim - de que o homem cristo, na sua monstruosa tentativa de abafar os instintos, acabou perdendo a vitalidade 
e hoje em dia s pode achar interesse na vida recorrendo a entorpecentes como a religio, o esporte, a morfina, a msica, a literatura, a arte, enfim. Todas essas 
coisas so alcalides. - Deu uma palmada no respaldo da cadeira e exclamou: - A est! Deus tambm  um alcalide!
O vigrio olhava para o capito e sorria com benevolncia. Rodrigo interrompeu a discusso para perguntar que msica queriam ouvir.
- Verdi! - pediu Jairo. -  o meu alcalide predileto. Rodrigo encaminhou-se para a sala de visitas, abriu uma das
gavetas da estante do gramofone e escolheu um disco. Pouco depois saa da campnula do aparelho a melodia do preldio do ltimo ato da Traviata. O coronel cerrou 
os olhos e reclinou a cabea. Rubim encarava o vigrio provocador.
- Que diz da minha classificao, reverendo? Deus, o Grande Alcalide!
- Bem achada - respondeu o sacerdote. - Por que no? Deus  o blsamo para todas as dores morais, o remdio para todas as doenas da alma...
Sua voz, grave e lenta, tocada duma fadiga precoce, era muito mais velha e vivida que o rosto.
Violinos e violoncelos choravam o preldio. Rodrigo inclinou-se sobre a esposa do coronel e perguntou-lhe se gostava da Traviata.
-  a minha pera predileta - respondeu ela, erguendo para o anfitrio os olhos de tsica.
Mais um agosto e um par de minuanos, ma chere, e tua alminha voar para o cu. E no ters conhecido o amor, mon ange. No me refiro a esse amor filosfico e senil 
de Augusto Comte por Clotilde de Vaux, mas o amor carnal dum homem jovem e ardente como o dr. Rodrigo. Pois c'est dommage!
Voltou para o escritrio, onde Rubim continuava a provocar o padre.
- No  possvel aceitar a existncia de Deus a no ser atravs da cegueira da f, que  outro entorpecente.
574
575
- Deus no pode ser definido - disse o sacerdote, encarando placidamente o militar. - Sua natureza s nos  conhecida atravs do que ela no ...
Rubim tornou a cavalar o pince-nez no nariz e fez um muxoxo.
- Confuso, padre, muito confuso. Sou um soldado, tenho um esprito matemtico. No aceito a existncia de nenhuma coisa que no possa ser provada.
Bom... - murmurou o outro. E por um instante seu olhar
vagou, meio perdido, pela sala.
- Mas haver coisas que Deus, o Todo-Poderoso, possa no ser e no fazer?
Jairo protestou:
- Por amor desse Deus que estais discutindo, vamos ouvir msica, a divina msica. Deixem a discusso para outro dia.
Rodrigo foi at a sala de visitas para virar o disco. Flora lanou-lhe um olhar no qual ele leu um pedido de socorro. (Nossa Senhora! J no sei mais o que  que 
vou conversar com esta mulher.) Rodrigo sorriu:
- Manda servir alguma coisa, Flora.
Quando voltou para o escritrio, o padre Astolfo estava enumerando pacientemente as coisas que Deus no podia ser:
- No pode ser um corpo, nem mudar-se a si mesmo. No pode falhar...
A cada uma dessas asseres, Rubim perguntava com uma insistncia automtica: "Mas por qu? Por qu?" O vigrio, entretanto, prosseguia sem responder:
- Deus no pode cansar-se nem encolerizar-se nem esquecer nem arrepender-se... nem entristecer... nem alterar o passado... nem pecar... nem fazer outro Deus...
- Mas pode deixar de existir, no pode? O sacerdote sacudiu a cabea.
- No, absolutamente. Deus  uma entidade sem acidentes: no pode ser especificada por nenhuma diferena substancial...
- Ora viva! - exclamou Rubim. - Seu Deus no fim de contas  mais limitado do que eu imaginava.
578
- Posso dizer-lhe tambm muitas coisas positivas sobre Ele. Deus  o que move mas nunca  movido.
O capito Jairo voltou a cabea e abriu os olhos.
- Axioma velho como Aristteles.
- Nem por isso menos verdadeiro. Mas deixem-me continuar... Deus  o movedor inamovvel, a causa primeira e a origem mesma de toda a necessidade. Deus  a fonte 
de todas as perfeies do universo...
Rodrigo achou que devia meter sua colher torta na discusso.
- E todo o servio malfeito  empurrado pra cima do diabo... Como se no o tivesse ouvido, Astolfo prosseguiu:
- Deus  bom e ao mesmo tempo Ele  a Sua prpria bondade.
- Isso  forte demais para um simples capito de artilharia... - murmurou Rubim. - Comparada com essa espcie de metafsica, a balstica chega a ser brinquedo de 
criana.
Apanhou o clice de vinho do Porto que Laurinda lhe oferecia. Jairo fez com a mo um sinal negativo: no queria beber nada.
O padre, porm, aceitou o vinho, levou o clice aos lbios, bebeu um pequeno gole e continuou:
- Deus  inteligente. - Subitamente animado, ps-se de p, como se fosse fazer um discurso: - E o Seu ato de inteligncia  Sua essncia.
- Uma bela frase que nada esclarece - replicou Rubim.
O homem de preto e o de branco estavam de p, frente a frente. Rodrigo contemplava-os, sorrindo. Jairo continuava de olhos cerrados a escutar o preldio.
- Deus  imutvel - afirmou o padre - porque n'Ele no se contm nenhuma potencialidade passiva. Em suma: Deus  Verdade.
Rodrigo bebeu um largo gole de vinho e aproximou-se dos amigos com uma pergunta:
- O padre tambm acredita como Aristteles que a alma est localizada na glndula pineal?
- Claro que no. A alma inteira est presente em todas as partes do corpo.
579
Rubim baixou a voz:
- Ser que a alma  transmitida de pai para filho por meio
do esperma?
O sacerdote meneou vigorosamente a cabea:
- Absolutamente. Uma alma nova  criada por Deus para cada ser que nasce.
Rubim deu uma palmada na coxa, vociferando:
- Como se explica ento a transmisso do pecado original de pai para filho, hein? Como se explica? Se  a alma que peca e no o corpo, e se a alma no  transmitida 
de pai para filho, como pode cada ser novo que nasce herdar o pecado de Ado?
- Saia agora dessa, padre! - sorriu Jairo.
O vigiio olhava reflexivamente para dentro do clice.
- Pois  - disse ele, franzindo os lbios. - Santo Agostinho, que era melhor e mais esclarecido que eu, tambm ficava perplexo diante desse problema...
Ergueu os olhos para Rubim, encarou-o por um instante e por fim comeou a rir a sua risada grave e lenta. Jairo ergueu-se e caminhou para o vigrio.
- Deus conhece as coisas particulares ou s as universais, as verdades gerais?
O padre no hesitou.
- Est claro que Deus conhece at as coisas que ainda no tm existncia, assim como... - Olhou em torno e apontou para o retrato de Rodrigo. - Assim como o artista 
que pintou aquele quadro j o conhecia antes de pint-lo...
- Don Pepe no  exatamente a minha idia de Deus - troou Rubim.
A msica havia cessado e agora s se ouvia o chiado da agulha. Rodrigo correu para o gramofone e p-lo a tocar uma valsa de Strauss.
- Mas como  que Deus pode conhecer os contingentes futuros? - tornou a perguntar o coronel.
- Porque Ele est fora do tempo.
- Em suma - observou Rubim -, numa posio muito cmoda. Uma verdadeira sinecura, um posto de comando sem su-
580
periores hierrquicos e sem patro. No  de admirar que Deus possa dar-se ao luxo de ser bom e justo e perfeito como os telogos afirmam. Tem carta branca e est 
acima de qualquer tribunal.
Por um instante o vigrio ficou a escutar o gramofone, movendo a cabea ao ritmo da valsa.
Rodrigo olhava, meio apreensivo, para a sala de visitas, onde Carmem e Flora estavam imveis e silenciosas. Por que diabo havia o coronel trazido a esposa, se era 
evidente que ela no tinha a menor simpatia por Flora? Tomara que cheguem os Carbone para salvar a situao!
Quando Laurinda entrou com os pratos de fiambre, de po com caviar e croquetes, colocando-os sobre o biireau, Rubim e o padre discutiam as delcias deste e do outro 
mundo. Procuravam, sem chegar a nenhum acordo, uma definio para a palavra felicidade. Para Rubim felicidade era sinnimo de fora, de poder, de vitria: vitria 
do homem sobre a natureza, sobre o medo e sobre os outros homens. No compreendia os que encontravam prazer na prtica dos chamados "atos virtuosos". O padre trincou 
um croquete e glosou o mote:
-  a que muita gente se engana! Os atos de virtude no podem ser um fim em si mesmos. So apenas meios...
- Para que fim?
- Para chegarmos um dia  contemplao de Deus, que  a felicidade suprema. Neste mundo no podemos ver Deus na sua essncia nem atingir a verdadeira felicidade. 
Na outra vida, se nos tivermos feito merecedores da suprema graa, gozaremos o privilgio de ver a face do Criador.
- Mas Deus tem uma face?- perguntou Rubim, com os lbios e os dentes pontilhados de caviar.
- Ora, isso  uma figura de linguagem. Rubim insinuou:
- Quem sabe se Deus no ser tambm apenas uma figura de linguagem?
Rodrigo soltou uma risada e fez andar  roda o prato de fiambre. Jairo segurou cordialmente o brao do padre, e, como para encerrar a discusso, disse-lhe com uma 
ironia paternal:
581
- O senhor sabe a sua Summa contra Jesus na ponta da lngua. Aprovado com distino!
Rubim, porm, quis ficar com a palavra final:
- Santo Toms de Aquino foi um homem de gnio que andou em busca de tazes para coonestar sua f. Partiu de concluses dogmticas e saiu a cata das premissas. Encontrou 
algumas com admirvel habilidade, no nego. Agora: aceit-las  uma questo de f, no de inteligncia.
O vigrio sorriu e, para dar a entender que no estava ressentido, bateu de leve no ombro do capito.
Chiru chegou ao Sobrado depois das nove. Sem dar-lhe ao menos tempo de dizer boa-noite, Rodrigo investiu para ele, segurou-lhe a lapela como se fosse agredi-lo fisicamente:
- Por que no trouxeste tua mulher, miservel?
- Ora, Rodrigo, tu sabes, quem tem filhos pequenos... Boa noite, coronel, boa noite, vigrio, boa noite, capito... Pois . A coitada da Norata anda sempre envolvida 
com as crias.
Dirigiu-se para a sala de visitas e aproximou-se das damas, diante das quais ficou a fazer mesuras.
O casamento de Chiru Mena, em 1912, com uma rf herdeira de trs lguas de campo bem povoadas, causara quase tanta sensao em Santa F quanto a notcia do naufrgio 
do Titanic, ocorrido poucos dias antes. O namoro comeara num baile, continuara durante algumas serenatas e conversas ao p da janela da casa da moa - que vivia 
com um casal de tios pobres - e encammhara-se a passo acelerado para um noivado-relmpago. O padre Kolb casou-os num glido dia de julho, em que soprava o minuano, 
e a noiva, no seu vestidinho branco, tremia de frio e emoo. Rodrigo, um dos padrinhos do noivo, pagou a este o fraque, as calas a fantasia, os sapatos de verniz, 
o plastro, e presenteou o casal com a moblia do quarto de dormir. Na hora em que o noivo assinava o nome no registro, Saturnino inclinou a cabea
582
para Rodrigo e cochichou: "At que um dia o Chiru desenterrou um tesouro!" Parecia despeitado por perder o velho companheiro de perambulaes noturnas. Efetivamente, 
nos primeiros tempos de casado Chiru foi um marido exemplar: dedicado, amoroso e caseiro. A lua-de-mel, porm, durou dois escassos meses, ao cabo dos quais Chiru 
voltou  velha vida, s caminhadas noturnas em companhia de Saturnino, s serenatas com o Neco e s pndegas com quem quer que o acaso lhe deparasse. Levantava-se 
s dez da manh e passava o dia na vadiagem, de roda de mate em roda de mate, ou ento metido no Comercial a jogar cartas ou bilhar. A todas essas no cessava de 
proclamar seus propsitos de trabalho: cuidar da estncia, multiplicar o gado, fundar uma charqueada ou uma barraca de couros. Parecia ter esquecido por completo 
o tesouro dos jesutas. Nunca deu, porm, o menor passo para realizar os grandes planos. Achou mais fcil e conveniente arrendar o campo e vender o gado. Por algum 
tempo andou com os bolsos cheios de dinheiro, pagando as despesas nas rodas de caf e nos bordis e convidando os amigos para cearas e cervejadas. A esposa dera-lhe 
dois filhos, o ltimo dos quais nascera havia apenas quatro meses. Em 1913, assediado pelos credores, hipotecara a estncia. Sabendo que a hipoteca estava prestes 
a vencer-se e que o amigo no tinha dinheiro para resgat-la, Rodrigo censurara-o: "s um prdigo, um desorganizado, um vadio! Vais botar fora a segunda fortuna 
que a Providncia, que  cega, te atirou nas mos. Por que no fazes alguma coisa, homem? No tens pena da tua tia, que se esfalfa pra sustentar a tua famlia?" 
Tia Vanja, porm - sabia-o ele - vivia no stimo cu. Conservara o "velocino de ouro" em casa, ganhara uma "nora" e ''netos". E, para cmulo da felicidade, o Correio 
do Povo estava agora publicando o mais formoso, o mais edificante dos romances: A toutinegra do moinho.
- Salafrrio! - exclamou Rodrigo quando o amigo voltou para o escritrio. - Podias ter deixado as crianas com tua tia. No trouxeste a Norata porque no quiseste. 
s um mau marido, um mau cidado, um mau exemplo. Mas come alguma coisa, animal!
583
Chiru apanhou um croquete, meteu-o inteiro na boca e ps-se a mastig-lo com gosto e rudo. Havia engordado naqueles ltimos anos: ostentava uma corpulncia imponente 
de embaixador. A papada estava ndia, a cara rubicunda, a juba loura, mais abundante que nunca. As costeletas espessas e longas ameaavam transformarse em suas 
- o que j lhe dava uma certa parecena com os retratos de Dom Joo VI.
- O dr. Carbone ainda no chegou?
- No - respondeu Rodrigo. - Tinha uma operao marcada pras oito. - Hrnia estrangulada.
- Aquele gringo  um carniceiro! - exclamou Chiru.- Mas tem um corao de pomba. Pra com esse gramofone, homem, pra gente poder conversar. Tenho um prato de primeira 
ordem pra vocs...
Quando a valsa terminou, Chiru olhou de soslaio na direo das mulheres, voltou-lhes as costas, inclinou um pouco o busto, e, num tom de voz a que Maria Valria 
chamava "murmurim", sussurrou:
- Sabem que est pra estourar um escndalo na cidade?
Trs pares de olhos focaram-se no rosto de Chiru Mena. Comentava-se com insistncia - contou ele - que o irmo Jacques Meunier, o marista, e a filha mais velha do 
coronel Cacique Fagundes, a quem ele dava lies particulares de francs, estavam perdidamente apaixonados um pelo outro.
- Calnia! - reagiu Rodrigo. - Santa F  um burgo maldizente. No respeitam nem um sacerdote, isso pra no falar na honra duma moa de boa famlia. Ento, s porque 
o rapaz est ensinando francs pra Doralice Fagundes... Ora, seu Chiru, ora!
Calou-se, o cenho franzido. No estava to revoltado como queria parecer para agradar o padre Astolfo. Na realidade no s achava os boatos verossmeis como tambm 
sentia certo alvoroo ante a perspectiva do escndalo.
Chiru empertigou-se, assumiu um ar grave de respeitabilidade, espalmou a mo sobre o peito:
- Perdo, no sou eu quem diz. Apenas vendo a coisa pelo preo que compro. Todo o mundo fala nessa histria.
584
Tornou a lanar um rpido olhar cauteloso na direo da pea vizinha, onde as duas mulheres, imveis e caladas, pareciam figuras dum museu de cera.
- Dizem que ficam horas e horas fechados numa sala - murmurou. - Que diabo! Padre  de carne e osso como qualquer um de ns, no , vigrio?
Astolfo, que estava a puxar o lbulo da orelha, sorriu, meio constrangido, e explicou, com seu jeito paciente e atencioso, que um marista no  propriamente um padre 
como os outros.
- A Sociedade de Maria tem trs graus. O primeiro  o dos aspirantes, que fazem todos os anos um voto singelo de obedincia. O segundo  o dos professores, que depois 
do noviciado cannico e de haverem completado vinte e um anos, fazem trs votos singelos de castidade, pobreza e obedincia. H finalmente o terceiro grau, que  
o dos professores estveis, que devem ter trinta e cinco anos completos e, aps o segundo noviciado pronunciam o voto de estabilidade na Congregao. O irmo Jacques, 
creio, est no segundo grau...
- Pode ento, no renovar o voto? - indagou Chiru.
- Claro.
- Ests ouvindo? - gritou Chiru na cara de Rodrigo. - Dizem que o homem vai tirar a batina pra casar com a moa. No vejo nenhum mal nisso, meus patrcios!
Apanhou outro croquete e meteu-o na boca.
- Que  que o coronel Cacique diz de toda essa lambana? - indagou Rubim.
Por um instante Chiru lutou com um arroto. Encostou as pontas dos dedos nos lbios e deixou-o escapar suavemente, sem rudo, e com certa dignidade.
- Quando o Cacique descobrir a coisa - disse, - acho que bota o marista pra fora de casa com um pontap no rabo, com o perdo aqui do reverendo...
Sentou-se, desabotoando o colarinho e afrouxando o n da gravata.
Rodrigo mandou Laurinda trazer taas e foi  cozinha buscar uma garrafa de champanha. Fez questo de abri-la no meio da sala,
585
para que todos ouvissem o estouro da rolha e vissem a espuma jorrar. Serviu primeiro as mulheres. Depois encheu as taas dos homens e apanhou a sua.
- Se temos hoje champanha gelado  graas  diligncia de Marco Lunardi, o nosso grande industrial, que teve a luminosa idia de comprar uma mquina de fabricar 
gelo!
Voltou-se para Rubim:
- Tu no mereces um brinde, soldado. Amanh, quando estiveres longe daqui, sei que esquecers esta cidade, esta casa e estes amigos. Em todo caso, quero beber  
tua sade. - Ergueu a taa. - Desejo-te felicidades, sucesso e o Ministrio da Guerra!
Chiru e o vigrio ergueram tambm as taas e beberam. Rubim olhava fixamente para o anfitrio. De repente operou-se-lhe no rosto uma mudana completa: os olhos se 
umedeceram, os lbios tremeram sobre a dentua e ele ficou ali mudo e imvel, numa sbita nudez psicolgica. Rodrigo, surpreso, percebeu que o capito estava comovido, 
o que o deixou tambm com os olhos turvos e um aperto na garganta.
Os Carbone fizeram sua entrada no Sobrado depois das dez, quando os Bittencourt j se haviam retirado por insistncia de dona Carmem, que se queixara duma sbita 
enxaqueca. Livre da pesada obrigao de entreter a esposa do coronel, Flora recebeu Santuzza com grandes demonstraes de alegria. Ali estava uma criatura simples, 
fcil, espontnea, com quem a gente se podia abrir e ser natural sem o menor perigo de dar ratas. Alta, fornida, com um busto abundante de prima-dona lrica e uma 
cintura surpreendentemente fina para as largas ancas calipgias, dava a esposa do dr. Cario Carbone a impresso duma camponesa na qual no assentavam bem as roupas 
citadinas. Andava j pelo fim da casa dos trinta, tinha as faces coradas, a pele lisa, uns grandes olhos honestos de me de famlia, uma risada saudvel e uma voz 
levemente 
586
roufenha, que lembrava a Rodrigo a de certas cantoras aposentadas de caf-concerto.
Depois de distribuir seus formidveis apertos de mos entre os presentes, Santuzza, sem a menor cerimnia e com o mais sadio dos apetites, atirou-se sobre os croquetes.
- Ento, Carbone, como correu a operao? - perguntou Rodrigo, dando uma palmadinha nas costas do cirurgio. Nunca lhe apertava a mo com fora, pois temia desmontar 
o homenzinho.
- Maravilhosamente bem! - respondeu o italiano com sua rica voz musical que, por uma tola associao de idias (empostada-empastada-empastelada) Rodrigo classificava 
como "voz de pastel".
O cirurgio trincou um croquete e bebeu um gole de champanha com um jeito de conhecedor.
- Uma hrnia belssima! - exclamou, estalando os beios num simulacro de beijo, levando  boca os dedos unidos e depois abrindo-os em leque, como para espalhar o 
bacio no ambiente. - Belssima! - repetiu, mais cantando do que pronunciando a palavra.
Serviu-se de po com caviar. Rodrigo ficou a observ-lo com apaixonado interesse. Aquele homenzinho fascinava-o. Era uma fabulosa mistura de gnomo, feiticeiro, diplomata 
e maitre de hotel. Figura minscula- teria quando muito um metro e cinqenta e oito de altura - no seu fraque preto, suas calas a fantasia, colarinho e punhos engomados, 
era o tipo clssico do mdico francs, segundo a caricatura. O que lhe dava ao todo um ar um tanto grotesco era a desproporo entre a cabeorra - que bem podia 
estar plantada nos ombros dum homem de estatura acima da mediana - e o corpo franzino de meninote. A testa era larga e alta, e a barba - crespa, castanha e abundante 
como a cabeleira - estava cortada em bico, o que lhe dava  face algo de agudo, acentuado pelo nariz comprido e afilado, de narinas dilatadas e duma transparncia 
de porcelana. Acima dos olhos meio exorbitados, de pupilas dum cinzento metlico, eriavam-se as sobrancelhas grossas, com as pontas externas retorcidas para cima 
 maneira de minsculos cornos. Rodrigo costumava chamar ao cirurgio "o meu
587
simptico satans". Homem de idade indefinvel - pois tanto se lhe podia dar trinta e cinco como quarenta e cinco ou cinqenta anos -, tinha uma natureza apaixonada 
e a sensibilidade  flor da pele. Admirava D'Annunzio e Petrarca, era catlico praticante, amava a pera e, gourmet de gosto apurado, levava em grande conta os prazeres 
da mesa. Comer, para ele, era uma espcie de ritual. Aos sbados tinha sempre ao jantar algum prato raro, geralmente rs  milanesa, o que era motivo de escndalo 
e falatrio na cidade. Rodrigo no pudera conter o riso ao encontrar um dia o dr. Carbone enfarpelado na sua roupa de caador, de veludo verde-musgo, um bon de 
pano enfiado na cabea, as finas pernas envoltas em perneiras de feltro - prestes a sair em excurso pelos banhados das redondezas de Santa F, em busca de rs e 
cogumelos comestveis.
O casal Carbone causava sensao quando aparecia nas ruas da cidade: ela alta e imponente, ele baixinho e serelepe no seu inseparvel fraque negro, a cabea metida 
num chapu-coco, a longa piteira de mbar apertada entre os dentes. Diziam os gaiatos: "L vem dona Santuzza com sua bengala". Todos sabiam, entretanto, que apesar 
daquela desproporo fsica, quem cantava de galo em casa era ele. Afirmava-se at que aquele homenzinho de maneiras afveis e duma cordialidade beijoquenta era 
na intimidade um tiranete - exigente, neurastnico, cheio de manias - e que a mulher, no obstante seu aspecto de amazona e sua energia transbordante, apequenava-se 
diante dos gritos do marido, fazendo-lhe todas as vontades e desculpando-lhe todas as impertinncias.
Logo ao entrar, Santuzza perguntou pelas crianas. Flora respondeu que estavam dormindo. Casal sem filhos, os Carbone se haviam tomado de amores por Floriano e Alicinha 
e enchiam-nos de mimos e presentes.
A esposa do cirurgio insistiu em subir para olhar "i piccol'. Fez uma proviso de croquetes e encaminhou-se para a escada grande, seguida de Flora, a qual - observava 
Rodrigo - no cessava de rir quando estava na presena da italiana.
Chiru aproximou-se de Carbone.
588
- Como  o negcio, doutor? Quando  que a Itlia entra na guerra? A coisa est feia, precisamos de aliados.
O homenzinho colocou a taa vazia sobre o bureau, enfiou um cigarro na longa piteira, acendeu-o e soltou uma baforada de fumaa que subiu para o rosto de Chiru.
- Quando a primavera despontar, carino... - cantarolou, pondo-se nas pontas dos ps como para que suas palavras pudessem chegar aos ouvidos do outro.
Rubim pousou-lhe no ombro a mo protetora.
- Se vocs italianos entrarem no conflito do lado dos aliados, cometero um ato de traio e ao mesmo tempo um erro: rompero uma aliana e perdero a guerra.
Cario Carbone olhou reflexivamente para o cigarro, bateu-lhe a cinza com a unha do dedo mnimo, deu trs passinhos na ponta dos ps, como se estivesse danando um 
schottish e depois, voltando-se para o capito, respondeu, evasivo:
- Eh... gi.
O padre Astolfo interveio, tendo entre os dedos um dos dourados quindins que Laurinda acabava de servir:
- O capito no h de querer - disse - que o bero da latinidade entre na guerra ao lado desses brbaros germnicos!
Rubim voltou-se para o sacerdote:
- O senhor acha que os padres alemes que servem no Exrcito do Kaiser so da mesma opinio?
O dr. Carbone estava agora como um quebra-mar entre o homem de branco e o homem de negro, a piteira entre os dentes a balanar o corpo, apoiando-o ora na ponta dos 
ps, ora nos calcanhares. Chiru passou pela cara o leno vermelho e esmagou um quindim na boca, atento  discusso que se acendera entre o padre e o militar, que 
j agora estavam s voltas com o Congresso de Viena, as guerras napolenicas e as intrigas balcnicas.
Rodrigo, escanso feliz, andava de taa em taa, com a garrafa de champanha nas mos, sorrindo:
- Paz, senhores, paz!
O cirurgio aproximou-se do gramofone, p-lo a funcionar e, quando voltou para o escritrio, j se ouviam os primeiros acordes
589
da Serenata de Arlequim. Segurou o brao de Rodrigo e, os olhos entrecerrados, ficou a acompanhar a ria em surdina, com sua voz de tenorino.
Rubim puxou o italiano pela manga do fraque:
- Estive procurando provar ao padre que a guerra  uma coisa necessria. Imagine o senhor, doutor, as oportunidades de progresso que a cirurgia vai ter. Positivamente, 
a paz  a inrcia e o desfibramento dos povos.
Carbone no lhe prestou nenhuma ateno. Continuou a cantarolar e agora a reger tambm a orquestra, com a piteira  guisa de batuta.
Rubim prosseguiu:
- Moltke disse que a paz perptua  uma iluso que nem chega a ser uma bela iluso e a guerra  um elemento de ordem no mundo, um mandamento de Deus, pois sem a 
guerra, a humanidade se estagnaria e perderia no materialismo.
- Que  que o padre diz a isso? - perguntou Rodrigo.
- Digo que h muita gente no mundo que fala em nome de Deus sem ter a menor autoridade para isso.
Laurinda entrou com um novo prato de croquetes recm-sados da frigideira. Chiru atacou-o sem perda de tempo. Arlequim calou-se, Carbone correu para o aparelho.
- Pare com essa droga! - suplicou-lhe Chiru. - Queremos conversar em paz.
O cirurgio tornou ao escritrio e sentou-se numa poltrona, ficando com os ps no ar, como uma criana. Rubim acercou-se dele.
- Se a Itlia entrar na guerra, qual vai ser a sua atitude? Cario Carbone no teve a menor hesitao. Ergueu os olhos
para o capito e declarou que ofereceria seus servios de mdico  cara ptria.
Da escada veio um rudo pesado de passos, um cascatear de risadas femininas, e pouco depois Santuzza irrompeu no escritrio,
590
trazendo Floriano e Alicinha, um em cada brao. Nos seus macaces de pelcia, as crianas tinham os olhos piscos e nos rostos afogueados uma expresso de sonolento 
espanto.
- Dona Santuzza! - repreendeu-a Rodrigo. - Ento isso  coisa que se faa? Acordar as crianas a esta hora da noite... Com efeito!
Flora esboou tambm um protesto. O dr. Carbone precipitou-se para a esposa, arrebatou-lhe Alicinha dos braos e comeou a dar sonoras beijocas no rosto da menina, 
cujas mozinhas se lhe aterraram s barbas. Floriano enlaava o pescoo de Santuzza, a qual lhe murmurava ao ouvido palavras carinhosas.
- Cara, carina - resmungava o dr. Carbone, apertando Alicinha contra o peito. - Topolino mio.
Rubim, que se havia aproximado da janela, estava a olhar a noite. Rodrigo sabia que o sergipano no gostava de crianas e no procurava esconder essa idiossincrasia 
nem mesmo justific-la. Ficava impaciente sempre que Alicinha e Floriano entravam na sala. (Um dia, quando estava a ensaiar os primeiros passos, a menina perdera 
o equilbrio e, para no cair, aganara-se s pernas do oficial. Este permanecera impassvel, no fizera o menor gesto nem sequer esboara um sorriso: limitara-se 
a esperar que Flora acudisse, livrando-o daquela "coisa".)
Durante alguns minutos houve ali no escritrio uma alegre balbrdia em que as duas crianas passaram de brao em brao, sob o olhar indiferente do capito. Depois 
que Santuzza os levou de volta para a cama, Rubim afastou-se da janela, dizendo:
- Criana e cachorro, s em gravura... Nunca fico tranqilo quando vejo esses bichinhos a meu redor.
Carbone lanou-lhe um olhar duro.
- Celerado!
Rodrigo abriu outra garrafa de champanha e tornou a encher as taas. L de cima vinha agora a voz roufenha de Santuzza, a cantar uma berceuse napolitana. Como  
que as crianas vo dormir com um barulho desses? - sorriu o pai.
Naquele momento chegaram Neco e Saturnino com seus instrumentos. Vinham buscar Chiru para uma serenata.
591
- Mas comam e bebam alguma coisa antes de irem! - convidou Rodrigo
- E cante um pouco para ns - pediu o padre, dirigindo-se a Neco.
O seresteiro, que havia pedido cerveja, bebeu um largo sorvo, lambeu os bigodes, afinou o violo e depois olhou para o padre:
- Que  que vai ser?
- Aquela modinha nova que est fazendo tanto sucesso. O Luar do serto?
Todos aprovaram a escolha. Neco pigarreou e comeou:
No h,  gente, oh, no, luar
como esse
do serto.
Rubim ps a mo no ombro de Rodrigo.
- Ai tem voc a alma, a poesia do serto, meu caro.  como lhe digo. Querem um guerreiro? Mandem buscar um gacho. Querem um poeta? Procurem um nordestino. Um homem 
como Catulo da Paixo Cearense no podia ter nascido nestas coxilhas...
- Ora, no diga asneiras.
- Preste ateno na beleza desses versos... Neco cantava com sentimento.
O dr. Carbone escutava com ar sonhador e seus olhos comeavam a ficar enevoados. Santuzza, que havia descido ao ouvir a voz de Neco, estava agora junto da porta, 
os seios arfantes, o rosto srio. Recostado  janela, com a flauta apertada contra a axila, como um enorme termmetro, Saturnino contemplava o companheiro. Chiru 
passeava o olhar em torno, com um ar orgulhoso de empresrio.
Quando o barbeiro terminou a cano, houve aplausos calorosos.
- E ou no  uma jia, essa modinha? - perguntou Chiru.
592

O padre ergueu-se, deu algumas passadas sem rumo pelo escritrio e por fim, entortando a cabea e alando os olhos com ar sonhador, disse:
- No  mesmo estranho que enquanto estamos aqui alegres, cantando, em paz, seres humanos matam-se, destroem-se e sofrem as misrias da guerra nas terras da Europa?
O dr. Carbone, que acabara de acender outro cigarro, olhou para a ponta das botinas (feitas a mo pelo Cervi, pois nas lojas no havia calados suficientemente pequenos 
para seus ps de menino) e depois, numa surdina teatral, recitou:
- Vejo um soldado morto, e seu sangue sobre a neve  como uma rosa vermelha...
- Puro D'Annunzio! - exclamou Rodrigo. E o italiano soprou-lhe um beijo
Rubim soltou uma risada sarcstica.
De novo se falou na guerra, nos mortos, nos mutilados, nas cidades destrudas, e no perigo de um dia o conflito estender-se at o continente americano.
Chiru bravateou:
- O Kaiser que no se meta com a cavalaria gacha! Rodrigo apontou para as taas:
- Nada de tristezas. Vamos beber!
Neco tirava acordes plangentes do violo. Saturnino olhava para as estrelas. De sbito, Santuzza aproximou-se do gramofone e p-lo a tocar um cake-walk. A melodia 
saltitante, produzida por uma orquestra de negros de Nova Orleans, encheu o ar. A italiana tomou a mo do marido:
- Andiamo, Cario. La vita  breve.
Puseram-se a danar. De braos dados, as cabeas e os bustos inclinados para trs, fizeram a volta da sala, atirando as pernas, como a darem pontaps no ar. O soalho 
soava como um tambor surdo s batidas cadenciadas dos ps dos danarinos. Vasos tremiam sobre mesas, consolos e aparadores. E os Carbone, como consumados artistas 
de vaudeville, prosseguiam no seu cake-walk, sob aplausos e risadas.
593
In puncpios de abril Rodrigo sentiu, mais forte que nunca, aquela sensao de inexplicvel nsia e descontentamento que o vinha assaltando ultimamente com certa 
freqncia. Haveria algo de errado em sua vida? Se havia, que era? Estaria ficando neurastnico? Faltava-lhe alguma coisa? Tinha tudo quanto um homem pode desejar: 
a melhor das esposas, os mais belos e saudveis dos filhos, dinheiro, posio, prestgio, bons amigos... No entanto era s vezes tomado daquela sensao de inanidade 
que o deixava aptico, deprimido, ablico ou - o que era mais freqente - irritado e insofrido, a desejar que acontecesse algo capaz de agitar a superfcie da sua 
vida, a qual - comparava ele - era agora como a dum aude em dia sem vento: azul, mas parada e sem vibrao.
Talvez estivesse precisando de novos amigos, de outros horizontes e interesse: duma viagem em suma. Mas viajar para onde? Para a Europa era impossvel. Os Estados 
Unidos, com suas chamins a vomitar fumaa e fuligem, seus negociantes grosseiros, sua falta de bons museus, no o seduziam; de resto ele no falava nem entendia 
o ingls. Buenos Aires era uma cidade sem alma. Montevidu nem chegava a ser uma cidade...
Ests precisando mas  duma aventura amorosa - segredavalhe uma voz interior. No. Ele no devia, no queria aceitar a explicao. Era imperativo que sentasse o 
juzo duma vez por todas. Que diabo! Tinha de respeitar a esposa, pensar nos filhos, na reputao profissional... H loucuras que um homem pode cometer
594
at os vinte e quatro anos. Depois, no se justificam nem desculpam
mais.
Seja como for,  a rotina que est me embolorando a alma - concluiu certo dia em que o trabalho do consultrio lhe fora particularmente penoso.
Logo que o dr. Cario Carbone chegara, ele o ajudara nas primeiras operaes. Cedo, porm, cansara daquele contnuo abrir e fechar de abdmens, daquela sangueira, 
daquela carnificina. Havia muito que entregara a farmcia aos cuidados do Gabriel, cuja admirao apaixonada pelo patro levava-o a imit-lo nos gestos, nas palavras 
e at na maneira de vestir, o que no era difcil, pois ele lhe dava as fatiotas, sapatos e gravatas que no usava mais. Quanto  administrao do pequeno hospital, 
confiara-a  sra. Carbone, que era duma energia e duma eficincia assustadoras. Assim, tudo marchava normalmente sem que fosse necessria sua presena num e outro 
lugar. De quando em quando, porm, sentia-se picado de cimes  idia de que tudo aquilo pudesse funcionar to bem e render tanto dinheiro sem sua interferncia. 
Enchia-se, ento, de zelos patronais e tentava tornar-se indispensvel. Ia examinar os livros de Santuzza e dar-lhe sugestes quanto  direo da casa de sade. 
Fiscalizava as prateleiras da farmcia, passava os olhos pelas faturas das drogarias, sabatinava Gabriel... Esses "acessos" de interesse, entretanto, duravam poucos 
dias e, depois que desapareciam, Rodrigo ficava semanas inteiras sem visitar o hospital e apenas passava pela farmcia quando entrava ou saa do consultrio.
J sei o que me falta - disse um dia a si mesmo, contemplando da janela do Sobrado a fachada da Intendncia.  uma boa campanha poltica. O patife do Rubim Est 
certo, 
 tem razo. Um homem no pode viver sem lutar. A paz  a estagnao, o amolecimento, o tdio. Minha "doena" no passa da nostalgia dos tempos da Farpa, dos 
Dentes Secos, das polmicas e das voluptuosas sensaes de perigo.
No entanto, tudo aquilo havia terminado, agora que o Joca Prates governava Santa F e ele, Rodrigo Cambar, era freqentemente chamado  Intendncia para dar sua 
opinio e conselho sobre assuntos de administrao e at de poltica. O Titi Trindade l
595
estava em sua casa, imobilizado numa cadeira, invlido, com o lado
esquerdo do corpo paralisado, a lngua emperrada, o crebro 
semimorto. Todas essas coisas davam 
a Rodrigo uma sensao de derrota, como se ele, por interesse 
pessoal ou covardia, houvesse aderido  situao. Entretanto em 
verdade podia afirmar que a eleio 
do pai de Ritinha fora obra sua. S sua? Claro que no. Deus, que 
escreve direito por linhas tortas, tambm colaborara.
Em fins de 1911, quando os santa-fezenses se preparavam para as 
eleies municipais, Titi Trindade, o eterno candidato republicano, 
fora subitamente acometido duma 
hemorragia cerebral. Houve pnico entre os correligionrios, que se 
viram na contingncia de escolher s pressas um substituto, o que 
no era difcil, pois no podiam 
contar com o conselho de Trindade, que no estava em condies de 
pensar e muito menos de falar. Formaram-se logo duas faces: uma 
tinha como candidato Lao Madruga; 
a outra inclinava-se para Joca Prates. Rodrigo ps-se imediatamente em 
ao. Passou boa parte duma noite no telgrafo a conferenciar com 
Pinheiro Machado, tratando 
de convenc-lo de que a eleio do Madruga seria ruinosa para 
Santa F e para o partido. Conseguiu que o senador passasse um 
telegrama ao dr. Borges de Medeiros, 
recomendando Joca Prates como o candidato de sua simpatia. E a palavra 
de Pinheiro Machado encerrara definitivamente a questo.
- No tem graa! - disse Rodrigo em voz alta, sempre a olhar para a 
fachada da Intendncia. - Est tudo muito parado!
Em meados daquele mesmo ms chegou-lhe do Rio uma carta de Pinheiro 
Machado, a qual, como um clido vento cheio de promessas teve a 
virtude de agitar as guas do 
aude. Informava-lhe o senador que sua candidatura para deputado  
Assemblia do Estado achava-se definitivamente assegurada. J me 
dirigi ao dr. Borges de Medeiros, 
que est de pleno acordo, de maneira que podes contar como certa a tua 
indicao. Quanto  eleio, penso que no haver tambm 
nenhuma dvida.
Abril ainda lhe reservara outra surpresa: a chegada do automvel Ford 
de quatro cilindros que encomendara havia meses, e que lhe custara 
trs contos e quinhentos 
mil-ris. Junto com o carro veio-lhe tambm um novo chofer, o 
Epaminondas, mulato pernstico,
596
 de cabeleira besuntada de vaselina e nariz quebrado de boxeador.
Uma tardinha Rodrigo meteu toda a famlia no Ford inclusive Maria 
Valria, e saiu a passear pelas ruas centrais da cidade.
Quando o carro fazia a volta da praa Ipiranga, avistou Titi Trindade 
 janela de seu palacete, a cara duma tristeza macilenta, a face 
esquerda como que cada e 
morta. Sentiu-se tomado duma piedade to profunda que se debruou 
sobre a porta do carro e, num assomo de cordialidade, cumprimentou o 
inimigo com um largo e generoso 
aceno.
- Coitado! - murmurou. - No posso guardar rancor de ningum. E, 
depois, se o Trindade tinha pecados, agora os est pagando.  
Epaminondas, passa pela fbrica do 
Lunardi e me compra dois quilos de gelo.
Recostou-se no banco, apertou a mo de Flora e comeou a assobiar, 
feliz, uma valsa de opereta.
Naquele sbado Flora convidou o marido.
- Vamos ao cinema hoje? Imagina s: uma fita da Asta Nielsen! Na tarde 
daquele dia, o negro Srgio andara a distribuir de
casa em casa o programa do Cinema Santa Ceclia, que anunciava para a 
noite o majestoso drama Levada  morte, dividido em trs longas 
partes e produzido pela conceituada 
fbrica dinamarquesa Nordisk,
Com uma seriedade juvenil, que deixou Rodrigo enternecido, Flora apanhou 
o papelucho verde e leu:
- Suntuosa festa de arte que marcar poca nos anais da 
cinematografia moderna. Grande arrojo da fotografia animada. Fuga em 
balo, fuga a cavalo, fuga dum transatlntico 
em pleno mar. Ao do telgrafo sem fio. Escalada de montanhas. 
Garden-party maravilhoso. Danas caractersticas por sessenta 
bailarinas. Requinte de toilettes. 
Encenao riqussima. Glria do amor. Grandiosa produo de 
fina escola.
Olhou para o marido com uma expresso aliciante.
597
- E tem ainda no programa um filme natural e duas comdias, uma do Bigodinho e a outra do Deed!
Rodrigo enlaou a cintura da mulher, estreitou-a contra o peito e 
deu-lhe um sonoro beijo na boca.
- Contigo vou a qualquer parte, meu bem, com ou sem o Deed, com ou sem 
Bigodinho, ests entendendo?
Antes das oito horas estavam ambos no Teatro Santa Ceclia, onde 
funcionava o cinematgrafo, sentados no camarote que o gerente da 
empresa reservava habitualmente 
para os Cambars. Flora gostava de chegar antes de a funo 
principiar, para ver como estavam vestidas as outras mulheres e para dar 
uma prosa com as pessoas do 
camarote vizinho, que naquela noite estava ocupado pelo coronel Cacique 
Fagundes, a esposa, as duas filhas mais velhas e o irmo Jacques. Ao 
ver o marista, Flora 
lanou um olhar significativo para Rodrigo, que mal pde disfarar 
um sorriso de malcia. Afinal de contas - refletiu ele - o boato 
parecia ter fundamento. Que diabo! 
Como podia um homem moo, forte, sanguneo e at bonito como 
frei Jacques viver indiferente aos encantos femininos?
O coronel Cacique inclinou-se para o camarote de Rodrigo e lanou o 
seu protesto:
- Estou aqui nesta droga porque me trouxeram  fora. 
Cinematgrafo  coisa pra criana, tempo perdido, dinheiro posto 
fora.
Tornou a recostar-se no respaldo da cadeira e ali ficou, a pana 
tombada sobre as coxas, sonolento, lustroso e impassvel como a imagem 
dum buda.
Apenas trs dos camarotes da ala fronteira se achavam ocupados: um 
deles pelos Amarais e os outros dois pelo cl dos Macedos. Toda 
vestida de negro, com um boa sobre 
os ombros, um broche de brilhante a coruscar-lhe no peito, Emerenciana 
olhou na direo de Rodrigo, sorriu e fez-lhe um aceno. Alvarino, 
sentado atrs da mulher, 
limitou-se a uma discreta inclinao de cabea.
Rodrigo passeou o olhar pela platia, cujas cadeiras estavam quase 
todas ocupadas. Percebeu que Amintas Camacho procurava cumpriment-lo 
com insistncia. Achava-se 
ao lado da mulher. Depois do casamento, havia engordado, estava com as 
bochechas como
598
que inchadas e com umas gordurinhas indecorosas nas ancas e nas 
ndegas. Lesma! - pensou Rodrigo. E continuou a fingir que no via o 
rbula. De repente deu com o 
Jlio Schnitzler a pequena distncia de seu camarote. Uma 
vermelhido cobriu o rosto, o pescoo e at a calva do alemo, 
cuja boca se abriu num sorriso, ao mesmo 
tempo que ele cumprimentava os Cambars com rgidos acenos de 
cabea. Rodrigo procedeu como se no o tivesse visto. Flora 
censurou-o:
- Cumprimenta o homem, Rodrigo, no sejas rancoroso. O coitado no 
tem culpa dos banditismos do Kaiser.
- Quando me lembro do que os patrcios dele fizeram na Blgica, o 
sangue me ferve. Depois, esse tipo sempre que tem notcia de alguma 
vitria alem rene os patrcios 
na confeitaria pra comemorar.
- Afinal de contas a Alemanha  a terra dele...
- Pois que volte pra l!
Naquele instante percebeu que algum da platia lhe fazia sinais 
frenticos. Ah! A tia Vanja, e sozinha! Ergueu-se e foi buscar a velha 
amiga, trazendo-a pelo brao 
para o camarote. Onde se viu? - murmurava, enlaando-lhe 
carinhosamente a cintura - a senhora sozinha na platia...
Tia Vanja beijou Flora em ambas as faces e sentou-se, muito tesa, ao 
lado dela. Contou que a Norata - ai que flor de moa! que corao! 
- tinha ficado em casa com 
as crianas, a fim de que "a vov" pudesse vir. Ali! Era uma sorte 
morarem to pertinho do Santa Ceclia...
- Sou louca por cinematgrafo! - exclamou. - Eu j disse l em 
casa: tirem-me tudo, o po, a gua, o oxignio que respiro, as 
estrelas do firmamento, tudo, mas no 
me privem do folhetim do Correio do Povo nem do meu rico 
cinematgrafo. No achas, Rodriguinho, que  um invento to 
instrutivo? Que de maravilhosos espetculos 
nos proporciona! E que privilgio podermos ver naquele rico paninho 
branco os melhores atores e atrizes do universo! Eu s imagino se meu 
pai ressuscitasse dentre 
os mortos e pudesse ver essas fotografias animadas. Ele j achava o 
daguerretipo
599
uma coisa mgica, imaginem! Ai!  como sempre estou dizendo, 
bendito seja o progresso!
Na mente de Rodrigo soou o espectro da voz de Maria Valria. "A dona 
Vanja  uma velha fiteira". Fiteira!Ali estava uma expresso nova 
trazida pelo cinematgrafo, 
o qual j comeava a exercer uma sensvel influncia sobre o 
povo. Agora quando uma pessoa era teatral na maneira de falar ou 
gesticular, quando gostava de ostentaes 
ou se dava a exageros - dizia-se que ela era fiteira. Rodrigo sorriu. 
Lembrava-se de que um dia ouvira o pai gritar para um mascate que lhe 
batera  porta e tentava 
impression-lo com seus truques, a fim de lhe vender umas bugigangas: 
"Deixe de fita.
No entanto o velho jamais assistira a uma sesso de cinematgrafo!
Pouco depois das oito horas, o pianista - um escrivo
da
Coletoria Estadual - sentou-se ao piano e comeou a tocar o que o 
programa anunciava como uma "linda ouverture pelo maestro Salcede". Era 
um tango de Nazar, O brejeiro.
Rodrigo franziu o cenho, e fazia muxoxos ante as hesitaes dos 
dedos do pianista sobre os teclados daquele velho piano desafinado.
Gostava de cinema, sim, mas no tinha pacincia de ficar sentado 
numa cadeira de assento de pau durante mais duma hora, nem de esperar os 
longos intervalos entre 
uma parte e outra. Quando a exibio era interrompida porque a 
pelcula se rompia ou queimava, sentia mpetos de gritar, assobiar 
ou bater ps como faziam os espectadores 
do galinheiro.
Tinha a mais agradvel das recordaes da primeira sesso de 
cinematgrafo a que assistira em 1900, ano em que se matriculara num 
ginsio de Porto Alegre. Ficara 
sentado na ponta da cadeira, o busto teso, a respirao contida, 
vendo na tela o milagre daquela lanterna mgica em ponto grande, cujas 
imagens se moviam como gente 
de carne e osso. O primeiro filme que vira se intitulava Via-
600
vem A Jerusalm: vistas das ruas do Cairo, das pirmides, duma 
caravana de camelos, das margens do Nilo e finalmente das ruas, 
monumentos e templos da Cidade Santa. 
Seguira-se um episdio fantstico: a histria duma grande 
carruagem puxada por um cavalo mecnico e que conduzia a toda a 
velocidade quatro negros. Num dado momento 
os negros transformavam-se em palhaos brancos, que se punham a 
brigar, e de sbito voltavam a ser de novo negros para mais tarde 
tornarem-se outra vez brancos. 
Por fim as quatro figuras se uniam, formando o corpo dum nico negro 
de propores gigantescas, o qual se recusava a pagar a passagem do 
nibus. O condutor, enfurecido 
com isso, prendeu fogo na carruagem e o negro ardeu e se extinguiu 
como um boneco de celulide.
Eram os tempos da primeira infncia do cinematgrafo em que no se 
faziam ainda filmes de enredo e sim pequenos relatos ou colees de 
vistas naturais: a chegada 
dum trem; o Vesvio em erupo; operrios saindo duma 
fbrica... Havia tambm cenas de magia: o homem da cabea de 
borracha, diabos que saltavam de dentro de relgios, 
pessoas que andavam com uma rapidez sobrehumana sobre os telhados... 
Vieram depois fbulas e histrias de fadas: o Chapelzinho Vermelho, o 
Pequeno Polegar, Jack, o 
matador de gigantes. Rodrigo jamais esquecera uma das cenas de A Gata 
Borralheira - aquela em que a abbora se transforma na maravilhosa 
carruagem que levar Cinderela 
ao baile do prncipe.
Doze anos depois, como uma prova de que o cinema atingia a idade adulta, 
ele vira ali mesmo no Santa Ceclia as verses cinematogrficas 
dos Miserveis, de Hugo, 
do Germinal, de Zola, e tivera tambm a satisfao de apreciar 
Sarah Bernhardt na Tosca e \\ A Dama das Camlias. Eram filmes vindos 
de Paris, pois em matria de 
cinematgrafo, como em tudo o mais, a Frana estava sempre na 
vanguarda. Os italianos produziam tambm grandes filmes e eram 
especialmente inimitveis em suas reconstituies 
da Roma do tempo dos csares. Rodrigo assistira emocionado  
exibio de In hoc signo vincis, filme em que aparecia com um 
realismo impressionante a grande batalha 
entre as legies de Constantino, o Grande, e as de Maxncio. Outro 
sucesso da mesma poca fora o Qito vadis, inspirado no romance de 
Sienkiewicz, com suas majestosas
601
 cenas do Coliseu de Roma, onde gladiadores e retirios se 
empenhavam em lutas de morte, e cristos eram lanados s feras. 
Da Itlia tambm vinham dramas 
da vida moderna, em sua maioria histrias escabrosas de amor, com 
cenas duma lubricidade trrida. O pblico que ia s funes de 
cinematgrafo j comeava a guardar 
na memria os nomes de seus atores e atrizes favoritos. Uma das 
vedettes mais apreciadas era Francesca Bertini, formosa e esbelta mulher 
de feies finas, ancas 
escorridas, olhos lnguidos sob plpebras machucadas, e especialista 
em papis dramticos. Seus beijos duravam longos minutos e suas 
agonias (pois os romances daqueles 
filmes italianos terminavam quase sempre em morte) arrastavam-se 
longussimas ao som das valsas lentas batidas precariamente no piano 
pelo escrivo da coletoria. 
Havia outras belas fmeas como a loura Hespria que, para o gosto de 
Rodrigo, era demasiado corpulenta; a Pina Menichelli, de ancas venustas, 
lbios grossos, narinas 
palpitantes, mulher duma sensualidade avassaladora. A predileta de 
Rodrigo, porm, era Leda Gys, de cabelos e olhos escuros, mais 
franzina que suas colegas, e com 
algo de etrusco no rosto moreno. Quanto aos atores, Gustavo Serena 
fizera-se famoso no seu papel de Petrnio, o arbiter elegantiarum do 
Quo vadis. Emlio Ghione 
notabilizava-se em papis de personagens do bas-fond, o apache cujos 
beijos no raro eram rematados por um golpe de punhal. Havia ainda 
Alberto Capozzi, de cara 
descarnada e dramtica. E, talvez o maior de todos, Amleto Novelli, o 
trgico que o cinematgrafo trouxera do teatro.
Uma vez que outra - raros mas seletos - vinham os filmes da Nordisk, de 
Copenhague, cujo principal gal, W. Psilander, comeava a inspirar 
paixes com sua figura 
alta e esbelta de gentleman sempre impecavelmente trajado. (Dizia-se que 
Mariquinhas Matos, a Gioconda, alimentava por ele uma paixo 
platnica e que at lhe escrevia 
cartas.)
As fbricas norte-americanas produziam filmes esportivos, histrias 
de aventuras vertiginosas em que pioneiros e coivboys andavam em 
correrias pelas plancies do 
Far West a caar bfalos e ndios peles-vermelhas. Exploravam 
tambm os batidos temas da Guerra Civil ou ingenuidades como as da 
Cabana do Pai Thomas. A Rodrigo
602
aborrecia esses filmes que sempre terminavam bem, merc dum enredo 
feito de coincidncias absurdas, e que pareciam encerrar uma lio 
de moral, como as fbulas. 
Cheiravam a sermo de pastor protestante e no tinham o realismo e a 
paixo dos dramas da Cines, da Ambrosio e da Pascuali e muito menos o 
refinamento e o valor 
artstico das produes da Path, da Gaumont e da Eclair. Quando 
discutia o assunto, Rodrigo costumava dizer: --  natural que assim 
seja. Os americanos do norte 
so anglo-saxes: ora, ns somos latinos e os filmes que nos 
vm da Frana e da Itlia falam mais diretamente aos nossos 
coraes.
Nenhum brasileiro sensato e de bom gosto podia preferir as palhaadas 
absurdas de Charlie Chaplin - aquela figurinha ridcula, de 
chapu-coco, bigodinho mosca, casaco 
curto, calas largas e sapates descomunais - s finas comdias 
de Max Linder, o perfeito cavalheiro, que sempre trajava fraque, cala 
a fantasia e chapu alto, 
e que era a encarnao mesma do esprit francs. Como poderia o 
bulldog britnico superar em matria de arte o Galo gauls?
Quando a ouverture terminou, da galeria vieram risotas e ditos gaiatos 
em falsete, acompanhados dum simulacro de aplauso cortado de assobios. 
As orelhas do pianista 
ficaram vermelhas.
Apagou-se a luz, ouviu-se um ratat metlico e cadenciado, um feixe 
luminoso irradiou-se da janelinha da cabina de projeo e clareou o 
pano branco. Quando o primeiro 
quadro apareceu - letras claras sobre um fundo negro -, o operador no 
havia conseguido ainda ajustar as lentes do projetor, de sorte que foi 
com dificuldade que 
Rodrigo leu - Jornal Gaumont. Salcede rompeu a tocar um dobrado. A 
primeira cena mostrava a chegada de M. Poincir, na gare de Moscou, 
por ocasio de sua visita 
ao czar NicoLui II da Rssia. O quadro luminoso comeou a tremelicar 
(os inimigos do cinematgrafo afirmavam que aquele pisca-pisca fazia 
um mal terrvel aos olhos), 
a tremelicar com tamanha 
603
intensidade que as imagens ficaram plidas e embaralhadas. Do galinheiro 
partiram assobios, gritos e sapateados. Por fim, quando o treme-treme 
cessou, o pblico pde 
ver com relativa clareza o presidente Poincar no momento em que, de 
cartola em punho, descia do trem e apertava a mo a cavalheiros de 
crois e de uniforme militar. 
Rodrigo teve mpetos de gritar: "Viva a Frana!" A projeo, 
porm, continuava enevoada e as figuras caminhavam e gesticulavam em 
movimentos rpidos e duros, como 
grotescos bonecos de mola. Na cena seguinte, M. Poincar era visto no 
convs dum encouraado russo, passando em revista a tripulao 
formada em sua honra. O terceiro 
quadro mostrava o Exrcito alemo em suas manobras de outono: um 
regimento a desfilar em passo de ganso. E quando o imperador da Alemanha 
apareceu numa cena fotografada 
a curta distncia - o porte marcial, o peito coberto de medalhas, o 
agressivo capacete na cabea altivamente erguida, as mos pousadas 
sobre o copo da espada - todo 
o teatro prorrompeu numa vaia. Rodrigo, que tambm assobiava e batia 
ps, inclinou-se para o camarote dos Fagundes e gritou para o irmo 
Jacques: "Olha s o canalha". 
O mansta exclamou: Sale cochon!
A assuada cessou quando na cena seguinte apareceu um aeroplano a voar ao 
redor da Torre Eiffel. E o jornal terminou com uma corrida de bicicletas 
- o "Circuito de 
Paris".
A luz tornou a acender-se. Tia Vanja, risonha e de rosto afogueado, 
chupava com grande entusiasmo uma de suas balas de ovos. Estava num 
alvoroo meio nervoso: parecia 
uma criana solta numa loja de brinquedos.
O prximo filme era uma comdia - O casamento de Deed - em que o 
heri  perseguido por uma preta, que o obriga a casar-se com ela. O 
resultado da unio  uma srie 
de filhos com raias pretas e brancas, como zebras.
- Uma anedota infantil - murmurou Rodrigo para a mulher.
Achava ridculas todas as comdias de correrias em que Andr Deed 
recebia pasteles de nata em plena cara ou se punha a quebrar pratos e 
a virar cambalhotas como 
um saltimbanco. Mas o povo,
que adorava aquelas palhaadas, ria tanto e to alto que suas vozes 
abafavam os sons das mazurcas, polcas, tangos e habaneras que o pianista 
tocava distrado, com 
os olhos erguidos para a tela e tambm sacudido de riso.
A segunda comdia da noite - Bigodinho e o formigueiro - apresentava o 
famoso M. Prince, ator do Odon e do Varits de Paris, numa 
excurso ao campo com a namorada. 
No momento em que est a fazer-lhe uma declarao de amor, tem a 
infelicidade de sentar-se sobre um formigueiro, e quando as formigas 
comeam a entrar-lhe pelo canho 
das calas, pelas mangas do casaco e a correr-lhe pelo corpo, fica 
to desesperado, que se pe a tirar a roupa. Umas solteironas 
pudicas que passam na ocasio, ficam 
escandalizadas e chamam um gendarme, que leva Bigodinho para a cadeia. 
Por uma feliz coincidncia, a namorada do heri  uma advogada e 
consegue livr-lo da polcia.
Quando a luz se acendeu, Rodrigo voltou-se para o marista e meneou 
lentamente a cabea ao mesmo tempo que fazia uma careta. Queria que o 
outro visse que ele no 
apreciava aquelas infantilidades.
Olhou depois para o camarote dos Amarais e avistou Ernerenciana ainda 
sacudida de riso, os seios arfantes, a mo sobre o corao, a cara 
congestionada.
- Ai, meu Deus! - exclamou tia Vanja. - Agora vem o rico draminha. J 
vou me preparar para o choro...
Ps-se a procurar na bolsa de croch o lencinho rendado, recendente 
a patchuli.
A luz tornou a apagar-se. Apareceram nos primeiros quadros o ttulo do 
drama e os nomes dos intrpretes.
- A Asta Nielsen  uma beleza - murmurou Flora ao ouvido de Rodrigo, 
que lhe acariciava a mo.
- Mas eu gosto  de ti, meu bem.
O escriturrio da Coletoria comeou a tocar uma valsa lenta. E 
quando Asta Nielsen apareceu na tela, muito loura e fina, algum 
gritou em falsete no galinheiro: 
"Mame quero queijo!"
Tia Vanja ficou indignada:
- Que falta de respeito. Logo na hora do drama.
604
605
De sbito ouviu-se um baque surdo seguido dum grito de mulher. Vozes 
altearam-se, confusas e aflitas. Algumas pessoas ergueram-se na 
platia e o pnico comeou 
com exclamaes e atropelos. - Luz! - gritou Cacique, pondo-se de 
p. Outras vozesrepetiram: "Luz! Luz! Luz!" Quando o recinto de novo 
se iluminou, Rodrigo viu uma 
aglomerao no camarote dos Amarais e teve logo a intuio do 
que acontecera. Precipitou-se para l, correndo, quando j algum 
gritava: "Dr. Rodrigo! Ligeiro, pelo 
amor de Deus!" Abriu caminho por meio da multido. "Por favor, me 
deixem passar!
Dona Emerenciana achava-se estendida no cho, de costas, a boca 
entreaberta, os olhos vidrados. O marido, num desespero, sacudiu-a pelos 
ombros, gritando-lhe o nome 
com voz engasgada. As meninas estavam em pranto. Rodrigo afastou 
Alvarino, ajoelhou-se ao p da amiga e no levou muito tempo para 
verificar que ela no tinha mais 
pulso e que seu corao cessara de bater. Acendeu um fsforo e 
aproximou-o dos olhos da matrona: as pupilas estavam dilatadas e no 
reagiam  luz.
No tinha mais nada a fazer.
Quando, havia pouco menos dum ano, Emerenciana Amaral cara gravemente 
enferma, tendo sido desenganada pelos mdicos reunidos em 
conferncia ao p de seu leito 
- Z Pitombo apressara-se a fazer um fino caixo nas dimenses da 
matrona, com gales dourados e belas alas de metal prateado. Como, 
porm, a doente tivesse conseguido 
salvar-se, "Graas a Deus no cu e ao dr. Rodrigo na terra", o 
armador encolhera os ombros filosoficamente, murmurando - segundo o 
testemunho do Cuca Lopes - "No 
morreu? Pacincia. Seu dia chegar. A morte  a nica coisa 
certa que h na vida".
Guardou o esquife. E foi dentro dele que depositaram dona Emerenciana 
naquele sbado de abril, s dez e vinte da noite, na sala de visitas 
do casaro dos Amarais. 
O prprio Pitombo acendeu
606
os crios com lgrimas nos olhos. Chiru Mena, que o observava, 
murmurou para Rodrigo, mal contendo a indignao: "Hipcrita!  
capaz de cobrar tambm essas lgrimas 
de crocodilo quando mandar a conta do enterro".
As caras compungidas, o olhar velado, parentes, amigos e at desafetos 
dos Amarais entravam na ponta dos ps na casa morturia, iam direito 
aos quartos, abraavam 
os membros da famlia, aproximavam-se depois do esquife, contemplavam 
o cadver por breves momentos e, isso feito, ficavam pelos corredores 
e cantos, a pontuar a 
quietude do velrio com murmrios, cochichos, pigarros, suspiros e 
tosses, afundando num silncio contrafeito e cabisbaixo toda a vez que 
as filhas da defunta rompiam 
em acessos de choro ou exclamaes de dor.
Rodrigo andava de quarto em quarto, a atender a gente da casa, a 
ministrar calmantes s mulheres e abraos e palavras de conforto aos 
homens. Aturdido pelo golpe, 
Alvarino Amaral estava deitado na cama do casal, os olhos secos e 
exorbitados fitos no teto, o peito sacudido por soluos convulsivos. 
Deixava-se abraar passivamente, 
e quando algum tentava consol-lo, o mais que conseguia articular 
era: "Que barbaridade... que barbaridade..."
Quando se ouviram as badaladas da meia-noite, Rodrigo teve a impresso 
de que o velho relgio do casario batia-lhe no peito, ecoando 
doloridamente nas paredes do 
crnio. Ah, como ele detestava todo aquele cerimonial da morte: seus 
aspectos, cheiros, gestos, convenes... Queria ach-lo 
ridculo, antiquado, medieval, mas na 
realidade a coisa toda o comovia e ao mesmo tempo atemorizava. Havia 
pouco desmanchara-se em pranto ao ver a mais moa das filhas de dona 
Emerenciana a rolar em 
cima da cama, gritando num desespero: "Mezinha, no me deixe, por 
amor de Deus, no v embora!" Estava deprimido, com um aperto no 
corao, o corpo quebrado por 
uma sensao de frio que no era apenas da epiderme, mas tambm 
das entranhas, dos ossos. Desejava que um novo dia raiasse, o sol 
tornasse a brilhar, a morta fosse 
sepultada e a vida retomasse o passo normal. Aquele cheiro de cera 
derretida que impregnava o ambiente, mesclado com a fragncia das 
flores, levava-o de volta a 
outro velrio, numa noite de 1898, e ele tornava a sentir
607 
com esquisita pungncia sua tristeza pela perda da me e ao mesmo 
tempo o seu horror ao imaginar que ela ia ser fechada para sempre no 
mausolu da famlia - ela, 
to frgil, to meiga, to triste... > Os senhores de preto iam 
lev-la para o cemitrio... Ah! Mas o culpado de tudo era o velho 
Pitombo, o desenterrador de defuntos, 
aquele homem hediondo que estava encolhido num canto da sala, esperando 
a hora de fechar o caixo. E o pior  que iam fazer aquilo com a 
cumplicidade de seu pai, 
que chorava mas no dizia nada, ia permitir que levassem para sempre a 
sua mulher... Como ele odiara o pai naquela noite!
Rodrigo entrou na cmara ardente. Envolta numa mortalha negra, 
Emerenciana Pereira do Amaral jazia no seu esquife, coberta de flores 
at o peito. As chamas dos crios 
lanavam-lhe mveis reflexos rosados no rosto de cera, 
acentuando-lhe as sombras. Por alguns instantes o nico som que se 
ouviu ali na sala foi o da voz cavernosa 
de Srgio, o lobisomem, que rezava com um rosrio nas mos, ao 
p do atade.
Ao redor da defunta, a acotovelarem-se com o intendente de Santa F, 
com o juiz de comarca, o coletor federal, o promotor pblico e membros 
das famlias Macedo, 
Prates, Teixeira e Fagundes, estavam os negros e negras da cozinha do 
casaro, muitos dos quais eram filhos, netos e bisnetos de escravos. 
Entre eles viam-se mulatos 
e caboclos em cujos rostos se percebiam nitidamente traos da 
famlia Amaral. O peito convulsionado de soluos, chorando e 
fungando, uma negrinha de onze anos, que 
Rodrigo muitas vezes encontrara a fazer cafun em dona Emerenciana, 
agarrava as bordas do caixo com as mos pretuscas, o rosto 
contorcido numa expresso de dor, 
as faces lavadas de lgrimas, e na ponta dos ps esforava-se por 
ver o rosto da defunta.
Rodrigo sentiu que lhe seguravam o brao. Voltou a cabea e viu tia 
Vanja, que se aconchegou a ele, com o leno no nariz, os olhos 
midos.
- Que calamidade, meu filho... - murmurou ela, olhando para o caixo. 
E com doura, quase a sorrir, acrescentou: - Coitadinha da 
Emerenciana, no vai poder ler o 
fim da Toutinegra do moinho...
608
Rodrigo sorriu mas no pde evitar que as lgrimas lhe viesse aos 
olhos. Bateu de leve na mo da amiga numa carcia em silncios
Gente continuava a chegar. Salomo, o alfaiate, todo vestido de preto, 
deps um ramo de violetas sobre o cadver. O dr. Matias aproximou-se 
do rosto da morta, como 
se fosse dizer-lhe algum segredo, enxugou disfaradamente uma lgrima 
e depois tirou um chumao de fumo da bolsa de borracha e ps-se a 
enrolar um cigarro. Liroca 
saiu do seu canto e acercou-se de Rodrigo.
- Um federalista dos quatro costados. Gente antiga, de boa cepa. - 
Deixou escapar um suspiro. - Mundo velho sem porteira!
Pouco depois entrou o dr. Cario Carbone. Ajoelhou-se ao p do 
atade, tranou as mos, abaixou a cabea, cerrou os olhos e 
ficou a rezar por alguns instantes. Ergueu-se, 
fazendo o sinal-da-cruz e, ao avistar Rodrigo, soltou um ah! musical e 
encaminhou-se para ele. "
Uma laparotomia fortunatssima! Terminei faz poucos minutos. O 
paciente  de Garibaldina, um bravo jovem. Sabe onde est agora a 
Santuzza? Lavando o cho da sala 
de operaes. Guarda que gerenta!
Lanou um olhar para a morta.
Mas que catstrofe! Uma dama virtuosssima. Uma vera catstrofe!
Saiu na pontinha dos ps na direo do quarto do casal.
As duas da madrugada a maioria das pessoas havia j deixado a casa dos 
Amarais. Ficaram apenas os que estavam dispostos a fazer a viglia da 
noite; No eram nem 40 os 
parentes e amigos mais chegados da famlia como tambm os 
"aficionados" de velrio, gente que tinha certo prazer em passar a 
noite em claro ao p dum defunto e que 
para isso dispunha por assim dizer duma tcnica especial.
A atmosfera do casaro como que se desanuviou. Cuca Lopes tomou o 
comando do velrio, formou uma roda na sala de jantar
609
e comeou a contar histrias. Algum tempo depois foi  cozinha 
sugerir que servissem nova rodada de caf bem forte, insinuando 
tambm que j era hora de obsequiar 
os presentes com algo de slido.
Chiru Mena organizou no escritrio de Alvarino uma roda de truco que 
aos poucos se foi animando de tal modo, que em breve os parceiros 
pareciam esquecidos do lugar 
e das circunstncias em que se encontravam. Houve um instante em que o 
vozeiro de Chiru encheu jovialmente a casa, anunciando que "tinha 
flor":
Dona Manuela Contrera A su hijo Manuel escribe, Mandando decir que vive 
Como flor en Ia tapera.
Rodrigo apareceu  porta do escritrio e fez chi!
Na cozinha comeou o tero, puxado pelo negro Srgio: e o coro 
roufenho invadiu a casa, doloroso, arrastado, funreo. Os jogadores de 
truco aplacaram-se. O choro 
recomeou nos quartos. Eram coisas como aquela - refletiu Rodrigo - 
que tornavam a morte ainda pior e mais negra do que era...
De mistura com as vozes dos negros comeou a vir da cozinha um cheiro 
de frituras. Esfregando as mos, Cuca Lopes saiu a comunicar aos 
presentes que estavam fritando 
os famosos sonhos de dona Emerenciana, preparados segundo uma receita 
antiqussima que passara de me para filha, atravs de muitas 
geraes.
Rodrigo achava brbaro comer na presena dum cadver. O cheiro de 
fritura misturado com o de vela queimada e flor era-lhe ofensivo  
sensibilidade. Teve um sbito 
desejo de ar livre. Segurou o brao do padre Astolfo, que at 
ento andara de Amaral em Amaul tentando convenc-los de que a morte 
no era o Fim mas o Pruicpio:
- Vamos tomar um pouco de ar l fora, padre.
Caram, atravessaram a rua, ganharam a calada da praa, sobre a 
qual ficaram a andar lentamente. O ar da madrugada estava picante. No 
havia lua, mas as estrelas 
cintilavam no cu dum azul
610
fosco de tinta de escrever. Cachorros latiam em ruas longnquas e um 
que outro galo amiudava.
Ambos acenderam os cigarros em silncio e, sempre calados, continuaram 
a andar e a pitar. Ao passarem pela frente da igreja, Rodrigo falou.
- Padre, estive olhando para aquela gente amontoada em roda do caixo 
de dona Emerenciana e pensando umas coisas engraadas...
O vigrio continuou calado, com o cigarro preso entre os lbios, as 
mos s costas, esperando que o outro continuasse.
- Negros descendentes de escravos, mulatos, ndios, caboclos... Gente 
miservel do Barro Preto e do Purgatrio, pobres-diabos descalos, 
molambentos e cheirando 
mal... E tambm fazendeiros ricos, com boas roupas e boas botas... E 
tipos como o Lunardi e o Spielvogel, cujos antepassados nasceram na 
Europa, em terras distantes. 
Pois bem. Comecei ento a perguntar a mim mesmo se essa coisa que se 
chama vida tem um sentido, uma finalidade, ou se todos ns no 
passamos de simples fantoches 
nas mos dum manipulador que se diverte  nossa custa.
O padre sorriu mas no disse nada. Passavam agora pela frente da 
Intendncia, em cuja cpula estava pousada uma ave noturna.
- s vezes - prosseguiu Rodrigo - tenho a impresso de que Deus, o 
movedor inamovvel,  um jogador de xadrez e ns somos as pedras. 
Uns poucos reis, rainhas, bispos 
e torres, mas uma infinidade de pobres pees. Ele joga apenas para se 
distrair e, a fim de tornar o espetculo mais divertido, d-nos a 
iluso de que ns  que nos 
movemos por vontade prpria... Agora! Nossa tendncia  acreditar 
que Ele nos move com algum propsito certo e que o jogo todo tem um 
grande sentido.
O padre deu um puxo na prpria orelha. Dirigiram-se ambos para a 
figueira, e s depois de se haverem sentado no banco, sob a grande 
rvore,  que o sacerdote tomou 
a palavra:
- A imagem no deixa de ser curiosa, mas no  exata. A coisa toda 
 sria demais para se lhe dar o nome de jogo. Est claro que Deus 
tem um propsito com relao 
ao mundo e s suas criaturas. E no devemos esquecer que as pedras 
do xadrez tm vontade
611
prpria, um intelecto que as capacita a escolher entre o bem e o mal. 
Enfim, se o amigo quiser insistir em usar a imagem do jogo de xadrez, 
poderemos dizer que 
as regras do Grande Jogo esto contidas nos ensinamentos da Santa 
Madre Igreja, e quem as seguir ganhar na certa...
Rodrigo olhou na direo da casa dos Amarais.
- Vou lhe contar uma coisa, padre, que lhe dar uma idia de como 
sou preso aos prazeres deste mundo, por menores que sejam. Tia Vanja me 
disse l no velrio que 
foi uma pena dona Emerenciana morrer sem ter visto o final do folhetim 
do Correio do Povo. Acho que a velhinha no disse nenhuma tolice. 
Viver  bom por causa duma 
srie de coisas grandes e pequenas entre as quais est tambm a de 
ler a Toutinegra do moinho. A idia da morte me  to 
desagradvel que nem a certeza de ganhar 
o cu me faria encar-la com menos horror.
- E o senhor j pensou alguma vez na morte... quero dizer, a srio, 
como uma coisa que lhe pode acontecer a qualquer momento, amanh, 
depois... agora?
- No. Para falar a verdade, tenho a impresso de que morrer  
coisa que no pode acontecer a mim, Rodrigo Cambar.
- Espere a casa dos quarenta... - murmurou o padre, atirando longe o 
cigarro.
- Por que diz isso, se ainda no chegou aos trinta e quatro?
- Falo com a experincia alheia. Ao chegar aos quarenta o homem 
torna-se inquieto, faz a si mesmo perguntas ansiosas, reexamina os seus 
valores morais.  a fase 
da vida em que comea a pensar na velhice que se. aproxima e 
conseqentemente na morte e em Deus...
Rodrigo sorriu.
- Sempre ouvi dizer que na casa dos quarenta os homens perdem a cabea 
e saem a coner atrs das mulheres.  que, voltando-se pra trs, 
ficam assombrados por verem 
o tempo que perderam e, olhando para a frente, compreendem que tm 
poucos anos de vigor viril, e toca a aproveitar enquanto podem.
- Exatamente. Esse  o caso da estpida maioria. Entre o tempo e a 
eternidade escolhem o tempo, que lhes parece mais 
612
prximo e certo, e atiram-se aos prazeres carnais. Mais tarde, velhos e 
doentes, quando o corpo de nada mais lhes vale, eles o hipotecam  
Igreja, procurando trocar 
uma carcaa perecvel pelo tesouro da vida eterna. Muitos deixam o 
anependimento para ltima hora. Pensam assim: Deus deve ser um bom 
sujeito, um papai bonacho 
sempre disposto a perdoar. Mas, quando menos esperam, o Anjo da Morte se 
interpe entre eles e o sol... e adeus! A  tarde demais. Rodrigo 
olhava para as janelas 
iluminadas do casaro dos Amarais, arrependido j de ter provocado 
aquele assunto. O sacerdote, entretanto, prosseguiu:
- s vezes a sombra do Anjo se projeta no nosso caminho, e ns nos 
recusamos a compreender o aviso, dizemos que  apenas uma nuvem que 
cobriu o sol, e continuamos 
a andar, esquecidos de Deus.
Rodrigo ps-se assobiar baixinho, como se no estivesse escutando 
o que o outro dizia.
Um blide riscou o cu. Chegavam ainda at eles as vozes dos 
negros, que continuavam no tero.
- Lembra-se da doena que quase matou dona Emerenciana h coisa dum 
ano? - perguntou o vigrio. - Depois disso ela se preparou para 
morrer. Confessava-se e comungava 
todas as semanas. Esta noite, ao erguer os olhos para a face do Anjo, 
sua alma estava limpa de pecados.
Houve uma curta pausa. Rodrigo procurou desconversar:
- O dr. Carbone me disse que fez hoje uma "laparotomia 
fortunatssima". - Soltou uma risada falsa. - Laparotomia... No 
acha que essa palavra foi feita especialmente 
para ser pronunciada pelo italiano com aquela bela voz de queijo 
derretido e massa, temperada de manjerona e nadando em leo de oliva?
A mo do padre pousou leve no ombro de Rodrigo.
- H muito que estou para lhe falar neste assunto, mas no tenho 
encontrado oportunidade. Acho que a hora  propcia. Por amor de 
Deus, no se ofenda nem me julgue 
um intrometido. Afinal de contas, alm de ser um sacerdote, sou 
tambm seu amigo e admirador...
613
Levantou-se num movimento brusco e comeou a puxar furiosamente o 
lbulo da orelha: um ginasiano perplexo diante dum problema de 
matemtica.
- Sua vida tem sido at agora um rosrio de triunfos, uma estrada 
atapetada de rosas e batida de sol. Mas no pense que isso vai durar 
sempre. Ora, se um dia vai 
ter de fazer uma reviso completa de valores e procurar o amparo da 
Igreja, por que no comea agora? Olhe,  melhor,  mais 
fcil...
Rodrigo pensava no rosto de cera da defunta. Imaginou-se a si mesmo 
dentro dum esquife, coberto de flores. Vou pedir a Flora - decidiu - que 
quando eu morrer no 
deixe ningum ver meu rosto. Botem um leno em cima. Ou fechem logo 
o caixo e no o abram mais.
- Est claro - continuou o sacerdote - que no plpito, falando para 
essa gente de poucas letras, tenho de simplificar os problemas da alma, 
da f e da vida eterna, 
falar em cu e inferno, em castigo e recompensa. O povo  criana. 
Mas a coisa toda no  to simples assim. Olhe, leia os 
pensamentos de Pascal. Vou lhe emprestar 
o meu exemplar...
Calou-se. Rodrigo acendeu outro cigarro. O tero havia cessado. Agora 
as nicas vozes da noite eram o trilar dos grilos e um que outro 
cantar de galo. Astolfo comeou 
a andar dum lado para outro, dentro da zona de sombra que a figueira 
projetava no cho. De repente parou diante do amigo e segurou-lhe os 
ombros com ambas as mos.
- Deus  uma coisa muito sria, meu querido amigo, muito sria!
Rodrigo encolheu-se todo, num sbito calafrio. Levantou-se.
- Estou ficando gelado, padre. Deve ser o ar da madrugada... Vamos at 
o Sobrado, tomar um traguinho de conhaque.
614
IV
Durante as ltimas semanas de abril, Rodrigo acompanhou com apaixonado 
interesse, atravs dos jornais, o desenvolvimento da batalha de Ypres, 
e quando um telegrama 
urgente anunciou ao mundo que os alemes haviam empregado nuvens de 
gases asfixiantes contra tropas canadenses e argelinas, sua 
indignao foi tamanha, que ele teve 
mpetos de sair para a rua e quebrar a cara do primeiro alemo que 
encontrasse. Precipitou-se para o telefone, pediu o nmero do quartel 
do regimento de infantaria, 
chamou o coronel Jairo e, depois de p-lo ao corrente do monstruoso 
acontecimento, comentou:
-  o cmulo da barbrie. Gases asfixiantes! Dizem os telegramas 
que a tortura fsica produzida por essas nuvens  dantesca. Os 
soldados caem sufocados, alguns at 
vomitando pedaos dos pulmes... uma coisa medonha!
Da outra extremidade do fio o positivista soltava tambm 
exclamaes de horror.
- Venha logo de noite ao Sobrado, coronel. Preciso desabafar com 
algum, seno rebento. Olhe, at estimo que o Rubim j tenha ido 
embora, porque se nos encontrssemos
hoje e ele quisesse justificar mais esse banditismo dos boches, acho que 
eu perdia a pacincia e a coisa acabava em briga!
Por aqueles dias chegavam tambm notcias da campanha submarina em 
que os alemes, sem aviso prvio, punham a pique navios mercantes e 
de passageiros no s das
naes inimigas como tambm das neutras. No princpio de maio os 
jornais trouxeram
615
um comunicado revoltante: um submarino alemo torpedeara em guas 
da Irlanda o transatlntico Lusitnia, causando a morte de
1153 passageiros! Ao ler a notcia, Rodrigo ficou tomado duma fria 
indignada: deixou o Sobrado de bengala em punho, disse um mundo de 
desaforos ao Otto Spielvogel, 
que encontrou a soltar gargalhadas  frente da Casa Schultz, e 
ameaou:
- Bandidos! Vocs todos deviam ser capados para acabar com essa raa 
maldita. Enquanto existir um alemo na face da terra a humanidade 
no poder viver em paz
Espantado, Spielvogel no reagiu: recuou na direo da parede da 
casa, limitando-se a murmurar: "Mas doutor... mas doutor...
A cena atrara curiosos, o que deixou Rodrigo ainda mais exaltado. 
Vendo na vitrina da loja do Schultz uma tricromia do Kaiser, no se 
conteve: ergueu a bengala 
e f-la descer com toda a fora contra o vidro, partindo-o. E para o 
dono da casa, que apareceu  porta no momento em que ele arrebatava o 
retrato da vitrina e rasgava-o 
em muitos pedaos, vociferou:
- No me exponha mais a cara desse bandido,  Schultz, seno eu 
mando prender fogo nesta pocilga, ests ouvindo, lambote?
Dito isto, fez meia-volta, deu alguns passos, e, sem olhar para trs 
gritou: "Me mande a conta dos prejuzos, que eu pago". E, vermelho, o 
ritmo da respirao alterado, 
as narinas dilatadas, um formigueiro no corpo todo, caminhou uma quadra 
inteira com passo duro. Ao chegar  praa tinha-se-lhe arrefecido um 
pouco a fria e ele 
comeava quase a envergonhar-se do papelo que fizera diante de 
tanta gente. Mas, que diabo! o que me corre nas veias  sangue e no 
limonada. Algum tem de jogar 
bruto com esses boches, seno amanh eles querem tomar conta do 
Brasil. O que fiz est muito bem-feito. Ento, j se viu? 
Torpedearem um navio de passageiros sem 
aviso prvio... Quase mil e duzentos mortos, diz o jornal. Mulheres, 
crianas, velhos... O maior crime da Histria! Uma vergonha para a 
raa humana!
Quando, dias depois, Flora o convidou para irem ao teatro assistir ao 
espetculo da Philharmonische Familie, uma famlia de msicos 
austracos que percorria a Amrica 
do Sul dando concertos, Rodrigo replicou:
616
- No vou. No quero saber de nada com esses boches. Flora olhou 
para Maria Valria, que encolheu os ombros como
quem diz: "Que  que vou fazer?"
- Mas Rodrigo...
- No tem funfum nem fole de ferreiro - replicou ele, fazendo um gesto 
cortante para encerrar a discusso. - Guerra  guerra. A 
ustria-Hungria  aliada da Alemanha. 
Se a populao de Santa F tivesse um pingo de vergonha na cara, 
ningum ia ao espetculo e essa alemoada morria de fome!
- Est bem - disse Flora, entre amuada e irnica. - Est bem. 
No precisas brigar comigo. Sou brasileira puro-sangue.
Caindo em si, Rodrigo enlaou a cintura da esposa e beijou-lhe os 
cabelos.
- Eu sei que tu e a madrinha acham que sou um exagerado, um apaixonado. 
Mas no ... Nessa guerra da civilizao contra a barbrie, 
no pode haver dois pesos e duas 
medidas.
- Mas tu precisas compreender que essa pobre gente nem estava na 
ustria quando a guerra rebentou...
- Se quiseres, podes ir, meu bem. Convida a Dinda e a tia Vanja... 
Porque eu no vou.
Flora deixou escapar mansamente um suspiro, sorriu e replicou que no 
iria, porque afinal de contas a coisa toda no tinha nenhuma 
importncia.
Quando Rodrigo deixou a sala, Maria Valria tranqilizou a outra:
- No faa caso do que ele disse. Aposto como amanh ele bota 
esses burlantins pra dentro de casa.
No dia seguinte a Famlia Filarmnica era o assunto obrigatrio em 
quase todas as rodas de Santa F. O teatro estivera completamente 
cheio na primeira noite e o 
espetculo fora um sucesso. Os espectadores afirmavam com unanimidade 
que, alm de msicos consumados, os austracos eram pessoalmente 
simpaticssimos. Herr
617
Weber tocava violino, clarineta e flauta. Frau Weber, piano e 
rgo. O jovem Wolfgang, alm de admirvel tocador de cordeona, 
era um prodgio no xilofone. E os 
moos da terra estavam positivamente entusiasmados ante a beleza e a 
graa de Fraulein Weber, que tocava violoncelo e obo.
Pela manh, ao sair para o consultrio, Rodrigo j comeou a 
ouvir elogios  Philharmonische Familie. O primeiro partiu do Pitombo, 
que, ao avist-lo, atravessou 
a rua e veio dizer-lhe com os olhos pegajosos de emoo:
- Que beleza, doutor! Que coisa sublime! Nunca vi orquestra melhor em 
toda a minha vida. Quando fechei os olhos na platia, tive a 
impresso que estava no reino 
dos cus, escutando os anjos.  bem como diz o poeta, a msica  
o idioma dos deuses.
Cuca Lopes atacou-o  entrada da farmcia. J sabia coisas sobre 
os Weber. Eram naturais de Viena, vinham percorrendo o Brasil desde 
Belm do Par e estavam a caminho 
do Prata. Achavam-se hospedados no Hotel dos Viajantes e davam-se mal 
com a comida. Dizia-se que o velho sofria do estmago e s se 
alimentava de leite e frutas. 
A Frau, ah! essa gostava de cerveja e era muito alegre. O rapaz tinha um 
jeito suspeito, meio adamado. A moa era linda como uma estampa, e os 
machos da terra j 
andavam assanhados.
Rodrigo no lhe disse palavra. Continuava no seu boicote psicolgico 
 famlia austraca, embora sem nenhum rancor.
Na farmcia, o Gabriel contou-lhe que estivera no teatro e que chorara 
ao ouvir a Serenata de Schubert tocada pela mocinha.
Rodrigo entrou no consultrio, sentou-se  mesa e dali ficou a 
olhar, atravs da janela aberta, um trecho da praa. Andava no ar 
parado esse olor seco e matinal 
de bruma tocada de sol. O cho sob os pltanos estava juncado de 
folhas amarelentas. Ls sanglots longs dos violam, l 1'nutomne... 
No. Estava errado. O instrumento 
cuja voz mais sugeria o outono era o violoncelo. Tinha mais profundidade 
que o violino, um acento mais humano, uma tristeza serena e digna que 
to bem se casava 
com a languidez da atmosfera e com sua luz de mbar. Aqueles dias de 
maio pareciam encher as criaturas duma dormncia gostosa que as 
predispunha  pacincia,
618
a uma certa ternura meio sonolenta e esquisitamente melanclica. Eram 
manhs e tardes em que - mistura de ouro e violeta - paiiava no ar uma 
nvoa que parecia amortecer 
todos os sons e acalentar todos os desejos, de sorte que a gente ficava 
com a impresso de andar fsica e espiritualmente envolta em paina. 
Era como ele, Rodrigo, 
se sentia agora: com o esprito acolchoado em paina; nenhum atrito de 
idias, nenhum conflito interior ou exterior. Abriu a boca nurn bocejo 
cantado. Com uma tnue 
sombra de aborrecimento pensou nos clientes que teria de atender dentro 
em breve - malcheirosos, tristes e duma fealdade encardida e vil. Ouviu 
uma batida  porta, 
que se entreabriu devagarinho. A cabea do dr. Cario Carbone apontou 
na fresta.
- Se pode?
- Ah! Entre, doutor.
O cirurgio entrou, com o avental branco todo manchado de sangue. 
Acabava de sair da sala de operaes e trazia nas mos uma cubeta.
Rodrigo ergueu-se e caminhou para o colega.
- Que  que traz a?
- Uma vera beleza. Guarda.
Mostrou-lhe a cubeta dentro da qual um rim humano boiava num lquido 
viscoso laivado de sangue.
- Opa! - exclamou Rodrigo, franzindo o nariz e a testa.
- Donde saiu isso?
- Dum colono de Nova Pomernia. Um tumor. O paciente  morto.
E mostrava com o dedo "l belle ramificazioni". Sorria. Dava a 
impresso dum ogre que trazia nas roupas o sangue ainda quente da 
criana que acabara de devorar.
- Mas o senhor entrou aqui s pra me mostrar esse rim?...
- sorriu Rodrigo. - O doutor sabe que no preciso de aperitivos...
- Ah! - fez o outro, dando uma palmada na testa. Deps a cubeta sobre 
o bureau, pegou o telefone, deu-lhe
manivela, pediu ao centro um nmero e, enquanto se fazia a 
ligao, ele olhava para o amigo com uma expresso diablica.
619
- Pronto! Sei tu, Santuzza, guarda, carina, me fai a colazione rognoni 
alia griglia, capito? Eh! Ma no! Tutto bene. A mezzogiorno. Tanti baci. 
Ciao!
Carbone largou o telefone, tornou a apanhar a cubeta e acercou-se de 
Rodrigo, que recuou um passo.
- Por que no foi ao teatro ontem?
- Ora, acontece que...
O italiano no esperou a explicao:
- Um espetculo divino! - cantarolou.
E derramou-se em elogios  Famlia Filarmnica. Fazia muito que 
no ouvia to boa msica nem via to brava gente. Herr Weber 
parecera-lhe um gran maestro, Frau Weber, 
um contralto de Ia pi pura scuola e Ia ragazza - aqui o cirurgio 
estralou os lbios num simulacro de beijo - ah, Ia Fruleiji tinha 
um rosto belssimo que lembrava 
o das madonas de Botticelli.
Rodrigo, porm, relutava em deixar-se seduzir.
- As madonas de Botticelli no so o meu gnero.
- Mas a msica, carino, a msica!
- Prefiro a do meu gramofone.
Carbone aproximou perigosamente a cubeta do peito de Rodrigo, que deu 
mais um passo  retaguarda;
- O gramofone? - exclamou o operador. - Aquilo no passa de msica 
em conserva, ao passo que a dos Weber era palpitante, viva, tinha o 
calor da presena fsica dos 
artistas que a produziam.
Rodrigo tornou a sentar-se, para colocar o bureau entre si e aquele 
repugnante rim humano.
- Pra lhe falar com toda a sinceridade, resolvi no tomar
conhecimento dessa famlia - explicou sem muita convico.
Estou revoltado com o torpedeamento do Lusitnia e com todos os outros 
crimes que os alemes esto cometendo nesta guerra. Afinal de contas 
os Weber so austracos, 
aliados do Kaiser.
Carbone sorriu, e quando seus lbios vermelhos se abriram, pondo  
mostra os dentes midos e as gengivas rosadas, Rodrigo teve a 
impresso de ver partir-se uma rom 
madura.
620
- Mas a arte no tem ptria, carino, a arte  universal e eterna!
O outro sacudia a cabea, numa fraca negativa. Comeava j a 
sentir uma certa curiosidade por aquela famlia vienense que os ventos 
do destino haviam soprado para 
Santa F. Depois, como era possvel odiar algum ou alguma coisa 
num dia de maio?
Cario Carbone continuava a falar, e sua voz melodiosa enchia o 
consultrio. Rodrigo odiava a Alemanha? Pois quebrasse ento todas 
as chapas que continham composies 
de Beethoven e Schubert, queimasse todos os livros de Goethe, Schiller, 
Heine...
Rodrigo quis ainda replicar, mas Carbone deteve-o com um gesto e entrou 
a cantar em surdina uma das canes de Schubert que Frau Weber 
interpretara na vspera. Rodrigo 
contemplava aquele homnculo de roupas ensangentadas a cantar em 
alemo - lngua que nada tinha a ver com sua voz quente, redonda e 
doce - enquanto suas mos apertavam 
a cubeta, e uma lgrima lhe brotava no canto do olho e rolava pela 
face. Quando ele se calou, Rodrigo disse:
- Estou desconfiado de que o senhor  empresrio dos Weber e o que 
quer  me vender um camarote...
- Mas no! - exclamou o italiano, tirando do bolso e jogando sobre a 
mesa um papelucho cor-de-rosa. - Tenho este camarote para hoje e 
requesto ao sgnore dr. Rodrigo 
e sua signora o prazer e o honor da vossa companhia esta ser...
A primeira parte do programa da Famlia Filarmnica naquele segundo 
espetculo foi dedicada a canes folclricas do Ti rol e da 
Baviera. Rodrigo ficou vagamente 
irritado ao ver ali na plateia do Santa Ceclia o rubicundo entusiasmo 
dos alemes e teuto-brasileiros, que no s apreciavam as melodias 
como tambm, por entenderem 
a letra das canes, soltavam grandes risadas s suas passagens 
humorsticas, e, ao fim de cada uma rompiam em aplausos ruidosos, 
quase sempre pedindo bis. A verdade 
era que desde o primeiro
621
nmero se estabelecera uma to forte corrente de simpatia entre os 
artistas e o pblico, que Rodrigo teve a sensao de que a 
prpria atmosfera fsica do teatro 
se aquecera e de que os Weber no se encontravam num palco e sim numa 
das salas de sua residncia, em Viena, no incio dum tranqilo 
sero musical.
Herr Weber era um homem de estatura mediana, basta cabeleira alourada, 
olhos muito claros e um jeito distrado e abandonado de professor. Ao 
erguer-se o pano, entrara 
no palco bisonho e desajeitado e Rodrigo tivera a impresso de que o 
homem no sabia que fazer com as mos. Frau Weber, porm, pareceu 
mais  vontade diante do pblico. 
Baixinha, bem fornida, seguira o marido em passadas decididas, quase 
marciais, e, quando os aplausos comearam, seu sorriso se alargara, 
pondo-lhe  mostra os belos 
dentes brancos e parelhos, e seus olhos pareceram ganhar mais fulgor, ao 
mesmo tempo que uma vermelhido lhe cobria as faces, as orelhas e o 
pescoo. O jovem Wolfgang, 
vestido dum modo demasiadamente infantil para seus presumveis dezoito 
anos, fizera uma curvatura rpida e rgida de autmato e depois 
quedara-se, srio e imvel, 
os olhos postos num ponto indefinvel do espao,  espera de que 
os aplausos cessassem. A ateno de Rodrigo, porm, desde logo se 
concentrara em Toni Weber, que 
estava vestida de branco e trazia laarotes de fita azul nas pontas 
das tranas - o que lhe dava um ar comovedor de colegial.
O dr. Carbone estava enganado. A Frulein no tinha a cara 
rechonchuda das madonas de Botticelli cujas bocas em geral pareciam 
estpidos botes de rosa. Sua face 
era dum perfeito oval e os olhos claros duma tonalidade que Rodrigo de 
longe no podia discernir. Entretanto, o que mais o fascinava naquele 
rosto emoldurado por 
cabelos castanhos com reflexos de bronze, eram os zigomas levemente 
salientes e a boca rasgada de lbios polpudos e sugestivos.
- Guarda que maravilha! - murmurou o dr. Carbone.
- A menina  uma belezinha... - sussurrou Flora, voltando a cabea 
para o marido.
- No  feia... - respondeu este, com fingida indiferena. Na 
segunda parte os Weber evocaram a Viena da opereta,
tocando valsas e pot-pourris, com um gosto e uma alegria 
622
contagiantes. Quando o jovem Wolfgang interpretou ao xilofone alguns trechos 
de Offenbach e Strauss, acompanhado pela me ao piano e pelo pai ao 
contrabaixo, o pblico 
aplaudiu freneticamente e um dos Spielvogel chegou a erguer-se na 
platia para gritar bis. Rodrigo tambm aplaudiu. J naquela 
altura do concerto no s se declarava 
vencido e convencido como tambm enternecido por aquela esplndida 
famlia de msicos.
Durante o segundo intervalo, o dr. Carbone trouxe o padre Astolfo da 
platia para o camarote. Inclinada sobre Flora, Santuzza deixava 
transbordar sobre ela todo 
o seu entusiasmo e fazia planos de convidar os artistas para uma 
macarronada em sua casa. E o sacerdote, que tambm estava encantado 
com o espetculo, contou que 
havia sido procurado naquele dia pelos Weber.
- So catlicos! - revelou com alegria. - Vo  missa e 
comungam!
Os olhos do dr. Carbone estavam empapados de ternura. Rodrigo queria 
saber mais coisas sobre a vida dos austracos.
O padre contou que o filho mais velho do casal estava na guerra e que, 
numa localidade de So Paulo, durante um espetculo da Famlia, um 
grupo de aliadfilos provocara 
uma tremenda vaia, chegando ao ponto de atirar nos Weber ovos podres e 
tomates.
- Canalhas! - exclamou Rodrigo, indignado. - Onde est a nossa 
tradio de hospitalidade? Que idia essa gente vai fazer de nossa 
educao e de nossa cultura? Precisamos 
prestigiar essa famlia.
Flora lanou-lhe um olhar pasmado.
A terceira parte do programa era composta de msica sria. Quando 
Herr e Frau Weber tocaiam o adgio da Sonata de Kreutzer, Rodrigo 
sentiu que de repente a atmosfera 
perdia um pouco de seu calor e nas faces da maioria dos espectadores se 
ia estampando lentamente uma expresso de quase impaciente 
aborrecimento, e,  medida que 
a sonata se prolongava, as pessoas comeavam a remexer-se nas cadeiras 
e algumas bocas se abriam em maldisfarados bocejos. Num dado momento, 
um rato atravessou 
o fundo do palco e essa inesperada nota cmica, que provocou risinhos, 
contribuiu um pouco para aliviar a tenso ambiente criada por
623
Beethoven. Quando a pea terminou, os aplausos foram fortes mas 
breves.
Wolfgang tocou na flauta um Romance de Schumann. A seguir, Toni apanhou 
o obo e postou-se ao lado do piano. Quando levou o bocal do 
instrumento aos lbios, ouviram-se 
risos abafados na platia. Rodrigo teve gana de gritar: "Silncio, 
bagualada!" Jamais se vira em Santa F uma mulher tocar qualquer 
instrumento de sopro. Para aquela 
gente, os nicos instrumentos decentes recomendveis a uma moa de 
famlia eram o piano, o violino e o bandolim.
A voz pastoral e merencria do obo comeou como que a riscar um 
sereno desenho no ar. Era um trecho do Oratrio da Pscoa, de Joo 
Sebastio- Bach. Rodrigo teve 
a sensao de que o erguiam da cadeira, deixando-o em levitao. 
Aquela melodia pura, duma tristeza profunda mas sem desespero, 
despertava nele ecos misteriosos, 
saudades inexplicveis. Tinha a intuio de que j ouvira, 
sentira, amara e at tocara numa outra vida muito remota e numa outra 
paisagem igualmente perdida... Sim, 
ele tambm achava um nadinha ridculo uma moa soprar naquele 
instrumento. Sentia para com aquela menina de ar to inocente uma 
certa piedade mesclada de ternura 
e ao mesmo tempo de um desejo lbrico que procurava exorcizar, 
indignado consigo mesmo, pois tanto a msica como a intrprete 
deviam inspirar-lhe sentimentos e pensamentos 
puros. No entanto, a coisa era superior s suas foras, pois seu 
olhar estava poderosamente preso aos lbios de Toni, que se 
pregueavam, carnudos e mveis, em torno 
do bocal do obo. Fechou os olhos. Foi pior, porque a Toni de seus 
pensamentos estava completamente despida  beira da sanga do Angico, e 
a voz de Bio misturava-se 
com a melodia de Bach, esta a elevar Rodrigo para o cu, rumo das 
estrelas, a outra a arrast-lo para a grama e a insinuar libidinagens.
Abriu os olhos e focou-os no camarote fronteiro, de onde o coronel 
Jairo, avistando-o, lhe fez um lento, solene aceno de cabea.
Quando os sons do obo e do piano morreram no ambiente morno do 
teatro, houve uma pausa duma frao de segundo. De sbito 
estalaram os aplausos. Quem se ps de p 
dessa vez foi
624
Rodrigo. "Bravo! - gritou - Bravo! Bravo!" E aplaudia com tanta fora, 
que as palmas das mos comearam a arder. Toni agradecia com 
reverncias graciosas, o rosto 
iluminado por um sorriso que lhe fazia saltar os zigomas.
O prximo nmero foi um quarteto de Mozart, durante o qual o coronel 
Cacique se retirou ostensivamente do teatro com toda a famlia. 
Irmo Jacques acompanhou-os, 
mas antes de deixar o camarote voltou-se para Rodrigo, encolheu os 
ombros e fez uma careta, como a dizer: Qu'est-ce que tu veux que je 
fasse?
O penltimo nmero foi Rvere de Schumann, que Toni interpretou 
ao violoncelo. Rodrigo escutou a melodia, perturbado, como se a voz do 
instrumento tivesse o dom 
de penetrar-lhe nas camadas mais profundas do ser, revolvendo-as e 
fazendo vir  tona lembranas de tempos idos, tristezas recalcadas, 
desejos esquecidos. Sentiu 
a respirao opressa, um aperto na garganta. Se no tratasse de 
dominar-se, acabaria chorando como o dr. Carbone, que ali a seu lado de 
quando em quando limpava 
os olhos com as pontas dos dedos.
Quando menino, Rodrigo interessava-se tanto pelos atores e atrizes dos 
circos e companhias teatrais que visitavam Santa F, que esse 
interesse s vezes chegava a 
revestir-se da intensidade duma paixo. E quando o circo ou a troupe 
se ia para outras terras, ele ficava tomado duma melancolia e duma 
saudade que durante dias 
e dias lhe empanavam a vida. Sempre se sentira atrado por aquela 
gente de palco e picadeiro, to diferente do comum dos mortais no 
vestir, no falar, no viver e 
at nos traos fisionmicos. Ah! Quantas vezes, depois que o circo 
se ia, ele se punha a andar pela cidade, falando sozinho, a curtir a 
saudade da mocinha do trapzio 
ou do malabarista! Seu nico consolo, ento, era fazer 
peregrinaes ao lugar onde estivera armado o barraco. L 
estava, como uma tortura em meio do terreno baldio, 
o redondel do picadeiro, ainda coberto de serragem, cujo cheiro ele 
aspirava com dolorosa delcia. Apanhava do cho, para guardar como 
lembranas, pedaos de madeira 
ou papel, pontas de cigarros, botes...
Para o menino Rodrigo os atores eram criaturas dum mundo que pouco ou 
nada tinha a ver com Santa F - um mundo que
625

s encontrava par nas novelas de Dumas, Ponson du Terrail, Richebourg 
e Jlio Verne. Sempre achara fascinante a linguagem dos palhaos, 
aquela mistura de portugus 
e castelhano que para ele era o vernculo dum misterioso pas de 
onde provinham todos os clowns e tonies que andavam pelo mundo. Por 
muitos anos entesourara na memria 
a palavra mgica que ouvira o diretor dum circo pronunciar 
repetidamente no picadeiro para o cavalo amestrado, sempre que o animal 
executava bem cada uma de suas 
proezas: vengude. Atribua-lhe um misterioso poder de encantao. 
Mais tarde, porm, ao iniciar os estudos de ingls, tivera a 
desiluso de descobrir que vengude 
era very good e queria dizer apenas muito bom.
Agora, ouvindo a Rverie e contemplando Toni Weber, ele tornava a 
sentir milagrosamente a volta do antigo fascnio.
Que tristeza na fisionomia da menina! Como seria a voz dela? Grave, como 
a do violoncelo ou alta como a do obo? De que cor seriam seus olhos?
Rodrigo ficou um pouco desconcertado quando, ao voltar casualmente a 
cabea para o lado de Flora, percebeu que ela estava a observ-lo 
disfaradamente com o canto 
dos olhos.
Quando o espetculo terminou, o padre Astolfo sugeriu que esperassem 
os Weber no saguo, a fim de que ele pudesse apresent-los aos 
Cambars e aos Carbone.
- Mas no  muito tarde? _ perguntou Flora, consultando o marido com 
os olhos.
-  cedo - respondeu Rodrigo, que no olhara para o relgio desde 
que sara de casa.
Os Weber, entretanto, tardavam. O teatro achava-se j completamente 
vazio e comeavam a apagar-se as luzes. Flora insistiu para que fossem 
embora. Estava ansiosa 
por saber das crianas Agastado, Rodrigo tomou-lhe o brao:
- Pois ento vamos.
Encaminharam-se para a porta, seguidos do padre e dos Carbone. Havia na 
noite sem lua nem estrelas um arrepiante prenncio de inverno. Na 
calada fronteira alguns 
homens conversavam em voz alta, um tanto exaltados. Uma figura 
destacou-se do grupo e atravessou a rua. Era o Cuca Lopes. Acercou-se de 
Rodrigo e despejou a novidade:
- A Itlia declarou guerra  ustria!
- No diga!
- Por Deus Nosso Senhor! - jurou o Cuca, tirando, rapidamente o 
chapu. Contou que viera do telgrafo, onde havia um despacho para o 
intendente.
- At que enfim! - exclamou Rodrigo, voltando-se para o dr. Carbone 
e envolvendo-o num abrao, enquanto Santuzza desatava o pranto. O 
cirurgio beijou Rodrigo em 
ambas as faces, deu alguns passos sem rumo nem propsito na calada 
para depois cair nos braos da mulher, cobrir-lhe o rosto de beijos e 
misturar suas lgrimas 
com as dela.
- Padre - disse Rodrigo com a voz alterada pela conoo - a Itlia 
no nos decepcionou. O sangue latino falou mais forte que qualquer 
aliana ou interesse material!
O sacerdote acariciava o lbulo da orelha, olhando para a porta do 
teatro.
- Isso torna os Carbone inimigos dos Weber - disse ele, entre srio e 
trocista.
O italiano parecia ter perdido a voz. Meteu nervosamente um cigarro na 
piteira e levou muito tempo para conseguir acend-lo.
- Vamos todos ao Sobrado comemorar o acontecimento convidou Rodrigo.
Olhou para o Cuca.
- Mas essa histria  certa mesmo ou  boato?
Cuca que cheirava azafamado a ponta dos dedos, apressouse a fazer 
novo juramento.
- Por esta luz que me alumia: eu vi o telegrama. Desejou boa-noite a 
todos e abalou.
- Vamos embora! - gritou Rodrigo.
626
627

Meteu a mulher e os Carbone no Ford e mandou o chofer tocar para o 
Sobrado.
- Ns vamos a p.
Depois que o automvel dobrou a primeira esquina, ele se voltou para o 
padre Astolfo.
- Ficar mal a gente levar os Weber agora l pra casa? Ser que os 
Carbone vo ficar sentidos?
- Esses italianos so criaturas bonssimas. No creio que possam 
ter a menor m vontade para com a Famlia, principalmente depois dum 
espetculo desses.
- Que diabo! Afinal de contas somos todos filhos de Deus, no  
mesmo, padre?
Naquele momento os Weber saam do teatro. Padre Astolfo puxou o amigo 
pelo brao, aproximou-se dos austracos e comeou as 
apresentaes. Fez o elogio de Rodrigo 
em francs. Vir a Santa F e no conhecer o dr. Rodrigo Cambar 
e o Sobrado era o mesmo que ir a Roma e no ver o papa nem a 
Baslica de So Pedro. O dr. Rodrigo 
era mdico, uma bela cultura, um grande carter. Possua a melhor 
biblioteca do municpio, era um amante da boa msica e tudo indicava 
que em breve seria eleito 
deputado. Enquanto o vigrio falava, Herr Weber murmurava de instante 
a instante j, j, ao passo que Frau Weber dava risadinhas curtas e 
cordiais. To n i e Wolfgang 
achavam-se num segundo plano, silenciosos. O rapaz trazia o contrabaixo 
num estojo negro, que ali na sombra parecia um estranho monstro. Toni 
abraava o estojo do 
violoncelo, como a um irmo mais moo. Herr Weber tinha debaixo do 
brao a caixa do violino. Quando Rodrigo, fazendo questo de falar 
francs sem o menor sotaque, 
convidou a Famlia para ir ao Sobrado tomar alguma coisa, Herr Weber 
fez uma curvatura, formulou desculpas num francs eriado de erres 
rascantes. Impossvel! Era 
muito tarde, mam Weber e as crianas estavam cansadas. Mera 
beaucoup! Merci! Merci! Cada merci era acompanhado duma inclinao 
de cabea.
Rodrigo estava desapontado. Queria ver Toni de perto, descobrir-lhe a 
cor dos olhos, ouvir-lhe a voz. Deixou escapar um suspiro de 
impacincia e, olhando para o 
padre, disse:
628
- Bom, no vamos deter por mais tempo esta simptica famlia...
Os adeuses foram rpidos e clidos da parte de Rodrigo: um tanto 
formais da parte de Herr Weber, que fez uma prolongada curvatura. Frau 
Weber apertou-lhe a mo com 
vigor, Wolfgang, timidamente. Toni deu apenas as pontas dos dedos e 
murmurou algo que ele no chegou a ouvir direito. Adieu? Au revoir?
Rodrigo chamou um carro e mandou levar a Famlia Filarmnica ao 
hotel:
- No cobre deles - gritou para o cocheiro. - Quem paga
sou eu!
Depois, de braos dados com o padre, voltou a p para o Sobrado. O 
vigrio falava apreensivo na guerra. Aonde ia parar o mundo? Havia 
indignao nos Estados Unidos, 
pois no naufrgio do Lusitnia tinham perdido a vida quase duzentos 
cidados norte-americanos. Era possvel que Washington acabasse 
declarando guerra ao Kaiser.
Rodrigo olhava para a sombra alongada do padre na calada. Mas no 
pensava na guerra. Na sua mente, Toni Weber soprava no obo: estava 
num vestido curto de bailarina, 
no picadeiro do Circo Sabattini.
No dia seguinte pela manh, o padre Astolfo entrou no consultrio de 
Rodrigo e contou-lhe que a Philharmonische Familie se encontrava numa 
situao crtica. Seu 
empresrio, um romeno que os contratara na Europa para aquela 
tourne sul-americana, abandonara-os em Baj, seguindo para 
Montevidu de onde - prometera - no s 
telegrafada dando informaes sobre a data dos prximos concertos 
no Prata, como tambm lhes mandaria o dinheiro para as passagens. No 
entanto havia j quase um 
ms que o homem se fora e at agora no dera o menor sinal de 
vida.
- A Famlia est alarmada! - contou o vigrio, sentando-se numa 
cadeira e fitando em Rodrigo seu olhar transparente. - O
629
romeno era o tesoureiro da troupe e levou consigo todo o dinheiro que 
tinham apurado nos ltimos concertos em Porto Alegre, Cachoeira e 
Santa Maria. O que os Weber 
fizeram aqui d para pagar o hotel mas no  o bastante para as 
passagens...
Rodrigo esbofeteava em pensamento aquele romeno cuja me no 
conhecia mas  qual j dirigia mentalmente os maiores insultos. O 
canalha! O vigarista!
Levantou-se e deu dois passos na direo do padre.
- O bandido fugiu, no resta a menor dvida. Veja bem: a Famlia 
est em Baj, j perto de Montevidu, onde deve dar o prximo 
concerto. Que faz o sacripanta? Manda 
essa pobre gente de volta para o noroeste do Estado, para Santa F. 
Por qu? Me diga: por qu? Porque j tinha o plano formado!
- E o pobre do velho Weber agora l est no hotel, atirado em cima 
duma cama, sem saber que fazer.  um homem tmido, desprovido de 
qualquer senso prtico, um verdadeiro 
artista. As duas crianas coitadinhas, esto com os olhos deste 
tamanho, d pena v-las... Por sorte Frau Weber  uma mulher 
decidida. Veio me procurar hoje s oito 
para me contar a histria e me pedir conselho.
Olhou intensamente para Rodrigo e estendeu os braos num gesto de 
desamparo.
- Mas que  que a gente pode fazer?
Recostado contra o bureau, Rodrigo olhava para o amigo, pensativo.
- No h de ser nada... - disse, aps alguns segundos de 
reflexo. - Deixe, que eu dou um jeito na vida desses austracos.
- Como?
- Vou arranjar o dinheiro pra viagem a Montevidu.
- Mas acontece que, depois duma troca de telegramas com os teatros de 
Montevidu e Buenos Aires, os Weber descobriram que os falados 
contratos no passavam de mais 
uma mentira do romeno!
Ideias brotavam vivas e efervescentes no esprito de Rodrigo, 
comeando a deix-lo exaltado.
630
- No h de ser nada. Arranjaremos um concerto da PhiIharmonische 
Familie em Nova Pomernia. Foi o diabo a Itlia ter declarado guerra 
 ustria, pois eu ia ajeitar 
tambm um concerto em Garibaldina. - Soltou uma risada. - Por que o 
rei Vittorio Emmanuele no esperou mais uma semana?
O padre parecia no ver a menor graa naquilo tudo. Apertava o 
lbulo da orelha com uma expresso de incerteza no rosto juvenil.
- Sim, mas depois desse concerto, que vai ser dos Weber, que no sabem 
uma palavra de portugus e no conhecem ningum no Rio Grande do 
Sul? Est claro que no podero 
voltar para a Europa, por causa da guerra.  uma situao dos 
diabos.
- Por que ento no ficam em Santa F?
- Esta cidade no comporta mais de dois concertos
- Sim, mas eles podem fazer outras coisas. Olhe, por que no tocam no 
cinema? A est uma idia. O velho e a velha podem dar lies 
de canto, piano e violino. Que 
 que esto fazendo as filhas do coronel Cacique que no aprendem 
algum instrumento? E as Teixeiras? E as Macedos? J  tempo de 
civilizar essa gente. No se aflija, 
padre, deixe a coisa por minha conta. Que diabo! Precisamos manter o 
prestgio da hospitalidade gacha. Seria o cmulo se uma famlia 
talentosa como essa morresse 
de fome na nossa
terra.
Teve um rompante de generosidade.
- Em ltimo caso, eu levo essa gente pr Sobrado.
O padre sacudia a cabea numa lenta, obstinada negativa: a coisa no 
era assim to simples.
- E o pior - disse -  que a sade do velho  pssima. C para 
ns, acho que ele tem lceras gstricas.
- Eu tambm dou jeito nas lceras do maestro.
Tirou o relgio do bolso e tornou a guard-lo sem ver direito a 
hora.
- Vamos agir, padre, antes que a coisa esfrie. Diga ao velho Weber que 
me aparea no consultrio hoje s quatro, que eu quero fazer-lhe 
um exame completo. V logo 
avisando que a consulta  grtis, pr homem no ficar 
preocupado. E hoje de noite leve toda essa simptica famlia ao 
Sobrado, l pelas oito, pra gente fazer um
631
serozinho com msica, boa prosa e salsichas de Viena legtimas, 
no se esquea de dizer isso, ouviu?, legtimas! Pr velho mando 
preparar um mingau de maisena. 
Precisamos levantar o moral dos Weber. No final de contas no podemos 
responsabilizar esses pobres austracos pelas crueldades das tropas do 
Kaiser. Seria o mesmo 
que culpar Goethe ou Beethoven pelo torpedeamento do Lusitnia, no 
acha, padre?
Segurou com fora o brao do sacerdote.
- A gente vira, mexe e acaba sempre nos Evangelhos. Quem tinha mesmo 
razo era Jesus Cristo...
Procurou, para citar, uma frase sobre a fraternidade humana, mas no 
lhe ocorreu nenhuma. Despediu-se do vigrio, botou o chapu, saiu da 
farmcia e foi bater  
porta da casa do Podalrio Leal, concessionrio do cinematgrafo. 
Podalrio apareceu, recmsado da cama, os olhos piscos, a voz 
pastosa.
Convidou Rodrigo a entrar e sentar-se. E quando o visitante lhe falou na 
possibilidade de o cinema contratar a Famlia Filarmnica para tocar 
nas suas trs funes 
semanais, o homem exclamou:
- S se eu estivesse louco varrido! Isso vai me custar os olhos da 
cara!
- Criatura de Deus! Voc ter uma orquestra de primeira ordem. Muita 
gente que no gosta de cinema ir ao Santa Ceclia s para ouvir 
a orquestra.
Podalrio mirava-o de boca entreaberta, os dois nicos dentes 
superiores que lhe restavam a apontarem amarelos nas gengivas 
descoradas.
- O senhor pensa que cinematgrafo  alguma mina de ouro? Pois fique 
sabendo que  um negocinho mui mixe. O que fao mal d pr fumo. 
Por muito favor pago trinta 
pilas pr Salcede tocar aquelas porcarias no piano.
Rodrigo brincava, impaciente, com a corrente do relgio.
- Pois voc vai contratar a Famlia Filarmnica, e hoje mesmo.
- Hein?
Podalrio lanou para o outro um olhar alarmado.
632
- Sim. E vai pagar aos Weber duzentos mil-ris por ms. Ergueu-se, 
aproximou-se do concessionrio do cinematgrafo
e segurou-o pela gola da camisa:
- No se assuste, que esse dinheiro no sair de seu bolso e sim 
do meu.
Viu que o homem no havia compreendido. Repetiu a proposta lentamente, 
escandindo as slabas de cada palavra, com uma falsa pacincia. 
Nunca simpatizara com o Podalrio 
e muito menos com o filho, o Calgembrino: eram dois pulhas, dois sovinas 
sem escrpulos, que no mereciam a menor considerao.
- Vamos, homem, sim ou no?
- Se o senhor paga, a coisa  diferente, mas no estou entendendo 
direito...
- Nem precisa entender. Quero ajudar esses estrangeiros que esto em 
dificuldades e ao mesmo tempo fazer que o cinema da minha terra tenha a 
melhor orquestra do 
Estado. Est claro agora?
O outro encolheu os ombros.
- Mas... e o Salcede?
- Continue a pagar-lhe os trinta mil-ris mensais, e ele que fique em 
casa se quiser. Se no quiser, que v pr inferno!
Podalrio acariciou a calva, de beio cado.
- Outra coisa - acrescentou Rodrigo. - Essa histria tem de ficar 
entre ns dois. Ningum precisa saber que sou eu quem vai pagar o 
ordenado da Famlia Filarmnica. 
Est entendido?
- Est, mas  que...
- Que  que h?
- No era melhor a gente fazer um contrato, um compromisso escrito e 
assinado pelo senhor, dizendo que se responsabiliza...
Rodrigo atalhou-o:
- J viu algum Cambar faltar  palavra empenhada?
- No, doutor, longe de mim duvidar da sua palavra. Mas  que todos 
estamos sujeitos a morrer duma hora para outra...
Rodrigo, que j se encontrava na rua, de chapu na cabea, gritou:
- Pois eu no pretendo morrer to cedo. Tenho ainda muito que fazer 
neste mundo. Passe bem!
633

Cheios de gratido e num comovido abandono, os Weber entregaram seu 
destino a Rodrigo, maravilhados com as coisas que ele lhes dava, e 
fazendo, numa obedincia 
filial, tudo quanto ele lhes sugeria. Aceitavam o emprego no cinema e os 
alunos de canto, violino e piano que foram aparecendo naquelas ltimas 
semanas de maio, 
alguns trazidos pelo prprio Rodrigo - que doutrinava calorosamente os 
chefes de famlia sobre a necessidade de dar uma educao musical 
aos filhos, e outros mandados 
espontaneamente por famlias alems e teuto-brasileiras. Otto 
Spielvogel empregara o jovem Wolfgang Weber em seu escritrio, como 
arquivista e correspondente em 
lngua alem. E Herr Weber, cuja sade melhorara visivelmente, 
graas aos remdios que Rodrigo lhe prescrevera, fora convidado pelo 
intendente para reorganizar a 
banda de msica municipal.
Achando que a Famlia Filarmnica por motivos econmicos no 
podia continuar no hotel, Rodrigo cedeu-lhe de graa uma casinha de 
propriedade de seu pai e que no 
momento estava desalugada - uma meia-gua com pomar, situada  rua 
do Poncho Verde, nas proximidades dos trilhos. Resolveu o problema dos 
mveis da maneira mais 
rpida e simples: ps numa carroa e mandou para os Weber uns 
tarecos fora de uso que estavam atirados no poro do Sobrado: uma 
cmoda e um guarda-comida de ps 
lascados; cadeiras com os assentos de palha furados ou pernas quebradas; 
e uma mesa em cuja prancha sem lustro se viam talhos de facas feitos por 
mais duma gerao 
de cozinheiras. Os Spielvogel e os Schultz contriburam com camas, 
cadeiras, louas e talheres. Contava-se que, a cada mvel ou 
utenslio que chegava  meia-gua, 
Frau Weber desatava o choro, murmurando: "Que santa gente, meu Deus, que 
santa gente!"
Os membros da Philharmonische Familie passaram uma semana inteira a 
trabalhar na casa. Convidado um dia a visit-los, Rodrigo ficou 
surpreendido ao ver a transformao 
que sofrera aquela meia-gua que sempre lhe dera a impresso dum 
cachorro sentado a olhar melancolicamente para o cu. A fachada tinha 
sido
634
caiada por Wolfgang, auxiliado por Toni, e os caixilhos das janelas - 
onde se balouavam alegremente vaporosas cortinas brancas - pintados 
dum azul de ndigo. Dentro, 
Rodrigo no reconheceu os velhos mveis que mandara: estavam 
lustrados, reluzentes, com o aspecto de novos. No cho da sala de 
jantar estendia-se um tapete feito 
por Frau Weber com retalhos multicores. Em cima duma prateleira 
alinhavam-se canecos para cerveja, pratos de cermica alem e os 
cachimbos de loua de Herr Weber. 
Havia naquele interior tal aspecto de asseio e ordem, que Rodrigo chegou 
a ficar

perturbado. Derramou-se em elogios  casa, e Frau Weber, num assomo de 
agradecida ternura, tomou-lhe do rosto com ambas as mos, ps-se na 
ponta dos ps e aplicou-lhe 
dois sonoros beijos nas faces.
Notre protecteur! L flus gnreux et l plus beau ds hommesl
Rodrigo ficou comovido. Sentado numa cadeira, Herr Weber contemplava-o 
com um ar de devoo quase canino. Seu olhar - notou Rodrigo - 
exprimia no s gratido como 
tambm estranheza. Era como se ele no pudesse compreender por que 
aqueles estranhos faziam pela Famlia todas aquelas coisas 
desinteressadas.
Nas ruas de Santa F durante muito tempo os Weber constituram um 
espetculo que os naturais do lugar no cansavam de apreciar. Quando 
os austracos passavam, mulheres 
assomavam s janelas e portas e ficavam a segui-los com o olhar, 
trocando comentrios com os vizinhos. Toda a vez que Frau Weber saa 
s compras ou com livros debaixo 
do brao e dirigia-se  casa de seus alunos, as comadres de Santa 
F mal continham o riso, achando-a "esquisita" no seu vestido cor de 
chumbo, de golilha alta, cintura 
de vespa, saia rodada e comprida cuja fmbria varria as caladas por 
onde ela passava com seu jeito azafamado e seu caminhar mido e 
rpido.
Frau Weber fizera j amizade com tia Vanja, que a adorava, pois a 
austraca lhe evocava personagens de romances que se passavam em 
Berlim, Viena e Budapeste. Rodrigo 
enternecia-se ao ver aquelas duas mulherzinhas em seus colquios, a 
trocarem sorrisos, amabilidades, receitas de doces e croch, uma sem 
poder falar a
635
lngua da outra, mas a entenderem-se por um milagre de boa vontade e 
simpatia humana.
Herr Weber tambm chamava a ateno quando saa  rua, de 
chapu-coco pardo, gravata  Lavalire, o guarda-chuva sempre a 
pender-lhe do brao. Andava de ordinrio 
apressado, tinha um caminhar arrastado, as costas encurvadas e um modo 
vago de olhar, como se estivesse com o corpo neste mundo e o pensamento 
no outro. O jovem 
Wolfgang fazia tambm sucesso com sua roupa de veludilho verde, de 
casaco cintado, os sapates de alpinista e o chapu de feltro com 
uma pena de pavo enfiada na 
fita.
As moas de Santa F no podiam esconder sua m vontade para com 
aquela "alemoazinha" que parecia andar virando a cabea a muitos dos 
rapazes do lugar. Toni Weber 
pouco saa, pois era ela quem cozinhava e fazia a limpeza da casa. 
Quando, porm, aparecia na rua do Comrcio, sempre em companhia do 
pai, da me ou de ambos, as 
mulheres a miravam com ar crtico e os homens com olho lbrico.
- Anda de trana s pra parecer menina - comentara a Gioconda. - Mas 
garanto que j tem uns vinte e cinco anos, fora os que andou de 
tamancos...
Esmeralda Dias inventava coisas horrveis: os Weber no eram 
casados, mas amigados, Wolfgang era um mancas e Toni, ah! "essa 
cadelinha est aqui em Santa F pra 
fisgar marido rico, isso ningum me tira da cabea". E j se 
murmurava que, dos pretendentes que rondavam Toni, o mais palpvel era 
o Erwin Spielvogel, moo rico, 
com o qual a jovem austraca fora vista a passear de automvel.
Por muito tempo foram os Weber o assunto predileto dos mexericos da 
cidade, onde havia at discusses em que se tratava de chegar a uma 
concluso sobre qual dos 
dois casais estrangeiros era o mais grotesco, os Weber ou os Carbone.
Nas noites de segunda, tera e sexta-feira, quando no havia 
funo no cinema, os Weber compareciam aos seres do Sobrado,
636

onde ficavam a conversar, a comer, a beber e a fazer msica. Desde que 
a Famlia Filarmnica comeara a frequentar sua casa, Rodrigo 
procurava evitar qualquer referncia 
direta ou indireta  guerra. Os Carbone, que raramente faltavam aos 
seres, ficavam-se agora meio bisonhos pelos cantos, enciumados - 
percebia Rodrigo - sestrosos, 
decerto a temer que aqueles austracos lhes roubassem o lugar que 
ocupavam no corao dos Cambars. Frau Weber apaixonara-se 
tambm pelas crianas da casa, e era 
divertido ver a austraca e a italiana numa guerra surda, na disputa 
da amizade de Alicinha e Floriano, cada qual procurando trazer-lhes o 
brinquedo mais interessante, 
o doce mais gostoso ou ento inventar as palavras e os gestos mais 
cmicos para faz-los rir. Havia momentos em que era necessrio 
Flora intervir, a fim de evitar 
um atrito entre as duas estrangeiras.
Outro que parecia ralar-se em silencioso despeito era o Saturnino, cuja 
flauta andava calada desde o dia em que Herr Weber entrara no Sobrado. 
Uma noite, depois 
que o "maestro" interpretara na flauta uma composio de Schumann, 
Saturnino aproximou-se do Neco e sussurrou-lhe:
- Toca bem, mas no tem alma. Esses gringos so frios. E o 
seresteiro, com ar de entendido, completou:
- Frios como focinho de cachorro.
Jairo no cansava de elogiar aqueles seres em que tinha a 
oportunidade rara de ouvir to boa msica e to boa prosa.
Carmem, que agora vinha com mais freqncia ao Sobrado, aproveitava 
a ocasio para exibir seus conhecimentos de francs e de arte, o que 
parecia deixar Flora um 
tanto deprimida. E o vigrio que se sentia responsvel pela 
aproximao entre os Weber e os Cambars, dava mostras de estar 
contente de tudo e de todos.
Numa noite em que se discutiam compositores, Herr Weber, comendo seu 
mingau e lanando olhares compridos para o prato de po com caviar, 
fez uma dissertao sobre 
a decadncia da msica italiana, para tortura de Rodrigo, que ficou 
todo o tempo como que sobre brasas, a observar, apreensivo, o dr. 
Carbone. Quem examinasse - 
dizia o maestro - a msica italiana do sculo XIX e daquele 
princpio do XX, com seus xaroposos compositores 
637
operticos como Verdi, Puccini e Leoncavallo, dificilmente compreenderia 
que aquela mesma ptria, onde o Renascimento tivera seu apogeu, 
houvesse produzido no passado 
msicos como Vivaldi, Cimarosa, Pergolesi, Scarlatti e tantos outros.
O dr. Carbone avanou com um copo de vinho numa das mos e a piteira 
na outra. Verdi xaroposo? Era o cmulo da estupidez, da ignorncia e 
da m vontade fazer uma 
afirmao como aquela! Detestvel era Wagner com suas cacofonias 
pretensiosas! Dali a mil anos, Verdi, Puccini e Leoncavallo seriam ainda 
ouvidos, cantados e amados, 
porque sua msica era bela, doce, clara e ia direito ao corao do 
povo. E dizendo isso, Carbone batia heroicamente no peito com a ponta da 
piteira.
Herr Weber no perdeu a calma.
- A pera no passa duma pardia musical. A verdadeira msica, 
para meu gosto,  a clssica. Dem-me Bach e podem ficar com o 
resto!
Numa bem torneada frase, e com boa dose de falsa modstia, Rodrigo 
confessou que sua ignorncia o impedira de compreender e amar Bach. 
Herr Weber mirou-o com seus 
olhos vagos.
- Mon cher Doktor, s se pode apreciar devidamente Bach depois dos 
quarenta anos.
- Guarda que absurdo! - exclamou Carbone.
Liroca, que uma vez por semana comparecia aos seres, estava no seu 
canto, calado, a ouvir aquela lngua que no entendia, o olhar fito 
nas portas, por cujo vo 
de quando em quando passava o vulto de Maria Valria.
Herr Weber certa noite desenvolveu uma tese: a da comunho universal 
atravs da msica. Sim, o mundo s poderia viver em paz se todas 
as criaturas amassem verdadeiramente 
a arte e se reunissem  noite, nas suas comunidades, como uma grande 
famlia, para fazerem msica. Ah! Mas tinha de ser um tipo de 
msica puro, desses que elevam 
a alma e jamais embriagam os homens de entusiasmo marcial a ponto de 
lev-los  violncia,  destruio e  guerra. O mal da 
pera  que, sendo descritiva, verista, 
ela se apega excessivamente s mais baixas paixes humanas. A 
msica pela msica - esse era o grande, o supremo ideal.
638'
Jairo concordava em que a msica poderia ajudar o congraamento da 
famlia humana, mas achava que s a msica no era o bastante. 
Fazia-se necessria tambm uma 
religio, no a do padre Astolfo, que estava comprometida em sua 
pureza original por quase dois mil anos de contaminao poltica, 
mas uma religio de bases cientficas 
de perfeito acordo com o Progresso.
A discusso foi interrompida quando os Weber comearam a tocar um 
quarteto de Mozart para cordas e piano. Carbone escutou-o num silncio 
reverente, movendo a cabea 
ao ritmo da melodia ou usando a piteira como uma batuta. De momento em 
momento, Maria Valria espiava a sala, escudada por uma folha de 
porta. E Chiru, que no escondia 
sua impacincia naqueles seres em que s se falava "lngua de 
gringo", marcava o compasso com o p, fungava, suspirava, olhava o 
relgio e abafava bocejos. De olhos 
cerrados, a cabea reclinada contra o respaldo da cadeira, o padre 
Astolfo parecia adormecido, as mos tranadas  altura do 
estmago.
Por mais que se esforasse, Rodrigo no podia desviar os olhos de 
Toni. Estava um tanto inquieto por causa de Flora, temendo que ela 
interpretasse mal seu interesse 
pela rapariga. De quando em quando lanava-lhe um olhar oblquo, 
para ver se ela o estava observando ou no.
A verdade  que aquela famlia estrangeira trouxera para sua vida um 
interesse novo. Os seres do Sobrado tinham ganho mais animao, o 
gramofone jazia mudo e esquecido 
no seu canto, e s vezes Rodrigo julgava ver na campnula do 
aparelho uma certa expresso de cime que lhe lembrava a da 
fisionomia dos Carbone.
A cor dos olhos de Toni continuava a ser para ele um enigma. Era um 
cinzento que ainda no se havia decidido bem entre o verde e o azul, 
mas que s vezes lhe parecia 
puxar mais para o azul. E agora, enquanto ouvia o adgio do quarteto e 
observava a Frulein, ele encontrava por fim uma definio 
satisfatria para aquele par de 
olhos. Eram duas guas-marinhas purssimas: dois lagos redondos, 
frescos e lmpidos, em cujo fundo nadavam peixes. Quando estava na 
frente da rapariga, Rodrigo tinha 
a impresso de que sua
639
#
prpria imagem, refletida no fundo daqueles poos, era como um grande e estranho peixe. E essa idia deixava-o conturbado.
Uma das coisas de que mais gostava era a risada de Toni - uma risada musical, com algo de vidro e de gua, a sugerir um parentesco prximo com os olhos.
No princpio daquele sero Rodrigo permitira-se tomar a mo de Toni que mal podia haver nesse gesto, se ele o fazia na frente dos pais da moa e da prpria Flora?
e, numa atitude displicente que lhe era esquisitamente voluptuosa, voltara-se para Chiru:
- Apresento-te a minha nova sobrinha. Que achas dela?
O outro noo hesitara:
- Um peixo!
Pouco depois, puxando Rodrigo para um canto, murmurou: - Sobrinha, hein; magano? Com essa parte de tio o que tu queres  apalpar a alemzinha .. .
Rodrigo lanara um olhar rancoroso para o amigo. Aquele porcalho do Chiru s pensava em imoralidade. No compreendia que pudesse existir entre homem e mulher um
sentimento de pura, desinteressada amizade. Ora, ele gostava de Toni do mesmo modo que gostava do Hino ao Sol, ou do cu do Angico ao entardecer. No fundo, entretanto,
sabia que a coisa no era bem assim, pois sempre achava difcil esquecer que Toni Weber afinal de contas era uma mulher.- Quando mirava aqueles olhos de gua-marinha,
ficava lrico, tinha vontade de escrever poemas. A boca da criatura, entretanto, no o convidava a pensamentos puros: tinha lbios polpudos, palpitantes, dum vermelho
vivo e mido. Diante desse contraste, quanta confuso de sentimentos? Bom - conclua ele, no sem uma pontinha de ironia - Toni  minha sobrinha do nariz para cima
: do nariz para baixo; no.
Mas at quando a gua fresca daqueles olhos conseguiria neutralizar o fogo daquela boca? - perguntou a si mesmo, com o
olhar fito na rapariga, esquecido do quarteto, dos circunstantes, de tudo.
640
Naquela mesma noite, depois que Flora se retirou para o quarto e Maria Valria terminou a costumeira inspeo de portas e janelas, Rodrigo ficou sentado sozinho
na sala, a olhar para o Retrato e a lembrar-se da expresso de encantada surpresa que se estampara no rosto de Toni, a primeira vez que vira. o quadro. Meias Gott!
- balbuciara ela, de mos tranadas. - Meias Gott! Tinha-se a impresso de que seu rosto se iluminava,-como se a tela irradiasse luz. Comine c"est beau, moas Dieu,
comine c"est beau! Disse estas palavras baixinho, como para si mesma, indiferente s outras pessoas em derredor. Que era que Fraulen Weber achava belo? O quadro
ou o homem?
Rodrigo aspirou o ar com fora, na esperana de que andasse ainda no ambiente um pouco do perfume de Toni, aquela morna fragrncia de carne moa recendente a sabonete
de alfazema.
Cerrou os olhos e fitou a fumar e a ruminar o prazer, o doce choque daquele momento do sero em que - estando os outros a conversar animadamente - ele surpreendera
Toni a contempl-lo de seu canto com um olhar Comprido e cheio dum amoroso interesse. Embora aquele encontro de olhares tivesse durado apenas uma frao de segundo,
fora o suficiente para dar-lhe um arrepio e acelerar-lhe o ritmo do sangue.
Por que no? - perguntou em voz alta, erguendo-se e pondo-se a caminhar dum lado para outro na sala deserta. Aproximara-se do piano, bateu distrado numa tecla,
cornou a olhar para o Retrato e quedou-se num dilogo mental com o Outro.
Qual  a tua opinio:
Tudo pode acontecer.
Mas no ser bom parar enquanto  tempo?
Agora  tarde.
Eu sei .. .
Desde o princpio sabias que um dia havia de ser tarde, mas quiseste criar o inevitvel.
Acho que ela gosta de mim.
E de mim tambm.
641
Ah, mas tu ests preso nessa tela, s de tinta, ao passo que eu sou 
de carne e osso e nervos!
Era bom estar vivo, brincar com fogo, embriagar-se com aquela 
vertiginosa sensao de perigo prximo.
Acercou-se do gramofone. No. No toco.  tarde, os outros esto 
dormindo. Depois, no convm desmanchar a impresso do quarteto...
Ficou de cabea alada a seguir a fumaa que subia do cigarro, e 
tentando rememorar trechos da msica. Era engraado: podia 
lembrar-se, com uma clareza cristalina, 
das melodias que ouvia, no entanto jamais conseguia reproduzi-las 
assobiando ou cantarolando. Aquele quarteto de Mozart - areo, 
inocente, matinal - podia bem ser 
uma descrio musical de Toni Weber. Mas at onde iria a 
inocncia da criaturinha?
Tornou a sentar-se e a tranar as pernas, preparando-se para um 
dilogo consigo mesmo.
Sabia que Toni tinha vinte anos. Eram as tranas que lhe davam a 
aparncia de menininha, e era esse ar infantil que o fazia sentir-se 
um pouco pervertido, at mesmo 
incestuoso, toda a vez que sentia por ela desejo fsico. Por que  
que no faz outro penteado? Mas que  que o penteado tem a ver com o 
que eu sinto por ela ou com 
o que ela possa sentir por mim? Mas que ser que Toni sente por mim? E 
eu por ela? Que absurdo - concluiu, sem muita convico - estar eu, 
um homem de quase trinta 
anos, casado e pai de dois filhos, a preocupar-se com uma mocinha de 
vinte, solteira e provavelmente virgem!
Levou o cigarro  boca e imediatamente em pensamento viu Toni com os 
lbios pregueados em torno do bocal do obo. Por alguns instantes 
ficou a imaginar que tinha 
a rapariga nos braos e lhe beijava sofregamente a boca.
Que diabo! Se um homem no goza de toda a liberdade no reino da 
imaginao, onde  que vai gozar? No h de ser nesse mundo de 
mexericos e mesquinhezas das Esmeraldas, 
dos Cucas e dos Zagos - concluiu, indignado j ao pensar no que 
poderiam estar murmurando na cidade a respeito de suas relaes com 
Frulein Weber.
642
Por alguns instantes soou-lhe na mente a voz de Toni, que no tinha 
nada de extraordinrio, a no ser o fato de sair daquela boca. 
Recordou a conversa que tivera 
com ela no dia em que lhe mostrara, orgulhoso, sua biblioteca, com as 
obras completas de Flaubert, Balzac, Victor Hugo, Renan... Diante do 
armrio de livros, lera-lhe 
em surdina um trecho do Chantecler.
- J'aime bien Rostand - disse-lhe Toni. - Mas ele me parece um poeta 
menor, apenas hbil, brilhante, agradvel. Corresponde em msica a 
Tchaikvski ou Lizst. O mundo 
poderia passar perfeitamente sem Rostand e Lizst, mas duvido que fosse o 
mesmo se nunca houvesse nascido um Goethe ou um Bach.
Essas palavras, ditas por uma menina de tranas com laarotes de 
fitas azuis, haviam-no deixado no apenas surpreendido, mas tambm 
desconcertado, pois elas como 
que o derrubavam inesperadamente do pedestal de paterna superioridade em 
que ele se colocara perante a jovem austraca.
Relembrando agora a cena, Rodrigo sorria. Toni era a Europa. No tinha 
apenas vinte anos, mas dois mil, ao passo que ali no Rio Grande, em 
matria de arte e cultura, 
estava-se ainda numa espcie de idade da pedra lascada.
Ergueu-se, apagou a luz, subiu para o quarto, despiu-se, enfiou o pijama 
e deitou-se sem fazer rudo ao lado de Flora, que lhe pareceu 
adormecida. Apagou a lmpada, 
sobre a mesinha-de-cabeceira, e ficou de olhos abertos, a pensar. Estava 
sem sono, inquieto, com um peso no estmago. Decerto comera demais. 
Ps-se a apalpar o peito, 
o ventre, os braos. Comeava j a engordar. Era preciso cuidar da 
dieta, abolir a feijoada, o talharim, os doces, a cerveja... Entre o que 
ele era hoje e o Rodrigo 
do Retrato havia j algumas diferenas de volume visveis a olho 
nu. Era o diabo...
No sou nenhum vaidoso, mas - bolas! - ningum quer parecer 
ridculo aos olhos alheios nem aos prprios. Gordura  uma coisa 
grotesca. Olhem s o incidente do Chiru, 
a imagem viva de dom Joo VI. E o coronel Cacique, ndio como um 
capo cevado...
Flora estava deitada de lado, com as costas voltadas para ele. Rodrigo 
enlaou-a e f-la voltar-se.
643
- Estavas dormindo, meu bem?
- Dei uma cochilada - bocejou ela. - Que horas so?
- Pouco mais de meia-noite.
- Perdeste o sono?
- Acho que sim.
Rodrigo beijou-lhe os lbios com um ardor que no deixava dvida 
quanto s suas intenes.
- Vamos dormir - resmungou ela.
- Pra dormir no falta tempo.
- Mas  to tarde, querido!
Procurou desvencilhar-se mas no conseguiu. Soltou um suspiro.
- Tu s um homem impossvel. Quando queres uma coisa, queres mesmo.
E no lhe ofereceu mais nenhuma resistncia. Nos momentos que se 
seguiram Rodrigo no pde nem quis afastar da mente a imagem de Toni 
Weber.
Rodrigo e Flora iam agora com mais freqncia ao cinema e achavam, 
como de resto quase todos os freqentadores do Santa Ceclia, que os 
seus programas andavam muito 
mais interessantes, graas ao acompanhamento musical. A 
Philharmonische Familie ordinariamente iniciava o espetculo com 
ouvertures de Von Supp, Offenbach, Strauss 
e at Wagner. As msicas eram escolhidas de acordo com a natureza do 
filme: marchas e dobrados para os naturais; galopes frenticos e 
polcas ou mazurcas saltitantes 
para as fitas cmicas; valsas lentas, fantasias ou trechos de pera 
para os dramas
Numa daquelas primeiras noites de junho, o Santa Ceclia exibiu um 
capoiavoro de Cines, cuja protagonista era Francesca Bertini. Herr 
Weber, com uma honestidade 
profissional que impressionara a populao de Santa F, exigira 
que Podalrio lhe passasse o filme  tarde, numa sesso especial, 
a fim de que ele pudesse
644
escolher as msicas adequadas ao acompanhamento de suas diversas 
cenas. Foi por isso que  noite os espectadores puderam assistir  
longa agonia final da personagem 
encarnada pela grande Bertini ao som da marcha fnebre de Chopin.
De seu camarote, Rodrigo com freqncia desviava o olhar da tela 
para foc-lo no vulto de Toni, que l estava ao p da tela, metida 
no seu casaco de l azul-marinho, 
fazendo gemer seu instrumento. A menina lhe dava s vezes uma to 
comovedora impresso de fragilidade e desamparo, que ele se sentia 
invadido pelo desejo de tom-la 
sob sua proteo e traz-la para casa como uma filha (ou como uma 
amante, patife?). Imaginava o que podia estar-se passando naquela 
alminha exilada. Ficava enternecido 
ao pensar em que, tendo nascido e crescido em Viena, ela pudesse estar 
agora, naquela noite de fins de outono, a esfregar o arco nas cordas do 
violoncelo no cineminha 
do Podalrio. Achava aquilo tudo ao mesmo tempo belo, triste e 
improvvel, principalmente improvvel... E no instante mesmo em que 
pensava essas coisas, a imagem 
do pai se lhe desenhou na mente e lhe gritou com a habitual aspereza: 
"Deixe de fita!"
Que iria o velho dizer quando soubesse das coisas que ele, Rodrigo, 
fizera pela Famlia Filarmnica? No tardou a saber, pois Licurgo 
chegou do Angico dois dias 
depois e, tendo sido informado por Flora da situao dos Weber, 
comentou:
- Esse rapaz nem trata de saber direito quem so as pessoas. Vai logo 
botando qualquer estrangeiro pra dentro de casa.
Quem era aquela gente? - perguntava. - De onde tinha vindo? Podiam ser 
pessoas de bem mas podiam ser tambm uma pandilha de vigaristas. 
Conhecia casos...
Quando Flora lhe transmitiu esses comentrios, Rodrigo sorriu sem 
surpresa, pois era exatamente essa a reao que esperava do velho. 
Licurgo Cambar, como todo o 
homem do campo, tinha para com o estrangeiro uma invencvel 
desconfiana, temperada de m vontade.
Quando, certa noite, os Weber chegaram ao Sobrado trazendo seus 
instrumentos, cantarolando e rindo, na expectativa dum alegre sero, 
Licurgo retirou-se ostensivamente 
para o quarto, recusando-se
645
a ser apresentado aos "lambotes". No dia seguinte voltou para o Angico, 
mas no sem antes ter dito  nora:
- Seu marido nasceu para miliardrio. Se continua gastando desse 
jeito, ainda vai acabar sem um vintm pra fazer cantar um cego.
Maria Valria repetiu estas palavras ao afilhado.
- E a senhora acha que o papai tem razo?
- Acho.
- Pois eu no. Mais vale um gosto que trs vintns. Rodrigo ainda 
no conseguira saber ao certo o que a Dinda
pensava dos Weber, aos quais ela se obstinava em chamar "os polacos". 
Raramente aparecia na sala quando os austracos visitavam o Sobrado. 
Uma noite Rodrigo surpreendeu-a 
a fazer uma simpatia para as visitas irem embora: estava atrs duma 
porta virando uma vassoura.
Foi tambm por aqueles dias que Flora se queixou ao marido de que os 
seres j comeavam a cans-la. Estava muito bem que os Weber 
aparecessem de vez em quando, 
mas trs ou quatro noites por semana, em horas e dias certos, era 
positivamente uma coisa aborrecida. A casa no parava mais limpa, as 
despesas de armazm aumentavam. 
Depois, as crianas estavam ficando mal-acostumadas, pois Frau Weber e 
dona Santuzza tinham o hbito de acord-las e tir-las da cama 
tarde da noite, trazendo-as 
para baixo e excitando-as de tal forma, que depois era um caro custo 
faz-las adormecer de novo. Alm do mais, comia-se, bebia-se, 
cantava-se e fazia-se tanto barulho 
naqueles seres, que o povo at podia falar...
Nesse ponto Rodrigo atalhou a mulher com certa aspereza:
- No me interessa o que o povo possa pensar ou dizer. A casa  
minha e quem manda aqui dentro sou eu!
Flora fitou nele os olhos espantados.
- Mas Rodrigo...
- Est bem. Vou dizer ao coronel Jairo, ao padre Astolfo, aos Carbone, 
aos Weber e aos outros amigos que no venham mais  minha casa 
porque a minha mulher no quer 
mais saber de reunies.  isso que queres que eu faa?
646
Flora cobriu o rosto com as mos, desatou a chorar e saiu da sala 
precipitadamente, subindo para o quarto. Por alguns instantes Rodrigo 
ficou onde estava, os msculos 
da face tensos, a respirao lenta e funda, um caloro no corpo 
todo. Estavam bem arranjados se fossem dar ouvidos  boca do povo. 
Havia de ter graa que o Zago 
ou a Esmeralda Dias passassem a governar o Sobrado. O que acontecia - 
ah! isso ele via agora com clareza - era que Flora comeava a ter 
cimes de Toni... Ficou a 
andar dum lado para o outro, as mos nos bolsos, os olhos no soalho. 
Os soluos da mulher continuavam em seus ouvidos. Coitadinha! No 
estava habituada a ser tratada 
com rispidez. Ele simplesmente perdera a tramontana, portara-se como um 
cavalo.
Olhou para o Retrato, viu-se todo de negro, de colete claro, plastro 
carmesim, bengala e cartola - um dandy, um gentil-homem, um perfeito 
cavalheiro. No entanto 
tratara a esposa como um brutamontes... Aos poucos foi se sentindo 
invadido por uma fria vergonha. Precipitou-se para a escada, galgou os 
degraus quase a correr 
e entrou no quarto de dormir. Flora estava deitada de bruos, o rosto 
metido no travesseiro, o corpo convulsionado de soluos. Rodrigo 
sentou-se na cama e ps-se 
a acariciar os cabelos da esposa, murmurando:
- Me perdoa, meu amor, fui um bruto, um animal... Olha, meu bem, estou 
arrependido. Quem tem razo s tu. Vamos acabar com esses seres e 
viver a nossa vidinha. 
No precisamos de estranhos para sermos felizes.
Os soluos continuavam, cada vez mais fortes.
- Que  isso, minha flor? Escute, olhe pr seu maridinho... 
Magoava-o ver a mulher chorando e essa mgoa era agravada
pela idia de que fora ele o causador do pranto. Orgulhava-se de ser 
um marido atencioso, delicado e terno. Agora se sentia diminudo ante 
os olhos dela e os seus 
prprios.
- Meu bem, escuta...
Inclinou-se, beijou os cabelos, as faces, as mos de Flora e depois, 
como os soluos dela no cessassem, encostou as prprias faces no 
travesseiro e, j com lgrimas 
nos olhos e a voz alterada, ficou a ciciar-lhe ao ouvido as mais 
apaixonadas juras de amor.
647

Em muitas daquelas tardinhas de junho, com um prenncio de inverno no 
ar, Rodrigo levou os Weber de automvel  coxilha do cemitrio, 
para que de l eles pudessem 
contemplar os fabulosos crepsculos daquele fim de outono. Frau Weber 
soltava exclamaes de espanto ante os cambiantes do cu. Herr 
Weber exprimia sua admirao 
num movimento repetido de cabea: ficava como um boneco de mola a 
fazer que sim, que sim, que sim... No rosto de Wolfgang, cuja 
personalidade Rodrigo achava cada 
vez mais inescrutvel, havia uma expresso indefinvel que ora 
parecia tristeza ora mal contida revolta. Toni quedava-se numa 
contemplao muda, exttica e ofegante 
do horizonte. Nessas ocasies Rodrigo portava-se com um alvoroo 
cheio de orgulho. - "Olhem s aquele verde por baixo da nuvem 
cor-de-rosa... J viram coisa igual?" 
- como se fosse o proprietrio ou autor mesmo daqueles poentes.
Voltavam para a cidade quando Vnus j brilhava num cu em que 
havia muito da tonalidade e da transparncia dos olhos de Toni. A 
presena da rapariga no automvel 
a seu lado, a paz do anoitecer, o aroma de folhas secas queimadas a 
evolar-se das fogueiras que meninos acendiam nas ruas suburbanas - tudo 
isso lhe dava uma sensao 
de profunda felicidade na qual existia um insituvel elemento de 
inquietao. No raro, ao entrar em casa de volta duma dessas 
excurses - o corpo e o esprito amolentados 
por uma languidez quase triste, cortada de longe em longe por calafrios 
- ele chegava a se perguntar se no estaria doente. Olhava-se no espelho longamente, examinava a lngua, tomava a prpria 
temperatura...
Passava agora os dias a pensar em Toni. Nas noites em que os Weber no 
vinham ao Sobrado, ficava infeliz e,  medida que os minutos se 
escoavam, essa sensao de 
infelicidade se ia transformando em impacincia e era pouca ou nenhuma 
a ateno que prestava s palavras do coronel Jairo e do padre 
Astolfo, os quais, como de 
costume, se entregavam a interminveis discusses sobre Deus, 
religio, tica, moral e histria. A cada rudo de passos na 
calada, a cada batida na porta, o corao 
de Rodrigo disparava, na esperana de ver entrar Toni.
As vezes, quando passava mais de um dia sem v-la, inventava pretextos 
para ir  meia-gua de janelas azuis. Levava presentes  moa - 
livros, bombons, perfumes 
- procurando fazer isso tudo com um ar desinteressado de parente mais 
velho, temeroso de que os pais de Toni interpretassem mal suas 
intenes. Mas quais eram, afinal 
de contas, suas intenes? Nem ele prprio sabia ao certo. Por 
mais que se esforasse (e para falar a verdade nunca se esforava 
muito) ao analisar os prprios sentimentos 
e propsitos, no conseguia ver claro neles. Duma coisa estava 
convencido e quanto a isso no tinha a menor dvida, pois era algo 
que sentia na carne, nos nervos: 
gostava de Toni, necessitava de sua presena e quando a tinha perto de 
si, o desejo de toc-la, de abra-la, de beij-la era to 
intenso, que chegava quase a doer 
fisicamente. Disso ele tinha certeza; quanto ao resto... Mas, que era o 
resto? Possu-la? Descobrir se ela o amava? No podia esperar que 
Toni pudesse levar muito 
longe aquele interesse por ele, um homem casado, pai de dois filhos. 
No podia esperar mas esperava. Mais duma vez surpreendera a rapariga 
a mir-lo dum modo que 
no deixava dvidas. Duma feita, estando os dois lado a lado no 
auto, sua mo tocara de leve a dela. Nesse momento os olhos de ambos 
se encontraram e ele lera nos 
de Toni tudo quanto desejava saber. Ela retirara a mo, sim, desviara 
o olhar, mas ficara toda perturbada, o rosto afogueado, os lbios 
trmulos.
Que iria acontecer agora? Seus sentimentos para com Frulein Weber 
eram de tal natureza que ele j achava difcil escond-los
648
649
aos olhos dos outros. Havia instantes em que chegava a lamentar que o 
destino houvesse trazido para Santa F a Philharmonische Familie. 
Essas ocasies, porm, eram 
raras, e, quando vinham, breves. Na maioria das vezes ele se enchia dum 
furioso orgulho e resolvia no renunciar a Toni, enfrentar todos os 
perigos, arcar com todas 
as conseqncias...
Era um dos primeiros seres de inverno no Sobrado (o frio chegara 
sbito, no dia anterior, com nuvens cor de chumbo e uma garoa gelada) 
e Laurinda trouxera para 
a sala uma grande panela cheia de pinhes cozidos, que os Weber por 
insistncia de Rodrigo comearam a provar com desconfiada cautela, 
mas depois acabaram comendo 
com gosto.
Torbio, que chegara inesperadamente do Angico aquele entardecer para 
mostrar a Rodrigo a ferida inflamada que tinha no antebrao direito, 
passou o sero inteiro 
escarrapachado numa cadeira de balano a cocar Toni com olhinhos 
cheios duma curiosidade lbrica. Rodrigo percebeu tudo e ficou 
contrariado. No se mostrou muito 
cordial para com o irmo quando, no dia seguinte pela manh, o levou 
ao consultrio para o primeiro curativo. Examinou a ferida, limpou-a 
com um algodo embebido 
em gua oxigenada, fez-lhe algumas perguntas profissionais e depois 
continuou a trabalhar em silncio. Foi Bio quem falou primeiro:
- Eu no te disse que no devias casar?
Rodrigo ergueu os olhos mas no respondeu. Pressentindo aonde o outro 
queria chegar, fazia-se de desentendido. Depois de pequena pausa, disse:
- Me casei e me sinto perfeitamente feliz.
- Vai ver se eu estou ali na esquina... Pensas que eu no sei que 
andas querendo dormir com a alemzinha?
- Bio!
- Te conheo das casas velhas...
650
Rodrigo quis protestar, zangar-se, dizer um palavro, mas achou melhor 
no continuar fingindo.
- Como foi que descobriste?
- Ora, mal ela entrou, eu vi tudo.
- No admira. No tiraste os olhos de cima da menina a noite 
inteira.
- U, eu tambm gosto do que  bom.
Rodrigo achava vagamente sacrlego estarem a falar de Toni naqueles 
termos.
- A moa no  o que tu ests pensando.
- Eu no estou pensando nada.
Rodrigo apanhou um vidro de iodo e uma pina.
- Ento a coisa d muito na vista? - perguntou, com um falso 
sorriso.
- S no v quem  cego. Ouve o que te digo. A Flora no  
cega. Mulher enxerga longe...
- E que  que achas dessa coisa toda?
- Acho que o negcio  muito perigoso. Pode no dar certo.
- Viraste moralista?
- Vai-te pr diabo! Tu sabes que sou amigo da Flora, e no quero que 
ela sofra com essa histria.
- Que queres ento que eu faa?
- Acaba com isso.
- No posso.
- J dormiste com a guria?
Rodrigo encarou Bio, disposto a protestar contra a grosseria da 
pergunta, mas a expresso do rosto do irmo desarmou-o. Tinham 
demasiados pecados em comum e conheciam-se 
demais para guardarem segredos um do outro.
- Ainda no.
- Pois ento desiste enquanto  tempo.
- Agora  tarde.
Impaciente, Rodrigo mergulhou no vidro de iodo a pina com as pontas 
envoltas em algodo.
- No te encomendei sermo...
- J pensaste em tudo que pode acontecer?
651
-J.
- Ests disposto a agentar todas as conseqncias? *
- Quem tem medo de barulho no amarra porongo nos tentos.
- Est bem. Estou s te prevenindo... Rodrigo baixou os olhos.
- Cuidado, que vai arder um pouco.
- Taa fogo. Tenho o couro grosso. Rodrigo pincelou de iodo a carne 
viva.
- Pensa tambm no velho... - acrescentou Bio, enquanto o outro lhe 
soprava a ferida.
- Sou maior de idade e papai no  nenhum santo.
- Te lembra ao menos das crianas.
- Ora, Bio! Ests fazendo drama quando no h nenhum drama.
- No h mas pode haver.
- Pois que haja. Chegaste tarde com o teu sermo. Agora ningum me 
ataca mais. Nem o papa.
- Puxa! Ento a coisa  sria mesmo?
Rodrigo deu de ombros. Admitir que estava apaixonado era de certo modo 
ficar numa situao inferior. Negar seria absurdo. O Bio que 
pensasse o que quisesse!
Cobriu a ferida com uma pomada, ps-lhe em cima uma gaze e depois 
envolveu-a com uma atadura. Por alguns instantes ficaram ambos calados.
- Quando voltas para o Angico?
- Achas que posso ir embora amanh?
- Se  pela ferida, podes. Lava todos os dias com gua oxigenada e 
depois bota essa pomada. Numa semana isso est seco.
Bio meteu o pote no bolso. Ao sair do consultrio, aplicou uma palmada 
nas costas do irmo.
- No tens mais cura - disse. E se foi, rindo.

Em princpios de julho, numa tarde em que soprava o minuano, Cuca 
Lopes entrou afobado no consultrio da Farmcia Popular, encolhido 
dentro dum sobretudo seboso, 
o pescoo envolto numa manta de l cor de vinho, que lhe tapava 
completamente a boca e parte do nariz.
- Pomba, que vento! - exclamou, com olhos lacrimejantes, desenrolando a 
manta.
- Ento Cuca - perguntou Rodrigo -, qual  a ltima? Por alguns 
segundos ficou apreensivo, temendo que a "ltima"
fosse algum mexerico da cidade em torno de suas relaes com Toni 
Weber. Preparou-se para o pior.
O outro aproximou-se do bureau, esfregando as mos.
- O irmo Jacques tirou a batina e pediu a Doralice Fagundes em 
casamento! O coronel Cacique ficou fulo, quase botou o padre pra fora de 
casa a rabo de tatu. A moa 
disse que vai tomar lisol. O marista anda por a feito louco. Est 
um angu danado.
- Isso tudo no ser inveno tua, Cuca?
- Por esta luz que me alumia... Eu vi o padre ind'agorinha  paisana!
Poucos minutos depois que Cuca Lopes se foi, Jacques Meunier procurou 
Rodrigo, contou-lhe seu drama e suplicou-lhe fizesse as vezes de juiz de 
paz: convencesse o 
velho Cacique a concordar com o casamento, para evitar que a histria 
tivesse um desenlace fatal.
- Por que no me quer para genro? Por que fui marista? Mas  que sou 
um homem como os outros, de carne e osso!
Dizendo isso apalpava o corpo, procurando dar provas anatmicas de sua 
masculinidade. Rodrigo mirava-o com olho curioso. Estava j to 
habituado a ver o homem dentro 
duma sotaina negra, que no podia deixar de ach-lo grotesco naquela 
fatiota cinzenta mal cortada.
- Diga ao coronel que se ele continuar irredutvel na sua conduta, eu 
tiro a Doralice de casa!
- E o velho provavelmente lhe meter cinco balas no corpo.
652
653
O rosto do ex-marista endureceu. Como nica resposta, tirou do bolso 
traseiro das calas um revlver de cabo de madreprola e 
mostrou-o.
- S se ele for mais ligeiro que eu!
Rodrigo ficou surpreendido. Era-lhe difcil acreditar que aquele 
sujeito agitado e resoluto que tinha agora na sua frente era o tmido 
irmo marista que, havia pouco 
mais de cinco anos, lhe oferecera candidamente uma banana no trem de 
Santa Maria...
- Guarde o seu revlver, irmo... perdo!... professor. Vou falar 
com o coronel Cacique. Se eu no lhe trouxer o consentimento do homem, 
no me chamo mais Rodrigo 
Cambar. Pode ir preparando o enxoval.
- Evite a tragdia, doutor.
- No haver tragdia, fique descansado. Apertaram-se as mos 
 porta da farmcia. Gabriel olhava para
o ex-marista com olhos cheios de espanto.
- Ento, como vai o Sport Club Charrua? - gritou Rodrigo, para dar  
palestra um fecho menos dramtico.
O rosto de Jacques Meunier iluminou-se de sbito, num largo sorriso 
juvenil.
- Vamos dar uma sova no Avante no prximo domingo - respondeu ele. - 
Uns quatro a zero no mnimo.
E se foi rua em fora, segurando a aba do chapu para o vento no 
arrebat-lo.
Rodrigo voltou para o consultrio coando a cabea e murmurando 
para si mesmo: Neste mundo tudo pode acontecer. Eu j no duvido de 
mais nada.
Quem, entretanto, lhe proporcionou a maior surpresa do dia foi o 
prprio Cacique Fagundes, que ele visitou aquela mesma tarde. Esperava 
v-lo sombrio ou irritado, 
mas encontrou-o sorridente, na melhor disposio de esprito 
imaginvel.
- Abanque-se. Mas que milagre  esse... visitando os pobres? Rodrigo 
sentou-se, srio, e foi direito ao assunto. Usou da
melhor dialtica de que era capaz e daquele ar entre carinhoso e 
paternalmente autoritrio que assumia com tanto sucesso  cabeceira 
dos doentes. Dissertou sobre 
a ordem dos maristas, sobre a
654
falibilidade humana e as qualidades pessoais de Jacques Meunier. Que 
diabo! Os dois jovens amavam-Se) eram sadios e livres e queriam 
unir-se em matrimnio perante 
Deus e os homens. Haveria coisa mais natural, mais humana, mais bela? O 
coronel Cacique escutou-o num silncio pachorrento, as mos 
tranadas sobre o ventre, os 
olhinhos entrecerrados e Um risinho enigmtico a encrespar-lhe os 
lbios gretados pelo frio. Quando o outro se calou, ele soltou um 
suspiro que foi quase um ronco 
e disse:
- Mas acontece que essa histria esta resolvida. No faz nem uma 
hora que dei o meu consentimento pra esse casrio.
- Mas como? - estranhou Rodrigo. - No foi isso que me disse h 
menos de uma hora o prprio Jacques Meunier!
- Decerto ele ainda no sabia.  que o padre Astolfo veio me ver e 
ficou aqui um tempo, proseando comigo e acabou me convencendo. Me 
explicou que marista no  
bem padre como os outros e teretet e tal, e que o homem tinha tirado 
a batina na legalidade e teretet e tal, enfim, foi um verdadeiro 
sermo. E vassunc compreende, 
o vigrio fala dum lado minha patroa fala do outro, a filha l no 
quarto se exclamando e querendo morrer, e as outras meninas me olhando 
assim como se eu fosse 
um bandido... O que eu quero  o meu sossego, e cuidar das minhas 
vaquinhas teretet e tal e enfim quem vai dormir com esse gringo no 
sou eu,  a Doralice. Dei 
minha palavra ao vigriO) mas mandei dizer pr moo que a noiva 
no tem dote. E eu s quero ver o que vai sair dessa cruza de 
estrangeiro de olho azul com cabocla 
de plo duro.
Rodrigo estava desapontado. Perdera seu latim, pois o padre Astolfo se 
lhe antecipara. Ergueu-se.
- J vai?  muito cedo. Vamos
tomar um amargo.

- No, coronel, fica pra outra ocasio. Tenho muito que
fazer. No corredor, a caminho da porta, murmurou: - Pois eu o felicito pela 
sbia resoluo. Pode ficar descansado, que sua filha vai casar 
com um excelente rapaz. E, no 
tenho dvida, o patife do francs pegou o melhor partido de Santa 
F!
655
- Fagundes nunca negou fogo.
J  porta, o dono da casa indagou:
- E a poltica? Parece que as coisas esto ficando pretas, no"?
- Pretssimas.
- Ainda que mal pergunte, o amigo vai votar no marechal Hermes?
- No diga isso nem brincando, coronel. J avisei a Joca Prates que 
no conte comigo pra propaganda. Se o marechal foi um desastre na 
presidncia da Repblica, 
por que no deixam o homem quieto no seu canto? A troco de que vamos 
levar essa nulidade pr Senado? E, depois, o Rio Grande livre est 
repudiando essa candidatura 
imposta pelo mandonismo do Pinheiro Machado.
- U! Pensei que o senador fosse seu amigo...
-  meu amigo, sim, o homem que mais admiro neste pas, mas isso 
no quer dizer que eu seja seu lacaio.
- Pois , mas o dr. Borges de Medeiros diz amm a tudo quanto o 
senador faz. Mandou os republicanos votarem no marechal, e a carneirada 
vai obedecer.
- Nem todos, coronel. O partido est cindido. Temos na oposio 
homens como o Ramiro Barcelos, o Carlos Barbosa e parece que at o 
Firmino de Paula. A corrida vai 
ser braba.
Cacique fez uma careta de pessimismo.
- , mas o marechal vai ganhar outra vez. O Pinheiro quando teima  
pior que mula. Este pas est perdido. Precisamos  duma boa 
revoluo como a de 83.
Rodrigo sorriu.
- Se sair outra revoluo, coronel, acho que desta vez ns dois 
vamos ficar do mesmo lado.
O dono da casa coou o queixo, onde apontava uma barbicha rala de 
bugre.
- Um filho do Licurgo Cambar com leno vermelho no pescoo? Qual, 
seu Rodrigo! Isso nem no dia em que as galinhas criarem dentes!
656

Quando, naquela tarde de domingo, Rodrigo viu Toni passar no automvel 
dos Spielvogel, ao lado de Erwin, pela primeira vez em toda a sua vida 
sentiu cime - mas 
cime violento, na forma duma sbita sensao de desfalecimento, 
dum choque fisicamente doloroso. No momento em que o Mercedes cruzava 
pela frente do Sobrado, Toni 
avistou-o  janela e fez-lhe um aceno alegre. Rodrigo, porm, cerrou 
o cenho e virou-lhe as costas ostensivamente. Seus olhos deram ento 
com o Retrato, l na parede 
da sala de visitas, e ele teve a sensao de que era surpreendido 
por um estranho num momento de absoluta nudez espiritual em que ficavam 
 mostra todas as suas 
fraquezas.
Sentia-se diminudo, logrado, insultado. Ento o que se murmurava na 
cidade a respeito de Toni e Erwin era verdade? No havia comadre que 
no comentasse, excitada, 
as possibilidades daquele noivado. Ele nunca dera crdito aos 
falatrios, mas agora comeava a ter suas dvidas. Dvidas? 
Qual! Agora tinha a certeza!
Era incrvel que uma moa bonita, instruda e inteligente como 
Toni pudesse achar algum encanto naquele colono boal, sardento e 
desengonado. Sim, Erwin Spielvogel 
no valia coisa alguma: s tinha estatura fsica.
Se Toni no gosta do rapaz, por que  que anda sozinha com ele de 
automvel? Por que vai aos bailes com aquele jeriv?
Tentou chamar-se  razo. Acontece que ela  livre, solteira, pode 
andar com quem quiser. Nunca me prometeu nada, prometeu?
No, mas... e a maneira como me olha? E sua perturbao quando 
est perto de mim? E os apertos de mo demorados?
Imaginao tua
Qual! Nunca me engano.
Mas desta vez foste logrado!
Comeou a andar dum lado para outro. O simples fato de sentir cime 
de Erwin Spielvogel dava-lhe uma abjeta sensao de rebaixamento, 
feria-lhe o orgulho de homem.
Ora, eu me nivelar com aquele alemo analfabeto!
657
Decerto j se beijaram. Ou dormiram juntos. So do mesmo sangue, 
entendem-se. Pois bem. Que se casem, sejam felizes, vo pr diabo!
Acendeu um cigarro, aspirou a fumaa com fora, expeliu-a num sopro 
cheio de raiva.
Decerto os pais de Toni  que insistem no namoro, vem no Spielvogel 
um bom partido.  natural... A eterna histria.
Ali! Mas no acredito que ela se deixe vender. Ora, por que no? 
No ser a primeira mulher no mundo a casar-se por interesse.
Mas se ela no quer, por que no lhe diz no duma vez por todas? 
Por que anda com o Erwin em festas e passeios?
Imaginou-se a insultar os Weber, a perguntar-lhes se a filha estava em 
leilo. Sim, porque se  questo de preo eu pago mais!
Envergonhava-se, entretanto, desses pensamentos. E de sbito lhe veio 
uma grande ternura pela rapariga, um desejo protetor de estreit-la ao 
peito, beijar-lhe os 
olhos, as faces, a boca. E atravs da ternura e de todos esses 
desejos, o sentimento de cime perdurava.
Passou a tarde e a noite irritado. E no dia seguinte a irritao se 
agravou ao chegar-lhe aos ouvidos a notcia de que Toni havia partido 
em companhia dos pais para 
Nova Pomernia, onde tomaria parte num Kerb. Rodrigo conhecia bem 
aquelas farras que duravam s vezes trs dias e trs noites. O que 
se bebia de cerveja! O que se 
comia! O que se cantava! O que se danava! Toni estaria no meio 
daqueles rudes colonos - ela, que lia Goethe e tocava Bach. Toni, a sua 
Toni de olhos de gua-marinha. 
Cantaria com os outros o Deutschlanl uber alies, e beberia  vitria 
das foras do Kaiser...
Bem feito! Vives te iludindo com as pessoas.
Mas no. Tudo isso deve ter uma explicao. Tira a coisa a limpo.

Fala com ela. Fala claro. Abre o corao.
No desci a tanto. Um homem tem o seu amor-prprio.
Ento trata Toni como ela merece: despreza-a.
 o que vou fazer. A primeira vez que ela entrar nesta casa 
encontrar em mim um estranho. Est tudo acabado.
Ficou perturbado quando descobriu Maria Valria parada junto da porta, 
a mir-lo com seu olhar verrumante.
- U - fez ela. - Agora deu at pra falar sozinho?
- Falo e no  da conta de ningum.
- Maroto!

No viu Toni no dia seguinte nem durante o resto daquela semana 
chuvosa e fria em que seu estado de esprito oscilou entre uma 
melancolia depressiva - que o levava 
a ficar sentado ou deitado numa sonolncia estpida - e uma 
irritao nervosa, que o tornava impaciente com tudo e com todos.
J no pensava mais em humilhar Toni, em feri-la com mostras de 
indiferena. O que queria agora era simplesmente tornar a v-la, 
t-la a seu lado. Esse desejo se 
lhe estava tornando uma idia fixa, uma espcie de doena que nem 
por ser crnica perdia o carter agudo. s vezes, quando os filhos 
se aproximavam e tentavam subir-lhe 
pelas pernas, gritava:
- Flora, tira estas crianas daqui! Que diabo! Um cristo no pode 
ficar em paz nem na sua prpria casa?
Certa ocasio, exasperado por uma travessura de Floriano, pela 
primeira vez bateu no filho: uma palmada seca nas mozinhas. A 
criana desatou num choro sentido e 
Rodrigo, imediatamente arrependido, ergueu-a nos braos, apertou-a 
contra o peito, beijou-lhe as faces, murmurando palavras de conforto. 
Como o menino continuasse 
sacudido de soluos apaixonados, ele se comoveu tambm at as 
lgrimas e prometeu a si mesmo que dali por diante trataria de 
dominar-se, vencer aquela irritao 
que o estava transformando num sujeito azedo e intratvel.
Notava que Flora havia algum tempo estranhava sua atitude, embora jamais 
a comentasse. Andava tristonha e meio arisca. 
658
659
Passava fechada no quarto horas inteiras, ao cabo das quais saa, 
plida, os olhos vermelhos e inchados.
Uma tarde de chuva, percebendo que a mulher estivera a chorar, Rodrigo 
tomou-a nos braos, perturbado por um sentimento de culpa, beijou-lhe 
os cabelos, a testa, 
os olhos, sussurrando-lhe ao ouvido palavras carinhosas e 
penitenciando-se de seu comportamento. Explicou que estava sofrendo de 
surmenage e que ia fazer um tratamento 
de fosfatos. Talvez o melhor fosse irem todos passar uma semana no 
Angico e "tudo, meu amor, tudo dentro de pouco vai voltar  
normalidade". Sorriu e pediu um sorriso 
 mulher. Flora, porm, mirava-o com seus olhos escuros e srios, 
o rosto anuviado por uma expresso de constrangida tristeza. E seus 
lbios se recusavam a sorrir.
A chuva continuava a cair fina e mansa. Fazia quase uma semana que os 
Weber no apareciam no Sobrado. Onde estaria Toni? - pensou Rodrigo 
aquela mesma tarde no consultrio, 
vendo da janela o chuvisqueiro cair tristemente sobre as rvores da 
praa. Por onde andar essa ingrata? - murmurou, encostando a testa 
no vidro que seu hlito embaciava.
Num impulso calou as galochas, vestiu o impermevel, ps o 
chapu e saiu. Achou agradvel o contato gelado da garoa no rosto 
escaldante. Seus passos o levavam para 
a rua do Poncho Verde. O que ia fazer era tolo, juvenil, ridculo, 
indigno dum homem de sua idade, de sua posio. Podia dobrar a 
esquina e tomar outro rumo, ir 
direito ao clube, entrar numa roda de pquer ou ficar bebendo um 
conhaque com o Saturnino. No entanto aproximava-se cada vez mais da casa 
dos Weber. Ou via Toni 
ou estourava. L estava a meia-gua caiada, triste sob o cu 
enfumaado. Aproximou-se da casa com o coiao aos pulos e uma 
ardncia na garganta. Bateu  porta, 
uma, duas, trs vezes, primeiro em pancadas curtas e fracas, depois 
repetidamente, com fora. Fez uma pausa. A porta continuou fechada. 
Tornou a bater. Um vizinho 
apareceu  janela de seu chal e gritou: "No tem ningum em 
casa, doutor. Os Weber foram tocar numa festa na colnia". Sem ao 
menos agradecer pela informao, Rodrigo 
fez meia-volta, com a desnorteante sensao de ter sido pilhado no 
momento em que tentava
660
arrombar uma casa para roubar. Voltou sob seus passos, com um 
sentimento de malogro, entrou na farmcia, casmurro, sentou-se numa 
cadeira e ficou a olhar para 
o cartaz colorido em que havia um pescador de suas com um bacalhau 
s costas. Santuzza Carbone aproximou-se dele com um papel na mo. 
Era a conta do armazm. Queria 
saber se o doutor no achava que deviam mudar de fornecedor, porque os 
preos... Atalhou-a, brusco:
- A senhora faa o que entender e o que fizer estar muito 
bem-feito.
O dr. Carbone passou de avental branco, a caminho da sala de 
operaes. Fez um gesto amistoso:
- Hrnia estrangulada. Quer me ajudar?
- No.
- Ciao, carino!
Rodrigo meteu-se no consultrio, fechou a porta a chave, atirou o 
chapu sobre a mesa e sentou-se. Toni outra vez em Nova Pomernea! 
Teria ido com o idiota do Erwin? 
Era o que ele desejava ardentemente saber. Pensou em telefonar para a 
firma Spielvogel e chamar Erwin sob qualquer pretexto, a fim de 
veiificar se ele estava ou 
no na cidade. Oh! Mas isso era dum ridculo de matar! Sentiu-se 
mais uma vez ferido no seu orgulho de macho. E essa ftida ardia, 
sangrava e, como Toni fosse a 
causa de tudo, odiou-a. Mas nem por isso desejou com menos urgncia 
v-la.
Esperou com ansiedade a festa de aniversrio de Flora, para a qual os 
Weber haviam sido convidados.
Pouco antes das oito horas comearam a chegar os convidados. Chiru 
Mena, que como de costume deixara a esposa em casa ("coitada da Norata 
sempre envolvida com os 
guris") apareceu enfarpelado na roupa do casamento, trazendo pelo 
brao tia Vanja apertadinha num vestido de rendo preto que cheirava 
a ba velho.
661
O padre Astolfb entrou em companhia do coronel Jairo, cuja esposa, 
havia algumas semanas, tinha partido para o Rio de Janeiro, fugindo a 
mais um inverno gacho. 
Liroca infiltrou-se no Sobrado  sua maneira discreta, e s muito 
tempo depois de comeado o sero  que Rodrigo, surpreso, deu com 
ele num canto do escritrio a 
picar fumo. Ao contrrio de Jos Lrio, os Carbone irromperam 
ruidosamente, distribuindo abraos e beijos e enchendo de presentes os 
braos de Flora.
Aderbal Quadros, que chegara do Sutil aquela tarde com a mulher, 
envergava uma roupa de casimira preta e tinha os ps apertados em 
botinas de elstico: trazia ao 
pescoo um leno branco de seda, pois "s depois de morto  que 
me botam colarinho duro". Andava dum lado para outro nas salas a pitar 
seu cigarro de palha.
Sobraando os estojos dos instrumentos, os Weber entraram pouco 
depois, envoltos numa aura de alfazema e naftalina. Rodrigo recebeu-os 
no vestbulo com uma clida 
cordialidade. Frau Weber beijou-lhe ambas as faces. Herr Weber 
apertou-lhe a mo, sacudindo-a repetidamente, os olhos claros cheios 
dessa expresso vazia de quem 
no sabe com quem est falando. Rodrigo no prestou a menor 
ateno ao que Wolfgang lhe disse no momento de cumpriment-lo, 
porque seus olhos estavam j postos em 
Toni, que recostava o estojo do violoncelo contra o consolo.
Mis seria mesmo Toni quem ali estava a olhar furtivamente para o espelho 
e a umedecer faceiramente os lbios com a ponta da lngua? Rodrigo 
franziu a testa. Achava-a 
mais alta, mais adulta, mais mulher, e isso no s o surpreendia 
como tambm lhe aumentava o desejo de possu-la. Que se passara com 
Frulein Weber? Ah! Cortara 
as tranas, penteara o cabelo em bandos, calava sapatos de salto 
alto...
Caminhou para ela de braos estendidos, tomou-lhe de ambas as mos e 
beijou-as num doce estonteamento. E no momento em que a ajudava a tirar 
o casaco, apertou por 
alguns segundos os ombros dela, aspirou-lhe a fragrncia dos cabelos e 
murmurou: "Tenho sentido muita falta de ti..."
Toni nada disse. Caminhou para Flora, que naquele instante vinha a seu 
encontro, e ambas as mulheres apertaram-se as mos.
Rodrigo voltou a cabea e viu a prpria imagem refletida no espelho: 
a face dum homem de orelhas afogueadas e olhar apaixonado. Ajeitou a 
gravata num gesto automtico 
e acompanhou o grupo que se dirigia para a sala de visitas.
Abriu duas garrafas de champanha, encheu as taas dos convivas e por 
fim ergueu a sua:
- Nesta data, precisamente h cento e vinte e seis anos, na cidade de 
Paris caia a Bastilha, e exatamente nesta data h...
Olhou para a mulher e sorriu:
- Posso dizer?... H vinte e cinco anos nascia a Flora. O primeiro 
acontecimento foi de importncia capital na Histria da Humanidade. 
O segundo, decisivo na histria 
da minha vida. Eu poderia citar os nomes de Robespierre, Marat, Danton, 
Saint-Just e dezenas de outros como os heris do primeiro fato...
Olhou para o casal Quadros, que estava sentado no sof e prosseguiu:
- Mas ali esto os dois responsveis pelo segundo acontecimento.  
 sade de Flora e  deles que eu bebo.
Todos ergueram as taas e beberam. Rodrigo beijou a testa da esposa, 
em cujas orelhas faiscavam os brincos de brilhante que ele lhe dera 
aquela manh como presente 
de aniversrio.
7
O relgio de pndulo bateu nove badaladas. O Sobrado estava cheio 
duma alegre algazarra. Como de costume as mulheres se haviam reunido na 
sala de visitas; os homens 
tinham ficado no escritrio.
Espremida no sof entre Frau Weber e dona Santuzza, tia Vanja 
comentava o noivado de Jacques Meunier e Doralice Fagundes.
- Bem como nos romances! Dir-se-ia uma pgina sada duma obra de 
Gaboriau ou Perez Escrich... Quem havia de imaginar, no  mesmo? O 
amor tudo pode e a constncia 
tudo vence. Deus, na
662
663
sua infinita sabedoria, deve ter compreendido as necessidades do 
moo. E de resto, mais vale um bom marido que um mau padre! Frau Weber 
escutava a tia de Chiru 
com ar atencioso, e como no entendesse o que ela dizia, limitava-se a 
sorrir e a sacudir a cabea. Dona Santuzza, desatenta  conversa, 
seguia com o olhar o marido 
que naquele momento atravessava a sala, entrava no escritrio, batia 
no ombro de Rodrigo e entregava-lhe um papel.
- Que  isso, dr. Carbone?
O cirurgio fez o amigo ler uma cpia da carta que naquele dia ele 
dirigira ao cnsul da Itlia em Porto Alegre, oferecendo seus 
servios mdicos ao exrcito de 
Sua Majestade o rei da Itlia. Rodrigo passou os olhos distraidamente 
por aquelas linhas, compreendendo apenas aqui e ali o sentido duma frase 
- o suficiente para 
ver que a coisa toda era uma mistura de patriotismo de pera, imagens 
dannunzianas e jargo cirrgico.
A um canto do escritrio Babalo contava a Liroca suas proezas no 
Sutil: a prxima colheita de trigo, planos de comprar um touro Polled 
Angus, nome este que ele aportuguesava, 
reduzindo-o a "culango".
Impassveis e ptreas como um par de caritides, Maria Valria e 
Titina, sentadas lado a lado, os braos cruzados sob os xales, olhavam 
a cena com uma serenidade 
crtica. E Flora, com o prato de croquetes numa mo e o de pastis 
na outra, andava de conviva em conviva, servindo-os.
Vindo da cozinha, Chiru entrou na sala com uma perna de galinha na 
mo, a mastigar com gosto. Olhando para o leno vermelho cuja ponta 
sobressaa do bolso superior 
do palet do "velocino de ouro", o coronel Jairo perguntou:
- Como vai a situao poltica, sr. Mena?
Chiru arrancou mais um naco de carne da perna da galinha, antes de 
responder:
- A coisa est feia, coronel. Acho que vai haver barulho. Havia menos 
de duas semanas, Borges de Medeiros, que estava
gravemente enfermo, passara o governo do Estado ao vice-presidente, 
general Salvador Pinheiro Machado. Por toda a parte os nimos andavam 
exaltados por causa da 
candidatura de Hermes da Fonseca
664
 senatoria. O dr. Ramiro Barcellos, republicano dissidente, aceitara 
finalmente a sua em contraposio  do marechal. O Comit 
Central Acadmico de Porto Alegre 
telegrafara a Rafael Cabeda e Fernando Abbott fazendo-lhes um apelo para 
que apoiassem a campanha de Ramiro Barcellos contra o que ele chamava de 
"a ignomnia da 
candidatura marechlica".
- A esta hora - disse Chiru - est havendo um meetng em Porto 
Alegre, na praa Senador Florncio. E as orelhas do marechal e do 
senador Pinheiro devem estar ardendo...
Jairo ps a mo no ombro do interlocutor:
- Nunca em toda a Histria de nossa ptria houve homem pblico 
mais injustamente atacado e difamado do que o marechal Hermes!
- Injustamente? - estranhou Rodrigo.
- E por que no? - retrucou Jairo com veemncia. A caricatura, a 
imprensa oposicionista e a malcia popular ajudadas pela insdia dos 
inimigos do marechal, haviam-no 
apresentado ao pas como um imbecil, um dbil mental, quando na 
verdade ele era um homem culto e talentoso, um grande estrategista, o 
nico chefe militar sul-americano 
que realmente impressionara o Estado-Maior do Kaiser.
- X mico! - exclamou Babalo. E, num eco, Liroca repetiu: "X mico".
- Alm disso - prosseguiu o coronel -, Hermes da Fonseca era um homem 
honesto, decente, de vida privada limpa e corao generoso. Sim, 
no negava que em seu governo 
tivesse havido excessos, inpcias, erros... Mas pode um presidente da 
Repblica ser responsvel por tudo quanto acontece no imenso 
territrio nacional? A Hermes 
da Fonseca, o exrcito devia sua reorganizao e muitos estados a 
extino de suas odiosas oligarquias.
Rodrigo no prestava mais ateno ao que o amigo dizia, pois 
estava com o olhar e a ateno voltados para Toni, que conversava 
animadamente com o padre Astolfo junto 
 porta da sala de jantar. De repente a moa atirou a cabea para 
trs e soltou uma risada. Rodrigo sentiu-a como uma carcia que lhe 
percorreu o corpo inteiro, 
num calafrio.
665
i
fti
Desviou o olhar da Frulein e fitou-o no irmo, que l estava no 
escritrio, sentado em silncio ao lado do pai. Que diabo ter o 
rapaz? - tornou a perguntar a si 
mesmo. A proximidade de Wolfgang causava-lhe certo mal-estar. Achava-o 
demasiadamente belo, duma beleza feminina, e isso de certo modo o 
ofendia. Enfim...
Naquele instante Flora tomou o brao de Toni e levou-a para o fundo da 
casa. O padre Astolfo aproximou-se do grupo masculino.
- J discutindo poltica? - perguntou, sorridente, apoiando os 
cotovelos no respaldo duma cadeira.
Aderbal ergueu os olhos para o vigrio.
- Eu estava dizendo ao coronel que o dr. Jlio de Castilhos est 
fazendo uma falta danada. O partido est dividido. O Borjoca se deixa 
engambelar pelo Pinheiro Machado, 
faz tudo o que ele quer...
Babalo - refletiu Rodrigo, olhando para o sogro - no deixava 
apagar-se nunca sua lmpada votiva ao p do altar de So Jlio 
de Castilhos. Por sua vez Liroca vivia 
a acender velas de libra diante da imagem de So Gaspar Martins. 
Aqueles dois exemplos de f e devoo deixavam-no comovido.
- O Borges no tem vida pra muito tempo - declarou Chiru, de maneira 
peremptria.
- Deus te oua! - murmurou Liroca. E o coronel Jairo lanou-lhe um 
olhar de reprovao.
- No diga uma coisa dessas, sr. Lrio. O dr. Borges de Medeiros  
um dos maiores estadistas vivos do Brasil!
- X mico! - E o rosto de Liroca de sbito mudou de expresso 
quando ele avistou Maria Valria que entrava com um prato de pastis 
fumegantes, recm-sados da frigideira.
Rodrigo procurava Toni com os olhos. Para onde diabo teria Flora levado 
a menina? Era angustiante t-la sob o mesmo teto e no poder sequer 
aproximar-se dela.
Chiru segurou o brao de Rodrigo, arrastou-o para perto da janela e 
segredou-lhe:
- J reparaste no jeito do Weberzinho olhar para ti?
666
-- No. Por qu?
- Aquilo  paixo, menino, e paixo cabeluda.
- Deixa de bobagem!
- Meu olho nunca me engana. No  de hoje que eu venho observando a 
coisa. Disfara e olha...  como se no existisse mais ningum 
nesta casa, s tu.
Rodrigo ficou embaraado, pois de repente compreendia certas coisas 
que antes lhe pareciam obscuras. Sempre notara no olhar do rapaz uma 
expresso estranha que lhe 
tornava insuportvel encarlo. E agora ele recordava o dia em que 
Wolfgang lhe aparecera no consultrio, queixando-se de dores no peito 
e pedindo-lhe um exame geral. 
Ele lhe dissera: "Tire o casaco e a camisa", aproximara-se da pia e ali 
ficara a lavar demoradamente as mos. Ao voltar-se, vendo o rapaz 
completamente despido, 
murmurara com certa irritao: "No era necessrio..." E ficara 
contemplando conturbado aquele adolescente que ali estava de braos 
cados, nu, alvo e louro como 
um jovem deus da mitologia germnica. E o rapaz mirava-o com um olhar 
splice, ansioso, tristonho, e pelo pulsar acelerado de sua veia 
jugular Rodrigo podia avaliar 
o ritmo daquele pobre corao. Era uma situao embaraosa. 
"Sente-se" - ordenara com rispidez. O rapaz obedecera. Ele lhe 
auscultara os pulmes e o corao descompassado, 
apressando-se a dizer: "O senhor no tem nada de orgnico. Deve ser 
uma dor muscular". Receitara-lhe um linimento e mandara-o embora. E 
agora que Chiru lhe dizia 
aquelas coisas embaraosas, ele via toda a cena a uma nova luz.
- Deixa de bobagem! - repetiu.
- Atiraste no que viste e acertaste no que no viste. A vida  assim 
mesmo, rapaz.
Aquela referncia velada a Toni exasperou Rodrigo, que fechou a cara.
- Probo-te de me tocares outra vez nesse assunto. E se contares isso 
a outra pessoa, palavra que corto as relaes contigo.
- Est bem, no te ofendas, est bem. Este peito  um tmulo. 

667
Quando Rodrigo voltou para o grupo, Jairo fazia a defesa de Borges de 
Medeiros e da ditadura republicana positivista, a qual, a seu ver, seria 
a nica salvao 
para o Brasil. E o coronel que chegara um tanto macambzio  festa 
falava agora com paixo, de p, a gesticular na frente do vigrio.
- Que panorama oferece nossa poca? - perguntou. - O da mais profunda 
e desoladora anarquia moral e mental. Ningum acredita em mais nada, 
no se adora nem sequer 
a deusa Razo, como os revolucionrios de 1789, mas a deusa 
Dvida...
- Nem todos, coronel - protestou o vigrio - nem todos...
- As velhas bases intelectuais e morais da humanidade ruram por terra 
por culpa do regime que por tanto tempo dirigiu os destinos da 
humanidade: o catlico feudal.
- Mas o senhor se esquece - obtemperou o padre, com seu jeito ponderado 
e respeitoso - do servio que o feudalismo prestou ao mundo com as 
Cruzadas, por exemplo...
- Ali! Mas depois das Cruzadas o catolicismo perdeu toda a iniciativa 
social e ficou numa triste dependncia dos poderes polticos. O que 
tem feito de l para c 
 simplesmente tratar de sobreviver...
- O que no  pouco - observou Rodrigo, com os olhos a andar dum 
lado para outro, em busca de Toni.
Babalo alisava uma palha de milho com a lmina da faca, dando ao que o 
coronel dizia uma ateno meio cptica.
- Isso  o que diz Comte - reagiu o padre. - Mas o que ns 
catlicos lemos na histria  coisa muito diferente.
- Ora - prosseguiu o coronel, apanhando distraidamente um croquete -, o 
regime feudal se foi aos poucos decompondo  medida que o esprito 
positivo e a atividade 
industrial se iam desenvolvendo. E que aconteceu quando a velha 
organizao tombou desfeita em p? No havia nada para 
substitu-la. Em suma: a humanidade necessitava 
e necessita ainda hoje duma doutrina de carter geral, uma doutrina 
social e religiosa capaz de constituir um regime para esta nossa poca 
desencantada.
668
- Creio que o senhor saltou por cima de alguns captulos importantes 
da histria universal - observou Rodrigo, no momento exato em que 
Woifgang lhe lanava mais 
um de seus olhares desconcertantes. - Onde fica a Revoluo 
Francesa?
O positivista fitou o croquete .que tinha entre os dedos, e franziu a 
testa:
- A revoluo de 89 apenas apressou a derrubada do velho regime, mas 
acabou insistindo na metafsica revolucionria, que  uma arma de 
destruio e no de construo, 
pois est baseada no princpio da negao de todo o governo e de 
toda a organizao social. Em suma: o passo que se deu com a 
Revoluo Francesa no foi  frente. 
Foi, por mais paradoxal que parea,  retaguarda.
Comeou a comer o croquete.
- Heresia! - exclamou Rodrigo.
- A crise social em que nos debatemos comeou no sculo XIV e se 
tornou mais aguda ainda depois da Revoluo Francesa.
Naquele momento Toni voltava  sala de visitas. O dr. Carbone 
aproximou-se da moa, enlaou-lhe a cintura, tomou-lhe uma das 
mos e comeou a danar com ela uma 
valsa de opereta, que ele prprio trauteava.
Patife! - pensou Rodrigo. Ali estava a vantagem de usar barbas. Como  
que posso parecer um tio inofensivo com esta cara rapada, e todo 
perfumado de Chantecler de 
Caron?
Tornou a encher a taa de champanha e bebeu um prolongado sorvo.
- Qual  ento - perguntou o padre - a soluo que o coronel 
prope? 
- Precisamos duma nova f, reverendo.
- E que  que h de errado na velha?
- A vossa f diz respeito s coisas e s almas do outro mundo ao 
passo que estamos precisando duma f que ponha em ordem as coisas e a 
gente deste mundo.
- Mas este mundo  apenas uma passagem para o outro, coronel. E o 
grande problema no  apenas de ordem poltica, mas antes de 
natureza moral.
669

- De pleno acordo! Temos de fazer que a reorganizao mental e moral 
preceda a reorganizao poltica. Necessitamos regular o quanto 
antes as relaes entre a famlia 
e a sociedade.
- S quem pode fazer isso  a Igreja, com a sua autoridade moral.
- E por que no o fez nestes quase dois mil anos de sua existncia? 
Mas no mudemos o rumo desta palestra, caro reverendo. Veja bem o meu 
ponto de vista. A nica 
coisa capaz de evitar as perturbaes sociais oriundas da anarquia 
espiritual em que nos debatemos  a criao duma autoridade 
temporal verdadeiramente poderosa, 
capaz de efetuar a regenerao moral e mental da humanidade, criar, 
em suma, uma nova f.
- Uma ditadura? - exclamou Rodrigo.
- Sim - confirmou o coronel. - No a ditadura orgulhosa, cruel e 
desumana preconizada pelo nosso Rubim, mas a ditadura republicana 
positivista.
Babalo escutava o coronel, muito srio, como a fazer um esforo para 
compreender aquela dissertao. Rodrigo no conseguiu decifrar a 
expresso do rosto de Liroca: 
no era de perplexidade ou confuso, mas de aborrecimento temperado 
de leve ironia: era como se o velhote achasse que tudo aquilo no 
passava de conversa fiada.
Rodrigo deu um passo na direo do coronel, segurou-lhe um dos 
botes da tnica e, com voz j um pouco arrastada, disse:
-- Pois permita que eu faa mais uma vez a minha declarao de 
princpios. Creio nos direitos do homem e em todas as conquistas da 
Revoluo Francesa. Creio na liberdade, 
na igualdade e na fraternidade. Numa palavra: creio na democracia.
- Mas, meu amigo...
- No me interrompa, coronel, por favor. Quero terminar o meu 
pensamento. Acredito no progresso e, como Saint-Just, acho que a 
felicidade  possvel sobre a Terra. 
O que vai pr essa felicidade ao nosso alcance, no que diz respeito ao 
conforto material e  sade,  a cincia, a cincia aplicada. 
Estamos no limiar duma grande 
era!
Aquele princpio de embriaguez dava-lhe um otimismo exaltado e fcil.
670
- Neste momento - prosseguiu - a grande tarefa que temos pela frente  
a de derrotar o Kaiser e as foras da barbrie, limpando o caminho 
para a democracia. No tenho 
a menor dvida: vamos entrar na idade de ouro da Histria!
- Pois eu... - comeou Jairo. Mas de novo Rodrigo o interrompeu.
- Olhe, coronel, no tenho a menor simpatia pelos Estados Unidos, mas 
admiro a Constituio dos yankees, que reza: "Todos os homens foram 
criados iguais... etctera... 
etctera... etctera...
O coronel segurou-lhe com fora ambos os braos:
- A influncia norte-americana na Constituio brasileira  uma 
influncia anrquica e retrgrada. Quisemos fazer uma imitao 
emprica da Repblica americana e 
qual foi o resultado? Acabamos caindo na metafsica pai lamentar.
- Pois eu sou pelo Parlamento - afirmou Rodrigo, j desinteressado da 
discusso, a vasculhar a sala com o olhar. (Toni, onde ests, meu 
bem?)
- O regime parlamentar  caro e inoperante - replicou o positivista.
Naquele momento Carbone aproximou-se do gramofone e plo a funcionar. 
Amato rompeu a cantar a grande ria d'O barbeiro de Sevilha. Chiru fez 
uma careta e tapou os 
ouvidos com as mos. Olhando para Weber, que comia o mingau que 
Flora acabava de lhe trazer, Rodrigo teve a impresso de que o maestro 
sofria: para ele pera 
era cacofonia, caricatura musical.Jvas Cario Carbone, esse estava 
feliz, andava de grupo em grupo, com a taa na mo, em passinhos de 
ballet a cantarolar com o 
bartono - Fgaro, Fgaro, Figuro! Parecia um gnomo bbedo em 
meio duma floresta.
Rodrigo deixou os amigos e acercou-se de Toni. Era horrvel no 
poder ficar a ss com a Fraulein, lev-la para algum canto escuro 
daquela casa, ou p-la dentro 
do Ford e sair com ela a andar pelo campo sob as estrelas.
- Est gostando da festa? - perguntou.
- Epatanti - exclamou ela. - Vraiment patant, mon atni. E de novo ele 
se viu como um peixe imvel no fundo daqueles
dois lagos de gua-marinha. Ia dizer-lhe um galanteio, mas com o
671
rabo dos olhos viu que Titina e Maria Valria o vigiavam como ces 
de fila.
Santuzza ergueu-se, pegou no brao de Toni e convidou-a a subir para 
ver ''i bambini". Sem esperar a aquiescncia da menina, arrastou-a 
consigo.
Gringa maldita! - pensou Rodrigo. Ser que fez isso de propsito, 
porque desconfia de alguma coisa? O remdio era beber mais, mais, 
sempre mais. Trouxe da cozinha 
outra garrafa de champanha, abriu-a no meio da sala, com estardalhao, 
encheu sua taa e bebeu como quem se dessedenta. O barbeiro de Sevilha 
cessou de cantar. Chiru 
postou-se na frente do gramofone e gritou para Carbone, que se 
aproximava:
- Se o senhor me bota outra chapa nos nos estranhamos!
- Bngante! - sorriu o cirurgio. E com a piteira riscou o colete 
branco do outro. - Que belo ventre para uma laparotomia!
Chiru acercou-se, mesureiro, de mam Weber.
- Por que a senhora no toca alguma coisa, dona Frau?
A austraca sorriu, encolheu os ombros e ergueu as mos espalmadas: 
no entendia a pergunta. Rodrigo traduziu o pedido.
Frau Weber caminhou para o piano, abriu-o, fez girar o assento do banco, 
sentou-se e comeou a tocar uma valsa de Chopin. A princpio todos 
escutaram em silncio, 
mas em breve as conversas se reataram, primeiro em murmrios e 
cochichos, depois livremente, em tom natural.
Quando Rodrigo tornou a entrar no escritrio, o coronel ainda atacava 
o sistema parlamentarista. Seria um regime de desigualdade - dizia - em 
que s teriam representantes 
os fazendeiros de caf e de gado, os usineiros de acar e o alto 
comrcio. Como acontecera no tempo do Imprio, seriam eleitos apenas 
os que possussem dinheiro, 
posio social, qualidades de orador ou bons padrinhos. Em suma: o 
parlamentarismo era o governo da burguesia!
672
- Mas poder haver regime realmente republicano - perguntou Rodrigo - 
sem Parlamento, isto , sem a participao no governo dos 
representantes do povo?
-  uma iluso imaginar que os parlamentares seriam verdadeiros 
representantes do povo. O povo nunca os elegeu e jamais os eleger. O 
povo vota em quem os chefetes 
locais mandam. E, depois, veja quanto custa um Parlamento. E o povo 
ter de pagar por um luxo de que ele no tira o menor benefcio. 
De resto, todos sabemos que 
o sufrgio universal  uma farsa..
O padre fez um gesto que exprimia o seu desacordo. Rodrigo encheu a 
taa dos amigos.
- Em suma - disse o padre Astolfo -, o que o senhor preconiza  um 
ditador...
- Padre, no pronuncie com tanto desprezo a palavra ditador. Digamos 
antes que o governo ideal ser o de um estadista, veja bem o sentido 
desta palavra, um estadista 
capaz de exercer a ditadura republicana, a qual, segundo Augusto Comte, 
deve concentrar todo o poder poltico, deixando a uma cmara, com um 
nmero reduzido de membros, 
as funes puramente financeiras.
-  o que temos no Rio Grande! - disse Rodrigo.
- Para felicidade vossa e do resto do Brasil.
- No estou muito certo disso...
Jairo voltou a cabea para o dono da casa e mirou-o comuma 
expresso de surpresa.
- Mas o meu caro amigo no vai candidatar-se a um lugar na 
Assemblia, indicado pelo partido governista? 
Rodrigo sorriu:
- Tambm disso no estou muito certo... O padre olhou para dentro de 
sua taa.
- Mas quem  que vai fiscalizar essa sua admirvel ditadura, 
evitando que o ditador cometa excessos, o que  de se esperar dum ser 
humano falvel?
- A opinio pblica! - exclamou o coronel. - No dia em que o ditador 
tentar entravar o progresso social, o povo o forar a demitir-se.
673
- Como? insistiu o vigrio. - Senhor de barao e cutelo,
o ditador poder perpetuar-se no poder, abafando pela fora ou pela 
fraude essa opinio pblica!
- A prpria Cmara ser o porta-voz da opinio pblica, 
negando-se a votar impostos.
Falcias, coronel - retrucou o padre Astolfo -, falcias.
No precisamos ir muito longe para achar um exemplo de
bom republicanismo positivista. O vosso Estado segue o ideal de Comte no 
que diz respeito  liberdade espiritual. O governo do dr. Borges de 
Medeiros  progressista 
e social e no se imiscui em crenas e doutrinas religiosas. D 
plena liberdade de discusso e reunio, de sorte que o povo, bem 
informado, ser sempre o melhor 
fiscal do governo. O mal da civilizao teocrtica foi a fuso 
do poder temporal com o espiritual. O governo poltico tem de evitar o 
terreno terico.
A valsa terminou. Houve aplausos distrados.
- E que  que os senhores positivistas querem dizer - perguntou o 
vigrio, puxando o lbulo da orelha - com a "incorporao do 
proletariado  sociedade moderna"?
Rodrigo sentou-se pesadamente. Por que o padre provocava o coronel? 
Assim no havia nenhuma esperana de que o homem se calasse. Que 
importava a ele, Rodrigo, a 
ditadura positivista, o dr. Borges de Medeiros, Augusto Comte e a 
confuso mental do Ocidente? Seu corpo ardia de desejo pelo de Toni. 
No havia partcula de seu 
ser que no estivesse faminta de Toni dum modo clido, latejante, 
insuportvel. Por onde andaria ela? Ah! Se eu pegasse essa guria 
sozinha num desses cantos escuros...
L estava o dr. Carbone a encher de novo a taa de champanha. Como 
podia caber tanta bebida num corpo to pequeno? Quis erguer-se e fazer 
esta pergunta em voz alta 
ao cirurgio, mas deixou-se ficar sentado, num estonteamento que lhe 
dava desejos de dizer e fazer tolices.
O coronel estava inflamado. O proletariado - discursava -, produto da 
poca industrial pacfica que se seguira  Idade Mdia, havia 
ficado  margem da sociedade. 
Seus membros ganhavam pouco, viviam expostos  fome e  misria, 
eram uma mancha na face
674
da Terra. Ora, os diretores das indstrias que se beneficiavam do 
trabalho desse proletariado, deviam assegurar-lhe melhores condies 
de vida. Os ricos no cumpririam 
jamais esses deveres se no tossem forados a isso sob a presso 
da opinio pblica esclarecida. Assim era necessrio um novo 
sacerdcio, uma nova f para esclarecer 
essa opinio pblica. Era indispensvel uma religio definitiva 
baseada na liberdade de crena e culto e no livre exame.
- Mas at onde - perguntou o padre - devem ir essas liberdades?
- At o ponto em que no ponham em perigo a ordem pblica. E 
oua mais isto, meu caro vigrio, essa nova f de que tanto 
necessitamos deve ser o fundamento duma 
verdadeira educao nacional que abranja todas as cincias, desde 
a matemtica at a moral...
Rodrigo tinha vontade de gritar: "Calem a boca! Que importa a 
matemtica e a moral? O que eu quero  a Toni, a Toni, a Toni! O 
mais  conversa".
- O poder temporal - prosseguiu Jairo - deve governar apenas os atos. As 
doutrinas e as opinies, a f, em suma, so coisas que pertencem 
ao reino da conscincia 
e devem ser deixadas ao arbtrio de cada indivduo.
O padre parecia estar empenhado em dilacerar a prpria orelha.
- Tudo isso  muito confuso, coronel.
- E vs aqui no Rio Grande do Sul tendes no dr. Borges de Medeiros o 
homem capaz de exercer essa benfica ditadura cientfica.  um 
estadista duma probidade indiscutvel, 
um verdadeiro varo de Plutarco. Seu governo tem sido modelar. 
Conseguiu o milagre do equilbrio oramentrio e criou para o 
resto do Brasil um padro exemplar de 
honestidade.
Achegou-se ao padre e pousou-lhe ambas as mos nos ombros:
- E a diviso de terras entre os colonos, obra de seu governo,  o 
primeiro passo srio que se d neste pas no sentido de 
arranc-lo do regime feudal no qual de 
certo modo ele ainda se encontra!
Sentou-se, ficou por alguns instantes a olhar para o padre e depois,  
guisa de remate:
675
- O progresso - disse -  o desenvolvimento da ordem. No poder 
haver progresso sem ordem. E s poderemos conseguir ordem e progresso 
se combinarmos inexoravelmente 
o estado ditatorial com o republicano. O primeiro assegurar a ordem 
mediante a autoridade e o segundo garantir o progresso por meio da 
liberdade.
Babalo e Liroca trocaram um olhar cptico.
10
Chiru levou a tia Vanja para casa antes das dez, segredando ao ouvido de 
Rodrigo que no voltaria, pois Saturnino o esperava para uma 
vagabundagem noturna. Babalo
e Titina estavam j recolhidos a seus aposentos quando o vigrio e o 
coronel fizeram as despedidas e saram juntos de braos dados. 
Ningum viu quando Liroca se 
esgueirou da sala como um ladro, apanhou no vestbulo o chapu e 
a bengala e ganhou a rua.
Flora, que acabava de descer, murmurou para Rodrigo:
- Sabes o que aconteceu pra dona Santuzza? Estava cantando pras 
crianas dormirem e acabou tambm pegando no sono. Agora esto os 
trs na nossa cama...
Rodrigo sorriu.
- Quero s ver como  que vamos remover de l aquela baleia...
Cario Carbone, completamente bbedo, comeou a danar sozinho no 
meio da sala uma fantstica tarantela, sob o olhar reprovador de Maria 
Valria, que o observava 
muito sria, sentada na sua cadeira de balano.
Herr Weber ergueu-se, tirou o relgio do bolso do colete, olhou o 
mostrador e fez um sinal para o resto da famlia.
- No senhor! - protestou Rodrigo. -  muito cedo. Agora  que a 
festa vai ficar boa. Titia, mande vir mais um mingau pr maestro!
Foi empurrando o austraco cordialmente na direo duma cadeira e 
obrigando-o a sentar-se de novo. Num assomo de cordialidade abraou 
Wolfgang.
676
- Toque um pouco de cordeona - pediu.
O rapaz tirou o instrumento do estojo, acomodou-o sobre as coxas e 
arrancou um acorde que encheu a casa.
Flora sentou-se com um suspiro de canseira. Maria Valria levou a 
mo  boca para abafar um bocejo.
- Uma valsa! - pediu Rodrigo.
Wolfgang comeou a tocar a valsa d'A viva alegre, e Toni, Frau e 
Herr Weber, Rodrigo e Flora puseram-se a acompanhar a melodia com 
movimentos de cabea. 
Carbone olhava fixamente para Herr Weber e, quando a valsa terminou, 
ergueu um dedo acusador na direo do maestro e disse com voz 
solene:
- Um submarino austraco ha torpedeado o cruzador italiano Amalfi. 
Maledizione!
Herr Weber mirava-o com seus olhos ausentes, mas em seu rosto havia uma 
vaga expresso de alarma. O cirurgio continuou.
- Eu devia te odiar, tedesco duma figa, mas tu sei mio fratello in 
Cristo. Io te bacio Ia faceia!
Aproximou-se de Herr Weber, tomou-lhe a cabea com ambas as mos e 
aplicou-lhe um sonoro beijo em cada face. Rodrigo bateu-lhe nas costas 
com tanta fora que Carbone 
quase caiu por cima do austraco.
- Bravo, doutor! Isso  que  esprito cristo.
Carbone recuperou o equilbrio e disse algo que ningum ouviu, pois 
o som da cordeona abafou-lhe a voz. La paloma.
Rodrigo namorava Toni com olhos famintos. Wolfgang olhava para Rodrigo, 
que Flora tambm observava disfaradamente. Herr Weber piscava: o 
sono j lhe havia jogado 
areia nos olhos. Mas quando Wolfgang, inesperadamente, entrou a tocar a 
Pequena fuga, o maestro sorriu, voltou-se para Rodrigo e gritou-lhe com 
uma alegria de criana:
- Bach!
O outro fez com a cabea um sinal afirmativo. Afinal de contas at 
Bach lhe sabia bem aquela noite. Olhou para a Dinda, que parecia 
balouar-se na cadeira ao ritmo 
de fuga. O mistrios do mundo! Bach, a cadeira da velha Bibiana, Maria 
Valria, o Sobrado,
677

a guerra e Toni, sobretudo Toni. A vida era misteriosa, absurda e bela. 
E como era bom estar vivo!
Wolfgang fez uma pausa, ficou a olhar para a janela, com uma expresso 
noturna nos olhos de clios longos. Rodrigo aproximou-se de Toni, 
tomou-lhe ambas as mos 
e disse em portugus:
- Agora a minha sobrinha vai interpretar alguma coisa no seu violoncelo.
Traduziu a frase para o francs e Toni fez um sinal de assentimento. 
Naquele momento Wolfgang rompeu a tocar o Boi-barroso. Frau Weber 
desatou a rir. Flora empertigou-se 
na cadeira, como se tivesse despertado de sbito, e Cario Carbone 
comeou a andar ao redor da pea, em passo de cake-walk.
No meio da confuso, Toni deixou apressadamente a sala. Rodrigo 
seguiu-a, numa insensata esperana. ( agora ou nunca!) Entrou no 
vestbulo. L estava a Fraulein 
a mirar-se no espelho. Correu para ela, agarrou-a pelos ombros, f-la 
dar meia-volta, puxou-a contra o peito e beijou-a com furor. Sua boca 
sugou como uma ventosa 
os lbios da rapariga, que no primeiro momento ficou como que 
paralisada, o corpo retesado numa instintiva atitude de defesa. Em 
seguida, porm, ele sentiu que os 
dedos dela entravam em seus cabelos, numa carcia desordenada, e que 
aquele corpo quente, tenro e palpitante no apenas se entregava, mas 
procurava tambm o seu. 
Ps-se a beijar-lhe as faces, a testa, os olhos, numa pressa gulosa. A 
boca de Toni ento tomou a iniciativa, colou-se avidamente  sua, o 
que o deixou desatinado. 
Suas mos comearam a percorrer o corpo da Fraulein, numa nsia 
cega e dilaceradora. Sentindo, porm, que ela desfalecia - a cabea 
atirada para trs, os olhos semicerrados, 
um dbil gemido a escapar-lhe da boca entreaberta - teve de 
enlaar-lhe a cintura para que ela no casse. Passou-lhe pela 
mente uma idia alucinada; ergu-la nos 
braos, subir a escada e lev-la para um dos quartos, l em 
cima... Mas o corpo de Toni tornou a enrijar-se e, desvencilhando-se 
dele, a rapariga apanhou o violoncelo 
e se foi quase a correr, rumo da sala de visitas.
Aturdido, Rodrigo desceu a escada, abriu a porta e saiu. Seu corpo 
inteiro latejava de desejo, o corao descompassado. Sentia
678
ainda nos lbios a presso dos lbios de Toni, e nas narinas o 
perfume de seus cabelos. Ps-se a andar meio s tontas na calada, 
depois atravessou a rua na direo 
da praa, meteu a mo no bolso, tirou um cigarro, prendeu-o 
entre os dentes e, esquecido de acend-lo, sentou-se num banco e dali 
ficou a olhar, ofegante, para as janelas iluminadas do Sobrado. Ela me 
ama... ela me ama... 
ela me deseja... ela  minha. O resto no importa. O resto  nada.
Cuspiu longe o cigarro. S aos poucos  que foi tendo conscincia 
do ar frio da noite e do fato de estar com a cabea descoberta. Levou 
as mos s faces e sentiu-as 
escaldantes. Tirou outro cigarro do bolso e acendeu-o com dedos 
trmulos. Chegavam agora at ele, vindos de sua casa, os sons 
aveludados do violoncelo. Rverie. 
Rodrigo ficou a escutar... E a melodia caiu como um doce leo sobre as 
queimaduras de seu desejo, mas no as apaziguou: deu-lhes, isso sim, 
uma esquisita pungncia. 
E de novo ele teve vontade de ver Toni. Ergueu-se, passou a mo pelos 
cabelos, ajeitou a gravata e tornou a atravessar a rua.
O relgio bateu a ltima badalada da meia-noite. Flora estava j 
recolhida. Maria Valria, depois da ronda habitual, subira para o 
quarto. Os Carbone dormiam, completamente 
vestidos, num dos quartos do andar superior. O casaro estava 
silencioso. Sozinho na sala de visitas, Rodrigo olhava para o prprio 
retrato e pensava em Toni. O 
efeito do champanha havia passado: bebera havia pouco uma xcara de 
caf preto, sem acar. Sabia que no poderia dormir ali 
estava a fumar, inquieto, com um sentimento 
de irritao que lhe vinha do desejo insatisfeito - um desejo que 
j agora era mais do crebro que propriamente do corpo. Aonde iria 
ele parar com aquela obsesso 
pela rapariga? Conhecia-se suficientemente bem para saber que no 
descansaria enquanto no a possusse e que, mesmo depois de 
possu-la, seu apetite por ela no 
ficaria saciado, pois havia de querer t-la mais vezes, muitas 
vezes... At quando, santo Deus, at quando? Pensou em Flora com um 
sentimento de culpa. Ela no merecia 
aquilo... Deu uma palmada no respaldo da poltrona, ergueu-se de sbito 
e comeou a andar dum lado para outro. Pensou nas conseqncias 
que aquela aventura podia 
ter, mas sabia - com que profundeza, com que plenitude, com que
679

certeza! - sentia que agora era tarde demais para recuar, mesmo que 
quisesse.
Ficou olhando para a cadeira junto do piano aberto - a cadeira onde Toni 
se sentara para tocar a Reverte. Era ridculo, absurdo, mas ele 
envolvia na sua ternura 
ertica at o violoncelo de Tom, como se o instrumento fosse uma 
parte anatmica daquele corpo querido.
Enfiou o sobretudo e o chapu e saiu. Parou na calada, indeciso. 
No seiia melhor avisar Flora de que ia sair? Deu de ombros. Fechou a 
porta a chave e comeou a 
andar, as mos nos bolsos, o cigarro pendente dos lbios. Era uma 
noite clara, grilos trilavam, estrelas luziam, cachorros latiam em ruas 
longnquas. Seus passos 
soavam solitrios na calada, levando-o para a rua do Poncho Verde. 
Rodrigo deixava-se conduzir. Que adiantava pensar? O instinto sempre 
tinha razo, e o instinto 
o levava para Toni. O resto era covardia. Talvez fosse uma caminhada 
perdida, uma excurso platnica de namorado que se contenta apenas 
com ver a casa onde sua bem-amada 
est dormindo. Mas Toni no podia estar dormindo. Se estivesse, que 
se rasgassem ento todos os tratados de psicologia e que ele, Rodrigo, 
atirasse aos cachorros 
sua experincia das mulheres. O mundo estava errado - concluiu, parado 
 esquina, a contemplar a meia-gua dos Weber. L dentro daquela 
casinhola vivia uma mulher 
de vinte anos que o amava, e ali fora estava ele a arder de desejo por 
ela. No havia na natureza nenhuma razo por que no se juntassem 
e amassem. No entanto, erguia-se 
entre ambos um muro, e um muro transparente, feito de convenes, 
mentiras, hipocrisias, fraquezas. Estava tudo errado, tragicamente 
errado - refletiu mordendo o 
cigarro e aproximando-se vagarosamente da casa. No fundo, a soluo 
do problema era uma questo de coragem. E coragem era o que no lhe 
faltava.
A janela do quarto de Toni dava para um terreno baldio. Rodrigo 
aproximou-se dela, pisando de leve, e ficou a escutar e a olhar para as 
vidraas. No viu o menor 
sinal de luz: a casa estava silenciosa e s escuras. Chegou a levantar 
a mo para tamborilar nos vidros com a ponta dos dedos. Mas 
conteve-se. Seria uma temeridade: 
os outros podiam ouvir. Talvez Toni tivesse trocado
680 "
de quarto... E mesmo que isso no houvesse acontecido, teria ela 
coragem de abrir a janela? Recostou-se na parede, e de repente o 
ridculo da situao caiu sobre 
ele, deixando-o com uma sensao de frio interior.
O melhor era voltar para casa - decidiu, contrariado. Mas naquele exato 
momento 
ouviu um rudo e seu corao disparou. Viu entreabrir-se a 
gelosia. Deu alguns passos e postou-se  frente da janela. Aos poucos 
a gelosia se foi abrindo e  luz 
do luar ele divisou o vulto de Toni por trs da vidraa. Por alguns 
segundos ambos ficaram imveis, como que presos dum mesmo 
sortilgio. Depois Rodrigo acercou-se 
da janela e com sinais pediu  Frulein que erguesse a vidraa. 
Ela, entretanto, continuava imvel, com um ar de sonmbula. Rodrigo 
encostou nos vidros as mos espalmadas 
e tentou erguer a guilhotina. Toni procurou det-lo com um gesto, mas, 
como ele insistisse, veio ajud-lo. E estava ainda de braos 
erguidos, tratando de prender 
a guilhotina, e j Rodrigo lhe enlaava a cintura, beijava-lhe as 
faces, os olhos, procurava-lhe a boca. Os braos da moa desceram e 
envolveram-lhe o pescoo, e 
de novo ele lhe sugou os lbios, cortando-lhe a respirao. Quando 
lhe deu um alento, ela murmurou: "Por amor de Deus, v embora!" 
Rodrigo sentia-a toda trmula 
- de medo, de frio, de amor? - e seus braos ora o repeliam ora o 
chamavam. "Por tudo quanto  sagrado neste mundo" - suplicava ela - 
"v embora!"
Como nica resposta Rodrigo largou-a, firmou-se com ambas as mos no 
peitoril e saltou para dentro.
11
No momento exato em que saa do quarto de Toni, pulando para o terreno 
baldio, um galo cocoricou num quintal prximo. (Galo cantando fora de 
hora: moa roubada.) 
Ficou por um instante acocorado onde tinha cado. Depois ergueu-se e 
comeou a andar por entre as ervas respingadas de sereno, na 
direo da rua. Sentia-se areo 
e trmulo, com um vcuo no crnio. Tinha a sensao de que 
caminhava dentro dum sonho. A noite, o ar frio e o silncio
681


das ruas desertas contribuam para essa impresso de irrealidade. Ao 
alcanar a calada oposta, fez alto, voltou-se e ficou contemplando 
a casa de Toni. Sentiu um 
aperto no corao, uma sbita fraqueza e comeou a chorar. As 
lgrimas escorriam-lhe pelas faces e ele no procurava enxug-las. 
Tirou um cigarro do bolso, levou-o 
 boca e acendeu-o. Ficou a fumar, a fungar e a olhar ora para a 
meia-gua dos Weber ora para a lua, que luzia sobre os telhados 
midos. Pensou comovido naquela 
menininha que nascera havia vinte anos num subrbio de Viena, 
freqentara um colgio de freiras onde aprendera a falar francs e 
a tocar violoncelo, naquela menininha 
que percorreu lguas e lguas e lguas de terra e mar para vir 
entregar sua virgindade a um Cambar num quartinho recendente a 
alfazema, l naquela meia-gua caiada. 
Algo de assustadoramente importante acontecera no universo: depois duma 
separao de milhes e milhes de anos, dois corpos celestes de 
rbitas diferentes se haviam 
encontrado. O mundo no poderia continuar a ser o mesmo depois desse 
encontro.
Ps-se a andar na direo de sua casa, ouvindo mentalmente vozes 
familiares - a do pai, a da esposa, a da madrinha. "Fizeste mal a uma 
moa." At tia Vanja lhe apareceu 
no pensamento, censurando-o: "Ai, cabecinha de bano, desonraste uma 
donzela!" Rodrigo queria sentir remorso pelo que acabara de fazer, 
procurava achar-se indigno, 
pois talvez por meio da auto-recriminao pudesse at certo ponto 
redimir-se perante... Perante quem? Perante si mesmo? Mas a verdade  
que no se sentia culpado 
de nenhum crime. Amava Toni e Toni o amava. O que fizera no fora 
premeditado (ou fora?). Como podia saber que ela era virgem? Ora! um 
incidente anatmico. Mas no 
era bem assim, ele sabia que no era. Toni ia sofrer. Viriam 
complicaes. Santo Deus! Se eu fao coisas como essa  porque 
estou vivo, vivo, vivo!
Mesmo que vivesse mil anos jamais poderia esquecer os momentos que 
passara na perfumada escurido daquele quarto. Sentia uma certa pena 
de Toni. Sim, pena, porque 
para ela aquele episdio ertico representara sofrimento. No fora 
apenas um dilaceramento fsico, mas tambm psicolgico, moral. Ah! 
O quanto a criaturinha relutara, 
mesmo depois que estavam na cama. Defendera-se durante
um tempo que a ele parecera uma eternidade. Eram os seus preconceitos 
religiosos, seus escrpulos com relao a Flora e at s 
crianas... Por fim, todas aquelas 
inibies se sumiram, ele como que as apagara a beijos, bem como uma 
esponja 
apaga riscos de giz num quadro-negro. Recordava com uma nitidez 
pungente a crise de desespero de que Toni fora tomada depois que o 
irremedivel acontecera. Lembrava-se 
tambm da prpria surpresa ante o acesso de ternura que se seguira a crise de desespero, uma ternura que aos poucos se fora aquecendo at 
transformar-se num desejo 
que levara Toni a se lhe oferecer, mas dessa vez num abandono completo. 
Rodrigo pensava tambm no longo perodo de calma em que ambos tinham 
ficado, enlaados na 
cama, peito contra peito, ventre contra ventre, coxa contra coxa, perna 
contra perna, a respirarem um dentro da boca do outro sob a calidez das 
cobertas - quietos, 
mudos, num delicioso torpor - ele a sentir as lgrimas dela a 
carem-lhe no peito numa ccega mida. E quando Toni lhe 
sussurrara ao ouvido que era hora de se separarem, 
ele se despegara dela com a dolorosa impresso que lhe arrancavam 
metade do prprio corpo.
Comeou a assobiar distraidamente a Reverte. Que iria dizer Flora se a 
encontrasse acordada? Cheirou as prprias mos, temendo que 
conservassem ainda o perfume de 
Toni. Se houvesse gua quente em casa, tomaria um banho de corpo 
inteiro antes de deitar-se... Encolheu os ombros, fatalista. De qualquer 
modo Flora ia desconfiar 
de que algo de extraordinrio se passara com ele. Era viva e tinha uma 
intuio agudssima.
Avistou o Sobrado e, como acontecia sempre, a casa lhe deu uma 
sensao de segurana e proteo. Atravessou a rua em passos 
apressados e, quando ia meter a chave 
no buraco da fechadura, ouviu um rudo de passos e uma voz.
- Rodrigo!
Fez meia-volta. Um vulto aproximou-se. Era o Neco.
- Que sorte eu te encontrar!
- Que foi que houve?
682
683

- Aconteceu uma coisa horrorosa. Em Porto Alegre a Brigada Militar 
dissolveu a bala o comcio dos estudantes contra a candidatura do 
marechal.
- No diga!
Mataram cinco pessoas e feriram umas trinta. Uma barbaridade, um 
banditismo!
- Como foi que soubeste?
Acaba de chegar um telegrama pr coronel Prates.
Rodrigo olhou na direo da Intendncia e viu uma janela 
iluminada.
- Vamos at l.
12
Encontraram o coronel Joca Prates em companhia do delegado de polcia 
e do secretrio municipal. Tinham os trs o aspecto sombrio.
- Ento, j soube? - perguntou o primeiro.
Rodrigo sacudiu afirmativamente a cabea, sentou-se numa poltrona e 
ficou a olhar por cima da cabea do intendente para o busto do dr. 
Jlio de Castilhos que ali 
estava contra a parede, sobre pequena coluna de granito polido. Com um 
certo constrangimento, o coronel Prates lhe resumiu o texto do 
telegrama: o piquete da Chefatura 
fora obrigado a carregar contra os manifestantes, que estavam 
perturbando a ordem.
- Mas  uma monstruosidade! - bradou Rodrigo. - No h nada que 
justifique atirar contra os estudantes, contra o povo. Na certa, havia 
mulheres e crianas nas ruas, 
no?
Joca Prates encolheu os ombros. Rodrigo ps-se de p.
- Essa candidatura desastrada est dividindo o nosso partido e vai 
acabar lanando o estado numa nova guerra civil!
Num silncio estpido, o intendente olhava fixamente para o 
telegrama que jazia sobre o bureau. Rodrigo apanhou o papel e leu. O 
despacho esclarecia que o comcio 
correra em perfeita ordem e que a interveno da fora policial se 
fizera mais tarde, quando os
684"
manifestantes percorriam em prstito a rua dos Andradas, gritando 
vivas e tentando perturbar a ordem.
- Canalhas! - murmurou ele. -  a histria de sempre. Quem tem 
fora abusa dela.
Depois, encarando firme o intendente, acrescentou:
- Vou passar um telegrama de protesto ao presidente do estado e outro ao 

presidente da Repblica. E vou telegrafar tambm ao senador 
Pinheiro dizendo que me envergonho de pertencer a um partido cujos 
chefes no trepidam em espingardear 
o povo.
O delegado olhava espantado do intendente para Rodrigo. O secretrio 
municipal limpava as unhas com a ponta dum canivete.
- Tenha calma, doutor - pediu Joca Prates. - No se precipite. A gente 
no sabe direito como foi a coisa.
- S sei  que h cinco mortos e trinta feridos. Para mim  o 
quanto basta!
- Pode ter havido provocao.
- A desculpa de sempre! O que acontece  que nossos governantes no 
toleram oposio. Nossa democracia  apenas de fachada. Estou 
farto dessa farsa!
Neco olhava para o amigo com afetuosa admirao.
- Se o dr. Borges de Medeiros estivesse no governo - murmurou o delegado 
- nada disso acontecia...
- O dr. Borges no  diferente dos outros - replicou Rodrigo. - O 
que ele quer mesmo  eternizar-se no poder.
- A bicho! - gritou Neco Rosa, com ar belicoso. Rodrigo enfiou o 
chapu na cabea.
- Vou passar agora mesmo pelo telgrafo...
- Est fechado - atalhou-o Joca Prates. E essa informao 
prtica, que valeu como um jorro d'gua fria sobre seu fervor 
cvico, irritou Rodrigo.
- Pois passarei amanh de manh. O intendente soltou um suspiro.
-  sempre bom a gente dormir em cima dos casos. O travesseiro  o 
melhor conselheiro.
Rodrigo voltou-lhe as costas e saiu da Intendncia acompanhado de 
Neco.
685

Na praa encontraram Chiru e Saturnino, que j sabiam da notcia. 
Ficaram a conversar, sentados sob a figueira grande. Chiru achava que ia 
rebentar uma revoluo. 
Saturnino, com seu ar reservado e grave, dizia que preferia aguardar os 
jornais para ler os detalhes e formar um juzo definitivo com 
conhecimento de causa. Rodrigo 
pensava j em barricadas.
- Eu dava o brao direito pra estar na rua da Praia na hora em que o 
piquete carregou contra o povo. Mas queria estar armado e com algumas 
caixas de balas no bolso! 
Corja!
- Enquanto o senador Pinheiro estiver vivo, este pas no pode viver 
em paz - declarou Chiru.
Rodrigo pensava em Toni. Que noite! Suas idias eram um tumulto.
Ele precisava fazer algo de violento para descarregar os nervos. Que 
horas seriam? Chiru tirou o relgio do bolso, Neco riscou um fsforo 
e aproximou-o do mostrador: 
duas menos cinco.
Rodrigo despediu-se dos amigos e entrou em casa. Agora uma espcie de 
feroz alegria apoderava-se dele. Tinha na mente uma efervescncia de 
planos. Sim, era preciso 
lutar, tomar posio. Deixaria o Partido Republicano, escreveria uma 
carta ao dr. Fernando Abbott aderindo aos democratas. Faria ali em Santa 
F e arredores a propaganda 
de Ramiro Barcellos... S de pensar na luta seu peito como que inflava 
de esperana e alegria.
Acendeu a luz da sala de visitas e ficou por alguns instantes parado na 
frente do Retrato. O outro Rodrigo l estava no topo da coxilha, a 
olhar para o futuro com 
certa arrogncia.
Tens cinco anos menos que eu, rapaz, mas no te invejo, porque ests 
preso nessa tela e eu estou livre, e vivo, compreendes? Livre e vivo! E, 
caso ainda no saibas, 
comunico-te que Toni  minha. E que pretendo romper com o partido e 
com o senador. Daqui por diante sou um homem novo. O que vai acontecer 
no sei, nem quero saber. 
S sei que vai ser divertido.
Como estivesse com fome, entrou na sala de jantar, abriu uma lata de 
lngua em conserva, tirou algumas fatias de po do guardacomida e 
improvisou uma ceia. Comeu 
com uma pressa nervosa, mastigando com muito rudo. Abriu uma garrafa 
de vinho Borgonha e bebeu sofregamente trs clices cheios. Depois, subiu. No 
acendeu a luz do quarto para no acordar a mulher. Despiu-se em 
silncio. Trazia ainda no corpo 
(ou era apenas nas narinas?) o perfume de Toni.

- Rodrigo?
- Sou eu, no te assustes.
- Que horas so?
- Mais de duas.
- Onde  que andavas?
- s voltas com o coronel Prates. Aconteceu uma coisa horrvel em 
Porto Alegre.
Contou-lhe tudo. Flora soergueu-se na cama. O luar caa-lhe agora em 
cheio no rosto estremunhado e Rodrigo encheu-se duma sbita ternura 
pela mulher.
- Nossa Senhora, que ser que vai acontecer? - balbuciou ela.
- Seja o que Deus quiser.
Flora tornou a deitar-se e ficou de olhos entreabertos, pensativa. 
Rodrigo estendeu-se a seu lado e puxou-a contra si, achando gostosa a 
proximidade daquele corpo 
quente.
- Este pas no tem compostura... - murmurou ele.
- E tu vais te meter tambm nessa questo?
- J estou metido, meu bem.
- Ora...
Rodrigo sentia o latejar das tmporas. Estava excitado, sabia que 
no poderia dormir aquela noite. Comeou a acariciar os ombros da 
mulher.
- Tem modos, Rodrigo.  tarde.
- Que  que o relgio tem a ver com essas coisas?
Um desejo que a princpio foi apenas do crebro ("Tens o olho maior 
que o estmago" - ralhou a Dinda) comeou aos poucos a tomar-lhe 
conta do corpo e a regular a 
intensidade e o ritmo de suas carcias.
- Que homem impossvel! - resmungou Flora. E entregou-se.
686
687

No dia seguinte Rodrigo leu no Dirio do Interior de Santa Maria 
pormenores dos acontecimentos da noite de 14 de julho.
O meeting na praa Senador Florncio, organizado pelo Comit 
Central Acadmico contra a candidatura do marechal Hermes, terminara 
por volta das oito horas da noite, 
sem incidente. A massa. que comparecera ao comcio se dissolvia em 
ordem pelas ruas adjacentes quando os estudantes espontaneamente se 
organizaram num prstito e 
subiram a rua dos Andradas vivando nomes de polticos da oposio. 
Quando os manifestantes defrontavam os cafs Gioconda e Amrica 
alguns acadmicos resolveram dirigir 
o prstito rumo das redaes dos jornais. A rua dos Andradas 
estava atestada de gente - homens, mulheres, crianas que tinham ido 
assistir ao comcio ou se dirigiam 
para os cinemas.
Os soldados do piquete da chefatura de polcia, de prontido desde o 
anoitecer, fizeram juno com a escolta presidencial  esquina da 
rua General Cmara e, sem 
que houvesse da parte dos civis a menor provocao, desembainharam 
suas espadas e arremessaram os cavalos contra os manifestantes. A 
multido foi tomada de pnico. 
Gente corria para todos os lados, aos gritos, procurando abrigo nos 
cinemas, cafs e casas comerciais que ainda estavam de portas abertas. 
Muitos tombavam, golpeados 
pelas espadas dos soldados ou derrubados pelos seus cavalos. Outros 
rolavam sobre o calamento, pisoteados pelas patas dos animais. O 
terror era indescritvel. Ouviram-se 
vrios estampidos. Alguns populares reagiam e alvejavam a tiros de 
revlver os soldados que, por sua vez, atiravam
contra o povo com seus Nagants, em descargas cerradas. Num largo trecho 
de rua houve uma confuso medonha de gritos de raiva, dor e medo, de 
mistura com o estrpito 
de patas, estampidos e tinir de ferros.
Quando tudo serenou, viam-se estendidos pelas caladas e sobre o 
pavimento da rua cerca de vinte e cinco pessoas, das quais cinco mortas 
ou agonizantes. Um dos mortos 
era um acadmico que cursava o ltimo ano de medicina. (Emocionado, 
Rodrigo leu: uma das figuras mais salientes da Faculdade de Medicina, 
moo distinto, verdadeira 
expresso da intelectualidade rio-grandense.) Havia sangue nas 
caladas, nas pedras da rua, nas paredes...
Os telegramas davam detalhes horripilantes. No meio da rua jazia morto 
um desconhecido com a testa perfurada por um ferimento de bala que lhe 
punha  mostra a massa 
enceflica. Durante a luta, um soldado cara do cavalo e 
fora apanhado e arrastado por um automvel que passava no momento...
-  monstruoso! - exclamou Rodrigo, dobrando o jornal e atirando-o 
sobre a mesa.
O padre Astolfo e o coronel Jairo, que naquele dia haviam almoado no 
Sobrado, achavam-se sentados na frente do amigo, ambos srios e 
apreensivos.
- Logo no dia do aniversrio da Constituio do estado! - disse 
Rodrigo. -- Da vossa famosa Constituio positivista, coronel, to 
cheia de amor pela Humanidade.
Jairo cofiou o bigode com dedos incertos.
- O meu amigo no vai culpar a Constituio pelo que aconteceu. 
Nem o dr. Borges de Medeiros, que no est no governo.
- Qual! - retrucou Rodrigo. - O general Salvador Pinheiro Machado  um 
preposto do dr. Borges. So vinho da mesma pipa.
Floriano entrou na sala, aproximou-se do padre e puxou-lhe a manga da 
batina, murmurando: "Cavalo". O vigrio sorriu, fez o menino 
montar-lhe nos joelhos, tomou-lhe 
ambas as mos e psse a sacudir as pernas.
- E depois - continuou Rodrigo - est se vendo que a coisa toda foi 
premeditada. Na noite do comcio o piquete da chefatura est postado 
na rua Sete, de prontido. 
A escolta presidencial
688
689

tambm se acha alerta, nas proximidades do palcio. Na rua 
Riachuelo est o primeiro regimento de cavalaria. Santo Deus! Pra que 
tudo isso? Ser que o comcio dos 
estudantes ia pr em perigo o regime?
- A coisa toda deve ter outra explicao... - arriscou Jairo. 
Floriano ria, atirando a cabea para trs, e o padre agora sacudia 
as pernas com maior rapidez, pondo 
o "cavalo" a galope.
- Explicao coisa nenhuma! - vociferou Rodrigo. - Veja o que diz o 
jornal. Quando terminou o comcio, as foras da Brigada Militar 
foram-se aproximando da rua dos 
Andradas. Est clara a premeditao. O chefe de polcia devia 
ser demitido e julgado como um criminoso vulgar!
Laurinda entrou trazendo uma bandeja com trs xcaras de caf 
fumegante. Os homens serviram-se. Rodrigo bebeu o seu dum sorvo s e 
sentiu o lquido descer-lhe escaldante 
pelo esfago.
Quando, alguns minutos mais tarde, Joca Prates entrou no Sobrado, 
Rodrigo correu para ele e, sem dar-lhe sequer a oportunidade de 
cumprimentar os presentes, empurrou-o 
para cima duma cadeira.
- Sente-se e oua o telegrama que passei hoje de manh, e cujo texto 
ser publicado em seo livre pelos principais jornais do Rio 
Grande, dentro de dois dias.
Tirou do bolso um papel, desdobrou-o e leu:
Senador Pinheiro Machado. Palcio Monroe. Rio de Janeiro. Revoltado e 
envergonhado ante os brbaros acontecimentos da noite de
14 de julho ltimo, em que o governo de vosso irmo no hesitou em 
mandar espingardear o povo indefeso, inclusive mulheres e crianas, 
nas ruas de Porto Alegre, 
comunico-vos que acabo de me desligar do Partido Republicano, pois no 
posso continuar pertencendo a um grmio poltico cujos chefes com 
tanta freqncia recorrem 
 brutalidade e ao assassnio, na estpida e criminosa iluso de 
que as patas dos cavalos de sua Brigada Militar e as armas de seus 
beleguins e capangas possam abafar 
os gritos e anseios de liberdade do nobre e bravo povo gacho. 
Aproveito a oportunidade para manifestar o meu repdio 
nefasta candidatura do marechal Hermes, que em to m hora 
resolvestes eleger senador, para escrnio do Rio Grande e do Brasil
Terminada a leitura, Rodrigo tornou a dobrar o papel, metendo-o no bolso 
num gesto brusco que valeu como um vigoroso ponto final.

Joca Prates coou a coroa da cabea, embaraado.
- O senhor botou fora a sua candidatura. O senador no vai lhe perdoar 
nunca mais esse telegrama...
Rodrigo encolheu os ombros.
- Que me importa? Por esse preo no quero ser nem presidente da 
Repblica.
- Pois  uma pena. Ia dar um deputado de mo-cheia. Podia prestar 
muitos servios  sua terra...
- No faltaro capachos!
Durante aquele resto de julho e as duas primeiras semanas de agosto, 
Rodrigo geralmente deixava o Sobrado s oito da noite, metia-se no 
clube, jogava vrias mos 
de pquer e, quando o sonolento relgio do bufete dava a ltima 
batida das doze, ele saa, encaminhava-se para a rua do Poncho Verde, 
ficava a rondar a casa dos 
Weber, com os olhos postos na janela do quarto de Toni. Se a vidraa 
estava erguida (haviam convencionado sinais) e s a gelosia fechada, 
esgueirava-se para o terreno 
baldio, achegava-se  janela e assobiava ou tossia baixinho. Toni 
vinha abrir cautelosamente a gelosia e ele saltava para dentro.
Quando, porm, encontrava a vidraa descida - e isto era o que 
acontecia na maioria das noites - passava ao largo, e seu clido 
desejo pela rapariga era violentamente 
cortado pelo gelo da decepo, e  medida que se afastava da 
meia-gua a sensao de malogro ia aumentando de tal forma, que ao 
chegar ao Sobrado ele se punha a 
fumar cigarro sobre cigarro, no silncio do escritrio deserto, a 
andar dum lado para outro, impaciente, agastado, com
690
691

agonia de fazer um gesto violento que lhe descarregasse o peito, 
livrando-o daquela angustiante impresso de abafamento. Dificilmente 
ficava a ss com Toni mais 
duma vez por semana, e mesmo quando, vencidas as dificuldades - alguma 
janela aberta e iluminada nas vizinhanas, um passante inesperado que 
o obrigava a dar voltas 
ridculas ao redor do quarteiro -, conseguia pular para dentro do 
quarto, nem sempre podiam gozar por completo daquela intimidade, pois 
ficavam ambos cheios de 
apreenses e sustos, sobressaltando-se aos menores rudos da casa: 
uma viga ou mvel que estalava, uma tosse ou arrastar de ps nos 
quartos contguos... At mesmo 
o rumor de vozes e passos vindos da rua deixava-os perturbados. E na 
penumbra daquela pequena pea, deitado com a rapariga nos braos, 
Rodrigo sentia dum modo ttil 
o medo que agitava a criaturinha. E, como por um processo de osmose, 
esse medo passava para seu prprio corpo, deixando-o desinquieto e ao 
mesmo tempo humilhado. 
Sabia que sua vida no corria perigo, mas a possibilidade de ser 
descoberto naquele quarto causava-lhe um temor quase infantil. Detestava 
a idia de ver-se envolvido 
num escndalo. Pensava com horror no ridculo de ser pilhado a 
saltar da janela, como um gatuno...
Nos breves instantes que passavam juntos naquele universo morno e 
sombrio, falavam pouco e, quando o faziam, era um sussurro, um no ouvido 
do outro. Rodrigo sentia
que esses cochichos lhe aguavam o desejo, pois davam a sensao 
de que as palavras sadas da boca de Toni eram como dedos a lhe 
roarem a orelha, numa ccega mida
e morna. A verdade  que no necessitavam falar. Seus corpos diziam 
tudo quanto era indispensvel dizer, e as mos e os lbios 
possuam uma eloqncia e uma sutileza
que faltavam s palavras.
No entretanto, terminada aquela espcie de luta corporal que se 
avizinhava da epilepsia, quando os dois ficavam lado a lado, numa calma 
exausta e meio triste - mais
duma vez ele sentira que devia dizer alguma coisa, fazer alguma 
promessa, lanar enfim uma luz sobre o futuro. Esforava-se, mas em 
vo, por encontrar palavras convincentes
e ao mesmo tempo to leves que no ofendessem Toni. No entanto, o 
mais que conseguia era balbuciar "eu te quero,
692
eu te quero muito" - enquanto seus dedos se metiam pelos cabelos dela ou 
passeavam numa carcia esfrolante pela nudez dos seios e do ventre.
Rodrigo em geral pagava esses minutos de prazer com dias e dias de 
separao de Toni, vendo-a apenas na rua, de longe e fortuitamente, 
ou ento quando
ela vinha ao Sobrado em companhia do resto da famlia. Nestas
ltimas ocasies ele continuava a representar o papel do titio 
cordial e meio trocista, esforando-se 
por no trair seus verdadeiros sentimentos. No cessava, porm, de 
olhar de instante a instante para Flora, tratando de ler-lhe os 
sentimentos e os pensamentos atravs 
da expresso fisionmica, querendo ansiosamente saber se ela 
desconfiava ou no do que se passava. Quanto a Toni - coitadinha! -, 
ficava no seu canto, mais silenciosa 
e acanhada que nunca, e pelos seus gestos, olhares e palavras, Rodrigo 
percebia que a menina estava a debater-se numa terrvel luta de 
conscincia.
Havia momentos em que ele pensava, apreensivo, no futuro. No queria 
perder Flora e era-lhe insuportvel a idia de ficar diminudo 
perante os olhos dela. Achava 
que no poderia ser feliz sem seu amor, sua admirao, seu 
respeito. Sabia, sem a menor sombra de dvida, que no cessara de 
amar a esposa. Que diabo! No era possvel 
catalogar os sentimentos, metendo-os em escaninhos numerados. O 
corao humano era um poo de mistrios e contradies. Sim, 
ele amava tambm Flora. Tinha ainda 
por ela a mesma afeio dos tempos de namorado e noivo. (Olhava para 
o Retrato e o outro Rodrigo parecia dizer-lhe: "A mesma? Ou quase a 
mesma?") Certas noites desejava 
a mulher legtima com uma intensidade de amante e isso o alegrava, 
pois de certo modo esse desejo o redimia - pelo menos perante si mesmo - 
do pecado de amar e desejar 
Toni Weber.
Tratava Flora com um carinho redobrado. Prometera lev-la a Buenos 
Aires, onde assistiriam  temporada lrica do Teatro Clon. No 
perdia ocasio de fazer-lhe elogios, 
principalmente na presena de terceiros. "Como ests linda hoje, meu 
bem." "Esse vestido te fica uma maravilha, meu amor." "Como  
possvel ficares mais bonita  
medida que o tempo passa?"
693

Nos momentos em que o remorso no o picava e seu esprito parecia 
aceitar sem nenhum atrito aquela situao ambgua, comprazia-se em 
fazer confrontos. Flora era 
um fruto sazonado e tenro, de sumo alcalino. Toni, uma fruta meio verde, 
de polpa rgida e sabor agridoce.
s vezes,  hora das refeies, contemplando a mulher e como que 
redescobrindo nela as feies que tanto o haviam atrado - o rosto 
oval dum moreno desmaiado, os 
olhos amendoados de expresso serena e lmpida - ficava enternecido 
e mentalmente se dizia os piores nomes.
Bolas! S porque apareceu na minha vida essa austraca no quer 
dizer que eu v deixar de amar e respeitar minha mulher, adorar os 
meus filhos, gostar da minha casa!
Maria Valria mirava-o com freqncia dum jeito que o deixava 
desconfiado. Teria ela farejado alguma coisa? No raro, depois do 
meio-dia ele se deitava no sof da 
sala, com a cabea pousada no regao da madrinha, que ficava a 
fazer-lhe cafun. Numa dessas ocasies, a propsito de nada, a 
Dinda lhe dissera em voz muito baixa: 
"Se tiver de fazer alguma patifaria, faa de jeito que sua mulher 
no descubra, ouviu?" Seu primeiro mpeto fora o de explodir 
num protesto. Achou melhor, 
porm, manter-se num mutismo cauteloso.
Os amigos continuavam a comparecer ao Sobrado, onde os seres de 
inverno tinham um sabor especial na sala aquecida por uma estufa de 
querosene, cujo cheiro evocava 
a Rodrigo a lanterna mgica de sua infncia.
Andava ele agora intrigado com a atitude de Wolfgang, que no lhe 
dirigia mais aqueles longos olhares apaixonados, mas sim relances 
rpidos em que se podia perceber 
um mal contido ressentimento. Desconfiaria o rapaz de alguma coisa? 
Quanto a Frau e Nerr Weber, no haviam mudado. Ela ainda lhe beijava 
as faces, afirmando que 
ele era o mais belo homem do mundo. O maestro continuava a 
contempl-lo com aquele olhar em que havia um misto de gratido e 
perplexidade. E pela maneira natural 
e afetuosa 
694
com que Flora continuava a tratar Toni, Rodrigo chegava  
reconfortante certeza de que sua mulher no suspeitava de nada.
Em meados de agosto leu com emoo no Correio ao Povo um dos 
ltimos discursos de Pinheiro Machado, ficando particularmente 
impressionado pelo seu tom dramtico:
 possvel que durante a convulso que sacode a Repblica em seus 
fundamentos possamos submergir.  possvel.  possvel mesmo que o 
brao assassino, impelido pela. 
eloqncia das ruas, nos possa atingir. Afirmamos, porm, aos 
nossos correligionrios que, se esse momento chegar, saberemos ser 
dignos de vossa confiana. Tombaremos 
na arena, fitando a grandeza da nossa ptria, serenamente, sem 
maldio nem desprezo, sentindo to-somente compaixo para com 
aquele que assim avilta a nobreza inata 
do brasileiro.
Rodrigo sabia que o senador no era homem que dissesse tais coisas 
levianamente, com o intuito apenas de criar uma aurola de martrio 
em torno de sua cabea. Como 
conseqncia das ltimas eleies, nas quais ficara 
iniludivelmente assegurada a vitria do marechal Hermes - eleies 
em que mais uma vez a oposio se declarara 
esbulhada, fraudada e coagida -, a atmosfera do pas estava carregada 
de ressentimentos e dios, e muitos polticos, publicistas e 
demagogos tratavam de instigar 
o povo contra a pessoa de Pinheiro Machado, cujo assassnio era 
abertamente pregado em comcios no Rio de Janeiro. Um deputado federal 
chegara a dizer da tribuna 
da Cmara que, se apresentasse um projeto, seu artigo primeiro seria: 
"Elimine-se o sr. Pinheiro Machado".
J em princpios daquele ano o senador reunira em sua residncia 
do morro da Graa os representantes do Rio Grande, exortando-os a 
manterem-se unidos para o bem 
da Repblica, caso ele viesse a tombar assassinado. Em palestra com o 
jornalista Joo do Rio, confiara-lhe: "Morro na luta, menino. Eles me 
matam. Mas
695
pelas costas. So uns 'pernas-finas'. Pena  que no seja no 
Senado, como Csar. H de ser na rua. Morro em defesa da 
Repblica".
Contavam-se histrias que ilustravam bem a atitude serena e impvida 
do senador em meio dessas malquerenas e ameaas. Duma feita, ao 
passar de automvel por meio 
duma multido exaltada que, havia pouco, gritava insultos a seu nome, 
disse em voz alta ao chofer, para que todos ouvissem:
- S tire o revlver quando eu tirar o meu. S dispare o seu 
primeiro tiro depois que eu tiver disparado o meu.
E o automvel passou pelo meio da multido, onde se fizera de 
sbito um silncio respeitoso.
Noutra ocasio, ao deixar o Senado, a cuja porta se aglomeravam 
populares dispostos a vai-lo, instruiu o chofer:
- Siga. No to depressa que possam pensar que tenho medo, nem to 
devagar que possa parecer acinte.
Quando um amigo bajulador assegurou que o pas inteiro seria 
convulsionado caso atentassem contra sua vida, Pinheiro Machado 
replicou:
- Sim, se o atentado falhar.
Rodrigo lia ou ouvia todas essas histrias e ficava a pensar, j 
tomado de remorsos, no telegrama que passara ao senador aps os 
acontecimentos de 14 de julho. No 
se arrependia de ter jogado fora a oportunidade duma carreira poltica 
sob a proteo de Pinheiro Machado. Lamentava, isso sim, ter perdido 
a amizade daquela figura 
que admirava, apesar de todos os seus defeitos, e pela qual sentia uma 
afeio quase filial. Relia os termos do telegrama e achava-os 
insolentes e agressivos. E 
agora que os inimigos do senador aulavam o povo contra ele, 
apontando-o como a causa de todos os males que desgraavam o pas, 
agora que escribas e oradores de 
praa pblica recomendavam claramente seu assassnio, Rodrigo 
achava que era seu dever apoiar aquele homem, sem olhar convenincias 
pessoais e nem mesmo ideias polticas.
Chegou a rascunhar um telegrama em que exprimia sua solidariedade 
irrestrita ao representante do Rio Grande no Senado. Mas rasgou-o, 
insatisfeito com a redao.
Fica para outro dia - decidiu. Mas esse dia no chegou. Rodrigo 
esqueceu o senador, pois Toni Weber absorvia-lhe os pensamentos, 
fazendo-o alternadamente feliz e 
desgraado. Feliz porque descobria que a rapariga o amava com uma 
intensidade cada vez maior, desgraado porque era exasperante ter de 
esperar s vezes uma semana 
inteira pela oportunidade de ficar a ss com ela.
Aqueles encontros no quarto da moa faziam-se cada vez mais 
difceis, arriscados e constrangedores.
Numa daquelas noites de agosto em que o minuano soprava, fazendo tremer 
as janelas da meia-gua, Frau Weber ergueu-se da cama, subitamente 
indisposta, e veio bater 
 porta do quarto de Toni, para pedir-lhe um remdio. Rodrigo enfiou 
s pressas o sobretudo e, descalo, com a roupa e os sapatos nas 
mos, saltou pela janela e 
ficou sentado no cho gelado, atrs dum arbusto, a vestir-se 
atabalhoadamente e a tremer de frio, de despeito e vergonha, 
amaldioando - quem? O qu? - por se achar 
naquela situao grotesca. Prometeu a si mesmo que jamais voltaria 
quela casa. Precisava descobrir outro lugar onde encontrar-se com 
Toni. Passou mais duma semana 
sem falar com a rapariga. E ficou de novo enciumado ao v-la, durante 
esse perodo, umas duas ou trs vezes em companhia de Erwin 
Spielvogel, que costumava ir esper-la 
 sada do cinema, nas noites de funo.
Um dia em que Toni veio ao Sobrado com os pais, Rodrigo, sem que os 
outros vissem, conseguiu meter-lhe na mo um bilhete em que lhe pedia 
fosse no dia seguinte, 
sob qualquer pretexto, ao consultrio.
Toni foi. E enquanto Rodrigo, alvoroado, fechava a porta a chave, ela 
se sentava numa cadeira, constrangida como uma visita de cerimnia. E 
quando ele a beijou, 
seus lbios permaneceram inertes, como que mortos, o busto retesado, 
os braos cados. Que era que ela tinha? - quis saber Rodrigo. 
Estava enfarada dele? No o amava 
mais? Havia outro homem? Sim, ele a vira muitas vezes aquela semana com 
o Spielvogel... Vamos, diga alguma coisa!
Tomando-a nos braos, sacudiu-a. Toni mirava-o com os olhos 
cintilantes de lgrimas, mordendo os lbios, num silncio que 
deixava Rodrigo cada vez mais exasperado. 
Por fim largou-a e foi
696
697
sentar-se atrs do bureau, procurando parecer indiferente  
presena dela.
Houve um silncio de alguns segundos, ao cabo dos quais Toni se 
ergueu, aproximou-se dele, passou-lhe a mo de leve pelos cabelos, 
beijou-lhe a testa, as faces e 
murmurou-lhe ao ouvido: "Mais je t 'adore! Je t adore!"
Ento ele no compreendia? Aquela sala excessivamente clara, a mesa 
de operaes, os instrumentos cirrgicos no armrio de vidro, a 
proximidade dos empregados da 
farmcia, o rudo das vozes e passos dos que passavam pela 
calada... Tu sais... Rodrigo ficou enternecido. Sim, era um 
estpido, um animal. Compreendia tudo e pedia-lhe 
perdo. F-la sentar-se sobre seus joelhos, beijou-lhe a boca com 
uma ternura arrependida que procurava ser pura, mas que pouco a pouco se 
foi transformando em desejo, 
fazendo que suas mos comeassem a passear pelo corpo da rapariga. 
Toni ps-se subitamente de p, compondo o vestido e aproximando-se 
da porta.
- Por favor, deixe-me ir agora, sim?
Ele soltou um suspiro, passou as mos pelos cabelos. - Ento? - 
perguntou. - E agora?
Ela lhe suplicou que esperasse um pouco, tivesse pacincia. Tudo 
estava to confuso... E, com os olhos midos, contou-lhe que 
ultimamente no dormia direito, sonhava 
muito, tinha pesadelos aflitivos, e o remorso e o medo a atormentavam. O 
que estava fazendo era errado, era mau, era pecaminoso. Tudo fora uma 
loucura. Ela o amava, 
sim, de tal maneira que s vezes lhe parecia que ia perder a razo. 
Mas nem por isso sofria menos. Vivia assaltada de temores. Os pais 
estranhavam sua atitude, no 
compreendiam por que ela recusava ir ao confessionrio. Por outro 
lado, pediam-lhe com insistncia que tratasse melhor Erwin Spielvogel. 
Era uma situao insuportvel!
Rodrigo olhava perdidamente para Toni. Havia no rosto dela, como na voz, 
algo de machucado que o penalizava.
Comeou a andar dum lado para outro, as mos nos bolsos, a pensar 
numa soluo.
- Queres ento terminar com tudo? - perguntou, estacando bruscamente 
diante da Frulein.
698
Como nica resposta ela desatou o choro. Rodrigo puxou-a contra o 
peito, beijou-lhe os cabelos, e ficaram assim abraados em silncio 
por longos minutos. Por fim, 
enxugando os olhos, Toni murmurou:
- Preciso ir.
Disseram-se adeus, ele abriu a porta e ela se foi.
A primeira pessoa a receber a notcia em Santa F foi o 
telegrafista que estava de planto na noite de 8 de setembro. 
Principiou a transformar os sinais de Morse 
em letras, com um indiferena profissional temperada apenas pela 
tnue curiosidade que lhe vinha de o telegrama trazer a rubrica de 
urgente e ser endereado ao coronel 
Joca Prates. A medida, porm, que as letras iam formando as palavras e 
estas as sentenas, os olhos do funcionrio se agrandavam, sua 
caligrafia tornava-se menos 
firme e por fim, depois de escrever a ltima letra do nome do 
signatrio do despacho - um deputado estadual - os lbios do 
telegrafista tremeram e ele ficou olhando 
para o papel com uma expresso de mudo horror, como se tivesse acabado 
de ler nele sua prpria sentena de morte.
Levou alguns segundos para se refazer do choque. Depois passou a limpo o 
telegrama e chamou o estafeta.
- Leve isto depressa ao intendente. Se ele no estiver em casa, est 
no clube. Raspa, que a coisa  sria.
Joca Prates jogava pquer com trs correligionrios quando 
Saturnino veio entregar-lhe o despacho. Abriu-o de cenho cerrado, leu e 
ficou lvido. Depois passou o 
papel para um dos amigos e, como se tivesse perdido a fala e o 
movimento, ficou a olhar com uma fixidez estpida para as cartas sobre 
o pano verde.
- Que barbaridade! - exclamou um dos jogadores. Os outros dois, que 
haviam lido a dramtica mensagem por cima do ombro do primeiro, 
saram a andar pelas dependncias 
do clube numa pressa ofegante e atnita.
699
Joca Prates ps-se de p lentamente e, como um sonmbulo, 
encaminhou-se para o telefone do bufete, comunicou-se com a prpria 
casa e, ao ouvir a voz da esposa, 
balbuciou:
- Ded, aconteceu uma coisa horrorosa...
No pde continuar, pois o pranto lhe cortou subitamente a voz. 
Atrs do balco do bufete, Saturnino cofiava sombriamente o bigode, 
murmurando: "Que calamidade! 
 o fim do mundo. Que calamidade!"
A notcia chegou aos ouvidos do gerente do Cinema Santa Ceclia 
quando a funo estava j quase a findar. O homem esperou, aflito, 
que terminasse a ltima parte 
do drama e, quando a luz se acendeu, subiu para o palco e deu a 
notcia ao pblico com voz sumida e ar trgico, como se estivesse 
anunciando o Juzo Final. Quando 
terminou de falar, fez-se um silncio duma frao de segundo e 
depois um clamor se ergueu da platia, dos camarotes e da galeria, 
onde um homem se ps de p e berrou: 
"Bem feito! Era o que esse canalha merecia!"
De vrios pontos do teatro surgiram protestos indignados. Ouviu-se um 
grito: "Lincha!" Foi ento o pnico. Os espectadores precipitaram-se 
atropeladamente na direo 
da porta, como se algum houvesse gritado - incndio! Algumas 
mulheres soltavam lamentos histricos, muitas desatavam o choro; 
outras gritavam os nomes dos maridos 
e dos filhos. Alguns cidados trepavam nas cadeiras e pediam calma. 
Vrios deles empenhavam-se em discusses que degeneravam em briga. 
De quando em quando no meio 
da balbrdia ouviam-se frases como: "Abaixo a tirania!" "Viva a 
liberdade!"
No centro telefnico, no podendo dar conta de todos os chamados, a 
operadora rompeu a chorar, numa crise de nervos, e teve de ser 
substituda.
Vinte minutos depois de chegado o telegrama a Santa F, quase toda a 
populao da cidade, pelo menos as pessoas que residiam na rua do 
Comrcio e nas transversais, 
j estavam a par do acontecimento que comeava a abalar o pas 
inteiro: O senador Pinheiro Machado havia sido assassinado pelas costas 
com duas punhaladas!
700
Rodrigo estava em casa em companhia do vigrio e do coronel Jairo 
quando Joca Prates entrou intempestivamente e deu-lhe a notcia. Teve 
a impresso de que recebia 
uma bordoada na cabea. Sentou-se, aturdido. Por alguns instantes 
nenhum dos quatro homens falou. Refeito do choque inicial, Rodrigo pediu 
pormenores. Quem fora 
o assassino? Onde se dera o fato? Conte alguma coisa, homem de Deus!
O coronel Prates passou-lhe o telegrama. Era dum laconismo dramtico. 
Dizia apenas que o crime fora cometido cerca das cinco horas da tarde, 
no Hotel dos Estrangeiros, 
no Rio, e que o criminoso, natural do Rio Grande do Sul, estava preso.
- A coisa no vai ficar assim - murmurou o intendente. - O Rio Grande 
no pode ficar acovardado depois duma barbaridade dessas. Matarem o 
nosso Pinheiro!
E, num assomo de dio, exclamou:
- Vai haver uma revoluo!
- Contra quem, coronel? - perguntou o padre placidamente.
- Ora... ora, contra os inimigos do Rio Grande!
- Mas no foi um gacho que assassinou o senador? - perguntou o 
vigrio com um bom senso desarmante.
Joca Prates lanou-lhe um olhar em que j havia um elemento de 
rancor.
- Mas deve estar a soldo da camarilha poltica que no gosta
de
ns!
Astolfo encolheu os ombros filosoficamente. - Isso no se faz - 
murmurava o coronel Jairo, sacudindo a cabea. - Isso no se faz...
Rodrigo aproximou-se da janela e por alguns instantes ficou a olhar a 
praa, atravs dos vidros meio embaciados. O desaparecimento do 
senador dava-lhe uma estranha 
sensao de orfandade que ele no procurava explicar nem combater. 
E agora lhe vinha uma sbita e enternecida saudade do pai, o desejo de 
v-lo, ouvi-lo, t-lo ali 
no Sobrado como companheiro naquela hora amarga.
Desenhou-se-lhe na mente, ntida, a imagem de Pinheiro Machado tal 
como o vira no inverno de 1910. O senador apertava-lhe
701
a mo e dizia: "H homens que nasceram talhados para o 
sacrifcio. Mas uma coisa sei te dizer: eu no tenho vocao 
para mrtir . Rodrigo fez uma brusca meia-volta:
- Pelas costas, os miserveis!
Ao saberem da notcia, Flora e Maria Valria vieram para a sala e 
ficaram junto da porta, mudas, num silncio apreensivo.
Rodrigo leu nos olhos de ambas uma expresso que com freqncia 
vinha ao semblante das mulheres do Rio Grande: o medo ancestral da 
guerra.
- Precisamos fazer alguma coisa! - exclamou, olhando para o intendente. 
- Vou redigir um telegrama  nossa bancada no Rio. Algo de vibrante 
que leve o nosso protesto, 
a nossa indignao ante esse crime brbaro, esse...
Calou-se, engasgado.
E naquela mesma noite, ao entrar no Comercial, onde esperava colher 
assinaturas para o telegrama, ouviu um forasteiro comentar em altos 
brados: "Bem feito! Foi uma 
limpeza! Era um caudilho, um dspota, a asa negra do Brasil!" 
Precipitou-se sobre ele, segurou-o pela gola do casaco, deitou-o sobre 
um dos bilhares e esbofeteou-lhe 
repetidamente a cara, vociferando:
-  para aprenderes a respeitar os homens, canalha!
Nos dias que se seguiram leu nos jornais os pormenores da tragdia do 
Hotel dos Estrangeiros.
Pinheiro Machado havia sido apunhalado pelas costas no momento em que, 
ladeado por Bueno de Andrade e Cardoso de Almeida, se encaminhavam para 
o salo situado entre 
o refeitrio e o saguo do hotel.
Cardoso de Almeida contou mais tarde  polcia que tivera a 
impresso de que algum desferira um soco nas costas do senador e, 
como ao voltar-se visse um jovem armado 
dum punhal, precipitara-se sobre ele para desarm-lo, enquanto 
Pinheiro Machado dava alguns passos, cambaleante, e caa nos braos 
de Bueno da
702
Cunha, exclamando: "Fui apunhalado!" O assassino, porm, conseguira 
fugir, sendo perseguido por populares, um guarda e o prprio Cardoso 
de Almeida. Preso por um 
civil na travessa de So Salvador, entregou a arma que ainda empunhava 
e na qual no se via o menor vestgio de sangue. Suas palavras 
foram: "Sou o assassino do 
senador Pinheiro Machado".
Interrogado pela polcia, declarou chamar-se Francisco Manso de Paiva 
Coimbra, ser padeiro e natural do Rio Grande do Sul. Confessou que 
odiava Pinheiro Machado 
e que ao ler nos jornais as notcias de que o pas estava dividido 
por causa da candidatura do marechal Hermes, chegara  concluso de 
que era indispensvel que 
algum matasse o homem que infelicitava o Brasil. Mais tarde, sabedor 
dos acontecimentos da noite de 14 de julho em que a Brigada Militar 
carregara em Porto Alegre 
sobre o povo reunido em meeting contra a candidatura do marechal, 
assassinando estudantes e, entre eles, um filho duma protetora sua, 
convencera-se de que ele, Manso 
de Paiva Coimbra, devia ser o assassino, para vingar a morte do jovem. 
Comprara ento uma faca a um preto no largo de So Salvador (e 
Rodrigo estremecia de horror 
ante o detalhe); a faca custara ao criminoso seiscentos ris. Apesar 
disso, pouco depois desistira do intento resolvendo procurar um emprego. 
Em breve, porm, lera 
na Gazeta de Notcias um artigo sobre a candidatura de Hermes da 
Fonseca e de novo ficara tomado do desejo de eliminar Pinheiro 
Machado...
Com o jornal na mo Rodrigo caminhava dum lado para outro no 
escritrio, na frente do padre Astolfo, para quem estivera a ler em 
voz alta o relato da tragdia.
- Essa histria est mal contada! - exclamou. - Algum pagou ao 
sicrio pra assassinar o senador, isso ningum me tira da cabea. 
Foi dinheiro grosso, e o homem 
 capaz de cumprir a pena sem confessar o nome dos mandantes. Ali! Mas 
a histria no pode ficar assim. Havemos de desmascarar essa 
camarilha de assassinos e lev-los 
 barra dos tribunais, nem que para isso tenhamos de provocar uma 
guerra civil!
O laudo dos mdicos-legistas dava como causa mortis uma hemorragia 
interna provocada por ferimento no pulmo direito e na respectiva 
artria, produzido por um instrumento 
perfuro-
703
cortante. A autpsia - declaravam os mdicos  imprensa - revelara 
ausncia de leses graves no organismo do ilustre morto. 
Notavase-lhe apenas um comeo de esclerose 
arterial, pelo que se conclua que o senador ainda poderia viver 
longos anos.
- Que estupidez! - exclamou Rodrigo. - Uma faca comprada a um negro por 
seiscentos ris cortou a vida do maior poltico do Brasil! E no 
me admirarei se o bandido 
for absolvido. Este pas no cria vergonha, o que ele merece mesmo 
 um ditador da fibra do senador pra botar a canga no pescoo da 
canalha!
O padre Astolfo mirava-o em silncio.
- Agora, vigrio, vou ler-lhe um trecho do telegrama que Rui Barbosa 
passou  viva de Pinheiro Machado. Veja que nobreza de sentimentos, 
que dignidade, que estilo!
Apanhou o jornal e leu:
Para mim que sempre considerei inviolvel a vida humana, a dele era 
duplamente, ainda por mais dois ttulos, sagrada: o da antiga amizade 
e do antagonismo atual. 
Fao votos para que todos vejamos neste crime deplorvel uma 
lio viva contra os excessos da violncia e do sangue, com os 
quais nunca transigi e de que sempre 
preguei o horror. Queira Vossa Excelncia aceitar as homenagens de meu 
pesar e o respeito que ponho, comovido, a seus ps.
A descrio que o jornal trazia dos momentos que se seguiram ao 
crime comoveram Rodrigo at s lgrimas.
Ao ver o cadver do senador Pinheiro Machado, Rivadvia Corra 
rompera em pranto, abraando-se com Flores da Cunha, que tambm 
chorava sentidamente. E quando o delegado 
de polcia mandou pr o corpo sobre uma padiola, muitas das pessoas 
presentes comearam a disputar o privilgio de conduzi-la. Algum, 
entretanto, exclamou:
-  a bancada do Rio Grande que vai conduzi-lo. A porta do hotel, 
Pomplio Dias bradou:
- Esperem pela revanche. Havemos de vingar essa morte!
Da multido que se aglomerava na rua partiram gritos: "Apoiado! 
Apoiado!" Voltando-se para o chefe de polcia e apontando-o com dedo 
acusador, Pomplio Dias disse 
em voz alta:
704
- O senhor  responsvel por este crime, pois permitia meetings em 
que se aconselhava o assassnio do Senador Pinheiro.
Terminada a autpsia, a viva foi levada  presena do corpo do 
marido. Segurando-lhe a cabea com ambas as mos, beijava-lhe 
nervosamente o rosto, soluando:
- Deixe-me, deixem-me aqui. Tenho muita coisa a conversar com ele.
Um fazendeiro, amigo ntimo de Pinheiro Machado, beijava-lhe 
freneticamente as faces. Ao entrar no hotel, o almirante Alexandrino de 
Alencar exclamou:
- Que horror! Mataram-no pelas costas.
O cadver foi transportado para o morro da Graa em meio duma 
multido de onde partiam lamentos, protestos e vivas  Repblica e 
 liberdade.
O Rio de Janeiro estava convulsionado. Viam-se por toda a cidade 
bandeiras hasteadas a meio pau. O governo decretara luto nacional e 
concedera honras militares  
memria do senador. Todas as diverses aquela noite foram suspensas. 
 frente da redao dos jornais o povo se aglomerava em grupos 
onde de quando em quando rompiam 
discusses e brigas. Dizia-se que o corpo do senador seria embalsamado 
e levado para o Rio Grande do Sul, cujo governo tomara luto oficial por 
oito dias.
O padre Astolfo chamou a ateno de Rodrigo para o contedo da 
carta encontrada no bolso do assassino no momento em que fora preso:
Caso eu seja morto pelos capangas deste homem que me leva a praticar 
este ato, no culpem ningum. Como rio-grandense vingo meus 
conterrneos mortos nas ruas de 
Porto Alegre; como brasileiro, a afronta atirada sobre um povo roubado e 
esfomeado.
- A est a prova de que o crime teve como mandante algum grado, 
padre! Leia bem essa carta e me diga se isso  estilo de padeiro!
Havia na reportagem da tragdia detalhes que comoviam Rodrigo dum modo 
particular, pois lhe recordavam a presena fsica de Pinheiro 
Machado, o homem que um dia 
ele vira de perto e
705
que o tratara por tu, chegando a caminhar de brao dado com ele pelas 
ruas de Santa F.
Contava o reprter que no dia em que fora assassinado, o senador 
trajava fraque aberto, com um cravo vermelho na botoeira, calas 
escuras, e colete a fantasia em 
cuja cava se via um punhal de cabo de ouro e marfim. Ao lado do 
cadver jazia seu chapudo-chile e a bengala de unicrnio.
Rodrigo lia e relia, sensibilizado, o inventrio das coisas que o 
comissrio de polcia arrecadara dos bolsos do morto: uma cigarreira 
e uma lapiseira, ambas de 
ouro, um relgio de platina, uma corrente com prolas, um alfinete 
com um chaveiro de brilhantes, uma carta, dois telegramas, um pince-nez, 
um revlver Smith and 
Wesson, um leno de seda e trs mil e duzentos ris em dinheiro...
- Veja, padre, se isso no tem uma significao enorme! O homem de 
maior prestgio do Brasil morre com trs mil e duzentos ris no 
bolso!
O vigrio sacudiu lentamente a cabea. Rodrigo ergueu-se, acendeu o 
cigarro e pensou em Toni, com um desejo lnguido de t-la a seu 
lado, de pousar a cabea cansada 
no colo dela. Precisava v-la o quanto antes. Ficou a imaginar o 
encontro... Ia explicar-lhe o sentido daquela morte, o valor simblico 
daquele homem e as conseqncias 
tremendas que o crime podia ter para o Rio Grande e para o Brasil. 
Anteviu a expresso do olhar de Toni, to puro, to longnquo, 
to incapaz de compreender aqueles 
dramas violentos duma terra de homens morenos, apaixonados e 
semibrbaros. Depois eles esqueceriam o assassinado, o assassino, a 
poltica, tudo, para se entregarem 
ao ato do amor, que era tambm uma espcie de homicdio, em que 
havia um apunhalador e um apunhalado e uma agonia convulsiva, seguida 
duma deliciosa morte.
Seu encontro com Toni, entretanto, no lhe proporcionou as delcias 
imaginadas e desejadas. Trouxe-lhe, isso sim, um novo e terrvel 
choque. A moa apareceu-lhe 
inesperadamente no cnsultrio na tarde do dia seguinte e, logo 
depois que Rodrigo fechou 
706
a porta, tomado duma formigante alegria que lhe vinha da antecipao 
das coisas que iam acontecer, ela se sentou no div coberto de oleado 
negro, fitou nele os olhos 
alarmados e disse: Je suis enceinte.
Qu? Rodrigo julgou ter ouvido mal a frase. Pediu-lhe que a repetisse. 
Toni repetiu. No havia dvida: Estou grvida. Grvida, 
grvida... Ficou a contempl-la com 
um olhar vazio, imbecil, como se no a estivesse vendo, como se no 
compreendesse ainda o sentido daquelas palavras.
Toni ps-se ento a murmurar frases em alemo, numa pressa 
nervosa. Seu corpo tremia sob o casaco de l.
Grvida? - repetiu ele. No era possvel. Como era que sabia? Que 
provas tinha? Que entendia ela daquelas coisas?
Sem coragem agora de encarar Rodrigo, os olhos postos no cho, a 
Frulein contou que sentia tonturas, enjos e que, vous savez - 
hesitou. - J fazia quase quarenta 
dias que... vous savez.
Santo Deus - balbuciou ele. Aquilo tambm era demais! A cabea 
comeou a doer-lhe e ele teve mpetos de gritar. Toni desatou o 
choro, estendeu-se no sof e escondeu 
o rosto nas mos. E agora - soluava ela - e agora, que vai ser de 
mim?
Rodrigo contemplava-a, de braos cados, com uma conscincia 
dolorosamente aguda das batidas de seu prprio corao, do latejar 
do sangue nas tmporas e daquelas 
ferroadas que pareciam traspassar-lhe os miolos. Por longos segundos 
quedou-se imvel e calado, enquanto Toni continuava a chorar.
Rodrigo procurava alguma coisa para dizer, mas as palavras francesas ou 
no lhe acudiam  mente ou, quando vinham, ele no sabia como 
disp-las numa frase coerente. 
Pensava no que podia acontecer se as suspeitas de Toni se confirmassem. 
Era o escndalo, o ridculo, seu nome arrastado na lama. Perderia o 
amor e o respeito de 
Flora, no teria mais coragem de olhar de frente o pai, a madrinha, os 
amigos... Ao mesmo tempo recriminava-se por causa desses sentimentos e 
pensamentos egostas 
que excluam Toni, como se ela no tivesse tanta coisa a perder 
quanto ele, ou mais.
Acercou-se dela, sentou-se na beira do div e ps-se a acariciar-lhe 
de leve os cabelos. Tenha calma - pediu - no desespere, pode ser um 
rebate falso...
707
Toni, porm, sem tirar as mos do rosto, sacudia a cabea numa 
negativa desesperada.
Mas que experincia tinha ela daquelas coisas para julgar? Foi com o 
rosto em fogo e com uma vil sensao de constrangimento que ele 
props fazer-lhe um exame, je 
vous prie, o exame normal a que se submetem as mulheres que desejam ver 
confirmada a suspeita de gravidez. Toni meneava ainda a cabea: no, 
no, no! Rodrigo indagou: 
Mas... e se o dr. Carbone fizesse aquilo? Era um homem decente, de bom 
corao, e, fosse como fosse, teria de manter o segredo 
profissional.
Toni alou para ele a face desfigurada:
- Eu preferia morrer a fazer isso.
Rodrigo ergueu-se, comeou a caminhar dum lado para outro, as mos 
metidas nos bolsos das calas.
- Algum mais sabe disso alm de ns dois?
Toni sacudiu a cabea negativamente. Ps-se a enxugar os olhos 
soluando ainda, mas agora de mansinho.
Os minutos passavam. Da farmcia vinham vozes: Gabriel gritou uma 
ordem para o aprendiz. O dr. Carbone passou a cantarolar pelo corredor. 
Rodrigo temeu e ao mesmo 
tempo desejou que ele entrasse. Temeu porque sabia que, se o italiano 
entrasse, bastar-lheia um relance para descobrir-lhes o segredo. Desejou 
porque, uma vez descoberto 
o segredo, Toni seria forada pelas circunstncias a deixar-se 
examinar pelo cirurgio. O dr. Carbone, porm, passou de largo. Um 
auto buzinou na rua. Depois fez-se 
silncio e no silncio Rodrigo ficou sentindo o pulsar do prprio 
sangue nas fontes. Oh! Mas a maneira como se estava portando era 
egosta, mesquinha, covarde. Num 
assomo de ternura sentou-se no div ao lado de Toni e enlaou-a. Ela 
recostou a cabea em seu ombro e cerrou os olhos. Apertou com ambas as 
mos a mo que Rodrigo 
tinha livre e ficaram assim por longo tempo num trmulo silncio.
Rodrigo pensava numa sada. J agora a situao lhe parecia 
menos negra. Era impossvel que um homem como ele fosse afogar-se em 
to pouca gua... Claro! No estonteamento 
da surpresa, a princpio lhe parecera que o mundo vinha abaixo, mas 
agora, refletindo melhor, via a possibilidade de encontrar uma 
soluo
708
para o problema. Primeiro era preciso verificar com certeza se Toni 
estava mesmo grvida. Se estava, teria ainda no mnimo trs meses 
para agir, antes que comeassem 
a aparecer sinais externos de seu estado.
Se, entretanto, tivessem de recorrer ao aborto (a idia lhe causava um 
frio horror, e ele no pde deixar de lanar um olhar para o 
armrio dos instrumentos cirrgicos) 
deveriam pratic-lo sem perda de tempo. Mas quem ia fazer aquilo? Ele? 
Nunca. No teria coragem para tanto. Carbone, talvez... pedir-lhe-ia 
esse obsquio especial. 
Se o homenzinho recusasse, iria at  ameaa para obrig-lo. 
Sim, Carbone era o homem indicado. Seu oferecimento ao Exrcito 
italiano havia sido aceito e dentro 
de um ms ele embarcaria para a Europa, levando consigo o segredo. 
Mas... e se sobreviesse uma infeco ou uma hemorragia e Toni 
morresse?
Rodrigo beijava com ternura os cabelos da Frulein, apertava-lhe a 
mo com fora e por mais que fizesse no podia afastar da mente um 
quadro perturbador: Toni, plida, 
estendida sobre a mesa de operaes, a esvair-se em sangue e Carbone 
com o avental todo manchado de vermelho a trabalhar com seus ferros nas 
entranhas da criaturinha... 
Como tudo aquilo era srdido, estpido!
E se Toni casasse com Erwin Spielvogel? S de pensar nessa sada 
Rodrigo sentiu que as faces e orelhas ficavam em fogo. Como era capaz de 
pensar numa coisa to torpe, 
to baixa? A possibilidade daquele casamento lhe dava um sentimento de 
cime. No entanto - insistia dentro dele uma voz cnica -- era uma 
soluo... Sim, mas e o 
filho? Mesmo que casassem em seguida, poderia Erwin acreditar em que era 
o pai da criana? Cus, como  que tenho coragem de estar pensando 
estas coisas?
Como para redimir-se de tamanha vileza, pensou num recurso corajoso: 
procurar Herr e Frau Weber, contar-lhes tudo honestamente, sem omitir 
nenhum detalhe, e depois 
dizer-lhes: "Agora faam o que entenderem: me processem, me denunciem, 
me matem..." Talvez - tornou a insinuar a voz cnica - talvez o 
maestro e sua Frau te peam 
uma indenizao para irem-se de Santa F com toda a famlia sem 
fazer escndalo...
709
E se eu me aconselhasse com o padre Astolfo? Qual! Que  que um 
celibatrio pode entender desses assuntos de amor e filhos 
ilegtimos? Provavelmente ele me falar 
em pecado, em inferno e repetir a histria da sombra do anjo.
No entanto, por mais brutal que parecesse, a soluo mais prtica, 
mais rpida era a do aborto. Feito este, tudo voltaria a ser como 
antes e ele saberia no futuro 
tomar precaues... Porque agora, passado o susto do primeiro 
momento, comeava a vir-lhe o temor de perder Toni para sempre.
Lembrou-se do primeiro dia em que a vira no palco do Santa Ceclia, 
toda vestidinha de branco, com laarotes de fitas azuis nas pontas das 
tranas. Era, toda ela, 
um smbolo matinal de juventude, graa e pureza. Agora a coitadinha 
ali estava desfeita em pranto com as feies descompostas e como que 
envelhecidas pelo sofrimento. 
Era como se entre a noite de seu segundo espetculo em Santa F e 
aquele momento no se tivessem passado apenas alguns meses mas muitos 
anos. E ele, Rodrigo, era 
o culpado daquela transformao. Ele a desgraara, por egosmo, 
por vaidade, por lascvia.
Veio-lhe  mente um dia da infncia em que, caminhando por uma 
estrada e vendo uma andorinha pousada num fio telegrfico, apanhara 
uma pedra e alvejara o passarinho, 
matando-o. Seu primeiro sentimento fora de orgulho. Que pontaria! Que 
tiro! Correra para o lugar onde a andorinha cara e tomara-a nas 
mos. Vendo, porm, a ferida 
sangrenta que a pedra abrira na cabea do passarinho e sentindo o 
contato daquele corpo frgil e ainda tpido, tivera de repente uma 
conscincia dolorosamente aguda 
da extenso de seu crime, de sua malvadeza. Matara o bichinho apenas 
para, provar a si mesmo que era um bom atirador. Fora ento tomado 
 dum to forte sentimento 
de culpa e remorso, que desatara a chorar sentidamente.
E agora Rodrigo tambm chorava, abraando Toni e beijando-lhe os 
cabelos, com a impresso de que tinha nos braos uma andorinha 
morta.
Durante a semana seguinte - que passou sem ver Toni
Rodrigo viveu num estado de angstia que em casa tratava de justificar 
dizendo que era a situao poltica do pas que o trazia 
preocupado.
Por mais duma vez esteve a pique de procurar o vigrio e abrir-se com 
ele. s vezes quedava-se a olhar para o coronel Jairo e a perguntar a 
si mesmo como havia de 
aquele homem cordial e aparentemente compreensivo receber sua 
confisso ou melhor, julgar sua conduta no caso de Toni. Mas no! Se 
confiasse seu segredo ao padre 
e ao militar, ficaria perante ambos numa situao de inferioridade 
insuportvel para seu orgulho. Preferia que tanto um como o outro 
continuassem a consider-lo, 
como at ento um dono da vida, um homem capaz de remover todas as 
dificuldades e resolver todos os problemas no s os prprios como 
os alheios
Por que, ento, no contar tudo ao Chiru, velho amigo? No. Chiru 
com sua exuberncia havia de propor para a questo uma soluo 
simplista e provavelmente grosseira. 
Depois, no saberia guardar o segredo: iria logo pass-lo ao 
Saturnino, e era natural que assim fizesse, pois no h nada no 
mundo que predisponha mais uma pessoa 
 confidncia do que uma caminhada pelas ruas desertas, na calada da 
noite.
E Cario Carbone? Rodrigo riscava-o sumariamente da lista dos possveis 
confidentes, pois sabia da profunda afeio e respeito que o 
italiano votava a Flora.
Se ao menos Bio estivesse na cidade... Sim, teria de dar a mo  
palmatria, ouvir do irmo o inevitvel "eu no te disse?" Mas 
que diabo! preciso desabafar com 
algum.
Lia com um interesse muito aguado as notcias da guerra E o conflito 
que sacudia a Europa, o mundo inteiro, parecia-lhe to remoto no tempo 
quanto a Guerra das Rosas 
ou a dos Trinta Anos. Abria livros mas no conseguia ler. Andava de 
ateno vaga e seu pensamento fugia sempre para Toni. Reduzira as 
horas de consulta, no tinha 
pacincia com os clientes e irritava-se quando Santuzza
710
711
vinha pedir-lhe a opinio sobre algum problema administrativo do 
hospital.
At a voz de Caruso soava-lhe diferente aos ouvidos, depois que Toni 
lhe fizera a terrvel revelao. A msica que saa da 
campnula do gramofone parecia-lhe sem 
brilho nem relevo. Perdera tambm o apetite e os vinhos lhe sabiam 
mal. Enfim - conclua ele - era como se houvessem passado sobre as 
pessoas e as coisas uma pincelada 
gris. Levava agora uma vida opaca e sem ressonncia e passava a maior 
parte das horas oprimido pela desconfortante sensao de que algo de 
muito mau estava por acontecer.
Notava que Flora andava tristonha e arisca, a mir-lo de longe com 
olhos interrogadores e apreensivos. Em certas ocasies isso lhe 
aumentava o sentimento de culpa; 
noutras, porm, apenas o irritava, levando-o a perguntas bruscas:
- Por que ests me olhando desse jeito? Nunca me viste? Quando isso 
acontecia, Flora desatava a chorar e subia para
o quarto. Ele ficava por algum tempo a ruminar seu ressentimento mas 
depois, serenado e arrependido, subia para pedir perdo  mulher.
- Dinda - disse ele um dia em que se vira a ss com Maria Valria - 
h momentos na vida duma pessoa...
No terminou a frase, temeroso de romper uma confisso completa.
Olhava para o prprio retrato com certa animosidade. Aquele outro 
Rodrigo agora chegava a parecer-lhe insuportvel na sua serenidade 
olmpica.
Chegou a invej-lo. Bons tempos aqueles em que no tinha cuidados 
nem problemas!
Pensou em fazer uma longa viagem com Flora, irem a Buenos Aires, 
Montevidu, Santiago, ficarem alguns meses ausentes de Santa F. 
Quanto ao resto, fosse o que Deus 
quisesse. Mas como poderia ele passar tantos meses longe de Toni quando 
no podia suportar nem uma separao de dias?
Muitas vezes, sob os mais absurdos pretextos, cruzava no seu Ford pela 
frente da casa dos Weber, na esperana de avistar Toni. Uma tarde 
ficou tomado dum sentimento 
de despeito e cime
712
quando, ao defrontar a meia-gua, viu Erwin a bater-lhe na porta, 
tendo nas mos um pacote embrulhado em papel de seda, com toda a 
certeza um presente para a namorada.
Naqueles dias espalhou-se pela cidade a notcia de que Fraulein Weber 
havia contratado casamento com o filho de Otto Spielvogel.
- Impossvel - exclamou Rodrigo numa reao automtica, quando 
Chiru lhe contou a novidade.
- Por que, impossvel? Fazem um lindo par. Diz-que o maestro e a Frau 
andam to satisfeitos que no fecham mais a boca. Que diabo! O rapaz 
tem dinheiro, tem futuro.
Dois dias depois, o jornal de Amintas Camacho trazia a participao 
do noivado. Rodrigo leu-a e sua primeira reao foi de revolta. Teve 
gana de sair porta fora, 
procurar Toni e atirar-lhe em rosto um insulto. Mas sentiu ao mesmo 
tempo uma curiosa sensao de alvio: talvez ali estivesse mesmo a 
soluo do problema. Se se 
casassem antes que se revelasse o estado da moa, a honra dela' (oh! o 
ridculo daquelas frmulas) ficaria salvaguardada. Se Erwin a amasse 
de verdade, no teria 
coragem de abandon-la mesmo depois de descobrir a verdade. E, bolas, 
o rapaz tambm no havia de querer envolver-se num escndalo...
Ao cabo dessas reflexes, Rodrigo soltou um suspiro. Aos poucos, 
porm, comeou a sentir-se esporeado pelo cime e a querer saber 
como era que Toni, a sua Toni, 
ia sujeitar-se quele casamento sem amor. Era-lhe inconcebvel e 
repugnante a idia de que Toni ia dormir com Erwin Spielvogel. Por 
muito tempo ficou amargando aquela 
sensao de desapontamento e logro. Tudo vai ser resolvido  
melhor maneira alem - refletiu com amargor. O outro ficar com a 
mulher que amo e com o filho que fiz 
nela. E amanh os dois viro com Herr e Frau Weber ao Sobrado, e 
todos beberemos champanha juntos e trocaremos amabilidades, como se nada 
tivesse acontecido.
Deu um murro na guarda da cadeira, ergueu-se, botou o chapu e saiu. 
Havia no ar sinais de primavera. Um vento frio perfumado de glicnias 
agitava as folhas novas 
dos pltanos da praa. Grandes nuvens brancas flutuavam no cu.
713
Quem  que pode compreender a alma duma mulher? - perguntava Rodrigo 
a si mesmo, as mos enfiadas nos bolsos, os olhos postos na calada. 
Seus passos o levavam 
para a rua do Poncho Verde. No lhe saam da mente as palavras que 
ele lera na Voz da Serra, naquela participao idiota dentro duma 
cercadura que era uma ridcula 
imitao dum carto de visita com uma das pontas dobrada. "Otto 
Spielvogel e senhora tm o prazer de participar aos parentes e pessoas 
de suas relaes o contrato 
de casamento de seu filho Erwin com a srta. Antnia Weber (Toni)."
Est tudo bem - concluiu, despeitado. Encerra-se um captulo da vida 
amorosa do dr. Rodrigo Cambar. Agora, meu amigo,  criar juzo, 
cuidar da sua mulher, que  
a melhor mulher do mundo, dos seus filhos, da sua casa, da sua 
clnica, da sua vida.
Mas apesar desses conselhos e propsitos, continuava a aproximar-se da 
casa dos Weber. Ao passar pela frente da meia-gua, avistou o vulto de 
Toni, imvel por trs 
das vidraas. Sentiu-se invadido por uma to clida ternura por 
ela, que esqueceu todo o seu ressentimento e s teve um desejo: 
atravessar a rua correndo, erguer 
a guilhotina da janela, tomar a criatura amada nos braos e cobrir-lhe 
o rosto de beijos. Ficou, no entanto, parado na calada oposta, 
esperando que Toni lhe fizesse 
um gesto, um sinal. O vulto, porm, continuava imvel.
Vou ou no vou? - hesitava ele. Deu alguns passos ociosos, dum lado 
para outro, comeou a assobiar (numa das casas vizinhas uma mulher 
assomara  janela) e, confuso, 
sentindo-se grotesco e infeliz, continuou a andar, sem voltar a cabea 
para trs.
Desejava Toni com uma intensidade dolorosa. Sentia uma saudade aguda dos 
beijos dela, daquela excitante combinao: a frescura elstica dos 
lbios e a mornido mida 
do hlito.
Ser possvel, Deus meu, que eu no v mais beijar aquela boca? 
Claro que vou. Claro que vou. Toni me ama. Solteira ou casada ela  
minha, minha, minha!
Antes de dobrar a esquina, olhou furtivamente para trs. A vizinha 
curiosa continuava  janela, com meio corpo para fora, a cabea 
voltada na direo dele. Bruaca! 
Um sentimento de revolta cresceu-lhe no peito. Odiou todas as pessoas e 
todas as coisas qu
714 '
se interpunham entre ele e Toni. E sua incapacidade para venc-las lhe 
dava uma fria sensao de impotncia.
Custou-lhe conciliar o sono aquela noite. Ficou de olhos abertos a fumar 
na cama e a ouvir o relgio grande bater as horas.
8
Na manh seguinte, pouco antes do meio-dia, teve a satisfao de 
ver Torbio apear do cavalo no ptio do Sobrado. Abraou-o com 
grande efuso e, depois do almoo, 
levou-o para a gua-furtada. Fechou a porta a chave e contou-lhe tudo. 
Torbio escutou em silncio sem a menor mostra de surpresa. Quando o 
irmo terminou a histria, 
a nica coisa que disse foi: " o diabo..." E ficou olhando 
reflexivamente atravs da janela para as copas das rvores da 
praa que o vento de setembro sacudia.
- Vamos, homem! - exclamou Rodrigo. - Diz alguma coisa. Que  que eu 
vou fazer?
- Deixa correr o barco...
- No tenho sangue de barata. Preciso fazer alguma coisa, seno 
estouro.
- Fica firme. Deixa que ela case com o Spielvogel.
- E depois?
- O futuro a Deus pertence.
- Eu te peo um conselho e me vens com ditadinhos... Te esqueces de 
que eu gosto da menina.
- Ento tira ela de casa.
- Bio!
- Que  que queres que eu diga?
- Sei l!
Deu um pontap num livro que estava no cho, atirando-o contra uma 
das pernas do catre. Bio inclinou-se, apanhou o volume e comeou a 
folhe-lo.
- Te lembras do velho Winter?
- No mudes de assunto.
Torbio soltou um suspiro de impacincia.
715
- Te meteste nessa enrascada e agora tu mesmo  que tens de sair 
dela.
- No sei, no sei, no sei!
Torbio atirou o toco de cigarro sobre o telhado.
- Uma coisa te peo. Acontea o que acontecer, poupa a tua mulher. 
No deixa que ela venha a saber dessa histria.
- O pior  que ando sem pacincia, irritado, intratvel. A Flora 
j deve estar desconfiada. As mulheres tm um sexto sentido...
Torbio estendeu-se no catre, de costas, e tranou as mos sob a 
nuca. Rodrigo sentou-se no peitoril da janela e ficou a olhar para o 
cata-vento da matriz, que o 
sueste mantinha num contnuo rodopio.
- Parece at feitio, Bio. Essa menina no me sai da cabea. 
Penso nela o dia inteiro e quando durmo sonho com ela. No podes 
avaliar o que sinto porque... ora, 
tu sabes... As vezes acho que o melhor  terminar com tudo, deixar que 
ela case e viva a sua vida. Mas  que no vou poder viver em paz 
sabendo que a Toni est em 
Santa F, to pertinho de mim, e que continua a me amar e que me 
basta ir  casa dela, bater na porta pra ela cair nos meus braos. 
Depois, s de pensar que ela 
vai dormir com aquele alemo, chego a sentir engulhos e me vem uma 
vontade danada de esbofetear o cachorro!
Torbio escutava em silncio. Com os olhos sempre fitos no galo de 
ferro, o outro prosseguiu:
- A primeira vez que fui pra cama com ela, vi que estava perdido. 
Compreendi que a Toni tinha sido feita pra mim, que no podia 
pertencer a ningum mais, que aquilo 
tudo estava acontecendo por determinao do Destino e que portanto 
no adiantava fugir... E te confesso sem nenhuma vergonha que, quando 
deixei o quarto dela na 
primeira noite, cheguei a chorar de to comovido.
Rodrigo sentia que a voz lhe saa fosca e incerta. Mas era bom aliviar 
o peito.
- Tu sabes que na minha vida tenho tido muitas mulheres, de todos os 
tipos e idades... Mas esta... esta  diferente, palavra de honra que 
. O que sinto por ela 
no  s desejo mas tambm ternura. Ests dormindo?
716
- No. Estou s de olho fechado. Vai falando...
- E quando penso que desgracei essa menininha que veio de to longe, e 
que chegou aqui de tranas compridas... palavra que chego a...
Calou-se de sbito, com um aperto na garganta.
- No h de ser nada - murmurou o outro. - Um dia tudo isso passa.
- Quando me contaram que ela tinha contratado casamento com... com esse 
colono, fiquei louco de cime e de despeito. Depois pensei: com que 
direito? Que  que eu 
posso oferecer pra essa moa?
- Claro. E esse casamento talvez resolva o problema.
- Isso  fcil de dizer, mas acontece que a histria toda no me 
sai da cabea. No posso fazer mais nada. Se a coisa continua assim, 
a minha vida familiar, a minha 
tranqilidade, a minha clnica, e eu mesmo... vai tudo guas 
abaixo.
- Poupa a Flora,  o que te digo. Ela merece outra sina. E tens de 
pensar nos teus filhos, na tua madrinha e que diabo! tambm no velho. 
O resto no tem importncia. 
O resto se arranja com o tempo.
Rodrigo aspirou o ar com fora.
- Este perfume de flor que anda por toda a parte, este... esta... Eu sei 
que  besta estar dizendo estas coisas, mas afinal de contas um homem 
precisa desabafar 
com algum. Esta primavera est me bulindo com o sangue. Faz quase 
um ms que eu tive a Toni pela ltima vez. No agento mais a 
saudade. Sei que depois desse contrato 
de casamento eu devia ter mais amor-prprio e esperar que ela me 
procurasse, mas no posso. A falta que sinto dela s vezes chega a 
doer, como se me tivessem cortado 
um pedao do corpo.  a voz dela, o cheiro dela, o jeito dela 
beijar... sinto falta de tudo.
Rodrigo olhava agora para a grande nuvem bojuda que o vento impelia na 
direo do poente.
- Em certas horas - continuou ele - fico assim meio lrico, me lembro 
daqueles olhos de boneca, e me vem uma pena danada da menina, tenho 
vontade de p-la no colo, 
passar a mo nos
717
cabelos dela e fazer a criatura nanar como uma criana. Ests 
achando graa, no ? Pois podes rir, no me importo.
- Continua, homem.
- Ali! Mas o mais difcil  quando sinto saudades da fmea. Nessa 
hora  na boca de Toni que eu penso. Nunca reparaste na boca dessa 
menina?
- Mais ou menos. Por qu?
- No sei, tem qualquer coisa que me deixa meio louco. Uma vez fiquei 
to excitado que dei uma mordida naqueles beios. No outro dia ela 
amanheceu com o lbio inferior 
inchado, teve de mentir em casa que era mordida de marimbondo.
Bio devia estar achando ridculas aquelas confidncias. Sim, o amor 
tinha sempre algo de grotesco para quem o examinava de fora, a frio. 
Dali a um ano ou dois, ao 
pensar em todas aquelas coisas, talvez ele prprio viesse ach-las 
ridculas. Mas agora...
- No penses que no vejo que toda essa histria  uma loucura - 
disse Rodrigo em voz alta - e que mais tarde ou mais cedo tenho de 
voltar  minha vida normal. No 
quero perder o amor nem o respeito da Flora. Sei que tudo que fiz est 
errado e que procedi como um canalha. Tu me preveniste em tempo. Eu 
mesmo me preveni. Mas 
que adianta a razo recomendar uma coisa quando o corpo est 
gritando violentamente por outra muito diferente? Estou cada vez mais 
convencido de que amor  doena, 
e doena infecciosa. Uma espcie de febre, Bio. E o pior  que o 
doente no quer nem ouvir falar em cura.
Houve um curto silncio. Uma pandorga metade amarela, metade escarlate 
apareceu, muito alto, por cima da cpula da Intendncia.
- E agora essa gravidez agravou tudo. J pensaste no que pode 
acontecer se os outros vierem a saber desse filho? J pensaste no 
escndalo, no falatrio, nas sujeiras? 
Pensas que acredito que essas pessoas que me cercam e adulam so meus 
amigos de verdade? Qual! A maioria no me perdoa por eu ter dinheiro, 
talento, boas roupas, 
prestgio, posio... Meus inimigos vo aproveitar a 
oportunidade pra me atirarem lama na cara. No descansaro enquanto 
no me virem completamente derrotado.
Calou-se e ficou a esbofetear em pensamento todos os maldizentes da 
cidade. Depois esqueceu-os, pois Toni passou a ocuparlhe a mente por 
completo. Como seria bom 
sair agora com ela para longe de todas aquelas misrias! Iriam os dois 
de mos dadas para o campo, ao encontro da primavera.
-- Eu podia deixar que o barco corresse, como queres. Mas  que no 
sei esperar. Fico exasperado. Se ao menos pudesse ver a Toni mais uma 
vez... Queria que ela me 
dissesse: "Ainda te quero, vou me casar com o Erwin porque meus pais me 
obrigaram, e porque este filho que est dentro de mim precisa dum pai. 
Mas  a ti que eu 
quero e hei de querer sempre". Bastava que ela dissesse isso. Eu s 
queria falar com ela uma vez mais...
Falar? No, no podia enganar-se a si mesmo. O que ele desejava, com 
uma intensidade pungente era de novo apertar Toni nos braos, beijar 
aquela boca, morder aqueles 
lbios.
No eram ainda quatro horas da tarde quando o telefone do Sobrado 
tilintou e Rodrigo, ao atender o chamado, reconheceu a voz de Frau 
Weber, que tentava dizer-lhe 
alguma coisa que ele no entendia, pois a mulher falava aos gritos, 
num desatino, a misturar francs com alemo. Compreendendo que algo 
de terrvel se passava na 
casa dos Weber, precipitou-se para l a correr, com um pressentimento 
medonho. Entrou na meia-gua, foi direito ao quarto de Toni e 
encontrou-a tombada no cho, 
os olhos exorbitados e vtreos, o rosto lvido contorcido numa 
expresso de dor violenta, os lbios e o queixo queimados pelo 
veneno que tomara.
Estava morta.
Achavam-se ambos fechados no consultrio havia j quase meia hora. 
Torbio olhava para o irmo que, sentado no div, tinha o rosto 
escondido nas mos e o corpo sacudido 
por soluos secos. Rodrigo esforava-se por chorar mas no podia: 
era como se uma mo de ferro lhe apertasse a garganta e oprimisse o 
corao, retendo
718
719
o pranto. E ele precisava chorar porque do contrrio alguma coisa ia 
rebentar-lhe dentro do peito. Sentia contra o rosto o contato gelado das 
prprias mos. Ardia-lhe 
a garganta e a boca estava seca. Houve um instante de nsia e nusea 
em que sentiu contraremse-lhe os msculos do estmago, como se 
fosse vomitar. Deitou-se de 
borco no div e apertou o peito e o ventre contra o oleado... Se 
conseguisse vomitar - concluiu estonteadamente - talvez toda a 
angstia sasse pela boca e ele ficasse 
aliviado... Lembrou-se do dia em que Toni viera a seu consultrio e ficara ali deitada no div, bem como ele estava 
agora... Por mais que se esforasse, 
no podia apagar a lembrana horrenda. Toni estendida no cho, os 
olhos arregalados e imveis, a boca queimada, a boca queimada, a boca 
queimada... De novo o peso 
daquela desgraa caiu sobre ele com uma fora esmagadora. Rodrigo 
apertou os olhos num novo e vo esforo para chorar, mas os 
soluos secos e agnicos continuaram.
- Vou pedir um calmante ao dr. Carbone - murmurou Torbio.
- No! Me deixem em paz. Vai-te embora!
Naquele instante bateram  porta. Torbio aproximou-se dela.
- Quem ?
De fora veio uma voz:
- Sou eu, o padre Astolfo.
Aps um breve momento de hesitao, Torbio abriu a porta. O 
vigrio entrou, parou no meio da sala, olhou longamente para Rodrigo, 
em silncio, depois acercou-se 
dele, inclinou-se e tocou-lhe de leve a face com a ponta dos dedos, numa 
desajeitada e tmida carcia. Rodrigo ergueu os olhos e, vendo o 
amigo, rompeu finalmente 
num choro convulsivo. As lgrimas lhe rolaram em grossas bagas pelas 
faces. Ficou assim por longos instantes a soluar, enquanto o padre e 
Torbio conversavam em 
voz baixa a um canto do consultrio.
Por fim, desoprimido, Rodrigo sentou-se no div, enxugou as lgrimas 
com a manga do casaco, tirou um cigarro do bolso, prendeu-o entre os 
lbios e aproximou-o da 
chama do fsforo que Torbio havia riscado. Soltou algumas baforadas 
com uma lnguida,
720

trmula e culposa sensao de bem-estar. Olhou para o vigrio 
demoradamente e teve um desejo sbito de confessar-lhe tudo.
- Padre, a menina estava grvida e o filho era meu. Ela se matou por 
minha causa.
Sentiu que ao dizer estas palavras estava pedindo piedade, simpatia, 
apoio; no entanto o que queria era incriminar-se, bater no peito, fazer 
um ato de contrio. 
O sacerdote mirava-o com expresso melanclica.
- O senhor sabia? - perguntou Rodrigo.
- Sabia.
- Ela lhe contou?
- No. Quem me contou foi o senhor mesmo: o seu olhar, os seus gestos, 
tudo...
Rodrigo baixou os olhos para o cho e murmurou:
- Procedi como um covarde.
- No se trata de achar um qualificativo para a sua conduta. J que 
o mal est feito, o que o senhor tem a fazer agora  salvar o que 
sobrou.
- No sobrou nada, padre, nem a minha dignidade.
- Sobrou muito. Sua mulher, seus filhos, sua vida enfim.
- Mas que  que vai ser da minha vida daqui por diante, com essa morte 
na conscincia?
E num acesso de autocomiserao rompeu de novo a chorar, mas dessa 
vez um choro silencioso, sem soluos, frio, mole, abjeto.
Tornou a voltar em pensamento quele quarto. Toni no cho, os 
lbios queimados, queimados, queimados...
- Sou um egosta, um vaidoso, um canalha...
Deixou cair o cigarro e de novo escondeu o rosto nas mos. Torbio, 
que agora picava fumo com sua faca de prata, olhou para o sacerdote.
- Mas a moa no deixou mesmo nenhuma carta... nada?
- No.
-  esquisito.
- Deve ter feito aquilo num momento de desespero, num repente. Se 
pensasse um pouco, no faria. Era uma boa catlica.
721
Contou que desde o dia anterior Herr Weber e Wolfgang estavam em Nova 
Pomernia, e que Frau Weber sara pela manh, muito cedo, ficando 
para almoar na casa duma 
de suas alunas de canto. Toni, dizendo-se indisposta, permanecera em 
casa, fechada no quarto. Tudo indicava que ingerira o veneno cerca das 
oito da manh. Ao tornar 
 casa pouco antes das quatro da tarde, Frau Weber batera  porta do 
quarto da filha e, como no tivesse resposta, ficara alarmada e 
correra a pedir o auxlio de 
vizinhos, os quais arrombaram a porta, encontrando a menina j sem 
vida.
Rodrigo imaginava a longa agonia da pobre Toni, sozinha naquele quarto a 
estorcer-se no cho, a boca, a garganta, o esfago, o estmago 
corrodos pelo veneno, um 
vmito sanguinolento com pedaos de mucosa a escorrer-lhe dos 
lbios queimados. E a dor dilacerante, a nsia espasmdica, a 
falta de ar... Aquilo durante horas, 
horas, horas... Santo Deus!
Rodrigo queria afastar da imaginao aquela cena de horror mas no 
conseguia. Entrou a tremer e a suar frio.
O padre Astolfo caminhava dum lado para outro, em passadas largas e 
compassadas. Bio enrolava o crioulo.
Rodrigo olhou para o sacerdote.
- Quando vai ser o enterro?
- Amanh s oito. Diz o dr. Matias que no convm esperar mais 
tempo.
- E o corpo... vai ser encomendado?
O padre sacudiu a cabea numa desalentada negativa.
- Um sacerdote catlico no pode encomendar a alma dum suicida.
Rodrigo pensou no golpe que aquilo ia ser pra os Weber. Sim, os Weber. 
No tinha ainda pensado neles. Pobre gente!
- Tudo por culpa minha - balbuciou. - Se eu tivesse um pingo de vergonha 
na cara, o que fazia era meter uma bala nos miolos.
Disse estas palavras sem nenhuma convico, pois por trs de seu 
desespero o que havia era ainda uma descomunal vontade de viver.
722
- O suicdio  sempre uma soluo covarde - replicou o 
sacerdote.
Covarde? Ento o padre achava que Toni era covarde? Como ousava ele 
dizer aquilo?
- Que entende o senhor dos assuntos do corao? - perguntou num 
assomo de indignao. - Como pode ser juiz das aes dos homens 
se nem homem inteiro o senhor ?
Por um curto instante Rodrigo como que se aliviou da carga de culpa, 
transferindo para o homem de batina negra a responsabilidade da 
tragdia. Astolfo era o confessor 
de Toni, um guardio da virtude, da moral, de todos os preconceitos 
sociais que haviam impedido que ele e Toni fossem felizes juntos.
- E se existe um Deus e esse Deus  bondoso e justo - acrescentou com 
os olhos iluminados dum repentino brilho - Toni vai para o cu sem 
precisar da interferncia 
de sua Igreja!
O padre Astolfo escutou-o sem que um nico msculo de seu rosto se 
movesse. S os olhos traam sua mgoa.
- Pode desabafar, meu amigo, se isso lhe faz bem. O que pensa de mim 
no tem a menor importncia. O que importa  evitar que o senhor 
cometa outro desatino.
Rodrigo, que se havia erguido para dizer as ltimas palavras, tornou a 
sentar-se. Tinha o corpo dolorido, as pernas bambas.
- Seu irmo tem algo de importante a propor-lhe - murmurou o padre, 
aps um breve silncio.
- Tu no vais ao enterro amanh - disse Torbio. Rodrigo teve um 
sobressalto.
- Por qu?
- Teu desespero pode dar na vista e todo mundo vai compreender o que 
aconteceu. J basta a cena que fizeste na casa dos Weber, na frente de 
toda aquela gente.
Por alguns segundos Rodrigo ficou perdido, dando uma ansiada busca na 
memria. No se lembrava de como tinha vindo da casa de Toni para o 
consultrio.
- Mas  impossvel - reagiu - que a esta hora a cidade continue 
ignorando a verdade.
723
O padre Astolfo relatou-lhe ento, com visvel constrangimento e 
algumas reticncias, o que se comentava em Santa F a respeito do 
suicdio. Corria uma verso segundo
 qual Toni se matara porque no amava Erwin Spielvogel, com quem os 
seus queriam obrig-la a casar-se. Bio contou-lhe uma histria mais 
srdida: Toni suicidara-se
de vergonha, ao descobrir que o irmo era um invertido sexual. E o 
Zago - acrescentou o vigrio, hesitante veiculava maliciosamente o 
boato de que Toni estava grvida 
e que o pai da criana era um dos filhos de Maneco Macedo, com o qual 
a moa fora vista um dia passeando de automvel.
- Que infmia! - vociferou Rodrigo- - O filho  meu. E por um 
rpido instante ficou turbado pela sombra duma
ciumenta suspeita.
Torbio ps-lhe a mo no ombro.
- Vais hoje mesmo pr Angico.
- Ests doido!
- J preparei tudo. Disse  Flora que o PaPai mandou te
 
chamar com urgncia porque no anda se sentindo bem.
- Mas  um absurdo... - replicou Rodrigo, mas j com menos 
veemncia. - Que  que vo dizer se no me virem no enterro?
O padre interveio:
- O essencial  evitar que a situao pire temos de impedir que 
outras pessoas sejam atingidas por essa desgraa. V para a 
estncia e fique l uns dias. A fase 
aguda do caso passar e ento o senhor poder voltar para casa e 
recomearsua luta sobre uma base nova.
Rodrigo relutava:
- Que  que vocs pensam que eu sou? Desde quando esto me dando 
ordens?
O vigrio fez um gesto de desamparo. Bio alteou a voz:
- No compreendes, idiota, que estamos tratando de poupar tua mulher, 
tua famlia, teu futuro?
724
Rodrigo tinha agora a impresso de que estava no fundo dum poo. De 
que lhe adiantava lutar? Fez ainda uma objeo, mas com a 
esperana de que os outros o convencessem 
do contrrio.
- Mas de que vai servir toda essa comdia? A Flora deve saber de 
tudo... no sabe, padre?
Astolfo levou algum tempo para responder. Quando o fez foi em poucas 
palavras:
- Dona Flora  uma mulher inteligente e de bom senso. Torbio estava 
agora impaciente.
- O Ford j est pronto - anunciou. - Precisas ir o quanto antes, 
pra chegares ao Angico antes do anoitecer. Deixa o resto por minha 
conta: fico aqui at voltares.
Saiu do consultrio e tornou pouco depois, trazendo um copo graduado e 
uma garrafa de conhaque. Ergueu o copo contra a luz e derramou nele a 
bebida.
- Vamos, bebe, homem. Sessenta gramas. Vai te fazer bem. Rodrigo bebeu.
- Mais um pouco?
O outro disse que no com um meneio de cabea.
- E o senhor, padre?
- No, obrigado.
- Pois eu estou precisando de uma talagada, que no sou de ferro. Umas 
cem gramas... ou cento e vinte.
Serviu-se, levou o copo aos lbios e emborcou-o. Estralou os beios 
e olhou para o irmo:
- Agora enxuga essas lgrimas, penteia esse cabelo e vai te despedir 
da tua famlia. Te lembra do velho Babalo: desgraa pouca  
bobagem.
Rodrigo ergueu-se, aproximou-se da pia e ficou a mirar-se no espelho, no 
qual viu a imagem do padre por trs da sua. Uma voz macia mas grave 
soou-lhe junto ao ouvido:
- Lembra-se daquela nossa conversa na praa, na madrugada do velrio 
de dona Emerenciana?
Rodrigo franziu a testa. E lembrou-se.
725
10
O sol j se tinha posto quando chegou ao Angico. Fez um esforo para 
no desatar o choro no momento em que, ao abra-lo, o pai 
perguntou:
- Que surpresa  esta? Que foi que houve?
Gaguejou uma escusa. Estava cansado, trabalhara demais nos ltimos 
dias, precisava passar algum tempo na paz do campo, para se refazer. O 
senhor compreende: aquela
lida do consultrio, uma operao atrs da outra e, por cima de 
tudo, essas histrias de poltica...
- Fiquei muito abalado com a morte do senador. Foi como se eu tivesse 
perdido um parente chegado.
Sim, ele sentira sinceramente a perda de Pinheiro Machado, mas por que 
razo essas palavras agora soavam como uma mentira?
- Foi uma coisa brbara... - murmurou Licurgo.
Pouco depois, sentado  mesa de jantar, falaram ainda na tragdia do 
Hotel dos Estrangeiros. Licurgo recordou passagens da vida poltica e 
privada de Pinheiro Machado.
Rodrigo, porm, estava abstrato, no prestava ateno no que o 
pai dizia.
- O senhor no come?
- Estou sem apetite.
- Tome ento um copo de leite.
- No, papai. Ando meio enfastiado.
E de sbito a primeira frase da Rverie de Schumann soou-lhe na 
mente e, sentindo que ia romper o choro, ergueu-se, saiu da sala em 
passos apressados, meteu-se no 
quarto escuro e atirou-se na cama. Oh! Tudo estava muito pior do que ele 
imaginara! A solido do campo, os lampies a querosene, o cheiro de 
picum e sebo frio, 
o desconforto, o vento, aquele vento alucinado que uivava l fora, 
fazendo bater folhas de janelas, o vento implacvel a raspar, a 
raspar, a raspar como uma lixa 
nos nervos da gente!
Uma tbua do soalho rangeu. Rodrigo voltou a cabea e viu o pai no 
meio do quarto com uma vela acesa na mo.
- Meu filho, fale a verdade. Que foi que aconteceu?
726
Deitado de bruos, com ambas as mos agarradas s barras do lastro 
da cama, Rodrigo continuava a chorar.
- Morreu algum, eu sei.
Licurgo fez uma pausa em que o castial lhe tremeu na mo.
- Diga quem foi? Estou preparado pra tudo.
- Por favor, apague essa vela...
Licurgo hesitou por uma frao de segundo. Por fim soprou a chama e 
o quarto ficou de novo s escuras.
Rodrigo contou ento sua histria desde a noite em que conhecera 
Toni Weber at o momento em que a encontrara morta com a boca 
corroda de cido. Sentiu um certo 
prazer em esmiuar pormenores que o incriminavam, em procurar 
agravantes para sua culpa. Quando terminou a narrativa, fez-se um 
silncio que s o pigarro seco de 
Licurgo cortou.
- Eu tinha de tirar esse peso do peito. O senhor  meu pai. Pode dizer 
que sou um miservel, um canalha, porque sou mesmo. Me castigue, tem 
todo o direito. Diga 
o que quiser, que eu curvo a cabea. No tenho desculpa, no tenho 
perdo.
No corao de Licurgo havia uma praa e no centro dessa praa um 
monumento: a esttua do jovem dr. Rodrigo Cambar, homem de 
carter, mdico humanitrio, bom filho, 
bom irmo, bom marido, bom pai, bom amigo. Agora ele prprio, 
Rodrigo, derribara a esttua com aquela confisso, atirara sua 
prpria imagem no barro. Isso o fazia 
sofrer mas ao mesmo tempo o redimia um pouco.
Licurgo riscou um fsforo: a chama subiu, trmula, parou  altura 
do cigarro e depois apagou-se, ficando apenas um ponto luminoso na 
escurido.
Por que o velho no dizia alguma coisa? A fumaa de seu crioulo 
espalhou-se no ambiente e, aspirando-lhe o cheiro acre, Rodrigo teve a 
impresso de que estava vendo 
e tocando o corpo do pai.
- O Bio me aconselhou que viesse... Achou que eu no devia ir ao 
enterro, estava com medo que eu me trasse... Meu dever era ficar e 
enfrentar a situao, mas fugi 
como um covarde.
727
- Fez bem em vir. Seu irmo andou acertado. O senhor tem que zelar 
pela sua mulher, pelos seus filhos. Isso  o principal.
Rodrigo no queria que o pai dissesse aquelas coisas. Preferia que ele 
o insultasse, que o esbofeteasse, que o expulsasse de casa.
- O senhor no procedeu bem - murmurou Licurgo -, fez mal pra moa. 
Isso no  direito, no  decente, mas  da vida, pode 
acontecer pra qualquer homem. O principal 
agora  no perder a cabea. O mundo no vai acabar. O senhor 
tem que continuar vivendo como dantes, sua famlia tambm, e o 
Sobrado. Sinto muito o que aconteceu. 
Que lhe sirva de lio.
No havia no tom de voz do pai nem indignao nem solenidade, mas 
apenas uma tristeza seca de serrano.
E no silncio que de novo se fizera, Rodrigo escutava o uivo do vento 
e o farfalhar do bambual.
11
O quarto frio e mido estava fracamente alumiado pela chama dum 
lampio a querosene. Deitado de costas, completamente vestido, Rodrigo 
olhava para o teto e pensava 
na longa noite que tinha pela frente. Havia mais de uma hora que a 
cabea lhe doa sem cessar. Era uma dor surda e latejante, que lhe 
dava a impresso de ser produzida 
pelas pancadas do sangue nas tmporas. Ah! Se ao menos tivesse trazido 
algum narctico...
Acendeu um cigarro, soltou uma baforada, cerrou os olhos e ficou 
escutando o pulsar do corao, pensando nas muitas noites em que 
sentira contra o peito nu as batidas 
medrosas do corao de Toni. Sobre o fundo escuro das plpebras 
ele como que viu uma menininha de longas tranas, com a face 
ternamente encostada no brao do violoncelo, 
tocando a Reverte. Em sua mente soaram as primeiras oito notas da 
melodia, e ficaram a repetir-se dum modo obsedante, acompanhando a 
cadncia lenta e regular do 
sangue.
Pobre Toni! quela hora seu corpo estava sendo velado na pequena sala 
da meia-gua dos Weber. Rodrigo imaginou a cena: o caixo negro, o 
cadver coberto de flores, 
o rosto tapado por um
728
leno e, debaixo do leno, os lbios queimados, os lbios 
queimados, os lbios queimados... Herr Weber decerto olhava em torno, 
atarantado, com o ar de quem continua 
a no compreender. Frau Weber chora num desespero, a pobre Frau Weber 
para quem o dr. Rodrigo Cambar era o mais belo e generoso dos 
homens... E Wolfgang ali est 
a olhar tristemente para a irm morta...
Ao pensar em que Cuca Lopes estaria tambm no velrio a animar as 
conversas com suas piadas, e que Chiru talvez naquele instante mesmo 
estivesse a propor alegremente 
uma partida de truco - Rodrigo encolhia-se, sensibilizado,  idia 
de que a pobre Toni jazia abandonada, exposta  indiferena ou, pior 
ainda,  maledicncia geral 
numa terra de gente estranha que no lhe queria nenhum bem. Isso lhe 
deu tamanha pena da menina, que lgrimas lhe vieram aos olhos.
Ps-se de p, cuspiu fora o cigarro e ficou com as mos a segurar 
a cabea. Comeou depois a dar voltas pelo quarto numa nsia 
aturdida. Olhou o relgio: ainda no 
eram onze horas. Tornou a atirar-se na cama. Teve a impresso de que 
seu crnio era uma casa enorme como o Sobrado, onde soava um 
violoncelo enorme, tocando uma 
msica enorme, e cada nota era como uma ferroada que lhe varava o 
crebro. Depois sua cabea passou a ser misteriosamente uma 
meia-gua de janelas pintadas de azul 
(Santo Deus, acho que estou ficando louco) e em seguida j era apenas 
um pequeno quarto recendente a alfazema. De sbito, num desespero, 
abraou o corpo clido da 
mulher que sentia palpitar contra o peito. E com que fria lhe beijou 
a boca! Mas cuidado, animal! cuidado, porco! que ests machucando os 
pobres lbios queimados, 
queimados de cido, queimados...
No. Toni no podia ter feito aquilo. Toni no estava morta. Era 
tudo um sonho. Quando rompesse a manh ia descobrir aliviado, que tudo 
tinha sido apenas um pesadelo.
Revolveu-se na cama e ficou deitado de costas, a olhar para a prpria 
sombra projetada na parede branca, ouvindo os baques surdos do 
corao e aquele tanta impiedoso 
dentro do crebro. Decerto vou ficar louco, j estou meio louco...
729
Sem saber quando nem como, afundou num mundo confuso de febre, dor e 
nsia, num escuro torpor que no era bem sono nem chegava a ser 
viglia - modorra agnica em 
que continuou a sentir a angstia que lhe oprimia o peito, e o latejar 
dolorido da cabea. Seu esprito andou perdido por uma regio 
crepuscular e equvoca povoada 
de vagos vultos e vozes, sombras e sons que ele procurava identificar 
numa aflio, mas que lhe fugiam (era de endoidecer!) no momento 
mesmo em que iam revelar seu 
mistrio, dissolviam-se na grande cerrao atravs da qual ele 
se esforava por ver claro, orientar-se, pois sentia que s vendo 
claro e descobrindo onde estava 
podia salvar-se, evitar a loucura, abrir uma picada para o dia, para o 
sol, porque estava extraviado, louco no - querem ver uma coisa? - eu 
sei quem sou e onde 
estou... Sou Blau Nunes estou na furna do Jarau ningum me engana 
porque eu sei querem que eu fique louco, mas sei no estou louco  
s esta dor achei a Salamanca 
tenho que ir adiante adiante adiante at o tesouro as onas de ouro 
e sol no volto no volto nem por ouro nem por prata nem por sangue 
de lagarta nem me assusto 
com cobras, almas do outro mundo, aranha morcegos avantesmas abantesmas 
feras fetos eu sei eu sei meus inimigos querem que eu me assuste e fuja 
fique louco no ache 
o tesouro o sol no me entrego, no enlouqueo  s esta dor 
mas sei quem sou um tal Blau Nunes esta cabea  a furna do Jairo 
esta dor batendo batendo nas paredes 
so morcegos monstros, mas no me entrego vou achar o tesouro e o 
sol mi l coq mi l coq mi l coq no me entrego vou 
achar o tesouro, o sol quando romper o 
dia tudo passa  um pesadelo eu sei que sou Blau Nunes minha cabea 
 o cerro do Jairo do Jarau do Jarau do Jairo s peo que no 
batam no batairi no pisem no 
meu peito no batam no batam na minha cabea no batam...
E a furna se fez ainda mais escura e seu esprito ento ficou preso 
numa ilha trrida de febre, dor e angstia, em parte nenhuma do 
tempo, em parte nenhuma do espao.
Acordou de repente, sentindo que havia soltado um grito. Ps-se de 
p e por alguns segundos ficou desorientado, com a 
730
impresso de que estava  beira da loucura. Deu uma volta pelo quarto, 
s tontas, depois sentou-se na cama e ali ficou por algum tempo a 
olhar para a chama do lampio, 
que minguava. Era estranho: no ouvira o grito: vira-o. Aos poucos 
lembrou-se do sonho. Ia ser enterrado vivo. Era na sala de visitas do 
Sobrado, ele estava sentado 
no seu atade, no meio de flores de alfazema e no podia reconhecer 
aquelas gentes que ali estavam no seu velrio, porque todos tinham as 
faces carcomidas de cido. 
Aos poucos foi distinguindo as fisionomias... O velho Pitombo, o 
desenterrador de cadveres, insistia para que ele se deitasse: estava 
na hora do enterro, tinham 
de fechar o caixo. Ele gritou: "Por amor de Deus, no me enterrem. 
No estou morto! No estou morto!" Apelava para Flora, que chorava 
de mansinho, sacudindo tristemente 
a cabea, como a dizer que nada podia fazer. Apareceu-lhe ento o 
pai com um enorme relgio de pndulo na mo, dizendo: "Meu filho, 
no h outro remdio, tem que 
ser,  a lei, tem que ser,  a lei, tem que ser,  a lei". Viu 
ento, apavorado que tinha sido trado. Seus parentes e amigos iam 
enterr-lo vivo. Tudo aquilo era 
uma conspirao. Quis gritar, mas o horror lhe tirava a voz. De 
sbito teve a revelao do mistrio: morrer no era uma 
fatalidade biolgica, mas um dever social. 
Morria-se porque era uma lei. Tremendo de medo, deitara-se no caixo, 
mas no momento em que Pitombo e Srgio erguiam a negra tampa, ele 
soltara o grito.
Olhou em torno do quarto e comeou a sentir uma sufocao, uma 
estonteada angstia de emparedado. Correu para a janela e 
escancarou-a. Firmou as mos no peitoril 
e saltou para fora.
12
Ficou um instante parado  frente da casa, os olhos entrecerrados, 
recebendo em plena cara o vento frio e mido da madrugada. O farfalhar 
do bandual chegava-lhe 
aos ouvidos como um rudo de mar. Meteu as mos nos bolsos, 
trmulo de frio. Pensou em voltar para enfiar o sobretudo e o 
chapu. Mas no. Precisava castigar o corpo. 
Ps-se a andar em passadas rpidas e largas, como
731
se tivesse destino certo. Ergueu o rosto. Grandes nuvens brancas e 
mveis escondiam a lua. Nas nesgas de cu limpo entre as nuvens, 
tremeluziam estrelas. A grama 
estava empapada de sereno e Rodrigo sentia as bocas das calas 
baterem-lhe nas pernas, molhadas e frias.
Continuou a caminhar e a cada pisada mais forte a cabea lhe doa 
numa ferroada. Volte j pra casa menino, seno vai apanhar uma 
pulmonia! De onde vinha aquela voz? 
De que boca? De que mundo?
Sob o cu vertiginoso em que nuvens passavam sobre a face luminosa da 
lua num apaga-acende fantstico, as coxilhas tinham uma amplido 
desolada e glacial de estepe. 
E era s o sopro frio do vento que dava a Rodrigo a certeza de estar 
acordado e no a vaguear ainda dentro dum pesadelo.
Dali a poucas horas sairia o enterro de Toni. L est a meia-gua. 
Muita gente aglomerada  porta. Curiosos aparecem s janelas, na 
vizinhana. Quem  que vem carregando 
o caixo? Mas que importa saber quem carrega o caixo? O horrvel 
 que o cortejo no poder entrar na igreja, o pavoroso  que 
no haver encomendao. (E pensando 
essas coisas Rodrigo apressava o passo cada vez mais, como se quisesse 
chegar a Santa F a tempo para acompanhar o enterro.) A alma de Toni 
tinha ido direito para 
o inferno. No! No! No acreditava no inferno. Era uma 
sobrevivncia medieval, uma inveno estpida. O inferno estava 
na Terra. Ele prprio se sentia agora no 
pior dos infernos. (E esta idia de certo modo o consolava, pois ele 
precisava expiar seu crime.) Inferno  uma cabea que no cessa de 
doer nem de pensar, de doer 
e de pensar os pensamentos mais confusos, mais doidos. No inferno devia 
ter penado Toni desde o dia em que descobrira que estava grvida. 
Inferno fora para a coitadinha 
a hora em que resolvera matar-se. Inferno, medonho inferno, o instante 
em que tomara o veneno, em que sentira a dor da queimadura nos lbios, 
na boca, no esfago, 
no estmago. Inferno, inferno, inferno aquela longa agonia convulsiva 
em que vomitava pedaos de vsceras. Agora estava morta, tinha 
encontrado finalmente a paz. 
Pobre Toni! Pobre Toni! (E nas profundezas de seu ser uma voz respondeu 
apagada: Pobre de mim!)
732
Fez alto e voltou-se. Como j estava longe a casa da estncia! 
Quedou-se por algum tempo no meio do campo, transido de frio e com a 
sensao do mais absoluto desamparo. 
Sentiu uma repentina piedade de si mesmo, quis chorar mas no pde. 
Desejou o sol, o novo dia, o Sobrado, um aconchego humano, um peito 
amigo onde pousar a cabea 
fatigada e dolorida. Pensou na madrinha, em Flora, nos filhos... Como 
podia ter ficado tanto tempo sem lembrar-se da famlia? Seu egosmo 
persistia, mesmo na dor. 
S ele sofria no mundo, ningum mais. Veio-lhe uma sbita 
esperana. Era impossvel que tudo estivesse perdido... Voltaria 
para casa, o tempo cicatrizaria todas 
as feridas e de novo a vida tornaria a ser o que era antes... Mas no! 
Ele no merecia ser amado, admirado, respeitado. Era um canalha. Tinha 
assassinado Toni, dera-lhe 
a pior espcie de morte: no s lhe destrura o corpo como 
tambm a alma.
Pobre Toni! Vou mandar fazer um tmulo para ela. Um tmulo para 
Toni: Santa Ceclia sentada numa lpide, a cabea inclinada, 
chorando. Ao lado, uma roseira de rosas 
vermelhas como as que ela tanto admirava no jardim do Sobrado. Rosas 
vermelhas para Toni, para a pobrezinha da Toni que viera de to longe 
para ficar sepultada no 
cemitrio de Santa F...
Veio-lhe  mente a imagem do padre Astolfo. Se ao menos pudesse 
orar... Balbuciou as primeiras palavras do Padre-Nosso. Faltava-lhe 
contrio. Devia ser o frio da 
madrugada, o vento, a canseira, a dor e a confuso que o impediam de 
concentrar-se na prece, sentir a presena de Deus. Mas... e se Deus 
estivesse morto? Morto Deus, 
o mundo estava perdido, no haveria mais sol, nem esperana, nem 
amanh. Mas Deus no podia morrer. Se pudesse, no seria Deus. E 
se Ele no fosse Deus? E se Deus 
tivesse enlouquecido? No. Quem est ficando louco sou eu. Por 
castigo, por castigo.
Continuou a caminhar. Precisava redimir-se, regenerar-se, mudar de vida. 
Juro por Deus que daqui por diante vou viver s pra minha famlia. 
Ainda amava Flora. Precisava 
compensar o mal que lhe fizera. Ou seria demasiado tarde? Sim, era 
tarde. Talvez nem a encontrasse mais em casa. Pensou com horror nos dias 
em que
733
estavam por vir. A cidade inteira a apont-lo como um criminoso. (Era 
impossvel que j no soubessem de toda a verdade.) O casaro 
vazio, as horas vazias, a vida 
vazia. E a saudade de Toni, a saudade de Flora, a saudade dos filhos, a 
saudade do outro Rodrigo, o remorso, o remorso e lembrana daqueles 
lbios carcomidos. Santo 
Deus, aqueles lbios queimados...
Tornou a fazer alto, ofegante, com a garganta a arder. Caiu de joelhos, 
depois sentou-se e por fim estendeu-se no cho de todo o comprimento, 
sentindo contra a face 
e as mos a fria umidade da grama. Precisava flagelar o corpo, aquele 
corpo vil que era o culpado de tudo. "Deixe de fita! Levante-se, deixe 
de fita!" Mas no, papai, 
o senhor no compreende, estou muito doente, ardendo em febre, uma 
pontada nas costas...
Estava perdido. Tinha apanhado uma pneumonia dupla. Ergueu-se de inopino 
e desandou a correr na direo da casa. No queria morrer, no 
podia morrer. Ia acordar 
o pai, os pees, mandar o Bento  cidade em busca dum mdico, de 
remdios... No. Ele precisava sofrer, devia morrer, porque tinha 
matado Toni. O remdio era curvar 
a cabea e aceitar o castigo. Continuou, porm,
a correr...
Escalou a janela e saltou para dentro do quarto. Correu  sala de 
jantar, tirou do guarda-comida uma garrafa de cachaa, desarrolhou-a, 
levou o gargalo  boca e 
bebeu um largo sorvo. Voltou para o quarto com a garrafa debaixo do 
brao e ps-se a procurar atabalhoadamente uns comprimidos que se 
lembrava de ter visto na gaveta 
da mesinha-de-cabeceira. Achou duas aspirinas, meteu-as na boca, tomou 
um novo gole de cachaa e engoliu-as. Deitou-se, enrolado num 
cobertor, e ficou encolhido 
como um feto, desejando como nos tempos de menino as mos frescas da 
Dinda em sua testa escaldante.
Comeou a bater dentes, o corpo sacudido de calafrios. No queria 
fechar os olhos porque temia entrar na furna do Jarau, sabia que se 
entrasse de novo naquela medonha 
noite ficaria irremediavelmente louco. O que ele precisava era lutar 
contra a conspirao, os inimigos, pois quando viesse um novo dia e 
o sol, estaria salvo, a 
vida ia ser como antes e ele descobriria que todo aquele horror
734
no passara dum pesadelo... Mas como podia evitar a furna se no 
cessavam de bater-lhe nas paredes do crnio, se ele j era a furna 
do Jarau, um tal de Blau Nunes 
em busca da Salamanca oh! no batam pelo amor de Deus no batam nas 
paredes da furna estou com febre chamem o dr. Matias o dr. Carbone o dr. 
Taboca o dr. Tabocarbone 
Tabocarbonato estou suando sangue, me mordeu a cobra, suando sangue 
vermelho rosas sangue sepultura de Toni eu sou a sepultura de Toni 
est dentro de mim enterrada 
em mim mas no batam no batam que di muito sou um tal de Blau 
Nunes e s peo que no batam no batam no batam ai! no 
enterrem Toni esperem esperem esperem eu 
que chegue ela est viva no enterrem Toni viva vai morrer sufocada 
no enterrem bandidos no batam esperem no enterrem viva no 
batam no batam no enterrem s eu 
sei ela est viva um engano est viva enterrar  um crime esperem 
mas no batam no batam no batam...
735
Uma vela pr Negrinho
Floriano Cambar caminhava pela alia central do cemitrio, 
quela hora da tarde completamente deserto. Fazia poucos dias que 
chegara a Santa F, aps uma ausncia 
de quatro anos, trs dos quais passara nos Estados Unidos. E agora, a 
espiar distraidamente para dentro dos jazigos perptuos - o dos 
Amarais, o dos Macedos, o dos
Fagundes - tratava de descobrir as razes da estranha fascinao 
que aquele lugar exercia sobre seu esprito. Durante sua estada no 
estrangeiro, as imagens que com 
mais freqncia lhe vinham  mente eram a daquele cemitrio, a 
da matriz e a da casa onde nascera. Um dia, observando os movimentos dos 
patinadores na pista de gelo 
da Rockefeller Plaza, surpreendera-se a pensar naqueles mausolus e 
sepulturas, mas com tal intensidade, que chegara a ver mincias que 
julgava ignorar por completo: 
a racha em forma de forquilha no velho tmulo do padre Romano; a letra 
quebrada no fronto do jazigo dos Teixeiras; a mancha escura a lembrar 
uma tartaruga, na fachada 
da capela... Doutra feita, na pera de San Francisco da Califrnia, 
ouvindo Jascha Heifetz interpretar Brahnns, sentira-se inexplicavelmente 
levado pela melodia 
de volta  casa paterna; durante os quatro movimentos da sonata ficara 
a vaguear como uma assombrao pelas salas do Sobrado, revendo seus 
moradores vivos e mortos, 
apalpando os mveis, aspirando os cheiros - e cada canto, cada pessoa, 
cada coisa lhe evocara cenas da infncia e da adolescncia. Mais 
tarde, quando caminhava por 
uma rua de Cingapura dentro dum estdio de Hollywood, viera-lhe de 
sbito  lembrana a matriz de Santa F: a fachada, o interior, 
a pia encardida, a corda do sino, 
o olor de incenso, as faces dos santos, as velas dos altares... Era, 
porm, o cemitrio de sua terra
737
natal o espectro que com mais assiduidade lhe assombrava a memria. 
Pensara nele num dia trrido e mido, ao burlequear pelas ruas de 
Panam City, enquanto esperava 
o barco que o devia levar a Valparaso; e certa noite em que, da 
amurada do vapor, olhava para as luzes de Antofagasta; e ainda no 
momento em que o empregado dum 
drugstore de Los Angeles, rapaz louro de olhos verdes e vazios, lhe 
servia um caf. Repetidas vezes, em terras e hotis remotos, andara 
a caminhar em sonhos por 
entre aqueles tmulos. Era por tudo isso que ali estava agora, 
tratando de comparar a coisa real com as imagens dela recordadas e 
sonhadas.
Havia naquele cemitrio duas sepulturas em torno das quais a 
imaginao popular tecera lendas. Uma delas - a do velho Srgio
ficava na parte pobre e era procurada por gente de cor, devota
da macumba, e que ao fazer suas promessas, depositava ao redor da 
carunchada cruz de madeira fumo e fsforos para o cachimbo do negro 
velho, galinhas mortas para 
o lobisomem e velas acesas em inteno  alma do defunto. A outra 
ficava ao lado da capela, perto dos grandes jazigos, e consistia numa 
lpide cinzenta, com a inscrio 
j meio apagada por baixo duma cruz em alto-relevo. Seus devotos, em 
geral gente branca e moa, acreditavam em que a alma da criatura cujo 
corpo ali jazia, tinha 
o dom de obrar milagres como os de Santo Antnio. Solteirona que 
quisesse casar, mulher casada que desejasse recuperar a afeio do 
marido, enfim, quem quer que 
tivesse um problema sentimental a resolver, vinha rezar e fazer suas 
promessas ao p daquela lpide, sobre a qual acendia velas e depunha 
flores. Floriano leu a 
inscrio.
ANTNIA WEBER
(TONI)
1895-1915
Talvez ali estivesse o ponto de partida de seu prximo romance... O 
autor visita o cemitrio de sua terra e fica particularmente 
interessado numa sepultura singela 
a que a superstio popular atribui poderes milagrosos. Vem-lhe 
ento o desejo de, atravs da magia
da fico, trazer de volta  vida aquela morta obscura. Desce para 
a cidade, sai  procura de seus mais antigos moradores, e a cada um 
deles faz esta pergunta: "Quem 
foi Antnia Weber?" Alguns nada sabem. Outros contam o pouco de que se 
lembram. Um teuto-brasileiro sessento (Floriano comeava a 
visualizar as personagens, a inventar 
a intriga) ao ouvir o nome da defunta fica perturbado e fecha-se num 
mutismo ressentido. "Aqui h drama" - reflete o escritor: "Este homem 
talvez tenha amado Antnia 
Weber..." Ao cabo de vrias tentativas frustradas para faz-lo 
falar, consegue arrancar dele uma histria fragmentada e cheia de 
reticncias, cujas lacunas, entretanto, 
o novelista vai preenchendo com trechos de depoimentos de terceiros. Por 
fim, de posse de muitas peas do quebra-cabea, pe-se a arm-lo 
e o resultado  o romance 
duma tal Antnia Weber, natural de Hanver, e que emigrou com os 
pais para o Brasil, vindo a estabelecer-se em Santa F, onde...
Mal qual! - exclamou Floriano, parando  sombra dum pltano e 
passando o leno pela testa mida de suor. Ia cair de novo nos 
alapes que seu temperamento e suas 
limitaes lhe armavam. Os melhores crticos literrios do 
pas no negavam mrito a seus romances, mas eram unnimes em 
afirmar que em suas histrias faltava o 
cheiro de suor humano e de terra. Achavam que, quanto  forma, eram 
bem escritas e tecnicamente aceitveis; quanto ao contedo, porm, 
tendiam mais para o artifcio 
que para a arte, fugindo sempre ao drama essencial do homem. Pouco lhe 
importaria o que pensassem os crticos se ele prprio no 
estivesse de acordo com essas restries. 
No podia nem queria iludir-se a si mesmo. Os trs romances que 
publicara no o satisfaziam. Quando os relia era com a impresso de 
beber um vinho feito sem uva, 
apenas com essncias, anilinas e muita habilidade qumica. Chegara 
 concluso de que, embora a percia tcnica no devesse ser 
menosprezada, para fazer bom vinho 
era necessrio antes de mais nada ter uvas, e uvas de boa qualidade. 
No caso do romance a uva era o tema - o tema legtimo, isto , algo 
que o autor pelo menos tivesse 
sentido se no propriamente vivido. Floriano no achava que a 
histria da desconhecida da sepultura de pedra fosse pura uva. De 
resto, qualquer drama individual, 
por mais terrvel que fosse,
738
739
empalideceria quando comparado com a tragdia coletiva que o mundo 
acabava de presenciar. A humanidade emergia da mais sangrenta e cruel 
das guerras. Nomes como 
Coventry, Rotterdam, Lidice, Hiroshima, Buchenwald e Dachau haviam de 
ficar na Histria como negros marcos a evocar horrores nunca antes 
imaginados pelo mais doentio 
dos crebros.
Comeou a andar lentamente rumo do porto do cemitrio. Havia 
pouco, num artigo que no chegara a publicar nem mesmo a terminar, 
esboara um paralelo entre o horror 
antigo e o horror moderno. O antigo era o das histrias que a velha 
Laurinda costumava contar em torno de casas assombradas, cemitrios 
noturnos, bruxas e almas 
do outro mundo. Era tambm o horror gtico dos contos de Pe, 
Hoffmann e Villiers de l'Isle-Adam: o corao humano a pulsar de 
medo em face da Morte e do Desconhecido. 
O horror moderno era o pavor da Vida e do Conhecido, o horror social 
causado pela violncia e crueldade do homem contra o homem.
Depois da Primeira Guerra Mundial o medo da fome, do desemprego, da 
misria e o medo do prprio medo haviam preparado o caminho para o 
Estado Totalitrio. Este por 
sua vez industrializara e racionalizara o medo a fim de fortalecer-se, 
sobreviver e ampliar suas conquistas geogrficas e psicolgicas. Com 
a colaborao da cincia, 
da arte e da literatura convenientemente dirigidas, criara o Horror 
Moderno, cujos aspectos mais dramticos eram o mito do Estado e do 
Lder; os ministrios de propaganda; 
a polcia secreta com seus refinados mtodos de tortura; a 
militarizao da infncia e da juventude; os campos de 
concentrao; as tropas de assalto; o orgulho racial; 
a exaltao fantica do nacionalismo e a glorificao da 
guerra como o esporte dos povos msculos. O Estado Totalitrio 
elevara a delao  categoria de virtude 
cvica. Seu mais monstruoso feito, >orm - e essa proeza 
ultrapassava o sonho mais alucinante dos alquimistas da Antiguidade -, 
fora o de transformar a pessoa humana 
num mero nmero, o que tornara possvel encarar o massacre de 
milhes de homens e mulheres como uma simples operao de 
aritmtica elementar. O Deus Estado subvertera 
os Mandamentos: "Denuncia teu pai e tua me se eles mur-
740
murarem o que quer que seja contra o Estado". - "Matars com alegria 
sempre que isso for necessrio aos interesses do Partido." - "Dars 
falso testemunho contra 
teu prximo, se essa mentira puder ser til  Causa."
O pior de tudo  que o Horror Moderno, sob seus mltiplos e 
sedutores disfarces, exercia poderoso fascnio sobre a juventude. 
"Deixai vir a mim os pequeninos"- dizia 
o Chefe - "que eu os transformarei em robots para servirem o Estado." O 
Horror Moderno oferecia aos jovens, mquinas e armas vertiginosas e 
mortferas. Era um belo 
horror de formas aerodinmicas que lhes proporcionava uniformes, 
bandeiras, hinos, tambores, clarins, paradas
- um horror organizado, eficiente, metlico, mecnico, simtrico e 
rtmico. Preconizava os mtodos e a moral do gangster, glorificava a 
violncia, libertava, enfim, 
o animal de presa que dorme no fundo de cada menino. Oferecia aos 
moos um Pai na figura do Fiihrer, do Duce, do Lder e, se por um 
lado exigia deles uma disciplina 
de ao e uma obedincia cega, por outro, sempre que lhes dava a 
oportunidade de usar as mquinas e as armas em competies 
esportivas, expurgos, pogroms, torturas 
e expedies punitivas, propiciava-lhes como prmio a suprema 
volpia de se sentirem temidos e de se afirmarem por meio da 
brutalidade e da destruio. Ningum simbolizara 
melhor os efeitos do Horror Moderno no esprito da juventude do que 
Vittorio Mussolini ao afirmar que para ele a coisa mais bela do mundo 
era ver abrirem-se como 
rosas de fogo as bombas que de seu avio deixava cair em solo 
africano, reduzindo os abissnios a pedaos.
Adulterando a Histria, a biologia, a sociologia, a antropologia e a 
filosofia, de acordo com os interesses da Causa, o Estado Totalitrio 
pretendera reduzir a sabedoria 
dos sculos a um punhado de axiomas, frmulas e gritos de guerra que 
seus jovens robots repetiam com feroz orgulho, contentes por se verem 
livres da dura e fastidiosa 
tarefa de ficarem debruados durante anos e anos sobre os livros. 
Abaixo as universidades! Morte aos cientistas, filsofos e artistas 
cujas obras no sirvam os objetivos 
do Partido!
Fazia poucos meses que terminara a Segunda Guerra Mundial
- o apogeu do Horror Moderno - e j se podia ver que a desejada
741
paz no passava duma trgua. Falava-se abertamente na Terceira
Guerra. No entanto fumegavam ainda os fornos de Oswiecim e Birkenau, nos 
quais haviam sido cremados 
os cadveres de cinco milhes de seres humanos assassinados e 
torturados em campos de concentrao e prises, onde milhares 
deles tinham servido como cobaias para 
as mais cruis experincias pseudocientficas. Em vrios pontos 
do globo continuavam ainda muitos desses sinistros campos, onde se 
amontoavam numa promiscuidade 
animal homens, mulheres e crianas sem lar, sem ptria e sem 
esperana.
E agora a todos esses horrores juntara-se o Horror Atmico. No dia 6 
de agosto de 1945 nascera para a humanidade um novo deus tremendo: a 
Bomba. Por entre os escombros 
de Hiroshima vagueava uma populao de fantasmas. Eram os 
sobreviventes da Exploso: criaturas em cujos corpos a radiao 
fizera brotar estranhas flores purulentas, 
nas mais horrveis ulceraes; seres humanos imbecilizados pelo 
choque, trmulos de febre, os cabelos a carem, as gengivas a 
sangrarem - chamuscados, deformados, 
esterilizados, medonhos...
O Estado Totalitrio desintegrara a personalidade humana. Os fsicos 
desintegraram o tomo. Uma terceira guerra desintegraria o mundo. Mas 
talvez - refletiu Floriano 
- o mundo no passasse dum nmero nos arquivos de Deus.
Parou  porta do jazigo perptuo de sua famlia e espiou para 
dentro. L estavam, sobre o mrmore do altar, os retratos de alguns 
de seus antepassados. Aquela gente 
havia conhecido pocas mais tranqilas, mas ele no a invejava; 
estavam todos mortos. E se tua ressurreio depender de mim, Toni 
Weber, continuars defunta e esquecida. 
Talvez seja melhor assim... Descansa em paz, e adeus!
Ps-se a assobiar uma frase do andantino do quarteto de Debussy. 
Pensou no irmo, que detestava Debussy e com ele todos os "msicos 
reacionrios". Floriano sorria, 
enquanto a voz de Eduardo lhe soava na memria:
"O mal de vocs intelectuais apolticos  no quererem enxergar 
os dramas da vida real e ficarem a criar personagens e problemas 
imaginrios. Fazem tudo para fugir 
 realidade, porque no dia em que encarassem de frente e a srio o 
drama social, seriam obrigados
742
pela prpria conscincia a tomar uma posio de combate, e se 
fizessem isso com honestidade, essa posio s poderia ser a da 
extrema esquerda, com o comunismo, 
o que fatalmente os arrancaria do comodismo, da criminosa e covarde 
indiferena em que vivem".
Floriano lembrava-se do apaixonado fervor, to tpico dum Cambar, 
com que Eduardo lhe pregara aquele sermo.
"Para meu gosto, Proust  o mais repelente de todos os escritores 
burgueses. Proust  tpico. Tinha dinheiro e vagares para ficar 
enrolado num xale a reconstituir 
a infncia perdida, os chs com as titias, os pequenos nadas da vida 
burguesa, enfim, o seu universozinho protegido e ridculo em cujo 
centro estava o seu euzinho 
asmtico, egosta e efeminado."
(Antes de descobrir Karl Marx, Eduardo adorava Proust, e a fria com 
que agora procurava arras-lo como escritor e como homem talvez fosse 
uma prova de que ele ainda 
no se havia libertado por completo da fascinao que tinha
recherche du temps perdu exercera sobre seu esprito.)
"Na minha opinio, Proust  o padroeiro dos escritores dgags 
como tu, Floriano. E foram esses intelectuais chamados puros, que se 
compraziam em estreis jogos 
de idia e paradoxos, num cerebralismo doentio que os afastava do povo 
e da prpria vida, foram esses onanistas da literatura que direta ou 
indiretamente abriram 
as portas de Paris ao invasor nazista. E est claro que o 
colaboracionismo era a nica atitude que se podia esperar duma 
burguesia apodrecida como a francesa, que 
preferia levar pontaps no traseiro a perder seu rico dinheirinho!"
Floriano continuou a andar. Procurava no levar Eduardo muito a 
srio, mas a verdade  que o rapaz o perturbava, no porque ele 
temesse acabar convertido  sua ideologia, 
mas porque sempre ficava impressionado e meio perplexo ante o 
espetculo da f - f no que quer que fosse, em Deus, no 
espiritismo, em Krishnamurti, no esperanto, 
em Stlin ou em Antnio Conselheiro.
Entrou no automvel que o esperava do lado de fora.
- Divertiu-se? - sorriu o chofer.
743
- Muito.
- Pois eu no gosto de entrar em cemitrio. Quem no  visto 
no  lembrado.
O carro ps-se em movimento, descendo a encosta da coxilha, na 
direo da cidade. Floriano lanou o olhar para o casario raso e 
pardacento do Purgatrio, que se 
estendia ao tpido sol daquele fim de tarde. Ainda l estavam as 
srdidas malocas com sua populao de marginais, bem como nos 
tempos de sua infncia. Nada parecia 
ter mudado. Santa F tinha agora um aeroclube, uma estao de 
rdio, as ruas centrais pavimentadas de paraleleppedos, mas a 
misria do Barro Preto, do Purgatrio 
e da Sibria continuava.
- Que ser que vo fazer com o Velho? - perguntou o chofer.
- Que velho?
- O dr. Getlio.
- Ali! No sei... Talvez deixem o homem em paz em Santos Reis.
- Eles que no mexam com o presidente, porque o povo  capaz de 
fazer uma revoluo.
Dentro em breve o automvel deixou as poeirentas ruas de terra batida 
para entrar na zona calada de pedra. O chofer tornou a falar.
- Mas um dia ele volta. Pode demorar um ano, dois, quatro... mas o Velho 
volta e essa corja toda ainda vai beijar a mo-dele.
Ali estava outro caso de f - refletiu Floriano. Inclinou-se para a 
frente. - Me deixe na frente do clube.
Poucos minutos depois o carro estacou. Floriano pagou a corrida e apeou. 
Um homem que estava parado  frente do Comercial, avanou para ele.
- Don Pepe! Ento, como vai essa vida?
- Mal, homem, mui mal. Bamos a tomar algo. , Puxou Floriano para dentro 
do Caf Minuano.
- Me pagars uma cerveja.
- Com prazer, don Pepe, com prazer.
- Garom! Eh!, animal! Duas cervejas e dois copos. Sentaram-se a uma 
mesa.
744
- Uma s. Para mim, gua mineral. O espanhol lanou-lhe um olhar 
torvo.
- Degenerado!
Floriano sorriu. O castelhano mirava-o agora com tamanha intensidade que 
ele comeou a ficar embaraado.
- Por que  que ests me olhando desse jeito?
-  sorprendente, menino.
- Que  que  surpreendente?
- Como s parecido com o teu pap!
- Dizem.
- Dizem nada, cofio! Don Pepe Garcia, artista plstico, autor do 
Retrato te assegura que s a imagem viva de teu pap na tua idade, 
caramba!
Vieram as bebidas. O pintor encheu o copo e tomou um largo trago. 
Depois, lambendo os bigodes, resmungou:
- Mas o parecido  s no fsico, sabes? Te falta algo. Fogo. O 
fogo que o Velho tem no olhar. - Bateu no prprio peito. -  fogo 
ac dentro, ests ouvindo? Pero 
no s culpado. As generaciones novas no tm fibra. Est tudo 
podrido. Hoje so feitos de matria plstica e tm coca-cola nas 
veias.  a maldita influncia yankee. 
Me cago em Truman!
Floriano sorriu, pensando nos fuzileiros navais americanos que haviam 
tomado Iwo Jima e plantado sua bandeira no alto do monte Surabachi.
- Ests rindo... Pensas que me podes comprar elogios com uma cerveja 
ou duas ou trs? Ests enganado. Don Pepe tem opinio,  dos 
antigos, sabes? Tem carter. No 
vi ainda teu pai. No quero ver. Mas se me encontrar com ele, vou 
dizer-lhe na cara: Traidor!
Floriano bebeu um gole d'gua, sem tirar os olhos do interlocutor.
- Por qu?
- Porque sim. Fomos trados. Eu e o outro, o Rodrigo do Retrato.
Tornou a encher o copo e a beber.
745
- Garom! Outra cerveja. Pagars, Florianito, pagars. s um 
membro da aristocracia rural decadente. Teus antepassados foram 
gigols das vacas. Mas os dias de tua 
classe esto contados. Pagars mais uma cerveja para este velho 
borracho que tem alma de artista e corpo de bestia.
Ficou a olhar para a porta do caf com uma expresso vazia.
- Me lembro mui bem de quando estava pintando o Retrato. Teu pap era 
um prncipe, um triunfador, o favorito dos deuses. Hoje... puf! 
Corao escangalhado, don Getlio 
deposto, o futuro incerto, una mierda! Te pregunto: que fez ele de sua 
mocidade? Eh? Est todo perdido, pro no tens culpa, s um bom 
muchacho. Salud!
Ergueu o copo. O garom ps sobre a mesa outra garrafa de cerveja.
- He visto Eduardo.
- Sim?
- Aquele tem fogo nos olhos, no peito, como don Rodrigo. Aquele  um 
homem inteiro. Pro  um stalinista, el imbecil! Nosotros los 
anarquistas no toleramos o comunismo. 
Te acordas do que fizeram os comunistas a los anarquistas em Barcelona 
durante a guerra civil? Atiraram contra nosotros, los traidores! Pro 
Eduardo  um muchacho 
de coragem. Tiene caracu. Salud!
Tornou a erguer o copo e a beber. Ficou depois com os cotovelos fincados 
na mesa, as mos segurando as faces, e uma ternura alcolica nos 
olhos lacrimejantes e avermelhados.
Floriano chamou o garom, pagou a despesa e ergueu-se.
- Vais me dar licena, don Pepe...
- No queres ser vijto numa mesa de caf com o bomio, o borracho, 
o anarquista, o renegado, no?
- No  isso. Tenho de voltar para casa...
- Est bem. Vai. Mas m'empresta cincoenta. Floriano deu-lhe o 
dinheiro.
- Um dia te farei o Retrato, sabes? Segunda edio de Rodrigo 
Cambar, verso moderna. Te pintarei em aquarela porque no tienes 
sangre nas veias, mas gua mineral. 
Tu e toda tua ge-
746
neracin, menos Eduardo. Pro esse chico  um idiota, sigue aquele 
perro de Stlin...
- Est bem. At logo!
Apertou a mo do espanhol e se foi. J na calada ainda ouviu a 
voz do outro: Salud!
Sentou-se num banco da praa debaixo da figueira, e ficou olhando para 
o Sobrado. A idia de voltar para casa no lhe era nada 
tranquilizadora. Desde que chegara, 
sentia l dentro uma atmosfera equvoca, feita de temores e 
ressentimentos maldisfarados, de antagonismos que a qualquer minuto 
podiam explodir em conflitos. Aquela 
inesperada reunio de famlia, precipitada pela queda de Getlio 
Vargas, s servia para provar o de que havia muito ele, Floriano, 
desconfiava: o Rio em quinze anos 
havia desintegrado o cl dos Cambars e tudo indicava que Santa F 
no conseguiria uni-lo outra vez.
A situao fascinava o contador de histrias que havia em 
Floriano, mas como homem e personagem daquela comdia de erros, ele 
no podia deixar de sentir uma certa 
inquietao e um desconcertante mal-estar.
Seu pai l estava no quarto, estendido numa cama, convalescendo da 
terceira crise de infarto, proibido de fumar e fazer qualquer excesso - 
ele, o homem dos excessos! 
-, imobilizado num repouso de esttua. Floriano sabia o que isso 
significava para uma criatura apaixonada e turbulenta como Rodrigo 
Cambar. Ainda aquela manh o 
velho lhe dissera com uma falsa resignao: "Sou como um homem 
irremediavelmente preso dentro duma casa em cujo poro algum deixou 
uma bomba de relgio para explodir 
numa certa hora... Ele no sabe quando vai se dar a exploso, se 
dali a dois minutos, dois dias, dois meses ou dois anos. S sabe que 
est condenado". E, com um 
sorriso tristonho, acrescentara: "Acho que vou ser o primeiro Cambar 
macho a morrer na cama".
Raramente, porm, se entregava a essa veia melanclica. Seu estado 
de esprito mais comum era o duma exasperada impacincia. Queria 
fumar, comer mais, beber vinho, 
deixar a cama... Havia momentos em que sua irritao era tamanha, 
que, para desabafar,
747
punha-se a murmurar nomes feios numa surdina explosiva. Os horrores que 
dizia dos militares que haviam obrigado Vargas a deixar o governo! Sua 
raiva parecia concentrar-se 
principalmente no general Rubim Veloso. "Canalha! Traidor! Fascista!" - 
exclamara o velho certa manh, enquanto o Neco Rosa lhe fazia a barba. 
- "Ainda na vspera 
do golpe jantou comigo e no me disse nada. Tu te lembras da bisca do 
Rubim, no, Neco? Vivia aqui no Sobrado nos seus tempos de tenente. 
Pois o Getlio fez por 
esse sargento mal-agradecido o que muito pai no faz pelo filho, e 
no entanto o crpula cuspiu na mo que o amparou! Quando os nazistas 
estavam ganhando a guerra, 
o Rubim volta e meia ia beber usque e champanha na embaixada alem. 
Recebeu uma comenda do Mussolini e vivia conspirando com o Plnio 
Salgado. No entanto, quando 
a sorte do Hitler mudou, o cachorro virou democrata e s faltou lamber 
as botinas do Roosevelt!"
O dr. Dante Camerino entrara certa vez no quarto por ocasio duma 
dessas exploses. "Fique quieto pelo amor de Deus. Olhe que assim 
vamos para um novo ataque." O 
velho soergueu-se: "Que me importa? Que arrebente duma vez este 
corao. O que eu quero  fumar um cigarro e levantar desta 
maldita cama!"
As relaes de Rodrigo Cambar com o filho mais moo andavam 
tensas. O terceiro ataque sobreviera aps uma altercao que ele 
tivera com Eduardo ao discutirem as 
personalidades de Vargas e Prestes. Floriano ficara abismado ante a 
frieza com que o irmo encarara o fato. O pai ainda no estava fora 
de perigo de vida e o rapaz 
j andava na rua a ultimar os preparativos para o comcio comunista 
do dia seguinte. Floriano chamara-o  parte.
- Por que no esperas mais uns dois ou trs dias pra fazer esse 
comcio? O velho no est nada bem...
- Uma coisa nada tem a ver com a outra.
- Para mim tem.
-  que raciocinas ainda sob a influncia dum sentimentalismo 
pequeno-burgus do qual h muito me libertei.
- Faz ao menos esse comcio na outra praa...
- Vai ser na frente do Sobrado, e com alto-falante. Se o velho no 
quiser escutar, que tape os ouvidos com algodo.
748
Eduardo entregava-se  luta poltica com a mesma paixo, o mesmo 
mpeto agressivo com que o pai se metera em todas as suas campanhas 
eleitorais e revolues. Tinha 
o zelo exagerado e o ardor incendirio dum cristo-novo. Floriano 
compreendia que o irmo precisava dar aos seus camaradas provas de 
sinceridade e firmeza partidrias, 
pois sua situao de filho dum burgus latifundirio como que 
lhe criara um complexo de inferioridade perante os outros comunistas.
Como era possvel que trs irmos tivessem temperamentos to 
diferentes? Jango era o homem da terra, conservador, tradicionalista, 
apegado a seus bens. Tinha um 
sagrado horror a tudo quanto cheirasse a esquerdismo. Enquanto Eduardo 
agitava o problema agrrio, pregando a diviso das terras entre os 
camponeses e a liquidao 
do latifndio, Jango tratava no s de conservar o que possua 
como tambm de adquirir mais campos e mais gado. Era um homem simples 
e bom, mas duma secura destituda 
de qualquer encanto ou pitoresco. No lhe entrava na cabea a 
idia de que os tempos haviam mudado e de que a sociedade estava em 
processo de transformao. Queria 
a continuao do statu quo dentro do qual fora educado e que era 
to conveniente a seus interesses e afeies.
Floriano inclinou o busto para a frente e, com a ponta dum pau de 
fsforo, riscou no cho uma circunferncia.
Se Eduardo, Jango e ele fossem dar como nufragos s praias duma 
ilha deserta, em companhia dum punhado de outras criaturas, era bem 
possvel que Jango dentro em 
breve fosse eleito chefe da colnia. Homem slido e prtico, tinha 
o hbito do mando, sabia lidar com a terra e fazer coisas com as 
mos; conhecia os ventos, as 
rvores, os bichos e as gentes. Dentro em pouco seria o membro mais 
rico da colnia, o que teria a melhor casa, a mesa mais farta, o maior 
nmero de bens mveis 
e imveis. Quanto a Eduardo, no tardaria muito em organizar um 
partido de oposio, e era provvel que acabasse encabeando um 
movimento revolucionrio para tomar 
o governo pela fora e estabelecer uma ditadura em nome do 
proletariado.
749
E eu? (Sempre inclinado, Floriano agora traava no cho o mapa da 
ilha.) Eu talvez permanecesse na minha famosa eqidistncia, a 
escrever a biografia dos dois lderes 
e a crnica da ilha. Isso se Eduardo ao tomar o poder no me botasse 
na cadeia ou mandasse matar, coisa que o prprio Jango j poderia 
ter feito antes por "meios 
legais", caso meus escritos entrassem em conflito com os "superiores 
interesses da comunidade", que ele naturalmente identificaria com os 
seus prprios.
Sim, aquele era o destino dos intelectuais que queriam conservar a 
independncia, a lucidez e o senso de humor. Eram eternos marginais, 
olhados com desconfiana 
e desamor pelos reacionrios e com desdenhosa m vontade pelos 
revolucionrios.
Mas, no final de contas, que sou eu? Aos trinta e quatro anos ainda 
no encontrara uma resposta satisfatria para cada pergunta. Como o 
velho Babalo, seu av materno, 
Jango tinha ntida tbua de valores morais: acreditava na nobreza do 
trabalho, na hierarquia, no cdigo de honra gacho, e na 
dignificao do homem pelo convvio 
com a terra. Jamais seria capaz de fazer a menor restrio  
pessoa do pai. Parecia aceit-lo integralmente, sem discutir, como 
aceitava a existncia e a perfeio 
de Deus. Talvez nunca lhe passasse pela mente a idia de que o pai e 
Deus fossem entidades suscetveis de exame crtico. Mas Eduardo, em 
quem Maria Valria desde 
pequenino procurara incutir o amor e o temor da Santssima Trindade, 
acabara desiludindo-se dos mitos cristos e substituindo-os por uma 
outra trindade, para ele 
no menos santa: Marx, Lnin e Stlin. E em nome dessas divindades 
ele se atirava  luta e estava disposto a matar e a morrer.
Com a sola do sapato Floriano apagou a ilha.
s vezes invejava a capacidade de paixo do pai. Certo ou errado, o 
Velho vivera com plenitude, tivera a coragem dos prprios defeitos e 
desejos: fora um homem afirmado, 
ao passo que ele, Floriano, sempre se mantivera numa espcie de morna 
surdina, cultivando suas pequenas ternuras, escravo daquele desejo de 
ver claro, de conservar 
a lucidez - uma lucidez que no s lhe criava o horror ao 
ridculo, ao excesso e ao absurdo como tambm o fazia compreender 
que ningum pode viver com plenitude 
e profundidade
750
 sem incorrer no ridculo (coisa, alis, to relativa e 
discutvel), sem cometer excessos ou ver-se a cada passo frente a 
frente com o absurdo. Fizera tbua 
rasa dos valores que sempre haviam norteado a vida de gente como Babalo, 
Licurgo e Maria Valria. Seu horror a qualquer espcie de fanatismo 
no o livrara, entretanto, 
do fanatismo da liberdade. E o desejo de permanecer fsica e 
espiritualmente livre, a fruir com orgulhosa volpia sua solido, 
acabara por transform-lo quase num 
fugitivo da vida e por faz-lo prisioneiro da prpria idia de 
liberdade. Compreendia agora que o preo do equilbrio  a 
monotonia. A preocupao de no se deixar 
envolver pelas pessoas, pelos problemas e pelas paixes havia-o levado 
a uma espcie de quietismo que no fundo no passava da 
contemplao intil e palerma do prprio 
umbigo.
Claro que estava exagerando? As coisas com ele no eram sempre assim. 
A verdade  que no acreditava nem mesmo na prpria descrena.
Tornou a olhar para o Sobrado, a uma de cujas janelas surgia agora um 
vulto. Bibi... Esquecera-se por completo da irm. Era urna omisso 
que ocorria com freqncia 
quando ele fazia aqueles inventrios mentais da famlia. No tinha 
nenhuma afinidade espiritual com a irm. No Rio raramente se viam, e 
quando se encontravam eram 
como pessoas que entretinham apenas relaes de cerimnia: 
falavam-se sem naturalidade, com a polidez apressada de quem quer logo 
dizer adeus e passar adiante.
Bibi era outro caso - refletiu Floriano. Fora para o Rio com dez anos e 
tivera sua educao sentimental a bem dizer sobre as areias de 
Copacabana. Fizera-se adolescente 
e finalmente mulher dentro da Era Getuliana. Casara-se aos dezoito anos 
com um mdico de Minas Gerais, sujeito quieto, decente e estudioso, do 
qual se aborrecera 
e divorciara dentro de dois anos, para se juntar num casamento uruguaio 
com um tal Marcos Sandoval, verdadeira flor do Estado Novo, produto 
daquela fabulosa poca 
de boom, negcios e negociatas fantsticas, daquela era trepidante 
que mudara o curso da vida brasileira, dando-lhe um novo padro moral 
e um novo ritmo. Mas como 
era possvel no gostar do Sandoval? Embora lhe fizesse muitas 
restries no terreno moral (afinal de contas o sangue
751
dos Terras e dos Quadros tinha muita fora), Floriano no podia 
permanecer insensvel aos encantos do "cunhado". Marcos Sandoval 
estava no meio da casa dos trinta. 
Era moreno, de estatura me e atltica (tnis, volibol, 
jiu-jitsu). Simptico, simpaticssimo, tinha uma voz agradvel, de 
entonao carinhosa. "Meu bem, voc est 
com um aspecto admirvel!" - "Que  feito de voc, meu querido? 
Ento no quer mais saber dos amigos?" E l vinham os abraos, e 
os favores, e as pequenas atenes, 
os telefonemas oportunos ("Ento, estamos completando mais um 
aniversrio, hein, meu velho? Pois fica aqui o meu abrao, e conte 
sempre com este seu admirador") 
e as flores para madame, os convites para jantar nos cassinos... Era 
prestimoso, otimista, bem relacionado. Vivaracho, apanhava as coisas no 
ar e tinha uma espantosa 
capacidade de improvisao. Sabia que relaes cultivar e jamais 
gastava dinheiro, energia ou tempo com quem no lhe pudesse ser til 
no momento ou no futuro. Um 
dia, como algum o censurasse por ter servido de intermedirio num 
negcio duvidoso, respondera com um cinismo encantador: "Ora, velhote, 
a tcnica  simples. Criam-se 
legalmente as dificuldades para depois se venderem clandestinamente as 
facilidades".
Sandoval estava agora no Sobrado, desnorteado tambm pela inesperada 
deposio de Getlio Vargas, e decerto a preparar sua adeso ao 
novo governo, ansioso j por 
descobrir quem eram os novos deuses, a fim de apressar-se a queimar 
incenso em seus altares.
Como seria conveniente ao Sandoval! - pensava Floriano - a morte de 
Rodrigo Cambar! Perderia algum tempo ali em Santa F a acompanhar o 
andamento do inventrio, 
exigiria a parte de Bibi em dinheiro e voltaria com ela para o Rio, para 
a vida que ambos tanto adoravam: cocktail-parties, noitadas nos 
cassinos, rodas de pif-paf, 
fins de semana no Quitandinha, viagens ocasionais aos Estados Unidos em 
strato-clippers.
Essa era a situao no Sobrado. E em meio de tantos interesses 
desencontrados e conflitos em estado potencial, estavam agora aquelas 
duas mulheres que Floriano tanto 
amava e respeitava: sua me e Maria Valria. A primeira portava-se 
com uma dignidade comovedora. No tinha iluses quanto ao marido, 
conhecia-lhe todas a
752
fraquezas e pecados, tanto os passados como os presentes, e no 
ignorava nem mesmo a existncia daquela amante de vinte anos... 
Floriano, porm, jamais lhe ouvira 
a menor palavra de queixa ou censura. Quanto a Maria Valria, lcida 
aos oitenta e cinco anos, apesar de seu ar de alheamento das pessoas e 
das coisas, parecia compreender 
muito bem o que se estava passando no velho casaro. Havia pouco, 
Floriano ouvira a Dinda murmurar: "Que bicho ter mordido essa gente? 
Est tudo to esquisito..."
Jango estava para chegar do Angico em companhia da esposa. E ao pensar 
na cunhada, Floriano ficou numa confuso de sentimentos: o temor e ao 
mesmo tempo o desejo 
de rev-la, a curiosidade sobre o que poderia resultar daquele 
encontro, e o horror de imaginar que... Bom, era melhor nem pensar 
naquilo. Fosse como fosse, a presena 
de Slvia naquela casa no ia tornar a coisa mais fcil para ele.
Com um encolher de ombros, ergueu-se e ps-se a caminhar lentamente na 
direo do Sobrado.
Eram quase dez horas da noite e o comcio estava a findar. Sentado 
junto duma janela, Floriano escutava o discurso do irmo, cuja voz, 
que tanto se assemelhava  
do pai no timbre e na entonao, era ampliada e deformada pelo 
alto-falante que se achava preso a um dos galhos mais altos da figueira.
Uma pequena multido, que Floriano calculava em duzentas e poucas 
pessoas, agrupava-se no redondel da praa, em cujo centro estava a 
tribuna que tinha sido ocupada 
primeiro por um operrio e a seguir por um bancrio, um 
comercirio e um advogado, cujos discursos haviam seguido todos a 
mesma linha: exaltao de Prestes, do PC 
Brasileiro, de Stlin e da Unio Sovitica; ataques a Getlio 
Vargas e ao mesmo tempo aos generais que o haviam apeado do governo; 
acenos amistosos para a "burguesia
progressista" e gestos ameaadores, de punhos cerrados, para a Wall 
Street.
A voz vibrante de Eduardo Cambar enchia o largo. Comeara seu 
discurso fazendo um rpido esboo da formao histrica do Rio 
Grande do Sul  luz do marxismo, procurando 
revelar a origem dos latifndios e a do proletariado rural e urbano. 
Agora est3ya a bater com vigor na sua tecla favorita:
753
- Setenta por cento de nossa populao vive no campo, num nvel
de vida miservel! Precisamos resolver com urgncia o problema 
agrrio.  sobre isso que deve legislar 
o Parlamento que vai ser escolhido nas prximas eleies. Mas para 
que esse Parlamento legisle com justia e conhecimento de causa,  
indispensvel que ele seja 
composto no apenas de delegados dos estancieiros e latifundirios, 
como tem acontecido at agora, mas tambm e principalmente de 
representantes do peo, do operrio, 
do comercirio, das verdadeiras expresses do povo! Precisamos 
destruir o cruel e vergonhoso regime semifeudal que nos desgraa e que 
permite a um homem, a uma famlia, 
possuir terras imensas do tamanho de reinos, terras que em pouco ou nada 
aproveitam  coletividade, e nas quais se emprega um escasso nmero 
de pees irrisoriamente 
mal pagos. Como muito bem disse Luiz Carlos Prestes...
Neste ponto o orador foi interrompido pela multido, que comeou a 
gritar num unssono cadenciado: Prstes! Prstes! Prstes!
Quando o clamor cessou, Eduardo prosseguiu:
- Como bem disse o lder do povo, temos terras e mais terras 
abandonadas junto das vias de comunicao, perto das estradas, dos 
meios de escoamento duma produo 
que poderia sair a mos cheias dessas mesmas terras! E no dia em que 
essa gleba for entregue ao povo, veremos aumentar fabulosamente nosso 
mercado interno, para 
maior progresso da nossa indstria!
De novo o orador foi interrompido por aplausos e aclamaes.
Floriano olhou a praa. Pelas caladas passeavam bandos de 
raparigas, como nas noites de retreta. A alguma distncia do redondel, 
de p ou sentados nos bancos, curiosos 
espiavam o comcio, numa atitude de cautelosa neutralidade. E no cu 
de Santa F estavam presentes as mesmas estrelas que cintilavam 
naquela remota noite de 23 em 
que, da sacada do Sobrado, Rodrigo Cambar falara a seus 
correligionrios, concitando-os  revoluo.
- Mas no  s o panorama social do campo como tambm o da 
cidade que nos preocupa, a ns comunistas - continuou Eduardo. - Os 
tubares da indstria e do comrcio 
engordaram durante a guerra com lucros extraordinrios, mas nem por 
isso
proporcionaram vida melhor aos operrios e empregados que 
contriburam com seu trabalho, com o seu suor para esse 
enriquecimento! A misria e a desigualdade continuam. 
No precisamos ir muito longe para encontrar exemplos desse desnvel 
social monstruoso. Comparemos a vida dos que gozam o luxo e os 
privilgios dos sobrados com 
a daqueles que vegetam na indigncia das malocas da Sibria!
Novas aclamaes encheram o largo.
- Mas a burguesia reacionria, meus compatriotas e camaradas, est 
condenada  morte! Se eu tivesse de escolher um smbolo de todos os 
defeitos e vcios dessa classe 
decadente, eu vos apresentaria a figura dum desses pr-homens do 
falecido Estado Novo, dum egosta que, em virtude de sua vida de 
dissipaes, orgias e indulgncias 
tivesse ficado com o corao irremediavelmente abalado e  beira 
da morte!
Floriano sentiu um choque desagradvel. Aquilo era uma referncia 
clara ao velho Rodrigo. Como podia Eduardo ficar to cego de paixo 
poltica a ponto de gritar 
aquelas coisas em praa pblica? E o pior era que com toda a certeza 
o pai estava a escut-lo.
- Ns os comunistas - gritava o orador - somos o sangue novo que vai 
revigorar o corao do Brasil, fazendo que ele se fortalea e 
pulse normalmente, levando o organismo 
da nao a uma perfeita sade social. A vs liberais, democratas 
e progressistas, ns os comunistas estendemos fraternalmente a mo 
convidando-vos a colaborar conosco 
na grande obra da recuperao de nossos marginais e da 
libertao do Brasil das garras dos banqueiros internacionais e do 
capital estrangeiro colonizador. Vinde 
e marchai conosco, porque ns somos a esperana do mundo!
Por entre palmas frenticas, de novo rompeu o coro. Prstes! 
Prstes! Prstes! Prstes!
Quando, pouco depois das onze, Eduardo voltou para casa, Floriano 
esperava-o na sala de visitas.
- Ouvi o teu discurso.
- Ah...
sim:
754
755
Eduardo pareceu pouco interessado na informao. Afrouxou o n da 
gravata, sentou-se e acendeu um cigarro.
- Assisti ao comcio sentado ali perto da janela...
-  uma posio que bem simboliza tua atitude diante dos problemas 
sociais. Sentado  janela do Sobrado, com a cabea para fora e o 
corpo para dentro... Com a cabea, 
com a inteligncia compreendes que o sistema econmico e poltico 
em que vivemos  errado, est podre e deve ser destrudo. Mas com 
o corpo ests escravizado aos 
confortos e molezas da vida burguesa, cujos hbitos e vcios tens no 
sangue, nos ossos. Teu comodismo te impede de ir para a praa 
pblica como um soldado da Revoluo.
Floriano ergueu-se, enfiou as mos nos bolsos e comeou a andar dum 
lado para outro, assobiando baixinho um trecho de Mozart.
- Mas uma coisa te garanto - continuou o outro. Os burgueses te olham 
com desconfiana por causa de teus namoros com o socialismo. Os 
comunistas te desprezam por 
acharem absurda e covarde a tua neutralidade.
Floriano soltou uma risada. Eduardo lanou-lhe um olhar carregado de 
censura.
- Ests rindo, no?  a velha atitude do intelectual blas e 
cnico.  Prspero rindo da vitria de Caliban. Vocs riam 
quando Hitler ameaava o mundo. Riam e ficavam 
indiferentes. Pois os escritores que cruzaram os braos diante do 
nazismo so to culpados quanto os que colaboraram abertamente com 
ele!
Floriano deu de ombros.
- Pelo menos eu tenho a liberdade de rir ou ficar srio - retrucou. - 
Conservo o direito de exercer o meu senso de humor. Um comunista no 
pode achar graa em coisa 
alguma sem antes indagar qual  a linha do Partido. No tem 
licena de gostar ou no gostar dum partido, dum livro, dum quadro 
duma sinfonia sem primeiro consultar 
o comissrio.
- No digas asneiras. Vocs escritores pequeno-burgueses iludem-se, 
julgando que tm liberdade, mas a verdade  que so pagos para 
divertir a plutocracia, como palhaos, 
e para entorpecer o povo com o pio duma literatura cor-de-rosa, sem 
razes na realidade.
756
- Palhaos? Talvez. Mas que sero escritores que seguem sem discutir 
a linha comunista? Na minha opinio no passam de outros tantos 
cachorros de Pvlov. O comissrio 
faz estalar o chicote e provoca neles certos reflexos condicionados que 
os pe a escrever automaticamente, produzindo a literatura que 
convm ao Partido.
- Dizes ter horror a qualquer propaganda e no entanto s o primeiro a 
acreditar nas mentiras da imprensa capitalista e nos depoimentos desses 
Koestlers e Kravchenkos...
E Eduardo entrou a falar mal de Arthur Koestler e dos outros "comunistas 
renegados". Floriano quedou-se a escut-lo sem o menor rancor. Tinha 
uma ternura toda particular 
por aquele irmo mais moo, e se essa afeio no se exprimia 
em gestos e palavras era s porque o outro por assim dizer recusava 
deixar-se querer bem. Depois que 
ele se tomara de paixo pelo comunismo, Floriano fora aos poucos 
perdendo a esperana de poderem reatar a boa camaradagem antiga que 
lhes permitia conversarem despreocupadamente, 
dum ngulo apoltico, sobre pessoas, animais e coisas... Agora 
sempre que se encontravam, Eduardo parecia sentir que era seu dever 
provoc-lo e pregar-lhe sermes 
polticos. E o resultado disso eram geralmente dilogos que soavam 
falso como os duma pea teatral pretensiosa.
- Est bem, Eduardo, est bem. Mas achei que tua referncia ao 
Velho no discurso foi dum mau gosto deplorvel.
- Mau gosto, bom gosto... Isso  terminologia burguesa! Eduardo 
voltou-se para o retrato de Rodrigo Cambar que
pendia da parede da sala, dentro de sua moldura cor de ouro velho.
- Ali est o smbolo das coisas que ns comunistas combatemos. O 
dono da vida, o moo do Sobrado, o morgado, a flor de vrias 
geraes de senhores feudais, muitos 
dos quais comearam como ladres de gado e foram aumentando seu 
patrimnio por meio do saque, do roubo, da conquista  mo armada 
e  custa do suor e do sangue do 
trabalhador rural. Olha s a empfia, a vaidade... Parece que ele 
est dizendo: "Eu sou o centro do mundo, o sal da terra!"
- Fala baixo, sim? O Velho pode estar ouvindo...
O outro, entretanto, continuou no mesmo tom de voz.
757
- No tempo em que esse retrato foi pintado, a questo social era um 
caso de caridade, pretexto para os senhores morgados darem provas de sua 
magnanimidade, de seu 
excelente corao. Mais tarde passou a ser um caso de polcia.
Floriano agora sorria, vendo apontar  cintura de Eduardo, o cabo do 
punhal de prata que, segundo rezava uma tradio oral, acompanhava, 
havia mais de um sculo, 
a famlia Terra, tendo pertencido mais recentemente ao velho 
Florncio e passando depois para as mos inquietas de tio Torbio. 
No fundo - refletiu Floriano -, Eduardo 
tinha um pouco de caudilho, como o pai.
- Eis um liberal  melhor maneira do sculo XIX - prosseguiu o 
comunista, olhando ainda para o Retrato. - Dizia acreditar na 
democracia, adorava os lderes da Revoluo 
Francesa e sabia de cor discursos de Danton e Robespierre...
- Fala baixo, homem!
- Fez demagogia, meteu-se em revolues em nome dos oprimidos contra 
a tirania, a ditadura e a desonestidade administrativa. Um dia saiu de 
Santa F com um punhado 
de outros "centauros do pampa" decidido a regenerar a Repblica. 
Amarrou seu cavalo no obelisco da avenida Rio Branco e tornou-se um 
figuro do Estado Novo...
No fim de contas - filosofava Floriano olhando para o irmo
- o povo andava sempre em busca dum pai. No Brasil imperial, Pedro II, 
barbudo e bondoso, preenchera suas funes paternais  maravilha. 
O Estado Novo produzira 
o Pai dos Pobres. Na Rssia czarista o povo chamava Paizinho a Nicolau 
II, que os bolchevistas acabaram depondo e fuzilando. No fundo, o 
comunismo talvez no passasse 
duma revolta contra o Pai. Joozinho e Ritinha rebelavamse contra o 
pai que, sem meios para prover-lhes a subsistncia, os abandonara  
fome e s feras em meio da 
floresta. Mas a busca do pai assim mesmo continuava. Stlin era agora 
considerado o Pai do Proletariado. E em nome daquele pai georgiano, 
simblico e remoto, Eduardo 
renegava o pai legtimo.
- No sejas to esquemtico - disse Floriano em voz alta.
- Vocs comunistas querem saltar impunemente por cima da biologia. Na 
minha opinio esse  tambm o erro do catolicismo.
758
Segundo a Igreja, o dr. Rodrigo Cambar est condenado ao inferno 
porque pecou contra os mandamentos. De acordo com o marxismo, o Velho 
est desgraado porque pecou 
contra o proletariado. Mas eu me recuso a aceitar esses veredictos, 
tanto o de Roma como o de Moscou.
- Essa indulgncia irresponsvel de intelectuais como tu  que tem 
atrasado a Revoluo.
Naquele instante Maria Valria apareceu  porta da sala empunhando 
um castial. A Dinda entrou na Era Atmica com uma vela acesa na 
mo - sorriu Floriano.
- Suba, Eduardo - ordenou a velha. - Seu pai quer falar com voc.
- Por favor, tem cuidado, no excites o Velho. Olha que ele pode ter 
outro ataque...
Sem dizer palavra Eduardo encaminhou-se para a escada. Maria Valria 
fez um sinal para Floriano.
- Vamos l no quintal.
- Fazer o qu, Dinda?
Ela no respondeu. Tomou do brao do afilhado e, lado a lado, 
atravessaram a sala de jantar e a cozinha. Quando desciam vagarosamente 
a escada dos fundos, Floriano 
perguntou:
- O sereno no vai lhe fazer mal?
Maria Valria continuou silenciosa. A chama da vela alumiava-lhe o 
rosto severo e descarnado, de olhos cegados pela catarata. O luar 
prateava as copas do arvoredo. 
Da Estrela-d'Alva vinha um cheiro de po quente.
Fizeram alto perto do marmeleiro-da-ndia. Maria Valria tirou o 
toco de vela do castial, inclinou-se e cravou-o no cho.
- Pra que  isso? - perguntou Floriano.
- Uma promessa pr Negrinho do Pastoreio.
A velha endireitou o corpo e fez com a cabea um sinal na direo 
do Sobrado.
-  pra aquela gente achar o que perdeu.
O AUTOR E SUA OBRA
Nascido em Cruz Alta, em 17 de dezembro de 1905, rico Verssimo
testemunhou a decadncia de sua famlia, que se arruinou no comeo 
do sculo. Ainda jovem, exerceu
diversas profisses: ajudante de comrcio, atendente de farmcia e 
bancrio. Nessa poca, deixava-se impregnar pela melancolia e ironia 
de Machado de Assis, Jonathan
Swifi e Bernard Shaw, seus autores preferidos. Em 1930, depois da 
separao de seus pais, deixou a provncia e foi para Porto 
Alegre. Na capital gacha, colaborou
em suplementos literrios e assumiu a editora da revista "Globo ". Em
1932, estreou na literatura com "Fantoches", um volume de contos em que 
j estava presente a habilidade de quem conhece muito bem os segredos 
do ofcio de escrever.
Em 1933, surgiu seu primeiro romance, "Clarissa ", e dois anos depois 
foi a vez de "Msica ao longe ". No mesmo ano, conquistou o prmio 
Graa Aranha da Academia
Brasileira de Letras com seu terceiro romance, "Caminhos cruzados ".
Em 1937, com o Estado Novo de Getlio Vargas, foi obrigado a 
submeter censura um programa da histrias para crianas que 
mantinha na Rdio Farroupilha. Preferiu
encerr-lo, fazendo um vigoroso discurso em nome da liberdade de 
criao. De 1943 a 1945, viveu nos Estados Unidos, ensinando 
literatura brasileira na Universidade
de Berkley. De volta ao Brasil, em 1948, comeou a elaborao de 
"O continente", a primeira parte de sua obra, "O tempo e o vento ", que 
compreende ainda "O retrato"
(1951) e "O arquiplago" (1954). De 1956, passou nova temporada nos 
Estados Unidos, como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da 
Unio Pan-Americana.
Com sua obra reconhecida pelo pblico, rico Verssimo realizou a
faanha de ser, ao lado de Jorge Amado, um escritor capaz de 
sobreviver somente com seus direitos autorais. Trabalhador metdico, 
costumava escrever em sua casa 
de Porto Alegre, num escritrio que se abria para o jardim, isolado do 
telefone e da algazarra dos netos. Sua obra engloba uma rica diversidade 
temtica, abrangendo 
desde o painel urbano de "Olhai os lrios do campo " (1938) at a 
reflexo histrica de "O tempo e o vento " eafbula 
poltico-social de "Incidente em Antares " 
(1970). Em suas ltimas obras, o escritor adotou uma linha de 
reflexo poltica, dissecando a opressiva e catica situao 
brasileira dos anos do autoritarismo.
Em 1975, s vsperas da publicao do segundo volume de "Solo de 
clarineta", seu livro de memrias, rico Verssimo faleceu, 
deixando uma obra marcada por intensas
preocupaes ticas, assim como por sua coerncia de homem
progressista.
Do autor - que no se considerava um grande inovador, mas um simples
"contador de histrias" -, o Crculo j publicou "O senhor
embaixador", "Um certo capito Rodrigo",
"Incidente em antares", "O Urso-com-Msica-na-Barriga", "O tempo e o
vento", "Clarissa", "Olhai os lrios do campo", "Noite", "Fantoches",
"A vida de Joana D'Are"
e "Saga."
BIBLIOTECA PBLICA DO PARAN
NO DANIFIQUE ESTA ETIQUETA
30 249 57O
_
